poema de Maiakovski 1915

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A NUVEM DE CALÇAS (excerto), de Vladimir Maiakovski (19 de Julho de 1893 – 14 de Abril de 1930).
(…)
Se quiserem,
serei apenas carne louca
e, como o céu, mudarei de tom,
se quiserem,
serei impecavelmente delicado,
não serei homem, mas uma nuvem de calças !
.
Não acredito que haja uma Nice florida !
Hoje de novo canto a glória
dos homens que o pecado fez malignos
e das mulheres gastas como um lugar comum.
(…)
.
Maria ! Maria! Maria!
Abre, Maria !
Não me deixes na rua!
Não queres ?
Esperas
que fique de face bichosa,
provado por todas as mulheres,
insípido,
e venha
e diga, sem dentes,
que hoje
“sou duma castidade espantosa”?
.
Maria,
vês?,
já começo a andar curvado.
.
Pelas ruas
a gente sacode a banha de quatro papadas,
esbugalha os olhos,
gastos por quarenta anos de uso, –
e troca sorrisos,
porque eu levo nos dentes
– outra vez! –
os restos das carícias de ontem.
.
A chuva aborrecia os passeios,
dos charcos compacto ladrão,
molhado, lambendo o cadáver lapidado da rua,
e nas pestanas brancas,
– sim! –
nas pestanas de gelados carambanos,
lágrimas dos olhos
– sim! –
dos olhos baixos dos algerozes.
A chuva encharcando o rosto dos passantes,
enquanto nas carruagens brilhavam nédios atletas:
a gente rebentava
de comer por todos os lados.
e a banha saía-lhe dos poros.
em túrbidos riachos escorria da carruagem
junto com os restos das almôndegas
dos velhos tempos.
.
Maria !
Como havemos de fazer entrar nessa orelha sebosa uma palavra meiga?
A ave
vive de canções,
canta,
faminta e sonora,
mas eu sou homem, Maria,
simples,
na suja mão de Présnaia cuspido uma noite tísica.
Maria, queres-me assim?
Abre, Maria !
Com os dedos crispados apertarei a garganta de ferro da campainha!
.
Maria !
Enfurecem-se os currais das ruas.
No colo ferido os dedos cintos.
.
Abre!
.
Dói!
.
Vês? Tenho os olhos cheios
de alfinetes de chapéus de mulher !
.
Abriu.
.
Querida!
Não te assustes
que no meu costado de louco
haja sentadas mulheres de saias molhadas, –
é uma carga que levo comigo pela vida fora:
milhões de amores puros e enormes
e milhões de milhões de pequenos amores sujos.
Não temas
que de novo
caia na infidelidade habitual,
me atire a milhares de caras bonitas, –
as amantes de Maiakovski
são uma dinastia
de rainhas entronizadas no coração de um louco.
.
Maria, anda cá!
.
Nua e sem pudor,
ou com um tímido tremor,
mas dá-me o encanto dos teus lábios que nunca murcharão:
o meu coração nunca chegou a Maio,
na vida vivida
nunca passou de Abril.
.
Maria!
O poeta canta sonetos a Tiana,
e eu –
todo de carne,
todo humano –
só peço o teu corpo
como os cristãos pedem
“o pão nosso de cada dia
nos dai hoje”.
.
Maria – dá!
.
Maria !
Tenho medo de o teu nome esquecer,
como teme olvidar o poeta
a palavra
nascida no martírio nocturno
grande só como Deus.
.
Teu corpo
cuidarei e amarei,
como o soldado
mutilado na guerra,
inútil
e sem dono,
cuida da única perna.
Maria –
não queres?
Não queres?
.
Ah !
.
Quer dizer que de novo sombria e tristemente
pegarei no coração,
salpicado de lágrimas,
e o levarei
como um cão
que para a casota
arrasta
a pata atropelada.
.
Com sangue do meu coração ficará manchado o caminho
como com flores de fogo lançadas à poeira.
Mil vezes bailará o Sol à volta da Terra
como a filha de Herodes
à volta da cabeça do Baptista.
.
E quando os meus anos
bailem até ao fim –
cobrir-se-á com milhões de gotas de sangue
o caminho até à morada de meu pai.
.
Sairei então
sujo (de dormir nas sarjetas),
e ponho-me a seu lado,
inclino-me
e digo-lhe ao ouvido:
.
– Escuta, senhor Deus !
Como é que não te aborreces
nessa gelatina de nuvens
deitando água todos os dias dos teus olhos bondosos ?
Sabes uma coisa ?
Vamos construir um carrocel
na árvore da sabedoria do Bem e do Mal.
.
Omnipresente, estarás em todos os armários,
e pomos à mesa uns vinhos e tais
que incitem a bailar
o taciturno apóstolo S. Pedro.
E de Ervas encheremos de novo o paraíso:
uma palavra tua, –
e esta mesma noite
pelas ruas juntarei
as mais belas raparigas.
.
Queres?
.
Ou não queres?
.
Abanas a cabeça, cabeludo?
Franzes as sobrancelhas cãs?
Achas
que esse aí
com asas, atrás de ti,
sabe o que é o amor?
.
Eu também sou um anjo, fui
como um cordeiro inocente,
mas fartei-me de dar às éguas
vasos feitos de sofrimento de Sévres.
Todo-poderoso, tu, que inventaste estas mãos,
que deste
uma cabeça a cada um de nós,
porque não decidiste
que sem sofrer
se pudesse beijar, beijar e abraçar?!
.
Julgava que eras um Deusão omnipotente,
mas não passas de um Deusito um pouco desajeitado.
Vês? Curvo-me
e da bota
tiro um punhal.
Patifes alados!
Agachai-vos no paraíso!
Eriçai as plumas e tremei de medo!
A Ti, que cheiras a incenso, cortarei
daqui até ao Alasca!
.
Deixem-me!
.
Não me detenham!
Certo
ou errado
não posso ficar calmo.
Olhem –
decapitaram mais estrelas
e ensanguentaram o céu como um matadouro!
.
Eh, tu!
Ó céu!
Tira o chapéu!
Que vou a passar eu!
Silêncio!
.
O Universo dorme
com a enorme orelha
cheia de estrelas
sobre a pata.
.
(1915)
.
Tradução de Manuel de Seabra, in Obras de Maiakovski- Volume I, Vento de Leste, 1979.
.
.
Imagem
Vladimir Maiakovski, em 1915.
.

Revealed: Julian Assange’s $780,000 flight home after London jail release

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A German foundation has agreed to pay the majority of the costs, but Australian taxpayers still face a bill.

Source: Revealed: Julian Assange’s $780,000 flight home after London jail release

CrowdStrike IT outage hits airports, banks, supermarkets as emergency committee meets

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A major network outage has affected several Australian institutions and businesses, including multiple airports, the Commonwealth Bank, Optus, Australia Post and Woolworths.

Source: CrowdStrike IT outage hits airports, banks, supermarkets as emergency committee meets

A room with no view: Sydney ‘capsule’ for rent for $1,080 a month

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The “capsule” is a small, cell-shaped room with just enough space for a mattress — and it’s on the rental market for $250 a week.

Source: A room with no view: Sydney ‘capsule’ for rent for $1,080 a month

O primeiro mapa de Portugal

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O primeiro mapa de Portugal

Ando a navegar pela Internet fora e vejo um mapa de Portugal que me deixa de boca aberta. Nunca tinha visto o país assim…

Marco Neves

Jul 18

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Lembro que estão abertas as inscrições para o Curso de Revisão de Português. Fecham no dia 21. Muito obrigado!

O mundo para cima ou para baixo

Há coisas que são como são há tanto tempo que parece ser impossível imaginá-las de outra maneira. Por cá, o sinal de STOP, por exemplo, tem uma peculiar forma octogonal e uma palavra inglesa no centro. Podia ser outra palavra ou outra forma? Sim, claro. Mas hoje já parece natural que seja assim — e não me parece razoável mudar o sinal agora (seria, aliás, bastante perigoso).

Enfim, que os sinais de trânsito são convenções é bastante claro. Aliás, conduzimos pela direita, mas há muitos países que decidiram conduzir à esquerda. Houve até países que mudaram a certa altura. Dois exemplos? A Suécia, nos anos 60 — e Portugal, nos anos 20 (sim, já conduzimos pela esquerda).

Talvez um pouco menos óbvia seja a ideia de que os relógios também são uma convenção, divididos como estão em doze partes, com o 12 lá em cima. Ainda há uns tempos escrevi sobre a curiosa história dos relógios que têm o 12 cá em baixo

Mas há mais convenções que, de tão usadas, já nos parecem naturais. Por exemplo, escrevemos da esquerda para a direita, mas poderíamos escrever da direita para a esquerda — como, aliás, fazem os árabes. Nem os livros têm uma direcção natural: a lombada está à esquerda nos livros em português, mas os livros japoneses têm a lombada do outro lado…

Tudo isto só para chegar à própria orientação do mundo: o Pólo Norte está lá em cima — mas poderia estar lá em baixo…

Todos temos na cabeça, de forma muito bem martelada, que o Norte fica em cima e o Sul fica em baixo. Ninguém diz que vai para baixo quando viaja de Lisboa para o Porto. Já dizer que vamos para cima quando viajamos do Algarve para Lisboa parece bem natural…

É difícil imaginar que o mundo fosse doutra maneira. Os australianos vivem lá em baixo, nós vivemos cá em cima.

E, no entanto, a Terra e todo o Sistema Solar estão a navegar pelo espaço sem que haja um tecto ou um chão… Uma das primeiras fotos do nosso planeta, tirada por astronautas em 1972, costuma aparecer na direcção “certa”, mas no original tinha o Sul por cima:

A fotografia, tal como aparece em revistas e livros, está com o Sul por baixo. Porquê? Para que ninguém estranhe…

Um continente exótico

Há tempos, li um livro — A History of the World in Twelve Maps — em que o autor (Jerry Brotton) afirmava ser difícil perceber por que razão o Norte acabou por ficar, de forma praticamente definitiva, na parte de cima dos mapas. Afinal, não é um facto universal.

Note-se, por exemplo, onde está a Europa na Tabula Rogeriana, mapa de al-Idrisi, cartógrafo muçulmano que viveu em Palermo e nasceu em Ceuta:

Uma das surpresas deste mapa é reparar como a Itália está deitada… Pois, curiosamente, se formos até ao Google Earth e virarmos a Europa ao contrário, também acabamos com uma Itália estranhamente deitada. É apenas um exemplo de como o mesmo mapa virado ao contrário tem um sabor muito diferente. Como quando repetimos uma palavra conhecida muitas vezes, o mapa começa a estranhar-nos, a parecer o resultado do trabalho de um escritor de fantasia…

Não sei se acontece com todos, mas ao olhar para este continente de pernas para o ar, começo a imaginar outras histórias, outras aventuras… As habituais associações que fazemos ao Norte e ao Sul começam, devagar, a cair. São terras exóticas, estas…

Não que o continente que temos não seja interessante por si. Tem, aliás, uma História demasiado interessante — e que assim promete continuar por muitos e bons séculos.

O nosso país deitado

Bem, olhemos para aquele país ali virado para o canto superior direito… Com o Google Earth, podemos virar o país ao contrário a nosso bel-prazer. Ficamos com o Minho cá em baixo e o Algarve lá bem em cima, onde as águas são mais quentes e, se subirmos mais um pouco, vamos parar, não à Galiza, mas a Marrocos:

Não sei bem porquê, mas olhar para o mapa assim leva-me a notar certas características do país: Lisboa parece-me mais distante do Minho do que pensava; ali, a meio, aquela reentrância espanhola no corpo do nosso país surge um pouco menos natural, mais recortada…

É um absurdo? Não faz sentido? Estamos habituados a imaginar um país que foi criado de cima para baixo, um país em que o mar está à esquerda. O contorno do país é, hoje, um dos símbolos nacionais. Mas, no fundo, podíamos ter acabado com uma imagem diferente. Afinal, os nossos primeiros mapas punham o Algarve nem em cima nem em baixo: ficava à esquerda!

Aqui está a Carta de Portugal de Fernando Álvaro Seco, na versão editada no Theatrum Orbis Terrarum de Abraham Ortelius, em Antuérpia, no ano de 1570 (houve uma versão do mesmo mapa publicada uma década antes):

Já foi há muito tempo? Pois, já no século XIX, ainda apanhamos Portugal assim deitado — mas desta vez de barriga para baixo:

Foi este estranhíssimo mapa que me levou a escrever esta crónica…

A verdade é que, se olharmos para o mapa do nosso país, de pernas para baixo, a fazer o pino, deitado ou na direcção habitual — o contorno é-nos tão confortável como a cama da infância. Conhecemos bem este mapa e desenhamo-lo com o dedo, a sorrir.

E com esta conversa toda, fiquei com uma vontade irreprimível de viajar. É o que dá olhar para mapas.

Obrigado por ler a página Certas Palavras.

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How many athletes from each country will participate at Paris Olympics 2024?

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A total of 117 athletes will represent India at the Paris Olympics 2024. Know the number of athletes from other countries.

Source: How many athletes from each country will participate at Paris Olympics 2024?

Açores avançam com duas passagens aéreas grátis por ano para estudantes

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O programa ‘+ Jovem’, hoje publicado em Jornal Oficial, tem como uma das primeiras medidas o pagamento de duas passagens aéreas aos estudantes deslocados da sua ilha para frequentarem o ensino, seja noutra ilha açoriana, Madeira ou continente.

Source: Açores avançam com duas passagens aéreas grátis por ano para estudantes

José Soares Filho de mãe incógnita

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José Soares

 

Filho de mãe incógnita

 

Uma das tropelias anómalas de Salazar, conjuntamente com o cardeal Cerejeira – seu inseparável companheiro de seminário – era considerar no código civil português uma situação bastante singular e muito usada na idade média, mas de forma diferente.

Como o divórcio estava proibido em Portugal “…em 1940 foi assinada a Concordata entre Portugal e a Santa Sé que proibiu o divórcio para todos os casamentos católicos que viessem a ser celebrados no futuro, o que se traduziu num retrocesso civilizacional, uma vez que a esmagadora maioria dos casamentos celebrados em Portugal obedeciam aos cânones da Igreja Católica… a situação apenas viria a ser alterada na sequência da Revolução do 25 de abril de 1974” (Diário da República, divórcio).

Desta inquisição político-religiosa, nasceram autênticas aberrações jurídicas nos registos que ainda hoje se podem consultar.

Em vez do divórcio, passou a chamar-se a essa nova situação “separação legal”. No entanto, o ex-casal não poderia voltar a casar, pelos que os filhos que tivesse noutras posteriores relações, seriam bastardos com o nome de “filho de pai [ou mãe] incógnita”. A situação era tão ridícula, que a própria igreja católica chegou a repensar o assunto, mas o fanático Cerejeira, que foi uma espécie de Tomás de Torquemada do século XX em Portugal, insistiu que se devia prosseguir com tal sistema inquisitorial.

Embora as anomalias persistissem em ambos os casos, convenhamos que ‘filho de pai incógnito’ ainda se pode tentar definir ou compreender, pelo facto de uma progenitora poder ter relações com vários homens. Mas ‘filho(a) de mãe incógnita’ – essa não lembra nem ao diabo. Alguém tem de sair do útero de alguém. Como diria meu avô:

“Os filhos da minha filha, meus netos são; Os do meu filho, serão ou não.”

Esta situação terá provocado milhares e milhares de bastardos em Portugal. Depois de 1974 e tanto quanto foi possível, foram anuladas todas as situações conhecidas, declaradas ou denunciadas junto dos registos civis.

Por outro lado, o salazarismo exaltava heróis nacionais que eram bastardos.

El-rei D. João I, o Mestre de Avis e pai da “Ínclita Geração” camoniana, era filho bastardo d’El-rei D. Pedro I e de uma das suas amantes, Teresa Lourenço.

O que é verdade é que, de uma “cópula ordinária ou coito vulgar” (como se dizia à época), vingaria em Lisboa, em São João da Praça (onde residiam os comerciantes lisboetas), a 11 de Abril de 1357 um «…filho natural a que deram o nome de João e que, não podendo ser criado na Corte por ser bastardo, foi confiado a Lourenço Martins, o da Praça, seu avô, a fim de o criar. Poucos anos depois, João foi feito Mestre de Avis, a pedido do galego D. Nuno Freire de Andrade, o então mestre da Ordem de Cristo. E esse mesmo João veio a ascender ao trono durante a Crise de 1383-1385, sob o nome de D. João I.» (Livro da Chancelaria de D. Pedro I / 1987, José Carlos Soares Machado).

E para só dar aqui dois dos inúmeros exemplos históricos sobre o assunto, o segundo será D. Nuno Alvares Pereira, o Condestável – e amigo íntimo de D. João I. Era filho natural de Álvaro Gonçalves Pereira, Prior da Ordem do Hospital ou Malta e neto de Gonçalo Gonçalves Pereira, Arcebispo de Braga. Era, portanto, neto de um arcebispo. A mãe de Nun’Álvares, Iria Gonçalves do Carvalhal, foi uma concubina de seu pai.

Salazar e o seu consórcio religioso, cardeal Cerejeira, criaram, com os seus extremos e ortodoxias, uma confusão geracional que ainda tem repercussões nos dias de hoje, embora em fase de velhice de vida de milhares dos seus interpretes.

Após o 25 de Abril, a Lei mudou. É proibido o registo de ‘filhos de pais incógnitos’. O Ministério Público é obrigado a desencadear processo de averiguação oficiosa da paternidade.

FALSO TÍTULO, FALSO PROBLEMA, APRENDAM pt OU A FAZER TÍTULOS EM VEZ DE FAZEREM O FAVOR À OPOSIÇÃO…IRRA QUE JÁ CHATEIA!Filhos de desempregados discriminados no acesso às creches nos Açores

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Proposta do Chega foi aprovada com os votos da maioria de direita – PSD, CDS-PP e PPM. Oposição fala em “preconceito grave”.

Source: Filhos de desempregados discriminados no acesso às creches nos Açores

LOBO ANTUNES, A CHAMADA

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【António Lobo Antunes】
Liga-me daqui a vinte minutos que agora não posso falar. Não é o meu marido que ainda não chegou a casa, não são as crianças que estão lá dentro com o computador e a porta do quarto fechada, não é ninguém, estou sozinha mas não consigo falar. Não, não tem a ver contigo, por que carga de água teria a ver contigo, tem a ver comigo apenas, coisas que se passam entre eu e mim e não me apetece explicar, aliás se explicasse não entendias, o que sabem vocês das mulheres, do que se passa numa mulher, do que uma mulher pensa, do que uma mulher sente, acham que somos malucas, acham que somos diferentes, acham que somos parvas, liga-me daqui a vinte minutos, se quiseres, se te der na bolha, se te apetecer e talvez eu consiga ou talvez não consiga, sei lá, sei que agora não posso falar, a única certeza que tenho é que agora não posso falar. A ti nunca te aconteceu não poderes falar, claro, podes sempre, vocês podem sempre, vivem da boca para fora, impingem sentimentos como quem impinge electrodomésticos, exigem que a gente os compre pelo vosso preço e, francamente, o vosso preço, neste caso o teu preço, não me interessa um fósforo, experimenta dentro de vinte minutos e talvez eu torne a ser parva e te oiça e acredite em ti e compre como tenho comprado até hoje, põe a mão na consciência e repara como tenho comprado até hoje mas neste momento nem sonhes, não posso, não me apetece, não quero, deixa-me sossegada um bocadinho, não me venhas com histórias que não engulo nenhuma, preciso de pensar, de tentar entender, de tentar entender-me, não insistas que me incomoda insistires, não te tornes aborrecido, não te tornes peganhento, vou cortar a chamada, não posso falar e, se pudesse falar, não respondia o que querias, não dizia o que te apetece que eu diga, o que ordenas, sem ordenar, que eu diga, a tua maneira de dares a voltinha às coisas, de me levar à certa, de me fazeres prometer o que jurei a mim mesma não prometer, não posso falar e é tudo, sinto-me tão vulnerável, tão frágil, não me obrigues a abrir a boca, a chamar-te querido, a chamar-te amor e a ser sincera ao chamar-te querido, ao chamar-te amor, não tenho ganas de ser sincera nem de acreditar em ti nem de esquecer tudo o resto, eu querido, eu amor e tu a rires-te por dentro visto que vocês se riem sempre por dentro, vocês para os amigos
-Claro que a gaja engoliu
vocês pra os amigos
-A gaja engole sempre
e acontece que a gaja não engole agora, a gaja recusa engolir agora, acontece que a estúpida da gaja percebe tudo agora, vai à fava, larga-me da mão e vai à fava, acaba com a vozinha quente, acaba com os argumentos idiotas que a gaja não está no papo, está muito longe de estar no papo, os teus amigos
-O que sucedeu à tua palheta?
e sucedeu que a tua palheta já não vale um chavo, não vais lá com palheta, não vais lá com juras, promessas, arrependimentos, não vais lá com diminutivos, não me peças colo, não armes ao pingarelho a pedir colo, fala-he ao coração que a gaja amolece e no caso não amolece nem meia, nem é questão de amolecer, aliás, amolecer o quê, acreditei enquanto resolvi acreditar e acabou-se, não acredito mais, não faças partes gagas, não mintas, olha, para usar os vossos termos vai à merda, não ligues daqui a vinte minutos sequer, não ligues mais, se ligares não atendo, se te pendurares na campainha não abro, se falares com o meu irmão
-Eh pá põe-na mansa
mando-o às malvas num rufo, aguenta como um homenzinho e cala-te, que é feito da tua autoridade, que é feito do teu orgulho, não rastejes que me fazes dó, aguenta-te nas canetas, cresce, se aos quarenta anos não cresceste quando é que vais crescer, não cresces, continuas uma criança, vocês todos hão-de ser sempre crianças, não aprendem, estou farta, filhos já eu tenho que cheguem, maridos, fora este, dois iguais a ti que não me interessam onde param, raios vos partam a todos, não dou mais dinheiro a ganhar a psiquiatras, não vou andar por aí a tropeçar nas coisas derivado aos calmantes, apetece-me paz, entendes, sossego, entendes, nem sonhes em pendurares-te em mim, tentares enganar-me, meteres-me no bolso, não metes, já meteste, não metes, não necessito de botija de água quente à noite, não necessito de companhia para jantar fora, não necessito de entrar de braço dado seja onde for, não necessito da tua escova de dentes no copo do lavatório nem que me consertes seja o que for em casa, a gaja não engole sempre, a gaja não engoliu, a gaja nunca mais vai engolir, pelo menos de ti a gaja nunca mais vai engolir, vou desligar isto, deixá-lo no silêncio e por favor, não me inundes de mensagens, não me inundes de recados, não me faças esperas, não argumentes, não teimes, some-te, que alívio ver-te pelas costas, ouvir falar de ti como de um estranho, nem fazer ideia onde moras, espero que longe e daí tanto me faz, quero lá saber se longe ou perto, não te desejo que sejas feliz, como poderias ser feliz, és parvo, ouviste bem, és parvo, enfia isto na cabeça, és parvo de nascença e adeuzinho que agora não posso falar, ainda por cima com o meu marido a meter a chave à porta, aprende a respeitar as senhoras casadas, não lhes cries insinuações que as embaraçam, some-te, se desejares, mas só se desejares muito, muito mesmo, de coração, encontras-me amanhã no escritório a partir das dez horas.
(A chamada)
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FLORES (AÇORES) FINALMENTE NA MODA

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João Paz

Ilha das Flores: Alemães, ingleses, franceses, espanhóis, portugueses…
Aerogare do aeroporto de Santa Cruz das Flores hoje ao fim da tarde com dois voos no horário (17h50 e 18 horas) depois de um terceiro voo às 15h30. Dois voos com avião Dash Q 400 e um com Q 200.
Já muitos caminhos vão dar à ilha das Flores. Têm origem na Alemanha, Inglaterra, França, Espanha (muitos da Catalunha) e do Continente.
Na aerogare os funcionários sentem o aumento de turistas no Verão. E o tempo hoje está excelente.

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Diretor-geral do JN e TSF saca milhares de grupo à beira do colapso – Tv Media – Correio da Manhã

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Domingos Andrade cobra montantes milionários de ajudas de custo, tem cartão de crédito de 5 mil euros e apresenta despesas fictícias: 600 euros para gasóleo de… carro elétrico.

Source: Diretor-geral do JN e TSF saca milhares de grupo à beira do colapso – Tv Media – Correio da Manhã