novolinguismo

A NOVA LÍNGUA PORTUGUESA

Desde que os americanos se lembraram de começar a chamar aos pretos ‘afro-americanos’, com vista a acabar com as raças por via gramatical, isto tem sido um fartote pegado!
As criadas dos anos 70 passaram a ’empregadas domésticas’ e preparam-se agora para receber a menção de ‘auxiliares de apoio doméstico’ .
De igual modo, extinguiram-se nas escolas os ‘contínuos’ que passaram todos a ‘auxiliares da acção educativa’.
Os vendedores de medicamentos, com alguma prosápia, tratam-se por ‘delegados de informação médica’.
E pelo mesmo processo transmudaram-se os caixeiros-viajantes em ‘técnicos de vendas ‘.
O aborto eufemizou-se em ‘interrupção voluntária da gravidez’;
Os gangs étnicos são ‘grupos de jovens’
Os operários fizeram-se de repente ‘colaboradores’;
As fábricas, essas, vistas de dentro são ‘unidades produtivas’e vistas da estranja são ‘centros de decisão nacionais’.
O analfabetismo desapareceu da crosta portuguesa, cedendo o passo à ‘iliteracia’ galopante.
Desapareceram dos comboios as 1.ª e 2.ª classes, para não ferir a susceptibilidade social das massas hierarquizadas, mas por imperscrutáveis necessidades de tesouraria continuam a cobrar-se preços distintos nas classes ‘Conforto’ e ‘Turística’.
A Ágata, rainha do pimba, cantava chorosa: «Sou mãe solteira…» ; agora, se quiser acompanhar os novos tempos, deve alterar a letra da pungente melodia: «Tenho uma família monoparental…» – eis o novo verso da cançoneta, se quiser fazer jus à modernidade impante.
Aquietadas pela televisão, já se não vêem por aí aos pinotes crianças irrequietas e «terroristas»; diz-se modernamente que têm um ‘comportamento disfuncional hiperactivo’
Do mesmo modo, e para felicidade dos ‘encarregados de educação’ , os brilhantes programas escolares extinguiram os alunos cábulas; tais estudantes serão, quando muito, ‘crianças de desenvolvimento instável’.
Ainda há cegos, infelizmente. Mas como a palavra fosse considerada desagradável e até aviltante, quem não vê é considerado ‘invisual’. (O termo é gramaticalmente impróprio, como impróprio seria chamar inauditivos aos surdos – mas o ‘politicamente correcto’ marimba-se para as regras gramaticais…)
As putas passaram a ser ‘senhoras de alterne’.
Para compor o ramalhete e se darem ares, as gentes cultas da praça desbocam-se em ‘implementações’, ‘posturas pró-activas’, ‘políticas fracturantes’ e outros barbarismos da linguagem.
E assim linguajamos o Português, vagueando perdidos entre a «correcção política» e o novo-riquismo linguístico.
Estamos lixados com este ‘novo português’; não admira que o pessoal tenha cada vez mais esgotamentos e stress. Já não se diz o que se pensa, tem de se pensar o que se diz de forma ‘politicamente correcta’.

E falta ainda esclarecer que os tradicionais “anões” estão em vias de passar a “cidadãos verticalmente desfavorecidos”…
Os idiotas e imbecis passam a designar-se por “indivíduos com atitude não vinculativa”
Os pretos passaram a ser pessoas de cor.
O mongolismo passou a designar-se síndroma do cromossoma 21.
Os gordos e os magros passaram a ser pessoas com disfunção alimentar.
Os mentirosos passam a ser “pessoas com muita imaginação”
Os que fazem desfalques nas empresas e são descobertos são “pessoas com grande visão empresarial mas que estão rodeados de invejosos”
Para autarcas e políticos, afirmar que “eu tenho impunidade judicial”, foi substituído por “estar de consciência tranquila”.
O conceito de corrupção organizada foi substituído pela palavra “sistema”.
Difícil, dramático, desastroso, congestionado, problemático, etc., passou a ser sinónimo de complicado.
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Enciclopédia de Autores

Existe um novo documento interessante para consultar:
a Enciclopédia de Autores disponibilizada pelo escritor Daniel de Sá e que pode ser consultada na página dos Cadernos Açorianos em

http://www.lusofonias.net/estudos%20e%20cadernos%20a%C3%A7orianos/index.htm
Além disso procedeu-se a uma atualização dos cadernos Açorianos

foram corrigidos e atualizados os Cadernos Açorianos 1 a 5
CRISTÓVÃO AGUIAR
DIAS DE MELO
DANIEL DE SÁ
VASCO PEREIRA DA COSTA
ÁLAMO OLIVEIRA
e os suplementos de
DIAS DE MELO
VASCO PEREIRA DA COSTA

QUE PODEM SER CONSULTADOS EM

http://www.lusofonias.net/estudos%20e%20cadernos%20a%C3%A7orianos/index.htm

-- 
J. CHRYS CHRYSTELLO, Presidente da Direção
COLÓQUIOS DA LUSOFONIA (AICL, Associação [Internacional] Colóquios da Lusofonia) - NIPC 509663133
  Sede: Rua da Igreja 6, Lomba da Maia 9625-115, S. Miguel, Açores, Portugal
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aderir AICL: http://www.lusofonias.net/menu%20do%20site.htm
XVI Colóquio SANTA MARIA - AÇORES 2011 http://www.lusofonias.net/encontros%202011%20sta%20maria/index.htm
XVII Colóquio LAGOA - AÇORES 2012 http://www.lusofonias.net/encontros%202012%20Lagoa/index.htm

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ELIS REGINA CHORAM MARIAS E CLARICES NO SOLO DO BRASIL

interessante pesquisa sobre a letra da música “O bêbado e a equilibrista” onde Elis Regina canta “Choram Marias e Clarices”.Quem eram estas Marias e Clarices? O jornalista Plínio Nunes tenta explicar-nos.

CHORAM MARIAS E CLARICES NO SOLO DO BRASIL

Afinal, quem é Maria e quem é Clarice?
Plínio Nunes (http://vidacuriosa.blogspot.com/2007/10/choram-marias-e-clarices-no-solo-do.html)


Outro dia eu estava ouvindo uma música da inesquecível e insubstituível Elis Regina, quando parei para pensar na letra e me chamou a atenção o seguinte verso: “Choram marias e clarices, no solo do Brasil. Eu sabia quem era a Maria, mas fiquei curioso em descobrir quem era a Clarice.
Perguntei a uma série de pessoas das minhas relações, inclusive jornalistas, e ninguém respondeu de cara. Alguns achavam que tinha a ver com a escritora Clarice Lispector. Não tem.
Foi aí que decidi decodificar aqui a letra de O Bêbado e a Equilibrista, composta pelo carioca Aldir Blanc e pelo mineiro João Bosco e lançada em 1979 pela gaúcha Elis.
A música, criada no auge da ditadura, foi considerada como o hino da anistia. Vamos à letra:
Caía a tarde feito um viaduto e um bêbado, trajando luto, me lembrou Carlitos.” Como pode uma tarde cair como um viaduto? Pensei, pensei e me lembrei que um viaduto havia ca¡do no Rio lá por aquela época. Uma consulta ao Google me salvou. Em 20 de novembro de 1971, o Viaduto Paulo de Frontin, na Tijuca, caiu, causando a morte de 29 pessoas e ferimentos em outras 30. Assim como outras grandes tragédias, ninguém foi responsabilizado. Mais pesquisas e entendi a frase no início da música. A tarde caía abruptamente como a queda do viaduto Paulo de Frontin. O sentido era observar metaforicamente a então situação do país, onde a mudança política ocorreu também de forma abrupta com o golpe militar. O bêbado trajava luto pelas mortes dos que lutavam contra a repressão e lembrava Carlitos, um personagem de Charles Chaplin que simbolizava a crítica de um marginalizado da sociedade ao capitalismo mundial.
A lua, tal qual a dona de um bordel, pedia a cada estrela fria um brilho de aluguel.
Nunca falei com Aldir Blanc nem pude constatar isso em livros e Internet, acho que, sem poder contestar abertamente a nova política antidemocrática estabelecida, a lua provavelmente se refere às autoridades que acreditavam estar em um país de paz e felicidade. Provavelmente faz menção velada a músicas ufanistas como “as praias do Brasil ensolaradas…eu te amo meu Brasil, eu te amo, e a outras camadas que apoiaram o golpe ou tiveram medo de provocar os militares.
Nuvens, feito um mata-borrão no céu chupavam manchas torturadas. Que sufoco! Louco, o bêbado de chapéu coco fazia irreverências mil, à noite do Brasil.
Uma referência quase clara à tortura no chamado per¡odo de chumbo. A irreverência do bêbado é uma contestação aos dias (e noites) vividos no Brasil naquele per¡odo de 1964 até a data da anistia, em 1979.
Meu Brasil, que sonha com a volta do irmão do Henfil e tanta gente que sumiu num rabo de foguete. Chora, a nossa pátria mãe gentil, choram marias e clarices, no solo do Brasil.
O irmão do Henfil é o sociólogo Herbert de Souza, o Betinho, que estava exilado e que pouco antes de morrer de Aids aos 61 anos, (era hemof¡lico e contraiu sangue contaminado) , criou a Campanha Contra a Fome e a Miséria. Henfil era cartunista combatido da ditadura. Nessa época, ele tinha uma coluna na Isto É onde escrevia cartas para a mãe dele, justamente dona Maria. Na coluna, dava notícia aos correligionários e toques para os militares. Henfil morreu em 1985 aos 44 anos. Além da mãe do Henfil, a música homenageava as marias-mães brasileiras. Clarice era a mulher do jornalista Vladimir Werzog, que foi chamado, em 1975, pelo Doi-Codi para explicar ligação com o Partido Comunista Brasileiro, na época clandestino, e apareceu enforcado. Foi confirmado que ele foi morto durante sessão de tortura.
Eu sei que uma dor assim pungente não há de ser inutilmente. A esperança dança na corda banda de sombrinha, e a cada passo dessa linha pode se machucar. Azar, a esperança equilibrista sabe que o show de todo o artista tem que continuar.
Essa parte não precisa explicar, claro. Era isso.

A seguir, ouça o bêbado e a equilibrista, na voz da maravilhosa Elis Regina.

http://letras.terra.com.br/elis-regina/45679/

O Bêbado e A Equilibrista

Elis Regina

Composição: João Bosco e Aldir blanc

Caía a tarde feito um viaduto
E um bêbado trajando luto
Me lembrou Carlitos…
A lua
Tal qual a dona do bordel
Pedia a cada estrela fria
Um brilho de aluguel
E nuvens!
Lá no mata-borrão do céu
Chupavam manchas torturadas
Que sufoco!
Louco!
O bêbado com chapéu-coco
Fazia irreverências mil
Prá noite do Brasil.
Meu Brasil!…
Que sonha com a volta
Do irmão do Henfil.
Com tanta gente que partiu
Num rabo de foguete
Chora!
A nossa Pátria
Mãe gentil
Choram Marias
E Clarisses
No solo do Brasil…
Mas sei, que uma dor
Assim pungente
Não há de ser inutilmente
A esperança…
Dança na corda bamba
De sombrinha
E em cada passo
Dessa linha
Pode se machucar…
Azar!
A esperança equilibrista
Sabe que o show
De todo artista
Tem que continuar…

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portugueses descendem das mulheres das grutas de Altamira e Lascaux

Origens. Metade dos portugueses descendem das mulheres das grutas de Altamira e Lascaux

por Marta F. Reis, Publicado em 19 de Julho de 2011 | Actualizado há 12 horas

 

Estudos do genoma para conhecer os antepassados fazem dez anos. Também são procurados em Portugal
Opções
O complexo de grutas de Lascaux, em França, foi vital para os europeus

O complexo de grutas de Lascaux, em França, foi vital para os europeus

Philippe Wojazer / Reuters

Parece um disparate, porém, depois de mais de uma hora a tentar

 

Parece um disparate, porém, depois de mais de uma hora a tentar perceber como é que qualquer coisa como uma dúzia de letras do nosso ADN (do total de 3 mil milhões) podem revelar o percurso dos nossos antepassados, a ideia até desperta algumas emoções. “Depois de saber que era descendente da avó Helena, fiz questão de ir a Lascaux”, diz José Carlos Soares Machado.

O presidente da Associação Portuguesa de Genealogia (APG) fala das grutas francesas, recheadas de desenhos nas paredes. Ao referir-se a Helena, mergulha naquilo que foram os últimos dez anos de estudos genéticos sobre ancestralidade. Em 2001, o cientista de Oxford Bryan Sykes explicou num livro que era possível alargar as tradicionais árvores genealógicas ao início do Homo sapiens (na região da Etiópia, há 200 mil anos). O público gostou da ideia e os centros de investigação com especialistas em genética começaram a disponibilizar-se para fazer o trabalho. Em Portugal, o Instituto de Medicina Molecular de Lisboa já fez 200 perfis.

Expliquemos a história da avó Helena, caso queira incluir Lascaux nos destinos de férias. Metade dos europeus, e também dos portugueses, descenderão das mulheres que habitaram as quentinhas grutas do Sul europeu (Lascaux mas também Altamira em Espanha e Vila Nova de Foz Côa) durante a última glaciação, há 12 mil anos. Se a mulher que desencadeou toda esta vasta descendência se chamava de facto Helena não se sabe, e talvez seja pouco provável, mas o nome surge no livro de Sykes “As Sete Filhas de Eva”, onde o investigador explica os diferentes perfis genéticos que descenderam da chamada “Eva mitocondrial”, a primeira mulher que passou sequências de ADN às suas filhas através das mitocôndrias dos óvulos.

Das cerca de 30 linhagens maternas já descobertas pelos investigados nas populações mundiais, há duas que parecem ter habitados as grutas do Sul da Europa. Em termos genéticos, chama-se a estes grupos de descendência “haplogrupos” e pode dizer-se que a maioria dos portugueses, como os europeus, descende do H e do U (em Portugal são 41% e 17% respectivamente). Sykes, que queria tornar a história fácil para os leigos em ciência, disse que os portadores da marca genética H eram netos da avó Helena e explicou no seu livro como a senhora era adepta das pinturas rupestres. Resta dizer que entre os famosos netos de Helena se encontra a rainha Maria Antonieta, factóide a que talvez nunca chegasse se se dedicasse a construir a sua árvore genealógica.

Do lado do pai, Soares Machado tem um legado viquingue (bastante comum na Escandinávia), mas mais de metade dos portugueses (55%) descende também dos celtas, que por sua vez descendiam dos homens que chegaram à Europa vindos do Sul da Sibéria, actual Cazaquistão e Usbequistão, antes de se enfiarem nas grutas do Sul. A segunda ascendência mais comum é a dos descendentes das populações que não deixaram África na altura das primeiras migrações, há 80 mil anos (Paleolítico Médio). Estes clãs que se mantiveram pelo Corno de África enquanto a maioria se dedicava a colonizar a Península Arábica parece ter começado a ganhar diferenças genéticas há 53 mil anos. Em Portugal representam 14% das linhagens paternas, mas são um ascendente muito mais comum na região do Magrebe, onde representam 33% a 80% do fundo genético das populações.

Como se faz Maria do Carmo Fonseca, directora do Instituto de Medicina Molecular onde a spin-off GenoMed começou a fazer estes testes há três anos (a pedido da APG), ajuda a compreender a análise que permite conhecer os antepassados. A matéria-prima é o genoma humano, a sequência de ADN onde estão contidas todas as informações genéticas para as células funcionarem e o organismo cumprir as funções vitais. “À medida que o nosso conhecimento sobre o genoma humano tem evoluído percebemos cada vez mais como funciona e que informação podemos encontrar sobre o nosso passado, o nosso presente e eventualmente o nosso futuro”, diz a investigadora Prémio Pessoa em 2010.

Os estudos mais comuns têm a ver com o diagnóstico ou a susceptibilidade a doenças – quando os investigadores procuram mutações ou genes já associados a patologias como o cancro ou a doença de Alzheimer. Mas cedo se percebeu que, além das instruções genéticas, inscritas em zonas que codificam proteínas, havia zonas do genoma que podiam querer dizer algo mais (as mesmas onde se procura informação sobre parentalidade ou maternidade). “O teste é o mesmo mas olhamos para zonas diferentes do ADN, a que chamamos silenciosas porque não codificam proteínas.” Restava um problema: se recebemos informação genética do nosso pai e da nossa mãe, que se mistura, era preciso olhar para regiões que viessem inequivocamente de um ou de outra. A aposta recaiu assim no cromossoma Y (transmitido dos pais para os filhos) e no ADN mitocondrial (contido no óvulo da mãe).

O processo de identificação do haplogrupo acaba por parecer um jogo. Sobretudo desde que passou a haver grandes estudos genéticos para diferentes populações. Confrontando sequências de ADN (a forma como as letras que compõem o código genético estão dispostas), os cientistas acabaram por perceber que a simples troca de letras em posições específicas permite identificar a ancestralidade. Depois de terem a sequência de ADN, folhas onde as letras A, C, G e T se dispõem em partes, os investigadores verificam manualmente as posições utilizadas para definir cada grupo. Assim, imagine-se, se no marcador x (entre seis e nove que é necessário observar até chegar ao veredicto possível mediante o conhecimento actual) há um C em vez de um G, é possível dizer se a pessoa descende por via paterna dos mercadores fenícios que passaram pela Península Ibérica há 3 mil anos ou dos viquingues que invadiram a Escandinávia há 7 mil.

Para ver a ascendência materna repete–se a análise, e as letras, consoante o sítio, podem revelar pegadas históricas mais comuns, ligadas aos refúgios nas grutas francesas e espanholas, ou então (como só acontece com 5% dos portugueses), uma linhagem materna ligada a refúgios da mesma época no Nordeste da Itália. Neste caso, em vez de se partilhar a família alargada com Maria Antonieta poderá chamar primo afastado a Ötzi, o homem do gelo, uma das múmias mais antigas conhecidas, de um homem que terá vivido há 5300 anos.

Apesar de para já ainda não serem muitos os grupos conhecidos, a expectativa dos investigadores é continuarem a aumentar os subgrupos dentro de cada população. A GenoMed tem ainda uma parceria com um grupo de investigação de Santiago de Compostela que permite quantificar o grau de mistura: ou seja, com fundo paterno celta e linhagem materna fenícia, poderá perceber o que pesa mais no seu código genético. Um mapa-múndi com a divisão de populações por haplogrupos permite perceber que entre os nativos da Península Ibérica existe uma grande mistura, enquanto nos americanos e africanos se mantém maior homogeneidade.

Para Maria do Carmo Fonseca, os factos curiosos não se ficam por aqui. Um estudo publicado em 2003 conclui, por exemplo, que 0,5% da população mundial parece ser descendente do imperador mongol Gengiscão, ilustre famoso a quem é atribuído um dos subgrupos do haplogrupo C (dominante no Norte da Ásia). “Na região ocupada pelos mongóis há um padrão que parece tão frequente que, por ter sido datado de há mil anos, permite pensar que 8% dos homens locais descendem de Gengiscão. Ele não podia ter tido mais que umas dezenas de filhos, mas deviam ser tão tortos que dominavam os outros.” Outra verificação que tem gerado polémica, assinada por Sykes, é que metade dos ingleses têm a mesma ascendência que alemães e dinamarqueses. E que não teriam sobrevivido ao frio glaciar sem os abrigos ibéricos.

 

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A língua portuguesa é mestiça, diz Adriano Moreira

A língua portuguesa é mestiça, diz Adriano Moreira

Que a língua tem uma origem, um princípio todos sabemos. Que a língua tem particularidades, influências e transformações também entendemos, então porque não conviver com o seu dinamismo, com a sua mestiçagem?

Foi pela vontade de descobrir os caminhos da terra incógnita, entre outras missões, que a língua portuguesa se expandiu para territórios impensáveis e hoje é a sexta língua mais falada no mundo e também o ponto de partida para a sustentabilidade da CPLP (Comunidade de Países de Língua Portuguesa).

Para o Professor Adriano Moreira, que defende a afirmação do português, a língua portuguesa é mestiça: "Desde as influências ameríndias, às africanas, às alemães no Brasil, por exemplo, às influências que existem em Moçambique, ou em Timor que dorme com o inimigo (Indonésia) e tem a pressão da Austrália, todas elas contribuem para o enriquecimento de qualquer um dos países, mas ao mesmo tempo cabe à CPLP defender a língua portuguesa, instrumento comum dos países que pertencem a este espaço.

O Professor também reconhece tratar-se de uma missão complicada devido aos parcos recursos financeiros da organização. Sendo o Brasil a única economia emergente e nele estão depositadas as esperanças de que seja o país que vai conduzir a liderança do consenso da comunidade, segundo explicou Adriano Moreira.

Que vantagens traz esta mestiçagem?

Se por um lado há o medo, a resistência à mudança, por outro há um horizonte alargado a que a língua portuguesa deve estar aberta. Na semana em que se comemora o dia da língua portuguesa e da cultura da CPLP, Hélder Lucas, Embaixador de Angola junto da CPLP lança o repto: "olhar para a cultura da diversidade como um instrumento para a adversidade".

Apesar da mistura, é cada vez mais evidente a vontade de uma maior simplificação, sem prejuízo de ninguém daquilo que une todos os povos da comunidade. Assim, em 1990 foi ratificado o novo Acordo Ortográfico, que Adriano Moreira defende, lembrando no entanto que nestas situações é melhor fazer Declarações e não Tratados, porque "a língua não é dominável, embora possa ser submissa no plano politico-económico".

Ana Paula Laborinho, antiga presidente do Instituto Camões (IC), realçou a importância de uma maior investigação em torno dos números que demonstram a expansão da língua pelo mundo e também o papel do Instituto, numa comunicação que evidenciava o "valor da língua portuguesa".

Para a professora universitária, há um interesse crescente na aprendizagem do português e também na adopção como segunda língua. Países como o Senegal, China ou República Democrática do Congo têm feito esforços nesse sentido.

Aquilo que nos junta muitas vezes também é o que nos separa, desta feita importa saber o que quer dizer Domingos Simões Pereira, Secretário Executivo da CPLP, por cultura desta comunidade.

"É algo que ainda estamos à procura de definir e identificar, mas no fundo é um encontro onde o português original se deixa influenciar pelas culturas africanas, brasileiras e timorenses".

Se por um lado a miscigenação ajuda-nos a identificar as identidades e a sabermos de onde vimos, por outro ela também contribui para o desenvolvimento da ciência e do conhecimento, como instrumento comum.

"A CPLP pode ajudar para uma maior liberdade na circulação de pessoas e de criação de obras, mas acima de tudo para uma maior abertura às instituições educativas, de saúde ou da cultura. Escolhemos a educação como o mais importante no meio de tudo isto, esse vai ser o nosso foco", explica o Secretário Executivo.

@Mayra Prata Fernandes

http://noticias.sapo.ao/vida/noticias/artigo/1150487.html

http://videos.sapo.pt/5IusZPWYn6SdD52DnFSr


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DICCIONARIO DA LÍNGUA BRASILEIRA 1832

DICCIONARIO DA LÍNGUA BRASILEIRA

Olga Ferreira Coelho *
O Dicionário da Língua Brasileira (DLB) foi publicado em 1832, em Ouro Preto, pela Tipografia de Silva, pertencente a Luiz Maria da Silva Pinto (1775-1869), o autor. No título, a expressão língua brasileira, em referência ao português utilizado no Brasil, chama a atenção não só porque língua portuguesa seria o esperado, mas também porque o autor demonstra ter consciência da ambiguidade do adjetivo escolhido, fato que o leva a esclarecer que a obra não se dirige ao tratamento das palavras e frases que “proferem os Índios”, como seus contemporâneos talvez tendessem a deduzir.

O DLB não reivindica, explicitamente, autonomia para o português falado na América. Diferentemente de trabalhos que seriam publicados no final do século XIX, não contém menção direta a qualquer nível de emancipação “do nosso Idioma” em relação ao português europeu. Não é também um dicionário que procure registrar exclusividades, isto é, um léxico somente empregado no Brasil. No entanto, apesar de estar aparentemente afastado dos projetos literários e linguísticos que animaram o século XIX, o DLB oferece rico registro de variantes do português que se usava àquela época no país. Curiosamente, parece ter sido decisivo para esse registro o fato de o autor ocupar-se da tipografia: das soluções gráficas e de organização de seu texto é que emergem dados sobre a diversificação da língua portuguesa no Brasil. Por exemplo, com o uso de asteriscos, demarca no corpo do texto os termos antiquados:

*Abrego, s.m. Vento Sudoeste.

*Fedo [com e aberto] por feio.

Outra solução, agora com vistas à ortografia, num momento em que ainda não há regulação oficial para isso, é dispor de modo especial os registros que se alternavam:

Lingoa, e melhor

Língua, s.f. parte carnosa, que se move dentro da boca. Linguagem, Idioma. Fig. Porção de terra, ou de mar. Língua de fogo, Labareda. Tomar língua Informar-se. Língua da balança, O fiel, o ponteiro que mostra o equilíbrio.

Com a apresentação de correções e sugestões, distingue usos populares aparentemente atestados de usos recomendáveis:

Parteleira, s.f. Outros dizem prateleira.

Preverso, por perverso.

Não há consistência absoluta na aplicação desses recursos ao longo da obra. Assim, por exemplo, ora se indicam as pronúncias e grafias concorrentes por meio da disposição sequencial das ocorrências envolvidas, seguidas da definição da palavra (v. lingoa / lingua), ora se fazem observações estritamente voltadas para a pronúncia (v. “Preverso por perverso”). Ainda assim, a variação linguística tende a ser registrada.

Ao lado desses aspectos relativos aos modos de apreensão e registro da língua, são dignos de nota os que dizem respeito ao perfil geral do texto: concebido como “portátil”, é um dicionário realmente sucinto, seja em relação à quantidade de itens lexicais descritos, seja em relação à composição dos verbetes. Estudiosos têm defendido, por meio da exposição de marcantes semelhanças, a hipótese de que ele corresponda a uma espécie de versão simplificada e resumida do Moraes. E, de fato, onde o Moraes apresenta séries de entradas pertencentes a uma mesma família de palavras, o Silva Pinto em geral contém apenas uma ou duas; enquanto o Moraes apresenta as variadas acepções de uma mesma palavra, o Silva Pinto destaca uma, ou algumas poucas delas. São ainda suprimidos exemplos e abonações. Não é o caso, no entanto, de tomar-se o DLB como simples resumo do de Moraes, seja porque, apesar do estilo o mais das vezes lacônico, nem
sempre seus verbetes são menos informativos (Moraes: Mamoeiro, s.m. Árvore que dá mamões; Silva Pinto: Mamoeiro, s.m. árvore do Brasil, que dá os mamões.), seja porque, por trás da brevidade, parece haver certo compromisso com a clareza (Moraes: Algaravia, s.f. Linguagem ininteligível, confusa: no mesmo sentido dizemos Falar Vasconso; Silva Pinto: Algaravia, s.f. Linguagem confusa, que não se entende).

O DLB certamente não tem a estatura do Moraes: as descrições são mais apressadas, menos precisas e, em alguns casos, menos corretas também. Silva Pinto também parece não se preocupar com índices de erudição, tradicionalmente dados pela etimologia e pela abonação oferecida pelos “clássicos”. Soube, porém, juntar a seu interesse pela língua as habilidades de editor-tipógrafo e, com isso, desenhar um volume prático e despretensioso, no qual se encontram dados interessantes acerca da língua e dos modos e estilos de descrevê-la.

Há alguns estudos recentes e bem fundamentados acerca do sentido de uma obra como essa no contexto do Império Brasileiro. Tais estudos têm se desenvolvido principalmente nas áreas de História, Historiografia Linguística e História das Ideias Lingüísticas. Neles, fazem-se boas conexões desse dicionário, e de outros dos anos 1800, com questões candentes no Brasil da época, como a étnica e a da identidade nacional. Talvez também seja tempo de restabelecer o Dicionário da Língua Brasileira como fonte para o estudo do português no Brasil.

Sugestões de leitura:
LIMA, Ivana Stolze Lima. Luis Maria da Silva Pinto e o Dicionário da Língua Brasileira (Ouro Preto, 1832). Humanas. Porto Alegre, v. 28, n. 1, p. 33-67, 2006.
COELHO, Olga Ferreira. Os nomes da língua: configuração e desdobramentos do debate sobre a língua brasileira no século XIX. Revista do IEB, 47, set. de 2008, p. 139-160.
PINTO, Edith Pimentel. O português do Brasil: textos críticos e teóricos. Fontes para a teoria e a história. Vol. 1, 1820-1920. São Paulo/Rio de Janeiro: Edusp/Livros Técnicos e Científicos, 1978.
* Olga Ferreira Coelho (CEDOCH-DL-USP).

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Como se fala em Moçambique…

 

 Como se fala em Moçambique…

 Como se fala hoje em Moçambique…


“São 6 da manhã. Moçambicano não dorme, ferra. O despertador toca. Ele não se levanta cedo, madruga. E não vai tomar duche, vai duchar. E não se arranja, grifa-se bem. Depois não toma pequeno-almoço, mata-bicha. E não bebe café solúvel e pão com doce, toma café batido e bread com jam. Não sai de casa para ir trabalhar, vai no serviço.

E quando chega ao local de trabalho não pede desculpa por ter atrasado, diz sorry lá, que tive problema de transporte. E não trabalha até ao meio dia, djoba até àquela hora das 12. E aí não pede ementa, pede menu. E não come, tacha. Não come batata frita, come chips. Não come salsichas, come vorse.
Não come costeleta, come t-bone. E não bebe uma laurentina preta, toma uma escura. E não fala com o amigo sobre a namorada, bate papo “brada, minha dama”. E não gosta muito, grama maningue. E na saída do restaurante não vê as mulheres que passam, aprecia as damas. E não seduz, paquera. E não faz convite, pede contacto. E não a segue, vai à sua trás. E não encontra um conhecido mais velho, apanha um jon cota. Na rua não compra cajú, compra castanha. E não tira fotografias, fota.

No escritório, a empregada não despeja o lixo, no ofice trabalhadora vai deitar. E não traz o jornal, leva. E não põe insecticida, baygona. E não tem reuniões, tem meetings. E no computador ele não escreve, taipa. E depois não faz impressão, printa. E não trabalha as fotografias em Photoshop, fotoshopa. E para fazer um intervalo não vê o patrão, tcheka o boisse. E não sai para dar uma volta, dá um djiko. E não escreve sms para a amiga colorida, manda mensagem para a pita. E não mente dizendo que está ocupado, mafia que tá bizi. Moçambicano não trai, cornea. Não caminha, estila. Não se faz de difícil, jinga.

Não acaba uma tarefa, ultima. E no fim do trabalho não vai, baza. E com os amigos não tem negócios, tem bizne com bro. E ao fim do dia não vai ao ginásio, djima. E não tem bicicleta, tem bikla. E não está musculoso, tá big. E não faz saudação batendo na mão do amigo, deketa. E não gosta de aproveitar a vida, enjoya laifa. De tarde não bebe chá e come pão com manteiga e queijos, toma chá. E não vai buscar a namorada que está num cabeleireiro distante, a arranjar as unhas e a fazer tranças no cabelo, vai apanhar dama que faz unha e entrança láaaaaaa no salão. E não bebem um refrigerante, tomam refresco. E a namorada não usa mini-saia e saltos altos e anda descapotável, põe sainha e uns saltos e tá descartável. E não lhe diz que é bonita, diz “tens boas”.

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Um verbo enjoadinho

PASQUALE CIPRO NETO

Um verbo enjoadinho


Formas como “requisesse” ou “requiseram” não encontram abrigo no padrão formal da língua


O QUE NÃO FALTA na caixa postal da coluna é pergunta sobre a conjugação de verbos complicados. A lista é grandinha e inclui “preciosidades” como “adequar”, “precaver”, “reaver”, “requerer”, “falir”, “prover”, “prever”, “provir”, “intervir”, “satisfazer”, “ver”, “entreter” etc.
Embora muitos desses verbos sejam conjugados no dia a dia e em muitos escritos como se fossem regulares, nas modalidades formais da língua suas singularidades ou irregularidades continuam prevalecendo. Em outras palavras, isso significa que, ainda que frequentemente se ouçam e se leiam construções como “Se o ministro intervir” ou “Se ninguém se opor”, gramáticas, dicionários, manuais e guias de uso continuam indicando como cultas as construções “Se o ministro intervier” e “Se ninguém se opuser”.
Posto isso, vejamos a conjugação de alguns dos verbos citados, começando por “requerer”. A conjugação desse verbo é particularmente delicada, a começar pela sua perigosa semelhança com o verbo “querer”. Já na largada, ou seja, na primeira do singular do presente do indicativo, “querer” e “requerer” se separam: de “querer”, temos “eu quero”; de “requerer”, faz-se “eu requeiro”.
Como acontece com 99,99% dos nossos verbos, o presente do subjuntivo do verbo “requerer” se apoia na primeira pessoa do singular do presente do indicativo. Moral da história: de “requeiro”, faz-se “que eu requeira, que tu requeiras, que ele requeira, que nós requeiramos, que vós requeirais, que eles requeiram”. Mas a coisa se complica mesmo no pretérito perfeito do indicativo e nos tempos que dele derivam, em que “querer” e “requerer” se separam de vez. Nesse tempo, “querer” é irregular (“eu quis, tu quiseste, ele quis, nós quisemos, vós quisestes, eles quiseram”), enquanto “requerer” é regular (nesse tempo, convém deixar claro): “eu requeri, tu requereste, ele requereu, nós requeremos, vós requerestes, eles requereram”.
Como se sabe, são três os tempos derivados do pretérito perfeito do indicativo, mais especificamente do radical da segunda pessoa do singular desse tempo, que, no caso de “requerer”, é “requere-” (esse radical resulta da eliminação da terminação “-ste”, o que vale para 101% dos verbos da língua portuguesa).
O primeiro dos tempos derivados do pretérito perfeito do indicativo é o pretérito mais-que-perfeito do indicativo. Ao radical (“requere-“) somam-se as terminações “-ra, -ras, -ra, -ramos, -reis, -ram”: “eu requerera, tu requereras, ele requerera, nós requerêramos, vós requerêreis, eles requereram”. O segundo desses tempos é o pretérito imperfeito do subjuntivo. Ao mesmo radical (“requere-“, lembra?), somam-se as terminações “-sse, -sses, -sse, -ssemos, -sseis, -ssem”: “se eu requeresse, se tu requeresses, se ele requeresse, se nós requerêssemos, se vós requerêsseis, se eles requeressem”.
O terceiro tempo derivado do pretérito perfeito do indicativo é o futuro do subjuntivo. Ao mesmíssimo radical (“requere-“) somam-se as terminações “-r, -res, -r, -rmos, -rdes, -rem”: “se (ou “quando’) eu requerer, se tu requereres, se ele requerer, se nós requerermos, se vós requererdes, se eles requererem”.
Como se vê, diferentemente do verbo “querer” (que é irregular no pretérito perfeito do indicativo e, por conseguinte, nos três tempos que dele derivam -“eu quis”, “eu quisera”, “se eu quisesse”, “quando/se eu quiser”), o verbo “requerer” é regular nesses quatro tempos. Moral da história: formas como “requisesse” (“Se ele requisesse os documentos hoje…”) ou “requiseram” (“Eles requiseram o adiamento…”), embora comuns em alguns registros linguísticos, não encontram abrigo no padrão formal da língua. É isso.

[Fonte: Folha de S. Paulo, 07.07.11]

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