>História Geral de África em 8 volumes grátis. Preciosidade para guardar

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8 volumes da edição completa.

Brasília: UNESCO, Secad/MEC, UFSCar, 2010.
Resumo: Publicada em oito volumes, a coleção História Geral da África está agora também disponível em português. A edição completa da coleção já foi publicada em árabe, inglês e francês; e sua versão condensada está editada em inglês, francês e em várias outras línguas, incluindo hausa, peul e swahili. Um dos projetos editoriais mais importantes da UNESCO nos últimos trinta anos, a coleção História Geral da África é um grande marco no processo de reconhecimento do patrimônio cultural da África, pois ela permite compreender o desenvolvimento histórico dos povos africanos e sua relação com outras civilizações a partir de uma visão panorâmica, diacrônica e objetiva, obtida de dentro do continente. A coleção foi produzida por mais de 350 especialistas das mais variadas áreas do conhecimento, sob a direção de um Comitê Científico Internacional formado por 39 intelectuais, dos quais dois terços eram africanos.

Download gratuito (somente na versão em português):

  • ISBN: 978-85-7652-123-5
  • ISBN: 978-85-7652-124-2
  • ISBN: 978-85-7652-125-9
  • ISBN: 978-85-7652-126-6
  • ISBN: 978-85-7652-127-3
  • ISBN: 978-85-7652-128-0
  • ISBN: 978-85-7652-129-7
  • ISBN: 978-85-7652-130-3
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quem tem medo da lusofonia

Quem tem medo da lusofonia?

Walter Filipe, que também se apresenta como Jamba Kaji, é um jovem angolano que estuda em Portugal. Ele e mais outros jovens, oito no total, acabam de editar um livro de poemas com o título Um Abraço Quente da Lusofonia. Segundo o organizador do livro, o objectivo é congregar, «numa só obra, poesia, sentimentos e a abordagem de vários países que fazem a lusofonia, mas com a sua diversidade própria». Como jovem empreendedor, viajou para Luanda com 50, certamente em bagagem de mão, dos 500 exemplares produzidos. Outros tantos foram levados a Maputo por outra integrante do projecto, Tânia Tomé, apresentada na sessão de lançamento pelo poeta Eduardo White, como «um poema, um poema vivo que canta e encanta». Anunciava-se na altura que o livro seria igualmente lançado em Cabo Verde, Guiné—Bissau, São Tomé e Príncipe, Timor e Brasil.
O lançamento deste livro, nos moldes em que se anuncia, é um facto importante. Esta compilação de poemas não foi patrocinada pelo Instituto Camões. Não podemos portanto dizer que por detrás dela haja qualquer intenção de proteger a língua portuguesa. Este trabalho colectivo resulta do esforço de sete jovens que vivem e estudam em Portugal, e que têm em comum, entre outras coisas, o uso da língua portuguesa.
Não é de todo acidental que estes jovens se encontrem em Portugal. Portugal é o único sítio onde se pode pensar a língua portuguesa, ou o conjunto de países de língua portuguesa como um todo. E isso justifica-se, por exemplo, por já haver aí uma genealogia de ideias semelhantes. Há mais de 50 anos, Mário Pinto de Andrade, na altura estudante de Filologia em Lisboa, reuniu os poemas de companheiros seus, entre os quais Francisco José Tenreiro, Noémia de Sousa, Agostinho Neto, num livro a que chamou Antologia Poética de Expressão Portuguesa. A inspiração vinha de Paris, onde, quatro anos antes, em 1949, Léopold Sédar Senghor tinha editado em França a primeira antologia de poetas negros.
Não é necessário explicar as intenções do gesto de Mário de Andrade. Por trás da poesia havia um projecto político para a formação de movimentos políticos que conduziriam à independência das colónias portuguesas. Desde esta altura, Lisboa tem-se mantido o centro da identidade lusófona. Antes pela exaltação do império, agora pela celebração da lusofonia. É inegável que existe em Lisboa uma aproximação natural dos falantes da língua portuguesa, que não portugueses, mesmo quando não partilham a mesma raça e cultura. As diferenças nacionais diluem-se em virtude da discriminação a que todos estão submetidos. E faz todo o sentido pensar nesta diluição como necessidade de resistência à discriminação, no sentido em que a metrópole torna homogéneos todos os ex-colonizados, arrumando-os nas categorias de “pretos”, “negros”, “imigrantes”.
Tornei-me sensível a isso pela minha experiência pessoal. Foi em Lisboa que me assumi como negro e africano, algo que até à altura em que deixara Luanda me tinha preocupado muito pouco. Na residência do Lumiar, com estudantes de outras proveniências (santomenses, caboverdianos, guineenses e moçambicanos), vivi momentos de fraternidade, digamos, lusófona. Nas festas dançávamos todos kizomba, e nos saraus, cantávamos Apili, Dju di Galinha, Eliza Gomara Saia, Sodade. Foi pois com espanto que, anos mais tarde, ao viajar por Cabo Verde e pela Guiné-Bissau, em recolha de material para escrever O Fazedor de Utopias, não me tenha sentido particularmente acarinhado por falar a mesma língua – quando encontrava, claro, pessoas que a falavam à-vontade.
No entanto, o discurso por detrás da lusofonia alimenta-se da ficção de que o simples facto de haver uma língua comum entre os povos que outrora formavam as colónias portuguesas potencia um sentimento de fraternidade. Esta ideia é capaz de ter vindo da antropologia contemporânea à época colonial, mais especificamente do que ficou conhecido por hipótese Sapir-Whorf: a sistemática relação entre as categorias de gramática da língua que uma pessoa fala e o modo como esta pessoa entende e interage com o mundo.
Este princípio encontra-se igualmente imbuído na obra de Gilberto Freyre, antropólogo brasileiro, instruído em várias universidades americanas, entre as quais a de Columbia, com Frantz Boas e Ruth Benedict. No seu livro Casa Grande e Sanzala, obra-prima tanto das ciências sociais como da imaginação brasileira, Freyre explica que o povo brasileiro resulta do cruzamento entre o português, o africano e, em menor grau, o índio. A mestiçagem é celebrada, apesar da violência inerente a todo o processo, como um encontro fraterno entre povos de três continentes nos trópicos brasileiros. Salazar, que era um homem de cultura e erudição, interessou-se logo pelas ideias deste teórico. Eram para si a melhor maneira de explicar o colonialismo português, contrapondo-o ao da França e Inglaterra. Num gesto de propaganda, convida Gilberto Freyre a visitar as colónias portuguesas. Pretendia-se que Freyre chegasse a conclusões semelhantes àquelas a que tinha chegado sobre os portugueses no Brasil. As reflexões saíram em forma de diário no livro Aventura e Rotina.
Mário de Andrade, Amílcar Cabral e outros nacionalistas empenharam-se na desconstrução deste mito, como forma de contestar a dominação colonial. O Estado Novo foi até às últimas para justificar o seu ponto de vista. Para se furtar às críticas da comunidade internacional, cada vez mais tonitruantes, já nem se falava em colónias, mas sim em províncias ultramarinas, apresentadas como verdadeiras sociedades multirraciais. Mas os nacionalistas da África Lusófona perderam a batalha ideológica, uma vez que o grosso do ideário do luso-tropicalismo ainda fermenta o discurso português sobre o passado colonial. A lusofonia foi construída sobre este conceito, celebrando o encontro entre colonizados e ex-colonizados, a mestiçagem, como se no seu subtexto não houvesse também silêncios, consentimento, violência, intolerância, genocídios e o ocaso de muitas culturas.
fotografia de Miguel Seabra Lopes, mindelo fotografia de Miguel Seabra Lopes, mindelo
E enganam-se todos aqueles que pensam que a apropriação de tais discursos está apenas circunscrita aos meios políticos, e que os seus objectivos são facilmente discerníveis na relação entre Portugal e as suas colónias, nomeadamente o de tornar privilegiadas as trocas comerciais. Este discurso já se infiltrou em alguns meios académicos. Boaventura Sousa e Santos surge na tradição do Gilberto Freyre quando, em Entre Próspero e Caliban: Colonialismo, Pós-Colonialismo e Inter-Identidade, resgata alguns aspectos da teoria do mestre brasileiro, filtrando-a no jargão da literatura pós-colonial, para afirmar que só um português, tirando partido da sua qualidade de subalterno na Europa, estaria talhado para realizar nos trópicos uma experiência de aproximação com os povos antigamente dominados.
A colectânea de poemas dos jovens lusófonos vai um pouco nesta linha. Não estamos perante um projecto político, muito menos académico, cujo fim confesso é a reciclagem do passado colonial. Estamos sim perante o esforço singular de um grupo de jovens lusófonos, muito provavelmente fora de qualquer um daqueles circuitos, mas que não deixam de ser indiferentes à dimensão pragmática que a evocação da palavra lusofonia confere, sobretudo num contexto português, fascinado ainda pelo seu passado, e ansioso por ouvir palavras de lisonja da boca dos ex-colonizados.
retirado do livro Poligrafia: das páginas de jornais angolanos, Casa das Ideias
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>Português Enquanto Língua da “Moçambicanidade”

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Moçambique: Português Enquanto Língua da “Moçambicanidade”

Moçambique: Português Enquanto Língua da “Moçambicanidade”

“o idioma português não é a língua dos moçambicanos. Mas, em contrapartida, ela é a língua da moçambicanidade.”

18-05-2011 No passado dia 5 de Maio comemorou-se em Maputo o Dia da Língua Portuguesa e Cultura da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Um dos grandes escritores contemporâneos africanos de literatura de expressão portuguesa, e o mais consagrado de origem moçambicana, Mia Couto, considera que 36 anos após a sua independência, com cerca de 40% da população a falar português, “apenas uma das nações de Moçambique já vive na lusofonia”, e defendia, em 2001, que “o idioma português não é a língua dos moçambicanos. Mas, em contrapartida, ela é a língua da moçambicanidade.”

Instrumento de dominação ou troféu da independência?
Se em 1975, cerca de 80 por cento dos moçambicanos não falavam português, fala-se hoje mais português em Moçambique do que se falava na altura da Independência.
Há 30 anos, a Frente de Libertação de Moçambique (FRELIMO), ainda na guerrilha anticolonial, viu no idioma lusitano uma arma para a unificação do país e a construção da Nação. Aquele instrumento que servira a dominação colonial se convertia, nas mãos dos nacionalistas, no seu contrário – um troféu de guerra, um pilar de afirmação.
Numa série de artigos no blog Moçambique para Todos, sobre o livro “Descolonização e Independência em Moçambique – Factos e Argumentos” de Henrique Terreiro Galha, é citado o líder revolucionário e primeiro presidente de Moçambique, Samora Machel, em finais de 1975, num comício no Estádio da Machava, na então cidade de Lourenço Marques (hoje cidade de Maputo):

  • outros dirão mas a língua ainda é portuguesa. É preciso utilizar a língua do inimigo. A língua portuguesa agora já mudou de conteúdo, não é aquele português que era falado pelo senhor Governador em Moçambique. Deve ser o nosso português de moçambicanos.

Galha acrescentava ainda que:

  • O português era o único veículo de comunicação entre as diversas etnias. Foi uma decisão difícil, tomada a contra-gosto. Num seminário realizado em Mocuba (Zambézia), no início de 1975, com a presença de Joaquim Chissano, foi salientado e relembrado, como tarefa dos grupos dinamizadores, “a necessidade de transformar (sic) a língua portuguesa, de instrumento de despersonalização e opressão, em veículo de comunicação do Povo.”Placa de aviso na Zambézia "Cuidado com crocodilo N'Gona" Imagem do Jornal @Verdade.
Placa de aviso na Zambézia “Cuidado com crocodilo N’Gona” Imagem do Jornal @Verdade.

Um português particular
Embora os dados existentes ilustrem que a maioria dos moçambicanos se comunica através das 43 línguas nacionais, a língua portuguesa é considerada como um dos elementos de Unidade Nacional.Segundo Mia Couto “o governo moçambicano fez mais pela língua portuguesa que séculos de colonização (…) seu próprio interesse nacional, pela defesa da coesão interna, pela construção da sua própria interioridade”. Num debate realizado no Centro Cultura Brasil-Moçambique a propósito do 5 de Maio o ministro da Cultura, Armando Artur, reafirmou que a língua portuguesa faz parte do património linguístico de Moçambique, coabitando com as línguas nacionais:

  • Com o advento da Independência Nacional, ela viu o seu prestígio mais reforçado com a sua adopção como um elemento de Unidade Nacional, passando, deste modo, a ostentar o estatuto de língua oficial em Moçambique.

O governante e escritor moçambicano acrescentou que cada vez mais os moçambicanos apropriam-se da língua portuguesa através de um processo de interacção, entre esta e as línguas nacionais, atribuindo-lhe marcas e aspectos próprios, que se consubstanciam em novas palavras e novas expressões.

A expressão "Andar fora é maningue arriscado" significa "trair é muito arriscado". Maningue é uma palavra tipicamente moçambicana, que quer dizer "muito" e vem de "many", do inglês. Todos os países que fazem fronteira com Moçambique tem o inglês como suas línguas oficiais. Imagem de Amanda Rossi, usada com permissão.

A expressão “Andar fora é maningue arriscado” significa “trair é muito arriscado”. Maningue é uma palavra tipicamente moçambicana, que quer dizer “muito” e vem de “many”, do inglês. Todos os países que fazem fronteira com Moçambique tem o inglês como suas línguas oficiais. Imagem de Amanda Rossi, usada com permissão.

Porém este elemento de Unidade é questionado por vários quadrantes da sociedade. Já em 2009, num comentário a um artigo do blog Moçambique para Todos, Elisio Fonseca apontava:

  • Em nome da “unidade nacional” o nosso governo colocou um manto sobre a nossa cultura, menosprezando o ensino das línguas, hostilizando todos os nossos valores culturais. Há linguistas que consideram isto um erro tremendo. Para eles, a capacidade de um adolescente moçambicano em aprender uma língua estrangeira, seja o português ou o inglês, mede-se pelo domínio que tem da língua nativa. Sem esta base sólida, argumentam, torna-se mais difícil essa aprendizagem. Mas o erro foi feito, e hoje reflecte-se no nível do português falado entre muitas camadas da nossa sociedade.

Max Coutinho, do blog Etnias, um exemplo de “inexactidão recorrente” que reflecte esse “nível” mencionado por Fonseca no uso da língua oficial:

  • Os cidadãos de Maputo, tanto em solo nacional como na diáspora, confundem os verbos Ir (deslocar-se de um lugar para outro para lá ficar; afastando-se) e Vir (transportar-se para cá).

Fátima Ribeiro, Licenciada em Línguas e Literaturas Modernas, comenta:

  • O Português falado em Moçambique é diferente do falado noutros países lusófonos. Nós estamos a construir o nosso Português que tem várias influências das nossas várias línguas maternas e também do inglês. É um Português que, em termo de vocabulário, gramática e estrutura, é diferente naturalmente.

A decisão de Moçambique em ratificar o Acordo Ortográfico, que pretende unificar o português falado nos países que o têm como língua oficial, tem estado em análise há mais de dois anos. Na blogosfera, muitos questionam se “vale a pena gastar 111 milhões USD para alterar a língua”, como Eduardo Quive, do blog Quivismo, num relato aprofundado sobre o debate do 5 de Maio.
Ao mesmo tempo, nos últimos anos, Moçambique tem vindo a introduzir as línguas nacionais no sistema de ensino para o desenvolvimento da educação no país. Presentemente, existem 300 escolas a leccionar em duas línguas e estão a ser testadas mais 16 línguas nacionais.

Sobre a lusofonia e outras línguas faladas nos países de língua portuguesa, leia também os seguintes artigos que o Global Voices publicou em 2011:
Declaração de amor à língua portuguesa, na sua multiplicidade de falares, Fevereiro de 2011
Cabo Verde: O Crioulo no Dia da Língua Portuguesa
, Maio de 2011

 

FOTO: “Não ao estigma!” Mural bilingue em Nampula. Foto de Rosino no FLickr (CC BY-SA 2.0)

FONTE: PT.Global Voices

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MACAU “O português tem futuro no território”

“O português tem futuro no território”

Por Filipa Queiroz | 13 Abr 2011 | Enviar por email

Linguistas defendem papel de Macau na promoção da língua portuguesa
Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara aplaudem o desenvolvimento do ensino do português na RAEM e defendem o papel unificador do Acordo Ortográfico que esperam ver ser implementado em breve no território

O ensino do português em Macau está de boa saúde e recomenda-se, pelo menos é essa a visão de João Malaca Casteleiro. O professor e linguista português da Academia de Ciências de Lisboa foi um dos oradores da sessão da tarde de ontem do 15.º Colóquio da Lusofonia. Na sua apresentação sobre os “28 anos de Labuta pelo Ensino do Português em Macau e na China”, Malaca Casteleiro fez um balanço “muito positivo” da evolução não só do ensino como da promoção do idioma luso no território, frisando a importância do apoio chinês nessa tarefa.
“O português é uma língua desejada e promovida pelos chineses. A China está muito empenhada e envolvida nas relações comerciais com os diferentes países de língua portuguesa, nomeadamente a África e o Brasil”, explicou o linguista em entrevista ao Hoje Macau à margem do Colóquio. Malaca Casteleiro frisou que há milhares de alunos a aprender português em Macau, o que confirma o reconhecimento do ensino da língua como factor de identificação cultural no território. “Embora não seja uma língua de comunicação na rua, é importante esta ligação e esta presença.”
Malaca Casteleiro garante que a “inevitável” expansão da língua inglesa na RAEM, nomeadamente nas instituições de ensino, não constituiu uma ameaça à língua de Camões. “O português já teve este papel no passado, seguido do francês e a partir da Segunda Guerra Mundial foi a vez do inglês se sobrepor e generalizar.” O académico considera que em Macau há espaço para a convivência das três línguas – o chinês, o português e o inglês. Casteleiro frisou que o estímulo da educação trilingue desde tenra idade é muito importante e deve ser estimulada nos estabelecimentos de ensino.
Evanildo Bechara, responsável pelo vocabulário ortográfico no Brasil e outro dos oradores do painel de ontem, confessou-se comovido. “Hoje [ontem], na cerimónia de abertura, assistimos a um facto que chega a ser emocionante, vimos macaenses com um mês de curso intensivo de português a recitar poemas e cantar canções com emoção e justa pronúncia do português, o que representa um grande esforço da juventude no sentido do estudo do idioma luso”, confessou o académico de 83 anos em entrevista ao Hoje Macau.
O linguista e membro da Academia de Letras do Brasil considera que “o português tem futuro no território, não só como componente cultural, histórica e política mas também, e mais do que tudo, comercial”. “Hoje os países de língua oficial portuguesa representam um peso importante na comunidade comercial do mundo, estando a China em primeiro lugar como exemplo dessa audácia de ocupar o primeiro lugar do lado económico do mundo”, apontou Bechara.
Uma questão ortográfica
Em Macau o português que se aprende nas instituições de ensino ainda não é aquele revisto pelo Acordo Ortográfico ratificado em 1990 pelos governos português e brasileiro. Tão pouco o português que se escreve neste jornal, e em todas as publicações e documentos do território, fizeram desaparecer o “p” da palavra “óptimo” ou o “c” da palavra “acção”. Mas o autor da “Moderna Gramática Portuguesa” considera que esse dia pode estar próximo. “Faz todo o sentido. Você nunca faz uma reforma para complicar. Quando faz uma reforma em sua casa, os objectivos são a simplificação e funcionalidade. Este Acordo atinge esses dois propósitos.” Evanildo Bechara acrescentou que “numa região que é historicamente de encontros entre o Oriente e o Ocidente, Macau pode representar uma grande ajuda na implementação do acordo dada a sua voz cultural, responsabilidade histórica e trabalho profundo junto à China ou com a China, no sentido de preparar professores para a língua portuguesa.”
É sabido que a implementação do Acordo Ortográfico não tem decorrido da mesma forma no Brasil e em Portugal, onde continua a merecer cerradas críticas. Mas Evanildo Bechara desdramatiza. “Toda a adopção do Acordo é precedida de brigas homéricas, isso aconteceu em 1911, depois em 1915, depois em 1930, depois em 1943, depois em 1945, de modo que em 1990 já estava com a experiência calejada dessas brigas”, justificou o linguista. Bechara recordou que a primeira “briga” começou entre monárquicos e republicanos em 1911 – a primeira reforma ortográfica em Portugal foi publicada no Diário do Governo a 12 de Setembro desse ano – e, como qualquer mudança de hábitos, continua a ser recebida “com perplexidade”.
A velha questão
Contrariando a opinião de muitos, apoiada por pesquisas que indicam que o Acordo Ortográfico alterou 1,6% do vocabulário de Portugal e 0,5% do vocabulário do Brasil, Bechara defende que os brasileiros são quem tem de fazer as maiores cedências, nomeadamente no que toca à acentuação das palavras. “Quem faz esses comentários não leu o Acordo, cuja base remonta a 1945 e volta às técnicas e usos da escrita do português de então”, justifica. “Na ortografia de Portugal há um abuso no emprego das consoantes que não se pronunciam e que ocupam muito espaço no léxico português. Isso é uma dificuldade para as crianças que são obrigadas a escrever uma letra que não ouvem”, explica. O linguista acredita que a reforma vai ser “definitiva” e valiosa. “É um grande marco deste momento da lusofonia para que cheguemos a uma unidade ortográfica que é fruto da maturidade política, cultural e económica dos países de falam língua oficial portuguesa.”
João Malaca Casteleiro, que participou na redacção do Acordo Ortográfico, garante que a sua entrada em vigor é “irreversível” apesar da “hesitação e atabalhoamento” que têm impedido a implementação pacífica da reforma em Portugal, entretanto agravada pela situação financeira do país. “Não há recursos, de modo que não se podem fazer omeletas sem ovos. Mas já existe o reconhecimento de que investir na língua portuguesa é também investir na economia e relações culturais e promoção do país no estrangeiro”, desenvolve.
Deste lado do globo, na óptica de Malaca Casteleiro a ausência de crise e manifesto empenho da China no estímulo ao ensino do português apresenta-se como um sinal positivo que o linguista espera ver ganhar forma brevemente com a ratificação do Acordo que, vinca, “foi feito a pensar nas novas gerações”.

Colóquios passam pela Livraria Portuguesa
Por volta das 18h de hoje, a Livraria Portuguesa junta-se ao 15º Colóquio da Lusofonia com o lançamento de três obras de autores que estão em Macau para participar no evento. Vasco Pereira da Costa traz a sua colectânea de poesia “Fogo Oculto”, dedicado às ilhas como espaços geográficos e às recordações que deixam. Anabela Mimoso, autora que se dedica aos escritores açorianos do final do século XIX e à literatura infanto-juvenil, apresenta “Os Búzios” e Chrys Chrystello lança o segundo volume de “ChrónicAçores”, obra que, segundo o autor, “continua a fazer a sua circum-navegação, da Austrália a Timor, Macau, Bragança e Açores”. A académica Concha Rousia fará ainda uma apresentação das últimas obras da Academia Galega da Língua Portuguesa, todas escritas na variante galega portuguesa.

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Escrito por Filipa Queiroz em 13 Abr 2011. Arquivado sob Destaque, Sociedade. Pode seguir todas as respostas sobre esta entrada através de RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada
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lusofonia e sinologia

Macau – sinologia para a lusofonia

Por Luis Sá Cunha | 30 Set 2010 | Enviar por email Para Wu Zhiliang, é claro e indiscutível que “o maior valor da existência e sobrevivência da região é o factor cultural, o seu legado histórico e cultural”, que, assim, “tem a responsabilidade de promover o intercâmbio luso-chinês”.
A recorrente repetição do discurso é sempre sintoma da esterilização do verbo que, devendo enchê-lo, apenas o incha. Falam pouco as gerações ativas e realizadoras, falam muito, as estéreis. Como alguém disse, os portugueses ficaram desempregados depois de terem ido à Índia. Há séculos só falamos do passado, por isso Vasco Graça Moura nos dizia há anos que Portugal devia projetar-se ao futuro “sem utopias de retrovisor”.
Durante vinte e cinco anos nos enfastiámos com o saturado discurso do encontro de culturas em Macau, tema obrigatório dos milhentos discursos ouvidos na terra que foi, de facto nos seus começos e durante dois séculos, o centro de acolhimento e distribuição dos agentes culturais que protagonizaram o maior fenómeno de compenetração cultural alguma vez realizado na História, no juízo de Joseph Needham, o maior sinólogo do século XX.
E, no entanto, Macau sempre continuou ancorada à sua vocação e destino, no mesmo sítio, no encruzamento das mesmas inalteráveis coordenadas geográficas, animada das mesmas potencialidades. Na nossa vocação, caráter e destino como comunidades seremos sempre escravos da geopolítica. Sempre aguardaremos as “condições objetivas” favoráveis da passagem a ato das nossas potências, na linguagem aristotélica, como a nau envergada espera no porto a chegada dos ventos de favor. Cabe aos homens atualizar nos tempos transientes o que está em latência, renovar o mesmo de outras formas e modos. Eis que sopram já agora os ventos da renovação, Macau enfrentada ao seu destino intemporal.
UMA ESTRATÉGIA
Há anos aguardávamos com alguma frustração e impaciência que, depois de plataforma de trocas comerciais da RPC com os países lusófonos, Macau se transformasse, simultaneamente, num verdadeiro e ativo centro de intercâmbios culturais nos dois sentidos, em continuada e renovada concretização das suas potencialidades. A entrevista que o novo presidente da Fundação Macau deu à Lusa (e aqui publicada neste jornal) foi, em anos, a mais notável declaração pública de intenções e o mais claro e rasgado desígnio de estratégia cultural para Macau, na sua radiação para o exterior, a que pudemos assistir. Wu Zhiliang, historiador, com perfeito domínio do Português, profundo conhecedor de Macau, das suas constantes e vocações, acumulando larga experiência na vida institucional da terra, veio falar com clareza e rasgo: não só deixou o desenho das linhas teóricas como avançou logo com gestos e atos iniciadores da concretização dos projetos, com a convicção de quem sabe que está certo e em sintonia com as mais altas instâncias do poder.
Basta-nos para acreditar. Para ele é claro e indiscutível que “o maior valor da existência e sobrevivência da região é o fator cultural, o seu legado histórico e cultural”, que, assim, “tem a responsabilidade de promover o intercâmbio luso-chinês”. Para estimular colaborações, Wu Zhiliang falou na procura de parcerias para a realização de iniciativas culturais em vários domínios, enfatizando a necessidade de promover a tradução e a edição de obras em Português e Chinês.
Convém, e é a simples razão destas linhas, não deixar, porém, a concretização desejada à disparidade desorientada, convindo apontar igualmente alguns sinais à navegação, noutros termos, adiantar igualmente um esboço de estratégia para a acção, no respeito da espontaneidade das iniciativas concorrentes.
UM CENTRO DE SINOLOGIA
Falar em intercâmbio luso-chinês será falar, legitimamente e em primeiro lugar, na privilegiada relação entre a China e Portugal, forjada no longo convívio de séculos e ratificada nos tratados bilaterais. Mas hoje e cada vez mais, considerar a Língua é considerar o seu espaço, no caso o “ continente” da lusofonia. Força de razões históricas e afetivas, Macau tem uma específica motivação para o cultivo das relações com Portugal mas, como agente intermediário da RPC, o seu mapa de ação serão todas as geografias e comunidades onde as pessoas se conversem em Português.
A lusofonia é um dos quatro ou cinco espaços linguístico-culturais em expansão e ascensão no mundo (de parelhas com a projeção político-económica), a RPC tem uma parceria estratégica com Portugal e tem na geopolítica global uma relação de complementaridade estratégica com o Brasil. Aspirando a transformar-se na maior potência mundial, a China sabe que as relações internacionais de protagonismo têm que ir escorar-se na cultura, porque o comércio é uma guerra latente. A política é o universo dos acidentes, a cultura o universo das essências.
A China – a sua história e traves-mestras da sua cultura e civilização – é grandemente desconhecida no mundo e muito especificamente nos espaços de língua portuguesa e também espanhola, o que, entre outras desvantagens, conduz à incompreensão de muitas das linguagens e atitudes usadas pelos dirigentes da RPC, sobretudo em situações sensíveis, confrontadas com mundividências ocidentais. Não há, ainda hoje, à semelhança do que têm as línguas inglesa e francesa, uma sinologia de língua portuguesa. A Espanha despertou há quinze anos para esta lacuna, com o governo de Madrid a orçamentar verbas nunca vistas a duas universidades para o rápido desenvolvimento dos estudos sobre a China. Hoje assistimos à invasão crescente das universidades norte-americanas por jovens estudantes chineses, à queda das línguas europeias nos currículos em favor do mandarim.
Portugal teve a primeira sinologia do mundo, foi através de alguns portugueses que a Europa primeiro conheceu o grande e fascinante Império do Meio (Gaspar da Cruz, Frei José de Jesus Maria, Álvaro Semedo), Macau foi base importante e decisiva de toda o operação das trocas culturais Europa-China em Pequim. As emergências de testemunhos sinológicos em Português, ao longo dos séculos, por desgarradas e dispersivas, fruto de assomos individuais sem continuidade, não justificaram o poder falar-se de uma sinologia portuguesa, em contraste com outros povos europeus.Por intimação da grande história, os portugueses viajaram e experimentaram mais e escreveram menos, os outros viveram menos e escreveram mais.
Macau tem agora a oportunidade histórica de promover a recuperação do tempo perdido, porque reúne as condições históricas para se erigir como um centro de sinologia para a lusofonia. Um projecto destes teria aliás eficácia redobrada, com facilitada extensão para o universo da latinidade, dada a semelhança linguística e o aproveitamento dos trabalhos de base (estudos, interpretação, tradução, enquadramentos, etc.) e a realização de encontros e seminários de formação. Macau, de novo, reencontrar-se-ia com o seu destino de protagonista da globalização, reeditando em novos moldes o seu papel do Século XVI, quando também foi base das comunicações da China e do extremo oriente para a América do Sul.
O jogo será uma diferença mas nunca um fator de identidade. É um expediente. Mas a componente lusófona, assim considerada e fundamentada, será indiscutivelmente uma das faces da personalidade de Macau e da imagem que projetará para o mundo
CULTURA PARA A IDENTIDADE
Vimos, há anos, a tentativa de vulgarização da medicina tradicional chinesa pelo mundo. As coisas andaram, muito à cúria de iniciativas individuais, com muita superficialidade e demagogia, também, pelo meio. A China continua muito distante do mundo, o que permite os erros e equívocos e convida às adulterações. Assistimos recentemente, na imprensa mais divulgativa, à promoção do feng shui, sem cabal enquadramento explicativo das suas raízes e fundamentos, sem se alertar que é prática geomântica em abandono na China há muito (com rara excepção de Macau).
Mas a China forneceu ao Brasil um contributo cultural decisivo para forjar a sua identidade imediatamente a seguir à proclamação da sua independência, instilando-se na sociedade, hábitos e práticas culturais que deram à nova nação uma componente oriental. É enorme e surpreendente a lista daqueles contributos. Atendendo às fortes relações que a China vem tendo com jovens nações, sobretudo em África, também em génese histórica de própria identidade, algumas já com forte presença migratória, como é o caso de Angola, é pertinente considerar-se a bondade do que atrás dissemos sobre a oportunidade do desenvolvimento de uma sinologia de língua portuguesa.
Macau tem condições e potencialidades únicas para ser operadora de um grande movimento cultural com repercussões vastas no mundo, como centro de sinologia e de estudos sinológicos para o universo de língua portuguesa, instituindo aqui esses estudos sistematicamente, instituindo um curso superior de estudos lusófonos, apoiando projetos estratégicos editoriais orientados para aqueles objetivos, incentivando e apoiando outras associações da sociedade civil vocacionadas para a organização de serviços e iniciativas linguístico-culturais etc.. E Macau teria, com poucos custos, um gesto de grande magnetização do seu protagonismo neste campo, se centralizasse num só edifício na cidade vários serviços, instituições e representações vocacionados para a promoção dos intercâmbios com o universo lusófono, nos campos diplomático, comercial e cultural. Não há ainda em Macau representações consulares de todos os países lusófonos. Não temos dúvidas de que este gesto seria catalizador de novas participações e entusiasmos, definitiva achega para a transformação de Macau em centro eficaz de intercâmbios entre os mundos chinês e lusófono. O jogo será uma diferença mas nunca um factor de identidade. É um expediente. Mas a componente lusófona, assim considerada e fundamentada, será indiscutivelmente uma das faces da personalidade de Macau e da imagem que projetará para o mundo, tanto mais futura quanto radica na sua perene vocação.
[ilustração de Carlos Marreiros]

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Escrito por Luis Sá Cunha em 30 Set 2010. Arquivado sob Destaque, Opinião. Pode seguir todas as respostas sobre esta entrada através de RSS 2.0. Você pode deixar uma resposta, ou trackbacks a esta entrada

2 Comentários para “Macau – sinologia para a lusofonia”

  1. Zemanel

    Aqui o Nibor tem razão nalguns aspetos. A RAEM deve apostar em algo de mais concreto para os Países Lusófonos. Mas não se esqueça também que o Secretariado do Fórum em Macau foi criado para também dar de comer a muitos “vegetativos” que nada fazem e produzem mas que “mamam” umas dezenas de milhares de patacas por mês com direito a tudo (transporte, alojamento) e de quando em vez um passeio por aqui e acolá a expensas do nosso erário. Trabalho? Mo Ah! Sabia, por exemplo, que é considerado acerto de lotaria poder vir a trabalhar aí? Por isso Rita Santos MANDA e com peso, basta ver como o seu pessoal de apoio foi recrutado e quem foi recrutado em Macau para perceber melhor. Portanto não te irrites, Macau, como noutras paragens o compadrio vence!

  2. NIBOR

    Apenas discursos – se a Lusofonia é tão importante porquê que o Governo de Macau não prove isso, aproximando mais dos Países da Lusofonia ? Sendo a Lusofonia tão importante, o que fez o Governo de Macau durante uma década, tendo visitado toda a Ásia mas esquecido que a Lusofonia está espalhada por 5 continentes. Porque o Governo não revoluciona e põe alguém com visão no Fórum China/Lusofonia, a única unidade, concebida pela China na RAEM com vocação de fazer alguma coisa em prol das relações Macau/China/Lusofonia ? Sendo a Lusofonia tão importante porque temos cada vez mais menos estudantes lusófonos da RAEM e os que cá estão vivem na rua da amargura, na sua grande maioria sem bolsas ou com bolsas canceladas pela própria fundação Macau, porque vive mercê de caprichos e insiste que os alunos devem estudar apenas na Universidade de Macau, embora se sabe que esta não esta qualificada para receber gente que venha de um sistema de ensino de matriz lusófona? Enfim, discurso para boi dormir!!!!

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língua portuguesa tem um valor potencial de 17% do PIB

O ISCTE desenvolveu um estudo em que concluiu, também, que a língua portuguesa tem um valor potencial de 17% do PIB nacional, sobretudo observando o cálculo da média ponderada do peso da língua em atividades económicas como a comunicação social, as telecomunicações ou o ensino.

08-05-2011

Comemorou-se, ontem, o Dia da Língua Portuguesa e da Cultura na Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). Não sabia?..Pois, não admira, lamentavelmente.

Nunca, como hoje, a expressão de Fernando Pessoa – “a minha pátria é a minha língua” – foi tão pertinente e atual. Num mundo global a língua apresenta-se como elemento estratégico de preservação identitária e com um valor económico agregado. Há, ainda, quem o não tenha compreendido…

Os espanhóis, há uns anos, concluiram que a língua espanhola representa 16% do Produto Interno Bruto da economia nacional. Acresce, que o espanhol ajuda à multiplicação por dois ou três das exportações, pois alarga os mercados que têm um idioma comum, sobretudo na América Latina, mas também nos EUA onde um hispânico bilingue recebe um salário cerca de 2,7 vezes mais elevado do que os que apenas falam inglês.

Curiosamente (ou talvez não), o ISCTE desenvolveu um estudo em que concluiu, também, que a língua portuguesa tem um valor potencial de 17% do PIB nacional, sobretudo observando o cálculo da média ponderada do peso da língua em atividades económicas como a comunicação social, as telecomunicações ou o ensino.

Não haja dúvidas, é manifesta e inquestionável a relevância da língua portuguesa para a geração de novas oportunidades de trabalho e de novos mercados para as empresas portuguesas; sobretudo no atual contexto.

Viver fora de Portugal e num mercado como o brasileiro, com 200 milhões de cidadãos, tem-me permitido compreender (como nunca) a dimensão do falhanço das estratégias lusas para a promoção do português e da economia nacional associada. Mas ainda vamos a tempo!..

Ricardo Castanheira

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Mia Couto: “O Brasil vai ser a nossa estrela guia”

 

Mia Couto: “O Brasil vai ser a nossa estrela guia”

Por Pedro Vaz Marques / iOnline
O escritor acha que a grafia é uma distração, a crise uma oportunidade e o clima está fora do nosso alcance
É um dos escritores de língua portuguesa com maior destaque a nível mundial. Pensa que a nossa língua é o nosso maior bem?

Não sei muito bem. Acho que nós provavelmente glorificamos e veneramos esta entidade a que chamamos língua portuguesa. Ela existe num contexto de história, de partilha de saberes, de partilha de culturas, de histórias com “h” minúsculo que me parece que não podem ser separadas. Normalmente, pensamos neste entidade como um corpo que depois se autonomiza e é tratado por linguistas e é objeto de acordos e desacordos. Acho que essa fusão de pequenas histórias, de coisas, vai para além desse corpo a que chamamos língua. É uma carga de sentimento, está incorporado, constitui uma memória genética. Não é que eu não queira celebrar a língua portuguesa como um património que evidentemente é importante e nos coloca no mundo como um corpo coletivo que é a comunidade dos países de língua portuguesa, mas acho que não devemos ficar prisioneiros desse elemento redutor.

O Brasil é visto como uma das grandes potências de futuro e é já uma das maiores economias a nível mundial. É pelo Brasil que passa o futuro de países como Portugal, mas também Angola e Moçambique?
É praticamente inevitável, pela força económica e pela vitalidade do Brasil. Não se trata apenas de uma potência económica, mas também cultural e demográfica. O Brasil será a nossa estrela guia, para o bem e para o mal, e eu não vejo problema nenhum nisso. Felizmente, sou de um país pequenino, que não tem pretensão nem nunca teve de ser líder de qualquer coisa.

Falemos então do acordo, ou desacordo ortográfico. Como natural de Moçambique e falante da língua portuguesa, o que acha deste acordo, que já está em vigor, para o bem ou para o mal?
Não sou um militante contra o acordo. Não me reconheci em algumas da razões que foram invocadas para chegar a este acordo, como por exemplo que este acordo facilitaria um melhor entendimento entre a língua. Sempre li livros do Brasil e com o maior prazer, pelo facto de eles terem uma grafia ligeiramente diferente. Os meus livros e os de Saramago são publicados com a grafia original e nunca ninguém se queixou. Acho inclusivamente que há uma diferença na grafia que só traz valor. Mas não faço guerra ao acordo. As nossas guerras são outras, é perceber porque é que nós, países de língua portuguesa como Portugal ou Moçambique, estamos tão distantes do Brasil, porque é que o Brasil está tão distante de nós. Por que razão é que um filme português no Brasil tem de ser legendado. Porque é que quando eu chego ao Brasil e digo que sou de Moçambique, ninguém sabe onde é ou o que é Moçambique.

É ecologista e biólogo de formação. Diz-se muito que não estamos a tratar bem o nosso planeta. Quais são então os grandes desafios, o que temos que fazer para salvar a Terra?
Há aqui uma fabricação de medo, uma visão de Apocalipse na qual eu não alinho e a presunção de que nós somos o centro. A ideia de que o homem tem de proteger o planeta e salvar a natureza é uma conceção quase infantil. O nosso primeiro dever é perceber determinadas coisas que vão muito para além da arrogância do ser humano. Falamos com uma facilidade enorme do clima, das previsões sobre as mudanças climáticas, mas a verdade é que grande parte das razões que regem o nosso clima estão para além do nosso alcance. Por outro lado, as notícias apocalípticas vendem bem. Uma notícia que diga que ainda não sabemos bem os efeitos dos raios ultravioletas ou do dióxido de carbono não vende.

A sua escrita fala muito de sensações, da pele, do ser humano. Numa altura em só ouvimos falar de agências de rating, acha que temos de voltar à nossa essência?
Estamos no caminho errado, mas não sei se o verbo seria “voltar”. Temos de avançar e construir uma outra visão do mundo. Aquilo que chamamos “a grande crise” vai ser muito produtiva, porque nos vai pôr perante novas soluções, novas emergências, novos enquadramentos.
Por exemplo, fora dos contextos tradicionais das assembleias e dos partidos, jovens em várias partes do mundo pegaram nas rédeas, usando mecanismos modernos, como a internet, o twitter, o facebook, e criaram um movimento de mobilização. De repente é tudo imprevisível. Não sabemos e temos muito medo de não saber.
Fomos educados para pensar que o mundo é previsível e quando não é ficamos aterrorizadíssimos. Há uma grande alegria de dizer não sei hoje. Temos de reaprender coisas que são básicas, como por exemplo a distinção entre saber e sentir. Valorizamos o saber como coisa masculina e desvalorizamos o sentir como coisa feminina. Isso é absurdo. São fronteiras que arbitrariamente construímos. Não sei onde termina o saber e começa o sentir. São fundamentos do nosso conhecimento que temos de contestar.
Sou um otimista sem esperança. Penso que não chegámos ao fim e há sempre algo a fazer.

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