Ryanair não perdoa Cristiano Ronaldo: “Se ele consegue ficar sentado…”

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Companhia aérea irlandesa, conhecida por ser bastante provocadora e mordaz nas redes sociais, decidiu brincar com o tema do momento, apontando para o facto de Cristiano Ronaldo não ter saído do banco frente à Noruega.

Source: Ryanair não perdoa Cristiano Ronaldo: “Se ele consegue ficar sentado…”

Não me preocupa onde Ronaldo vai dormir esta noite. Preocupa-me onde tu vais conseguir viver amanhã.

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Ronaldo é bilionário. Tem casas e propriedades em vários países e uma mansão em Portugal avaliada em dezenas de milhões.
Não me preocupa onde Ronaldo vai dormir esta noite.
Preocupa-me onde tu vais conseguir viver amanhã.
Porque, enquanto ele escolhe em qual das casas vai dormir, o Governo (com a ajuda do CHEGA) está a mexer nas regras da casa onde tu vives.
Mas antes, olha para os números.
O aumento anual do preço das casas passou de 8,2% em 2023 para 17,6% em 2025.
No segundo trimestre de 2026, as casas subiram 16,5% em Portugal.
Três vezes e meia o ritmo europeu.
Em 2025, o rendimento disponível das famílias subiu 5,7%.
O preço das casas subiu 17,6%.
Três vezes mais depressa do que aquilo que ganhas.
Nas rendas, a mediana dos novos contratos chegou aos 10,17 euros por metro quadrado.
Mais 10,2% num só ano.
No futebol, a isto chama-se goleada.
E foi precisamente com este marcador que, a 30 de Setembro de 2026, o Governo levou ao Parlamento uma nova reforma do arrendamento.
O Chega ameaçou chumbar.
Na hora de votar, absteve-se.
Foi essa abstenção que deixou a proposta seguir para a especialidade.
O que o Governo quer ???
— acabar com o travão de 2% às rendas entre determinados contratos sucessivos;
— flexibilizar a oposição à primeira renovação;
— reduzir de três para dois meses a mora necessária para avançar para a resolução do contrato;
— permitir mais rendas antecipadas e acabar com o limite às cauções (este último, um dos pontos que o Chega exigiu alterar na especialidade).
Traduzido para a tua vida:
Acaba o contrato?
A renda nova pode dar o salto que o mercado permitir.
O senhorio não quer renovar?
Ganha mais margem para te mostrar a porta.
Perdes o emprego, adoeces, falha um rendimento?
Tens menos um mês antes de o senhorio poder avançar para pôr fim ao contrato.
Queres mudar de casa?
O Governo chegou a propor que tivesses de pôr ainda mais dinheiro à cabeça só para entrar.
Mais exposição ao mercado.
Mais poder de negociação de um lado.
Menos segurança do outro.
Isto não é um pormenor técnico.
É a relação de forças entre uma família que precisa daquela casa para viver e quem é dono dela.
Mas esta reforma não caiu do céu.
É apenas o capítulo mais recente de uma história que já estava a ser escrita desde 2024.
PRIMEIRO, ALIMENTOU-SE A PROCURA COM DÍVIDA.
Garantia pública, isenções fiscais e crédito até 100%.
Vendeu-se como ajuda aos jovens.

 

Mas a porta abriu-se também para quem não precisava dela.
Imagina dois jovens.
Um não tem um cêntimo para a entrada nem família que o possa ajudar.
O outro tem pais com património, dinheiro e capacidade para serem fiadores.
Os dois entram pela mesma porta do apoio público…Sim, apoio pago com os nossos impostos.
E, num mercado com poucas casas, o resultado é fácil de perceber… mais dinheiro a disputar os mesmos imóveis.
Facilitar o crédito não faz aparecer casas.
Permite pagar mais pelas que já existem.
E ainda te deixa com uma dívida maior para as pagar.
SEGUNDO, ABRIRAM-SE NOVAMENTE AS PORTAS AO ALOJAMENTO LOCAL.
O Governo revogou a suspensão de novos registos.
Acabou com a regra geral dos registos limitados a cinco anos.
E devolveu a transmissibilidade dos registos.
Num país onde faltam casas para viver, voltou a ser mais fácil transformar habitação em negócio turístico.
E isso tem um preço. Literalmente.
Em Lisboa, um estudo estimou que as restrições ao alojamento de curta duração fizeram baixar cerca de 8% o preço dos imóveis nas zonas abrangidas.
Este governo resolveu fazer o oposto.
E não é só nas casas que já existem.
O estudo HOUSEnomics mostra como a procura externa e a turistificação passaram a influenciar estruturalmente o mercado português.
Mostra também como os compradores estrangeiros, sobretudo os de maior poder económico, conseguem pagar valores muito acima dos residentes, com particular expressão em Lisboa, Porto, Algarve e Madeira.
E é aqui que a contradição se torna absurda.
Dizemos que não há casas porque não se constrói o suficiente.
A própria construção civil diz que lhe faltam trabalhadores e defende mais migração laboral regulada.
Mas depois aponta-se o dedo ao imigrante.
Ataca-se quem veio trabalhar, muitas vezes precisamente nos sectores que constroem, limpam, servem e mantêm estas cidades, como se fosse essa a grande explicação para os preços da habitação.
Enquanto isso, quase ninguém parece achar estranho que Portugal tenha recebido 29,9 milhões de turistas vindos de fora só em 2025.
Quase TRINTA MILHÕES num único ano…a precisar de hotéis, apartamentos, alojamentos locais.
Ao mesmo tempo, atraímos durante anos residentes e capitais de elevado poder económico através de programas como os vistos gold.
E continuamos a ter um mercado imobiliário fortemente exposto a compradores internacionais muito mais solventes do que um trabalhador português.
Mas depois olha-se para o imigrante que divide uma casa ou um quarto e explica-se a crise da habitação com ele.
É muito mais conveniente e não estraga os lucros dos grandes.
O problema não é haver gruas.
Há gruas por todo o lado.
O problema é o que se constrói, para quem e a que preço.
Casas de luxo.
Empreendimentos turísticos.
Imobiliário pensado para uma procura internacional com um poder de compra que um salário português simplesmente não consegue acompanhar.
Construção há.
Casas que quem trabalha cá consiga pagar é que já é outra conversa.
TERCEIRO, BAIXARAM-SE OS IMPOSTOS A QUEM TEM CASAS PARA ARRENDAR SEM NENHUMA CONTRAPARTIDA.
E convém perceber quem está, cada vez mais, do outro lado do contrato.
22,6% dos novos contratos de arrendamento tinham do lado do senhorio empresas e outros sectores institucionais.
Em Lisboa, 30,9%.
Quem são?
Quantas casas acumulam?
Que poder têm sobre o mercado?
Que poder têm sobre alguns partidos?
Antes de respondermos a essas perguntas, chegou a borla fiscal.
O regime fiscal de 2026 baixa para 10% a tributação de determinados rendimentos prediais abrangidos.
Para sociedades e outros sujeitos com contabilidade organizada, só 50% desses rendimentos contam para imposto.
E os contratos de investimento para arrendamento podem ter benefícios fiscais durante muitos anos: IMT, imposto do selo, IMI e IVA, dentro das condições previstas no regime.
O que acontece de imediato?
O investimento torna-se fiscalmente mais rentável.
Isso sabemos.
Que tu passes a pagar menos renda?
Nem sonhes com isso…
E é aqui que está a escolha política.
Tornar a habitação mais rentável para quem investe nela não é o mesmo que torná-la mais barata para quem precisa dela para viver.
Pelo contrário…quanto mais interessante for uma casa enquanto activo financeiro, mais gente com capital vai querer comprá-la como investimento.
E quem procura quatro paredes para dormir passa a competir com quem procura uma percentagem de retorno.
O investidor calcula a rentabilidade.
Tu calculas se sobra dinheiro depois da renda.
ENTRETANTO, O MERCADO DESCOBRIU OUTRA MINA: A VELHICE.

Já há empresas a vender a nua-propriedade como investimento.
Compra-se a casa ao idoso.
O idoso fica com o usufruto e continua lá a viver.
O investidor fica à espera que, um dia, a casa fique livre.
De um lado, alguém com uma reforma curta e uma casa construída ou paga ao longo de uma vida.
Do outro, alguém à procura de retorno.
No mesmo contrato.
Não é difícil perceber quem costuma chegar a essa negociação com mais poder.
E assim, o património de uma vida inteira pode acabar nas mãos de investidores e fundos, em vez de ficar na família.
Mas também aqui podia haver outro caminho.
O Estado podia criar um mecanismo público…adiantar rendimento ao idoso com garantia sobre a casa, recuperar mais tarde o que adiantou e os respectivos custos, e preservar para o proprietário ou para os herdeiros o valor restante.
Em vez de transformar a fragilidade financeira da velhice em mais um mercado, podia existir uma alternativa pública.
E AGORA VOLTEMOS À REFORMA DO ARRENDAMENTO.
É aqui que todas as peças encaixam.
Primeiro, mais dinheiro e mais crédito a disputar as casas.
Depois, mais espaço para o turismo e o alojamento local.
Depois, benefícios fiscais para tornar o arrendamento mais rentável para proprietários e investidores.
Ao mesmo tempo, uma construção cada vez mais atraída pela gama alta, pelo turismo e pela procura internacional.
E agora, uma reforma que aumenta a liberdade contratual dos senhorios e reduz a protecção dos inquilinos.
E O CHEGA?
Absteve-se.
Pode dizer que discorda disto ou daquilo.
Pode prometer corrigir isto ou aquilo na especialidade.
Mas, quando chegou o momento de decidir se esta reforma continuava ou parava, deixou-a continuar.
E, enquanto isto se decide no Parlamento, as cidades transformam-se.

Quem trabalhava e vivia no centro é empurrado cada vez mais para longe.
As periferias recebem quem já não consegue competir pelos preços do centro.
Aumentam as deslocações.
Aumenta a pressão sobre transportes, escolas e serviços.
E o centro torna-se, pouco a pouco, um produto para quem o consegue pagar, para quem investe e para quem passa por lá alguns dias.
AGORA, SIGA-SE O DINHEIRO.
Quem ganha quando o crédito permite pagar mais por uma casa?
Quem ganha quando uma casa rende mais como alojamento turístico do que como habitação?
Quem ganha quando descem os impostos sobre determinados rendimentos do arrendamento?
Quem ganha quando a habitação se torna um activo cada vez mais apetecível para grandes investidores?
Quem ganha quando o risco do senhorio diminui e o do inquilino aumenta?
E quem paga, quando as casas sobem 17,6% num ano e o rendimento disponível das famílias sobe 5,7%?
Chega uma altura em que chamar a isto incompetência já não explica o padrão.
Incompetência seria querer baixar o preço das casas e tropeçar sempre no caminho.
Aqui, medida após medida, há uma direcção muito CLARA… Isto não é incompetência, isto é a transferência de dinheiro das famílias para os de cima.
– Mais espaço para o capital entrar na habitação;
– Mais rentabilidade para quem tem património;
– Mais turismo;
– Mais procura de elevado poder económico;
– Mais flexibilidade para o proprietário;
… e mais mercado para quem precisa simplesmente de um sítio onde viver.
Isto tem um nome…opção política.
Uma política que trata cada vez mais a casa como investimento e cada vez menos como o lugar onde uma pessoa constrói a vida.
E, enquanto isso, procuramos culpados fáceis.

O imigrante.
O vizinho.
Quem recebe um apoio.
Quem está numa casa pública.
Discutimos uns com os outros cá em baixo enquanto o dinheiro continua a subir.
E talvez seja essa a parte mais conveniente de todas.
Porque, enquanto estás zangado com quem vive no quarto ao lado, não estás a olhar para quem está a comprar o prédio inteiro.
E enquanto o país discute Cristiano Ronaldo, um homem que não precisa de se preocupar se consegue pagar a próxima renda, tudo isto vai acontecendo.
Enquanto estás distraído a comprar cromos do Ronaldo…quem está a perder o jogo és tu
—

pirosice a rodos o famoso monumento à vaca,

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Sobre Cultura, vacas e leite derramado
Perdoem-me os meus amigos por voltar ao tema, mas há coisas às quais, por mais que tente, não consigo deixar de regressar. Sobretudo quando uma empresa decide transformar o seu marketing num símbolo da identidade colectiva e num instrumento da sua própria narrativa comercial, e uma Capital da Cultura lhe oferece, de mão beijada, a respeitável chancela do seu selo de autoridade. E pior ainda quando ambos, mais o conjunto da litania política, parecem querer impingir-nos à força o seu discurso de pílula dourada.
Refiro-me, naturalmente, ao famoso monumento à vaca, apresentado como homenagem aos produtores de leite açorianos e integrado na programação da PDL26, numa parceria com a Bel Portugal que teve ontem finalmente a sua inauguração oficial, numa espécie de sonata em dois aros de metal ao programa Leite de Vacas Felizes. E desculpem também o testamento, mas há aqui duas questões, sobre o marketing feito cultura que importa contestar.
Nada tenho contra os lavradores. Muito menos contra a dignidade do seu trabalho ou contra o reconhecimento que lhes é devido. O que me incomoda é a transformação de uma actividade económica e de uma narrativa empresarial num símbolo cultural colectivo, legitimado pela PDL26, que deveria, por obrigação, ser capaz de olhar para a cultura dita açoriana com alguma distância crítica.
Picasso dizia que a arte servia para tirar o pó da vida quotidiana das nossas almas. Pelos vistos, para a PDL26, também pode servir para lhe dar uma boa camada de verniz e marketing empresarial.
É precisamente aqui que esta iniciativa me incomoda. Pelo aproveitamento, pela operação de marketing apresentada como investimento cultural e, sobretudo, pela subordinação da cultura ao chavão identitário, à simplificação da paisagem e à construção de uma ideia confortável de Açores, onde a terra, o verde, a vaca, o lavrador e a paisagem feliz se transformam numa síntese de nós todos.
A arte deveria fazer precisamente o contrário. Deveria transgredir, provocar rupturas, questionar as certezas, introduzir contradição, revelar aquilo que não queremos ver. A cultura não deveria servir apenas para confirmar aquilo que já sabemos sobre nós próprios, muito menos para transformar uma identidade complexa e contraditória num catálogo de imagens reconhecíveis.
A agricultura faz naturalmente parte da história dos Açores. Já o disse anteriormente. Tal como o mar, a pesca, o chá, o ananás, a baleação, a emigração, a literatura, a música, a arquitectura, a religião e tantas outras dimensões da nossa existência colectiva.
Mas uma coisa é a agricultura fazer parte da nossa cultura. Outra, muito diferente, é uma empresa apropriar-se de um dos seus símbolos e, através de uma obra de arte instalada no espaço público e integrada numa Capital da Cultura, inscrever a sua própria narrativa comercial no imaginário colectivo.
A Bel tem todo o direito de promover os seus produtos, a sua marca e o seu programa. O que já é discutível é uma instituição cultural como a PDL26 emprestar-lhe a autoridade simbólica da cultura para o fazer.
E é aqui que surge aquilo a que eu chamaria greenwashing cultural.
O greenwashing consiste em vestir uma actividade económica com uma linguagem de sustentabilidade, apresentando como ambientalmente virtuoso aquilo que é, ou pode ser, ambientalmente problemático. Mas aqui a operação parece ir um pouco mais longe. Não se trata apenas de dizer que a indústria leiteira é sustentável. Trata-se de associá-la simbolicamente à própria ideia de território.
A empresa deixa de ser apenas uma empresa. Passa a ser apresentada como parte da paisagem, da tradição, da relação com a terra, do bem-estar animal e, por extensão, da própria identidade açoriana e da sua cultura.
Não se vende apenas um produto. Vende-se uma relação de pertença. E não é preciso sequer questionar a verdade ou legitimidade dessa narrativa para perceber a eficácia da operação.
É uma operação de branding particularmente eficaz porque troca o produto pelo símbolo. Já não estamos perante uma embalagem de queijo ou um mero anúncio televisivo. Estamos perante uma obra de arte pública, instalada num espaço colectivo e integrada na programação de uma Capital da Cultura.
A marca pode desaparecer do primeiro plano e deixar no seu lugar algo muito mais poderoso: uma associação emocional entre a empresa e a ideia de Açores.
É uma espécie de lavandaria simbólica do esterco que lhe está subjacente.
Não porque a arte seja necessariamente falsa, nem porque a artista esteja necessariamente ao serviço de uma estratégia comercial. A questão é outra: saber o que acontece quando uma narrativa empresarial entra no território da cultura e adquire, através dela, uma legitimidade que a publicidade convencional dificilmente conseguiria proporcionar.
A publicidade diz: compre o nosso produto.
A cultura diz: isto faz parte de quem somos.
E quando as duas mensagens se confundem, a segunda pode acabar por legitimar a primeira.
Ao longo da história, a arte esteve muitas vezes ao serviço do poder. Reis, igrejas, Estados e regimes políticos perceberam há muito que uma imagem pode fazer aquilo que mil discursos não conseguem: tornar natural uma determinada visão do mundo.
A arte monumental foi durante séculos uma das formas mais eficazes dessa pedagogia política. Exaltava reis, heróis, soldados, trabalhadores, nações, revoluções. Dava corpo e rosto aos valores que o poder queria perpetuar. A escultura pública podia deixar de ser apenas representação para se transformar em monumento de uma determinada ideia de sociedade.
Os regimes totalitários do século XX levaram essa lógica ao extremo, utilizando a arquitectura, a escultura, a pintura e o cinema como instrumentos de propaganda e de construção de uma estética oficial. A arte devia ser compreensível, afirmativa, monumental. Não devia perturbar. Devia celebrar.
Rings a Bel? Perdoem-me a piada fácil.
Mas há uma outra arte, aquela que mais nos interessa quando falamos verdadeiramente de cultura: a arte que incomoda.
A arte que não confirma o mundo, mas o interroga. Que não nos diz aquilo que devemos pensar, mas nos obriga a pensar. Que introduz uma fissura na realidade aparentemente consensual para nos mostrar aquilo que ficou de fora da fotografia. É a arte das vanguardas, da ruptura, da provocação, da dúvida. A arte que frequentemente prefere a pergunta à resposta.
É por isso que me incomoda particularmente quando uma instituição cultural utiliza a arte para fazer exactamente o contrário: para confirmar uma narrativa previamente estabelecida.
Porque aqui a questão não é apenas termos um monumento à vaca de grandes dimensões no espaço público. É aquilo que esse monumento vem dizer.
Ele diz que o lavrador, a vaca, a terra e a produção leiteira constituem uma espécie de imagem natural e consensual dos Açores. Diz que essa realidade deve ser celebrada, e não interrogada. E, sobretudo, coloca essa celebração dentro de uma narrativa empresarial que associa a produção leiteira à sustentabilidade, à felicidade, à tradição e à identidade.
E é aqui que a fronteira entre arte e propaganda começa a tornar-se perigosamente ténue.
Não é preciso existir um Ministério da Cultura de um regime autoritário para haver uma arte de exaltação. Também o mercado pode produzir a sua própria estética oficial. Também o capitalismo contemporâneo descobriu que a melhor publicidade é aquela que consegue deixar de parecer publicidade.
Hoje, o poder económico não precisa necessariamente de mandar construir estátuas de líderes ou de trabalhadores sorridentes. Pode financiar a obra, integrá-la num programa cultural, associá-la a uma ideia consensual de território e deixar que a própria instituição cultural lhe empreste a sua legitimidade. Como foi aqui o caso.
A arte passa então a funcionar como uma forma mais elegante de propaganda.
Porque o marketing contemporâneo já percebeu uma coisa que os velhos regimes também sabiam: quem controla as imagens ajuda a controlar a narrativa.
Ora, uma Capital da Cultura deveria ser precisamente o lugar onde essas narrativas são questionadas.
Deveria perguntar o que a indústria leiteira fez à paisagem. O que aconteceu aos solos, às águas e à biodiversidade. Quem ganhou e quem perdeu com a transformação económica do território. Como vivem os lavradores. Que futuro queremos para a agricultura açoriana. Que relação queremos estabelecer entre produção, território e ambiente. E até que ponto a imagem idílica da vaca feliz corresponde à complexidade da realidade que pretende representar.
Poderia, enfim, fazer aquilo que a arte deve fazer: introduzir perguntas onde o marketing prefere respostas.
Não tenho nada contra a vaca. Nem contra o lavrador. Não tenho também nada contra a obra em si ou contra a artista. Tenho, isso sim, alguma desconfiança perante uma arte que chega ao espaço público já com a mensagem pronta e um rótulo de marca.
Porque uma obra que apenas celebra aquilo que o poder económico gostaria que celebrássemos pode ser bonita, pode ser tecnicamente competente, pode até ser comovente ou intelectualmente estimulante.
Mas a cultura não existe apenas para nos comover. Existe sobretudo para nos incomodar.
O monumento diz-nos aquilo que querem que pensemos. A arte, a verdadeira arte, deveria obrigar-nos a perguntar aquilo que querem que esqueçamos.
Mas talvez, no fim, os verdadeiros ruminantes sejamos nós, que continuamos a mastigar estas narrativas das vacas felizes e dos lavradores de polo Lacoste e botas de cano Hunter, todos atados num laçarote de alta cultura e estética contemporânea, quando não passam, afinal, de marketing comercial e cifrões mascarados de cultura.

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AÇORES PERGUNTAR OFENDE

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Perguntar ofende e ainda bem. Caso contrário, os funcionários dos postos de turismo dos Açores chegavam ao fim do dia magoadíssimos. Aqui estão algumas das perguntas mais bizarras que eles já tiveram de ouvir. Para os ajudar, nós damos as respostas. Tudo isto faz parte da nova edição do mais completo, rigoroso e bonito guia dedicado à região: a nova Time Out Açores já está nas bancas.

A ilha do Pico é habitada?

Há mais de 600 anos, sim. Consta que o primeiro habitante foi um tal de Fernando Álvares Evangelho, que aqui chegou em 1482 e aqui viveu sozinho durante um ano, tendo por companhia apenas um cão. Hoje a população residente ronda os 14 mil habitantes.

Qual é a língua que se fala nos Açores?

Depende. Francês, alemão e até grego são línguas faladas nas ilhas. Pelo menos sempre que por aqui passam turistas franceses, alemães ou gregos. Na Base das Lajes, Terceira, também é frequente falar-se inglês, como é costume entre os americanos. De resto, o normal é falar-se português, como em todo o país que é Portugal. Já se estivermos a falar de sotaques, fique sabendo que há vários. Aquilo a que costumamos chamar sotaque açoriano é, na verdade, a pronúncia típica da ilha de São Miguel. Em cada uma das outras ilhas achará um linguajar diferente.

Não sabia que nos Açores já havia internet!

Na verdade, esta é a segunda região do país com maior penetração de internet, logo a seguir a Lisboa. Segundo dados recolhidos pela Pordata em 2018, perto de 85% das casas têm banda larga, e wi-fi é coisa abundante por toda a região. Portanto, quando se espantar com coisas incríveis como esta, pode sempre ir ao Google.

A moeda aqui é a mesma que em Portugal?

Mas que coisa é esta de achar que isto é outro país?! Sim, é o euro, claro. Mas se trouxer outras moedas está tudo bem, que aqui há balcões de câmbio como em toda a parte.

Aqui os tubarões atacam pessoas?

Na verdade, é mais o contrário. Se quiser perceber porquê, passe pela Adega Regional ou pelo Cais 20, ambos em Ponta Delgada, e prove o bife de tubarão. Se preferir conviver com os bichos e perder os medos, há várias empresas a promover mergulhos com tubarões azuis, com saídas até ao monte submarino Condor, localizado a cerca de 10 milhas da ilha do Faial e acessível também a partir do Pico.

Ouvimos dizer que quando a maré está baixa podemos ir de carros para outras ilhas. É verdade?

Sim, claro. Com a maré baixa ou com a maré alta, tanto faz. Basta enfiar o carro num ferry.

As riscas amarelas do mapa são as linhas do Metro?

Ah… próxima pergunta, faz favor.

No topo do Pico há algum restaurante, café?

Não. Esta é montanha mais alta de Portugal e a terceira maior que emerge do Atlântico, atingindo 2351 metros acima do nível do mar. Ora, ninguém está para acarretar barris de cerveja até lá acima.

Não sabia que nos Açores também existiam bananas!

A produção da banana nos Açores ronda as cinco mil toneladas por ano, distribuídas por uns 300 hectares de cultivo. Facilmente encontra bananeiras em São Miguel, na Terceira e no Pico e vale especialmente a pena provar a variedade Pequena Anã, aprimorada na região desde há séculos. De resto, na generalidade dos supermercados açorianos também existem mangas. Mas não crescem aqui.

Têm alguma ponte que ligue São Jorge ao Pico?

Não. Pelo menos ainda não. De São Jorge ao Pico vão 58 km de distância. Ora, a ponte mais longa do mundo ficou concluída em 2018 na China, e tem apenas 55 km de extensão, ligando Hong Kong, Zhuhai, cidade da província de Guangdong, e Macau. Mas podíamos tentar roubar o recorde aos chineses. Fica a ideia.

Pode-se ir a pé de São Miguel para a ilha de Santa Maria?

Se considerarmos o stand up paddle como “ir a pé”, então teoricamente sim. Mas desaconselha-se. As ilhas distam 137,1 km entre si e o mar nem sempre está de feição.

Podemos subir o Pico de jipe?

Não. Vá a pé como toda a gente. Subir ao Pico requer alguma preparação física e muitos cuidados. Inicialmente, deverá ter como ponto de paragem obrigatória a Casa da Montanha. Aí vai obter todas as informações e o apoio necessário para a subida, além do registo exigido pelo Regulamento de Acesso à Reserva Natural da Montanha do Pico. O percurso estende-se por 7500 metros e conte com pelo menos quatro horas para subir e outras tantas para descer. Há excursões organizadas que incluem pernoita na cratera do vulcão.

O multibanco cá funciona como no continente? É possível fazer pagamentos de água e de luz?

Os últimos dados são de 2018 e mostram que nas ilhas se fizeram mil milhões de euros em compras com cartões, se levantaram 603 milhões e foram pagos através das caixas Multibanco 10,8 milhões em serviços como água ou luz. Estes dados são relativamente irrelevantes para esta publicação e servem apenas para demonstrar a palermice da pergunta.

Acabei de chegar de Portugal… (dito por um continental).

Se não quer que lhe digam para onde pode ir a seguir, não use este tipo de expressão para dizer de onde veio.

 

 

 

Andou uma vida inteira a tomar mal comprimidos. Farmacêutico revela dica – Notícias ao Minuto

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Se tem dificuldades em tomar comprimidos ou costuma fazê-lo sempre com um copo cheio de água, saiba que pode ter andado uma vida inteira a tomar mal. Um farmacêutico revela um truque para tornar tudo mais fácil.

Source: Andou uma vida inteira a tomar mal comprimidos. Farmacêutico revela dica – Notícias ao Minuto

AMOR CEGO NO MÓNACO

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Hoje, ao acordar, lembrei-me de que não vivo para o amanhã (nem sequer sei se ele existe ou se eu existirei), mas para hoje e para as memórias do passado; são elas que me alimentam neste triste interlúdio de vida sem Nini, a que alguns chamam de vida. É preciso viver os dias como se o amanhã não existisse mais…

Muitas vezes disse à Nini coisas do género “Vive, ama e goza a vida, como se não houvesse amanhã!” e a verdade é que não havia amanhã, nem sabíamos quando não chegava. Amanhã o hoje será apenas um ontem, lembrança, sonho. Os dias são flores, murcham e não voltam mais, é preciso encontrar os jardins. Nem sempre a doença dela deixava.

Todos os dias escrevíamos uma página nova na nossa História, umas melhores que outras, umas mais coloridas que outras, mais cinzentas. Já tínhamos feito as grandes mudanças antes, já tentávamos não adiar nada que pudesse esperar. Fruindo o que podíamos, quando a doença dela deixava pois já controlava os nossos dias.

 

MAS O NOSSO AMOR NÃO ERA CEGO COMO NESTE EXEMPLO DO MÓNACO https://www.facebook.com/reel/1591011912408452