Poeta esquecido: pedro homem de mello

 

PEDRO HOMEM DE MELLO
6 de Setembro de 1904 – 5 de Março de 1984POVO
em “Miserere”

Povo que lavas no rio,
que vais às feiras e à tenda,
que talhas com teu machado
as tábuas do meu caixão,
pode haver quem te defenda,
quem turve o teu ar sadio,
quem compre o teu chão sagrado,
mas a tua vida, não!

Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!

Fui ter à mesa redonda,
bebendo em malga que esconda
o beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
fora o vinho que me deste,
mas a tua vida, não!

Procissões de praia e monte,
areais, píncaros, passos
atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!

Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!

Subi às frias montanhas,
pelas veredas estranhas
onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!

Só tu! Só tu és verdade!
quando o remorso me invade
e me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
deste-me alturas de incenso,
mas a tua vida, não!

Povo que lavas no rio,
que vais às feiras e à tenda,
que talhas com teu machado,
as tábuas do meu caixão,
pode haver quem te defenda,
quem turve o teu ar sadio,
quem compre o teu chão sagrado,
mas a tua vida, não!

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crónica 124 DOM XIMENES BELO NO 19º COLÓQUIO DA LUSOFONIA

http://www.diariodetrasosmontes.com/cronicas/cronicas.php3?id=1361&linkCro=1

 

 



Crónica 124 26 março 2013 dom Ximenes Belo no 19º colóquio da lusofonia

 

 

Crónica 124 26 março 2013
Rudyard Kipling está celebrizado pelo «If» («Se») que é exatamente o oposto daquilo que rege os colóquios «Não prometemos, fazemos». Só que, desta vez, saboreamos o acre travo das provações climatéricas que quase iam comprometendo de forma terminal o 20º colóquio marcado para 14 a 17 de março na Maia, ilha de São Miguel, Açores.
Uma depressão cavada estacionária por cima do arquipélago trouxe chuvas torrenciais, ventos ciclónicos, desabamentos de terras, naufrágios e um total de seis mortes a estas ilhas tão fustigadas e impediu a aterragem de aviões de Lisboa e Porto a partir do dia 12…Os nossos oradores e presenciais que iriam chegar a partir daquela data começaram a ver os seus voos adiados, cancelados e mais de 1120 pessoas esperavam nos aeroportos de Lisboa e Porto um voo para a ilha do Arcanjo.
Todos os planos foram literalmente por água abaixo, recorreu-se ao plano «B» mas novos cancelamentos e adiamentos, horas desesperantes de espera no aeroporto Papa João Paulo II na Nordela em PDL fizeram gorar novas esperanças. De volta ao computador se elaboraram planos alternativos enquanto os telemóveis se agitavam com mensagens, telefonemas e adiamentos ou cancelamentos. Os planos quase esgotavam o alfabeto disponível e decidiu-se cancelar tudo o que se estava previsto para o primeiro e segundo dias do evento. No jantar de boas vindas, em vez de 25 pessoas éramos seis ou sete. Na manhã de dia estava anunciada uma palestra na escola da Maia, sobre a paz. por Dom Ximenes Belo, Prémio Nobel da Paz 1996 e a apresentação da Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos em dois volumes. O lançamento tinha sido anunciado em toda a ilha por todas as escolas e não podia ser alterado, mas o restante da programação desse dia incluindo a abertura formal do colóquio, lançamentos literários na livraria Solmar e um jantar oferecido ela Associação Agrícola de São Miguel tudo foi alterado.
Cancelaram-se recitais, atuações de grupos musicais e passeio para incluir as sessões formais do colóquio no sábado dia 16. Finalmente pelas 11 e meia da manhã de dia 15 começaram a chegar oradores e presenciais…em três aviões consecutivos de Lisboa. Remarcou-se o almoço na Maia onde acabamos por ter mais de 20 pessoas e logo a seguir a este improvisou-se uma audiência na escola para a palestra de Dom Ximenes Belo. Depois recolheram todos ao hotel onde nos reunimos para jantar ainda sob intensa chuva que iria persistir com intensos e cerrados nevoeiros.
O 19º colóquio começou assim n sábado e prolongou-se até domingo, um dos mais curtos eventos desde o seu dealbar em 2001-2002, caracterizado pela presença de personalidades ilustres que, pela primeira vez, estavam presentes como a representação do Camões agora denominado Instituto da Cooperação e Língua, e o Diretor Executivo do IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa) da CPLP, entre outras personalidades.
Tudo correu dentro do apertado horário com a precisão de um relógio suíço sem mais percalços ou incidentes, e uma boa integração dos elementos que nunca estiveram nos nossos convívios anteriormente.
Depois das boas-vindas pelo presidente da Junta de Freguesia da Maia (esta foi a primeira vez que os colóquios se realizaram numa freguesia), este fez a apresentação da mostra de artesanato local e de fotografias da Maia, havendo igualmente a abertura da mostra de livros da editora Calendário de Letras. Depois seguiram-se dois vídeos, um ilustrando a história e as belezas e riqueza da Maia e outro da AICL; recapitulando em imagens os 18 colóquios anteriores. Seguiram-se os discursos oficiais começando com o do Presidente da AICL
SENHOR representante do PRESIDENTE DO GOVERNO REGIONAL DOS AÇORES, Subsecretário Regional da Presidência para as Relações Externas Dr Rodrigo Oliveira
SENHOR PRESIDENTE DA CÂMARA MUNICIPAL DA RIBEIRA GRANDE, DR RICARDO SILVA
SENHOR PRESIDENTE DA JUNTA DE FREGUESIA DA MAIA, JAIME RITA
DEMAIS ENTIDADES REGIONAIS,
MONSENHOR DOM CARLOS FILIPE XIMENES BELO, nosso convidado de honra neste colóquio
ÁLAMO OLIVEIRA, nosso escritor convidado e homenageado neste colóquio
CAROS/AS ACADÉMICOS/AS,
CARAS E CAROS ASSOCIADOS/AS,
MINHAS SENHORAS E MEUS SENHORES
A TODOS AGRADEÇO A PARTICIPAÇÃO NESTA CERIMÓNIA FORMAL DE ABERTURA DO 19º COLÓQUIO DA LUSOFONIA DA AICL.
AGRADEÇO EM ESPECIAL O PATROCÍNIO DA JUNTA DE FREGUESIA DA MAIA SEM O QUAL NÃO SERIA POSSÍVEL TERMOS REUNIDOS AQUI ACADÉMICOS E LUSÓFILOS DE TANTOS PAÍSES E REGIÕES
A todos dou as boas-vindas a esta costa norte da ilha de São Miguel, tantas vezes esquecida ao longo dos séculos, e mesmo mais recentemente quando fica afastada das rotas de visitantes e turistas. Estamos em pleno coração da zoina histórica da Maia, ativa freguesia do concelho da Ribeira Grande, situada entre as suas congéneres de S. Brás, a ocidente; a Lomba da Maia, a nascente; e os concelhos de Vila Franca do Campo e Povoação, a sul. A sede da freguesia, inclui os lugares da Lombinha da Maia e da Gorreana, ocupando grande parte de uma fajã vulcânica geologicamente muito jovem, com apenas dez mil anos.
Seguindo a Enciclopédia Açoriana, a Maia terá sido fundada nos finais do séc. XV, por Inês da Maia, nativa de terras do Lidador perto do Porto. Na ilha havia então dois municípios, os de Vila Franca do Campo e de Ponta Delgada.
O primeiro historiado, o douto Gaspar Frutuoso fala das curiosidades da freguesia, dos moinhos, do dia-a-dia e dos primeiros povoadores que tiveram intenção de a fazer vila sem o conseguirem. Em termos eclesiásticos, a paróquia cedo ganhou alguma relevância fazendo parte da ouvidoria de Vila Franca, a única em S. Miguel. Só em 1698 foram criadas as ouvidorias de S. Sebastião em Ponta Delgada e N. Sra. da Estrela na Ribeira Grande. Por razões geográficas, a paróquia do Divino Espírito Santo da Maia foi incluída na de N. Sra. da Estrela.
Entretanto, as obrigações fiscais passaram a ser cumpridas na Ribeira Grande, mas só em 1820 a Maia ficou a fazer parte deste concelho. No entanto, em 1916 esta paróquia foi integrada como limite ocidental da ouvidoria dos Fenais da Vera Cruz (Fenais da Ajuda) aquando da criação de novas ouvidorias.
A sua malha urbana apresenta um desenho de ruas paralelas orientadas na direção norte-sul, unidas por travessas de orientação leste-oeste, situação muito rara nos Açores. Dadas estas características, foi classificado como património regional o centro urbano ao redor da igreja paroquial, dedicada ao Espírito Santo, e construída de 1796 a 1825.
Entre os seus edifícios notáveis, encontra-se o Solar de Lalém, do séc. XVIII e XIX, e onde foi incorporada a ermida de S. Sebastião de 1687. Ali se realizaram em 87 e 89 dois encontros de escritores açorianos, e onde João de Melo recebeu o seu primeiro prémio literário , pelo livro Entre Pássaro e Anjo.

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Diz Vamberto Freitas em 2011 no artigo Do Bar Jade ao Grupo Balada Abpril 9, 2011
O movimento e o debate de ideias nos bastidores levaram ao primeiro encontro da Maia organizado por Daniel de Sá, Afonso Quental, Carlos Cordeiro e, mais tarde, Urbano Bettencourt, Silva Melo e José Bettencourt da Câmara, que dinamizariam no Solar de Lalém essa convivência que, durante alguns dias, juntava escritores e estudiosos residentes no arquipélago, no Continente e na Diáspora, inclusive Brasil. … a açorianidade tomava agora várias formas, era vivida e escrita nas mais longínquas geografias marcadas pela nossa presença histórica. … a escrita açoriana entrava numa outra fase de universalidade que naturalmente se revia nas mais variadas formas, nos mais originais e por vezes inesperados temas., para além do isolamento e subdesenvolvimento, emigração e guerra colonial. Quem não queria ser identificado como «escritor açoriano» ou ser incluído num corpo literário definido como «literatura açoriana» estava mais do que livre para seguir o seu caminho sem nunca ser hostilizado, muito menos «excluído» do grupo.
Tentamos, em memória desses Encontros, que a comitiva ficasse alojada no mítico e ora privado Solar de Lalém mas preços exorbitantes, exigências e alterações ao acordado levaram-nos a buscar outras paragens e daí estarmos alojados no paradisíaco coração da ilha em pleno Vale das Furnas.
No lugar da Gorreana aqui na Maia, produz-se o famoso chá do mesmo nome, sendo este laborado na única fábrica que se manteve ativa, sem interrupções, desde o terceiro quartel do século XIX e que visitaremos amanhã.
A situação geográfica da Maia, numa zona do concelho em que há uma acentuada descontinuidade em relação ao conjunto formado pela cidade da Ribeira Grande e freguesias mais ocidentais, e o seu relevo geográfico, fizeram da Maia uma alternativa para as populações da zona na busca de bens e serviços que normalmente só são acessíveis nas sedes de concelho, daqui derivando as suas legítimas aspirações ao longo dos últimos 500 anos para ser vila mas cremos que será apenas uma mera questão temporal até que isso aconteça.
A zona costeira da Maia dispõe de excelentes condições para a natação e mergulho, sendo os fundos marinhos circundantes dos melhores da ilha, quer no que respeita à paisagem subaquática quer no que se refere às espécies e quantidade de peixes observáveis.
Encontra-se referida como «O Reduto do logar da Maya» na relação «Fortificações nos Açores existentes em 1710» .[1] A Capitania Geral dos Açores reportava o seu estado em 1767: «§20.° — No logar da Maya se conservam alguns vestígios de que houve alli um Forte chamado do Espirito Santo, e se deve novamente edificar, pela necessidade que tem aquelle sitio de ser defendido.»[2] Esta estrutura não chegou até aos nossos dias.
Nos últimos dois anos tem-se assistido a uma rica panóplia de eventos destinados a celebrar os 5 séculos da Maia cuja data exata não consta dos arquivos, o que vem provar a vitalidade desta freguesia que tem sob a liderança de Jaime Rita, a visão e a coragem de se abalançar a ser a primeira freguesia a receber um Colóquio da Lusofonia o que, decerto, ficará na história e servirá de exemplo nestes dias conturbados em que por mor da crise, a cultura é das primeiras rubricas a serem penalizadas nos cortes de apoios governamentais a todos os níveis. Ao apostar neste apoio incondicional aos Colóquios, quando alguns municípios o declinaram, a Junta de Freguesia da Maia deu um exemplo de que os cidadãos não precisam só de obras de construção civil, ou da solidariedade social autárquica, nem apenas das hortas comunitárias, nem só dos festivais pagãos e religiosos como também se lhes deve dar a hipótese de poderem receber uma tão nobre audiência como esta, onde a Lusofonia está aqui representada por gente de vários países e regiões como Açores, Alemanha, Austrália, Bélgica, Brasil, EUA, Galiza, Macau, Portugal, Roménia, Timor-Leste.
A cultura e a educação são a maior riqueza de um povo que não se contabiliza na fria natureza dos números da economia e finanças. Um povo culto está ao lado dos governantes na busca de soluções para as crises, um povo orgulhoso da sua língua não se deixa silenciar para pagar as dívidas da banca mundial. É esse povo que visamos conquistar nos Colóquios da Lusofonia.
Todos sabemos que a história sempre se fez de guerras e de casamentos entre as tribos, hoje faz-se pela globalização económica que desconhece as fronteiras marcadas em tempos imemoriais pelos homens e é aí que a língua comum assume um papel vital de moeda de troca entre os povos. Mesmo muitos daqueles que sempre se insurgiram contra a Lusofonia surgem agora como vocais e aparentes paladinos da mesma, como instrumento de captação de um mercado de mais de 240 milhões de almas. Se a guerra dos afetos entre povos irmãos parecia exclusiva da coutada dos poetas, eis que agora – timidamente – desponta o interesse económico nessa cruzada da língua comum, como motor capaz de inverter políticas centralistas e nacionalistas de séculos. Nisso reside a grande arma que devemos utilizar, neste longo caminho de sobreviver através da língua e cultura comuns, em vez de ficarmos marginalizados em variantes e dialetos, redutores da enorme identidade global que é a Lusofonia sem distinção de nações, credos ou etnias.
Advogamos sempre que um povo que lê não se deixa esmagar pela fria ditadura dos impostos, não se deixa dominar e toma decisões conscientes, necessidades bem prementes nestes dias de globalização neoliberal desenfreada, guiada pelo paradigma único do lucro a qualquer custo. Sem desmerecer os méritos do sistema capitalista, apostamos mais na Humanidade feita de homens e mulheres com princípios sãos. Sustentamos a igualdade, a justiça e o mérito irmanados por um poderoso elo comum: a língua de todos nós – seja ela de origem ou adquirida -, mas a língua em que comunicamos, trabalhamos e vivemos. Esse laço comum não distingue nem discrimina. Podemos fazer a diferença, congregados em torno dessa ideia abstrata e utópica de irmanação pela Língua numa escrita unificada. Podemos criar pontes entre povos e culturas no seio da grande nação lusofalante, independentemente da nacionalidade, naturalidade ou ponto de residência.
Esta a verdadeira Lusofonia que propugnamos. Não somos donos da língua apenas meros amantes e utilizadores da mesma, e nela queremos congregar não só os países de língua oficial portuguesa como todas as comunidades onde existam lusofalantes independentemente da sua matriz de origem.
Não queremos um Quinto Império para reviver falsas glórias de outrora, pretendemos apenas dar voz a todos os que se expressam e trabalham nessa mesma língua, queremos partilhar a enorme riqueza da língua comum, com enorme valor no PIB, como elo motriz que a catapulte da sua eterna semiobscuridade para a ribalta dos fóruns mundiais onde já é a quinta mais falada ou no seio da internet onde surge como terceiro idioma mais usado.
Dito isto, somos – como organizadores deste 19º colóquio, a AICL – associação internacional dos colóquios da lusofonia, um exemplo da sociedade civil atuante em torno de um projeto de Lusofonia sem distinção de credos, nacionalidades ou identidades culturais. Depois de termos ido ao Brasil, Macau e Galiza queremos voltar ao Brasil, ir aos EUA e Canadá, a Cabo Verde, Roménia, Timor-Leste e a outros países.
A nossa ação, desde 2006, na divulgação da açorianidade literária é o exemplo vivo de como concretizar utopias com esse esforço coletivo que é o contagioso espírito de grupo que nos irmana e nos tem permitido avançar com ambiciosos projetos desde que em 2001 iniciámos os colóquios, para patentear que era possível ser-se organizacionalmente INDEPENDENTE e descentralizar estes eventos sem subsidiodependências. Estabeleceram-se nestes anos várias parcerias e 21 protocolos com universidades, politécnicos e outras entidades que possibilitam embarcar em projetos mais ambiciosos com a necessária validação científica. Nos Açores, agregamos académicos, estudiosos e escritores em torno da identidade açoriana, escrita e tradições, na perspetiva de enriquecimento da Lusofonia, sempre com as suas diversidades culturais que, com a nossa podem coabitar.
Pretendemos divulgar a identidade açoriana não só nas comunidades lusofalantes mas em países como a Roménia, Polónia, Bulgária, Rússia, Eslovénia, Itália, França, onde lentamente estão a ser feitas traduções de obras e de excertos de autores açorianos. Por isso, em todos os colóquios mantivemos sempre uma sessão dedicada à tradução, importante forma de divulgação da língua e cultura. Veja-se o exemplo de Saramago que vendeu mais de um milhão de livros nos EUA onde é difícil a penetração de obras de autores estrangeiros. A este propósito, um dos mais ousados projetos destes colóquios a Antologia Bilingue para as comunidades da diáspora, lançada em 2011, tem esta tarde o lançamento da sua versão monolingue, trata-se da Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos em 2 volumes e edição da Calendário de Letras.
Em linha desde janeiro 2012 disponibilizamos gratuitamente no nosso portal, www.lusofonias.net, os CADERNOS DE ESTUDOS AÇORIANOS que trimestralmente publicámos, estando já disponíveis dezena e meia de cadernos, suplementos e vídeo-homenagens a autores açorianos. Serviram de suporte ao curso de Açorianidades e Insularidades da Universidade do Minho e que ambicionámos levar, um dia, numa plataforma em linha para todo o mundo, além de servir de iniciação para os que querem ler excertos de obras de reconhecidos autores açorianos cujas obras dificilmente se encontram no mercado livreiro. Há marcas indeléveis de insularidade que acompanham os autores açorianos nas suas peregrinações, um elo comum que abarca os autores compilados nos Cadernos Açorianos, entre tantos que escrevem tendo por pano de fundo os Açores como espaço cultural de forte marca identitária.
Gostava de chamar a vossa atenção para os dois últimos cadernos açorianos, um dedicado a Victor Rui Dores e o outro ao dramaturgo Norberto Ávila que hoje se junta a nós pela primeira vez, acompanhando o escritor homenageado ÁLAMO OLIVEIRA. Em outubro 2012, levamos os Colóquios a Ourense na Galiza, parcela esquecida da Lusofonia que foi o berço da língua de todos nós, e ora tenta reunir-se com as demais comunidades lusofalantes. Ali lançámos o MANIFESTO AICL 2012, a língua como motor económico, um contributo para a política da língua no Brasil e Portugal. Vivemos hoje uma encruzilhada semelhante à da Geração de 1870 e das Conferências do Casino.
Embora maioritariamente preocupados com os aspetos mais vastos da linguística, literatura e história, somos um grupo heterogéneo unido pela Língua comum a todos nós e que configura o mundo, sem esquecer como Wittgenstein disse que o limite da nacionalidade é o limite do alcance linguístico.
Resta apenas que mais e mais gente se junte à AICL – Colóquios da Lusofonia – para irmos mais longe e levar o nosso MANIFESTO a todos, incluindo os países de expressão oficial portuguesa e que sirva de ponto de partida para o futuro que ambicionamos e sonhamos. Com a ajuda e dedicação de todos muito mais podemos conseguir como motor pensante da sociedade civil para que juntos possamos fortalecer o que nos une e que é património imaterial de tantos.
Fala-se hoje mais Português em Angola e Moçambique do que no tempo da presença portuguesa apesar da forte competição das línguas nativas. Em Goa existem mais de 15 mil falantes e há um recrudescimento do interesse pela língua portuguesa com novos livros publicados mais de 50 anos após a extinção da presença lusófona. Em Macau a língua portuguesa é mais falada e estudada hoje do que quando os portugueses lá estavam. Lembro a importância da língua portuguesa em contextos hostis como no caso de Timor-Leste onde sob a ocupação neocolonial indonésia, as novas gerações impedidas de falar Português começaram a usar esta língua como língua de resistência. Como segunda língua oficial há dez anos o número de falantes nem a 5% chegava e hoje já há mais de 25%.
Vários idiomas da Tailândia, Malásia, Índia e Indonésia têm centenas de palavras portuguesas bem como a língua japonesa: álcool, veludo, jaqueta, bolo, bola, botão, frasco, irmão, jarro, capa, capitão, candeia, castela (bolo de pão-de-ló), copo, vidro, tempero, tabaco, sabão, sábado, choro, tasca, biombo etc. Há ainda um idioma próprio Papiá Kristang (língua cristã) ou português de Malaca falado na Malásia, Singapura, Tailândia, Ceilão e Indonésia constituído por palavras portuguesas com formas gramaticais diferentes. Existe ainda o Patuá de Macau mas em vias de extinção.
Por último gostava de lembrar a honra que temos neste biénio 2013-2014 de homenagear Álamo Oliveira, um autor que como tantos outros não tem a projeção que merece pela sua vasta e rica obra. Nos Colóquios tentamos seguir as indicações que recebemos e uma das questões colocadas aquando da antologia bilingue foi a de termos deixado de fora as mulheres na escrita açoriana (excetuando Maria de Fátima Borges). Sempre abertos a sugestões e críticas adotou-se para este 19º colóquio o tema 1, AS MULHERES NAS LETRAS AÇORIANAS. Curiosamente, apesar da extensíssima divulgação que este 19º colóquio teve, a maioria das mulheres escritoras açorianas contemporâneas ignorou esta oportunidade. Mesmo assim, posso anunciar aqui em primeira mão que iremos prosseguir como estava programado com uma nova Antologia no feminino, sob o tema Açores 9 ilhas 9 escritoras.
A língua não é só um meio de comunicação nem uma arma económica, ela expressa o sentimento dos povos, permite a preservação das lendas e narrativas, recria as baladas dos bardos, favorece a leitura dos clássicos, aproxima povos e perpetua o ADN nacional. Vamos continuar a criar intercâmbios entre os Açores e o resto do mundo para incrementarmos relações culturais entre as regiões e comunidades onde se fala a mesma língua.
Dou agora a palavra ao convidado de honra Dom Ximenes Belo, seguido do nosso escritor homenageado Álamo Oliveira, a representante da Presidente do Camões Dra. Ana Isabel Soares, o presidente da edilidade Dr Ricardo Silva a que se seguirá o representante do Presidente do Governo Regional, senhor Subsecretário Regional da Presidência para as Relações Externas Dr Rodrigo Oliveira.
Seguiu-se depois a primeira sessão dedicada inteiramente à homenagem a Álamo Oliveira, começando por um vídeo http://www.lusofonias.net/doc_download/1529-5-alamo-oliveira.html produzido pela AICL com apoio técnico do nosso associado Instituto Politécnico da Guarda, a surpresa de um trio de professores da escola da Maia a interpretarem O rimance de Dona Baleia em versão musicada por eles. Depois, era a grande surpresa, dois poemas de Álamo «ganga azul» e «eu fui ao pico e piquei-me» traduzidos em várias línguas e apresentados ao vivo ou em gravação nessas línguas. Um projeto que irá ser colocado no portal em breve quando estiverem concluídas as traduções noutras línguas.
Seguiu-se uma magistral apresentação da colega Rosário Girão e Manuel J Silva da universidade do Minho sob o título «o poeta do banco verde», a tradutora norte-americana Katharine Baker apresentou «traduzir os poemas Berkeley e são Francisco» de Álamo Oliveira e Chrys Chrystello fez uma recensão genérica das obras do autor terminando com a excecional obra «A Traceira de Jasus»

O almoço, oferecido pela Junta de Freguesia, foi de Sopas do Divino e carne do mesmo, servidas no salão da Fábrica de Chá da Gorreana devido ao mau tempo, com apoio de alunos da escola profissional das Capelas. Depois passou-se aos trabalhos da parte de tarde com uma sessão de poemas escolhidos e ditos pelo autor Álamo Oliveira. Nessa sessão Rolf Kemmler da UTAD, continuou a sua saga de estudos de trabalhos feitos por estrangeiros sobre os Açores no fim do séc. XIX e início do séc. XX. Vilca Merízio do Estado de Santa Catarina, falou de dois autores desconhecidos dos seus tempos na Universidade dos Açores e Rolf apresentou outro trabalho sobre Luiz Mascarenhas Gaivão e a sua obra, antes da Concha Rousia da Academia Galega da Língua Portuguesa debater a influência da Galiza na poesia de Chrys Chrystello.
A dupla Augusto Rodrigues (Universidade de Brasília) e Simona Vermeire da Roménia (Universidade do Minho) acabou por ser notícia como os únicos que não conseguiram voo tempo de chegarem aos Açores para o 19º colóquio, deixando apenas Luís Gaivão no último painel do dia a debater a literatura angolana contemporânea na obra de Manuel Rui, acompanhado de Perpétua Santos Silva na Racionalidade e afetos na relação com a língua portuguesa em Macau.
Entretanto na RTP Açores no mais divulgado programa Atlântida havia um especial dedicado ao colóquio com reportagens sobre Álamo Oliveira e painéis onde intervieram Norberto Ávila, Helena Chrystello, Ana Isabel Soares (do Camões e ainda Laura Areias que todos disseram ter corrido muito bem. http://www.rtp.pt/programa/tv/p29930/e6
Apressadamente, digiram-se todos para Ponta Delgada onde, na Livraria Solmar (Avenida) ao bater das 19.00 se fariam as apresentações literárias deste colóquio. Chrys começou por falar de Timor e do fardo que transportou ao longo de 24 anos em que foi uma das poucas vozes no jornalismo mundial dedicado ao problema da independência de Timor-Leste, servindo isto de prelúdio para a apresentação da sua trilogia da História de Timor em CD, composta pelo livro 1 Timor-Leste o dossiê secreto (1973-1975), livro 2 Historiografia de um repórter (1982-1993) e livro 3 Guerras tribais, a história repete-se (1984-2006). Depois Concha apresentou o livro dos 40 anos de vida literária CRÓNICA DO QUOTIDIANO INÚTIL uma compilação das Obras Completas do autor incluindo a reimpressão do primeiro volume publicado em 1972, o volume dois (1967-1975), volumes 3 e 4 (1970-1982) e o novo volume 5 após um hiato de 20 anos que reúne poesia escrita entre 2010 e 2012.
A seguir, Helena Chrystello em nome dela e da outra coautora Rosário Girão falou desse extraordinário projeto dos Colóquios a Antologia de Autores Açorianos Contemporâneos (17 autores em dois volumes) que embora anterior no tempo, sucede à Antologia bilingue de 15 autores lançada em 2011 e que faz parte do Plano Regional de Leitura e vai ser submetida para consideração para o Plano Nacional de Leitura.
Por último Concha Rousia apresentou a sua mais recente obra Nântia e a cabrita d’oiro, um romance infantojuvenil efabulado na própria história da Galiza.
Seguiram depois os conferencistas para o jantar que lhes era graciosamente oferecido pela AASM Associação Agrícola de São Miguel, em Santana na Ribeira Grande, onde se degustou o excelente bife da ilha acompanhado só de produtos açorianos, do pão ao queijo, ao vinho, ao ananás…
Tivemos o privilégio de tornar a ter no nosso seio o excelente tocador de Viola da Terra, Rafael Carvalho que já estivera no nosso Colóquio na Lagoa em 2008. Foram momentos bem expressivos que antecederam o jantar e – apesar de ter outros compromissos – e de esta sessão ter sido adiada 24 horas, o jovem Rafael não quis deixar de se associar e estar presente.
Tal como na sessão de abertura em que falara da paz, Dom Ximenes Belo mostrou-se jovial, bem-disposto e falador contrastando com anteriores ocasiões enque foi sempre muito formal e mais sisudo. Dir-se-ia que estava à vontade e se sentiu bem enquanto os colóquios cumpriam a sua parte e o isolavam da comunicação social como ele expressamente solicitara. Autorizara apenas fotos nos locais por onde passou e nas intervenções formais quer nos colóquios quer nas suas perambulações pastorais pela Igreja a Maia e outros locais de culto onde foi prestar homenagem à memória de açorianos célebres como o túmulo de Dom Jaime Goulart.
A sessão correu tão bem que a Assembleia-Geral da AICL foi adiada 24 horas…entretanto a chuva e o nevoeiro não davam tréguas e permaneceram connosco até à data em que escrevo salvo raras exceções muito curtas…
Este colóquio estava assim resumido a dois dias bem intensos. Era para se ter realizado em três dias bem preenchidos e tivemos de o comprimir em dois, mas felizmente os dois dias decorreram sem atrasos em relação aos horários previstos, nem nos almoços (dois dos quais realizados no Sagitário da Maia com mais de vinte e tal pessoas e sem demoras).
Domingo começaria com a poesia interventiva da Galiza pela voz da autora Concha Rousia antes da sessão 5 em que iriam intervir ANDRÉ CRIM VALENTE da UERJ, CRIATIVIDADE LEXICAL NA MÍDIA E NA LITERATURA: NEOLOGISMOS INUSITADOS, seguido de EDLEISE MENDES da Universidade da Bahía DESAFIOS E PERSPETIVAS CONTEMPORÂNEAS PARA O ENSINO DE PORTUGUÊS LE/L2 COMO LÍNGUA DE CULTURA(S), Luciano Pereira da ESE/Instituto Politécnico de Setúbal A VALORIZAÇÃO DO TRABALHO NO CONTEXTO DO ENSINO DA LÍNGUA E CULTURA PORTUGUESA num virulento ataque ao mundo contemporâneo desumanizado e Ana Isabel Soares do Camões TRADUÇÃO PARA LÍNGUA PORTUGUESA DA EPOPEIA FINLANDESA KALEVALA. Depois de um aceso debate seguiu-se o Recital de Ana Paula Andrade do Conservatório de Ponta Delgada acompanhada por Henrique Constância ao violoncelo e a estreia da já famosa soprano Helena Ferreira que a todos encantaram. Houve a apresentação pública de inéditos do Padre Áureo da Costa Nunes de Castro, nativo do Pico e radicado durante décadas em Macau, algumas peças do cancioneiro Açoriano e por último a surpresa de duas estreias musicadas por Ana Paula Andrade do poema «A Religiosa» de Álamo Oliveira e de «Maria nobody» de Chrys Chrystello em trabalhos de qualidade excecional que podem ser ouvidos em http://www.lusofonias.net/cat_view/132-imagens-aicl/130-coloquios-acores/243-19o-coloquio-maia2013.html?view=docman Antes do almoço ainda deu para uma excelente sessão dos metres, a sessão das Academias em que intervieram Evanildo Bechara ABL, Brasil, ACORDO ORTOGRÁFICO; João Malaca Casteleiro ACL, Lisboa, ACHEGAS AO ACORDO ORTOGRÁFICO: SERÃO POSSÍVEIS ALTERAÇÕES NA DUPLA GRAFIA PARA UMA UNIFICAÇÃO MAIS COMPLETA DA ORTOGRAFIA?; Concha Rousia AGLP, GALIZA E O AO 1990; e outra estreia neste colóquio Gilvan Muller De Oliveira, Diretor do IILP (Instituto Internacional da Língua Portuguesa em Cabo Verde) da CPLP, DO ACORDO ORTOGRÁFICO À GEOPOLÍTICA INTERNACIONAL DA LÍNGUA PORTUGUESA NO SÉC. XXI. Mais outro curto e intenso debate.
De tarde era a vez do tema de honra «a mulher nas letras açorianas» com intervenções de Helena Anacleto-Matias, ISCAP, Porto, SOBREVOANDO A ILHA-MÁTRIA DE NATÁLIA CORREIA, UMA PANORÂMICA; Laura Areias, CLEPUL, U. LISBOA, OS ANSEIOS DAS INSULANAS; e Álamo Oliveira, escritor, Terceira, Açores, recordar ADELAIDE FREITAS. Faltou a escritora local Ângela de Almeida para faltar de Natália Correia.
A última sessão de palestras era ocupada com o tema Açorianos em Macau e Timor com Raul Leal Gaião, Lisboa, AÇORIANOS EM MACAU, D JAIME GOULART – DO PICO A MACAU, DE MACAU A TIMOR e, Dom Carlos Ximenes Belo, Timor-Leste, BISPOS AÇORIANOS EM MACAU E MISSIONÁRIOS AÇORIANOS EM TIMOR. Houve tempo para interessante debate embora a comunicação social se tenha queixada por não poder intervir no mesmo. Entregaram-se os Certificados coma fotografia de família dos presentes, apresentaram-se conclusões e projetos novos
É NOSSO COSTUME AGRADECER DEPOIS DE CADA COLÓQUIO desta vez, porém, os agradecimentos têm um sabor especial pois ninguém desistiu de estar presente apesar dos contratempos de voo e ajudaram todos com a sua presença a fazer deste colóquio um evento memorável apesar de ter sido dos mais curtos da sua já longa história…
Aos patronos das 3 Academias agradeço a vossa continuada presença desde 2007 que constitui um incentivo triplicado (Bem Hajam MALACA CASTELEIRO, EVANILDO BECHARA E CONCHA ROUSIA)
Uma palavra de apreço muito especial a Dom Ximenes Belo pela sua alegria, jovialidade e excelente entrosamento no seio desta nossa família lusófona. Tentámos dar-lhe o máximo de espaço ao longo destes dias sem o constranger apesar das 1001 solicitações e esperamos que volte um dia mais tarde. As crianças na escola adoraram a sua presença e todos nos sentimos mais ricos com a sua bonomia e esperança em dias melhores. Foi assim que Timor ficou independente por haver gente que acreditou.
Um agradecimento muito sentido ao Jaime Rita, ao Filipe Braga, Alina, Marina e Daniela e aos incansáveis e sempre solícitos condutores da Junta de Freguesia da Maia e Casa do Povo pela sua dedicação enorme que nos permitiu resolver problemas com os quais nem nós conseguíamos imaginar e que foram causados pelos cancelamentos e adiamentos sucessivos de voos. Agradecemos que divulguem pelos que aqui são nomeados.
Aos nossos outros convidados «especiais» – apesar de sermos todos iguais – a nossa gratidão por se terem integrado tão bem e tão depressa nesta nossa «família lusófona» com especial apreço pelos esforços efetuados pelo ÁLAMO OLIVEIRA e pelos PROFESSORES ANDRÉ CRIM VALENTE, GILVAN OLIVEIRA E ANA ISABEL SOARES que muito vieram enriquecer o conteúdo das comunicações.
Foi graças a todos vós que creio termos conseguido atingir os nossos objetivos saindo deste encontro com tantos novos projetos que iremos construir nos próximos 2 a 3 anos.
Um último agradecimento público à sempre incansável e flexível Dona Beatriz do Rego do nosso Hotel na Vista do Vale (hoje cheio de sol) e ao Sr. Augusto do restaurante Sagitário que conseguiram a curto prazo satisfazer todas as nossas necessidades e que nos deleitaram com uma boa culinária para encher os estômagos já que a mente a enchemos nós. Obrigado ao Jorge Rita da Associação Agrícola de São Miguel, pela oferta de 37 bifes que perdurarão na nossa memória; bem como ao Eng.º Mota da Fábrica de Chá da Gorreana por nos receber assim como ao Zé Carlos Frias da Livraria Solmar pois ambos nos fizeram sentir em casa.
A todos os que não puderam, não quiseram ou não tiveram a oportunidade de estar presentes, apenas vos posso dizer NÃO SABEM O QUE PERDERAM!
Obrigado a todos pela vossa amizade e incentivos, bem hajam e até ao 20º colóquio no Rio de Janeiro como cremos que será oficialmente anunciado em breves semanas.

CONCLUSÕES

CONCLUSÕES
1. TENTAR INCLUIR A ANTOLOGIA DE AUTORES AÇORIANOS CONTEMPORÂNEOS EM DOIS VOLUMES NO PLANO NACIONAL DE LEITURA
2. PROJETO DE ANTOLOGIA NO FEMININO 9 ILHAS 9 ESCRITORAS NOS PRÓXIMOS DOIS ANOS
3. PROJETO DE MUSICAR (VERSÃO MÚSICA CLÁSSICA) POEMAS DE AUTORES AÇORIANOS
4. PROJETO DE MUSICAR (VERSÃO POP E ROCK) POEMAS DE AUTORES AÇORIANOS E DOS COLÓQUIOS
5. PROJETO DA JUNTA DE FREGUESIA CRIAR UM CANCIONEIRO DA MAIA
6. PUBLICAÇÃO DE UMA COMPILAÇÃO DE TEXTOS DRAMÁTICOS A INCLUIR NO PLANO CURRICULAR DO ENSINO E MAIS TARDE NO PLANO REGIONAL DE LEITURA

 

mail: Chrys Chrystello

Crónica anteriores:

Crónica 121 Lusofonias: Do Canadá à Galiza, 26/10/2012
Crónica 117 portugueses 30 junho 2012
17 colóquio da lusofonia lagoa abril 2012
SANTA MARIA ILHA-MÃE – AICL REPUDIA EXCLUSÃO DA AGLP
CRÓNICA 100 Maia(Açores) 5 séculos e um livro
A Ásia recebeu os Colóquios da Lusofonia numa ponte entre os Açores e Macau
CRÓNICA 91 DUAS MORTES, UM SÓ PAÍS
RESCALDO DO 14º COLÓQUIO DA LUSOFONIA
Evocação da mátria Bragança
CRÓNICA 81 um transmontano no Brasil
CRÓNICA 79 (des)igualdades e discriminações
DA HOMENAGEM A PAULO QUINTELA E MIGUEL TORGA A CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Homenagem contra o Esquecimento sob o signo do novo acordo ortográfico em Bragança
O clímax dos Encontros de Lusofonia
Museu da Lusofonia em Bragança
7º colóquio da lusofonia de 2 a 5 de outubro 2008
Lusofonia nos Açores em Maio 2008
Bragança capital da lusofonia por 4 dias
para que servem os acordos ortográficos, se a línga portuguesa (europeia) desaparecer? venha saber o que se vai debater no 6º colóquio anual da lusofonia
dois académicos de renome em Bragança no 6º colóquio da lusofonia
Porque sou um australiano transmontano
aind ao 5º colóquio da lusofonia ou de como descobri que sou bragançano
Crónica 2
Manifesto para uma lusofonia universal

 

 

rainha Nzinga “Dona de Angolla”.

Auteur : DEVEAU Jean-Michel 
Illustrateur : CACHIN Claude 
Collection : L'Histoire en images  
Renovo-lhe a expressao de toda a minha consideracao.

Simao SOUINDOULA

HISTÓRIA DE AFRICA

A KILUANJE REAPARECE NA FRANCA ATLANTICA

O facto foi notado com a recente publicação, em Saint-Herblain, perto da cidade Nantes, de “Nzingha, Reine d’Angola” da autoria de Jean-Michel Deveau e Claude Cachin. A obra saiu na editora Gulf Stream na sua coleção A Historia em imagens, chancela que conta, entre outras personagens, célebres, biografadas, o Louis Pasteur e a Marie Curie.

Selado em 72 páginas, o álbum, de formato 22/28, profusamente, ilustrado, com um novo pseudo-retrato da “Dizonda” articula-se numa dezena de capítulos, entre os quais, distingue-se a apresentação dos grandes momentos educativos, púberes, da filha de Mbandi, a corajosa ida, como Embaixadora, da Princesa a São Paulo de Loanda, capital da constituída, arbitraria, Colonia de Angola, a laboriosa conquista do poder e o fim do seu longo reinado.

Nota-se, entre os mapas, inseridos nesta publicação, o indicando os Reinos do Congo, Ndongo, Matamba e o pais dos Jagas Kassanji, no seculo XVII. 

Jean – Michel Deveau, redator dos textos, confirma que a adolescente, de comportamento bem varão, era, mesmo, a preferida do seu pai. 

A delicada missão de negociações da Princesa de Cabazzo, iniciada em 1622, com o Governador da Colonia, autoproclamada, sobre as terras do Ndongo, constitui uma das partes essenciais do livro. 

Sensível a importância da inteligência politica e militar, a irmã do Rei Ngola comprova a presença de navios negreiros, na baia de 

Loanda, e aprecia o dispositivo defensivo da cidade, que privilegia a linha marítima. Aprecia a natureza, fortemente, esclavagista da cidade, meio-seculo depois da sua fundação. 

REGENCIA 

A incontornável anedota da cadeira humana, o impressionante domínio do raciocínio diplomático, a sua estratégica conversão ao cristianismo e a sua perfeita expressão em português são realçados. 

São, igualmente, destacados as vivas rivalidades de natureza politica no seio da família real, sobretudo em 1617, as dificuldades militares e as contrariedades nas campanhas de evangelização. 

A pretensa Regência da Nzinga do trono e comentada, assim como as suas tentativas, falhadas, de ofensiva militar em direção ao Ndongo ocupado, a famosa Guerra das Ilhas do Coanza, empreendidas entre Kitaxi e Danji. 

A Muene recuara para o hinterland e com a ajuda dos errantes Jagas conquistara, o Reino da Matamba, em 1630. 

A evolução histórica dará uma acalmia a Grande Singhille com a ocupação de Loanda pelos holandeses de 1640 a 1648. 

Perante a restauração do domínio português e a sua idade avançada, a Ngola conduzira uma política diplomática conciliadora, eficaz, ate a sua morte. 

A publicação da Nzinga, Reine d’ Angola confirma a reputação que atingiu a Giague na Europa ocidental, e, particularmente, no Hexágono. 

ROSTO 

Este álbum segue diversas iniciativas de natura científica, literária e artística serão, aí, notadas. 

Essas consubstanciaram-se, do século  XVIII ate aos nossos dias,  pela edição de romances a carácter  histórico, a evocação da figura da temível “Kiluanje” em várias obras clássicas assim como a publicação de relações antigas e de crónicas biográficas. 

E, e  Paris que dará, nos meados do século XIX à filha de Kenkela  - ka – Nkombe, um rosto. 

A obra de Jean-Michel Deveau e Claude Cachin, que tocara, particularmente, a juventude dos 77 países, total ou parcialmente, de língua francesa, e não só, e uma contribuição a elevação da “Nzinga van Matamba”, através das tradições e expressões orais, rituais e eventos festivos, ligados a Soberana angolana, a Património da Humanidade; dinâmica que esta a acompanhar, notavelmente, pela sociedade civil do Quadrilátero, com entidade tal como a Semba Comunicação, que acaba de organizar, em Luanda, o bem-sucedido Coloquio Internacional sobre a Rainha e que prontificar em Setembro, uma serie sobre a “Dona de Angolla”. 

Por 

Simão SOUINDOULA 
Historiador. Perito da UNESCO 
C.P. 2131 
Luanda 
(Angola) 
Tel.: + 244 929 79 32 77 

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WEB: http://www.multiculturas.com

AO1990 Carlos Reis na AR

Comissão de Educação, Ciência e Cultura
28.fevereiro.2013 – 14h00
RELATÓRIO DE AUDIÊNCIA
Entidade: Professor Doutor Carlos Reis, Professor da Universidade de Coimbra e
filólogo
Dr. José Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras
Recebidos por: Deputados do Grupo de Trabalho de Acompanhamento da Aplicação do
Acordo Ortográfico
Assunto: Acordo Ortográfico
Exposição: O Coordenador do Grupo de Trabalho deu as boas vindas aos intervenientes (o
Professor Carlos Reis a ser ouvido em videoconferência e o Dr. Vasconcelos presencialmente)
e solicitou-lhes que expusessem a sua posição sobre o Acordo Ortográfico (AO) e a sua
aplicação.
O Professor Carlos Reis iniciou a sua intervenção referindo que a vigência do AO não está em
causa e informando que o Brasil prolongou por mais tempo o período de transição, não
obstante o Acordo já esteja em vigor naquele país, sem questões e sem dramas.
Referiu depois que não foi claramente transmitido o que se pretende com o Acordo, situação
que favorece a reação negativa em relação ao mesmo. Nessa sequência, clarificou que se
pretende que o mesmo seja um instrumento político de apoio à internacionalização da língua
portuguesa. Realçou também que se espera tudo do mesmo, mesmo aquilo que ele não pode
dar.
Referiu que as intervenções na língua causam sempre perturbação e informou que em vários
países europeus houve intervenções recentes nesta matéria, nomeadamente em Espanha,
Holanda, França. Salientou depois que a ortografia é também uma questão de hábito e ainda
na década de 1990 foram introduzidas alterações, nomeadamente a nível de acentos, que
estão já assumidas e aceites.
Reiterou que as alterações ao AO precisam de habituação, defendendo que a comunicação
social e o ensino já o incorporaram. No entanto, reconheceu que há algumas dificuldades, que
entendeu que sempre acontecem e que se resolvem com o hábito e com o vocabulário comum.
Reconheceu que não se construíram instrumentos de regulação atempadamente,
nomeadamente o vocabulário comum, embora já exista o vocabulário ILTEC e os vocabulários
da Academia Brasileira e da Academia de Ciências de Lisboa. Realçou que a intervenção do
AO é inferior às alterações de 1911. Por outro lado, informou que o Brasil tem tido uma maior
intervenção no sentido do esclarecimento das alterações geradas pelo AO.
Concluiu que o Acordo permitiu que haja português com uma única norma (não português de
Portugal e brasileiro), como aconteceu noutros países com a respetiva língua.Comissão de Educação, Ciência e Cultura
2
O Dr. José Carlos Vasconcelos referiu que o Acordo Ortográfico está integrado na política da
língua, realçando a necessidade de entendimento a nível da ortografia da língua portuguesa.
Fez depois referência à criação, na década de 1990 e com esse objetivo, do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa, que não teve grande sequência.
Indicou como objetivo do Acordo a internacionalização da língua e a maior facilidade de ensino
e de aprendizagem da língua portuguesa. Referiu, a título exemplificativo, a situação de Timor,
que tem professores de Portugal e do Brasil (ao abrigo de acordos de cooperação), os quais
ensinam português de forma diferente, pretendendo-se que haja uma forma comum.
Realçou que uma ortografia única é fundamental para a presença do português nas instituições
internacionais e referiu que o Acordo era para entrar em vigor em 1994 e não se percebe a
demora verificada, realçando que as leis aprovadas têm de ser cumpridas. Informou depois que
só Angola ainda não ratificou o Acordo.
Defendeu que o Acordo não é para escritores e que há questões de grafia a reponderar e a
mudar, nomeadamente o para/para, espectador/espetador, mas seria dramático suspender ou
alterar a aplicação do mesmo.
Interveio depois o deputado Miguel Tiago (PCP), que agradeceu os contributos e referiu que o
seu Grupo Parlamentar não parte com objetivos fixos e deixa em aberto todas as hipóteses, de
vigência do Acordo Ortográfico ou de alteração do mesmo, conforme a interpretação que
fizerem do interesse nacional a nível da política da língua, defendendo que ainda não tinha
havido um debate global da sociedade com esta amplitude.
Referiu que o argumento de unificação da língua em plataformas internacionais não é um bom
exemplo, referindo que nas traduções, se houver unificação de ortografia (realçando que ainda
não há) e prevalência do brasileiro, isso terá um efeito dramático.
O deputado Michael Seufert (CDS-PP) referiu que no seu Grupo Parlamentar estão abertas as
várias soluções, informando que em 2008, aquando da discussão da Proposta de Resolução
do Acordo, houve duas intervenções de deputados do CDS-PP, uma a favor outra contra e que
essas posições se mantêm atualmente.
Depois, questionou se entendem que o objetivo enunciado, de unificação da língua, é
exequível, manifestando a convicção de que haverá sempre diferenças em relação às duas
formas de escrita. Perguntou ainda se houve uniformidade com o Acordo, referindo que
atualmente há 3 formas de escrita.
A deputada Rosa Arezes (PSD) informou que estava a fazer-se a primeira audição com
pessoas a favor do Acordo, salientando que pelo que se sabe mais de metade da população
portuguesa é contra aquele, o mesmo acontecendo com muita comunicação social. Questionou
depois que interpretação fazem desta relutância da população e da comunicação social e bem
assim quais as matérias a mudar no Acordo.
A deputada Gabriela Canavilhas (PS) realçou a riqueza das duas intervenções, referiu que a
não ratificação por parte de Angola se prende com o facto de não ter havido introdução de
palavras específicas daquele país e realçou que é lapidar a indicação do Dr. José Carlos Comissão de Educação, Ciência e Cultura
3
Vasconcelos de que, se se fazem leis, as mesmas têm de ser cumpridas. Realçou a
sensibilidade com o desconforto de quem é contra, referindo que muitas vezes o poder político
deixa-se condicionar pela sociedade civil e defendeu a necessidade de ouvir a academia.
Questionou depois quais os procedimentos a levar a cabo para introduzir alterações que
melhorem a aceitação do Acordo e se o Vocabulário Ortográfico Comum pode suprir as
dificuldades atuais ou o que é que entendem necessário para esse efeito.
O deputado Luís Fazenda (BE) referiu que o Vocabulário Ortográfico Comum não quer dizer
único. Informou depois que o BE, em 2008, entendeu que era importante haver uma
aproximação das várias ortografias e uma plataforma comum da língua, sob pena de
prevalência da brasileira, considerando que acantonarmo-nos na nossa grafia não parece ser a
solução. O óbice agora indicado é que o AO não trouxe unicidade, mas aumentou a
divergência.
Referiu ainda 2 óbices atuais, a saber: o facto de o Brasil ter introduzido uma prorrogação,
enquanto o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros diz que Portugal não alterará a sua
posição; a existência de uma iniciativa legislativa de cidadãos contra o AO, em relação à qual
os Grupos Parlamentares deverão tomar posição, analisando os seus vários argumentos.
Indicou ainda o BE com diferenciação de posições e questionou quais os mecanismos de
atuação que temos se o Brasil não cumprir o Acordo.
Em resposta às questões colocadas e às observações feitas, o Professor Carlos Reis reiterou
que o Brasil está a cumprir o Acordo e bem, tendo apenas prorrogado o período de transição.
Em relação aos objetivos do Acordo, realçou que não se pretende unificar as línguas, mas
esbater as suas diferenças, aproximando-as. Nessa linha, fez referência a um artigo de Jorge
Candeias sobre as diferenças ultrapassadas pelo Acordo e as geradas pelo mesmo, tendo
concluído que se regista um balanço de 5 para 1 a favor das diferenças ultrapassadas.
Reiterou o objetivo do AO de dar ao português uma norma única, sem prejuízo das diferenças
existentes em algumas palavras. Salientou que a ortografia não tem influência no léxico e
normativo da sintaxe e realçou que o português é mais condicionado pela televisão,
nomeadamente pelas telenovelas brasileiras, que geraram a introdução de muitas expressões
e palavras.
Informou que já existe software formatado que respeita as diferenças existentes e defendeu
que o Vocabulário Ortográfico Comum é decisivo para mostrar a grafia das palavras diferentes,
tendo dado como exemplo a palavra autocarro.
Na sequência da indicação de que tinha sido feita a audição de professores e alunos do ensino
secundário, sugeriu a audição de alunos mais jovens, que estão a aprender a escrever, tendo
defendido que o Acordo permite uma aproximação da escrita com o que se diz.
Em traços gerais, manifestou uma opinião favorável em relação às vantagens do AO. Em
relação à indicação de que mais de metade da população é contra o mesmo, referiu que as
pessoas resistem às mudanças, mas há uma pura opinião em relação ao número de pessoas
que estão contra, sem recurso estatístico. Nessa linha, indicou que dos 10 jornais mais lidos, 8 Comissão de Educação, Ciência e Cultura
4
já usam a ortografia do AO. Salientou ainda que há questões que têm de ser reajustadas, como
sejam o caso da utilização do hifen.
O Dr. José Carlos Vasconcelos referiu que o Brasil fixou uma data limite para aplicação do AO,
não obstante esteja já em franca aplicação do mesmo. Indicou que muitas pessoas estão
contra o Acordo para não serem ultrapassadas pelo Brasil, entendendo, no entanto, que a
inexistência de aproximação linguística é que geraria a prevalência da grafia brasileira.
Reiterou que a ortografia tem pouco a ver com a literatura e que o tempo resolve muitas coisas
de ortografia. Salientou que em 1911 também houve muita resistência à mudança de
ortografia, por exemplo à queda do y. Esclareceu que Timor subscreveu o AO. Por último,
salientou que a questão principal do Acordo é a internacionalização da língua e a introdução de
maior facilidade no ensino.
A documentação da audiência, incluindo a gravação, encontra-se disponível na página da
Comissão, na Internet.
Palácio de São Bento, 28 de fevereiro de 2013
A assessora
Teresa Fernandes

jornal Público “arrasa” Colóquios da Lusofonia

 

acabo de receber esta extraordinária peça, mas não sei se lhe chame jornalismo… FALANDO DA SUA CÁTEDRA SEM JAMAIS SE TER DESLOCADO A NENHUM COLÓQUIO, O ARTICULISTA DO JORNAL PÚBLICO (ferozmente anti-AO) “arrasa” os nossos colóquios e todos os escritores, investigadores e demais pessoas (centenas várias) que ao longo de 19 edições vieram aos colóquios e certamente, ao contrário do que o articulista insinua, não foi para fazer turismo…Fico pessoalmente grato pela publicidade gratuita naquele que já foi o mais prestigiado jornal português e do qual fui cofundador ….

COLOQUIALMENTE FALANDO

“Quando lhe perguntavam se era a favor ou contra o Acordo Ortográfico (AO), ele, para ser franco, respondia sempre que lhe parecia um desperdício, um embuste, uma fraude, que a ortografia já evoluíra de diferentes formas e que o importante era entendê-las a todas e pronto. Em geral ficava-se por aí. Até que um dia, como sucede aos incréus perante as bem-sucedidas tentações de uma qualquer religião, indicaram-lhe um endereço e ele viu a luz. Sim, deixou-se literalmente encandear pela súbita revelação da novidade. Estava ali, aos seus olhos, tudo o que não vira quando se juntara aos protestos anti-AO, quando andara em colóquios, distribuíra panfletos, abaixo-assinados, cartas de protesto e indignação. Afinal era aquilo. Podiam-lhe ter dito que ele talvez ponderasse, reflectisse e agisse em conformidade. Chegou-se ao computador e digitou http://lusofonia.com.sapo.pt/. Viu muitas caras de escritores e achou natural: a língua escrita, património comum, etc. Mas do lado direito viu um botão intitulado “Colóquios da Lusofonia”. Seguiu por ali, como lhe tinha sugerido uma alma bem-pensante. E, no meio de imagens aos pulinhos, siglas, um arco-íris escondido por detrás de uma árvore, eis que se lhe desvendou um mundo novo aberto à língua portuguesa: o da recreação. Lá estava (e lá está, ainda, para quem queira consultar) a lista das viagens, as condições hoteleiras, a ementa, as reservas de quartos, tudo. E, claro, o programa do mais recente colóquio, o sarau musical, tudo como deve ser.
Parecia, e parece, uma coisa feita por principiantes no manejo de computadores, mas deve desculpar-se tal insignificância diante do alcance da coisa. Que, aliás, está contada a preceito num documento intitulado “Historial dos Colóquios da Lusofonia”. É só clicar noutro botãozinho, do lado esquerdo do ecrã (AICL historial), e surge um PDF de 13 páginas assaz elucidativo. Escrito na primeira pessoa, embora sem assinatura, explica ao recém-chegado que são “uma associação cultural e cientifica [assim mesmo, sem acento, mas não se pode exigir tudo] sem fins lucrativos”, “um exemplo da sociedade civil atuante em torno de um projeto de Lusofonia sem distinção de credos, nacionalidades ou identidades culturais”. Ora o “exemplo” faz colóquios. Que “juntam os congressistas no primeiro dia de trabalhos, compartilhando hotéis, refeições, comunicações, passeios e, no último dia, despedem-se como se de amigos/as se tratasse”.
Não está bem escrito, longe disso, mas não se pode exigir que quem pugna pela unidade da língua se preocupe ao mesmo tempo em escrevê-la bem. É uma sobrecarga terrível, nem calculam. Mas adiante. À nona linha já o autor está a citar Martin Luther King para explicar que em dez anos já fizeram 18 colóquios. Não se percebe a analogia com o sonho de King e menos ainda que a citação seja errada: “I had a dream” em lugar do muito conhecido e difundido “I have a dream…”. É só um pormenor, que para o efeito (o das viagens e alojamento) não importa absolutamente nada. O que importa, na verdade, é que aos 18 colóquios já realizados o grupo quer juntar muitos mais e, “depois do Brasil, Macau e Galiza quer voltar ao Brasil, ir aos EUA e Canadá, Cabo Verde, Roménia e outros países”. E que países?, quis ele saber, lendo avidamente o documento. “Roménia, Polónia, Bulgária, Rússia, Eslovénia, Itália, França.” Tudo pela divulgação da “açorianidade literária”, pretexto mais imediato (hoje mesmo o grupo está de visita aos Açores, já agora) e, claro, pela “unificação da ortografia” consagrada no AO. O que se percebe, porque os turistas, perdão, os padroeiros da bendita causa, são precisamente os “pais” do AO, Malaca Casteleiro e Evanildo Bechara, com uma pequena mas robusta corte de acompanhantes.
Ah, pensou ele, relendo o documento, como é alegre a “expansão da língua”! Que rotas, que paisagens, que oportunidades de conhecer novos mundos! E tudo a sair do bolso dos inscritos, claro, não venham já caluniar… Mas com “apoios protocolados para cada evento” e tentando, “ao nível logístico”, “beneficiar do apoio de autarquias com visão para apoiar a realização destes eventos”.
E foi assim que ele, vendo finalmente a luz da letra viajante, resolveu aderir ao grupo dos excursionistas da língua. Parece que até em Bora Bora há gente interessada no AO, sabiam?”
Nuno Pacheco, in jornal Público, de 17 de Março de 2013

joel neto nas correntes d’escrita

 

publicado por JN em 24/2/13

Julgo que se pode dizer que a literatura sempre teve, para mim, algum tipo de serventia em particular. Tomei contacto com ela aos quatro/cinco anos, soletrando de dedo esticado as palavras da Bíblia Sagrada, e logo ela assumiu a sua primeira utilidade prática. Nós éramos protestantes, manuseávamos “O Livro” – e era através d’“O Livro” que começávamos por manifestarmo-nos gente.

Mal se insinuava no horizonte a entrada para a escola, recebíamos do nosso avô um relógio e dos nossos pais um exemplar das Escrituras, tradução de João Ferreira de Almeida, Velho e Novo Testamento num volume só – e era com esse volume debaixo do braço, transportado numa pastinha de napa, sublinhado a marcadores fluorescentes e decorado nos seus versículos essenciais (João 3:16, todo o Salmo 23, o “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho”, do Evangelho Segundo Marcos) – era com esse volume debaixo do braço que nos tornávamos, por assim dizer, gregários.

Depois, aos catorze/quinze anos (talvez dezasseis, embora eu goste de acreditar que foi mais cedo), eu percebi, enfim, que a literatura existia [não foi só a literatura, mas tudo o resto que se descobre aos catorze anos é inconfessável]. Dei numa montra com um exemplar de “Um Deus à Beira da Loucura”, de Daniel de Sá [há aqui vários amigos e admiradores de Daniel de Sá], e, da primeira vez que alguém me pôs dinheiro no bolso, peguei em quinhentos escudos e fui comprá-lo.

Eu alinhava razoavelmente as frases na disciplina de Português, mas não fazia sequer ideia de para que servia um livro que não a Bíblia. Na verdade, era aquele qualificativo, “À Beira da Loucura”, atribuído ao Criador de todas as coisas, que me interessava. Eu julgava ter descoberto que o Deus que me cativara a infância era, afinal, invejoso e castigador, repleto de proibições e de cólera – e ter aquele livro sobre a mesa de cabeceira assumia duas serventias em simultâneo: não apenas me fazia sentir profundamente subversivo, como também menos só na posse desse segredo de que Deus, na verdade, era mau.

Depois, sim, depois li essa pequena novela de Daniel de Sá. E depois um romance. E outro, e outro – uma série deles, açorianos e do mundo. E ler livros tornou-se uma bandeira: aquilo que me distinguia no meio do marasmo de uma ilha triste e enfadonha. E depois a ideia de que escrevia bem tornou-se outra bandeira ainda: o meu melhor recurso para aplacar a menoridade social.

Nada disto, até aqui, é distinto daquilo que aconteceu convosco. E estamos de acordo: esta é, muito provavelmente, a serventia mais frívola que os livros e a literatura podem ter nos nossos percursos de vida: primeiro colocam-nos numa posição um nadinha mais a salvo das crueldades da adolescência (do tipo: “Deixa lá estar esse, que lê livros e deve ser meio maluco”) e depois até nos arranjam namoradas, nos tempos da faculdade, onde qualquer vago aforismo parece capaz de mobilizar a raiva, ou pelo menos de enternecer um coração.

Quem nunca precisou dos livros para prevalecer sobre a inaceitação, qualquer que ela seja, provavelmente nunca precisou dos livros como os livros devem ser precisados.

E depois, finalmente, veio a utilidade da idade adulta. Lidos ou mesmo escritos por mim, os livros passaram a servir-me para regressar a casa. Eu vivia em Lisboa há cinco, há dez, há quinze anos – e só os livros conseguiam devolver-me à ilha, inclusive à ilha que já nem sequer existia, e que aliás agora já não me parecia tão triste e enfadonha, mas alegre e exuberante e autêntica e minha. Também nisto coincidiremos, muito provavelmente: escrever, como ler, continua a ser sobretudo um modo de voltar. De voltar à infância. De voltar a casa. De voltar, até, a onde nunca sequer se esteve, se me permitem o paradoxo fácil. Um modo de fazer as pazes. E um modo de continuar.

Julgo que, se não tivessem sido os livros, eu nunca teria conseguido viver vinte anos em Lisboa, penando com a ausência da terra-mãe. E tenho a certeza de que, se não tivessem sido eles, não teria conseguido regressar em definitivo a ela, como fiz recentemente, instalando os meus modos e os meus gestos e os meus cheiros e as minhas rotinas e os meus objectos lisboetas na freguesia rural da Terra Chã, ilha Terceira, na casa onde os meus avós viveram os últimos cinquenta anos das respectivas vidas, e assim dizendo o meu próprio: “Para sempre. Aqui estou.”

Mas: para que me vão servir os livros agora? Eis a dúvida por que me deixei assaltar aqui há umas semanas, quando peguei nas cento e poucas páginas já escritas do romance em curso, as reli pela duocentésima vez e cheguei à conclusão de que estavam, afinal, “uma merda” – de que, em suma, eu não tinha a mínima ideia do que estava a fazer.

Para que vou eu precisar dos livros agora? Tenho as pazes feitas com Deus, de cuja música e de cuja arquitectura gosto tanto. Os vizinhos colhem batatas ou matam um porco ou fazem uma pipa de aguardente de néveda e vêm dependurar-me na porta um bocado, para eu provar. De namoradas, já tive mais do que merecia: duas – e, aliás, ou muito me engano, ou já casei vezes suficientes [casei com as duas].

E, entretanto, regressei de facto a casa. Regressei a casa e sento-me a ler o jornal da terra naquela mesma cozinha onde o meu avô, José Guilherme, se sentava a ler o jornal da terra – e às vezes vem o meu pai e senta-se comigo, e às vezes vem o Zé Maria e senta-se connosco, embora só eu o possa ver porque é um fantasma – e a certa altura já estamos à mesa todos, eu e aqueles a quem dediquei livros, sobre quem escrevi, cujo amor quis conservar, e pergunto-me: “Escrever o quê, agora?” E o que estou a perguntar é: “Escrever para quê? Terão alguma serventia, a partir daqui, os meus textos?”

Afinal, sem serventia, neste tempo, é que já não dá mesmo. John Banville está a reescrever Philip Marlowe e William Boyd a reescrever James Bond – talvez com a serventia de enriquecerem, talvez com a serventia de submeterem a literatura às regras do cinema comercial. Cada vez mais de nós estão a escrever segundo uma estranha corruptela desta língua, “exceção” sem P, “hei de” sem hífen, “para!” sem acento – talvez com a serventia de ajudarem a tornar a língua num mercado, talvez com a serventia apenas de agradarem a nem sabem bem quem.

E eu, não sendo capaz de reescrever Elias Santana, nem sequer João Garcia, e menos ainda Calisto Elói, escreverei agora para quê? “Apenas” para tentar reinventar ligações entre as palavras, na presunção de que poderei ser eu a iluminar-lhes novas utilidades e, por conseguinte, a abrir-nos a todos novos modos de pensar?

Logo eu, que vivo subjugado pelos computadores, dependente da Internet, submetido à ditadura dos iPhones e dos iPads – poderei ser eu a oferecer à literatura uma nova superação da sua subalternidade, a permitir-lhe vingar-se, mais uma vez, da urgência de uma serventia, a encontrar-lhe nova e superior serventia? E logo neste tempo em que se deixou, em definitivo, de ouvir as palavras “Este livro mudou a minha vida”? Logo agora, que até se convencionou que as elites se podem dispensar de uma cultura literária e serem simplesmente cretinas – e dizerem, inclusive, que se um sem-abrigo aguenta, temos todos nós mas é de aguentar também?

Resta-me, pois, juntar-me a Daniel de Sá e escrever para aquela montra de Angra do Heroísmo onde talvez passe um jovem de dezasseis anos e queira distinguir-se entrando. Resta-me, provavelmente, juntar-me a Daniel de Sá e a Álamo Oliveira e a Dias de Melo e a Madalena Férin e a Urbano Bettencourt e a Emanuel Jorge Botelho e a Vamberto Freitas e a Onésimo Teotónio de Almeida e a João de Melo – a João de Melo também, sim –, e aliás a tantos outros, e tentar oferecer aos meus livros a serventia de tocarem um rapaz de dezasseis anos e, quem sabe, deixá-lo para sempre obcecado com a ideia de voltar a casa.

Interessa-me pouco o debate académico em torno da existência ou não de uma literatura açoriana, em que tantos dos escritores da geração anterior à minha se desgastaram. Mas interessa-me que a literatura tenha sido, ao longo destes quase quarenta anos de autonomia política e administrativa dos Açores, uma das mais importantes ferramentas para a consolidação de uma identidade comum àqueles nove (e tão distintos) pedaços de terra dispersos pelo mar.

Por isso, se me dão licença, eu vou ficar ainda um pouco mais chato com os Açores. Os meus livros vão tornar-se mais açorianos ainda e as minhas conversas mais açorianas ainda e eu mais insistente ainda nas tentativas de despertar os lisboetas e os portugueses para a opressão silenciosa – para a opressão sorridente – de que a minha gente e as suas possibilidades estão a ser alvo.

Será essa, a partir de agora, e em definitivo, a minha serventia. “A serventia dos meus textos”, como diz o poeta. Também eu quero, enfim, tornar-me naquilo que sempre fui: um escritor de fronteira, atento à fúria dos elementos e atento à fúria dos homens.

E, pelo meio, talvez os meus livros venham a ser capazes de sugerir que, no fundo, nunca se regressa verdadeiramente a casa. Que, na verdade, a infância é irrepetível – e que, muito provavelmente, a maior tragédia de todas é mesmo essa.

Talvez eles possam, enfim, continuar a ser literatura. Ou mesmo serem-no finalmente.

 

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“Estamos demasiado portugueses. Temos de tornar-nos novamente um pouco mais açorianos e um pouco menos portugueses.” Digo-o a meio de um raciocínio mais ou menos tortuoso sobre literatura açoriana, feito em resposta a uma pergunta da audiência. Não me soa tão mal quanto isso, e o incómodo com que alguns dos presentes reagem agrada-me. A dirimir.

 

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Muito me agradaria se me convidassem todos os anos, para este ou para outro festival. Um festival literário a cada doze meses seria uma boa maneira de, face às fronteiras da ilha, me reposicionar perante a coisa literária, o seu universo, a sua magia. O vereador que preside à cerimónia de encerramento elogia-me a intervenção e convida-me a voltar em 2014. Talvez tenham sido palavras de circunstância. Mas fico satisfeito.

 

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É, para além de um milagre e um exemplo de organização, o certame. Esta tarde vinha caminhando na rua com o Marmelo e logo apareceu um carro oficial, com um diligente motorista oferecendo-nos transporte para alguma parte. Inspirador.

 

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Na última noite de copos, volta a cantar-se o “Grândola”, meio a brincar e meio a sério. Alguns dos mais zangados olham para mim, a conferir se tenho coragem. Já algum tempo que sou o conservador de serviço, e não se pode dizer que a ideia me desagrade. Mas canto com eles, naturalmente. Sou um democrata e não apenas respeito, como admiro (mais do que admirar: venero) o 25 de Abril. Exactamente como eles. E que possam questionar-se sobre isso é outro sinal da esquizofrenia em que neste momento vivemos.

 

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De resto, até para isso este festival serviu: para confirmar a hipótese de os intelectuais não estarem a desempenhar devidamente o seu papel nesta crise. Identifica-se o problema, mas não se propõe alternativa – e, pelo meio, tudo se resume a um maniqueísmo ritualista muito mais próximo (de novo) do comportamento de uma claque de futebol, ou do dos adolescentes carregados de hormonas em dia de aula de Educação Física, do que do pensamento. É normal um intelectual comportar-se como um soldado, num certo instante ou durante um determinado período de tempo. Mas, se todos os intelectuais se comportam como soldados ao longo de um mesmo período de tempo, a quem poderemos recorrer como intelectuais?

 

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Mas não, este não é um tempo especialmente auspicioso para um moderado. De facto, não é.