descendente de açorianos na família imperial

Uma descendente de açorianos na família imperial brasileira

Apesar de pouco visualizados, os Açores contribuíram com gente na colonização de terras conquistada por Portugal, de forma sempre constante, em todas as épocas da sua história. No Brasil, com exceção do sul do país, onde a colonização ilhoa foi marcante, a presença açoriana se apresentou de uma forma diluída, mas frequente na base da formação das famílias brasileiras.

Em leitura recente, no livro de Genealogia das Quatro Ilhas (Pico-Faial-Flores e Corvo – Vol. II) encontrei um fato interessante que veio corroborar esta evidencia. Na família Imperial Brasileira há uma Senhora que tem raízes familiares no Arquipélago açoriano. Chama-se Maritza Ribas Bokel.

D. Maritza Ribas Bokel nasceu no Rio de Janeiro a 29/04/61. É paisagista e casada com D. Alberto Maria José João Miguel Gabriel Rafael Gonzaga de Orleans e Bragança e Wittels Bach (Jundiaí do Sul, PR – 23/06/1957) nascido Príncipe do Brasil, e que renunciou aos eventuais direitos ao trono Imperial, assim como a sua descendência.

É filha de.

D. Marisa Bulcão Ribas (RJ, 28/08/1930) e de Jaddo Barbosa Bokel (Campinas SP). É filha de

D. Guilhermina Cavalcanti Bulcão (RJ) casada com José da Rocha Ribas (RJ). Poetisa. Filha de

Joaquim Inácio de Siqueira Bulcão (Cachoeira BA, n. 1852) Médico, vice-almirante, e de D. Maria José Cavalcanti Lins.

É filho de

Joaquim Inácio de Siqueira Bulcão (S. Francisco- BA, n.1830) fidalgo da Casa Imperial e de D. Inácia Calmon Du Pin e Almeida (f em Vila da Cachoeira, BA em 1892). Filho de

José Araújo de Aragão Bulcão (n em 1795, e f em 1865, Salvador, BA), Segundo barão de São Francisco e de D. Ana Rita Cavalcanti e Albuquerque (f em Salvador em 1869). Filho de

Joaquim Inácio Siqueira Bulcão (n. em 1768, S. Francisco, BA, e falecido em Salvador em 1829) Primeiro Barão de São Francisco e de D. Joaquina de Maurícia de São Miguel e Aragão (n. São Francisco, BA em 1773 e f. 1862). Filho de

Baltazar da Costa Bulcão (n. em N. Senhora do Monte do Recôncavo, BA em 1721 e f. após 1763) Capitão-mor e de D. Maria Joana de Jesus e Aragão ). Filho de

José da Costa Bulcão (n. em N. Sra do Monte do Recôncavo, BA e f. em 1776 em Salvador, BA) Senhor de Engenhos e de D. Maria de Souza de Aragão (n. e f. na BA). Filho de

Baltazar da Costa Bulcão (n. em N. Sra do Monte do Recôncavo, BA e falecido a 1718) Senhor de engenhos de Açúcar e Capitão de Ordenanças e de D. Maria de Gões Mendonça (n. BA). Filho de

Gaspar de Faria Bulcão (n. em Castelo Branco, Faial e f. na Fazenda Água Boa, BA, Brasil em 21/03/ 1690) e de Guiomar da Costa (f. na Fazenda Água Boa, BA em 11/01/ 1690). Filho de

Sebastião de Faria Bulcão (Faial) e de Maria de Ávila (Faial). Filho de

Sebastião Dutra de Faria Bulcão (f. a 1650- Faial)) e de Madalena Dutra (f. 1645- Faial)). Filho de

Gaspar de Faria (n. no terceiro quartel do século XVI e falecido com testamento de mão comum de 9/01/1620, Faial) e de Violante de Utra.

Nota: Gaspar de Faria- desconhecemos no Faial a sua ascendência. Supõe-se ser do Continente. Era casado com Violante d’Utra ( Faial).

Violante d`Utra (Faial, m. a 27/08/1645) era filha do fidalgo flamengo Gaspar Gonçalves Bulcão que fez assento no Faial (desconhecendo-se a sua ascendência) e de outa Violante d’ Utra ( Faial)

Violante d’Utra ( Faial) era filha de Antonio Utra Nunes e Francisca Gaspar Machado.

Antonio Utra Nunes era filho de Nuno Fernandes e de Jorgina d’Utra, irmã do primeiro donatário da Ilha do Faial, Jorge d’Utra (Joss Van Hurtere) e filha de Leo Van Hurtere, senhor do senhorio feudal da Aghebrone (Haeghebrouc), flamengos de Bruges.

Maria Eduarda Fagundes

Uberaba, 31/07/2012

Referencia bibliográfica:

Famílias Faialenses (Marcelino Lima)

Genealogia das Quatro Ilhas (Faial-Pico-Flores. Corvo).

Jorge Forjaz e Antonio Ornelas Mendes (2012)

 

__._,_.___
|
__,_._,___
Please follow and like us:
error

OS PROFESSORES POR JOSÉ LUÍS PEIXOTO

Os professores, por José Luís Peixoto

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança.
ARTIGO | 15 OUTUBRO, 2011 – 00:17

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios - José Luís Peixotohttp://www.esquerda.net/artigo/os-professores-por-jos%C3%A9-lu%C3%ADs-peixoto

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios – José Luís Peixoto

O mundo não nasceu connosco. Essa ligeira ilusão é mais um sinal da imperfeição que nos cobre os sentidos. Chegámos num dia que não recordamos, mas que celebramos anualmente; depois, pouco a pouco, a neblina foi-se desfazendo nos objectos até que, por fim, conseguimos reconhecer-nos ao espelho. Nessa idade, não sabíamos o suficiente para percebermos que não sabíamos nada. Foi então que chegaram os professores. Traziam todo o conhecimento do mundo que nos antecedeu. Lançaram-se na tarefa de nos actualizar com o presente da nossa espécie e da nossa civilização. Essa tarefa, sabemo-lo hoje, é infinita.

O material que é trabalhado pelos professores não pode ser quantificado. Não há números ou casas decimais com suficiente precisão para medi-lo. A falta de quantificação não é culpa dos assuntos inquantificáveis, é culpa do nosso desejo de quantificar tudo. Os professores não vendem o material que trabalham, oferecem-no. Nós, com o tempo, com os anos, com a distância entre nós e nós, somos levados a acreditar que aquilo que os professores nos deram nos pertenceu desde sempre. Mais do que acharmos que esse material é nosso, achamos que nós próprios somos esse material. Por ironia ou capricho, é nesse momento que o trabalho dos professores se efectiva. O trabalho dos professores é a generosidade.

Basta um esforço mínimo da memória, basta um plim pequenino de gratidão para nos apercebermos do quanto devemos aos professores. Devemos-lhes muito daquilo que somos, devemos-lhes muito de tudo. Há algo de definitivo e eterno nessa missão, nesse verbo que é transmitido de geração em geração, ensinado. Com as suas pastas de professores, os seus blazers, os seus Ford Fiesta com cadeirinha para os filhos no banco de trás, os professores de hoje são iguais de ontem. O acto que praticam é igual ao que foi exercido por outros professores, com outros penteados, que existiram há séculos ou há décadas. O conhecimento que enche as páginas dos manuais aumentou e mudou, mas a essência daquilo que os professores fazem mantém-se. Essência, essa palavra que os professores recordam ciclicamente, essa mesma palavra que tendemos a esquecer.

Um ataque contra os professores é sempre um ataque contra nós próprios, contra o nosso futuro. Resistindo, os professores, pela sua prática, são os guardiões da esperança. Vemo-los a dar forma e sentido à esperança de crianças e de jovens, aceitamos essa evidência, mas falhamos perceber que são também eles que mantêm viva a esperança de que todos necessitamos para existir, para respirar, para estarmos vivos. Ai da sociedade que perdeu a esperança. Quem não tem esperança não está vivo. Mesmo que ainda respire, já morreu.

Envergonhem-se aqueles que dizem ter perdido a esperança. Envergonhem-se aqueles que dizem que não vale a pena lutar. Quando as dificuldades são maiores é quando o esforço para ultrapassá-las deve ser mais intenso. Sabemos que estamos aqui, o sangue atravessa-nos o corpo. Nascemos num dia em que quase nos pareceu ter nascido o mundo inteiro. Temos a graça de uma voz, podemos usá-la para exprimir todo o entendimento do que significa estar aqui, nesta posição. Em anos de aulas teóricas, aulas práticas, no laboratório, no ginásio, em visitas de estudo, sumários escritos no quadro no início da aula, os professores ensinaram-nos que existe vida para lá das certezas rígidas, opacas, que nos queiram apresentar. Se desligarmos a televisão por um instante, chegaremos facilmente à conclusão que, como nas aulas de matemática ou de filosofia, não há problemas que disponham de uma única solução. Da mesma maneira, não há fatalidades que não possam ser questionadas. É ao fazê-lo que se pensa e se encontra soluções.

Recusar a educação é recusar o desenvolvimento.

Se nos conseguirem convencer a desistir de deixar um mundo melhor do que aquele que encontrámos, o erro não será tanto daqueles que forem capazes de nos roubar uma aspiração tão fundamental, o erro primeiro será nosso por termos deixado que nos roubem a capacidade de sonhar, a ambição, metade da humanidade que recebemos dos nossos pais e dos nossos avós. Mas espero que não, acredito que não, não esquecemos a lição que aprendemos e que continuamos a aprender todos os dias com os professores. Tenho esperança.

Artigo de José Luís Peixoto, publicado na revista Visão de 13 de Outubro de 2011

TERMOS RELACIONADOS:

Comentários

Por: luisa lemos 20 Julho, 2012 – 20:23

Obrigada mais uma vez José Luís. Cada texto que escreve sobre a minha profissão/ vocação enche-me de prazer e orgulho. Todos os maus tratos passam para segundo plano quando alguém “ergue a voz” para mostrar ao mundo que nos rodeia a forma como nos sentimos e a razão de termos escolhido esta profissão há alguns (muitos)anos. É sempre um prazer ler as suas crónicas. Por favor não deixe de o fazer em nenhuma circunstância.

Por: Maria Olímpia L.B. Alves 29 Outubro, 2011 – 20:06

José Luís Peixoto,

Muito fora do comum este seu artigo!!
Deve ser um homem raro, de uma sensibilidade extrema e muito lúcido.
É gratificante lê-lo.
Agradeço a clareza e a destreza da escrita.

Sempre pensei que não ensinava nada… limitava-me a mostrar caminhos ou modos de ver.

Sendo como é, seguiu os caminhos que escolheu e foi bem sucedido.

Obrigada,

Por: Rita 21 Outubro, 2011 – 17:57

Obrigada José Luís Peixoto!!! Com estas palavras sinto-me reconfortada , consigo esquecer-me dos males que senti nos final dos 40 anos que trabalhei, como docente. Fui PROFESSORA! Infelizmente tive de abandonar e não por culpa dos alunos. Esses, passados tantos anos, continuam a sentir a mesma amizade que partilhámos na sala, reconhecem a importância que para eles tive. Somos colegas/amigos ou simplements amigos. Infelizmente colegas há que não atingem o verdadeiro sentido da sua missão… esses sim conduzem o ensino/ professor ao estado actual.

Por: José Cadeco 19 Outubro, 2011 – 23:02

Obrigado

Por: Paula Oliveira 18 Outubro, 2011 – 23:22

Parabéns pelo seu artigo!
Como dizia o autor,

“Há palavras que nos beijam
(…)
De repente coloridas
Entre palavras sem cor,”
(…)

Por: marisa luz 16 Outubro, 2011 – 15:56

este artigo…foi musica para os meus ouvidos…bem haja

Por: Isabel Raminhos 16 Outubro, 2011 – 15:44

Obrigada José Luís Peixoto pelas palavras que dedicou aos professores, numa altura em que estes têm sido tratados com tanta injustiça e tanta ingratidão. Também eu sou professora há vinte e oito anos, profissão à qual me dediquei inteiramente, acreditando que podia contribuir para a criação de uma sociedade mais justa e mais fraterna, onde cada cidadão valha como a pessoa que é e não como um simples número numa qualquer contagem estatística. Porém, aquilo a que tenho assistido é a um ataque sem limites à figura do professor, ao seu trabalho e à sua dedicação. Por isso a desilusão é grande. Ainda bem que “mesmo na noite mais triste, há sempre alguém que resiste, há sempre alguém que diz não”. Bem haja.

Por: Filomena Amorim 15 Outubro, 2011 – 22:35

Parabéns, José Luís Peixoto, pelo seu artigo. Muito obrigada.
Filomena Amorim

Por: Margarida 15 Outubro, 2011 – 20:20

Parabéns e obrigada ao autor deste artigo, José Luís Peixoto! Agradeço não só porque sou professora neste país, hoje, aqui e desde há trinta e tal anos… mas também porque é verdadeiramente quando estou no desempenho daquilo que entendo que é a minha verdadeira missão, que consigo esquecer-me dos “males” do mundo e do meu, agora, pobre país! E neste texto consigo sentir-me gratificada, tanto quanto quando encontro e revejo antigos alunos, ou melhor dizendo, me encontram, os jovens que me “passaram pelas mãos” e que fazem questão de fazer o favor de me lembrar que um dia fui alguém nas suas vidas!
Bem haja!
Margarida

Please follow and like us:
error

DIAS DE MELO

  • Nuno Gomes dos Santos
Recordar Dias de Melo em Abril

«Além de tudo, com a idade que tenho, importa que, entretanto, não me bata à porta o momento final». Escreveu isto o Dias de Melo, numa carta que me enviou, no dia 1 de Junho de 2006. Porém, o momento final chegou, dois anos depois de ter começado essa carta, respondendo à minha de pouco tempo antes, e que começava assim: «é sempre um consolo, no isolamento em que vivo, receber notícias de um amigo». Antes, a 26 de Novembro de 2005, escrevia-me: «parece que toda a tristeza do mundo caiu em cima de mim. A minha estrada está quase no seu termo». Nascido no dia 8 de Abril de 1925, na Calheta de Nesquim, ilha do Pico, Açores, Dias de Melo viveu os seus últimos anos numa azáfama de escrita, numa luta pela publicação dos seus livros, cada vez mais difícil dada a política editorial que em Portugal se implantou, de memória curta e de olho no lucro, sem grandes critérios de qualidade (as excepções confirmam a regra), e com pouca gente a dar-lhe o «consolo» que, por muitas razões, merecia mais do que tinha: poucos amigos, alguns familiares dedicados, muitas costas injusta e desumanamente voltadas. Foi, na opinião que sobre ele tinha Natália Correia, «o mais honesto escritor português». Escreveu poesia, foi cronista (no Diário de Lisboa, onde assinou textos numa coluna intitulada «Gente e paisagem» e fez amizade grande com Fernando Assis Pacheco), etnógrafo e, mais que tudo, romancista. Cito, apenas, alguns títulos: «Mar Rubro», «Pedras Negras», «Vinde e Vede», «Cidade Cinzenta», «Na Noite Silenciosa», saudados, em tempos, pela crítica intramuros e de fora parte, sendo traduzido em várias línguas, japonês incluído. Foi professor («recebi ontem a sua carta. Veio acordar em mim tanta lembrança e um pouco de saudade dos meus tempos de professor, embora o fosse sem qualquer vocação, que a minha era o mar», 12 de Janeiro de 2007). O mar. Aos 12 anos escreveu um texto intitulado «Desastre no Canal», que deu origem, mais tarde, ao romance «Mar Pela Proa». O título inicial foi modificado para se não dizer que o escritor ia a reboque de Nemésio e do seu «Mau Tempo no Canal». Desse canal e desse mau tempo sabia o Dias de Melo, baleeiro que foi e que sobre baleeiros escreveu, muito e bem. Homem preocupado e empenhado nas questões sociais («o negócio do livro está mau. Com a crise que aí vai, tomara as pessoas ainda poderem comprar coisa que mastigar», carta de 8 de Janeiro de 2006), Dias de Melo sempre se afirmou contra a ditadura e, até ao fim dos seus dias, pronunciou-se a favor de uma maior igualdade social, mantendo uma actividade política participativa. Tinha, com a sua idade e o seu passado, muitas estórias para contar. E contava-as com prazer e sabedoria. Como esta, por exemplo, sobre Vitorino Nemésio:«Nemésio, pelo menos no liceu, tinha grande embirração com a Matemática. Na Terceira, foi umas quantas vezes a exame e nunca conseguiu passar. Foi então ao Faial e saiu-lhe a sorte grande: teve por professor de Matemática o senhor Florêncio Terra, notável escritor, embora pouco conhecido, e homem bom. No fim do ano, no conselho das notas, ao chegar ao Vitorino Nemésio, diz para os colegas: Este aluno não merece passar. Mas vou dar-lhe o 10. O que ele vai ser é um notável escritor e não serei eu a cortar-lhe as pernash» (carta datada de 21 de Novembro de 2006). De Dias de Melo poder-se-ia escrever muito e muito mais. Creio que, também, perguntando coisas ao Fernando Tordo, um seu grande amigo dos tempos do «exílio» do grande cantautor no Faial, ali a duas braçadas do Pico, ilhas de olhos nos olhos bem captadas pela câmara de José Medeiros no documentário «Toadas do Mar e da Terra – Uma Viagem ao Universo do Escritor Dias de Melo». Por mim, vou relendo a obra do «mais honesto escritor português» e as suas cartas, que começavam, inevitavelmente, assim: «caríssimo Nuno Gomes dos Santos».

 

ps Dias de Melo esteve em 2008 no colóquio da lusofonia da Lagoa quando o começamos a revelar e faleceu passado uns meses em setembro desse ano…leia o caderno de estudos açorianos e o suplemento a ele dedicado https://www.lusofonias.net/acorianidade/cadernos-acorianos-suplementos.html#

 

Please follow and like us:
error

O galego, a orquídea da língua portuguesa

 

Diego Bernal

Clica na imagem para ver o perfil e outros textos do autor ou autora
Logo se aprende

O galego, a orquídea da língua portuguesa

Diego BernalPublicado em Domingo, 10 Junho 2012 17:05
“Eu sou filho dumha Pátria desconhecida”, deste jeito exprime Castelao, no segundo livro de Sempre em Galiza, a orfandade que magoa galegos e galegas quando, no estrangeiro, nos perguntam pola nossa origem.

Pessoa, num formoso verso, grudou pátria e língua poetizando como ninguém o amor que muitos habitantes da Galiza sentimos polo idioma de Camões e Rosália de Castro, “a minha pátria é a língua portuguesa”.
E, com certeza, o poeta luso deu no alvo porque quando mais abalados ficamos os galegos e galegas é ao comprovarmos que os nossos parceiros de idioma ignoram a unidade lingüística galego-portuguesa.
Numha recente entrevista, o comunista Miguel Urbano Rodrigues lembrava como José Velo Mosqueira, celanovês participante da afouta tomada por antifascistas luso-galaicos do navio Santa Maria, ficou comovido no Brasil ao ver todo escrito em língua galega.
Essa maravilhosa sensaçom que tantos de nós temos experimentado ao chegar a Portugal ou ao Brasil logo some ao reparar que o que é evidência para nós nom o é para portugueses e brasileiros.
Mas se galego e português som a mesma língua, por que o povo brasileiro e português nom reconhece as falas galegas como parte do seu idioma?
Para entendermos isto é preciso vasculhar outras realidades lingüísticas.
Numha aula de língua galega que dei na Universidade de São Paulo, mostrando a diversidade linguística peninsular, fiquei espantado ao ver que alguns alunos identificavam a língua basca e catalá com a castelhana.
De outro lado, quem ouvir falar cidadaos de Baiona ou Perpinhá nestes idiomas perceberá como quem nom tiver nengumha noçom de francês os associará com a língua francesa.
No Brasil é comum que falantes de brasileiro identifiquem o galego com espanhol e, ao mesmo tempo, falantes de espanhol o confundam com português.
No entanto, ainda que menos habitual, isto pode acontecer mesmo com outras variedades do nosso idioma.
O professor da Universidade Federal Fluminense, o corunhês Xoán Carlos Lagares, contou-me como uma pesquisadora lisboeta no Brasil, ao requerer o acesso a um arquivo militar, nom foi identificada polo praça como falante de português e o soldado perguntou ao seu superior se umha mulher que devia ser estrangeira porque falava um português “errado” podia consultar o acervo.
A que se devem estas confusons?
As línguas som um conjunto de falas coesionadas por um padrom impulsionado por umha elite. Toda língua padrom é umha construçom artificial que responde aos interesses de umha classe social.
O português padrom, como o espanhol ou o de qualquer língua, é um “invento” construído ao longo da história.
Na escrita, portugueses e brasileiros identificam sem hesitaçom o seu idioma como um só. Porém, na oralidade, ao existirem milhares de falares diferentes, nom sempre um falante identifica todos eles com o seu idioma.
Isto acontece porque os meios de comunicaçom silenciam muitas das variedades e empobrecem a língua portuguesa reduzindo as suas possibilidades de pronúncia.
A múltipla diversidade dá lugar, aliás, à inevitável tensom, maior ou menor, que todas as línguas tenhem entre fala e escrita.
No Brasil as falas cariocas e paulistanas e em Portugal as lisboetas chegam a todos os lares através da televisom, a rádio e a internet.
Porém, quantas vezes umha mineira ouve umha portuguesa de Chaves, umha galega de Burela ou umha indiana de Goa?
Mas as falas galegas, para além de estarem isoladas do resto da lusofonia padecem umha forte pressom do espanhol.
A delicada situaçom que atravessa o português da Galiza deve-se a que desde o século XV sofre um processo de marginalizaçom que derivou no conflito lingüístico atual em que o castelhano está a se impor ao norte do Minho.
O galego, entendido como as falas lusófonas faladas na Galiza, é umha variedade da língua portuguesa que como toda língua num contexto de conflito lingüístico sobrevive sob a coaçom da língua teito. A língua galega é, portanto, de um ponto de vista estritamente lingüístico, umha variedade de português enfraquecida polo espanhol.
É a vontade coletiva demonstrada na história polo povo galego de revitalizar o idioma o que fai que as falas galegas nom sejam umha variedade de “fronteira”, um portunhol ou um castrapo. Eis a recuperaçom de léxico histórico (Deus, povo, século), de sufixos (-vel) ou a luita que desde o primeiro terço do século XX trava o nosso povo pola recuperaçom de usos da língua autóctone em contextos de que tinha sido banida polo espanhol.
A estabilidade das formas lusitana e brasileira do idioma galego contrasta com a descaracterizaçom da variedade galega. Esta deturpaçom também afeta, como é lógico, à prosódia da língua.
O desconhecimento das variedades do português e a situaçom de conflito lingüístico em que se acham as falas galegas é o que explica disparatadas atitudes como quando os portugueses tentam falar castelhano a galego-falantes. Atitudes que, pedagogicamente, devemos tentar corrigir reivindicando o reconhecimento da nossa peculiar forma de falar como parte da língua portuguesa.
Identificar o galego com o português é vital para reverter a perda de falantes. As falas galegas, como as orquídeas, precisam dessa rija árvore -a língua portuguesa- para florescer e continuar a enfeitar a viçosa fraga da diversidade lingüística planetária, para alegrar e enriquecer, com as cores do seu sotaque, a língua de Portugal e do Brasil que, nunca o esqueçamos, foi falada antes na Corunha do que em Lisboa e Brasília.
Please follow and like us:
error

AÇORIANO ESQUECIDO EM MACAU

 

 

Macau Antigo

Um blog sobre Macau Antigo A blog about Old Macau 美麗的舊澳門不能不看 do século XVI ao séc. XX

 

 

QUINTA-FEIRA, 5 DE JULHO DE 2012

Um professor açoriano na China

Os olhos de Silveira Machado viram sete décadas do século XX e quase mais uma do século XXI de Macau. Português de S. Jorge (açoriano sem sotaque), nascido no ponto mais ocidental da Europa viria a morrer quase nos antípodas e quase um século depois. Faltaram-lhe 18 anos para cumprir cem anos de vida
Quando veio para Macau, no navio que o trouxe (… que navio? Pouco importa) poderia ter ficado por Timor. Nesses tempos os navios de carreira de Portugal atravessavam o Canal do Suez, aportavam a Goa, seguiam para Díli e terminavam a viagem não em Macau, que não tinha porto de águas profundas suficiente, mas em Hong Kong, onde era o fim da carreira, depois eram os ferry-boats que traziam os passageiros ao seu destino final. Macau. Sendo assim, por mais um pouco, teria aportado à Nova Zelândia, mas não. A Nova Zelândia era longe demais e inglesa demais. Não! Não desembarcou em Timor, que seria o ponto mais perto do dito arquipélago dos antípodas (e o sítio onde o Sol nascia primeiro no antigo universo português no qual nunca se punha), mas sim aqui nesta terra que fica a algumas léguas (como diziam os geógrafos de quinhentos) “adentro do tratado de Tordesilhas”.
Silveira Machado chegou a Macau talvez como o fado. Apenas porque tinha que chegar. Foi há muitos anos e só quem se queira lembrar e se interesse por se lembrar disso poderá achar interesse em saber quem era este homem que deixou a vida pouco antes de dobrar os noventa anos de idade e pouco depois de dobrar o segundo milénio. Que quantidade de memórias nos deixou no que disse como professor a uma imensidade de alunos?

Que quantidade de memória deixou nas tertúlias em que participou a uma imensidade de amigos e convivas? Do que disse como professor primário? Como jornalista? Como escritor? Como poeta? Mas o que terá deixado de dizer?
Muito disse e deixou escrito. Basta consultar os jornais, ou comprar nas livrarias os livros que escreveu.
Do que disse apenas aos amigos em conversas particulares e fora de horas só os seus amigos podem falar. Eu era amigo de Silveira Machado, mas dele apenas posso recordar certas facetas. Outras, outros as podem recordar. A bibliografia e a hemeroteca (como se houvesse uma hemeroteca em Macau) contêm a personalidade pública de Silveira Machado. Artigos infindos sobre os mais variados assuntos escritos ao longo de décadas n’O Clarim (semanário católico onde escreveu até ao fim da vida) já que nos outros não gastava a tinta da sua caneta por razões éticas (uma ética que só ele sabia qual fosse).
Mas do que disse fora de horas não consta dos arquivos nem da hemeroteca. Consta apenas de memórias que os amigos e familiares conservam. Umas pessoais, mas compartilhadas, outras demasiado íntimas para compartilhar.
O resto encontra-se nas inúmeras entrevistas que deu aos jornais, à rádio e à televisão.
– Professor Silveira Machado (pergunta o jornalista), porque é que tendo sido a sua vida sempre a de escrever e comunicar, nunca fez programas na Emissora de Rádio Macau?

– Por que o que fica escrito fica escrito. O que fica falado perde-se e ninguém se lembra do que ficou dito. Mas nos jornais fica impresso. É indelével!… responde o professor.
(Nesse momento o diálogo perde-se na chegada de dois cafés e dois whiskeys no café o Galo onde nos encontramos quotidianamente).
– Lembras-te do Alecrim? Pergunta-me Silveira Machado.
Alecrim era um radialista dos tempos da Emissora Nacional. Tinha falado primeiro a dizer piadas nos parodiantes de Lisboa na Rádio Graça. Depois, mobilizado para a tropa, passou a falar na rádio oficial de Goa, até ser calado pela invasão. Depois de alguns anos de cativeiro arribou a Macau e retomou o microfone na Emissora de Rádio Macau. Por muitos anos manteve no ar a Rádio Macau com notícias e programas.
– Lembro-me, respondo!
Ah! Diz Silveira Machado, todos o conhecem e sabem quem é mas quem é que se lembra do que disse na ERM? Tantos momentos importantes da vida desta terra que ele disse ao microfone. Quem se lembra do que disse na emissora de Goa, durante a invasão indiana? Perdeu-se tudo e tudo se perde nas ondas da rádio. Mas nos jornais e nos livros não!…

De facto não tenho senão que concordar. O que Alecrim disse perdeu-se nas ondas etéreas (e a Rádio Macau não conservou os arquivos). Ao contrário O Clarim mantêm um acervo que vem até hoje desde antes da “Segunda Grande Guerra”.

– O Clarim jornal da igreja Católica que bate recordes de existência de entre todos os jornais que se publicaram na história de Macau.
O jornal que mais tempo sobreviveu na história da imprensa portuguesa local foi “O Independente” que andou nas bancas por mais de vinte anos (vinte e um para ser preciso). Depois disso só O Clarim bateu recordes. Silveira Machado colaborou nesse periódico desde o primeiro número no longínquo ano de 1943 em plena “2ª Grande Guerra”. Umas vezes assinando artigos, outras não. Acompanhou os altos e baixos desta publicação que em vésperas de 1999 esteve em dúvida quanto ao futuro, mas que acabaria por sobreviver e renascer como Fénix depois da transição de 20 de Dezembro de 1999.
S. Jorge dos Açores
Silveira Machado! Quem era este homem e de quem descende? Evidentemente que era descendente dos Silveiras, dos Açores família ímpar na história portuguesa e também na de Macau. Na sua árvore genealógica abundam figuras interessantes (principalmente pelo lado materno) era Silveira e os Silveira eram descendentes de holandeses. O seu nome ancestral era; – Van Der Hagen (da Silveira, em português), mas geração após geração surgiram filhos e netos e sobrinhos e primos. Os Van der Hagen, de conotações judaicas politicamente incorrectas nesses tempos (e porventura em todos os tempos) desapareceram e deram origem ao sobrenome Silveira (politicamente correcto e cristão como convinha). Silveira Machado que cuidava mais do tempo em que vivia do que da história nunca se importou em saber de árvores genealógicas. Silveira Machado sempre se interessou mais pelo tempo presente. Mesmo que algum antepassado seu tivesse ficado na história e muitos ficaram. O Ouvidor Arriaga ficou na história de Macau e Manuel Arriaga, também como presidente da República de Portugal. Mas Silveira Machado nunca se importou.
Mercado Municipal de S. Lourenço
Saiu de S. Jorge, muito cedo com 12 anos. Anos a menos para se importar com pergaminhos. Por isso tornemos presente o passado de Silveira Machado, um descendente de Miguel de Arriaga Brun da Silveira, açoriano da Horta, que governou de facto Macau durante mais de duas décadas nos primórdios do século XIX. Miguel de Arriaga foi o único Ouvidor de Macau, recordado pela história portuguesa e chinesa neste delta geográfico e foz do Rio das Pérolas. Um marco da história local. Os outros ouvidores, como Lázaro Ferreira, constam apenas de monografias esparsas que só interessam a estudiosos picuinhas e académicos. Silveira Machado nunca cuidou de saber quem era esse ouvidor, embora o tivesse registado como figura histórica nos seus escritos, n’O Clarim, mas nunca como parente o deu a público, ou o assumiu.
Silveira Machado tinha o quotidiano com que se preocupar e as suas preocupações eram Macau. Não árvores genealógicas e muito menos Manuel de Arriaga Brun da Silveira, seu avoengo e primo (torto), com o qual tinha pouco a haver e muito menos a dever.
Silveira Machado veio para Macau por força das circunstâncias. Não por ser filho de algo mas apenas por ser afilhado de alguém lá da terra açoreana que se interessou por ele.
Mas a verdade é que Silveira Machado não chegou a Macau por acaso, mas sim por que assim estaria talvez determinado pela religião católica que professava. Deus manda que vás!… Disse-lhe um pároco de S. Jorge, provavelmente instruído pelo Cardeal D. José da Costa Nunes, Camarlengo da Santa Sé e esclarecido prelado de Macau que procurava atrair os miúdos mais prometedores das suas ilhas açoreanas para o sacerdócio missionário no Extremo Oriente.
Edição de Setembro de 1965
A década de 30

Vamos lembrar Macau desses tempos através dos olhos de Silveira Machado rapazito de treze anos. No Açores há um dito: “faz-me o que quiseres, mas leva-me para o continente” e Silveira Machado assumiu o provérbio.- Quero-me ir embora desta ilha pequena. O que é que há aqui?- Gado! Responde o povoado que vive de vacas e do seu leite.

Para onde? Pergunta o padre.

A pergunta a fazer seria mais exactamente esta: – para a América? Para o Brasil, para as Antilhas, ou para o Continente? O rapazito de 13 anos sabedor apenas da geografia resumida do Portugal da quarta classe (nos tempos em que havia quarta classe da instrução primária), que passou com aproveitamento, pensou que seria para o Portugal Continental. Não perguntou, ao certo para onde o mandavam. Era criança de mais.

– Bem, já que te queres ir embora vais para Macau, ter-lhe-há dito o pároco e mestre-escola da freguesia de Velas.
E assim Silveira Machado embarcou com onze mais rapazitos seus iguais para uma viagem em direcção aos confins do mundo. Os confins do mundo não eram o final do “mar tenebroso” de Pessoa. Nada disso. Era apenas uma escola secundária. Era o Seminário de S. José de Macau.
Macau? Terá perguntado Silveira Machado; – Onde é? (Creio que o pároco não lhe terá respondido de todo, ou cabalmente, talvez porque não soubesse inteiramente onde era essa parte da Terra (Macau é sítio onde se fazem fósforos e fogo de artifício). Isso era tanto quanto saberia o padre açoreano. Creio que talvez, não lhe interessasse dar nessa altura a um criança lições de geografia universal que um miúdo não compreenderia, nem o padre sabia ao certo onde e como era. Afinal, o pequenito José, ia separar-se dos pais inexoravelmente numa viagem sem regresso. Para quê dar-lhe mais explicações?
– Sabes, disse-me um dia Silveira Machado, há meia dúzia de anos; Eu odiava as vacas e aquelas rotinas de levantar às cinco da manhã para as ordenhar, Acho que tinha oito anos quando percebi que aquela vida não era para mim. Acho que foi isso que me levou a querer deixar S. Jorge.
Confissão feita entre amigos essa de uma década e tal, enquanto organizavamos o projecto de historiar a vida da Associação Promotora da Instrução dos Macaenses (APIM) na qual Silveira Machado desempenhou papel relevante apesar de não ser macaense.
Neste ponto é preciso dizer que para além dos militares que vinham mobilizados (obrigados por força de lei), para a segunda mais oriental colónia portuguesa (Timor era a última em termos de longitude), poucos mais metropolitanos vinham e os que vinham resumiam-se a uns poucos funcionários superiores da administração pública da colónia, médicos, magistrados e engenheiros. O grosso eram militares e os mais restantes eram crianças e essas crianças eram os seminaristas de S. José, como Silveira Machado.

Os funcionários destinavam-se a ficar em Macau por quatro ou seis anos. Se ficassem por mais tempo tinham que o requerer ao Ministério das Colónias (mais tarde do Ultramar) e passavam aos quadros coloniais sendo-lhes permitido ficar pelo Extremo Oriente em comissões sucessivas o tempo que quisessem desde que se casassem com macaenses. Quanto aos militares era quase o mesmo.

Centro católico na década de 1930 (Praia Grande /rua do Campo)

O fulgor da Guia dos anos 30

Silveira Machado chegou a Macau num momento em que a colónia conhecia um dos seus períodos de crescendo económico. Eram os anos trinta do século XX. Nas faldas da Guia construíam-se novas mansões em terrenos até então inexplorados.
Os Senna Fernandes e os Nolasco. Estas famílias anteriormente habitantes do Chunambeiro, lá em baixo junto à Praia Grande, mudavam-se para cima deixando a Praia Grande aos ingleses e americanos. Silva Mendes e Vicente Jorge aderiam ao êxodo e construíam as suas casas também nas faldas da Guia. Depois de quatrocentos anos de vivência nas faldas do Monte e na Praia Grande, a Guia tornava-se o bairro novo dos ricos. Até mesmo Venceslau de Morais, capitão dos Portos fazia questão de reabitar nova casa nesses sítios (hoje chama-se, Calçada do Gaio).

Na altura em que Silveira Machado chegou a Macau, a geografia estava em plena mudança. O bairro de S. Lourenço, que tinha como capital comercial a Rua Central, decaía inexoravelmente em benefício da avenida Almeida Ribeiro (Rua Grande dos Cavalos, como é ainda hoje conhecida em chinês – San Ma Lo). O Hotel Central, que se tornaria a partir de então no centro do jogo e do prazer abria-se na San Ma Lou, em 1915, substituindo em modernidade e inexoravelmente a Rua da Felicidade, que passaria não haveria década e meia a seguir a não ser mais do que uma rua lateral sem interesse por força do êxodo das cantadeiras que W. Fernandes Flores o famoso escritor espanhol tão bem descreveu quando visitou Macau e se encontrou com Camilo Pessanha nesses tempos passados.Duas decadências foram as que Flores encontrou. Uma era a Rua da Felicidade que se evolava nos últimos acordes das cantadeiras.A outra era a de Camilo Pessanha que se evolava em fumos de ópio.Tanto o poeta como a rua garantiriam a posteridade e Fernandes Flores que descreveu Macau como uma Fénix que morria apenas para se preparar para renascer algum tempo depois tinham razão.

Tudo mudava em Macau.

Mas, Silveira Machado não sentiu essas mudanças porque apenas tinha chegado a Macau no momento exacto em que essa última mudança tinha decorrido havia meia dúzia de anos, sem saber de facto onde tinha chegado (sabê-lo-ia alguns anos mais tarde quando chegou a adulto). Mas antes, rapazito, nada sabia.

Destinado a ser padre concluiu os cinco anos de liceu necessários para a educação secundária no mundo laico e oficial do estado com aproveitamento e mérito reconhecido por todos os seus professores. Porém entre todas as disciplinas confrontou-se quase no fim do curso com uma negativa a Moral no curso do sacerdócio.
Vamos ver a seguir o que isso lhe acarretou.
Nesses tempos, os seminaristas faziam excursões à ilha da Lapa que nesse tempo era território colonial português, ainda que disputado pela China. Monsenhor Manuel Teixeira (colega de Silveira Machado) fala disso em vários livros e os poucos sacerdotes católicos que ainda hoje restam vivos disso se lembram, nomeadamente D. Ximenes Belo (ex-bispo de Timor) e Domingos Lam (bispo resignatário de Macau). Nessas excursões, nas quais Silveira Machado participou, rapazes e professores encontravam motivos de interesse e ninguém saía frustrado dos passeios. Mas, Silveira Machado, como outros confrades do seminário retirava mais prazer das escapadelas pela cidade, quando podia à revelia dos professores do que nos passeios à Ilha da Lapa, num fim-de-semana, ou numa noite qualquer iludindo a vigilância dos perfeitos (o entardecer de Macau tinha mais encanto do que as tardes mornas da Lapa) escapou-se à disciplina e à castidade.E foi assim que numa dessas escapadelas, saltando o muro do seminário, Silveira Machado encontrou uma rapariga bonita e perdeu a vocação sacerdotal.Terminada a incursão desse fim-de-semana o jovem seminarista saído sem saber como da puberdade resolveu traduzir em verso meio-dia (ou apenas algumas horas) da sua vida. Provavelmente nessas parcas horas ter-se-ia sentido Camões, ou Bocage (que também passou por Macau) a conhecer o amor na Rua da Felicidade. Mas caso foi que Silveira Machado se esqueceu que o seminário funcionava como uma caserna de rígida disciplina e que ele próprio estava destinado ao dito voto de castidade.
E assim foi que o perfeito, na rotina diária de revolver camas e colchões e travesseiros à procura de heresias encontrou os debuxos poéticos de Silveira Machado.
-Um poema de amor por uma mulher? Que coisa…Amor é por Deus, Jesus e a Virgem Santa, pensou o perfeito.
E o perfeito, depois de ler os versos não teve remédio senão denunciá-lo ao reitor no dia seguinte.
O resultado seria como não poderia deixar de ser o seguinte:
“A poesia é bonita menino, mas só se estivesse de acordo com S. Tomás de Aquino” terá dito, ou deixado implícito o reitor do seminário no discurso severo que fez a Silveira Machado (Silveira Machado disse-me isso no café o Galo, onde, como disse antes, avançávamos no projecto de historiar a APIM, e tenho pena de não me recordar das suas exactas palavras).

E assim Silveira Machado, apenas por causa de uns inocentes versos de amor viu-se condenado. Uma escapadela fortuita igual a tantas outras dos seus colegas custou-lhe a ele mais do que a eles, já que eles se escapavam pelas ruas, mas não deixavam as suas escapadelas fotografadas em versos. O seminário entendia que não tinha vocação. Ponto Final. Subitamente Silveira Machado vê-se então atirado para a rua. Atirado para a rua? Não! Atirado para a rua seria expressão demasiado forte, isto por que a Diocese cuidava que os seus seminaristas com ou sem vocação singrassem na vida e Silveira Machado singrou. Havia uma vaga na Repartição da Fazenda e Silveira Machado, que tinha mais habilitações (e com certeza patrocínios) do que outros possíveis concorrentes conseguiu o lugar.

O Liceu no Tap Seac na década de 1940
Eram os anos 40
Foi em 1941 que Silveira Machado começou a trabalhar, fora de portas do Seminário de S. José. No seminário continuavam alguns dos colegas que se distinguiriam no sacerdócio, e que com ele tinham vindo para Macau. Entre vários contavam-se monsenhor Manuel Teixeira, historiador e autor de uma extensa bibliografia sobre Macau e o menos lembrado padre Áureo de Castro, sobrinho de D. José da Costa Nunes, destacado compositor e fundador da Academia de Música Pio XI, que foi durante décadas o Conservatório de Música de Macau.

Este ano foi um dos mais difíceis de Macau. A guerra lavrava em todo o Mundo e na China em particular, mas Macau, manteve-se neutral ainda que envolto num anel de fogo. Silveira Machado adapta-se à vida de funcionário público. O seminário já não o protege directamente. Mas a burocracia do funcionalismo do Estado não é suficiente e é então que descobre a sua verdadeira vocação: o jornalismo, actividade que nunca largará até ao fim dos seus dias. Decidido entra em 1948 na fundação do jornal que mais anos conta em Macau: o já referido Clarim.

Nos anos de fogo
Terminada a guerra, Silveira Machado, apaixonado pelo cinema, resolve iniciar-se na sétima arte acompanhando em Macau o que Manuel de Oliveira fazia em Portugal e faz aqui, no Extremo Oriente,“Caminhos Longos”. Era o primeiro filme feito nesta terra.
-O filme era bom, mas o som era mau, diz-me Silveira Machado. Não admira! Os técnicos eram de Hong Kong, bem como os actores e Hong Kong ensaiava apenas os primeiros passos na indústria cinematográfica que viria a universalizar-se algumas décadas mais tarde com Bruce Lee e outros. De qualquer modo o filme teve êxito. Multidões de chineses e macaenses acorreram aos cinemas de Macau e de Hong Kong para o ver.
Mas o filme foi apenas um episódio sem consequências. Macau era uma cidade demasiado pequena para sustentar uma indústria cinematográfica que já então custava muito dinheiro. O próprio Governo de Macau não conseguia alocar verbas do orçamento suficientes sequer para alugar câmaras holofotes e mito menos pagar às estrelas de cinema. Silveira Machado entendeu isso e passou a dedicar-se ao incentivo do desporto.
Nessa altura o futebol era caso sério. E Silveira Machado apostou no desenvolvimento desta modalidade e com êxito. Os futebolistas macaenses sobressaíam. Airosa Lopes, Rocha e Pacheco. Rocha, jogador da académica e seleccionado nacional que marcou um canto directo contra a selecção do Brasil e foi assim o brilhante autor da primeira vitória de Portugal sobre o onze campeão do mundo, um feito glorioso.Pacheco que foi um dos grandes expoentes do futebol português dos anos 50 juntamente com Jesus Correia, Vasques, Wilson, Travassos e Martins, os cinco violinos do Sporting Clube de Portugal.
Pacheco e Rocha singraram porque Silveira Machado achou que tinham talento e cuidou deles. Airosa Lopes ficou-se por Macau e pelo hóquei em campo onde foi também estrela.
Nesse tempo estava Silveira Machado na repartição do governo encarregada da divulgação e fomento do turismo e do desporto. Repartição em que cuidou também do hóquei em campo na época em que Airosa Lopes e a equipa de Macau davam cartas, nomeadamente no “interports” com Hong Kong.
Por esses tempos é criada a Escola Normal destinada a formar professor primários. A primeira em toda a história de Macau e Silveira Machado integra o seu corpo docente. Todavia a Escola Normal pouco tempo sobreviveria. Seria encerrada por falta de alunos, para ressuscitar ainda que também brevemente nos anos 80 do século XX. Silveira Machado continuaria todavia ligado à Escola Comercial a formar a juventude macaense em profissões técnicas.

Até que um dia surgiu a idade da reforma que o estado impunha. Silveira Machado atingia os 65 anos. Era tempo de se retirar do funcionalismo público. Creio que nessa altura a reforma se lhe deparou como um choque e por isso decidiu regressar a Portugal. No entanto Silveira Machado, depois de incontáveis anos em Macau que é que tinha a ver com Portugal continental, onde as filhas e netos viviam, ou mesmo com as suas ilhas açorianas? Muito pouco e muito menos Lisboa…
Por isso após três anos de suposto “exílio dourado” regressou a Macau para sobraçar diversas pastas. Foi vogal da APIM, Comité Olímpico, da Associação de Hóquei em Patins e sei lá quantas outras organizações desportivas, sociais e culturais. Tudo sem deixar de colaborar regularmente no seu Clarim de sempre. Mas a reforma (que é sempre pouco bem-vinda) deu-lhe a possibilidade de dedicar mais tempo à escrita e às tertúlias. E foi assim que no último quartel da sua vida pode finalmente publicar os seus versos e as suas prosas.“Macau, Sentinela do Passado” (prosa), “Rio das Pérolas” (poemas), Macau, Mitos e Lendas” (contos), “Duas Instituições Macaenses”, “Macau na Memória do Tempo” e “O Outro lado da Vida” (retrato social de Macau).

Resta dizer o que a agência de notícias Lusa disse sobre este homem que não pode ser esquecido, quando deixou Macau para sempre aos 89 anos de idade. Fluente em cantonês, Silveira Machado escreveu diversos livros. Muito ligado a Macau, à juventude e à comunidade, Silveira Machado nunca descartava, como explicam os amigos, uma boa discussão. Não visitava Portugal há cerca de 17 anos e costumava dizer que se aterrasse em Lisboa, era capaz de se perder em cinco minutos. A sua actividade cívica e em prol da língua portuguesa em Macau valeu-lhe o reconhecimento da classe política, tendo sido condecorado com a Medalha da Ordem do Mérito Civil da Instrução Pública, Medalha de Mérito Desportivo (classe de prata), Medalha de Mérito Cultural, Comenda da Ordem do Mérito e grau de Grande Oficial da Ordem da Instrução, esta última em Janeiro de 2005 pelo então presidente português Jorge Sampaio. Homem ligado ao desporto, turismo, educação e cultura, a sua morte é considerada uma “enorme perda” pela comunidade em geral.
Excerto de um artigo da autoria de João Guedes publicado na Revista Macau

QUARTA-FEIRA, 4 DE JULHO DE 2012

Santa Casa da Misericórdia celebra 443 anos

A Santa Casa da Misericórdia de Macau, fundada pelo primeiro Bispo de Macau, D. Belchior Carneiro, em 1569 (está a celebrar 443 anos), segue o modelo de uma das organizações de assistência social mais antigas de Portugal, tendo sido a responsável pela fundação, em Macau, do primeiro hospital de estilo ocidental e de outras estruturas sociais de cuidados de saúde que ainda funcionam nos nossos dias. Um dos papéis principais da Santa Casa da Misericórdia de Macau era o de prestar apoio a órfãos e viúvas de marinheiros perecidos no mar, um papel que está intimamente ligado ao perfil de Macau no contexto das rotas do comércio marítimo regional e internacional.
Desde os seus primórdios, existiu no interior da Casa uma pequena capela, cujo culto assegurava à semelhança da que havia dentro do hospital de S. Rafael.
Para o estudo do edifício primitivo, Pedro Dias escreve:“Para este estudo interessa a construção que se pode ver nos desenhos executados por George Chinnery em 1833. A fachada é dominada pela empena triangular da igreja privativa, dotada de um portal sobrepujado por uma janela de sacada e por um nicho ou baixo-relevo, tudo de estilo clássico. À esquerda levanta-se uma pequena torre, e à direita as outras instalações privativas, com uma frontaria despojada, apenas com as quatro grandes janelas do andar nobre emolduradas, e um portal de aparato a meio, também clássico. A construção é de carácter claramente ocidental dentro dos parâmetros das Santas Casas das vilas de média importância do século XVII. Pelo que nos apercebemos através dos testemunhos iconográficos, esta obra é fruto de uma grande reforma posterior a 1640”, data da restauração da Coroa Portuguesa, que, por certo, terá querido eliminar os possíveis vestígios espanhóis.
Ca. 1910

Sabe-se que o conjunto compreendia ainda um claustro, à volta do qual, e à semelhança dos claustros monasteirais, se dispunham várias dependências como o cartório, a casa dos expostos, etc. Nos inícios do século XX, numa data média que podemos reportar a 1905, foi modificada a fachada com o avanço do corpo médio, coroado com um frontão de matriz clássica.

Assim, o actual edifício da Santa Casa da Misericórdia apresenta uma fachada principal em arcada ricamente decorada, ocupando uma posição proeminente no Largo do Senado. O frontispício é composto por uma mistura de colunas e pilastras entre as arcadas, criando um corredor coberto ao nível térreo e uma varanda no nível superior. O ritmo das pilastras e a dinâmica geral dos elementos conferem ao edifício uma grande vivacidade. Com excepção das bases de granito ao nível da rua, todo o edifício está pintado de branco, transmitindo uma imagem de grande elegância e uma sensação de tranquilidade. Em termos arquitectónicos, é de estilo neoclássico, embora apresente também alguma influência do estilo maneirista, denotada pelo uso de colunas falsas como elementos decorativos.
O edifício da Santa Casa está locallizado em pleno Centro Histórico da cidade, incluído na Lista de Património Mundial da UNESCO. O núcleo museológico merece uma visita demorada.

A 2 de Julho celebra-se o dia da Misericórdia.

“Quando cheguei a este porto, dito do nome de Deus, havia cá poucas habitações de portugueses… Mal cheguei, abri um hospital, onde se admitem tanto cristãos como pagãos… Criei, também, uma Confraria da Misericórdia… para prover a todos os pobres e envergonhados e aos que precisem…”
Carta de D. Belchior a um padre relatando os seus primeiros anos em Macau.
The Holy House of Mercy, 仁慈堂慈善會, or Santa Casa de Misericórdia, is the oldest social institution in Macau. It is one of the most prominent buildings at the Largo do Senado. The Holy House of Mercy was founded in 1569 by Dom Belchior Carneiro, the first Bishop of Macau, with the intention of doing charitable work for the local community, and in so doing, hoping to win some souls. The Holy House of Mercy was instrumental in establishing the first western-style hospital in Asia. The hospital, for treating victims of leprosy, was located in the St Lazarus district.
As arcadas
Postal de 1984

The Holy House of Mercy is housed in a white-washed neoclassical structure that takes a central space in the spacious Largo do Senado. Today it is a sort of museum. Among the items on display includes Dom Belchior Carneiro’s skull.

TERÇA-FEIRA, 3 DE JULHO DE 2012

Maria Ondina Braga: 1932-2003

Embora vários autores portugueses dos séculos XIX e XX tenham passado pelo Oriente e reflectido, de maneira directa ou indirecta, essa estadia na sua literatura – vejam-se os casos de Wenceslau de Moraes (1854-1929), Camilo Pessanha (1867-1926) e Joaquim Paço d’Arcos (1908-1979), entre outros, Maria Ondina Braga surge no século XX como umas das principais autora portuguesas de ficção ligada a Macau, em particular, e à China em geral. Este seu livro de estreia, Eu Vim para Ver a Terra (1965), apresenta-nos um conjunto de textos sobre Angola, Goa e Macau, mas são as crónicas de Angola, mais do que as de Macau, que acabam por nos cativar na sua sensibilidade e nos deixam a promessa de toda a literatura notável que a autora haveria de produzir posteriormente.
Texto elaborado a partir do blog sobre Literatura Colonial Portuguesa.

A Câmara Municipal de Braga criou o Prémio Literário Maria Ondina Braga, um concurso promovido no intuito de desenvolver o gosto pela leitura e pela escrita, honrando a memória da insigne escritora, nascida e falecida na cidade dos arcebispos.
Maria Ondina Braga nasceu em Braga a 13 de Janeiro de 1932, onde fez os estudos liceais. Iniciou-se nas letras através da poesia, tendo publicado dois livros de poemas, a par de crónicas de carácter social para jornais bracarenses. Herdeira de uma tradição clássica, Maria Ondina Braga faz combinar a memória, o conto, a novela, o roman ce e a crónica, tendo sido tradutora de autores como Graham Greene, Bertrand Russel, John Le Carré, Herbert Marcuse, Anaïs Nin e Tzvetan Todorov, como conta José António Barreiros num blogue dedicado à escritora.

1ª edição em 1991

Após uma breve passagem pela Escócia e Inglaterra, onde exerceu a função de precetora e frequentou a Royal Society of Arts, instalou-se em Paris, aliando o trabalho e os estudos na Alliance Française. Em 1959, atraída pela distância, rumou até Angola, Goa (onde esteve aquando da ocupação indiana) e, mais tarde, Macau, onde ensinou Português e Inglês até 1966, data do seu regresso a Portugal. O fascínio que nutriu durante longos anos pelo povo chinês levou-a a aceitar o cargo de Leitora de Português no Instituto de Línguas Estrangeiras de Pequim em 1982, ano em que redigiu as crónicas sofridas reunidas em Angústia em Pequim (1984), uma “narrativa dolorosa, cirúrgica”, segundo as palavras de Inês Pedrosa. A convite da Fundação Oriente, Maria Ondina Braga regressou a Macau em 1991, tendo registado esse reencontro em algumas páginas da narrativa de viagens Passagem do Cabo (1994).
Depois de ter vivido grande parte do seu tempo em Lisboa (onde colaborou também com jornais e revistas como o ‘Diário Popular’, ‘A Capital’ e ‘Colóquio/Letras’), Maria Ondina recolheu-se em Braga, tendo sido homenageada pela câmara municipal (1990), que lhe atribuiu igualmente a Medalha de Ouro da cidade (1994).
Abriu recentemente o Espaço Maria Ondina Braga. Funciona na Rua Central (Braga), ao lado da casa onde nasceu Maria Ondina e nele podemos ter acesso a alguns objectos e a parte do espólio da escritora.
Em “A China fica ao lado” (primeira edição de 1968 – na imagem uma reedição da década de 1990 pelo ICM) estão reunidos 14 contos que reflectem a vivência de MOB em Macau.
Mais sobre Maria Ondina Braga e outros escritores de Macau nestelink

SEGUNDA-FEIRA, 2 DE JULHO DE 2012

Faleceu Adelino Serra de Almeida, ex-director da Escola Central

Antigo director da “Escola Central” e membro de várias direcções do Sporting Clube de Macau, Adelino Serra de Almeida faleceu em Portugal aos 96 anos de idade. Muitas gerações de macaenses ainda terão na memória a figura de Adelino Serra de Almeida, antigo docente e dirigente desportivo no território que faleceu quinta-feira aos 96 anos de idade.
Natural de Lisboa, chegou a Macau em 1949 e até 1966 foi professor e director da Escola Primária Pedro Nolasco da Silva, também conhecida como “Escola Central”. “Como director da Escola devem-lhe ter passado centenas de alunos pelas mãos”, salienta Luís Machado, destacando ainda outra faceta do professor Serra: “era sportinguista do coração e foi grande impulsionador da transferência de vários jogadores macaenses para o Sporting Clube de Portugal”.
Antes de se reformar (em 1966) e regressar a Portugal, Adelino Serra de Almeida fez parte de um grupo de sportinguistas que, nos inícios dos anos 50, “ressuscitou” o Sporting Clube de Macau, juntamente com António Conceição, Mário Abreu, major Cabreira Henriques e o “Matos dos Correios”, entre outros, conforme recorda Vítor Serra de Almeida, filho do professor e actual presidente da assembleia-geral da Casa de Macau em Portugal. O professor Serra integrou ainda várias direcções do Sporting Clube de Macau, quase sempre como secretário geral.
Vítor Serra de Almeida frisa aliás que “por diligências suas [do professor Serra] e do Dr. António Conceição, conseguiu-se a transferência dos jogadores macaenses Joaquim Pacheco e Augusto Rocha para o Sporting Clube de Portugal”. Adelino Serra de Almeida desempenhou também um papel fulcral na contratação pelo Benfica dos atletas de ténis de mesa Alberto Ló e José Kong, que viriam a ser internacionais por Portugal.
in JTM 2-7-2012

DOMINGO, 1 DE JULHO DE 2012

Final da Taça (em futebol): um ‘derby’ em 1951

Na edição de 11 de Julho de 1951 da revista Mosaico pode ler-se: “O encontro de futebol que mais arrebatou o entusiasmo do público foi a disputa final da Taça de Macau. Degladiaram-se neste importante prélio desportivo, o Sporting Club de Macau e o Sport Macau e Benfica, tendo este sido derrotado pelo primeiro”.
Em 1950 estavam inscritos na “Associação de Football de Macau” (AFM), fundada em 1939 e filiada na Federação Portuguesa de Futebol:
Grupo Desportivo da Polícia – delegado: Cardénio Vítor Vaz (camisola preta e calções brancos)
Benfica Futebol Clube de Macau – delegado: Manuel da Silva Matos (camisola encarnada, calções brancos) com sede na rua Almirante Costa Cabral, 18.
Grupo Desportivo “Argonauta“- delegado: Constâncio José Gracias (camisola azul, calções brancos)
Grupo Desportivo do Exército – delegado: alferes Vasco Artur Mariano Martins(Equipa A. camisola verde-branca, calções brancos; Equipa B. camisola azul-branca, calções brancos)
Grupo Desportivo “Melco“ – delegado: Eduardo Armando de Jesus (camisola amarela, calções azuis)
Grupo Desportivo da Marinha (com sede no Aviso de 2.ª classe “Pedro Nunes) e “Leng Yee Sports Club”
O selecionador da A.F.M. era o Tenente Mário de Almeida Machado.

SEXTA-FEIRA, 29 DE JUNHO DE 2012

Epidemia de peste bubónica em Macau: 1895

O que na Idade Média ficou conhecido por peste negra era nada mais nada menos que a peste bubónica. Há relatos desta peste em Portugal desde o século XIV. Um dos surtos, já no séc. XIX (Porto, 1899), terá tido origem em Macau atingida por um surto ca. 1894-85 oriundo de Hong Kong e Cantão.
José Gomes da Silva, médico chefe dos serviços de saúde e reitor do liceu elabora um relatório sobre a epidemia. Antes de reproduzir a introdução do mesmo, atente-se na descrição que este faz sobre as condições das habitações da população chinesa (a maioria) na época:
“Ninguém pode, sem ver, imaginar o que seja o interior dum casebre chinês em pleno coração dos bairros mais populosos. A promiscuidade de seres no quarto de dormir, em que o porco pernoita debaixo da cama do china; e as galinhas se empoleiram no dorso do porco; e o gato se anicha à cabeceira do dono; e o cão se estende do lado oposto ao do gato; e os ratos marinham livremente pelo catre ou se entregam a tropelias afrodisíacas no solo de terra mal batida; e as baratas, monstruosas e fétidas, voam elegante e arrojadamente naquela atmosfera que lhes é cara e vão com ímpeto bater às vezes no dorso do porco ou nas faces do china; quando não acontece que, em noites claras de verão, o china deixa as mulheres e os filhos deitados no solo com os animais e vem para o meio da rua contemplar, de barriga para o ar e perna traçada, a nesga azul do infinito limitada pelos beirais das casas fronteiras; esta promiscuidade dum homem chinês não há polícia sanitária que entre com ela”.
Excerto da introdução do relatório de J. Gomes da Silva sobre A epidemia de peste bubónica em Macau. Impresso na Typographia Mercantil em 1895.
Antes da epidemia (…). Corria normalmente o primeiro trimestre de 1894, quando em fins de março recebi uma carta particular do digno cônsul de Portugal em Cantão, D. Cinatti, convidando-me a ir alli observar uma doença excessivamente curiosa, que havia cerca de um mez grassava sob a forma epideraica em Cantáo e seus arredores, acomettendo exclusivamente os chinas… e os ratos. A doença, no dizer do illustrado funccionario, caracterisava-se principalmente por uma temperatura elevada, que ás vezes bastava a matar o doente, e pela manifestação de bubões no pesco- ço, na axilla ou nas verilhas, com pouca tendência á suppuração. Pouco depois, espalhavam-se também em Macau boatos de que a mortalidade subira sensivelmente na população chineza a visinha colónia de Hongkong, sendo a doença dominante uma espécie de febre typhoide, sob este nome diagnosticada pelos médicos inglezes, e produzindo uma percentagem de mortalidade pouco commum, ainda nas mais severas epidemias conhecidas. Era grave o assumpto era grave também a coincidência. Installada a epidemia, fosse ella qual fosse, em Hong Kong e Cantão, como isolar Macau daquelles dois portos, por onde esta cidade communíca normalmente com o resto do mundo? Como substituir todos os elementos imprescindiveis de vida individual e commercial que estta colónia recebe daquellas duas cidades?
Era grave; mas podia nâo ser exacto. Convinha verificar até que ponto a exactidão e a gravidade do facto existiam ; e n’esse sentido enviei o seguinte officio á secretaria geral do governo. … A junta de saúde é d’opiniâo que por agora não ha medidas prophylacticas a tomar, para prevenir a invasao da cholera, que alguns jornaes chinezes suppoem grassar na visinha cidade de Cantão. Primeiro que tudo, por informações particulares, dignas para mim de toda a fé, consta-me que aepide- ” mia a que se referem os jornaes chinezes não é o cholera-mor-bus; depois, quando o seja, as medidas repressivas da comunicação de Macau com Cantão serão absolutamente ineficazes, porque importam egual isolamento de Hong Kong, cujas communicações diárias com Cantão não foram ainda interrompidas. Ora, nas condições actuaes de Macau, esta colónia, isolada subitamente de Hong Kong e Cantão, ficaria isolada do resto do mundo e seria em pouco tempo forçada a postergar as medidas que neste sentido tivessem sido tomadas, para não morrer de fome e de inaniçâo. N’estas condições, parece á junta de saúde que o mais racional e prudente seria: 1.° obter informações officiaes da marcha, symptomas e mortalidade da epidemia, por intermédio do cônsul portuguez em Cantão ou pela ida alli de um facultativo do quadro, incumbido de verificar de visu a natureza da doença; 2.° tornar conhecida do publico de Macau a existência da epidemia em Cantão para que cada um tomasse as çautellas aconselhadas pela hygiene em tempos de epidemia. Infelizmente, o numero de médicos do quadro, já de si restricto e insuficiente, estava então reduzido pela morte do facultativo A. Costa Carvalho, víctima do cholera, a dois médicos em Timor e dois em Macau, incluindo o chefe do serviço de saúde, que se propunha ir estudar a doença dominante em Canão. S. ex. o governador achou portanto intempestiva a proposta por mim feita e mandou que a junta de saúde ficasse de atalaia, esperando as informações que s. ex. ia requisitar do cônsul de Portugal n’aquella cidade. (…)

QUINTA-FEIRA, 28 DE JUNHO DE 2012

Grande Prémio de 1970: uma curiosidade

Um bólide estacionado frente ao Templo de A-Má é uma raridade. Para que os mais incautos não interpretem de forma errada a imagem (há ali algo que induz em erro), aqui fica a explicação. Nesta ano foi o austríaco Dieter Quester, ao volante de um BMW Fórmula 2, que venceu o 17º Grande Prémio de Macau.
Anne Wong, de Singapura (a que está dentro do F2), venceu a Corrida de Carros de Turismo, de 20 voltas, num Mini-Cooper S, e Benny Hidajat, da Indonésia, pilotando uma Yamaha YSI, foi o vencedor da prova de motas.

QUARTA-FEIRA, 27 DE JUNHO DE 2012

Casa-Museu Macaense

Dois edifícios no Bairro de São Lázaro vão ser recuperados para a criação da “Casa-Museu Macaense”. A intenção é reconstituir o ambiente de um lar macaense, com um espólio com peças de José Vicente Jorge, Camilo Pessanha e Wenceslau de Moraes. E a estes nomes devem juntar-se outros de famílias macaenses. O projecto ronda os 50 milhões de patacas.
Os dois edifícios estão situados entre as ruas de São Miguel e de São Roque, foram construídos no início do século XX e estão degradados. O projecto que conta com a participação do arquitecto Carlos Marreiros deverá estar concluído em 2013. À frente deste novo museu está a Santa Casa da Misericórdia de Macau, proprietária dos edifícios. Para o provedor António José de Freitas trata-se de um projecto de “valor cultural, histórico e educativo será incalculável”.

“A SCM é uma instituição com uma identidade muito própria, para além do serviço social e sem nunca descurar essa parte, entendemos que também é importante contribuir nas vertentes histórica e cultural, sobretudo porque dispomos desses dois prédios patrimoniais, construídos segundo os documentos existentes em 1903”, AJF.
Excerto de artigo do Jornal Tribuna de Macau (jornalista Raquel Carvalho) 11 Agosto 2011

“Vamos tentar reproduzir o ambiente de uma casa macaense de outros tempos, do século XVIII a finais do século XIX, reconstituindo os espaços e as vivências típicas”. Subir as escadas daquele museu será então como entrar em casa de alguém, mas recuando no tempo. “Sala de Jantar, sala de estar, sala de leitura e uma pequena biblioteca” são algumas das divisões que devem surgir como representações fiéis dos hábitos macaenses. Todavia, as modernices da contemporaneidade também não serão esquecidas: haverá uma “secção multimédia, o que permite englobar componentes de som e imagem”, a par de um “mini-café e um pequeno balcão para a venda de lembranças e de obras de artistas locais”.

Parte do espólio, segundo descreve o provedor da SCM, está a ser negociado com os netos do sinólogo José Vicente Jorge. “Consideramos a herança cultural da família Vicente Jorge muito importante. O casal também tem manuscritos de Camilo Pessanha e de Wenceslau de Moraes que nos interessam bastante. Para além disso, serão importantes as doações ou cedências temporárias de objectos, artefactos, mobiliário e adereços por pessoas singulares ou colectivas da comunidade de Macau.” António José de Freitas desvenda que já foram realizados “alguns contactos” e que outras famílias macaenses de renome serão abordadas.
Embora o processo ainda não esteja concluído, “penso que temos condições para ter um bom espólio. Já fizemos vários levantamentos [escritos e fotográficos] e sabemos o que é preciso para simular uma vivência típica de uma lar macaense”, resume o provedor.
A Casa-Museu ocupará cerca de 400 metros quadrados, a soma de ambos os prédios, cada um com dois andares. “Esses dois edifícios ainda apresentam pormenores originais em madeira, se bem que bastante degradados. As escadas e os corrimões de madeira são originais, os tectos falsos, assim como as grelhas de ventilação, as molduras dos vãos, a carpintaria das janelas e das portas… Tudo isto será restaurado”, avalia António José de Freitas.
Na opinião de Carlos Marreiros, arquitecto responsável pelo projecto, é possível encontrar ali uma espécie de “compêndio, um glossário em termos de arquitectura de Macau” e que, por isso, convém preservar. “A sua integridade em termos patrimoniais é de 90 e muitos por cento…portanto, vale a pena enfiar a mão e fazer qualquer coisa de decente”. Contudo, a tarefa estará longe de ser fácil. “Todos os madeiramentos têm de ser retirados com muito cuidado e devidamente tratados, porque têm cem anos e em Macau há muito formiga branca”, observa o director-geral do Albergue SCM. Simultaneamente, “o edifício terá de ser reforçado com betão armado ou estrutura metálica para responder a todos os requisitos modernos de segurança física e também contra incêndios. A seguir os madeiramentos serão recolocados no espaço físico previamente restaurado.” Carlos Marreiros acredita mesmo que este poderá ser um “exemplo excelente de técnicas de preservação do património, mantendo a autenticidade e introduzindo elementos de reforço estrutural só onde seja necessário.”
Década de 1990
Freguesia de S. Lázaro no final do séc. XIX
Década de 1970

TERÇA-FEIRA, 26 DE JUNHO DE 2012

“De Portugal a Macau”: 1924

No livro “De Portugal a Macau”, da autoria de José Manuel Sarmento de Beires, oficial da aviação, que, juntamente com António Jacinto da Silva Brito Pais, e Manuel Gouveia, relata a ligação por via aérea – quase em simultâneo com a travessia do Atlântico Sul, por Gago Coutinho e Sacadura Cabral – entre Portugal e Macau ocorrida em 1924. É uma edição rara esta de 1928.
Por estes dias, há 88 anos, estes “malucos das máquinas voadoras” já tinham chegado a Macau onde celebravam o feito, mesmo na altura dos festejos do Dia da Cidade (24 Junho).
Como o comandante Brito Paes era natural de Colos (Vila Nova de Milfontes/Odemira) a região ficou ligada a este grande feito da aviação portuguesa. Foi a 7 de Abril de 1924 que os pilotos partiram do Campo dos Coitos, junto a Milfontes, rumo ao Oriente. Em homenagem aos aviadores e ao seu feito histórico, foi erguido na Praça da Barbacã (em Vila Nova de Mil Fontes), junto ao forte de S. Clemente, um monumento que recorda a heróica viagem.
A edição de autor de 1958 onde pode ler-se: Recordações imprecisas que a memória reteve através das horas inolvidáveis da viagem do PÁTRIA, – este livro não é mais do que o despreocupado apontamento das minhas impressões pessoais, vislumbradas por entre os instantes de dramaticidade intensa que vivemos, singrando os céus longínquos da África e da Ásia. Estas páginas que constituem um documentário quase exclusivamente emocional, na cristalização imperfeita de oitenta dias de incerteza, de inquietação, de luta árdua e esgotante, ao POVO DE PORTUGAL pertencem, a Ele as dedico.

 

Ao Povo de quem recebemos a força magnética que nos fez triunfar; ao Povo que, na afirmação formidável da sua energia e do seu entusiasmo, concorreu para que , na viagem aérea a Macau, o nome de Portugal se aureolasse de um prestígio maior.

 

 

O monumento em Vila Nova de Mil Fontes (2012)

SEGUNDA-FEIRA, 25 DE JUNHO DE 2012

Merchants of Canton and Macao

Merchants of Canton and Macao: Politics and Strategies in Eighteenth-Century Chinese Trade é um livro que aborda a questão do comércio no delta do rio das Pérolas no século 18. Foi editado em 2011 pela Hong Kong e Kyoto University Press e é da autoria de Paul Arthur Van Dyke, historiador (e professor na Univ. de Macau), que também escreveu “The Canton Trade: Life and Enterprise on the China Coast, 1700-1845”, editado em 2005.
Eis algumas críticas…
“Paul A. Van Dyke’s Merchants of Canton and Macao is an invaluable addition to our knowledge of Sino-Western trade in the eighteenth century. The level of detail is outstanding, amassed from a rich source base in multiple languages. And from that data base Van Dyke brings the financial actors in this complex commercial story vividly to life.”
Jonathan Spence, author of The Search for Modern China
“Asia’s ‘dark’ eighteenth-century has never seemed more lively or dynamic. This book will be treasured by all those struggling to understand the hitherto opaque world of pre-modern Chinese business.”
Anthony Reid, author of Southeast Asia in the Age of Commerce
“Only the most dedicated researcher and extraordinary polyglot could aspire to what Van Dyke accomplishes in Merchants of Canton and Macao. Van Dyke’s painstaking research shows that a 200-year-old narrative of Chinese opposition to trade is at odds with the historical record, while also providing unprecedented detail on the actual conduct of the Canton trade and the careers of its leading Chinese merchants. Van Dyke reveals them as canny businessmen, effective lobbyists, family patriarchs, and men embedded in complex global social and economic networks.”
Michael Szonyi, Harvard University
“Paul Van Dyke’s knowledge of eighteenth-century Canton and Macau is so detailed that you feel you are on the ground with the men who made this region of southern China one of the most important modern global trading centres. Based on research throughout the world, Van Dyke presents both a narrative of the daily operations of the China trade and a remarkable archive of the contracts, records books, public notices, maps, receipts, letters and other documents that bring this trade to life.”
Madeleine Zelin, Columbia University
“A remarkable reconstruction of eighteenth-century Canton and Macao merchant practices based upon diverse and scattered archival materials—Van Dyke successfully undermines conventional notions of Chinese ‘monopoly’ control through showing the concrete activities of numerous merchants and government policies responsible for aiding the expansion of trade in this era. This work is an important corrective to European-centred accounts of China’s eighteenth-century foreign trade, to be read with profit by China, Asia, and world historians.”
R. Bin Wong, UCLA
“Based on a multitude of archival sources in various languages other than English, it mainly looks at Chinese entrepreneurs, their business strategies, their biographies and networks—telling us, very convincingly, how these merchants came to act as major players in an increasingly complex world. The story abounds in new details, its views are carefully balanced, and it makes excellent reading. A must for scholars interested in the history of Euro-Chinese relations.”
Roderich Ptak, Ludwig-Maximilians-Universitaet Munich
Subscrever: Mensagens (Atom)

Modelo Simple. Imagens de modelos por Nikada. Tecnologia da Blogger.

Please follow and like us:
error

Pepetela ladrões honestos

“Ainda há ladrões honrados”, por Pepetela

Redação revista África21
05/07/2012 09:14
“É pena que certos banqueiros, especuladores de agências de ratos, e outros ladrões de casaca e lacinho preto, não sejam apanhados da mesma maneira”

Brasília – “É pena que certos banqueiros, especuladores de agências de ratos, e outros ladrões de casaca e lacinho preto, não sejam apanhados da mesma maneira”

Quando uma pessoa ouve ou lê uma boa estória, fica com saudades de um tempo que talvez nunca tenha existido. Por exemplo, o tempo dos ladrões honestos, género Robin dos Bosques ou Ali Babá. Os tais que só roubavam os grandes ladrões. Infelizmente, na realidade, deparamo-nos sobretudo com os grandes ladrões que não são castigados, nem sequer pelos pequenos lhes aliviando um pouco o bolso. É mesmo de acreditar na ausência da justiça.

De repente, no entanto, surge uma notícia e lá voltamos nós a ter esperança, talvez a Humanidade não esteja perdida definitivamente para os liberalismos de nome, os tais que enriquecem os ricos e mais empobrecem os pobres, o tal liberalismo que só autoriza os grandes latrocínios, tão grandes que até mudam de designação e se tornam respeitáveis. O capitalismo que estamos com ele.

Mas vamos lá acender a réstia de esperança. Num desses países avançados do Sul, Austrália ou Nova Zelândia, um larápio roubou a carteira e um telemóvel de um cidadão. Ao analisar os resultados da bem sucedida operação, descobriu no telemóvel furtado fotografias de pornografia infantil. O gatuno entrou numa daquelas situações de encruzilhada, como os grandes caminhantes dos nossos matos. Que faço eu, vou pela direita, pela esquerda, sigo em frente? Porque tinha descoberto um criminoso maior que ele próprio.

Embora fosse reincidente, com vários julgamentos e mesmo prisão por ladroagem, se considerava pessoa de princípios, talvez (não pude confirmar) até de formação religiosa. Em época de crise, mesmo em país rico, há alguns que têm de recorrer a métodos menos corretos para se manterem vivos. Esta seria a sua justificativa para as aventuras mais ou menos perigosas em que incorria. Nada comparáveis a um miserável que abusa de crianças e ainda pode ganhar dinheiro com isso, vendendo vídeos ou fotos a outros tão malucos como ele (os doidos que me desculpem a força de expressão, mas este tipo de gente não é só «perturbada mental», é maluca mesmo, maluca furiosa).

Leia versão integral na edição impressa da revista África21 (N.º 65, JULHO 2012). Para assinar a revista contacte: [email protected]

Adicionar comentário

Please follow and like us:
error

vídeos de timor

  1.  gentes de timor http://www.youtube.com/watch?v=N6CzoRsCPL8&feature=youtu.be
  2. o nascimento de uma nação http://www.youtube.com/watch?v=el551Sksad0&feature=related
  3. curta metragem de Timor http://www.youtube.com/watch?v=YFOO5qlfRyM&;feature=related
  4. a visit to Timor http://www.youtube.com/watch?v=k778LemUle0&feature=related
  5. timor visto por ana borges http://www.youtube.com/watch?v=7pDmEoomCFs&feature=related
  6. timor caminhos de reportagem http://www.youtube.com/watch?v=NTkGfuxGx6s&feature=related
  7. ataúro a ilha prisão http://videos.sapo.tl/GKyhr6s11a71ltn7BZlq
  8. timor leste uma década http://www.youtube.com/watch?v=eMjtGgXCZjs&feature=related
  9. dois portugueses em timor http://www.youtube.com/watch?v=PnMCPU-7YuI&feature=related
  10. futebol em timor http://www.youtube.com/watch?v=oBS761-wRvo&feature=related
  11. missões brasileiras em timor http://www.youtube.com/watch?v=sWYsoCk9z-U&feature=related
  12. trailer FILME BALIBÓ 1975 com legendas http://blip.tv/liafuan/balibo-trailer-do-filme-2356645
  13. uma visita em 2003 http://www.youtube.com/watch?v=PnMCPU-7YuI&feature=related
  14. we love Timor  http://www.youtube.com/watch?v=W3C0KP5XZJY&feature=related
  15. koremetan  http://www.youtube.com/watch?v=xGEcVKOxS1E&feature=related
  16. visita de estudantes a timor 2005  http://www.youtube.com/watch?v=w7KxMtTavik
  17. a mortandade pré-independencia em 1999  http://www.youtube.com/watch?v=W72o7ASRmDo&feature=related
  18. al jazeera a independencia de timor  http://www.youtube.com/watch?v=dJ9YPctJNCE&feature=relmfu
  19. http://www.youtube.com/watch?v=k778LemUle0&feature=related
Please follow and like us:
error

o meu primeiro paraíso (diving in East Timor)

http://www.youtube.com/watch?v=Tu2OKCw3AY8&feature=youtu.be

 

Um dos Paraisos de Timor Leste….
Diving in East Timor (Timor Leste)

www.youtube.com

One of the world’s most spectacular and undiscovered diving destinations, Timor Leste boasts pristine coral reefs and an abundance of
Please follow and like us:
error