salvem este forte

S.O.S. Forte de São João Baptista – ILHA DE SANTA MARIA

Forte de São João Baptista da Praia Formosa, também denominado como Castelo de São João Baptista ou Castelo da Praia, localiza-se na Praia Formosa, na freguesia da Almagreira, concelho da Vila do Porto, a SSO na ilha de Santa Maria, nos Açores.

Em posição estratégica sobre este trecho da costa da ilha, constituiu-se em um forte destinado à defesa deste ancoradouro contra os ataques de piratas e corsários, outrora frequentes nesta região do Oceano Atlântico.

As recentes campanhas de prospecção arqueológica nele desenvolvidas levantam a possibilidade de constituir-se na mais antiga estrutura de fortificação no arquipélago.

A praia onde se localiza encontra-se referida no mapa dos Açores, de autoria de Luís Teixeira, datado de 1584, com o nome de “Plaia Hermosa”.

The Forte de São Brás do Porto Formoso (Saint Brás’ Fort of Porto Formoso, or Fort of Saint Brás of Porto Formoso), also referred as Castelo do Porto Formoso (Porto Formoso Castle, or Castle of Porto Formoso), Forte do Porto Formoso, (Porto Formoso Fort, or Fort of Porto Formoso), and Forte de Nossa Senhora da Graça (Our Lady of Grace’s Fort, or Fort of Our Lady of Grace), is located in the parish of Porto Formoso, in the municipally and city of Ribeira Grande, the north of São Miguel Island, on the Azores.

In a dominate position over this littoral space, constituting in a fortification intended for defence of this anchorage against the pirate and corsair attacks, once commonly frequent in this Atlantic Ocean region.

The recent archaeological prospecting campaigns developed into the possibility of becoming the oldest fortification structure of the archipelago.

The beach where this fortification structure is located is found on the Azores map, the authorship of Luís Teixeira, dated in 1584, with the name “Plaia Hermosa”.

English translation: Kevin de Ávila

>> VISIONAR VÍDEO: http://youtu.be/4IqmKs8SVV8
>> O Forte nos anos 70 do Séc. passado:https://www.facebook.com/photo.php?fbid=290370431067816&set=a.197643377007189.35037.197544470350413&type=1&theater

Por: Amigos da Praia “SOS Castelo”
(FF)

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dicionário caboverdiano português

in diálogos lusófonos

No dia internacional da língua materna, que se comemora hoje, será apresentado pela primeira vez em Portugal um dicionário “caboverdiano – português”, assinalando a importância da língua portuguesa como uma das matrizes do crioulo, disse hoje o autor da obra.

“O português é uma das matrizes da língua cabo-verdiana e é uma das coisas mais bonitas que ficaram em Cabo Verde resultantes da colonização e, inclusivamente, da escravatura”, disse à agência Lusa o linguista cabo-verdiano Manuel Veiga.


Segundo o autor, este é o primeiro dicionário “caboverdiano – português” a ser apresentado em Portugal.
“Eu acho extremamente significativo [esta apresentação], porque hoje é o dia das línguas maternas em todo o mundo e o crioulo de Cabo Verde é a nossa língua materna. Então, lançar um dicionário sobre o crioulo de Cabo Verde na perspetiva de oficialização desta língua é uma iniciativa muito interessante”, sublinhou.
O português é a língua oficial e o crioulo é a língua nacional de Cabo Verde, sendo Manuel Veiga um grande incentivador para que a língua cabo-verdiana seja, efetivamente, equiparada à língua portuguesa.
No entanto, existe uma grande polémica em torno da uniformização do crioulo devido às diferentes variantes faladas nas diversas ilhas do arquipélago.
Manuel Veiga disse que começou a elaborar o dicionário em 1995, com a ajuda de uma equipa, e levou cinco anos a terminá-lo.
“O dicionário foi lançado em Cabo Verde em 2011 e, posteriormente, nos Estados Unidos”, sublinhou o autor.
Com 15 mil entradas (palavras), até ao momento, é o dicionário mais completo publicado em Cabo Verde, segundo o linguista.
O ex-ministro sublinhou que introduziu em muitas palavras, as variantes utilizadas nas várias ilhas do arquipélago.
“Como linguista que sou, sempre pensei que o meu contributo para Cabo Verde, na área da cultura, seria procurar uma escrita padronizada para a língua cabo-verdiana e fazer trabalhos no domínio da gramática”, indicou.
Após publicar diversas obras sobre a língua cabo-verdiana, como gramáticas e outros estudos, decidiu lançar este dicionário.
“Os portugueses foram cúmplices da criação desta língua, portanto, também são responsáveis pela valorização desta língua”, acrescentou o autor.
De acordo com Manuel Veiga, o dicionário é direcionado, fundamentalmente, para a comunidade cabo-verdiana em Portugal, mas indicou que também há académicos interessados pela obra.
A publicação já vai na sua segunda edição e o autor referiu que uma terceira edição poderá ser lançada.
O dicionário será apresentado pelo autor na Associação Caboverdeana, em Lisboa, e a sessão vai estar a cargo da linguista e professora do ensino bilingue português – cabo-verdiano, Ana Josefa Cardoso.
Durante a presentação do dicionário, a Associação Caboverdeana de Lisboa irá apresentar ainda o projeto do curso de língua cabo-verdiana, que será ministrado nas instalações da organização associativa, a partir de março.
Fonte: Diário Digital com Lusa

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a autonomia muda

A autonomia muda

Manuel Leal

Para publicação no Expresso das Nove

A autonomia está sob um ataque matreiro, subtil e silencioso. É o prosseguimento da política de contenção iniciada ainda em 1975 pelo general Altino de Magalhães, um militar ardiloso como uma raposa. Desde então, todas as chamadas conquistas autonómicas não passaram de concessões táticas da República. O governo central beneficia ainda da conspiração de interesses internacionais que o dominam.

Seria de esperar, todavia, que os órgãos do Governo Regional reagissem a esta nova investida. Não há uma estratégia credível das chamadas hostes autonómicas para resistir como em termos históricos antes ocorreu. Porque é preciso colocar o Governo da República perante um nó górdio. Ou respeitaria a autonomia, ou teria de acabar com ela, forçosamente. Mas seria preciso coragem, e lealdade aos Açores, para se colocar a justiça desta posição, sistematicamente e de modo insistente, à avaliação do povo açoriano. Por isso a TV regional, independente e isenta de cordelinhos prosélitos, é mais necessária do que os «melhoramentos» de fachada com propostos publicitários.

A oposição a este assédio cada vez mais apertado tem de fazer-se através da voz popular. De maneira que o governo central se veja forçado a intervir diretamente ou a respeitar a vontade açoriana. A primeira seria recebida no mundo, e sobretudo onde a diáspora açoriana possui uma presença numerosa, com um vozeirão de protesto. A segunda, porém, não enfraqueceria a integridade da nação. Não está em disputa o gestalt nacional, mas o processo neocolonialista no exercício do poder central.

Independentemente dos erros que o governo de Carlos César cometeu ao longo dos anos, em alguns dos momentos mais graves ele identificou-se, pelo menos de modo simbólico, com a defesa da autonomia. Mas o governo do seu sucessor, Vasco Cordeiro, parece manifestar uma timidez incómoda, evocativa dos últimos anos, anémicos, da governação de Mota Amaral.

Nenhum dos partidos no Governo Regional soube ainda lutar pela autonomia numa aliança inequívoca com o povo, após o período inicial do entendimento entre o PPD/ PSD e a FLA. Por isso caiu a administração social-democrata de Mota Amaral, que abandonou o governo apadrinhado pelo seu partido nacional. O atual elenco socialista, tanto no Executivo como na Assembleia, de que muito se esperava, prefere funcionar no silêncio no relacionamento com a metrópole . Fora da observação popular, francamente, ninguém sabe o que faz.

Os partidos com assento nos órgãos do governo do Arquipélago são extensões dos partidos nacionais, como as vacas à corda. Só assim se explicam as verbas eleitorais e outros privilégios que os reizetes regionais recebem dos sobas nacionais. Naturalmente, presume-se que têm de obedecer à estratégia eleitoralista, e não só, das estruturas centrais sedeadas em Lisboa.

Por outro lado, os açorianistas ainda não souberam trazer para as eleições líderes relevantes e geralmente respeitados como tal, e populares, a fim de conquistarem a confiança dos eleitores. Nem possuem os meios financeiros e a organização para competirem com as associações nacionais. A legislação portuguesa, como todos os sistemas centralizados e neocoloniais depois da doutrina de Woodrow Wilson, criou uma organização enganosa e legalista que favorece os chefes partidários e os grupos de interesses apostados na minimização do poder regional.

A autonomia perdeu credibilidade. Não alimenta a esperança, nem oferece uma alternativa, de que as instituições açorianas se possam opor ao centralismo da metrópole. O Governo Açoriano, e o partido que o mantém, caminha para um fiasco sem uma postura claramente autonómica.

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Gugunhana Moçambique

 Moçambique

AS MULHERES DE GUNGUNHANA,  POR MARIA DA CONCEIÇÃO VILHENA

1. No último quartel do século XIX, nas terras do sul de Moçambique, entre os rios Incomáti e Zambeze, Gungunhana impunha-se como o maior potentado africano. Era o senhor do reino de Gaza, tinha mais de uma centena de vassalos e possuía uma enorme riqueza, constituída por ouro, marfim e rebanhos de gado. O seu prestígio político e social vinha-lhe ainda do facto de possuir entre 200 a 300 esposas: 40 viviam junto da corte e as restantes habitavam nas aldeias circunvizinhas. A aquisição de novas esposas fazia-se a um ritmo quase bimestral; e cada casamento era sempre causa de maior engrandecimento, por permitir novas alianças e atrair grande número de presentes. Era uma grande honra ter o régulo de Gaza como genro e protetor. Seria demasiado longo falarmos da vida que levavam estas mulheres em geral; por isso nos limitaremos às sete que acompanharam o marido no exílio.

2. No dia 28 de Dezembro de 1895, após algumas tentativas de negociações e a derrota de Coolela, seguida do incêndio do Manjacaze, a capital de Gaza, Gungunhana foi feito prisioneiro em Chaimite, por Mousinho de Albuquerque. O oficial português deu então ordem ao régulo para que escolhesse sete de entre as suas mulheres, que o acompanhariam no seu incerto destino. Foram [seis] delas: Namatuco, Patihina, Muzamussi, Machacha, Xesipe e Dabondi. Feitas as suas poucas bagagens, lá seguiram os prisioneiros a pé durante algumas horas, até chegarem a Zimacaze, na foz do Chengane. Aí embarcaram na canhoneira Capelo, que os estava esperando e os transporta até Chai-Chai. A propósito deste embarque, queremos lembrar que, na cultura angune, havia um tabu proibitivo de entrar na água e comer peixe. Os prisioneiros devem, pois, ter sido invadidos pelo horror de viajar de barco, o que irá repetir-se, por várias vezes, até ao fim da deportação. Com os onze prisioneiros do Manjacaze (Gungunhana, o filho Godide, o tio Molungo, o cozinheiro Gó e as sete mulheres), embarcam também o régulo da Zixaxa e três mulheres deste, cuja sorte iria ser igual à dos outros. Em Chai-Chai, na foz do Limpopo, passam então para o navio Neves Ferreira, que os transporta até Lourenço Marques, onde chegam no dia 4 de Janeiro [de 1896]. Aí desembarcam e são mantidos na cadeia homens e mulheres, até serem levados para bordo do “África”, após o seu reconhecimento oficial, feito em público. Neste navio África fariam uma viagem de 60 dias, até Lisboa. As condições a bordo deviam ser péssimas, pois Gungunhana e seus companheiros, num total de 15 pessoas, ocupavam apenas dois compartimentos pequenos, escuros e mal arejados. Por razões de segurança, aí ficavam fechados à chave, sempre que o barco fazia escala em qualquer porto. E foi o enjoo, a asfixia, a imobilidade, a juntar à angústia da dúvida sobre o futuro que os esperava. Os jornalistas falam mesmo da tentativa de suicídio por parte de uma das mulheres…

3. Na manhã do dia 13 de Março de 1896, desembarcam em Lisboa e são conduzidos em caleches descobertas, do Arsenal até ao forte de Monsanto. Lisboa em festa, a abarrotar de multidões ruidosas. O público, apinhado pelas ruas, empoleirado em postes, debruçado das janelas, aos magotes, como enxames, ri, grita, vaia eufórico. Dentro das carruagens, os prisioneiros olham temerosos e embaraçados; eles com ar estupefacto, perplexo; elas apontando, curiosas e divertidas. Nunca tinham visto casas tão altas, com varandas, ruas calcetadas, praças com fontes e estátuas. E tanta gente alegre, a observa-las, durante todo o percurso. As mulheres africanas parecem bem dispostas. Do Terreiro do Paço seguiu o cortejo pela Rua do Ouro, Avenida da Liberdade, São Sebastião da Pedreira, Sete Rios, Benfica, rumo a Monsanto. Por todo o lado, em todo o percurso, era aquela mole imensa de gente, às gargalhadas e a insultar. Porém o desconhecimento da língua portuguesa dava às prisioneiras a vantagem de não compreenderem o ódio e a ironia da arraia miúda e assim, na sua inocência, poderem continuar a sorrir. Era o dia 13, uma sexta-feira de céu cinzento. Se os africanos tivessem as mesmas superstições que os brancos, tanto bastaria para que os maus presságios agudizassem ainda mais a angústia que os atormentava. A tarde aproxima-se do seu fim, quando chegam ao Forte de Monsanto. São seis horas e, em Março, o sol está a esconder-se. As instalações onde são recebidas nada têm de semelhante àquelas casas que, na Baixa, as haviam deslumbrado. Passada a ponte levadiça, entram numa masmorra, onde a escuridão era quase total. As mulheres estão agora assustadas e o terror estampa-se-lhes no rosto. O quarto que lhes haviam destinado, encontrava-se seis metros abaixo da superfície. Espaço escuro, bafiento, mal cheiroso, húmido e frio. Suspiravam amedrontadas e foi necessário tranquilizá-las; mas continuaram a tremer de frio e talvez de medo. Assim as encontrou o médico encarregado de examinar o seu estado de saúde. São-lhes mostradas as camas e explicam-lhes como são utilizadas. Até então haviam dormido no chão, sobre esteiras. Convencidas finalmente de que não lhes iria acontecer mal, ao entrarem nas camas riram ruidosamente. Nesta fortaleza de Monsanto iriam ficar encerradas durante quatro meses, aproximadamente. Gente habituada a viver ao ar livre, em contacto com a natureza e em constante movimento, vê-se agora privada da largueza dos seus espaços e da quentura do seu clima; imóveis e geladas entre quatro paredes do calabouço, num entorpecimento do corpo e do espírito. Detestam a comida portuguesa e queixam-se constantemente de frio. Entretanto, aprendem a utilizar talheres e passam a usar vestuário europeu.

4.Como passavam o tempo essas mulheres prisioneiras?
Grande parte do seu dia era ocupado a pentearem-se, pois usavam um penteado artístico, alto, entre o cónico e o cilíndrico, que constituía um dos distintivos das mulheres grandes do Gungunhana. As mulheres pequenas, ou seja, as rainhas de segunda classe, não tinham o direito de usar esse tipo de penteado. Quanto à favorita, tinha outra ocupação, pois cabia-lhe o dever de manter sempre brilhante a coroa de cera que o marido usava e que era tecida no próprio cabelo. Além disso, dedicavam-se ao artesanato, fazendo pulseiras e colares de missangas, artisticamente trabalhados. Ao princípio, a monotonia dos dias foi quebrada pelas muitas visitas que recebiam. As esposas de ministros, ou de outras altas individualidades, conseguiam a autorização do Ministério da Guerra e iam até Monsanto, entravam nos calabouços, sorriam, levavam presentes. Por curiosidade ou para cumprir o dever de visitar os presos. Não conheciam a língua, mas comunicavam por gestos de simpatia. Ofereciam fruta e doces, objetos variados, pequenos nadas que davam prazer. Um jornalista referiu uma vez a agilidade e delicadeza com que uma dessas mulheres prisioneiras calçou umas luvas que acabava de receber. Com tanta facilidade e perfeição como se a isso estivesse habituada de longo data; e um dia em que uma senhora lhes ofereceu flores, com elas adornaram alegremente os seus penteados. As prisioneiras mostravam aos visitantes os seus trabalhos em missangas, com cores variadas e caprichosos desenhos. Estes apreciavam, elogiavam-lhes a arte, sorriam. Mas um dia acabaram-se as visitas, por o ministério as ter proibido. E então foi a solidão total. Tensão, crises de mau humor, cólera, emoções descontroladas, transgredindo assim a contenção imposta pela disciplina militar. O recluso tem de obedecer, mas os nervos começam a dar sinais de fadiga. Há gritos e ameaças, intervenção das forças da ordem. As mulheres choram, os homens são punidos. Era muito difícil, para um rei déspota e violento como Gungunhana, a renúncia calma ao prestígio de que gozara e a aceitação submissa do vencedor português. Cada vez mais angustiado e atormentado pelo receio da condenação à morte, Gungunhana atinge o limiar das suas forças. Adoece gravemente e tem de ser hospitalizado. A sua partida para o hospital impressionou de tal modo as rainhas, que estas quase deixaram de comer. Algumas delas adoeceram mesmo e o médico chegou a propor o seu internamento. No dia em que o marido regressou recuperado, foi grande a alegria das esposas, traduzida em carícias, gargalhadas e gritos de prazer que entoaram pelas celas. De repente a imprensa deixa de se interessar pelos prisioneiros africanos. O encanto da novidade tinha-se extinguido; e agora nada mais saberemos a seu respeito, a não ser que passaram os meses de Abril, Maio e Junho, na mais horrível solidão. Dias a decorrer na penumbra, incertos de futuro, exíguos de espaço, longos de monotonia, húmidos e frios. Até que, no dia 23 de Junho [de 1896] os jornais anunciam a partida do Gungunhana e dos seus três companheiros, na véspera, para os Açores. E as mulheres? Não partem, por enquanto. Apesar das visitas simpáticas que haviam recebido, a sociedade lisboeta havia-as rejeitado, escandalizada com a poligamia. Para acabar com o pecado, as autoridades haviam decidido separá-las do marido. Segundo contam os jornalistas, foi muito dolorosa a separação, nesse dia 22 de Junho, pelas 7 horas da manhã. Eles a tremer, de lágrimas nos olhos, convencidos de que iam ser mortos. Elas sem quererem separar-se deles, chorando, gritando, lamentando-se. Esquecidas pela multidão que antes rodeava o forte, abandonadas aparentemente pelas autoridades, a solidão destas mulheres tornou-se insuportável. Tiraram-lhes os seus companheiros; e ali ficam sozinhas, de 22 de Junho a 6 de Julho. Duas longas semanas de dor, de dúvida, de solidão e de medo. Caídas numa apatia total, nem forças tinham para qualquer eventual acesso de fúria. Era a segunda desagregação familiar que sofriam. A voz do sangue silenciada por razões de ordem moral e política. Desprevenidas, indefesas, arrancadas a laços e raízes, elas esperam não sabem o quê. Finalmente vem do Ministério a decisão: despachá-las para a ilha de São Tomé. Pelas 5 horas da manhã do dia 6 de Julho recebem então ordem para se vestir e partir. O sofrimento que deixam transparecer é tão grande que os próprios jornalistas se sentem comovidos e revoltados: “pobres expatriadas”que pareciam nem ter forças para se vestir. Ninguém para se despedir delas. À chegada, estavam as ruas cheias de gente, havia movimento e alegria; agora, à partida, é o desconsolador abandono total.

5. Transportam-nas até ao Arsenal e embarcam-nas no paquete São Tomé. Já no beliche, impressionam por um silêncio desolador. Umas estendidas, de olhos fechados, como se dormissem, outras, acocoradas e lacrimosas, olhando os circunstantes com pavor; duas recusavam-se a mostrar o rosto. Debilitadas pelo entorpecimento de quatro meses, dilaceradas pelo martírio da dúvida, refugiavam-se num mutismo impregnado de horror, receio e solidão. A separação dos régulos africanos das suas esposas, e o envio destas para São Tomé, parece ter sido a resposta a uma campanha de moralização, levada a cabo por um grupo de senhoras de bem, revoltadas contra a poligamia dos negros. Era, pois, uma campanha autorizada, promovida e apoiada por pessoas de bons costumes, que consideravam a presença daquelas mulheres como um insulto à moral pública. Além disso, sendo os Açores uma terra de grande religiosidade e pureza (salvaguardada e assegurada pelas casas de prostituição…), o governo não poderia permitir uma tal promiscuidade. A separação foi, pois, uma operação de limpeza, imposta pela moral tradicional. Digamos a propósito termos a notícia de que, nos Açores, os prisioneiros africanos eram levados, regularmente, às casas de prostituição da cidade de Angra do Heroísmo. Referem alguns jornalistas que se tentou convencer Gugunhana à monogamia. Como a moral portuguesa só admitia, publicamente, uma mulher, o régulo teria de escolher uma entre as sete e repudiar seis; o que, para estas, seria uma humilhação insuportável. Gungunhana amava-as todas igualmente; e não sabia nem quis escolher uma, pois cometeria para com as outras uma afronta que ele nunca se permitiria. Por isso foi firme e enérgico, coerente com os seus princípios. Tendo-se recusado a escolher uma, a separação foi inevitável. Bem pediu o régulo, bem suplicou, mas de nada lhe serviu. Jornais houve que protestaram contra esta decisão, prevendo para Gungunhana uma lenta agonia, minado de uma saudade e tristeza que lhe encurtaria os dias; o que realmente se deu. Nada, porém, abalou as cúpulas; e as suas ordens foram integralmente cumpridas. E lá partem para São Tomé, sozinhas, vazias de sonho, sem ninguém que lhes acene com o lenço da amizade; lá seguem pela imensidão de um mar revolto, sem ninguém que lhes estenda a mão da solidariedade, sem ninguém que lhes dirija um gesto de compreensão. Um jornalista comenta: “Em São Tomé, que sorte desgraçadíssima vão ter? Não seria mais justo, e muitíssimo mais digno, enviá-las para a sua terra natal, de onde nunca deveriam ter saído?!” Era muito grave, aqui no continente, ser-se acusado de “propensões benévolas” para com o Gungunhana. Para se tomar o partido deste, era necessário não só muita coragem, como carecia de um preâmbulo filosófico, moral e religioso, com apelo à caridade. De contrário, corria-se o risco de ser acusado de traição à pátria. Ou de imoralidade. Ou de atentado aos princípios cristãos. Só depois de tomadas todas essas precauções, a Folha do Povo arrisca criticar e condenar ferozmente o comportamento do Ministério da Guerra, que acusa de iníquo e cruelmente bárbaro. Igualmente encontramos críticas violentas no Jornal do Comércio, onde um jornalista, sob o pseudónimo de Fernão Lopes, põe em realce a hipocrisia do governo, escudado no que chama “escrúpulos religiosos” tardios. Fernão Lopes termina o seu artigo relembrando a maneira correta e hospitaleira como os portugueses foram sempre recebidos por homens e mulheres da corte de Gungunhana.

6. Passados doze dias de náusea e imobilidade, as mulheres chegam a São Tomé e são entregues ao governador da ilha. Em que vão ocupá-las? Em São Tomé havia então um mundo confuso de imigrantes, vindos dos mais variados pontos de África, das mais diversas tribos, odiando-se por vezes. Basta olharmos as listas das levas que chegavam ou partiam, para nos darmos conta dessa variedade. Em comum, tinham apenas a cor da pele; e o trágico destino da falta de trabalho. Falavam dialetos diferentes e desconheciam-se entre si. Foi para o meio desta confusão que as rainhas destronadas foram levadas. Que destino lhes foi dado? A Folha do Povo, de 13 de Novembro desse ano de 1896, e respondendo a vários jornais de Lisboa, dá-nos algumas informações. Recordemos que, juntamente com as sete mulheres de Gungunhana, se encontravam mais três, as do régulo Zixaxa, suas companheiras de infortúnio desde o início do exílio. Eram, pois, dez ao todo. Segundo o citado jornal, oito destas mulheres estavam colocadas no hospital civil e militar; e as duas restantes no palácio do Governo. Constava pouco ou quase nada fazerem; e o articulista lamenta que, dado a falta de braços em São Tomé, as não tenham empregado “em qualquer trabalho útil, mediante remuneração condigna”. Vem a propósito lembrar que se tratava das mulheres grandes do régulo, isto é, as de mais elevada categoria social na hierarquia feminina, que tinham ao seu serviço as mulheres pequenas, espécie de ecónomas encarregadas de dirigir os bandos de escravos a trabalhar na corte. Eram, portanto, rainhas que nada costumavam fazer e sem hábitos de trabalho. J. F. Marques Pereira, na obra intitulada No Tempo de Gungunhana, publicada três anos mais tarde (1899), diz que as mulheres foram para São Tomé “servir de mancebas, em amiganços baratos, e para acarretar pedras”. E António Pedro de Vasconcelos no filme Aqui d’ El-Rei, faz dizer a uma das personagens que elas foram levadas para um “bordel do exército”. Não encontramos documentos oficiais que nos permitam negar ou confirmar tais informações. Tratava-se de mulheres que só interessaram enquanto rainhas de um reino cobiçado pelos europeus. Destronado e preso o soberano, perdidas as esposas no meio da massa anónima santomense, o governo, não vendo nelas qualquer perigo, deixava-as cair no esquecimento.

7. Em São Tomé, as rainhas africanas dos reinos de Gaza e da Zixaxa foram ultrapassadas e absorvidas pela história. Quinze anos de esquecimento; quinze anos de trabalho silencioso, de dor ignorada, de sofrimento mudo que levaria três delas à morte. Num silêncio de deserto, as rainhas tinham sido tornadas escravas submissas, feitas consentimento e conformismo. Enigmas de uma grandeza descaída. Mas em 1910 é implantada a república; e muita coisa vai mudar. Alguém se lembra dessas mulheres exiladas e decide que regressem ao país. Comédia eleitoralista ou desejo de reparação? Gungunhana já havia falecido em 1906. A ordem de repatriamento, em 1911, foi sem dúvida recebida com euforia; era a esperança do regresso a casa que renascia. Só que já não havia casa. Nem país. Gaza tornara-se num distrito da colónia de Moçambique. Os familiares tinham-se espalhado, cada um para seu lado, alguns presos, outros refugiados no estrangeiro. Era a desintegração progressiva dos pequenos estados indígenas e a substituição dos costumes africanos pelos europeus. Desconfiadas, assustadas, sem o elo de união que era o marido, só o medo as irmanava agora; e cada uma vai para seu lado.

8. Eram sete, regressavam quatro. As três mais vulneráveis haviam atingido o limite que desemboca na morte: Muzamussi, Dabondi e Fussi haviam ficado sepultadas em terra santomense. Patihina volta a casa, mas o medo lavra na família e ela decide fugir para o Transval, com o filho Tulimahanche. Foram juntar-se aos milhares de emigrados de Gaza, amigos e familiares de Gungunhana, que se haviam fixado em Spelonken. Tulimahanche seria, em 1932, o chefe de um dos dois grupos de exilados angunes que aí existiam então. Namatuco, Chlézipe e Machacha traziam filhos arranjados em São Tomé, nos quinze anos de exílio; filhos que, nada tendo com Gungunhana, não corriam o risco de vir a ser presos pelos portugueses. Por isso não recearam em fixar-se na região onde tinham vivido anteriormente: Chaimite, Chibuto e Chai-Chai, respetivamente. Tinham cumprido plenamente o destino ancestral da mulher: resignar-se e sofrer, numa passividade submissa. Já no seu país, continuarão a cumprir o mesmo destino, como “criadas de servir”.

9. E terminamos. Com este trabalho, tivemos a intenção de dar som às vozes silenciosas de mulheres que sofreram cruelmente no todo das suas vidas, o que de mais negativo pôde haver no encontro da cultura africana com a cultura europeia. Mulheres esquecidas, relegadas para a periferia da história, quando elas estavam, afinal, bem no centro dessa história. Elas eram as rainhas do império de Gaza, onde tinham exercido uma importante função política. Elas eram as esposas do então maior potentado da África austral, pelo que pagaram com quinze anos de exílio. Moralmente mutiladas, elas foram as vítimas inocentes de um evoluir da história africana, provocado por decisões e projetos da Europa, os quais levaram a alterações sócio-políticas que as afetaram no mais fundo das suas idiossincrasias. Desfeita a sua vida privada, desagregada a sua família, estas mulheres tornaram-se o símbolo de uma África desmoronada e dividida por ideologias levadas da Europa.

*Autora de Gungunhana no Seu Reino, Gungunhana, entre outros

 

extraido de diálogos lusófonos

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BELO texto de JOÃO DE MELO

  • JOÃO DE MELO:

    LARGAR TUDO POR UMA CAUSA (in “JL – Jornal de Letras, Artes e Ideia”, 06.02.2013)

    P – A actual situação do País (e, se quiser, a da Europa e do Mundo) tem influído na sua criação literária (impedido, condicionado, estimulado) e na sua actividade como escritor?
    R – A crise não sobrevoa ninguém; envolve-nos, compromete-nos a todos. Impôs-se também, obviamente, à minha escrita. Não se pode ficar imune a nada do que vemos e ouvimos à nossa volta. São outras agora as vozes que escutamos (ou as mesmas de sempre, mas noutro registo, por palavras com diferentes sentidos). Os extremos sociais tocam-se: por um lado, os velhos empobrecidos às ordens da política monetária, por outro, os jovens a contas com a recessão no trabalho e nos empregos. E, no meio, quase todos nós. Nada hoje em Portugal parece coerente e inteiro: vive-se dos fragmentos dolorosos de uma realidade que parece ter-nos posto à beira da guerra civil. Escrever sobre “isto”? Só se for através de uma escrita a quente, marcada pelo protesto e pelo ódio. A literatura serve-se nua e fria. A minha escrita de interregno são os contos (é urgente reabilitar a excelência literária e a leitura do conto entre nós). Gosto deles: falam de vencidos, da dignidade orgulhosa dos vencidos de hoje que amanhã hão de sacrificar e exilar quem os venceu. Escrevi também um romance sobre os infernos deste mundo, dividido em seis “cadernos” (dei-lhe entretanto um sedativo, pu-lo a dormir). E vou a meio de outro que entrecruza duas histórias, uma africana, outra portuguesa. O problema não reside no tipo de abordagens, mas antes na criação de uma linguagem que seja só minha. Serei sempre um escritor de linguagem em criação. A crise, como um fungo ou um líquen, vive também dentro das palavras. E elas mesmas mudaram: não explicam a ideia nem a ideologia dos nossos sonhos. Sonhar como, se afinal, mesmo todos despertos, ainda somos tão poucos?
    P – Entende que os escritores têm, ou não, nessa qualidade e como cidadãos, responsabilidades especiais de intervenção cívica – e a que níveis? E, caso positivo, estão ou não a assumi-las? (Se preferir ou achar bem, dê o seu próprio exemplo)
    R – Gosto de escritores à antiga portuguesa, ativos e generosos ao ponto de largarem tudo por uma causa, uma emergência nacional. Receio que andem demasiado ao comércio dos livros, como disse o Herberto Helder. Impantes de glória, deslumbrados com os prémios. Preferia vê-los de novo à cabeça da cidadania, a honrarem-se de apoiarem a luta dos professores, ao lado da juventude explorada, sem direitos laborais, sem trabalho ou sem horários, a ganhar menos que o óbolo do barqueiro da morte. A pior das arrogâncias políticas é afinal a patronal. Há gente a falar de crise, e outra a encher a barriga à custa dela. Depois da traição e do abandono a que o Estado social nos votou, parece que só a prosperidade dos ricos e o sucesso das empresas prometem a cura do nosso empobrecimento. Falta impor regras. Contrapor a ética e a moral social aos abusos de poder do dinheiro e a uma exploração mais desenfreada que jamais se viu entre nós. Não vale a pena contar com o Governo para nada: nunca estivemos tão sós, tão frágeis, tão à mercê de conselhos de ministros cegos e bestiais. Entre lutas de classes e de castas, é cada um por si e fé no Diabo. Pessoalmente, não disponho de espaço para intervir pela via da escrita. Gostava de voltar à crónica, tal qual a pratiquei na imprensa dita generalista. Mas estive muito tempo fora, perdi o meu barco. O mercado livreiro não tolera infidelidades produtivas nem faltas de comparência. Tenho o meu ritmo, escrevo por desejo e não por bulimia. A escrita nunca foi uma via de fuga à política. Sou um escritor de esquerda, estou vivo, hei de regressar.

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Chrys Chrystello, An Aussie in the Azores /Um Australiano nos Açores, http://oz2.com.sapo.pt
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JUDEUS NOS AÇORES

Os judeus nos primordios da ocupação da ilha do Faial

Terra periférica, o Arquipélago dos Açores nos tempos iniciais do povoamento também foi local escolhido por famílias cristãs-novas para fugir às perseguições de que eram vítimas. Segundo pesquisa de Isaías da Rosa Pereira, em seu trabalho “Alguns açorianos na Inquisição de Lisboa” ( O FAIAL e a periferia açoriana nos séculos XV a XIX- Núcleo Cultural da Horta), existe um relato documentado na Biblioteca da Ajuda ( Symicta Lusitana ) de uma pequena revolta de judeus, na Ilha do Faial, contra os demais habitantes da Ilha que os hostilizavam. Datado de 06 de janeiro de 1532, o episódio descreve a encenação que fizeram na Praça da então Vila da Horta. Armaram uma tribuna onde havia uma criança, um mascarado fingindo ser judeu e um boneco de palha . Acenderam uma fogueira e disseram à criança que mandasse queimar aquele judeu que havia cometido pecado contra a fé. Em seguida jogaram o boneco de palha na fogueira para ser queimado. Por falta de documentos, não se sabe mais acerca de outros acontecimentos.
O episódio demonstra que , claramente, havia judeus na ilha e uma repressão psicológica sobre eles. Acredita-se que a maioria tenha assumido a religião católica por toda essa situação conflituosa e pelos casamentos que sucederam entre os cristãos-novos e os velhos. Porém, percebe-se em certas família açorianas ( portuguesa), comportamentos e costumes que fazem suspeitar a influência judaica sobre elas. Como o habito de, antigamente, se eleger o sábado como o dia da higiene, do banho geral, de vestir roupa lavada, de colocar velas ardendo até o final do dia; o costume de sangrar o animal antes de prepará-lo para comê-lo, a preferência, na alimentação, pelos peixes de escamas ( os de couro não são aceitos pelas leis dos judeus), o atributo feminino na educação dos filhos, o dualismo na maneira de ser, isto é, dizer ou mostrar uma coisa na aparência e pensar ou ser outra por dentro, jurar pela alma de alguém ( rito judaico), pagar a siza ( Sizah do hebraico ), o emprego de palavras que fazem lembrar a história judaica, como judiar e massada ( fortaleza de Massada onde pereceram 800 judeus). Muitos são os hábitos e costumes que nos recordam que, em tempos passados, também tivemos a contribuição marcante da presença judaica na formação da nação portuguesa.
Maria Eduarda
Uberaba, 05/02/13
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