o regresso das bruxas LUIZ FAGUNDES DUARTE

O regresso das bruxas
by Luiz Fagundes Duarte on Saturday, 22 September 2012 at 08:09 ·

Li numa edição recente do DI que as bruxas chegaram a Florianópolis com os açorianos que ali aportaram em meados do século XVIII. Esta frase, a propósito de um livro para crianças lançado recentemente pelo escritor brasileiro Cláudio Fragata, cujo título – Uma História Bruxólica – não engana ninguém, pôs-me em pé os poucos cabelos que me restam.

Uma sensação que se me afigurou mais aguda depois de ter lido o romance The Undiscovered Island [A Ilha Encoberta], do escritor americano Darrell Kastin, onde tropeçamos em casas assombradas, navios fantasmas, sereias merencóricas e descendentes de Inês de Castro que deambulam por estas nossas ilhas, sobretudo no Pico e no Faial, em busca de homens desaparecidos no mar e de papéis enigmáticos por eles deixados em terra (este romance muito interessante e bem feito, apesar de publicado em 2009, ainda não teve, que eu saiba, uma tradução para Português, sendo de supor que os professores de “literatura açoriana” da Universidade dos Açores já terão metido mão à obra, como seria seu mister).

Mas que não se enganem os meus queridos leitores: se eu fiquei de cabelos em pé (e mais: com pele de galinha por todo o corpo) não foi com medo das bruxas que os nossos antepassados exportaram para o Brasil, ou dos fantasmas que escritores norte-americanos com ascendência açoriana teimam em vir desmascarar nas nossas Ilhas Afortunadas. Não senhores! Eu fiquei assim, porque me apercebi de que andamos a desperdiçar capital.

Ou seja, e no que diz respeito às bruxas, e embora o escritor brasileiro não diga que as bruxas açorianas emigraram todinhas para Santa Catarina (acho que sempre nos ficaram algumas por cá, embora, provavelmente, não as de melhor qualidade), a verdade é que se um povo despreza aquilo que de melhor tem e o deixa partir-se portas afora – como terá acontecido com as nossas simpáticas bruxinhas dos tempos pombalinos, ou, mais recentemente, com a nossa agricultura – poderá, no mínimo, ser apelidado de louco: tanta falta que nos faz um bom grupo de bruxas que nos ajudem a resolver os nossos problemas actuais… E sejamos honestos: não creio que o programa eleitoral da dr.ª Berta Cabral, por muitos plim-plins que ela faça com a sua varinha mágica, consiga levar-nos a algum lado sem a ajuda de uma boa bruxa – até porque é muito possível que, entretanto, o governo da República que ela apoia e pelo qual anseia, e que se nos tem revelado o melhor exemplo de Casa Assombrada que possamos imaginar, dê o seu derradeiro suspiro – fornecendo assim matéria fresca para um novo romance do supradito escritor americano.

Bem vistas as coisas, faltam-nos as bruxas, sobejam-nos os fantasmas…

 

 

Luiz Fagundes Duarte 22 September 08:11

 

 

(no diXL, de Angra do Heroísmo)

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pepetela passou o tempo dos partidos

REVISTA ÁFRICA21

“Passou o tempo dos partidos?”, por Pepetela

Redação revista África21
20/09/2012 10:11
“Os partidos são cada vez mais aparelhos desumanos, constituídos de instrumentos e peças, sem sangue nem nervo”.

 

Brasília – Um humorista italiano, Beppe Grillo, ganhou algumas câmaras municipais em Itália. Já antes o excêntrico Berlusconi fartou-se de reinar em Roma, criando e desfazendo partidos da noite para o dia. Na Grécia, um antissistema de esquerda ameaçou ganhar as eleições, pondo de parampas toda a União Europeia.

Já há tempos um palhaço foi eleito para deputado no Brasil (nunca mais ouvi falar dele, talvez por ter deixado de usar o nariz vermelho). Na circunspecta Alemanha, o Partido dos Piratas vai crescendo e pode mudar os equilíbrios do poder (eles só querem ter a liberdade de copiar e fazerem downloads na Internet sem serem chateados). Alguns exemplos de como a política já não é a secura a que estávamos habituados e enveredou pela imaginação libertária. Ao menos, uma nota de pimenta na rigidez do fato e gravata.

Não escondo a admiração que nutro pelos que rompem os sistemas e têm a coragem de parecer extravagantes para, pelo menos, animarem a maralha. A vida seria uma monotonia intragável sem eles. Agora, por culpa dos mesmos de sempre, essa tendência vem ganhando a política. E me divirto a ver os aparelhísticos (isto é, aqueles que vivem dos aparelhos partidários, género um jotinha que não estuda nada e vai fazendo a sua vidinha na Juventude do Partido, esperando ter idade para ser promovido para o Partido, aos pulos e gritos de apoio ao chefe nas manifestações de boné na cabeça, de preferência com uma estrela, até conseguir uma ascensão no próprio Partido e acabando por morrer, sem dentes, mas membro do Comité Central, uma vida recheada de vitórias e felicidade pelo dever cumprido!).

Os partidos são cada vez mais aparelhos desumanos, constituídos de instrumentos e peças, sem sangue nem nervo. Por isso, quando se vislumbra no horizonte qualquer coisa como uma máquina de reciclar ou compactar os instrumentos, eu fico com esperanças, um partido a menos.

Leia versão integral na edição impressa da revista África21 (N.º 67, setembro 2012). Para assinar a revista contacte: [email protected]

 

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vila franca do campo 1965

Vila Franca do Campo – 1965 – Ilhéu visto do pico das antenas do telefones celulares; O cais do Tagarete com nova vista do Ilhéu; Procissão do Senhor Bom Jesus da Pedra. Este vídeo foi realizado a partir de um filme de 8mm com câmara de vídeo analógico sobre parede branca, ao segundo 40, nota-se a data no roda-pé. Gentileza da família Fontes Mota. Contendo o filme cenas de carácter familiar, foram extraídas 3 partes para publicar numa única peça. Veja tudo isto em: http://www.youtube.com/watch?v=_quOeTr-ueY
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AO1990 ATACADO PELO PEN

PEN INTERNACIONAL: ACORDO ORTOGRÁFICO

“Evidente preocupação pela ameaça à Língua Portuguesa”

por Lusa, publicado por Luís Manuel CabralHoje

O PEN Internacional, organização não-governamental de escritores com 144 centros em mais de 100 países, manifestou “evidente preocupação pela ameaça à Língua Portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990”, informou hoje o PEN Clube Português.

Em comunicado, o PEN Clube Português afirma que, no 78.º Congresso do PEN Internacional, que terminou domingo na Coreia do Sul, “foi aprovada por unanimidade uma resolução do Comité de Tradução e Direitos Linguísticos que manifesta uma evidente preocupação pela ameaça à língua portuguesa representada pelo Acordo Ortográfico de 1990 [AO/90]”.

No congresso, que reuniu 87 centros de todo o mundo, a maioria dos escritores presentes manifestou “incredulidade” e interrogou-se “como se teria chegado a tal situação”, afirma o PEN Português.

Segundo o comunicado, na apresentação do tema na Coreia do Sul, a presidente do PEN Clube Português, Teresa Salema, manifestou a “preocupação pela situação com que um número crescente de escritores e tradutores se vê confrontado”, nomeadamente pelo facto de muitos não se identificarem com AO/90 ou “de deixarem que os seus textos sejam convertidos para uma ortografia que lhes é alheia, ou de não verem as suas obras publicadas”.

Uma preocupação que “foi por todos sentida como um problema complexo”, atesta o PEN Clube Português.

“Também os tradutores que em princípio não pretendam seguir o AO/90 se veem submetidos às imposições administrativas e comerciais”, refere o comunicado, citando a resolução aprovada pelo PEN Internacional.

Segundo a resolução aprovada, “tentar centrar uma língua em prioridades administrativas e/ou comerciais é enfraquecê-la ao atacar a sua complexidade e criatividade inata, a fim de promover métodos burocráticos de natureza pública e privada”.

Na resolução aprovada afirma-se que, “no que toca ao Inglês, houve tentativas equivalentes para uma aproximação universal no tempo do Império Britânico. Contudo, a força das regiões anglófonas (situação similar à do Português) levou a que tais regras tivessem sido quebradas tanto internacional como naturalmente”.

“A força do Inglês atual é amplamente atribuída à sua abertura face às diferenças — a diferentes gramáticas, ortografias, palavras e, na realidade, significados. Uma das características mais positivas de qualquer língua internacional é o facto de palavras, ortografias, gramática, frases e sotaques assumem significados assaz diferentes como resultado de experiências locais ou regionais”, frisa a resolução que acrescenta que “o mesmo argumento poderia ser apontado para explicar a força crescente do Espanhol como língua internacional”.

“Duvidamos muitíssimo que essa proposta de estandardização produza outros efeitos além de burocratizar os textos usados nas escolas, separando assim os alunos da real criatividade da língua portuguesa, nos planos regional e internacional”, lê-se na mesma resolução.

Segundo o comunicado do PEN Clube Português, no debate da resolução houve intervenções de vários centros, nomeadamente por parte do Centro PEN galego que manifestou “a sua afinidade na diferença linguística […] reiterando o seu apoio incondicional à Declaração”.

“Também o Centro PEN alemão repudiou firmemente a ingerência de autoridades governamentais em assuntos linguísticos de reconhecida complexidade”, lê-se no mesmo comunicado, segundo o qual, “o presidente do Comité de Escritores para a Paz sublinhou a sua preocupação pela divisão — e possível aumento de conflitualidade – que tais medidas estão a causar entre os cidadãos portugueses”.

“Todos sentiram ainda o caráter nocivo e desestabilizador de uma medida que fere os princípios pedagógicos da democracia, nomeadamente a intenção de contribuir para um aprofundado contacto de amplas camadas das populações com a diversidade linguística e a herança cultural”.

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The allure of the Azores O SORTILÉGIO DOS AÇORES

 

The allure of the Azores

Due west of Portugal, this archipelago of nine volcanic islands holds strong family and cultural connections for a number of Martha’s Vineyard residents.

BY PHYLLIS MÉRAS

The crocodile-shaped island of São Jorge is home to ten thousand people and more than twenty thousand cattle. It’s famous for producing a cheddar-like cheese.

Long ago, when Adam and Eve left the Garden of Eden, a compassionate angel, seeing the abandoned flowers there, swooped down and gathered an armful of them to carry back to a happier home in heaven. But as the angel flew across the Atlantic, nine of the flowers fell from her arms, and the sea clasped them and held them – and brought all things beautiful to lie beside them. And when the angel saw this, she smiled and blessed her beloved flowers and they became the Azores.

So goes a pretty story of the Azores’ creation by nineteenth-century Boston poet Susan Dabney, who grew up on the islands. Today’s Azores, except for the largest island of São Miguel, where development has brought highways and a state-of-the-art cruise port, remain much as they were in Susan Dabney’s time. In March and April, azaleas are in bloom everywhere and camellias flower. When July and August come, pink and blue and white hydrangeas edge the fields and the roads. In autumn, pineapple-shaped, sweet-scented, yellow and red conteira replace the hydrangeas as borders to fields and roads.

Lying between North America and Europe, just four hours by plane from Boston, these nine Portuguese islands – São Miguel, Santa Maria, Terceira, Faial, Pico, São Jorge, Graciosa, Flores, and Corvo – are the westernmost point in Europe, about nine hundred miles off the coast of Portugal. Many of their inhabitants over the years have been fishermen, whalers, and seafarers, and beginning in the mid-nineteenth century, some began to venture out from their islands.

There were those who became crew on whale ships that put into the Azores, and those who served in the Portuguese army in its distant African possessions of Angola and Mozambique. Some left to avoid military service; others moved elsewhere in search of a more prosperous life. Some emigrants headed to the US, with large numbers going to California and New England. Many settled in New Bedford, where they could continue their fishing, or Fall River, where textile mills offered jobs. But they were islanders and country people, and island and country life appealed to them. And so it was that many – once there was money in their pockets – quit the mainland and found their way here to the Vineyard.

They came in large enough numbers so that, in the 1920s, Vineyard Avenue at the west end of Oak Bluffs was known as Little Portugal, and Wing Road at the foot of Circuit Avenue was referred to as Faial. Azorean-born fishermen and farmers and grocers lived in that neighborhood and raised chickens and pigs, potatoes and kale, marigolds and zinnias. The more entrepreneurial of them marketed the produce from their gardens and farms, or the fish they brought in from the sea. Some established their own stores in Oak Bluffs: Alley Brothers Public Market in Montgomery Square, the Boston Bakery on Dukes County Avenue, the Oak Bluffs Ice Company on Crystal Lake. Others went door to door, hawking their fish or produce from wagons. Family legend among the clans of John Alley (of West Tisbury) and Kerry Alley (of Oak Bluffs) has it that a fishmonger forebear calling, “alleybut, alleybut,” rather than “halibut, halibut,” gave the Alley family (formerly Madeiros or Medeiros) its present name.

In addition to settling in Oak Bluffs, Azoreans found their way to Vineyard Haven and Edgartown, West Tisbury, and Chilmark, though in lesser numbers. The descendants of these hard-working Azorean immigrants became town clerks and selectmen, police chiefs and fire chiefs, teachers and boat builders. One, Joseph A. Sylvia of Oak Bluffs, served as a state representative for thirty years – and now the state beach alongside Beach Road from Oak Bluffs to Edgartown is named after him.

The level of contact these immigrants or their early descendants had with the Azores varied, but many were disinclined to tell tales of their homeland – perhaps for economic reasons or because of escaping military service. But over time descendants have become increasingly proud of their Azorean heritage. Nowadays, with regular air service to the islands, many Vineyarders with a touch of the Azores in their blood want to know more about the land of their forebears and have traveled there in search of their roots.

Researching roots

An early, well-documented visit was made in 1972 by a group of Chappaquiddickers: the late Foster and Dodie Silva and the late Vineyard Gazette print shop foreman Walter Bettencourt. It was from pristine Graciosa – the gracious island – that their families had come. In a three-part series of Vineyard Gazette articles, Walter wrote enthusiastically of the black and white cows grazing on the chartreuse and golden fields of Graciosa, and of the fat red and white windmills that ground corn. He wrote of the fishing boats bobbing in the Praia harbor of the quiet island, and the warm welcome from relatives he had never before met.

On the island of São Jorge, the main village is Velas, a harbor town dating from the mid-1400s whose name means “sails” in Portuguese.

Six years later, there was another old-country pilgrimage when three Edgartown couples – Jean and Howard Andrews, Simone and Ed Prada, and Fran and Al Resendes – went to see the land of their ancestors and make a connection with relatives there. Jean Andrews’s maternal grandmother, a young widow with two children, had come to Taunton around 1900 from Faial and then moved on to Edgartown. Howard’s forebears were also from Faial, so they centered their visit on that island and the neighboring sister island of Pico (just a twenty-minute ferry ride away), home to Jean’s paternal grandparents and Ed’s forebears.

Entranced by the beauty of the Azores, the Andrews returned four times. “That first time,” Jean remembers, “all the older women wore black and you could still find lace makers. The last time we were there [in 1995], women were out of the house and in jobs. They were wearing backpacks instead of long black dresses, and you could buy ice cream. No more lace making. It was quite a change!”

For generations – until the 1980s – whaling was one of Pico’s major sources of income, and its history is told throughout the islands. Lajes, the former whaling port on Pico, hosts a whaling museum, while on the Faial waterfront, Pete’s Tavern showcases a fine collection of scrimshaw. Today whale-watching from tour boats is a major summer attraction on both of these islands.

In the museum one learns how during whaling days, a lookout was stationed atop the peak that gives Pico its name (at 7,313 feet, it is the highest point in Portugal). When a whale was sighted in deep water offshore, the lookout would wave a black blanket as a signal to the whalers below. If a whale was close to shore, a white blanket would be waved. Then seven whalers in a thirty-three-foot-long open boat would put out to sea to battle the leviathan.

Most of rocky, 168-square-mile Pico is barren and windswept, but wine grapes grow there, protected from the winds and sea salt by distinctive black stone walls. The walls are unique enough to have been proclaimed a World Heritage Site by the United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization (UNESCO).

Faial’s port capital of Horta has attracted pirates, privateers, whalers, naval flotillas, and yachtsmen for centuries. Today’s yachtsmen, who stop there to pick up their mail on trans-Atlantic cruises, have made it a practice to paint pictures on the seawall as a record of their visit, and it is said to be bad luck not to leave such a memento behind.

Above the Horta waterfront towers a shipping warehouse marked “Bensaude,” and it belongs to the family of Beatrice Bensaude Frantz of Vineyard Haven. Without the Bensaudes, the Azores might be quite a different place.

Bea Frantz’s entrepreneurial great-great-grandfather Jose Bensaude was born in Ponta Delgada, the capital of São Miguel, in 1835. He was among those who saw the need to create a proper port there. Today Ponta Delgada is a major transatlantic cruise port that welcomed more than forty ships last year alone. It was also Jose Bensaude who introduced profitable tobacco growing as well as cigarette and cigar manufacturing to São Miguel; he started a tea plantation there as well and transported the island’s oranges to England.

In the 1890s, the Bensaude and Company Shipping Line was started to transport goods and passengers on a regular basis between the Azores and Lisbon. Then, at the end of World War II, Bea’s father, Vasco Bensaude, founded SATA, the islands’ airline. He also began production of beet sugar and of alcohol made from the sugar. Today, his grandchildren – Bea’s nephews – still maintain the shipping business, and also own a hotel chain with properties on the Portuguese mainland as well as on the islands.

In the 1930s, Vasco purchased the spacious Terra Nostra Garden, which had been started in 1780 by Thomas Hickling, a Boston merchant who became an honorary consul to the islands. Vasco restored it and opened it to the public. In 1990, Bea’s nephew Joaquim Bensaude hired an English horticulturist from London’s Kew Gardens to identify the garden’s 2,500 trees, as well as to plant 3,000 more. The handsome nineteenth-century home there is now a Bensaude hotel for private parties, and the hardy can jump into the mud-brown thermal pool.

This Ponta Delgada estate was the childhood home of Bea Frantz of Vineyard Haven. (Courtesy Bea Frantz.)

Though her childhood winters were spent in Lisbon, Bea recalls happy Azorean summers. She and her sister would take long walks to the mountains. “There were fabulous views of the lakes of Sete Cidades, and on clear days, Santa Maria would be visible in the distance. Pop bred dogs, so there were always dogs to take walking,” Bea remembers. “He raised Irish wolfhounds for a while and then Cumber spaniels and he’s credited in many of the dog books with having saved the Portuguese water dog from extinction. It had fallen out of fashion after fishing from dinghies largely ended, because what it was popular for was the way it would jump out of a dinghy and catch a fish and bring it back in its mouth without a tooth mark on it. I think it was sometime in the 1930s when Pop went to the Algarve to get some to breed.

“We loved climbing the stone walls and riding our donkeys, and my brother had a horse that he rode. And every morning we’d go swimming, of course.”

Today the gatehouse to the Bensaude family’s Ponta Delgada home is a spring and fall getaway for the Frantzes. Bea has been a Vineyard resident since her 1965 marriage to David Frantz, whom she met when she was summering in Falmouth and David, a year-round Vineyard resident, was an engineer at the Woods Hole Oceanographic Institution.

Recent journeys

In 2010, John and Anna Alley of West Tisbury set off on an Azorean exploration that took them not only to São Miguel, the island from which John’s grandfather had come, but to Pico and Faial, as well as Terceira and São Jorge.

The first Azorean stop was Terceira, whose capital city of Angra do Heroismo – the oldest in the archipelago, dating to 1450 – was named a UNESCO World Heritage Site for its significance as a key port during centuries of maritime exploration. Following a 1980 New Year’s Day earthquake, much of the city’s original vernacular architecture was painstakingly rebuilt. Pastel and white façades of eighteenth-century houses line narrow streets. Wrought-iron balconies are everywhere. From May to September, bullfights are held – although the bull is never killed – and a highlight of the city is the turn-of-the-eighteenth-century Bettencourt Palace, now a public library. Renting a car, the Alleys drove on narrow dirt roads across the island’s hills to the wide beach at Praia da Vitória.

Crocodile-shaped São Jorge is renowned for its steep cliffs over the churning sea and the small, rocky platforms at their base. With twice as many cattle as people, and grass for the cows to enjoy at its higher elevations, the island has become renowned for its strong white cheese. There, during the Alleys’ visit, there was a “running of the bulls,” where a bull tied to a rope charged as villagers taunted him.

Many Vineyard-born visitors head to São Miguel, since it’s the largest island. Two years ago, William Correllus, his daughter and son-in-law, Patti and Raymond Leighton, and their daughter, Jennifer, went from Oak Bluffs to São Miguel for Jennifer’s wedding. For years, her grandfather had dreamed of seeing the Azores, and Jennifer had always thought she would like a destination wedding. And so, on December 30, 2010, she and David Clough of Manchester-by-the-Sea were married in the Church of St. Margherita in Ponta Delgada.

Jennifer’s grandfather turned out to be one of the successful returnees fortunate enough to locate a family house and centuries of family records. In the days after the wedding, he found his way to the little white and black stone village of Água Retorta at the eastern end of the island. There indeed was the house where his grandfather Joseph Furtado Correllus and his uncle Ernest, both of whom settled in Vineyard Haven, grew up. Village church records showed generations of Correllus births and deaths.

In February of this year, Amanda White of Edgartown flew to São Miguel with her father, Edgartown-born Ken White, and her mother, Ellen, in search of information about their past. With baptismal and marriage records of Ken’s maternal grandparents, Jose Lopes Benefeito and Marianna Melo, the Whites went to the Ponta Delgada Library and were directed from there to the village of Porto Formoso, on the northern side of São Miguel.

Knowing that both Ken’s paternal grandfather and great-grandfather had been fishermen, the Whites went down to the village port. “There, my father began talking with one of the fishermen and he recognized the Benefeito name when my father said his grandfather had been a Benefeito. Right away, the fisherman led us to the street where the family house had once stood,” Amanda says. From that house, the Whites were directed to a woman who, over glasses of local pineapple liqueur, excitedly told them she thought she and Ken were actually second cousins.

Like other recent Vineyard travelers – Patricia Costa, Keith Dodge, Earl and Glenn Peters, and Raymond Moreis Jr., all of Oak Bluffs – the Whites also visited São Miguel’s dramatic headlands, and its tea and pineapple plantations. At the blue and green lakes at Sete Cidades, they heard the legend of the blue-eyed princess who fell in love with a green-eyed shepherd: When their marriage was forbidden, the princess cried so hard that her tears formed a blue lake while the shepherd’s tears became a deep green one. At the hot mineral waters at Furnas, they experienced the Azorean equivalent of a Vineyard clambake – sausage, potatoes, cabbage, chicken, beef, and pork – which is cooked underground at the hot springs.

The Vineyarders who have made the journey to the mid-Atlantic Azorean islands of their forebears say going once is simply not enough. The sweeping fields, the rocky overlooks above the deep blue sea, the white and black stone cottages on headlands, the mosaic designs of whales and sailing ships that pave the city streets, the seventeenth- and eighteenth-century churches, the hospitable Azoreans – all of it – lure them to journey back.

http://www.mvmagazine.com/article.php?46589

 

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PARABÉNS CRISTÓVÃO DE AGUIAR

Os ilhéus são um<br />
bocado bazofeiros<br />
talvez por viverem<br />
rodeados de mar

Conversa
Os ilhéus são um
bocado bazofeiros
talvez por viverem
rodeados de mar
O escritor picopedrense conversa com Eduardo Brum sobre a sua obra, os Açores, Coimbra, a ilha do Pico, S. Miguel, o liceu de Ponta Delgada, as humilhações da infância e da adolescência…

A tua obra “Raiz Comovida” não gerou consenso quando foi inicialmente publicada…
Para além da surpresa de ter utilizado, como escrita literária, o léxico da Ilha, houve quem se entretivesse a discutir, teoricamente, se o livro caía no domínio do romance ou não. A chamada discussão sobre o sexo dos anjos… Havia dúvidas quanto à classificação clássica, que distingue entre romance, novela e conto. Gaspar Simões, o crítico mais semanal da imprensa portuguesa, escreveu que se tratava de um colar de pérolas ao qual faltava o fio! (Risos). Foi um grande elogio, sobretudo porque, além de vir de quem vinha, o crítico debruçava-se sobre outros dois escritores micaelenses, Dinis da Luz e Manuel Ferreira, e a apreciação sobre ambos não era muito favorável. A partir daí gerou-se a dúvida. E eu passei a fintar os críticos: romance ou o que lhe queiram chamar… novela em espiral… conto a que se acrescenta um ponto, etc.

Incomodavam-te as classificações?
As classificações não me incomodavam, porque já se não usam, foi chão que já deu muitas uvas. Já reparaste quão estúpido e difícil se torna distinguir entre conto e novela? Pelo número de páginas? Nunca soube nem curo de saber. No que me diz respeito, essa classificação ou destrinça que o crítico achava por bem fazer ocupava muito espaço antes de entrar no livro propriamente dito…

Quando olhas para trás, hoje, fazes um “balanço” da tua escrita?
Balanço em que sentido?

Que vês na tua escrita observando de longe?
Que vejo na minha escrita? Sou a pessoa menos indicada para discretear sobre este assunto. Normalmente, o escritor é o que sabe menos sobre a sua obra, por mais paradoxal que possa parecer… Mas, se insistes, vejo sobretudo narrativas e outras lérias sem classificação, além de uma poesia péssima, de que não me envergonho por ter sido, como qualquer outro dos meus livros, arrancada de mim… Só que o meu modo de expressão não era esse. Há quem diga que a minha prosa tem mais poesia que os versos. Falando há dias com o tradutor italiano de “Passageiro em Trânsito”, livro tão mal-amado e zurzido por uma luminária da crítica micaelense, dizia-me ele, modéstia à parte, que o livro parece-lhe que tem mais a ver com a poesia do que com a prosa…

És perfeccionista?
Não tenho pejo em afirmar que sou um grande perfeccionista ou narcisista, creio que tanto faz. Escrevo como quem pratica onanismo… Escrevo, emendo, corto, modifico, acrescento, até ficar com a cabeça num labirinto ou num “lavarinto”, como se diz na ilha… Então, quando manuscrevia, era o cabo dos trabalhos, porque não conseguia ver, no papel, emendas: tinha de reescrever tudo e, na reescrita, ia alterando, podando, uma verdadeira enxaqueca daquelas que se sofre durante o pós-guerra…

Corrigir é uma forma de bem escrever…
Pode não ser. Às vezes perde-se a frescura e o encanto das primeiras palavras que o escritor vai descobrindo… Só alguém alheio à criação poderá ver a diferença. O escritor, ao substituir, já está cansado daquelas palavras, podendo muito bem estar a substituí-las por outras com menos frescura… Miguel Torga, na ânsia de aperfeiçoar a sua escrita até ao osso, foi muitas vezes acusado disso. O meu mais recente livro, “Catarse”, foi terminado em Janeiro de 2011, mas em Março ainda estava a ser reescrito, o que não significa que seja uma obra-prima de escrita…

Que vês, então, olhando para trás?
Vejo-me viajante de uma narrativa interior, a viagem mais autêntica que o escritor pode empreender.

Mas há um discurso açoriano na tua escrita?
Com certeza. Um discurso micaelense, talvez seja mais correcto dizer. Açoriano é um adjectivo que não diz nada ou diz muito pouco, uma vez que temos nove realidades distintas no nosso Arquipélago. Não se fala açoriano! Fala-se micaelense, terceirense, etc.. Não se nasce numa ilha em vão. Há uma marca de origem. E é essa marca que vai entroncar na escrita portuguesa dos séculos XVI e XVII. Veja-se os termos “chamatão” e “pêloei”, discreto, no sentido de inteligente (provém do verbo discernir) entre muitíssimos outros, que já caíram em desuso na matriz, mas que ainda se utilizam nos locais mais afastados dos grandes centros, onde a língua se vai adulterando… Agora, com a rapidez dos meios de comunicação, houve uma espécie de nivelamento por baixo, o que leva muita gente a repetir as asneiras linguísticas que os locutores, os políticos e outros figurões vai debitando sem nenhum respeito pela língua, a nossa Pátria, como bem disse Fernando Pessoa.

A ilha de S. Miguel tem um discurso rico?…
O mais rico de todas as ilhas! Alentejano, transmontano… A nossa pronúncia é que nos trai. Comem-se as sílabas, e não raro não se entende. Mas o discurso escrito é rico no léxico e em certos achados linguísticos. Daí que a pronúncia não se pode nem deve confundir com o léxico, que é riquíssimo.

Há uma cultura açoriana bastante estendida no tempo que penetra muito na cultura portuguesa e que não é reconhecida como tal…
Açoriana, portuguesa… Não concordo com a distinção. Acho que a cultura portuguesa é que penetrou na nossa. É natural que tivesse havido muitas adaptações derivadas do meio, do clima, da actividade sísmica (veja-se o Espírito Santo, que se mantém vivo em todas as ilhas, enquanto na matriz de onde proveio há apenas resquícios), e foi essa actividade sísmica que fez perdurar, no tempo, o culto do Espírito Santo.

O estereótipo da cultura açoriana está muito associado a nomes como os de Antero de Quental, Vitorino Nemésio, Natália Correia…
Mas a cultura açoriana não se resume a esses nomes. Haverá, porventura, alguma coisa que lembre a Ilha na obra de Antero? Em Natália Correia, só muito no fim, porque, antes, quando ela deslumbrava toda a Lisboa do seu tempo, não queria, não gostava que lhe lembrassem a sua origem ilhoa. Respondia que tinha daqui saído muito novinha (cinco anos) e não se considerava filha cultural da Ilha onde nasceu… Mais tarde, era chique ser das ilhas, escrever livros ou poemas com fundo ilhéu, mesmo que fosse a martelo, isto é, de fora para dentro. A ilha não fazia parte do sangue. Nemésio, Roberto Mesquita, esses sim. Espelham o viver rodeado de mar por todos os lados… Aqui há uns anos, houve um concurso literário da Secretaria Regional da Cultura, a que podiam concorrer residentes, não residentes, mas cá nascidos, e todos os que falavam a Língua Portuguesa que nunca cá viveram (ridículo!). E mais ridículo ainda era o facto de para os residentes e os açorianos que viviam noutras partes o tema ser livre (jogos florais). Para os não naturais, o fundo das obras tinha de reflectir a ambiência das ilhas (magnífico!) Ganhou, nesse ano, uma escritora coimbrã, com um romance de setenta páginas, sendo o prémio de oitocentos mil escudos, mais de mil por página. Li o livro, tenho-o aqui à minha frente: uma “novelada” (intitula-se novelos), escrito a partir de folhetos turísticos para que houvesse cheirinho a hortênsia, a bosta de vaca, a “bedume” de polpa e a pasto… E o júri composto por altas pensâncias de Lisboa caiu na esparrela como canarinho…

A tua escrita veio “desenterrar” o discurso da cultura açoriana mais profunda…
Não desenterrei coisíssima nenhuma, não fiz investigação linguística e, se o fizesse, a naturalidade da escrita ia-se… Tratava-se de uma questão estética. Eu falava assim, ouvia falar do mesmo modo, e queria transformar o nosso léxico em linguagem literária… Se o consegui, ou não, não me compete dizer.

Se não desenterraste, acabaste por explorar, potenciar…
Como me interesso muito pela Língua Portuguesa, procurava saber por que é que se diz isto, por que é que se diz aquilo… e verifiquei que boa parte do que dizemos em S. Miguel é português arcaico.

A tua escrita tornou-se uma espécie de “ponte” entre vários tempos da cultura portuguesa…
“Raiz Comovida” era incompreensível para Gaspar Simões, mas em regiões como Bragança, Trás-os-Montes em geral, Beira Alta, há pessoas que o entendem e utilizam muitos desses termos incompreensíveis para os salões lisboetas, onde se pronuncia “insêto”, e outras estupidezes… Repara no termo “pitafe”, que se usa também no Alentejo (a nossa matriz linguística) e se aplica a qualquer coisa que tem defeito – esta sopa tem “pitafe”… Provém do termo “epitáfio”. Os açorianos levaram a Língua Portuguesa para o Brasil (a primeira leva de emigrantes que saiu das nossas ilhas para o Brasil data de 1677). No Brasil, fala-se um Português por vezes muito mais correcto do que o que lhe deu origem, sobretudo nos particípios passados dos verbos e na abertura das vogais. Camões recitado por um declamador brasileiro é mais musical, até a métrica fica mais marcada… Não admira. Ficou ilhado, sem receber influências, tal como as nossas ilhas, Trás-os-Montes, Alentejo… Se, por exemplo, quisermos ouvir falar como se falava há cinquenta anos no Pico da Pedra e em Rabo de Peixe só temos de nos deslocar a Fall River, nos EUA. As pessoas não se integraram na cultura norte-americana, formaram um grupo à parte, e congelaram a língua que da ilha trouxeram. Agora o cenário está a mudar por causa da RTP Internacional. Todavia, não advogo que todos falem da mesma maneira. O que dá profundidade cultural a um país é a diversidade.

Há todo um peso cultural que transita para a tua escrita…
Nunca tive pejo de assumir a minha origem de ilhéu micaelense, ao contrário de alguns outros escritores que, só depois da “fundação” da chamada literatura açoriana, principiaram a ter orgulho na sua origem, porque só assim poderiam ficar no retrato de uma novel literatura.

De certa maneira, pareces ser a literatura em forma de pessoa… Ou se a literatura tivesse uma forma humana poderia ser a tua forma…
Não exageremos. Sou um escritor, mais nada. Há um mecanismo de criação que desconhecemos ou que desconheço. Quando estou a escrever, vêm-me à cabeça coisas que em estado de vigília não surgiriam.

É o discurso do inconsciente… discurso do irracional.
É preciso que haja um pretexto para que o inconsciente se manifeste ou exploda.

Qual o teu pretexto?
A guerra, a infância, a adolescência, a ilha, a freguesia onde fui parido, as pessoas que me marcaram, negativa e positivamente, o liceu que, durante nove anos, me marcou e me deixou algumas alegrias e muitas tristezas e amarguras…

O liceu daquele tempo foi uma humilhação?
No liceu, tive duas fases: a da humilhação e a da glória, embora esta última fosse falsa. Se não tivesse ido estudar para Coimbra e tivesse acreditado no que me diziam alguns dos meus mestres de Português, teria ficado convencido de que era um sábio. Ficar na ilha é por vezes uma maneira de julgarmos que somos os maiores do planeta e arredores… Na minha freguesia, fui mesmo humilhado em certas fases da minha vida. Por exemplo, quando chumbei dois anos seguidos no antigo terceiro ano do Liceu. Tuteavam-me quando passava no caminho, mas, quando me tornei bom aluno, nunca ninguém teve o alvedrio de me dar uma palavra de estímulo… Santa freguesia!

E Coimbra?
Em Coimbra, aprendi muito dentro e mais ainda fora da Universidade… Aprendi também a humildade, que era uma atitude que não tinha. Não admira. Era ilhéu, e os ilhéus, como se sabe, sabem tudo… Quando lá cheguei, na companhia de Viriato Madeira, dissemos um ao outro: “Mas nós não sabemos nada! Esta gente fala de outra maneira”. E não era uma questão de sotaque. Vi jovens que avançavam para uma Assembleia Magna e que abordavam os assuntos de forma desassombrada e assombrosa, num discurso que se podia escrever… Manuel Alegre era um deles! O choque foi tal que, a certa altura, quis mesmo vir embora e escrevi uma carta à família com esse intuito. Se fosse hoje, tinham-me respondido: “Vem, querido filho, que aqui estás no teu cantinho, sossegado, fora dessas babilónias de pecado…”

É como se viver na ilha limitasse a capacidade de reflexão ou de expressão?
Não é só isso. É que todos os ilhéus são um bocado bazofeiros, talvez por viverem rodeados de mar. Julgam que o centro do mundo se instalou ou passa pelo seu umbigo… Resolvem tudo… sabem tudo. Até há quem diga: “Se eu fosse primeiro-ministro, punha este país de pé num zape…”, ao que apetece responder: “Muito bem falas, Manel, mas como irás pôr o país em pé, se nem sabes governar a tua casa?”

Há muita falta de humildade…
Com certeza. E o medo de ser frontal. Quem porventura o é pode sofrer alguns amargos de boca… Ser crítico é ser má-língua, ter um feitio insuportável, intransigente, casmurro, explosivo, e tudo de mau que existe debaixo da rota do Sol… Tal como eu, como dizem Onésimo, Daniel de Sá, e outros ilustres intelectuais da nossa praça, o Campo de São Francisco… Custa-me a entender que alguns intelectuais vão ao ponto de criticar quem tem coragem de assumir certas posições diferentes do politicamente correcto. Só conseguem falar por trás, é mais seguro, dá milhões, é-se bem-visto pelas autoridades culturais, dá viagens e outras benesses…

Não será que as pessoas estão “formatadas” para funcionarem segundo determinadas regras, já que nos meios pequenos a noção do outro é muito mais forte do que nos meios maiores? Nas ilhas, há uma noção de vizinhança muito acentuada. Vai-se ao café e o empregado diz-nos: “Que vai ser, vizinho?…”
A vizindade sempre foi muito importante. Ser vizinho é, por vezes, pertencer à mesma família, mas se há malquerenças, é o diabo entre as couves. Já diz o povo: “Antes ter um mau ano que um mau vizinho”.

A proximidade do outro tem muita influência no dia-a-dia…
É verdade. Mas, por vezes, caímos nos estereótipos. Por vezes perguntam-nos: “Como está, como tem passado? Muito bem, obrigado”. Mas se a pergunta for – “estás bem?” – e a resposta – “Não, estou muito mal”, a reacção que obtenho é: “Isso não é nada, isso passa…”, e a pessoa que indagou dá meia volta e vai-se embora. Bebe uns copos, vais ver que ficas rijo! A resposta esperada, sacramental, seria: “Estou muito bem, obrigado!” Ora, isto não é nada, isto não é convivência.

Tu não és assim?
Não sou e por isso apanho cada dissabor…

Essa tua fuga à regra cola-te a uma imagem de conflito e de polémica…
E dizem que perco mais do que ganho com estas coisas. Ganhar o quê? O apreço de medíocres? Tenho escrito em jornais sobre assuntos com os quais discordo. Na ilha do Pico houve pessoas que deixaram de falar comigo por essa razão, algumas delas por medo. É que naquela ilha ainda se fala da justiça da noite…

Como surge o Pico na tua vida?
Eu conhecia o Pico muito mal (fui lá pela primeira vez, durante uma simples manhã, na viagem de finalistas do 7º ano do liceu). Em 1996, juntei, em Coimbra, um grupo de 29 pessoas e combinámos ir ao Pico por 15 dias: sete dias no Pico, dois na Terceira e os restantes em São Miguel. Principiámos pelo grupo central porque tinha a minha fisgada: quando chegássemos a São Miguel seria a apoteose! Quando lá chegámos, fomos percorrer a Ilha e ver os locais mais consabidos… Todos gostavam muito, mas logo a seguir comentavam: “É muito bonito… mas o Pico…”. Um dizia-o, o outro repetia-o e eu próprio dei por mim também a dizer: “É muito belo, mas o Pico…”. Há qualquer coisa naquela ilha que nos atrai…

É verdade.
Até pode ser magnético. Numa noite limpa, as estrelas brilham mais sobre o pico do Pico. Decidi fazer lá uma casa. Ali, eu sentia o arquipélago. É que a ilha em frente, segundo Raul Brandão, é muito importante. Dá-nos a sensação de que há mais mundo, de que não estamos desacompanhados…

É uma sensação completamente diferente de viver em S. Miguel…
É verdade. Para mim, a ilha em frente era a Serra de Água de Pau… Santa Maria só muito raramente se mostrava como uma sombra no horizonte, e quando assim acontecia, tínhamos chuva pela certa. Mas tive sorte. Quando entrei para o liceu, em 1951, as camionetas da Ribeira Grande eram bastante irregulares e avariavam em quase todas as viagens. E então ficou decidido que eu ficaria alojado numa pensão, em Ponta Delgada. Nessa pensão, tive o privilégio de encontrar jovens estudantes de todas as ilhas, mais velhos do que eu, e passei a dar-me conta da geografia, pronúncias e maneiras de pensar diferentes. Só conhecias as ilhas pelo mapa…

Não te esqueças de que estávamos a falar da tua decisão de fazer uma casa no Pico…
Ah, pois. Arranjei um terreno, em S. Miguel Arcanjo, de onde se via a ilha de S. Jorge de ponta a ponta! Era um pasto. Perguntei ao vizinho se a propriedade estava para venda. “Não sei”, respondeu ele. “Isso é de um senhor que está no Canadá. Mas, se quiser saber, pode falar com a cunhada, que mora aqui mais acima. É procuradora e contacta com ele todas as semanas”. E assim fiz. Dias depois, soube que o proprietário estava na disposição de vender o terreno. Aceitei o preço, não regateei, e fechei negócio. Disseram-me que era muito caro, mas eu não quis saber. Comecei logo a fazer a casa. À moda antiga do Pico, de acordo com as leis anti-sísmicas

Miguel Torga é importante na tua vida…
É, com certeza. Tem uma escrita telúrica, na qual arranca às pedras de Trás-os-Montes aquela concisão, aquela secura… aquele não desperdício de palavras.

Em tempos, li bastante da sua obra, mas hoje não o voltaria a fazer…
Uma pessoa também não pode estar sempre agarrada ao mesmo escritor… O que é preciso é saber se a nova geração o lê ou não.

Eu deixei de ler o Torga, mas não deixei de ler o Eça…
Torga reflecte na sua escrita um Portugal que, em parte, já não há, mas a mentalidade do povo continua: os seus vícios, defeitos, manhas, esperteza saloia, comuns a todos os povos. Por isso, a sua obra continua válida (pelo menos para mim) e universal.

Torga não deu o salto para a contemporaneidade…
Não sei muito bem o que é a modernidade. Badala-se tanto sobre ela, que acabo confundido. Será a modernidade sinónimo de tecnologia avançada, comunicações instantâneas? E o homem, como se encontra nos seus instintos? Teria evoluído a par de toda essa parafernália tecnológica? Ou terá ficado, no íntimo, igual ao seu antepassado das cavernas? Mata-se hoje em dia com a mesma crueldade com que se fazia há milhares de anos. Talvez haja mais requinte derivado da modernidade e das suas consequências. É evidente que a escrita e a arte em geral devem acompanhar esse desenvolvimento. Mas, se reflectem o Homem na sua humanidade, os temas são sempre os mesmos: a morte, o amor, o ódio, e tudo o resto que o ser humano carrega dentro de si desde que apareceu à face da Terra…

Hoje, prefiro ler um livro teu do que um livro do Torga. Tens uma capacidade de abertura que ele não tem.
Não sei aonde pôr as palavras com essa tua afirmação! Torga é Torga e eu, à sua ilharga, sou um pigmeu. Convivi com o Torga durante um ano e tal. Todos os dias ia buscá-lo ao consultório para irmos dar uma volta por Coimbra ou arredores. “Ó Cristóvão, podemos ir ali a cima?” Eu percebia o que ele queria. “Vamos ali àquele miradouro…”. Lá íamos. Tinha com certeza um poema a pedir para nascer… Vivia única e exclusivamente para a literatura. Transformava tudo em literatura. Disse à mulher em vésperas do casamento: “Vou procurar ser um bom marido, mas digo-te com toda a franqueza – em qualquer circunstância, troco-te por um verso!” Disse-o e escreveu-o. Esta era a sua têmpera. Quis ser escritor por vontade e fazia da escrita um sacerdócio laico. Um dia, contei-lhe certos passos da minha vida. Ouviu-me com muita atenção. Quando terminei, disse-me: “Por que não escreve tudo o que me contou? Talvez desse uma espécie de “Criação do Mundo…” Salvo as devidas proporções, digo agora eu.

Durante vários anos, Torga chegou a ser candidato ao Nobel…
Estou muito contente por termos um Nobel da Literatura português, mas penso, sinceramente, que o prémio tinha ficado muito mais bem entregue a Miguel Torga do que a Saramago. A sua escrita tem muito lugar-comum…

Saramago é um lugar-comum…
Pois…

Terminemos, voltando à terra onde nasceste: que representam os Açores, hoje, para ti?
Os Açores, para mim, hoje… são uma memória afectiva. Sou um misto de Açores e de Coimbra, embora eu não queira nem consiga distinguir entre ambos. Quando uma pessoa sai da sua terra desenraíza-se…

Deixa de ter pátria…
Passa a ter raízes aéreas. Perde o chão. E nunca está bem em parte nenhuma. Agora, estou mais calmo, mas no tempo de estudante, quando estava de férias em São Miguel, cheguei a voltar mais cedo para Coimbra. Todavia, uma vez lá chegado, arrependia-me! Havia uma dualidade, um conflito interior. Mas houve uma coisa interessante que aconteceu comigo: vim a São Miguel em 1994 e não fui ao Pico da Pedra. Nessa altura, senti-me muito melhor na ilha.

O Pico da Pedra era uma opressão…
Exactamente. A causa do meu mal-estar era o Pico da Pedra da minha infância e da minha adolescência. Comparando com a actualidade, eu diria que o Pico da Pedra tinha os seus talibãs! Ir estudar para Coimbra foi a oportunidade que tive para me desligar de tudo isso.

CRISTÓVÃO DE AGUIAR
Escritor
Natural de S. Miguel, residente em Coimbra e Pico
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