AO1990 EM TIMOR

 

Acordo Ortográfico avança em Timor-Leste
http://port.pravda.ru/cplp/timorleste/28-02-2014/36329-acordo_ortografico-0/

 

Acordo Ortográfico avança em Timor-Leste
port.pravda.ru
http://port.pravda.ru/cplp/timorleste/28-02-2014/36329-acordo_ortografico-0/
Missão do IILP apoia o desenvolvimento do Vocabulário Ortográfico Comum da Língua Portuguesa (VOC) e do Portal do Professor de Português (PPPLE).
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A incrível história de uma açoriana

 

A incrível história de uma açoriana
Cultura
A incrível história de uma açoriana
RAQUEL DOMÍNGUEZ DE MINETTI

Josepha Mariana da Luz é uma mulher açoriana, uma “isleña”. Ao evocar sua figura, acompanharei o roteiro dela: dos Açores a Minas Gerais, de Minas Gerais à Vila do Rio Grande e do Rio Grande a San Carlos, Maldonado, hoje Uruguai.

Segundo sua certidão de batismo, sabemos que Josepha Mariana da Luz nasceu o 29 de outubro de 1723 na Ilha Terceira, nos Açores.

Viera dos Açores acompanhada de seus pais, sabemos isto porque da certidão de batismo de seu filho Matheo, surge que seus pais encontravam-se aí. Não sabemos se já veio casada das Ilhas.

Desde 1741, Josepha Mariana com seu marido – Manoel Correia Simões – batizam vários filhos em Minas Gerais: Congonhas do Campo e Mariana.

Eu estive aí porque quería percorrer o caminho dela, ver as paisagens que seus olhos viram. A impressão que eu tive é que a história ficou parada no tempo.

Ao redor de 1750, época do maior florescimento das minas de ouro e diamantes em Minas Gerais, com o marido e filhos pequenos, atravessou quase quinhentos quilômetros a lombo de mula, porque era o único meio de transporte, por florestas com animais selvagens, pântanos, arroios, rios, até chegar ao porto de Paraty, ou do Rio de Janeiro, que eram os únicos portos de saída para o mar.

Acho que chegou por mar à Vila do Rio Grande.

O que fêz que esta mulher, com marido e filhos, saísse de Minas Gerais? As condições para eles em Minas Gerais não eram as melhores? Tinham conhecimento de que o Rei de Portugal Dom João V, autorizara “casais” açorianos para ir povoar o Brazil, e que receberiam terras?

O fato é que achamos Josepha Mariana da Luz desde 1752 batizando seis filhos na Vila do Rio Grande.

De 1752 a 1763, nove anos na Vila do Rio Grande, seus olhos puderam olhar livremente desde o Atlântico ao Pampa Gaúcho!

Já assentada no lugar, levando uma vida normal e corriqueira, a fins de 1762 ou princípio de 1763, na época que nasce seu filho Pedro, morre seu marido.

Chega o ano 1763, abril, ao longe ouve-se o ressoar dos cascos dos cavalos, o tinir dos sabres. É a poderosa tropa do General espanhol Dom Pedro de Cevallos. A guarnição portuguesa retira-se.

A população foge apavorada até a costa. Uns conseguem, em pequenas embarcações, cruzar a Barra da Lagoa dos Patos e chegar até o que é hoje São José do Norte.

Embrenham-se no Estreito, entre eles vai Josepha Mariana da Luz, a terceira filha de nossa Josepha, casada há um ano com Manoel da Silva Machado. Esta gente chega aos casarios do Estreito, Mostardas, Viamão… Neste último lugar o Pároco introduz nas certidões de batismos como: “são casais que vieram fugidos do Rio Grande ao inmigo”, “nasceu em perigo no mar com o susto dos inimigos que entraram no Rio Grande”, (5 de junho de 1763, Lo 2 Batismos Viamão, Fo 25v).

O General Cevallos decide levar as famílias açorianas que ficaram na Vila ou arredores, para Maldonado e funda com eles San Carlos. Estos açorianos foram chamados “isleños”. Com essas famílias vai a nossa Josepha Mariana da Luz, já viúva, com dez filhos. O mais novo, Pedro, tinha seis meses. Agora em carreta desloca-se outra vez. Cruza matos, banhados, serras, coxilhas, no meio do inverno.

Assim achamos Josepha entre as famílias fundadoras de San Carlos.

Em 1763 Josepha requereu terras à Coroa espanhola e lhe foram outorgadas. Por parte destas litigou com sua consogra, também chamada Josepha, açoriana e uma lutadora como ela.

Josepha Mariana da Luz viveu na sua vida acontecimentos trágicos: no Rio Grande morre o marido num acidente, como já disse. Em 1772 em San Carlos morre a mãe caindo dum carro puxado por cavalos. Em 1803 o filho Manoel é assassinado e abrasado pelo fogo, com sua mulher e o filho de dezesseis anos.

Mais nem tudo é tragédia. Lembram da filha de Josepha Mariana da Luz que fugiu com o marido quando aconteceu a “corrida espanhola”? Em 1764 ela batiza a filha Escolástica no Estreito. Escolástica casa em 1781 em Mostardas e teve uma filha chamada Joaquina. Encontramos a Escolástica casando por segunda vez na Vila de San Carlos, Maldonado, em 1787. Nesta certidão de matrimônio diz que ela é vizinha de San Carlos. Joaquina casou em 1799 em San Carlos com Felipe Silveira. Vemos assim que a filha Josepha, a neta Escolástica e a bisneta Joaquina com o tempo voltaram a San Carlos.

As gerações tornam a encontrar-se após 20 anos! Desconheço se houve qualquer comunicação entre elas nesse tempo. Acho que sim porque o filho Manuel ía com os carros para levar trigo para o Rio Grande em poder dos castelhanos.

Após lutar para vencer obstáculos físicos e espirituais, Josepha Mariana da Luz morre em San Carlos em 1813. Sua filha Josepha Mariana morre dois anos depois.

Esta é a singela história de uma mulher nascida em uma ilha açoriana que viveu entre dois mundos, é também a história de tantas famílias levadas para América.

(Título original: Uma Ilhoa açoriana de 1700; foto de uruguai.org)

RAQUEL DOMÍNGUEZ DE MINETTI
Notária
Natural de Montevidéu, onde reside, descendente de açorianos fundadores de San Carlos, Uruguai, em 1763.
“opinião”

 

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Catarina de Bragança

É sempre bom conhecer a historia.

A cerimónia do casamento realizou-se em Maio de 1662.
Assim, começou a parte infeliz da vida de Catarina de Bragança, uma princesa nascida e criada no seio de uma família com cultura, educação e hábitos tradicionais portugueses que, por sua infelicidade, foi desterrada para uma corte que, contrariamente ao que alguns escritores e cineastas de pacotilha nos querem fazer crer, era rude e atrasada em relação à restante Europa.
Catarina, teve um papel importantíssimo na modernização da Inglaterra e na alteração da filosofia de vida dos ingleses pelo que, embora não suficientemente, ainda hoje é admirada e homenageada.
Provocou uma autêntica revolução na corte de Inglaterra, apesar de ter sido sempre hostilizada por ser diferente mas nunca desistiu da sua maneira de ser, nem consentiu que as damas portuguesas do seu séquito o fizessem.
Tinha uma personalidade tão forte que conseguiu que aqueles (principalmente aquelas) que a criticavam, em breve, passassem a imitá-la.
E assim, se derem grandes alterações na corte inglesa:
O CONHECIMENTO DA LARANJA
Catarina adorava laranjas e nunca deixou de as comer graças aos cestos delas que a mãe lhe enviava.
O costume do “CHÁ DAS 5”
Costume que levou de casa e que continuou a seguir organizando reuniões com amigas e inimigas. Este hábito generalizou-se de tal maneira que, ainda hoje, há quem pense que o costume de tomar chá a meio da tarde é de origem britânica.
A COMPOTA DE LARANJA  
Que os ingleses chamam de “marmelade”, usando, erradamente, o termo português marmelada, porque a marmelada portuguesa já tinha sido introduzida na Inglaterra em 1495.
Catarina guardava a compota de laranjas normais para si e suas amigas e a de laranjas amargas para as inimigas, principalmente, para as amantes do rei.
INFLUENCIOU O MODO DE VESTIR  
Introduziu a saia curta.
Naquele tempo, saia curta era acima do tornozelo e Catarina escandalizou a corte inglesa por mostrar os pés, o que era considerado de mau-gosto e que não admira devido aos pés enormes das inglesas.
Como ela tinha pés pequeninos, isso arranjou-lhe mais inimigas.
Introduziu o hábito de vestir roupa masculina para montar.
O USO DO GARFO PARA COMER
Na Inglaterra, mesmo na corte, comiam com as mãos, embora o garfo já fosse conhecido, mas só para trinchar ou servir.
Catarina estava habituada a usá-lo para comer e, em breve, todos faziam o mesmo.
INTRODUÇÃO da PORCELANA
Estranhou comerem em pratos de ouro ou de prata e perguntou porque não comiam em pratos de porcelana como se fazia, já há muitos anos, em Portugal.
A partir de aí, o uso de louça de porcelana generalizou-se.
MÚSICA
Do séquito que levou de Portugal fazia parte uma orquestra de músicos portugueses e foi por sua mão que se ouviu a primeira ópera em Inglaterra.
MOBILIÁRIO
Catarina também levou consigo alguns móveis, entre os quais preciosos contadores indo-portugueses que nunca tinham sido vistos em Inglaterra.
O NASCIMENTO SO “IMPERIO BRITANICO”
Como já se disse, o dote de Catarina foi grandioso pela quantia em dinheiro mas, muito mais importante para o futuro, por incluir a cidade de Tânger, no Norte de África e a ilha de Bombaim, na Índia.
Traindo os Tratados que tinham assumido e com a desculpa de que o rei de Portugal era espanhol, os ingleses conseguiram, apesar do controle da Marinha Portuguesa, navegar até à Índia onde criaram um entreposto em Guzarate.
Em 1670, depois de receber Bombaim dos portugueses, o rei Carlos II autorizou a Companhia das Índias Orientais a adquirir territórios.
Nasceu, assim, o Império Britãnico !Hoje, há pouca gente que saiba a importância que a raínha Catarina teve para os ingleses e o carinho que eles tiveram por ela.
A sua popularidade estendeu-se até à América, onde um dos cinco bairros de Nova Iorque (Queens) foi baptizado em sua homenagem.
Em 1998, a associação “Friends of Queen Catherina” fez uma colecta de fundos para lhe erguer uma estátua; não o conseguiu, devido à oposição de alguns movimentos cívicos que acusaram Catarina de ser uma das promotoras da escravidão.
Mais uma vez, a ignorância venceu ! …

 

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DICIONÁRIO FONÉTICO

Dicionário Fonético

http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=fonetica&&region=lbx&page=main

Este recurso, ainda em versão de teste, apresenta a transcrição fonética indicativa para cerca de 70 000 palavras do VOP – Vocabulário Ortográfico do Português em diferentes variedades. Resulta do projeto LUPo – Léxico Unisyn do Português, no âmbito do qual foram desenvolvidas tecnologias que permitiram a geração automática da transcrição fonética de diferentes variedades do português, faladas em África, na Ásia, na Europa e na América do Sul. Essas transcrições foram depois revistas e são aqui disponibilizadas, com o objetivo de criar o primeiro recurso digital do tipo para os falantes e estudantes de português, apoiar a pesquisa sobre a língua portuguesa e contribuir para a redução do fosso digital que ainda existe entre os membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP).

Na caixa à direita pode pesquisar por uma palavra que queira ver transcrita e encontrar ligações para: (i) Apresentação, onde é feita uma síntese para o público em geral sobre como o projeto foi desenvolvido; (ii) Lista Alfabética, onde estão as palavras transcritas foneticamente na variedade que selecionada; (iii) Pesquisa Avançada, que permite fazer pesquisas por palavra ou pela forma fonética; (iv) Mudar de variedade, onde o utilizador pode, de um conjunto de dialetos, selecionar aquele que mais lhe interessa, (v) RADbank, uma base de dados de gravações disponível em linha, gratuita e pesquisável, que permite aceder aos ficheiros áudio, a tabelas com informação sobre os informantes e aos dados de transcrição fonética; (vi) a Apresentação Detalhada, onde é explicado com maior detalhe o LUPo; e, por fim, (vii) a Ficha técnica onde estão referidos todos os envolvidos neste projeto.

 

Se usar os dados deste trabalho ou quiser referi-lo, por favor cite: Ashby, S. et al. (2012). A Rule Based Pronunciation Generator and Regional Accent Databank for Portuguese. Proceedings of Interspeech 2012.

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ILHA DAS FLORES iNDONÉSIA

http://noticias.sapo.tl/portugues/lusa/artigo/17292544.html
Descendentes do rei de Sica, nas Flores, Indonésia, querem museu para tesouro português. Os descendentes do rei de Sica, na região oriental da ilha indonésia das Flores, querem construir um museu para colocar o tesouro oferecido pelos portugueses em 1607 e vão pedir apoio a Portugal. http://observatorio-lp.sapo.pt/pt/noticias/descendentes-do-rei-de-sica-nas-flores-indonesia-querem-museu-para-tesouro-portugues

Descendentes do rei de Sica, nas Flores, Indonésia, querem museu para tesouro português.

Os descendentes do rei de Sica, na região oriental da ilha indonésia das Flores, querem construir um museu para colocar o tesouro oferecido pelos portugueses em 1607 e vão pedir apoio a Portugal.

 

  • Francisco Nuno Ramos O livro sobre a tradição da vila, onde existem dados sobre a história dos portugueses nas Flores e fotografias de caravelas e do folclore luso, e ainda sobre o Toja Bobu, na ilha das Flores, Indonésia, 30 de dezembro de 2013. A Toja Bobu, que para além de dança, inclui canções, com recurso a flautas e tambores, é uma representação teatral inspirada nos autos medievais portugueses que no Natal percorre a aldeia de Sica, numa espécie de Carnaval, desde a casa abandonada do rei até à casa do padre. ANDREIA NOGUEIRA / LUSA

    Sica, Ilha das Flores, Indonésia, 25 de janeiro de 2015. ANDREIA NOGUEIRA/LUSA

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MIMIA DIAS DE MELO RECORDA EMANUEL FÉLIX

Recordando Emanuel Félix

14 February 2014 at 11:21

Excerto de um texto publicado na Revista Atlântida 50 anos. Vol. I 2005 dedicado a Emanuel Félix ao homem e ao  amigo, de José Dias de Melo.

 

 

“ Mas falemos de ti. Ou de nós. Depois daquele encontro, logo se cimentou entre ambos uma amizade que, em breve abarcanco toda a tua família, a tua Mulher, a Filomena, o teu filho de nome igual ao teu, a tua nora ( que me desculpe de momento-estes bloqueios…-não há maneira de ocorrer o nome dele), se prolongará para além do que te acaba de acontecer (…) Mas tu, como todos os que deixam uma Obra, continuarás vivo naquela que criaste. /Vivo, embora invisível.

(…) E que deliciosos os passeios que dávamos, de camioneta para fora da cidade, praticamente sempre para a Praia da Vitória- lá tínhamos o Francisco, o bondoso Francisco, à nossa espera, de uma vez para visitarmos a monumental Igreja Matriz e coisas que lembravam Nemésio, entre elas a Casa das Tias, ou recuando no tempo, memórias de Garrett, da sua passagem pela vila enquanto viveu na Ilha (…). No regresso, para entrares, nunca deixavas de o fazer, na casa da tua Mãe com apreciável e justificadíssima demora, era a tua Mãe (…)./(…)

E Emanuel, o nosso deambular, altas horas da noite pelas ruas desertas de Angra.

Recordas-te daquela noite, já a entrar pela madrugada, em que fomos parar ao Alto, bem ao Alto da Rocha? Uma noite esplêndida. Tão calma que nem a folha de uma árvore, caso ali houvesse alguma chegaria a bulir por mais levemente que fosse. O céu recoberto de estrelas (…) / E silêncio …silêncio…Um silêncio que nenhum de nós ousava interromper. Até que na linha do horizonte, sueste, um clarão-vermelho (…)…e dele começa a nascer a Lua, (…).

E um de nós-qual? – diz, baixinho:

Quem ainda é capaz de sentir, de se emocionar com tanta beleza vai longe na velhice, do fim…”

 

 

A amizade perdura. <3 <3

A amizade perdura. <3 <3
EMANUEL FÉLIX (24/10/1936-14/02/2004)
Poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico.FIVE O’CLOCK TEAR

Coisa tão triste aqui esta mulher
com seus dedos parados no deserto dos joelhos
com seus olhos voando devagar sobre a mesa
para pousar no talher

Coisa mais triste o seu vaivém macio
p’ra não amachucar uma invisível flora
que cresce na penumbra
dos velhos corredores desta casa onde mora

Que triste o seu entrar de novo nesta sala
que triste a sua chávena
e o gesto de pegá-la

E que triste e que triste a cadeira amarela
de onde se ergue um sossego um sossego infinito
que é apenas de vê-la
e por isso esquisito

E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado
o álbum a mesinha as manchas dos retratos

E que infinitamente triste triste
o selo do silêncio do silêncio
colado ao papel das paredes
da sala digo cela
em que comigo a vedes

Mas que infinitamente ainda mais triste triste
a chávena pousada
e o olhar confortando uma flor já esquecida
do sol
do ar
lá de fora
(da vida)
numa jarra parada

Emanuel Félix

Photo: EMANUEL FÉLIX (24/10/1936-14/02/2004)<br />
Poeta, professor, ensaísta e técnico de restauro artístico.</p>
<p>FIVE O’CLOCK TEAR</p>
<p>Coisa tão triste aqui esta mulher<br />
com seus dedos parados no deserto dos joelhos<br />
com seus olhos voando devagar sobre a mesa<br />
para pousar no talher</p>
<p>Coisa mais triste o seu vaivém macio<br />
p’ra não amachucar uma invisível flora<br />
que cresce na penumbra<br />
dos velhos corredores desta casa onde mora</p>
<p>Que triste o seu entrar de novo nesta sala<br />
que triste a sua chávena<br />
e o gesto de pegá-la</p>
<p>E que triste e que triste a cadeira amarela<br />
de onde se ergue um sossego um sossego infinito<br />
que é apenas de vê-la<br />
e por isso esquisito</p>
<p>E que tristes de súbito os seus pés nos sapatos<br />
seus seios seus cabelos o seu corpo inclinado<br />
o álbum a mesinha as manchas dos retratos</p>
<p>E que infinitamente triste triste<br />
o selo do silêncio do silêncio<br />
colado ao papel das paredes<br />
da sala digo cela<br />
em que comigo a vedes</p>
<p>Mas que infinitamente ainda mais triste triste<br />
a chávena pousada<br />
e o olhar confortando uma flor já esquecida<br />
do sol<br />
do ar<br />
lá de fora<br />
(da vida)<br />
numa jarra parada</p>
<p>Emanuel Félix
Lembrando Emanuel Félix (24.10.1936 –14.02.2004)

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rasto de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa

(«121 poemas escolhidos», 2003)

Lembrando Emanuel   Félix   (24.10.1936 –14.02.2004)

AS RAPARIGAS LÁ DE CASA 

Como eu amei as raparigas lá de casa

discretas fabricantes da penumbra
guardavam o meu sono como se guardassem
o meu sonho
repetiam comigo as primeiras palavras
como se repetissem os meus versos
povoavam o silêncio da casa
anulando o chão os pés as portas por onde
saíam
deixando sempre um rasto de hortelã
traziam a manhã
cada manhã
o cheiro do pão fresco da humidade da terra
do leite acabado de ordenhar
(se voltassem a passar todas juntas agora
veríeis como ficava no ar o odor doce e materno
das manadas quando passam)

aproximavam-se as raparigas lá de casa
e eu escutava a inquieta maresia
dos seus corpos
umas vezes duros e frios como seixos
outras vezes tépidos como o interior dos frutos
no outono
penteavam-me
e as suas mãos eram leves e frescas como as folhas
na primavera

não me lembro da cor dos olhos quando olhava
os olhos das raparigas lá de casa
mas sei que era neles que se acendia
o sol
ou se agitava a superfície dos lagos
do jardim com lagos a que me levavam de mãos dadas
as raparigas lá de casa
que tinham namorados e com eles
traíam
a nossa indefinível cumplicidade

eu perdoava sempre e ainda agora perdoo
às raparigas lá de casa
porque sabia e sei que apenas o faziam
por ser esse o lado mau de sua inexplicável bondade
o vício da virtude da sua imensa ternura
da ternura inefável do meu primeiro amor
do meu amor pelas raparigas lá de casa

(«121 poemas escolhidos», 2003)
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refugiadas: violações em massa (Angola)

MÉDICOS SEM FRONTEIRAS

https://expresso.pt/internacional/refugiadas-do-congo-violadas-em-angola=f847758

Novecentas e cinquenta refugiadas da República Democrática do Congo em Angola foram violadas entre janeiro e novembro deste ano durante o processo de deportação, denunciou hoje em comunicado a secção belga da organização Médicos Sem Fronteiras (MSF).

A Organização Não-governamental dá apoio às vítimas das violações nas zonas de Luamno e Kamoni, na província do Kasai-Ocidental, na zona oeste da RDCongo, onde a MSF auxilia refugiados congoleses deportados dos países vizinhos.

“Os militares angolanos cometem atos coletivos de violência sexual, segundo os testemunhos das vítimas”, lê-se num comunicado da organização, que desde agosto de 2012 apoia as congolesas expulsas de Angola que são vítimas de violações.

Apesar das medidas adotadas pelas autoridades angolanas e congolesas contra a violência sexual, mas este tipo de casos continua a registar-se.

A MSF considera “inaceitável” a falta de atenção dada às vítimas de violação pelas autoridades angolanas e exige ao Governo de Luanda que proteja os refugiados e persiga os responsáveis pelos abusos.

 

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