açores – as pedras também falam

 

Ambiente – património natural.
«As pedras também falam» (1)
José Ávila Martins †
José Ávila Martins † – Departamento de Oceanografia e Pescas, Universidade dos Açores. 9900 Horta.
Martins, J. A. (2004), Ambiente – património natural. «As pedras também falam». Boletim do Núcleo Cultural da Horta , 13: 39-47.
Propomo-nos tratar, hoje, da própria terra que pisamos. Não do mítico continente afundado, citado por Platão, e, por muitos persistentemente atribuído aos Açores, mas destas ilhas que, mercê da acumulação de produtos vulcânicos, brotaram do fundo do mar. O objectivo continua a ser o de chamar a atenção das pessoas, diria da nossa comunidade, para a necessidade de se preservarem os valores naturais que nestas ilhas ainda possuímos e, mesmo, de procurar recuperar outros onde a degradação já chegou. Porém, de índole científica, apenas se esboçarão algumas noções elementares que, de alguma forma, possam contribuir para melhor se entenderem fenómenos e processos naturais que irão sendo referidos. Isto, tendo em conta as carências de informação na área das Ciências da Terra, praticamente banida dos programas escolares. E só se aprecia aquilo que se conhece.
Embora tendo a ilha do Pico como pano de fundo, não se deve perder de vista o facto de que o enquadramento geológico em que esta se situa e comum às restantes ilhas do Arquipélago e, de igual modo, a outras de idêntica origem por esse mundo fora. Tenha-se presente que o vulcão é a única janela de comunicação com o interior da Terra e que os produtos vulcânicos estão na origem de todas as rochas que conhecemos. Só através da análise dos produtos expelidos pelos vulcões nos é possível conhecer directamente a natureza dos materiais que se escondem sob o chão que trilhamos. Quando se fala de vulcanismo, a primeira questão que se põe é a de conhecer o que se passa acerca da distribuição dos vulcões à superfície da Terra. Como se sabe, eles não se dispõem ao acaso, obedecendo, antes, a condições geológico-estruturais favoráveis à sua formação. Aqui, convém abrir um parêntesis para referir (ou, para alguns, apenas recordar) que quase todos os processos geológicos e tectónicos, nomeadamente a deriva dos continentes, que ocorrem à superfície da Terra, se enquadram no âmbito dasplacas tectónicas, em que a litosfera, por meio de uma rede global de falhas, se encontra retalhada. Nas placas, são de salientar as margens de criação e expansão da crosta terrestre e margens de compressão, onde a mesma crosta é destruída (zonas de subducção). Ora, a maioria dos vulcões conhecidos distribui-se precisamente por estas duas áreas que, naturalmente, possuem características inteiramente distintas: (1) áreas de criação e expansão da crosta, que correspondem às cristas (ou dorsais) oceânicas, onde os Açores se enquadram, e (2) áreas de sinal contrário, onde se produz a sua destruição, de que o chamado “Anel de fogo do Pacífico” é, de longe, a mais conhecida. Nas primeiras, os edifícios vulcânicos não são mais do que relevos do próprio fundo basáltico do mar. Nas segundas, a actividade vulcânica concentra-se essencialmente em tomo dos oceanos, numa faixa continental, cuja largura, em regra, não ultrapassa os 200 km. Aqui, os vulcões são caracterizados por lavas mais siliciosas do que as lavas basálticas e, por conseguinte, mais viscosas, o que implica, também, regime de maior explosividade. Não é por acaso que as maiores catástrofes vulcânicas ocorrerem nos vulcões do Anel ou noutros inseridos em contexto geológico semelhante. De recordar, a explosão histórica do Krakatoa (1883) nas proximidades da ilha de Java e, mais recentemente, no final da década de 70, o espectáculo dantesco oferecido pelo vulcão de St. Helens, no Estado de Washington dos Estados Unidos. Neste perdeu a vida um jovem geólogo americano que, duas semanas antes, estivera aqui connosco.
Dos diversos factores que condicionam o regime de actividade de um vulcão, são de salientar a viscosidade do magma e a proporção de gases nele dissolvidos sob pressão. Quanto mais elevada a viscosidade e maior a proporção de gases, mais intensa será a explosividade. Compare-se com a abertura da garrafa de champanhe. Se não se procede a uma desgasificação lenta, de líquido pouco ficará no fundo da garrafa, tal como acontece no habitual banho de champanhe com que terminam as corridas da “Formula 1”. De forma idêntica, actua o acesso de água à câmara magmática, onde a vaporização instantânea provoca forte actividade explosiva. Nos Capelinhos, por exemplo, prevaleceu o regime explosivo enquanto se manteve a abertura da cratera para o mar. Só após esta se ter fechado, aumentou a emissão de lavas, que, hoje, ainda se encontram patentes no cone central (já parcialmente desmantelado), formado na última fase da respectiva actividade vulcânica. O comportamento dos vulcões pode ser muito variável, de uma região para outra, de vulcão para vulcão e, mesmo, ao longo da vida do mesmo vulcão. Como exemplo mais acessível e, bem pode dizer-se, mais palpável, se pode invocar de novo o vulcão dos Capelinhos, cujas erupções passaram por diferentes fases de actividade vulcânica, desde a fase efusiva, com simples escoadas de lavas, até à forte explosividade, responsável pela formação das cinzas que, de longe, constituem o material mais abundante do edifício vulcânico. Das armas do poderoso arsenal dos vulcões, as lavas são as menos perigosas, já que, na maior parte dos casos, é possível delas fugir a tempo. O regime explosivo toma-se bastante mais traiçoeiro, surgindo, por vezes sem aviso, e com imprevisível intensidade. A lava, com elevada concentração de gases, é, projectada em fragmentos mentos que, arrefecendo durante o seu percurso aéreo, caem no terreno, já solidificados, conservando estrutura vacuolar, resultante da retenção, em bolhas, dos gases que se separaram. Estes piroclastos podem assumir aspectos e características muito diferentes, consoante a composição da rocha e as condições de formação, Nos basaltos, predomina o lapilli, conhecido nos Açores por bagacina. As bombas, constituídas por maiores fragmentos de lava que, não se consolidando inteiramente durante o trajecto, ao atingirem o solo, ainda se encontram em estado pastoso. Nos vulcões de fraca explosividade, são arremessadas, a pequena distância, pastas de lava que se acumulam em torno da chaminé, formando cones de forte pendor. Das erupções submarinas resultam piroclastos hidratados que, por litificação, dão tufospalagoníticos, como os do Monte da Guia, dos Ilhéus da Madalena, do Cabeço de Baixo (nos Toledos) e outros. A pedra-pomes é o piroclasto dominante das rochas traquíticas (mais siliciosas do que o basalto). Nesta, a vesiculação é extremamente elevada e as vesículas de tal modo estanques, que a rocha pode flutuar na água por largo período de tempo. Em grande parte da ilha do Faial, a leste da Caldeira, e na ilha de S. Miguel, a pedra pomes é particularmente abun dante. Quando os piroclastos caem ainda no estado pastoso, ao tocarem no solo, podem soldar-se entre si, formando aglomerados de escórias.
Os nossos cabeços são, em grande parte, constituídos por bagacina. Nalguns, porém, ocorrem leitos de lava, quer intercalados nos piroclastos quer a recobri-los, como se tratas­se de manto protector. A alternância de regimes explosivo e efusivo está quase sempre presente nos diferentes edifícios vulcânicos dos Açores. Aspectos destes podem ser observados, por exemplo, em explorações de bagacina,ao longo da estrada transversal, na descida para S. Roque. Também em cortes de estradas, nas escarpas costeiras e noutros afloramentos, se pode observar idêntica alternância de leitos de lava e de piroclastos. É nos vulcões periféricos (vulcões adventícios), situados em torno da base do vulcão central, que as lavas são mais abundantes. A essa mesma alternância de fases eruptivas se deve a estranha configuração da montanha do Pico, com encostas de elevado pendor, em comparação com o perfil esbatido de outros vulcões basálticos conhecidos. Isso deve-se ao facto de o acentuado pendor de equilíbrio dos piroclastos acabar por ser consolidado pelas escoadas de lava que, sucessivamente, os recobrem e com eles alternam. Nos Açores, além do basalto, ocorrem, na maior parte das ilhas, rochas traquíticas, de cor mais clara, que resultam de um magma mais silicioso e, naturalmente, mais viscoso, o que, conforme se disse, implica actividade vulcânica de maior explosividade. No Pico, em S. Jorge e na Graciosa o basalto é rocha única, embora assumindo aspectos muito variados.
É à actividade explosiva que se deve a formação da cratera, em funil, característica dos cones de escórias que constituem os nossos cabeços. As caldeiras não são mais do que crateras de grandes dimensões (com diâmetro, convencionalmente, não inferior a 1000 m). O seu modo de formação, em regra, é também diferente. Após a projecção de grandes volumes de materiais piroclásticos, produz-se o afundamento de uma zona, por vezes bastante ampla, em torno da chaminé vulcânica. As paredes internas são, quase sempre, fortemente inclinadas ou, mesmo, verticais. Em S. Miguel, há quatro caldeiras. A caldeira do Faial constitui ornamento emblemático da ilha. Quanto ao Pico, se bem que poucos dêem por ela, a caldeira lá está no topo da montanha, embora com os bordos largamente desmantelados pela erosão. Grandes fatias têm caído durante alguns abalos de terra. A morfologia dos terrenos vulcânicos, com a grande variedade dos relevos que a caracterizam, distribuídos quer em alinhamento ao longo de fracturas quer disseminados, aparentemente ao acaso, oferece, no seu conjunto, algumas das mais belas paisagens naturais. Pela sua origem e modo de formação, pela sua evolução e, até, pelos processos de degradação, existe flagrante contraste entre os terrenos vulcânicos do domínio oceânico e os terrenos continentais. Enquanto a morfologia continental resulta de um processo extremamente lento, ao longo de milhões, mesmo de centenas de milhões de anos, os relevos vulcânicos, resultando da acumulação rápida de materiais eruptivos, podem adquirir corpo ao fim de semanas, ou apenas de dias de actividade, explosiva, efusiva ou mista. O vulcão dos Capelinhos, por exemplo, ao cabo de duas semanas, do seu início, acumulava já materiais que constituíam uma ilha com 1000 metros de diâmetro e 100 m de altura. Alguns vulcões conhecidos expulsaram muito maiores quantidades de material em muito menos tempo. A degradação, por sua vez, começa a actuar em simultâneo, causada pela própria actividade explosiva, pela abrasão marinha ou pelas chuvas que, rapidamente, actuam nos materiais incoerentes, acabados de se depositar. São processos muito rápidos que, só mais tarde, e com o tempo, se estabilizam, uma vez terminada a actividade vulcânica.
Quanto ao seu comportamento, os vulcões constituem verdadeiras caixinhas de surpresas, surgindo, por vezes, onde e quando menos se espera. Além disso, um vulcão, após uma fase eruptiva, pode adormecer, sem dar sinal de vida durante séculos, para, em dada altura, entrar de novo em actividade. E, em muitos casos, de que maneira!
A intenção, relativamente ao que anteriormente foi dito, é a de situar no respectivo contexto geológico, aspectos de produtos vulcânicos de particular interesse que, pela simples observação, nos podem contar a sua história e a história dos próprios vulcões donde provêm. Alguns dos aspectos que a seguir se referem, constituem peças valiosas do nosso património natural, que merecem, por isso mesmo, ser acautelados e devidamente protegidos. Embora esta nota, tendo como destino imediato a ilha do Pico, porventura ainda a menos degradada, naturalmente se aplica, de igual modo, às restantes ilhas do Arquipélago. A observação de qualquer pedaço de basalto revela-nos, quase sempre, a existência de vesículasdisseminadas na rocha. Resultam de gases separa­dos do magma que, não tendo conse­guido escapar a tempo para a atmosfera, ficaram assim aprisionados na rocha sob a forma de bolhas. A proporção, a dimensão e a forma das ve­sículas são particularmente variáveis,
Quando alongadas, a sua orientação denuncia a direcção de escoamento da lava. Os gases, na “ânsia” de escaparem para a atmosfera, sem o conseguirem, dão lugar a uma grande concentração de vesículas na parte superior da rocha que, por vezes, mais se parece com um favo-de-mel. No basalto aparecem, quase sempre,fenocristais disseminados na rocha. São cristais de cor branca, esverdeada ou negra, que se formaram, por arrefecimento lento, ainda no âmbito da câmara magmática. Na pedreira de empréstimo do porto de S. Roque, por exemplo, aflora um leito de basalto, constituído, na sua maior parte, por cristais relativamente desenvolvidos, quase como se de rocha holocristalina se tratasse. Um caso especial que bem merece uma visita de estudantes ou de simples curiosos. Quando emerge à superfície, o magma, em vez de homogéneo, é, afinal, constituído pelas três fases: líquida, sólida e gasosa. Só raramente o basalto é inteiramente desprovido de vesículas e de fenocristais. Neste caso, a rocha mais se parece com um vidro negro e compacto. Nas erupções efusivas, a lava escoa-se ao longo de terreno inclinado, dependendo a velocidade de escoamento do pendor do terreno e da viscosidade do magma que, por sua vez, vai aumentando com o progressivo arrefecimento, à medida que se afasta do local de origem.
A solidificação inicia-se à superfície, com a formação de uma película (comparável à que se forma à superfície do leite fervido), que, por arrastamento da lava subjacente, se vai do­brando e empilhando, e acaba por formar um amontoado, enrolado à laia de cordas, ou assumindo outros aspectos não menos singulares e extremamente variados. Assim se forma a lava encordoada, um dos ornamentos mais apreciados das nossas lavas basálticas. É uma lava lisa, tipo pahoe-hoe, na nomenclatura do Hawai e adoptada pelo mundo. Quando arqueada, a convexidade da “corda” indica o sentido do escoamento. Isto sucede especialmente em escoadas de lava pouco espessas. Diferente comportamento se verifica em escoadas mais volumosas e, porventura, menos fluidas. O progressivo arrefecimento conduz à formação de uma crosta espessa e quebradiça, que se vai partindo em fragmentos irregulares e pontiagudos que, arrastados pela corrente de lava subjacente, se amontoam de modo caótico, dando, finalmente, lugar a uma rocha com superfície grosseira, afiada como lâminas. É a lava escoriácea ou lava aa, na terminologia do Hawai. Uma corrente de lava inicialmente lisa, pode passar, a juzante, a lava do tipo escoriáceo.
Nestas correntes espessas de lava, pode formar-se, por arrefecimento, crosta sólida, suficientemente espessa e resistente ao atrito da lava que, no estado líquido, continua a escoar-se no seu interior. Cessando a alimentação na origem, o magma continua a correr, até esvaziar o espaço que ocupava. Assim se formam estruturas tubulares, por vezes, de grandes dimensões que, nalguns casos, se prolongam por centenas ou milhares de me­tros. São as estruturas naturais, conhecidos entre nós como furnas ou grutas. Do tecto pendem abundantes “estalactites” (que correspondem a pingos de lava) de aspecto semelhan­te às que, embora por processo inteiramente diferente, se formam nas grutas calcárias. Assumindo, por vezes, formas de grande beleza, são, por isso mesmo, altamente cobiçadas, e, daí, a delapidação de que têm sido vítimas algumas das nossas grutas de mais fácil acesso, como é o caso da Fuma de Frei Matias. São estes e outros aspectos da nossa paisagem que, como parte valiosa do nosso património natural, importa preservar e proteger. Para além do interesse científico que possuem, cons­tituem, ao mesmo tempo, factor importante da tão desejada atracção turística. As pessoas, hoje, fartas de passarem o tempo intramuros, na sua actividade profissional, querem gozar ar fresco e admirar ambiente natural que não conhecem. Por outro lado, não se podem descurar os factores cultural e educacional, que aqui encontram precioso material de estudo. Não será demais recordar que a finalidade essencial desta série de considerações é a de chamar a atenção, não só das entidades oficiais mais responsáveis mas, de igual modo e especialmente, das comunidades desta ilha, para que seja preservada a riqueza natural que possuímos. Para nós, para os nossos filhos e para quem queira visitar-nos. Para tal toma-se necessária uma vigilância constante, que a todos nós incumbe exercer, sem esperar por legislação, que só tardiamente poderá chegar, quando já não houver coisa que valha a pena proteger. Sem minorar a importância dos restantes, queremos chamar a atenção para alguns aspectos que, pela sua vulnerabilidade, correm maior risco de degradação. Entre eles:
a) – Os cones de escórias, ou sejam, os tão característicos cabeços do Pico e não só, que estão a ser desalmadamente mutilados, e outros simples­mente arrasados. A cada passo, se depara com verdadeiras chagas abertas, deixadas como resultado da exploração da bagacina, onde é mais fácil retirá-la. Ultimamente, diversos cabeços têm sido inteiramente riscados do mapa, para a conquista de mais al­guns palmos de terreno, sobretudo para pastagem e cultura da vinha.
b) – Lava encordoada e outros aspectos peculiares das lavas basálticas que, como se sabe, continuam a ser exploradas para com elas enfeitar casas, por dentro e por fora. E, até, para exportação. Sem prejuízo de tantas outras, cita-se, como zona a proteger, toda a planura costeira, situada entre a Madalena e o aeroporto, de muito fácil acesso para os delapidadores, alguns dos quais assim procedem mais por falta de informação do que por maldade. Só um novo vulcão poderá repor o que já se tirou. Se legislação existe neste domínio, ela não se cumpre. Nos países desenvolvidos, em nada disto se toca sem parecer prévio dos Serviços competentes. E não é raro mudar-se o curso de estradas ou de outras obras planeadas para evitar a destruição daquilo que é considerado património geológico nacional. Eu repetiria o que, já noutra ocasião, tive oportunidade de dizer: “Salvem a única riqueza não importada que possuímos”. A testemunhar o seu valor, veja-se, na página 65 do National Geographic Magazine, de Novembro de 1992, a magnifica fotografia do Pico, com um belo afloramento de lava encordoada em primeiro plano e, ao fundo, o perfil da montanha. Um belo reclame, de que bem nos podemos orgulhar, promovido espontaneamente, por uma das mais conceituadas e divulgadas revis­ta, a nível mundial.
c) – As Furnas (ou grutas) dos Açores, talvez pela dose de mistério que encerram, são os edifícios vulcânicos mais conhecidos do imaginário popular e, não raramente, ligadas a histórias que vão passando através das gerações. Sabia-se onde começavam mas não se lhes conhecia o fim. Há anos atrás, poucas furnas eram conhecidas nesta ilha. Presentemente, graças ao entusiasmo e trabalho árduo do nosso conterrâneo Albino Terra Garcia, já hoje existe um notável trabalho realizado, com inventário bastante completo das fumas do Pico, algumas delas com levantamento topográfico e reconhecimento de particular interesse cientifico e turístico. O trabalho, que tem tido a colaboração do grupo dos Montanheiros e de conhecidos especialistas em espeleologia, encontra-se presentemente em fase de preparação para publicar. Ao que parece, tudo feito com a “prata da casa”, já que a de fora nunca chegou. O que agora se pretende – e não será pedir demais – é que se crie legislação e regulamentação com vista à protecção deste singular património natural. Com as suas 102 grutas já conhecidas (1994), 66 das quais já exploradas, bem se pode dizer que o Pico é a ilha das grutas vulcânicas. Uma delas, com mais de 4000 metros de extensão.
Conforme logo de início se disse, achámos conveniente fazer acompanhar as considerações aqui expressas sobre o nosso património geológico, de alguns esclarecimentos elementares para melhor o compreender. Isto, tendo em atenção a carência de informação respeitante às Ciências da Terra, sobretudo por se tratar de uma área que – nunca percebi por quê – foi praticamente erradicada dos programas escolares de Ciências Naturais. Assim, muitos saem da Escola sem nunca terem ouvido falar das rochas nem dos minerais que as constituem, como se de matéria de somenos importância se tratasse. E isto, sabendo-se que, afinal, é das rochas que saem todos os metais que utilizamos. Saem, igualmente, o petróleo, o gás natural e a própria água que bebemos. Sem rochas, não haveria solo e, sem este, onde se cultivaria tudo quanto comemos? E, ainda, com rochas, em bruto ou trabalhadas, que se constróem as casas onde nos abrigamos. E, a quem tenha gosto pelas jóias, é de recordar que os diamantes e o enorme cortejo de pedras semi-preciosas que invadem o nosso mercado, também é das rochas que provêm. Afigura-se realmente estranha a subordinação a que, nos programas de ciências naturais, foi votada a geologia, ou seja, o estu­do da Terra que pisamos, que, de vez em quando, vemos crescer e, não raramente, sentimos tremer. Não admira, pois, que, na nossa comunidade, para além de alguns curiosos e autodidactas, pouco se saiba do assunto em apreço: o património geológico dos Açores. A ausência de sensibilidade que, a diferentes níveis, se verifica neste domínio, talvez encontre aqui a sua verdadeira explicação. Não são, porém, necessários grandes conhecimentos para, da simples observação, se extrair a história da rocha, como se as próprias pedras falassem, para nos dizerem como e onde se formaram.
J. A. M. Dez. 1994
(1) O editor agradece a Helen Rost Martins a cedência deste artigo, para publicação neste Boletim.
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a diarística de Fernando Aires autor a não perder

pouco mais de um ano após a sua morte, para que o recordemos:

ANA DA SILVA     [email protected] in 5º colóquio da lusofonia na ribeira grande em 2006
Licenciada em Português LVE pela Universidade de La Sorbonne-Nouvelle – Paris III (1989), Mestre em Literaturas Comparadas, Portuguesa e Francesa, Séculos XIX e XX, pela Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (1998). Curso de Doutoramento em Ciências Literárias pela FSCH-UNL (2000). Em curso de realização: Projeto de tese de doutoramento na área da animação de bibliotecas em curso de elaboração.
1995-96: Docente de Português na Escola EB 2,3/S Bento Rodrigues, Vila do Porto, Santa Maria (11.º e 7.º anos de escolaridade).
1995-2006: Autora de diversas publicações sobre literatura açoriana, das quais se destacam: “Matar um Boi e Comê-lo Inteiro!”, p. 12, n.º 81, 12 de novembro de 1998, do Suplemento Açoriano de Cultura do Correio dos Açores; e “A Felicidade é um relâmpago”, pp. 42 a 51, nº 36, outono de 1996, da Revista Ler do Círculo de Leitores, dedicados ao escritor José Martins Garcia.
Autora de apresentações de livros de escrita açoriana aquando do seu lançamento: Apresentação do livro (In)confidências de Gabriela Silva, aquando do seu lançamento na ilha de Santa Maria, em janeiro de 1995; Apresentação do livro O Menino Deixou de Ser Menino de Dias de Melo (Edições Salamandra) aquando da homenagem a este grande escritor açoriano, Casa dos Açores, Lisboa, 15/10/99. Autora de diversos trabalhos académicos sobre literatura açoriana, dos quais se destaca “Era uma vez um diário ilhéu”, apresentado no final do seminário de Literatura Autobiográfica, lecionado por Clara Rocha, do Curso de Ciências Literárias da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa.
1998-2006: Docente da Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico de Santarém. Orientadora de estágios (nomeadamente em bibliotecas escolares), trabalhos de investigação e projetos de intervenção nos cursos de Educação de Infância e Animação Cultural e Educação Comunitária. Diversas missões ao estrangeiro, das quais se destaca uma missão educativa de formação de professores/as em Timor-Leste no ano 2000, em representação da ESE de Santarém. De 1994 a 1998, docente do Ensino Básico e Secundário. 1992-93, Assistente de Língua Francesa em dois colégios no Essex, Reino Unido, e colaboradora de Programas Multiculturais de Intercâmbio entre escolas do Ensino Básico portuguesas e britânicas (Essex, Reino Unido).
Autora de diversos artigos em revistas literárias e periódicos nacionais e regionais, coautora de dois livros, tem participado em diversos projetos pedagógicos e projetos de desenvolvimento e intervenção, apresentado comunicações em colóquios e conferências nacionais e internacionais. Autora e formadora de cursos de formação contínua (nas modalidades de curso, oficina e círculo de estudos) na área da animação de bibliotecas, animação da leitura e da escrita.
ERA UMA VEZ UM DIÁRIO ILHÉU: A LITERATURA DIARÍSTICA DE FERNANDO AIRES
Embora muitas obras da literatura açoriana tivessem um cariz autobiográfico, não havia, antes de Fernando Aires, diários açorianos. O que se pretende aqui evidenciar é a dimensão intimista que prevalece no diário Era uma vez o tempo de Fernando Aires. Com efeito, a notação diarística ocupa-se do registo de sensações e reações cognitivas a essas sensações e, muito secundariamente apenas, da transcrição dos factos do quotidiano. Parece-nos ser este um dos casos em que a ação é considerada como “cosa mentale”. Outra dimensão, digna de consideração e relacionada com a dimensão intimista, foi a inserção geográfica do diarista numa ilha: trata-se de um diário marcado pelo espaço da produção. Tentaremos mostrar como o Diário[1] de Fernando Aires, que se situa na tradição literária açoriana, pode ser considerado um protótipo do que se pode entender por diário íntimo: um diário ilhéu.
A questão de haver uma literatura açoriana, com traços peculiares que a distinguem da literatura portuguesa em que se insere, tem sido uma questão muito debatida dentro e fora dos Açores. Mas o que a literatura açoriana ainda não tinha, passou a ter com Fernando Aires: uma literatura diarística. Apesar do cariz autobiográfico de muitas obras da literatura açoriana, das quais se destacam por exemplo Não Percas a Rosa de Natália Correia, O Jornal do Observador de Nemésio, Memórias da Cidade Futura ou Memórias das Ilhas Desafortunadas de Manuel Barbosa, Os Amores da Cadela Pura de Margarida Vitória, Gente Feliz com Lágrimas de João de Melo, Raiz Comovida de Cristóvão de Aguiar, verifica-se a total inexistência de diários açorianos antes de Fernando Aires, que, numa entrevista dada a Vamberto Freitas, avançava uma tentativa de explicação: “Este gosto pelo interior, tão nosso, tão carateristicamente nosso (…) leva-me a estranhar a ausência de diaristas nas ilhas. O meio demasiado estreito e censurado pode explicar isso. O refúgio na poesia intimista também pode ser a explicação” (Freitas, 1992: 185).
Fernando Aires, então assistente convidado da Universidade dos Açores, onde leciona História, já com uma notoriedade consagrada pelos seus trabalhos de investigação académica e pela sua colaboração em jornais e revistas açorianos, publica a sua primeira obra literária em 1988: o volume I do seu Diário, Era uma vez o tempo. Concordamos com Vamberto Freitas ao dizer: “Publicar um diário sem obra criativa previamente feita é um ato arrojado, não pode haver falhanço, a credibilidade do autor depende por inteiro da arte com que os pessoalíssimos, gentes e coisas são aí retratados. Não existem aqui nem o refúgio num narrador fictício nem, uma vez mais, em outras obras que possivelmente tenderiam a colocar o leitor em predisposição para tudo acreditar ou perdoar” (1991: 8).
O facto é que Fernando Aires conseguiu despertar um grande interesse e curiosidade por parte não só do público como da crítica, sobretudo a partir da publicação dos dois últimos volumes do Era uma vez o tempo[2] que, por terem sido publicados na capital continental, beneficiaram de uma maior visibilidade no mercado. Desde então, mereceu a admiração de críticos como Eugénio Lisboa, Aníbal Pinto de Castro, José Augusto Seabra e Luís Amaro, tendo, no meio académico, passado a ser objeto de teses universitárias. Na sua introdução às Páginas do Diário Íntimo de José Régio, Eugénio Lisboa refere-se a Fernando Aires como sendo “autor de um dos mais belos e sensíveis diários em língua portuguesa”.
Pensamos que Fernando Aires foi o iniciador e o impulsionador de uma diarística açoriana que conta com escritores como António João Marinho Matos, que publicou o seu Diário I, Jornal do Ocidente (1996-97), na sua própria editora Espaço XXI, em 1998, e Cristóvão de Aguiar, autor de Passageiro em Trânsito, que decidiu finalmente publicar, em 1999, o diário que já vinha escrevendo desde 1964: Relação de Bordo (1964-88).
A palavra íntimo, como as palavras intimismo e intimidade são difíceis de definir e, por isso, foram ao longo dos tempos conscientemente evitadas por vários críticos. Para designar o autor de diários íntimos, Michèle Leleu (1952) prefere recorrer ao neologismo «diariste» do que empregar o termo «intimiste», privilegiando assim o primeiro termo da expressão «diário íntimo». As mesmas reservas são feitas por Béatrice Didier (1976), que utiliza o mesmo neologismo, mas também a expressão «auteur de journal intime»:  «pour le critique le mot «journal» est moins fuyant, moins irritant que le mot «intime» (…) il charrie avec lui une connotation quelque peu désuète et d’un romantisme délavé, qui correspond certes à un aspect du journal, mais à un aspect seulement(1976: 9-10)
Após uma introdução ao seu livro L’Intimisme (1989), na qual chama a atenção para o caráter impreciso, esbatido e obscuro do conceito intimismo, Daniel Madelénat tenta defini-lo no âmbito de uma cadeia verbal que inclui os termos «intimismo», «intimista», «íntimo» e «intimidade». Assim, «intimismo», substantivo que aparece no início do século XX, designa essencialmente uma estética que privilegia temas como a meditação introvertida e a vida quotidiana e uma escrita ou pintura simples, mas pode também designar uma caraterística de uma personalidade introvertida: «Est intimiste celui Qui aime vivre et exprimer les aspects intimes de l’existence sans rompre par les artifices clinquants de la représentation le calme discret et feutré, le silence d’une intimité où les sentiments et les pensées se répandent sur l’environnement immédiat» (1989: 20-21).
Madelénat analisa em seguida o que o conceito significa para Camille Mauclair que o inventou e promoveu: « Ils cherchent [os intimistas] ‘dans le recueillement, dans le mystère, dans le calme, dans la subtilité presque musicale des tonalités, le secret d’une beauté plus intérieure, plus psychologique’ (…) l’art d’ ‘exprimer ce que les objets et les êtres, tels qu’on les aperçoit, laissent deviner de profond, le tragique et mystère quotidien de l’existence ordinaire, la poésie latente des choses’» (1989: 21). Madelénat opõe prática intimista do diário íntimo a esta estética considerada «une composition intentionnelle en vue d’un effet sur le lecteur.(no caso de Aires há uma conjugação dos dois sentidos, não?). «Íntimo» e «intimidade» designam a dimensão mais profunda das coisas ou dos seres que a observação e a análise não conseguem atingir. Num sentido mais lato, designam a arte que representa a vida interior e privada ou o ambiente que a favorece.
Madalénat carateriza o intimismo através de um conjunto de temas fundamentais no que respeita ao género do diário íntimo que aqui nos interessa: «Quotidienneté, cercle de l’intimité familiale ou amicale et de l’humilité sentimentalisée, paysage intérieur, communions avec le cosmos: toutes ces constellations de thèmes composent la galaxie intimiste et doivent s’envisager comme un ensemble, car les écrivains, éclectiques pour la plupart, n’affirment pas un tempérament littéraire fort et n’imposent pas à leur œuvre une stylisation exclusive» (1989: 102-103).
Alain Girard (1986) e Béatrice Didier (1991) numa tentativa de definição do género, apresentam as seguintes caraterísticas do diário íntimo:
·                       Escrita diária passível de tudo incluir (o género não obedece a uma poética bem definida), numa ordem qualquer (o género não obedece a uma estrutura determinada), mas de natureza fragmentária, oposta à obra composta/construída (como as memórias). A distância do momento da escrita em relação ao acontecimento é muito mais reduzida em relação à escrita de autobiografia ou de memórias. O descontínuo da escrita fragmentária alia-se paradoxalmente à continuidade dos dias. Os únicos elementos de transição entre os dias são os espaços brancos que separam na página um dia do outro e a inscrição da data e do local. Trata-se de uma escrita que se prolonga num longo período de tempo.
·                       Texto no qual o autor está pessoalmente presente como centro de observação. Identidade entre autor, narrador e personagem. Apesar do «eu» não ser o único pronome pessoal utilizado, é ele que prevalece, tal como afirma Béatrice Didier: «Le ‘je’ néanmoins l’emporte à tel point sur les autres personnes, que tout le journal s’organise autour de cet obsédant ‘je’ Qui perpétuellement souligne que le texte n’a d’existence, ici, que par référence á l’auteur. C’est là que le journal, si décousu, si disparate soit-il, trouve son unité. Ce ‘je’ obsédant semble la seule règle d’un genre Qui n’en connait pas (…)» (1991: 154).
·                       A observação é interior, ou seja, incide mais sobre o lado privado da vida do redator do que sobre o lado exterior. Diário íntimo opõe-se a «diário externo», segundo a terminologia de Georges Gusdorf (1948). Neste segundo tipo de diário, os factos/acontecimentos prevalecem sobre os estados de alma e de pensamento da pessoa. Porém, tanto para Girard como para Didier, não existe uma forma pura de diário íntimo, há sempre uma espécie de crónica quotidiana dos acontecimentos e das relações que o diarista estabelece com os outros. Béatrice Didier chama a atenção para a dificuldade atual de delimitação entre «interior» e «exterior». Para Didier, a intimidade do eu definir-se-ia hoje em relação ao inconsciente e aos vários níveis da consciência estabelecidos por Freud. Didier mostra uma grande variedade de tempos utilizados nos diários íntimos. No entanto, nos diários menos factuais, como o de Maine de Biran, Amiel ou Charles Du Bos, as distâncias temporais perdem a sua importância e prevalece, assim, um presente da continuidade.
·                       Segundo Girard, trata-se de um texto que não se destina a um público nem a ser publicado. Guardado como um segredo. Escrita privada. Didier contesta esta noção de intimidade, pois alguns diaristas organizam a publicação do seu diário e, mesmo quando tal não acontece, o outro está sempre presente na mente do diarista.
·                       A introversão prevalece sobre a extraversão. Os acontecimentos exteriores só importam enquanto ressonância, ou seja, enquanto impressões que ressoam na consciência do autor. Um diário íntimo não implica forçosamente introspeção, pois geralmente o diarista limita-se a anotar o que acontece, podendo o diário caraterizar-secaracterizar-se por um aspeto repetitivo e um ritmo lento e monótono. Para muitos autores, sendo um modo de expressão paralelo ao de uma obra em curso, o diário íntimo torna-se uma crónica da atividade criativa.
·                       Segundo Girard, esta escrita corresponde a períodos depressivos e pouco criativos. Pelo contrário, Didier afirma que pode muito bem também corresponder a períodos de exaltação e grande criatividade.
Para Girard e Didier, o diário íntimo revela da parte do diarista uma tentativa de escapar à fuga do tempo (registando instantes fugidios privilegiados) e testemunha de uma procura do inexprimido. Girard tenta sistematizar uma experiência comum da noção de pessoa, determinando assim três grandes configurações aspetos do autor de diários íntimos: a procura do eu, a perda do eu e a conquista do eu.
“Este o sentir de que somos feitos, nós ilhéus mais do que ninguém.” (IV, 30)[3] “Esta Ilha onde nasci!” (III, 131)
Os diários de Fernando Aires são uma afirmação identitária de pertença à ilha, materializando a consciência que ele tem da açorianidade, isto é, de um sentir, de um viver e de um escrever caraterísticos do ilhéu. Lembremos aqui que Madelénat, no livro acima referido, estuda as figuras da esfera, do círculo e da circunferência como arquétipos da intimidade. Gilberd Durand, nas Estruturas Antropológicas do Imaginário (1969: 269-307) analisa a casa, o círculo e o centro como símbolos da intimidade. Tentaremos delinear os traços que a açorianidade reveste no Diário, considerando não apenas a intimidade (no sentido de Madalénat) do autor do diário, mas a intimidade de todo o povo açoriano.
 Um primeiro traço é a ambivalência da ilha. Por um lado, é cerco ou espaço de opressão: “Ilha é prisão de mar. De tédio tecida. De distância tecida. Ilha de Nemésio e de Mesquita, com aves do mar na tormenta e o torpor dos dias pasmados de distância. Que não é o mar que sufoca de prisão, mas o céu côncavo (…)” (II, 113). Por outro lado, simultaneamente, a ilha é refúgio ou espaço virgem e puro de salvação: “hoje foi um daqueles dias da Ilha em que serra, e mar e céu aparecem aos olhos como a obra espetacular acabada de sair das mãos de Deus. Ainda coberta do orvalho primitivo. (…) Estávamos ali de corpo e alma em comunhão com tudo.” Ou ainda: “De manhã, banho de mar – a água cristalina do começo do mundo, milagrosamente preservada das repetidas violações dos homens. Todas as vezes que me banho nestas águas saio puro como de um batismo. Sentimento de que recuperei a vida. De que a salvei.” (II, 83). O mar tem para Fernando Aires um incomparável poder de purificação que não implica forçosamente este gesto simbólico da imersão: “Assim me purifico do enrugado das horas a olhar o mar.” (III, 16).
Deste primeiro traço, decorre um segundo que é a tensão entre duas forças contrárias, uma centrípeta e outra centrífuga: o apego à ilha e o desejo de fuga. Aquilo que dois críticos açorianos designam por “circularidade e fuga” (Vamberto Freitas) ou “errância e permanência” (Urbano Bettencourt): “Os espaços limitados têm isto (…) é urgente deixar a Ilha. Deixar a Ilha. Deixar a Ilha…” (IV, 99); “Descobrir até que ponto este povo a que pertenço é inesperado e paradoxal, perdido no sonho maior de buscar mundo, porém teimoso no melancólico apego a estas ilhas – pedaços desgarrados de uma Europa que quase não lhes sabe o nome.” (II, 84).
Significativo é o facto de Gilberd Durand estudar as imagens de sepulcro e de enclausuramento  ligadas ao tema da intimidade, citando Baudouin que, na poesia de Victor Hugo, liga este complexo ambivalente do enclausuramento ao tema da insularidade (1969: 273-74). Béatrice Didier, por seu lado, estabelece uma ligação entre esta situação e a produção diarística: «Le prisonnier aura tendance à tenir un compte de ses jours monotones. Parce qu’il a du temps, trop de temps, il est saisi d’un vertige devant cette répétition décevante où le temps disparaît. Le journal est alors sa seule vie. (…). Le journal naît aisément d’une situation carcérale» (1976 : 12).
Outro traço da açorianidade é o sentimento de degredo. A constante revolta de um povo por se sentir afastado e esquecido: “O pior é o sentimento de desterro geográfico e de esquecimento oficial” (II, 125). Este sentimento abrange todas as áreas. Veja-se como Aires exprime esse traço no que respeita ao escritor açoriano: “a deficientíssima forma como se faz a promoção dos livros de autores açorianos em Lisboa.” (II, 73).
Um outro traço caraterístico da açorianidade é o sentimento de insegurança e de medo de quem vive desde sempre num mundo ameaçado pela contingência. As referências aos sismos são mais uma anotação intimista, pois o que sempre o diarista foca é o sentimento que nele e na sua comunidade eles provocam. “Crise sísmica (…) velhas inquietações na alma de todos nós. Memória das ilhas ligada à ameaça de rebentamento dos vulcões. (…) O medo, como uma pedra, pesando no fundo do peito.” (II, 74). Por ser em permanência alvo de fatalismo, o povo açoriano acabou por criar uma carapaça de resistência que lhe permite sobreviver: “Era mais um sismo (…) senti que os cumes da serra escondiam uma ameaça. Senti claramente a presença dessa ameaça (…) A vida das pessoas suspensa por um fio, balouçada ao sopro da contingência. O que vale é que cada ilhéu já nasce armado de carapaça e de reflexos como o guerreiro de Esparta. Não é qualquer inimigo que o desarma. E quando a desgraça vem e é sem remédio, encolhe os ombros e diz: Paciência! – os pés teimosos na terra, os olhos apontados ao horizonte como homem do mar que também é.” (II, 84). Este sentimento de insegurança faz com que, desde muito cedo, o ser ilhéu se torne desconfiado: “O ilhéu que sabe, não vai nessa – e aí aparece logo o seu estigma de nascença: a desconfiança.” (III, 149).
De tudo isto, advém o culto de dois mitos muito impregnados na alma dos açorianos. O mito das origens: “No espelho de água, o mistério intrínseco das coisas por desvendar. A exaltante sensação de que tudo permanecia no como no começo: intocado e puro.” (II, 13). E o mito do fim do mundo, cujo símbolo nem sempre é o cataclismo: “Qualquer dia, com a humidade e a chuva constantes, a ilha destorroa-se, desfaz-se nas águas. (…) Continuará decerto assinalada nos mapas, mas nenhum navio jamais a encontrará. Quanto a ser a velha Atlântida desaparecida, os séculos se hão de encarregar de dizer.” (II, 179).
A instabilidade do tempo meteorológico, ora chuva fina e nevoeiro opaco, ora “dia azul e oiro a explodir do céu” (II, 186), reflete-se também na alma açoriana, ora ensimesmada e melancólica, ora expansiva e eufórica: “Dualidade conflituosa entre intimismo e abertura ao mundo. Entre expansão e recolhimento interior. (…) Alma insular –cambiante e instável como o solo sísmico (…)” (II, 66).
A relação de amor/pavor que o povo açoriano tece com o mar, assim como com as outras forças da natureza eleva-o ao conhecimento do sagrado: “a dialética dos três MM (como eu lhe chamo) à volta da qual tudo se joga: Mar-Marinheiros-Morte. A luta agónica contra a morte, de cada vez que é preciso levar o sustento para casa. (…) O homem ilhéu na sua luta contra o fatalismo, contra as raivas da natureza. (…) Com efeito, por meio e através da Natureza atinge a nossa gente o sagrado: Homem-Natureza-Deus.” (II, 56).
No Diário de Fernando Aires, a Galera, é uma ilha mais pequena dentro da Ilha, um espaço refúgio ainda mais íntimo: “Lentamente, aquilo foi surgindo como uma ilha dentro da ilha, e já sonho com o dia em que desembarcarei nas suas praias e beberei das suas águas correntes.” (II, 73); “Nunca encontrarei resposta para explicar o sentimento de segurança que me toma quando aqui chego.” (II, 167);  “A suspeita de que será aqui, talvez, o meu lugar.” (II, 168).
E tal como a Ilha que é a matriz com que se identifica, a Galera, geograficamente situada entre o céu, o mar e a terra, é o ponto de referência a partir do qual o escritor se define: “A nova casa da Galera já vai adiantada. Sigo os trabalhos, ansioso por me ver num espaço criado por mim. Projetado por mim. (…) Terra de pais e avós (…) Foi uma espécie de segundo útero que me alimentou. (…) é sempre lá que me situo e me decifro. Me significo e me reconheço. Daqui o valor da casa no cimo da colina, com janelas para o ilhéu da Vila e vale de cabaços. Com vista para o alto da serra e para o crescente de mar que chega até aqui em aroma e em som (…)” (II, 49).”  Constante é a exaltação da paisagem exuberante da Galera, sinédoque da beleza paisagística da Ilha e de todo o arquipélago: “Aqui só faz sentido o abandono à evidência de haver beleza” (II, 95); “Hoje. Aqui. Eu, no deslumbramento de haver beleza.” (II, 187).
Outro traço da açorianidade no Diário de Aires, é o facto de todos os traços anteriormente analisados contaminarem a própria linguagem poética, como o atesta uma vasta panóplia de metáforas enraizadas no imaginário da ilha, à semelhança das que se seguem: “o amanhã muito provavelmente igual ao de hoje e ao ontem deste convento, onde as horas inúteis são redondas como o horizonte que nos cerca.” (II,70); “Aqui, da clausura, espreitei por uma frincha o mundo largo. Vontade de abrir as asas e desferir o voo para os lugares onde o europeu se ergueu do chão e se fez gente.” (II, 137).
Diríamos que Aires, à semelhança de um poeta ou pintor intimista, cultiva a arte de exprimir aquilo que de mais profundo carateriza o seu eu como um ser ilhéu. Pensamos, por isso, que o intimismo, como estética literária, pode, ao contrário do que parece julgar Madalénat, ser conciliado com o intimismo como prática do diário íntimo, que a seguir analisamos.
Há, pois, que inventar um pretexto de adiar a sentença, começar um novo livro, sem o que chegará breve a morte anunciada.” (IV, 49)
Que Era uma vez o tempo de Fernando Aires é um diário ninguém duvidará, não só pelo pacto de leitura estabelecido no paratexto através da menção «Diário», mas também pelo facto de o autor escrever diariamente, pouco tempo após o acontecimento, inscrevendo no início de cada novo dia a data e, muitas vezes, o local onde se encontra. Chegando mesmo, por vezes, a referir o dia da semana. Assim, sabemos, por exemplo, que dia 11 de fevereiro de 1992 era uma terça-feira. Menos frequentemente, aponta por vezes o momento do dia: «De tarde» (II, 100). A única estrutura do texto é esta cronologia dos dias. O texto é de tal modo heterogéneo e fragmentário de dia para dia que, nos casos em que o autor não insere a data, o editor vê-se na obrigação de utilizar um sinal gráfico para separar fragmentos distintos.
Era uma vez o tempo não obedece a uma poética bem definida, pois a par do discurso propriamente dito do diarista, encontramos um amálgama dos mais heteróclitos tipos de texto como cartas, entrevistas, poemas, narrativas, etc. Verifica-se também a preponderância do pronome pessoal «eu», no qual se identificam autor, narrador e personagem. Apesar, de F. Aires também utilizar este pronome no plural («nós») quando integra o seu «eu» na comunidade açoriana.
Todavia, Era uma vez o tempo não é apenas um diário, mas um diário íntimo. E o facto de confirmarmos, no próprio texto, que o autor organiza a sua publicação não impede que seja um diário íntimo, como já o referimos acima. Girard apenas considera que o diário íntimo não se destina a ser publicado porque não tem em conta o diário moderno: «De nos jours cependant, beaucoup d’auteurs de journaux intimes n’écrivent plus seulement pour eux, mais pour un public potentiel. Le marché littéraire étant disposé à absorber tout ce qu’ils ont à exprimer, la publication de toutes sortes de journaux est devenue monnaie courante» (Boerner, 1978 : 217).
Tentaremos pois mostrar que, neste diário, a introversão prevalece sobre a extraversão, que a observação incide muito mais sobre o lado privado da vida do diarista do que sobre o lado exterior, ou seja que nada há de factual neste diário. A única coisa que acontece é um «eu» que sente e pensa o seu destino no tempo. Veremos como este diário corresponde às três grandes configurações definidas por Alain Girard: a procura do eu, a perda do eu e a conquista do eu.                                                                                              
                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                              
Esta procura do autós, no caso de Fernando Aires, está intrinsecamente ligada a uma procura do sentido do bíos, por sua vez ligada a uma procura do sentido do gráphein: “What significance do we impute to the act of writing?”, segundo as palavras de James Olney (1980: 6).
O pilar da escrita de Aires é a consciência de que a vida é um milagre irrepetível que não se pode deixar ao desbarato um único dia. “Aproveita” (III, 8 / III, 216 / IV, 26) exclama Aires para si mesmo, tal como nos aconselha o famoso carpe diem de Horácio: “Pelos vistos, sempre compreendi muito bem que a vida não é para ser vivida um dia sim outro não.” (II, 163). E a vida é estar atento e alerta, é reparar nas coisas pequenas, é escutar em vez de ouvir (III, 37), é não ceder à indiferença da qual se queixa logo no início do terceiro volume, é não se deixar vencer pela apatia geral e alienação que equivalem a uma morte em vida: “Não podemos viver como quem caminha distraído por uma paisagem conhecida.” (IV, 74).
O sentimento de ser diferente, original, único, tão caraterístico dos autores de diários íntimos reflete-se na quantidade de ocorrências do verbo reparar. Aires repete vezes sem conta que repara no que (a seu ver) os outros não reparam: por exemplo, um cão a farejar as sarjetas.
E para reparar, segundo Aires, é preciso devolver aos sentidos a sua importância, é preciso reabilitá-los. Por isso, eles são aqui fundamentais, sobretudo o olfato, que “é um dom especial nos deuses” (III, 184), o ouvido e a visão: “Porque a paisagem é um estado de alma que nos vive nos olhos, nos ouvidos, no olfato.” (III, 21). O Diário está repleto de cheiros, de sons e de cores que têm o poder de fazer da vida inferno ou volúpia.
O cheiro a fritos pela casa, o cheiro a ratos da casa fechada, a pestilência de um matadouro (de que ninguém se queixa) revoltam profundamente os sentidos de Fernando Aires, que se delicia com o perfume das açucenas, da hortelã do mato, dos incenseiros, das figueiras, com o cheiro “já esfumado e, todavia, tão penetrante” da cana brava (II, 167), com o cheiro a maresia das abróteas, com o cheiro a mosto das adegas, com o “cheiro que as coisas (e as pessoas) ganham no abandono” (II, 141), com “o cheiro da noite – um cheiro secreto. Feminino. Saído do corpo adolescente da terra.” (II, 193). Não por acaso, Aires dá conta das suas crises de alergia que lhe afetam os sentidos, sobretudo o olfato, fazendo da sua vida um verdadeiro martírio (II, 197 / III, 22 / IV, 75), confirmando também aqui a conclusão de Girard, segundo a qual o autor de diários íntimos sofre habitualmente de uma fragilidade física e/ou psicológica da qual resulta um sentimento amargo da vida.
Na sociedade moderna, já todos se habituaram ao ruído urbano. Não é este, no entanto, o caso de Aires: “O ruído que trouxe da rua, sacudo-o aqui como se fosse poeira. Liberto-me dele.” (II, 177). Liberta-se dele para se deixar penetrar pelo cantar dos melros (um leitmotiv do Diário), pelo rumor das ribeiras, pelo grito dos milhafres, pelas vozes dos netos em correria pela casa, pelo “ruído do vento nos incenseiros e o rumor da chuva fina” (II, 106). Todavia, é no ouvir crescer os pinheiros que Fernando Aires mais se distingue dos seus semelhantes no que respeita à alegria e à paz que esse reparar / estar atento lhe propicia: “Ali hei de ficar a ouvir crescer os pinheiros” (II, 73), “ouço crescer os pinheiros” (II, 81). Qualquer homem atento poderá ouvir o roçar dos pinheiros, mas só um intimista poderia ouvir crescer os pinheiros. Através dos sentidos, Aires parece atingir uma esfera íntima que ultrapassa a superfície das coisas.
O Diário está repleto destes reparos em que não raramente se lê uma comunhão harmoniosa dos sentidos: “o sol já descia no mar, embutido em carmim. Um frémito de luz atravessava o espaço. Pousava, devagar, na cumeeira da serra. Escorria, depois, violeta, até ao rés d’água – um vidro gelado e redondo onde se repetia, invertida, a respiração dos bosques. A terra abria-se como um ventre (…) Perfumava-se de mística e de cedros (…) O rebanho das casas imóveis apascentava o musgo das margens, bebia na água o carmim do céu. E a gente sem saber se devia acreditar.” (II, 126). Este encantamento que persiste perante as coisas, como se as visse pela primeira e última vez, carateriza o intimista que julga ser capaz de penetrar cada vez mais «o mistério e a poesia latente das coisas», por isso elas lhe aparecem sempre sob um prisma diferente.
Uma das dimensões da escrita é pois o discurso de um intimista revela uma forma mais humana de existir que não pode ocorrer senão na intimidade de cada ser: “A sociedade alheia-se da essencialidade da pessoa. (…) Depois, nada do que diz respeito ao essencial do homem pode ser posto em execução por decreto imperial. O mais importante acontece sempre no íntimo de cada intimidade.” (II, 120). Eis porque o espaço citadino adquire, no Diário, uma conotação assaz negativa, opondo-se diametralmente ao espaço circunscrito pela casa da Galera que equivale ao locus amoenus da intimidade: “aprecio agora este silêncio do meu quarto. A cortina de plátanos e de metrosíderos a defender-me do mundo. Pondo à distância a cidade ruidosa e enlameada (…) Ter este canto, esta cadeira que é a minha. Ter esta mesa onde escrevo (…) Saber a cidade ao longe, engasgada de trânsito e de esgares irritados (…) Será que faço batota comigo mesmo para me convencer destes privilégios e poder suportar a cidade cercada e o mais que dentro de mim me constrange?” (II, 99).
Cabe ao escritor o dever de velar por e revelar essa essencialidade, mesmo que isso venha a diminuir o número de possíveis leitores: “Numa época de tecnologias, para muitos não fará sentido um certo tipo de delicadezas e de sentimentos. Por essa razão, talvez grande parte do que aqui fica não tenha mais valor do que um velho bric-à-brac que só interessa a meia dúzia de colecionadores de velharias. Mas, por outro lado, não posso deixar de pensar que é justamente ao escritor que se pede seja guardador do imenso rebanho das interioridades e do indizível inacessível às matemáticas. (…) A única lei é que as coisas que fiquem escritas tenham dimensão humana.  (…) Que quem encha um volume de palavras se liberte dos grilhões das modas, tantas vezes empobrecedoras das oportunidades de ser. Que deixe bem vincada a evidência de que a vocação humana está na capacidade de desferir livremente o voo até às estrelas sem pedir licença a ninguém. A isto se chama criar.” (II, 148).
A escrita, para Aires, deve funcionar como um antídoto para a falta de humanidade veiculada pelos meios de comunicação social: “Mas o mundo está repassado quase só de violências que a imprensa, a rádio, a TV não se fartam de propagandear. Falta o outro lado humano – o país silencioso e invisível do afeto (…). O espaço ainda mal conhecido do amor que falta mostrar às pessoas para que elas possam continuar a viver.” (II, 147).
Tal como acontece, segundo Girard, com os autores de diários íntimos, Fernando Aires considera a escrita do diário como uma incontornável necessidade diária de existir plenamente e de comunicar, como uma forma desesperada de convivência, devido à dificuldade de relacionamento com os outros e à falta de comunicação real: “E vou à rua e é o mesmo: caras fechadas. As pessoas no seu fadário – curvadas de cuidados e tédios. (…) Penso que alguma coisa de muito errado se passa. (…) Afinal, esta confidência interminável tem a ver com isto mesmo: com o ar desabrido e triste dos que vejo à minha volta. Assim, a única saída é este monólogo de todos os dias.” (II, 170); “Chega mesmo o momento em que se queria, com urgência, uma casa sem gente, habitada apenas pelo nosso querer. (…) Tudo seria então à nossa imagem e semelhança e teria a dimensão da nossa exigência. ” (III, 60); “Trata-se, sobretudo, de uma necessidade. De ter alguém que me acompanhe, uma Presença com quem mantenha longa conversa de intimidade e de afeto. Se lhe pusesse ponto final definitivo, não sei o que seria.” (III, 96).
Comment peut-on penser que dans l’autobiographie c’est la vie vécue qui produit le texte, alors que c’est le texte qui produit la vie !” (Lejeune, 1986 : 29). Assim é para Fernando Aires, que, para utilizar a expressão de Girard, consegue conquistar o seu eu através da escrita: “Só estou preso à vida por este fio de palavras com que vou tecendo estas páginas. Todos os dias as vou tecendo pelo desejo de me refugiar na ficção de me pensar vivo – e então é como se estivesse.” (II, 112).
Conquistar o seu eu, tornando-se aquele em que acredita e que inventa para esse efeito: “vou-me certificando que o escrever é, sobretudo, necessidade. Mesmo assim, mal talhado, o escrever é necessidade. Decerto que sinto os meus limites, mas também, uma vez por outra oportunidades mentais de me esclarecer e de me inventar (…) Assim, muito mais do que o desejo de ser lido, tenho necessidade de me ver descrito e confessado em tinta e papel. Para todos os efeitos, é um retrato que fica (…)” (II, 231). Este «eu», inventado e construído pela escrita, é o seu «eu» verdadeiro e não aquele que os seus vizinhos conhecem.
Aires coloca muito claramente o problema da verdade/falsidade e da sinceridade no terceiro volume. Uns amigos a quem lê umas páginas do diário colocam em dúvida a veracidade do relato que o diarista fez de um velório, ao que ele responde: “A verdade é mais ‘verdadeira’ quando, para estabelecê-la, se usa a ficção de dizer que se comeu amendoins no velório. (…) É nisto que consiste a arte de contar – esta mentira propositadamente inventada para se colher, da forma mais honesta, a porção da verdade possível (…)”. Esta questão é retomada e desenvolvida no volume seguinte do Diário: “Por estranho que pareça, é esta a forma de revelar a ‘verdade’: inventar para ficar mais perto da verdade, e poder comunicar essa ‘verdade’ a quem não participou nela.” (IV, 50). À semelhança dos autores de diários íntimos que Girard descreve, também Fernando Aires lê e relê páginas do seu diário para si próprio e para amigos, como uma maneira de reviver o seu verdadeiro eu (aquele que constrói através da escrita) e de confirmar a sua existência.
Aires não admite a ideia de poder parar de escrever o seu Diário: “Por vezes anseio ‘chegar ao fim’ deste segundo volume do diário. (…) E depois de escrito, de impresso e de contemplado na estante, o que vou fazer comigo?” (II, 146); “Um Diário é assunto que não mais se acaba. Que tem de ser levado até à invalidez ou até à morte.”(II, 180).
Como pensa Girard sobre o diário íntimo, este diário é também uma meditação sobre o tempo e a efemeridade da vida: “Sensação de que tudo é terrivelmente provisório.” (III, 152). Ainda neste mesmo registo e lugar-comum do diário íntimo escrito na maturidade, ocorre frequentemente o tema da velhice ligado à degradação do corpo: “e eu neste estado, como uma árvore de casca enrugada, de folhas cada vez mais raras e frutos cada vez mais mirrados e ácidos. O que o tempo fez de mim em tão pouco tempo.” (III, 178). A sua consciência do absurdo da morte e da constante mutabilidade dos seres leva-o a fixar os espaços íntimos do seu sentir nos quais nem sempre posteriormente se reconhece: “Escreveria agora tudo o que deixei escrito da maneira como o escrevi? Mas ninguém é nunca mais da mesma maneira. Daqui, por vezes, a dificuldade de me reconhecer nas páginas que ficaram definitivamente escritas. (…) há páginas (não sei quantas) que me desespero de não ter rasgado. Porém, apesar das páginas que eu já não diria da mesma maneira como o disse (e que me desespero, sinceramente, de não ter rasgado) ali ficou uma certa memória de mim que não repudio. (…) Afinal tudo é provisório. (…) Isto que passou já tomou ausência como se não tivesse sido.” (II, 32).
Esses espaços íntimos são preenchidos pelo mar da ilha, pela ternura para com os netos, por uma voz de mulher com harpejos de violino, pelas valsas de Strauss e as sinfonias de Beethoven… Olhemos de mais perto para alguns desses espaços.
Para Aires, a solidão é um privilégio. Estar só é não se preocupar senão consigo próprio e, assim, viver o prazer de andar nu pela casa, despenteado e com a barba por fazer, é não ter que vigiar a sua maneira de ser perante testemunhas e, assim, poder passar o dia inteiro a pensar na escrita ou simplesmente a olhar um pássaro ou um pinheiro.
Estar só é ver reduzidas ao mínimo as necessidades diárias de uma casa, pois, por exemplo, basta-lhe haver pão, queijo, fruta e água para a refeição. Sobretudo, é a liberdade de conviver com o seu «verdadeiro» sem o constranger do tempo e de se despir da máscara que usa perante os outros, porque “na aparência, somos diferentes conforme estamos com estes ou com aqueles. (…) Porém, definitivamente, somos mais nós quando estamos com o nosso cão.” (III, 67): “o prazer de estar só, atenção miúda ao dentro de mim e a respeito do agora e do outrora. É a liberdade de fazer e não fazer na ausência de testemunhas. É sentimento de que se é dono e senhor do tempo e do modo. É disponibilidade de deixar de ser ator para se ser autor de cada minuto que nos cabe viver.” (II, 85), “Já disse que os meus melhores momentos é quando estou sozinho a rebuscar em mim motivos desta escrita?” (II, 144).
Escrever, para um intimista, é um ato que exige um isolamento voluntário: “No casulo da casa, eu, como escritor, sou um homem voluntariamente solitário, na atitude do médium que espera a visita dos espíritos (…) Sou prisioneiro voluntário” (IV, 47-48). A verdadeira solidão só começa “quando o livro chega ao fim”:
O espaço que os outros ocupam no diário de Aires é muito reduzido. Sabemos dos seus serões com um círculo de amigos muito restrito, mas quase nada sabemos acerca desses amigos. Pois, num diário íntimo, os outros ocorrem apenas em relação ao autor e para revelar a sua intimidade. É por isso que tantas vezes os amigos aparecem a ler, a ouvir ou a comentar passagens do seu diário.
Mais significativa ainda é a ausência de Linda. O espaço que a esposa de Aires ocupa no seu diário é apenas o das cinco letras que compõem o seu nome ou quase. Linda é apenas um nome. Na maioria das vezes, ora um nome que o acompanha: “Eu e a Linda” (III, 19 / IV, 15); ora um nome que o deixa sozinho em casa: “A Linda foi de visita a Riba d’Ave, como de costume. Lá fiquei outra vez de casa vazia.” (III, 29). Contudo, nada ficamos a saber a respeito da sua maneira de ser, nem tão pouco a respeito da sua relação com o esposo.
Não deixa de ser significativo porém o facto de serem poucas as referências ao desejo sexual e ao amor. Temas íntimos per se. Aqui, muito provavelmente, o meio pequeno onde e para o qual o autor escreve funciona como um agente de inibição. O que tal nos permite afirmar é o facto de encontrarmos no diário algumas passagens em que o autor revela uma grande fascinação por figuras femininas jovens anónimas: uma mulher que passa de lenço vermelho ao pescoço (III, 18) ou uma operadora de caixa num hipermercado com “o rosto e os seios do oval perfeito do quarto crescente” (IV, 88): “A voz dela tinha arpejos de um violino (…) Depois disto tenho a certeza de que nunca mais a esquecerás (…) e eu no desejo de ficar ali naquela sala – para sempre.” (II, 180).
Há uma única referência a uma desordem de caráter sentimental que nos faz supor qualquer desgosto amoroso: “Compreendo, cada vez melhor, como a desordem sentimental de que padeci se vai resolvendo e compensando através da excitação intelectual que a escrita me dá.” (II, 170). No entanto, quando seria pertinente esperar um desenvolvimento desta desordem neste tipo de diário, a primeira e única referência que o diarista faz quanto a ela.
Outro espaço íntimo deste diário é o da feitura dos livros e acompanhamento da sua divulgação. O diarista aponta a revisão de provas, o lançamento dos livros, o que eles significam para si, assim como elogios e críticas de que vão sendo alvo, o modo como surgiram os textos: “Escrevi hoje um conto que intitulei O Homem Que Se Perdeu No Mar. Já o vinha pensando há semanas e hoje saiu-me quase de jato (…) O que hoje me saiu, por exemplo, foi sentido como libertação e procura. Pretendeu ser saga e afirmação.” (II, 160). O diarista compara o seu diário a um livro de atas no qual transcreve fiel e integralmente uma entrevista de Vamberto Freitas publicada no Açoriano Regional: “Posto o que passo à dita entrevista que aqui tombarei, como se de um livro de atas este escrito se tratasse. ” (III, 51);
No dia 20 de outubro 88, confessa a sua emoção ao rever as provas de Histórias do Entardecer. A 3 de julho 90, fala-nos de um conto intitulado “Desenraizados”, escrito em 1988, que nunca deu à estampa por pensar vir a fazer dele uma novela. Em novembro de 92, indica que vai passar a figurar no Dicionário Cronológico da Literatura e na Enciclopédia das Literaturas de Língua Portuguesa. No dia 12 de junho de 94, refere um conto intitulado “Elegia a Sul de Capricórnio” e, no dia 25 de maio de 95, revela-nos o caráter autobiográfico dos seus contos Memórias da Cidade Cercada.
Carateriza-se este diário por uma constante autoreflexividade no que respeita à obra que se vai criando. Surgem frequentemente inquietudes e dúvidas tanto quanto ao valor intrínseco dos textos, como quanto ao facto de virem ou não a ser lidos: “Disse há dias que gostaria de escrever a dita página cheia de rasgo e de frescura que ainda não escrevi. ” (III, 55); “Acabo de reler estas páginas do 3.º volume, numa espécie de balanço geral. (…) há de tudo: passagens aproveitáveis, mesmo boas – não fossem as outras, as medíocres: forçadas, artificiais, sem aquela força por que tanto me tenho esforçado. ” (III, 61); “O insulto da escrita falhada” (IV, 10). “Mas os deuses nem vão saber que o livrinho existe.” (II, 19), “Mas quem é que me vai ler? Meia dúzia de pessoas. E daí? Pois sim, mas o estar ali exposto, mesmo sob a forma das metáforas dá desconforto. Põe-me pouco à vontade” (II, 27); “E quando sair impresso [este volume do diário] quem saberá? Quantas pessoas o vão ler? Não tenho dúvidas de que fará menos ruído do que uma pedra atirada ao charco.” (II, 232); “Vistas bem as coisas, que oportunidades tem um ilhéu, que vive no seu rochedo, de vir a ser conhecido na capital e arredores? Antero, Teófilo, Nemésio, fizeram a sua vida pela metrópole e tinham posição – além do talento que Deus lhes deu.” (IV, 12). Este tipo de queixas e a procura de elogios, como abaixo veremos, são, segundo Girard, comuns aos autores de diários íntimos (1986: 506) e caraterizam o seu sentimento de perda do eu.
Como forma de combater este pessimismo, vai lendo os seus textos aos amigos e anotando o seu contentamento por eles agradarem: “O serão foi quase alegre, até porque tive oportunidade de ler coisas da minha lavra. Cometo, por vezes, este pecado, talvez levado pelo desejo de ser ‘centro’. Possivelmente por algo de narcísico que nos toca a todos. Também (e principalmente) por ser oportunidade de catarse, de exercício mental, de pretexto para outras conversas. Necessidade de me dar a conhecer e de comunicar. (…) Deixem-me ao menos a ilusão de me saber escutado.” (II, 158).
Reconhece sem falso pudor que precisa de se saber lido, de ser elogiado, de se sentir amado: “Ah como me soube bem ouvir as suas palavras sobre os meus escritos! (…) Não se escreve para ouvir elogios. Escreve-se porque sim. Mas eu preciso de alguém que venha e me diga.” (II, 78); “O nosso Ego insaciável de mesuras não suportando o anonimato.” (II, 109). Grita o seu orgulho por ser alvo de elogios por parte de pessoas que respeita, tais como uma sua aluna (II, 145), Onésimo Teotónio de Almeida (II, 37), Eugénio Lisboa (II, 157), ou ainda Vergílio Ferreira: “Tive carta de Vergílio Ferreira falando que tinha lido o meu Diário. (…) Aqui no meu rochedo, recebo notícias de Vergílio Ferreira (…). Um acontecimento destes não podia ficar no segredo. Ajuda-me a amenizar os dias (…) dá-nos uma grande vontade de continuar.” (II, 162). Aires precisa do reconhecimento, não só como escritor, mas também simplesmente como homem sensível que é. Veja-se como ele espera que lhe “façam uma ovação” por ter cozinhado abróteas com batatas e hortaliças (II, 81).
Em sintonia com os valores que inspiram a conduta de muitos autores de diários íntimos, segundo Girard (1986: 534), Aires mostra um profundo desprezo pelo dinheiro e pela atitude consumista da sociedade moderna, pela ambição política e pela “mentalidade burguesa do lucro” (II, 100), a favor dessa forma mais humana de existir que passa forçosamente pela comunhão com a natureza e com a intimidade de cada ser: “deixo aos outros os ganhos fartos em notas de banco, a conquista dos lugares importantes do Poder, (…) A mim me basta a velhice das faias e este cheiro a caruma das matas – as coisas que acrescentam vida à vida (…) ” (II, 87); “Não estou nos bastidores da política local (Devia estar?). Nem no segredo da política dos politiqueiros (…) Quando a gente sabe que tudo neles (na esmagadora maioria deles) é da natureza da flatulência (…)” (II, 102); Outra vez o Natal (…) A chamada santa quadra do Natal é isto que se vê: uma espécie de ‘estouro da manada’ (como dizem, suponho, os cowboys) e que faz desabar uma multidão enlouquecida em todo o lugar onde se compram coisas.” (II, 33).
Aires é um espírito confessadamente religioso que recusa o catolicismo tal como é praticado. Revoltado contra os dogmas, não aceita o Deus intolerante e concebe que a fé só pode verdadeiramente ser vivida na intimidade do ser: “15 de agosto, dia de Santa Maria: “A Senhora vai sair no seu andor por entre uma chuvada de dólares, e haverá bebedeiras pelas tabernas e cascas de melancia espalhadas pelo adro. (…) Salve-nos Deus, que é quase só isto a nossa santa religião.” (II, 78); “Mas Deus, se existe, não está lá para (…) Deus não se interessa nada, mesmo nada, com aquilo que os padres insistem em dizer que Ele se interessa: por exemplo, como nós termos de acreditar que é trino e uno. E que o Filho está à direita do Pai, e assim. Deus está interessado é com o nosso coração.” (II, 189); “Dia chegará em que não será na montanha, nem no Templo, nem em nenhum altar particular que se prestará culto, mas no íntimo de cada um.” (III, 208).
Como historiador que é, vai anotando a ocorrência de factos que marcam a história, ou lembrando datas já há muito registadas: o ano um depois do muro de Berlim (9/11/89), a queda de Ceausescu (12/89), o octogésimo segundo aniversário do assassinato de Carlos de Bragança (1/2/90), a reunificação da Alemanha (10/90), o bicentenário da morte de Mozart (5/12/91), a morte de Fernando Namora (31/1/89) ou de Greta Garbo (4/90). Através da simples seleção dos factos, mas também da sua interpretação, o que o autor pretende revelar é uma intimidade.
Estas datas são amiúde acompanhadas de reflexões, mas sobretudo de preocupações que o diarista repudia por não suportar o sentimento de um horror perante o qual se sente totalmente impotente: “As novas que a imprensa traz, cada vez mais inquietantes. Que vai acontecer no Golfo?” II, 233: “últimas notícias sobre a crise do Golfo. Fala-se de uma nova cruzada (…) Mas agora já não é por causa da profanação dos lugares santos do Cristianismo (como foi nos sécs. XI-XII) mas por causa da profanação dos lugares sagrados do Petróleo, outro deus ainda mais universalmente adorado. (…) Com todo o seu cortejo de horrores, a guerra está aí à porta (…) Em mim um sentimento de impotência e de humilhação. Para esquecer, fui à noite ouvir Eduardo Hubert. Tocou Schumann e Ravel.” (II, 224); “No coração dói-me a amargura da impotência. A dor do mundo.” (IV, 83).
Arquiva também nas páginas do seu diário a sua história íntima da cultura açoriana, ao registar impressões de concertos e festivais de música, exposições de pintura e lançamentos de livros, congressos e colóquios. Deixa-nos páginas de valor inestimável ao conciliar crítica literária e testemunho sobre um determinado escritor. É o que acontece, por exemplo, com os escritores Dias de Melo (II, 51-59 / III, 191-192), Daniel de Sá (III, 190), Álamo Oliveira (IV, 100-101), ou com a pintora Luísa Athaíde (III, 25-26). Chega a transcrever na íntegra o que disse acerca de um poeta em praça pública. É o caso de Ruy Galvão, que considera seu mestre e muito admira ao ponto de integrar poemas seus nas páginas deste diário (II, 64-65). No mesmo espírito de arquivista que intimamente pretende mostrar, transcreve cartas que escreve a amigos e cartas que deles recebe (II, 82).
Pouco fala da sua atividade de professor, mas a referência a algumas aulas serve-lhe frequentemente para veicular ideias e modos de conceber a História: “Aula sobre o tema: O significado do Sebastianismo no contexto da União Ibérica. (…) Sugeriu-se por exemplo, que na península, por falta de hábitos de investigação científica, só tardiamente se demarca a fronteira entre o possível e o impossível. A realidade e o sonho. Donde a dominância do sobrenatural e da fantasia que ajudam, também, a definir a nossa alma sebástica.” (II, 143).
“E eu lembrei a imensa manhã da minha meninice onde havia o lugar do mundo mais seguro que já me foi dado conhecer: o colo de minha Mãe.” (II, 133)
À semelhança de Proust, em À la recherche du temps perdu, Aires procede a uma justaposição de tempos e espaços passados e presentes, tentando assim ultrapassar o tempo que nega a vida e o espaço que separa os seres. Tal como acontece no episódio da madalena, no romance de Proust, em que o sabor atual de um biscoito molhado numa chávena de chá desencadeia a lembrança do mesmo sabor experimentado num passado já longínquo e com ele ressuscita todo esse passado, no dia 10 de novembro de 1988, a chuva fina a mudar de direção conforme o vento parece ao diarista um enxame de mosquitos no ar, desencadeando a lembrança da mesma sensação experimentada num dia de desgraça para a sua avó, traz-lhe a memória de um passado não totalmente recuperável: “E foi esta chuvinha, assim como o farelo peneirado do alto, que me trouxe as vozes e um susto diluído que ainda sinto. Tudo cheio de interrupções e de coisas esquecidas para sempre.” (II, 30). A voz da Linda a chamá-lo para o almoço lembra-lhe a da mãe em semelhante situação (II, 166); o gesto de refrescar uma melancia ao fio da torneira lembra-lhe o hábito antigo antes do aparecimento dos frigoríficos (II, 222); a contemplação de uma vindima lembra-lhe “a ladeira pedregosa do Pico do Frade e os homens carregados de cestos de uvas (…)” e o ti Ermínio Cassota (II, 223); o cheiro a sardinha assada lembra-lhe o pai “em mangas de camisa, a comê-las com pão de milho caseiro.” (II, 230); o cheiro a “roupa que em tempos vinha da América para os parentes pobres das Ilhas” lembra-lhe a excitação da família ao chegarem as encomendas de Tia Silvana: “Isto era antigamente.” (III, 34).
O cheiro, o sentido mais trabalhado por Fernando Aires, é dos mais poderosos no que respeita a esta alquimia proustiana: “De manhã a Linda trouxe tangerinas (…) descasquei uma, e o perfume intenso recordou-me tudo de uma vez: o Natal da infância, o licor que minha mãe fazia, o presépio, a consoada (…)” (III, 196); “Surpreendo-me com o poder que tem o cheiro para recriar presenças, disposições de alma (…)” (IV, 60).
Certos lugares são também suscetíveis de ativar a rememoração do passado. É o caso do cais que lhe lembra a sua partida para Coimbra aos 18 anos (II, 151), assim como da casa da sua infância: “basta passar por ali, olhar (…) Num relance, é toda uma vida, com o que ela teve de coisas e de gente. ” (III, 57). E assim recorda Tia Querubina, D. Antónia “de luto fechada” e a caixa de música que guardavam no quartinho do meio. No quarto volume, um jantar em sua homenagem no salão do seu antigo liceu traz-lhe lembranças do tempo em que ali vinha como aluno e dá conta das leituras que fazia naquela época: “Depois dos contos de fadas da minha meninice, seguiu-se, de perto, Júlio Verne (…)” (IV, 90).
As transformações inevitáveis do progresso que caraterizam hoje em dia Ponta Delgada acendem na memória do diarista a imagem do antigo rosto desta cidade: “Pus-me a relembrar como era a cidade de há quarenta anos. (…) Que restava de outrora?” (II, 178); “o sítio por onde antigamente se entrava na Mata da Doca (…) Agora já não é mata nenhuma. Agora é uma coisa monstruosa e de pedra (…). Pois naquele tempo, havia ali uma mata (…) Logo no começo, voltada para a Rotunda, ficava a minha escola primária (…)” (II, 227/228). A imagem deste lugar dá azo a recordações da professora e das aulas.
Mortes e aniversários são também energia de ativação da memória: a morte de um amigo (II, 164 / III, 16), o aniversário da morte do seu pai (III, 131-132), o dia do seu aniversário (II, 149 / III, 107 /), ou do da sua esposa: “Faz hoje anos a Linda. (…) E um dia aconteceu o encontro (II, 237/238). 
Outro meio de recuperar o passado e de travar a roda do tempo é através da leitura de velhas cartas e jornais: “Estive a ler cartas de há muitos anos e foi como se o tempo parasse” (II, 114); “Encontro num armário vários números do Açores de 1967. Folheio alguns e é como levantar a tampa de um baú onde se tivesse aferrolhado o passado.” (III, 6). Ou ainda da contemplação de velhas fotografias: “Tenho para aí retratos de antepassados (…) Torturo a memória, rebusco-a (…)” (II, 234).
Por analogia, a sua convivência com os netos faz vir à tona impressões da sua própria infância: “Quando a sua neta Beatriz faz um ano: “E eu lembrei a imensa manhã da minha meninice onde havia o lugar do mundo mais seguro que já me foi dado conhecer: o colo de minha mãe.” (II, 133).
A autoreflexividade que carateriza este diário é ainda um agente de transição do tempo presente para o tempo passado. Assim, na tentativa de explicar a génese do próprio diário, Aires apresenta uma retrospetiva da sua vida literária: “Desde os verdes anos me tomei de admiração por quem escreve. E, digamos, desde o liceu, no jornalinho ‘Girassol’, me pus a ensaiar aquilo que só no tempo se foi configurando em escrita. Aos 14-15 anos (imagine-se!) comecei mesmo um romance que chegou a ser batizado (‘As ruínas de Valhadolid’) e que morreu, logo ao nascer, de debilidade congénita. Com os anos fui percebendo o em que consiste a intimidade da pessoa consigo mesma (…) Começava eu então (por 45-46) a partilhar dos modos e dos sonhos do grupo do bar Jade (como eu o designo) do qual saiu, em devido tempo, a ideia do Círculo Cultural Antero de Quental e a revistinha Açória. Além da minha pessoa, constituía o grupo o Eduíno (…) o nosso grupo propunha-se em primeiro lugar (…) Depois foi Coimbra (…) Afonso Duarte (…) Foi assim que nasceu este Era Uma Vez o Tempo.” (II, 27-28).
Através da leitura de textos antigos, Aires avalia a consistência ontológica em função da ideia de permanência, desafiando o caráter transformador do tempo: “Estive a ler cartas de há muitos anos. Foi como entrar na minha alma antiga e descobrir como muito pouco mudou (se é que mudou): as mesmas nostalgias, a mesma impaciência, os mesmos desejos. O mesmo silêncio interior onde eu próprio tenho dificuldade em entrar.”
Apesar da aproximação que fizemos com a obra proustiana, Fernando Aires nunca poderá escrever o capítulo intitulado “Le temps retrouvé”, pois para ele os lugares da sua memória são “um estilhaçar de imagens que se incompletam” (II, 228): “No fim, não somos mais do que túmulos vivos de um passado extinto que, em grande parte, não aconteceu da maneira que se conta e, definitivamente, ficará por contar.” (II, 153); “O que temos do passado são pedaços, nomes perdidos, sombras, numa grande promiscuidade impossível de destrinçar.” (III, 196).
Por fim, pensamos que o Diário de Fernando Aires revela uma preocupação estilística que não deve ser menosprezada e poderá ser analisada em relação com o caráter intimista que marca profundamente este texto, como o revelam metáforas tais como: “Depois a chuva para, e o ar, as casas, o chão, ficam com o desalinho de cabelos, o perfume, a frescura de pele, a ereção de mamilos de moça que acabou de sair do banho e se contempla diante do espelho.” (IV, 80). O autor utiliza variados recursos estilísticos para tentar veicular o indizível das coisas, ou mais uma vez «a poesia latente das coisas», como acontece por exemplo com as seguintes aliterações: “a luz fuzilou no espelho do quarto, azulando a escuridão. E os trovões rolaram longamente como calhaus imensos num céu oco.” (II, 118). O autor considera esta preocupação estilística como primordial, pois grava-a nas próprias páginas do seu diário como que para ainda mais a reforçar: “Estar atento ao som das vogais e à posição das consoantes. Ter infinita cautela com os adjetivos e os verbos. Não abusar dos hífenes e das reticências. Recuperar as sílabas perdidas.” (IV, 23).
·           Aguiar, Cristóvão de (1999) Relação de Bordo (1964-88), Porto, Campo das Letras.
·           Aguiar, Cristóvão de (1997) “Relação de Bordo I. Sobre Diário IV de Fernando Aires”, in Suplemento Açoriano de Cultura, n.º 56, 12 junho.
·           Aires, Fernando (1990) Era uma Vez o Tempo, 2º volume, Instituto Cultural de Ponta Delgada. Era uma Vez o Tempo, Diário III (1993) e Diário IV (1997), Edições Salamandra, Lisboa.
·           Bettencourt, Urbano (1983) O Gosto das Palavras, col. Gaivota, nº 31, Angra, SREC; (1987) O Gosto das palavras II, Ponta Delgada, Signo; (1999)O Gosto das Palavras III, Lisboa, Edições Salamandra.
·           Boerner, Peter (1978) «Place du Journal dans la Littérature Moderne», in Le Journal Intime et ses Formes Littéraires, Actes du Colloque de septembre 1975, Genéve-Paris, Librairie Droz.
·           Didier, Béatrice (1991) Le Journal Intime, Paris, P.U.F., Collection Littératures Modernes, 2è. Ed.
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Freitas, Vamberto (19
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·           Freitas, Vamberto (1992) O Imaginário dos Escritores Açorianos, Lisboa, Edições Salamandra.
·           Freitas, Vamberto, (1999) A Ilha em Frente, Lisboa, Edições Salamandra.
·           Girard, Alain (1986) Le Journal Intime, Paris, P.U.F., Collection Dito, 2è. Ed.
·           Gusdorf, Georges (1991) Auto-bio-graphie, Paris, Éditions Odile Jacob.
·           Gusdorf, Georges (1948) La Découverte de soi, Paris, P.U.F.
·           Lejeune, Philippe (1986) Moi Aussi, Le Pacte Autobiographique (bis), Paris, Seuil.
·           Leleu, Michèle (1952) Les Journaux intimes, Paris, P.U.F.
·           Madelénat, Daniel (1989) L’Intimisme, Paris, P.U.F.
·           Olney, James (1980) Autobiography. Essays Theoretical and Critical, Princeton, Princeton University Press.
·           Régio, José (1994) Páginas do Diário Íntimo, Lisboa, Círculo de Leitores.


[1] Não incluímos no corpus deste trabalho o primeiro volume do Diário, que não estava disponível no mercado.
[2] Era uma Vez o Tempo, 2º volume, Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1990. Era uma Vez o Tempo, Diário III (1993) e Diário IV (1997), Edições Salamandra, Lisboa.
[3] No que respeita às citações do Diário de Fernando Aires, a referência bibliográfica aparece no corpo do texto, no fim da citação, entre parêntesis, e inclui em numeração romana o número correspondente ao volume em que está inserida a citação, seguido do respetivo número de página em numeração árabe. 
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como vivi e escrevi sobre o 25 de abril (em Timor-Leste)

in ChrónicAçores volume um

Por mais que o tentassem convencer que o 25 de Abril fora um erro, jamais esqueceria a Ditadura Nacional e os anos que se seguiram e preencheram a primeira parte da sua vida. Chegava já a admitir que a sociedade no tempo da ditadura era menos corrupta, a justiça funcionava melhor, e a educação (se bem que elitista) proporcionava muitos mais conhecimentos do que hoje em dia. Mas a falta de liberdade, a opressão política, a cegueira colonial e a falta de visão para o futuro, eram zonas negras dos anos de obscurantismo salazarista. A sua mãe bem se podia orgulhar de ter apertado a mão ao ditador (o seu pai costumava ironizar dizendo que ela andara dias sem a lavar) mas todos esses anos foram apenas de obscurantismo e repressão. Uma minoria de pessoas, que se julgavam importantes, bajulavam o velho ditador em troca dumas pequenas benesses e lugares de proeminência, enquanto a polícia política, silenciosa e matreiramente, se encarregava de punir todos os que queriam pensar pela sua própria cabeça. Cuidando do país como se de uma mercearia se tratasse e escorreitas as contas, o ditador começara a amealhar uma valiosa fortuna para o país, para a geração pós 25 de Abril perdulariamente esbanjar. Tal como o ditador fazia com ele mesmo, na sua espartana e sovina maneira de ser, incorrupto, acabaria por nunca investir nem gastar essa fortuna. Nem para melhorar o país, nem para uso pessoal (honra lhe seja feita) pois o país não precisava de progresso que esse só traz a devassidão e maus costumes. Era conhecido por “botas” por jamais usar outro calçado que não botas. De igual forma imaginava um país, vestindo uniforme e cinzento, como ele mesmo. Queria uma massa de seguidores fiéis que nunca o questionassem, e uma população ignorante para poder continuar a dirigi-la sem que ela se inquietasse com o rumo seguido, numa visão paternalista e autocrática. Um bom dono de mercearia mas sem ideias para o país, para além dos seus ideais sempre próximos do Eixo da 2ª Grande Guerra, por quem nunca escondeu a sua simpatia apesar de ter mantido Portugal “oficialmente” neutro na guerra (exceção feita à ocupação de Timor pelos japoneses e australianos). Emulava o seu vizinho da Espanha que vencera a guerra civil espanhola contra os comunistas e outros vermelhos, inimigos dos católicos e da pátria, mas jamais poria os pés fora do torrão continental do velho e decadente Império Colonial Português. Nunca se apercebera de que deveria ter melhorado a situação de pobreza extrema e de miséria da maioria da população.
Lembra-se de ter escrito um artigo sardonicamente crítico das eleições para a famigerada Assembleia Nacional. A sua sátira mordaz fora entendida pelos apaniguados do regime (como o secretário do governador, José Joaquim Espiga Tomás Gomes) como sendo exemplificativa do apoio que as novas gerações davam ao velho regime. Só lamentava não ter recuperado esse número de A Voz de Timor e não ter guardado esse manuscrito. Logo a seguir dá-se o abortado Golpe das Caldas (da Rainha) a 16 de Março e logo a seguir o 25 de Abril que só chegaria a Timor a 18 de Novembro desse ano. A onze de Março, e sem qualquer pré-aviso, o Governador Alves Aldeia deixa o território rumo a Portugal para “expor os problemas de maior impacto [ao Governo de Lisboa] na promoção socioeconómica do povo timorense, considerada prioritária em relação a todos os demais.”
A dezasseis de Março, na pequena vila das Caldas da Rainha em Portugal, um grupo de oficiais do exército tenta, sem sucesso, arrebatar o poder ao Dr. Marcello Caetano, então Primeiro-ministro, que sucedera a Salazar, como perpetuador da ditadura, sob um manto de pseudo-abertura política designada como “primavera política”. Sobre o abortado ‘Golpe das Caldas‘ nada transpira em Timor até mais tarde. Em 26 de Março, o governo australiano apresenta um protesto formal ao governo português pela concessão por Lisboa dos direitos de prospeção de petróleo à companhia norte americana “Oceanic.” A área em contencioso tinha cerca de 23 mil milhas quadradas (59,565 km²) e, de acordo com a reivindicação australiana, continha partes já sob a concessão dada à companhia australiana Woodside-Burmah Oil. Para além disso, de acordo com a Nota Oficial de Protesto, do governo de Camberra, outras áreas da zona de concessão da Oceanic faziam parte de uma área que estava a ser negociada entre a Indonésia e a Austrália para perfurações de prospeção. De facto, um terço da área concedida à Oceanic era um enclave entre plataformas offshore já projetadas, e cedidas por concessão à australiana Woodside-Burmah. Entretanto, em Camberra, o embaixador português, Dr. Mello Gouveia apresentava ao Governo Australiano uma Nota Oficial [de Protesto] onde o Governo declarava “não poder reconhecer a reclamação australiana, por não haver legislação suplementar entre os dois países, ambos signatários do Tratado de 1954 (Convenção Internacional sobre Fronteiras Marítimas).” Gough Whitlam, primeiro-ministro australiano reagiu energicamente a esta Nota, numa Conferência de Imprensa, em que afirmava, que: “O Governo Australiano tem o direito de defender os recursos naturais do país que estão a ser postos em questão no Mar de Timor.”
Esta confrontação sobre o dossier petróleo vai, em breve, passar a segundo lugar face às gravíssimas crises constitucionais em ambos os países. Uma controvérsia sobre educação abalava por esses dias Timor, com o Dr. Félix Silva Correia, (então representante da ANP em Timor e Chefe da Repartição dos Serviços Provinciais de Educação), reagindo iradamente contra observações críticas às estruturas da educação e alegados aumentos de alfabetização. O jornal local “A Voz de Timor” publicara, em 19 de Março, um suplemento especial dedicado à educação e, nele incluía uma entrevista auto elegíaca do Dr. Félix Correia. Os editoriais denunciam as falsas estatísticas e apresentam propostas para melhorar o nível de ensino e de alfabetização. Em vez de aceitar os dados estatísticos oficiais de 80% de alfabetização JC avançava com o mesmo número mas representando o analfabetismo. De imediato, a máquina política manipulada pelo Dr. Correia inicia um coro de protestos de apoio à educação, na sua maioria assinados em cartas à Redação pelos mais representativos líderes locais e funcionários públicos. JC é sujeito a um inquérito oficial liderado pelo Governador interino. Alguns professores, irritados pelas acusações, que consideram difamatórias, exigem uma reparação.
Timor vive os últimos dias do decrépito Estado Novo e nem sequer se dá conta disso. No mesmo número, publicava-se um artigo ‘Educação e Autonomia’, já com algumas décadas, do autor português proscrito, António Sérgio. Recorde-se que este autor era tabu (antes do 25 de Abril), mas o artigo não motivou comentários, se bem que devesse ter sido banido de publicação. Incoerência dos censores ou mera e flagrante ignorância?
Curiosamente (ou talvez não), Ramos Horta escreve editoriais a apoiar Félix Correia. Como Editor-Chefe do jornal e autor de “Educação – Um Suplemento Especial” JC é suspenso. Sendo oficial miliciano está sujeito aos regulamentos e normas militares, devendo enfrentar a justiça militar pelo seu crime. A repressão das hierarquias militares suscita uma greve simbólica (de braços caídos) dos Serviços da Imprensa Nacional, liderados por Cristóvão Santos, onde o jornal era impresso. O Governador interino impõe profundos controlos no jornal depois daquele danoso desaire. O autor, silenciado com a mordaça do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) fica impedido de se expressar publicamente ou de apresentar defesa. Esta controvérsia arrasta-se até Abril 1974.
Entretanto, como Chefe Interino do Batalhão de Serviços de Intendência, responsável por víveres e combustíveis em todas as unidades militares do território, JC consegue aprovar um novo sistema de utilização de gasolina. Pela primeira vez, os soldados e os cabos (os mais desfavorecidos economicamente) passam a ter direito a obter artigos de consumo para uso pessoal, tal como já acontecia com as elites hierarquicamente superiores. Crê-se que o Comandante Militar Interino, Tenente-coronel Mário Dente, assinara o despacho para o novo sistema, sem lobrigar a sua perigosa latitude. Nesse mesmo dia, 5 de Abril, como resultado da ação do novo sistema, outra controvérsia surgia: as autoridades civis exigem que o governo intervenha e cancele o sistema. Convém referir que os civis estavam sujeitos a restritas medidas de racionamento de gasolina desde Dezembro 1973. Os militares tinham estoques à sua disposição para um consumo máximo até dezoito meses, fruto da gestão cuidada dos Serviços de Intendência. A situação entre civis e militares é tensa. As chefias militares temerosas. Evitam agir em vésperas da chegada do Governador e Comandante em Chefe. O próprio Governador, Coronel Aldeia, nomeara JC para tomar conta do jornal, pouco depois de o trazer de Bobonaro para Dili.
Ainda na célebre edição de 19 de Março, JC publicara uma colagem com alusões à falhada rebelião das Caldas da Rainha. Incluíra-se também uma menção ao controverso livro “Portugal e o Futuro” pelo, então General Spínola (em breve, novo Presidente de Portugal), e o apoio que tal livro recebera nas Nações Unidas.
Outros editoriais naquele número histórico abordavam os problemas que poderiam ter provocado o Golpe das Caldas, seus precedentes e possíveis implicações futuras. Nada disto fora censurado. O sucesso foi tal que obrigou, pela primeira vez na história do jornal, a que se fizesse uma re-edição…Enquanto isto acontecia, reorganizara o jornal e passara-o a diário, lentamente aumentara a tiragem e o tamanho da edição especial de sábado. Começara com 8, passara a 12, 16 e finalmente 24 páginas, com a ajuda do Chefe da Imprensa Nacional, Cristóvão Santos e com o (futuramente celebrado prémio Nobel da Paz) José Ramos-Horta a trabalhar como seu secretário no jornal. Era uma tarefa difícil num sítio onde não chegavam notícias, a não ser por onda curta, as revistas e jornais da metrópole eram velhas quando chegavam…Fizera colagens bem interessantes, retiradas de várias revistas para ilustrar as principais notícias, dado que tinham grandes dificuldades técnicas em imprimir imagens, e as que podiam eram pequenas. O equipamento era bem antigo. A composição era manual e morosa pois não havia grande variedade de tipos de letra.
O Governador Aldeia retorna a Timor a 19 de Abril. Logo após a sua chegada ao aeroporto profere o seu mais virulento discurso, para espanto dos locais.
Negando qualquer representatividade ao denominado “Movimento dos Capitães,” Aldeia salienta que “o abortado Movimento das Caldas foi severamente reprimido, e não encontrou qualquer eco ou apoio em todas as camadas, inclusive as militares.” Classificando de ‘traidores‘ os capitães envolvidos, Aldeia, neste discurso, diz ainda da alegria que sentia (em nome dos timorenses), ao ver satisfeitas todas as propostas apresentadas ao Governo Central, abrindo caminho a uma nova era de prosperidade para Timor: “Falando em nome de todos os Timorenses, tenho o prazer e a alegria de vos dizer que o Governo de Lisboa está satisfeito por poder ajudar o fiel povo de Timor, que durante tantos séculos tem sido tão fortemente Português.” Este discurso, o mais político de todos os que Aldeia fez marcou uma viragem do seu estilo habitual, de sobriedade política. Houve quem especulasse que estaria a aproveitar-se dos últimos acontecimentos durante a sua estadia em Portugal. Pouco tempo demoraria a que Aldeia e o seu discurso fossem votados ao esquecimento total, lá no cemitério da política donde raramente se regressa.
De facto, o seu melhor discurso marcou o princípio e o fim das suas aspirações políticas.
Em 27 de Abril, por sua ordem direta, executada pelo seu Secretário pessoal, Dr. J. J. Thomás Gomes, a composição deste seu discurso era retirada da Imprensa Nacional e a gravação do mesmo era retirada da estação local de radiodifusão ERT (Emissora de Radiodifusão de Timor.) O discurso quer no seu registo magnético, quer na sua transcrição escrita são, deveras, comprometedores, em termos do 25 de Abril em Portugal. Assim começou o que alguns denominaram, como “Aldeiagate.”
Embora Timor não dispusesse de telex, desde o ano anterior dispunha já de contactos radiotelefónicos com o mundo exterior. Assim, quando a Revolução dos Cravos aconteceu em 25 de Abril houve quem recebesse a notícia via telefone. Depois disso, era só uma questão de perder algum tempo agarrado aos rádios de ondas curtas…Era hora de jantar e JC estava de Oficial (Ajudante) de Dia no Quartel-general. O idoso Oficial de Dia já estava há muito a olhar para o seu umbigo, depois da sua rodada habitual de vinho “Periquita” ou outro qualquer. O operador da Telecom local, a Rádio Marconi, ligou a dizer a JC que ia ter uma chamada telefónica uma hora depois. Chamou o condutor de serviço, mandou-o ligar o Jeep e passados quinze minutos estava em Díli, ansiosamente esperando ‘a chamada’. Pressentia tratar-se de algo muito importante. Anteriormente, acordara com a família que só haveria telefonemas em caso de emergência. Há muito que confirmara que toda a sua correspondência era sujeita a censura prévia e as suas chamadas telefónicas gravadas. Sem perder tempo, pede ao condutor para passar por casa nos apartamentos da SOTA, no Largo de Lecidere, onde comunica aos colegas de habitação (o cirurgião Prata Dias e o engenheiro Proença de Oliveira, subchefe da Repartição dos Serviços de Agricultura) o que ouvira. Era a REVOLUÇÃO. Pede-lhes o máximo sigilo, liga o rádio em ondas curtas e regressa ao Q.G. (Quartel-General) onde anota no relatório que nada havia a assinalar da ‘ronda’ pela cidade. Durante o resto da noite, escuta avidamente os noticiários da BBC, Rádio Austrália e toda uma série de emissoras (até ouvira a Rádio Paquistão, pela primeira vez). Na manhã seguinte, o camarada Freitas, que ia render o autor, pergunta se havia novidades de Portugal. Sem confiar em ninguém, depois do que se passara com a controvérsia no jornal no mês anterior, responde-lhe: “Nada, que esperavas?”
Os dias que se seguem são caóticos, com toda a espécie de rumores a circular e um generalizado sentimento de incredulidade pelos acontecimentos. Quando as novas de que o governador tinha mandado apreender a gravação e a versão impressa do seu discurso, a maior parte das pessoas convenceu-se de que a ‘Revolução dos Cravos’ não era já fruto da imaginação. Os dias passam, e o oportunismo camaleónico é avassalador. Do dia para a noite todos são revolucionários. A necessária e esperada demissão do Governador Alves Aldeia começa a demorar mais do que as pessoas haviam esperado. Torna-se necessário que ele entregue a sua carta de demissão depois do já famoso discurso em que, de forma obstinada, se opunha àquilo que era já o novo regime político.
Começam a tomar vulto os rumores de que o capitão tenente Leiria Pinto, Comandante da Defesa Naval, é o nomeado pela Junta para agir localmente. Estes boatos confundem muita gente, pois Leiria Pinto era considerado como tendo ideias de direita extremamente conservadoras. Ao mesmo tempo, há quem afirme que o Chefe de Estado-maior, Major Arnao Metello, um sombrio oficial de carreira, do exército, vindo de boas famílias, é o homem de confiança da Junta de Salvação Nacional. O major Metello é um oficial conservador conhecido pela sua falta de decisão e pela falta de garra em tudo o que se reportava à ação colonial de Portugal. A oposição à continuação do coronel Aldeia no poder cresce de dia para dia. Ameaça tornar-se numa bola de neve, com os militares definitivamente divididos entre os progressistas – na sua maioria oficiais milicianos, furriéis e sargentos – e a velha guarda dos oficiais de carreira.
Entretanto em Portugal, os soldados usam os cravos encarnados nos canos das suas espingardas. O povo anda excitado com a liberdade acabada de aprender. Sobem os barómetros da esperança depois de 48 anos de obscurantismo. A situação começa a clarificar-se em Maio, embora nem todos os decretos aprovados em Lisboa se tornem extensivos a Díli. Quase nem um tiro fora disparado em Portugal. O regime caiu porque estava tão podre que estava incapacitado de suster qualquer ataque frontal. A celebrada vitória vem estampada em todos os jornais e revistas que chegam a Timor, mas de uma certa forma, parece estar a anos-luz de Timor.

Depois do 25 de Abril (data da Revolução dos Cravos em Portugal) JC começara a publicar artigos que o Comando Militar e, em especial o CEM (Chefe do Estado-Maior Arnao Metello) queriam evitar. Começara a ser chamado todas as manhãs ao CEM que simpaticamente mandava o seu motorista no velho Volkswagen do Estado-Maior buscá-lo a casa. Nessa rotina lá tinha de explicar porque publicara artigos censurados e considerados material proibido. Esta rotina prolongou-se por bastante tempo e trouxe consequências ao seu serviço militar. Uma verdadeira caça ou o jogo do gato e do rato. Em Julho desse ano morreu o seu avô materno por quem nutria um amor muito especial e de forma profunda por essa pessoa doce, carinhosa e com um enorme coração. Só saberia dessa morte em Setembro

-- 
J. CHRYS CHRYSTELLO, 
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lembrar abril 1974

 

Trova do Vento Que Passa
Poema: Manuel Alegre (excerto) [texto integral >> abaixo]
Música: António Portugal
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in EP “Trova do Vento Que Passa”, Orfeu, 1963; LP “Memória de Adriano”, Orfeu, 1983, reed. Movieplay, 1992; “Obra Completa”: CD “Adriano Canta Manuel Alegre I”, Movieplay, 1994, 2007; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001) [>> YouTube] [>> YouTube]
[instrumental]
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça | bis
o vento nada me diz. |
[instrumental]
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia | bis
canções no vento que passa. |
[instrumental]
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste | bis
há sempre alguém que diz não. |
* António Portugal – guitarra de Coimbra
Rui Pato – viola
TROVA DO VENTO QUE PASSA
(Manuel Alegre, in “Praça da Canção”, Coimbra: Cancioneiro Vértice, 1965)
Ao António Portugal
Pergunto ao vento que passa
notícias do meu país
e o vento cala a desgraça
o vento nada me diz.
Pergunto aos rios que levam
tanto sonho à flor das águas
e os rios não me sossegam
levam sonhos deixam mágoas.
Levam sonhos deixam mágoas
ai rios do meu país
minha pátria à flor das águas
para onde vais? Ninguém diz.
Se o verde trevo desfolhas
pede notícias e diz
ao trevo de quatro folhas
que eu morro por meu país.
Pergunto à gente que passa
porque vai de olhos no chão.
Silêncio – é tudo o que tem
quem vive na servidão.
Vi florir os verdes ramos
direitos e ao céu voltados.
E a quem gosta de ter amos
vi sempre os ombros curvados.
E o vento não me diz nada
ninguém diz nada de novo.
Vi minha pátria pregada
nos braços em cruz do povo.
Vi minha pátria na margem
dos rios que vão pró mar
como quem ama a viagem
mas tem sempre de ficar.
Vi navios a partir
(minha pátria à flor das águas)
vi minha pátria florir
(verdes folhas verdes mágoas).
Há quem te queira ignorada
e fale pátria em teu nome.
Eu vi-te crucificada
nos braços negros da fome.
E o vento não me diz nada
só o silêncio persiste.
Vi minha pátria parada
à beira de um rio triste.
Ninguém diz nada de novo
se notícias vou pedindo
nas mãos vazias do povo
vi minha pátria florindo.
Também nascem flores no esterco
(diz quem ganha em te perder).
Eu é por ti que me perco
perder-me assim é viver.
E a noite cresce por dentro
dos homens do meu país.
Peço notícias ao vento
e o vento nada me diz.
Quatro folhas tem o trevo
liberdade quatro sílabas.
Não sabem ler é verdade
aqueles pra quem eu escrevo.
Mas há sempre uma candeia
dentro da própria desgraça
há sempre alguém que semeia
canções no vento que passa.
Mesmo na noite mais triste
em tempo de servidão
há sempre alguém que resiste
há sempre alguém que diz não.
Canta Camarada
Letra: Popular
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in single “Menina dos Olhos Tristes / Canta Camarada”, Orfeu, 1969; CD “De Capa e Batina”, Movieplay, 1996) [>> YouTube] [>> YouTube]
Outra versão de José Afonso (in LP “República”, Lotta Continua/Il Manifesto/Vanguardia Operaria (Itália), 1975) [>> YouTube]
[instrumental]
Canta, camarada, canta!
Canta que ninguém te afronta;
Que esta minha espada corta
Dos copos até à ponta.
[instrumental]
Eu hei-de morrer dum tiro
Ou duma faca de ponta;
Se hei-de morrer amanhã
Morra hoje, tanto conta.
[instrumental]
Tenho sina de morrer
Na ponta duma navalha;
Toda a vida hei-de dizer:
Morra o homem na batalha!
[instrumental]
Viva a malta e trema a terra!
Daqui ninguém arredou;
Quem há-de tremer na guerra
Sendo um homem como eu sou?
[instrumental]
Canta, camarada, canta!
Canta que ninguém te afronta;
Que esta minha espada corta
Dos copos até à ponta.
[instrumental]
Eu hei-de morrer dum tiro
Ou duma faca de ponta;
Se hei-de morrer amanhã
Morra hoje, tanto conta.
[instrumental]
Tenho sina de morrer
Na ponta duma navalha;
Toda a vida hei-de dizer:
Morra o homem na batalha!
[instrumental]
Viva a malta e trema a terra!
Daqui ninguém arredou;
Quem há-de tremer na guerra
Sendo um homem como eu sou?
[instrumental]
* Rui Pato – viola
Gravado nos Estúdios Valentim de Carvalho, Paço d’Arcos
Fala do Homem Nascido
Poema: António Gedeão (ligeiramente adaptado) [texto original >> abaixo]
Música: José Niza
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP “Cantaremos”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”: CD “Adriano Canta José Niza”, Movieplay, 1994, 2007) [>> YouTube]
[instrumental]
Venho da terra assombrada,
Do ventre da minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
Trago boca para comer
E olhos para desejar.
Tenho pressa de viver, | bis
Que a vida é água a correr. |
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
[instrumental]
Minha barca aparelhada
Solta o pano rumo ao norte;
Meu desejo é passaporte
Para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
Nem marés que não convenham,
Nem forças que me molestem,
Correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
Que a Natureza sou eu,
E as forças da Natureza
Nunca ninguém as venceu.
[instrumental]
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença. | bis
Mesmo morto hei-de passar. |
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
[instrumental]
Venho da terra assombrada,
Do ventre da minha mãe;
Não pretendo roubar nada
Nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
Por me trazerem aqui,
Que eu nem sequer fui ouvido
No acto de que nasci.
* Rui Pato – viola
FALA DO HOMEM NASCIDO
(António Gedeão, in “Teatro do Mundo”, Coimbra, 1958; “Poemas Escolhidos: Antologia Organizada pelo Autor”, Lisboa: Edições João Sá da Costa, 1997)
(Chega à boca de cena, e diz:)
Venho da terra assombrada,
do ventre da minha mãe;
não pretendo roubar nada
nem fazer mal a ninguém.
Só quero o que me é devido
por me trazerem aqui,
que eu nem sequer fui ouvido
no acto de que nasci.
Trago boca para comer
e olhos para desejar.
Com licença, quero passar,
tenho pressa de viver.
Com licença! Com licença!
Que a vida é água a correr.
Venho do fundo do tempo;
Não tenho tempo a perder.
Minha barca aparelhada
solta o pano rumo ao norte;
meu desejo é passaporte
para a fronteira fechada.
Não há ventos que não prestem
nem marés que não convenham,
nem forças que me molestem,
correntes que me detenham.
Quero eu e a Natureza,
que a Natureza sou eu,
e as forças da Natureza
nunca ninguém as venceu.
Com licença! Com licença!
Que a barca se fez ao mar.
Não há poder que me vença.
Mesmo morto hei-de passar.
Com licença! Com licença!
Com rumo à estrela polar.
Coro dos Tribunais
Letra: Bertolt Brecht (da peça “A Excepção e a Regra”, na versão de Luiz Francisco Rebello); adapt. José Afonso
Música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP “Coro dos Tribunais”, Orfeu, 1974, reed. Movieplay, 1987, 1996) [>> YouTube]
Outra versão de José Afonso: “Coro dos Tribunais (Final)” (in LP “Coro dos Tribunais”, Orfeu, 1974, reed. Movieplay, 1987, 1996) [>> YouTube]
Foram-se os bandos de chacais
Chegou a vez dos tribunais
Vão reunir o bom e o mau ladrão
Para votar sobre um caixão
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
Quando o inocente se abateu
Inda o morto não morreu
[vocalizos]
A decisão do tribunal
É como a sombra do punhal
Vamos matar o justo que ali jaz
Para quem julga tanto faz
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
Já que o punhal não mata bem
A lei matemos também
[vocalizos]
Soa o clarim, soa o tambor
O morto já não sente a dor
Quando o deserto nada tem a dar
Vêm as águias almoçar
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
O tribunal dá de comer
Venham assassinos ver
[vocalizos]
Se o criminoso se escondeu
Nada de novo aconteceu
A recompensa ao punho que matou
Uma fortuna a quem roubou
Guarda o teu roubo, guarda-o bem
Dentro de um papel a lei
Guarda o teu roubo, guarda-o bem
Dentro de um papel a lei
[vocalizos / instrumental]
* Guitarra acústica – Fausto Bordalo Dias
Percussões – Michel De Laporte
Vozes e cordas – Adriano Correia de Oliveira, Carlos Alberto Moniz, Fausto Bordalo Dias, José Afonso, José Niza, Vitorino
Teclados – Vitorino
2.ª viola – Carlos Alberto Moniz
Arranjos e direcção musical – Fausto Bordalo Dias
Gravado nos estúdios Pye Records, em Londres, de 30 de Novembro a 8 de Dezembro de 1974
Engenheiro de som – Bob Harper
Se Vossa Excelência…
Letra: Alfredo Vieira de Sousa
Música: Adriano Correia de Oliveira
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (single “Notícias d’Abril”, Orfeu, 1978; “Obra Completa”: CD “A Noite dos Poetas“, Movieplay, 1994, 2007) [>> YouTube]
[instrumental]
Se Vossa Excelência, Senhor Presidente
Viesse cá almoçar mais vezes
Se um dia aqui chegasse de surpresa
Iria ver onde é a nossa mesa:
P’ra aí na berma da estrada
Ou entre as pilhas da madeira
Podia ver como é que a gente come
Podia ver como é que a gente vive
[instrumental]
Se Vossa Excelência, Senhor Presidente
Viesse cá almoçar mais vezes
Iria ouvir discursos bem diferentes
Nas bocas que hoje foram tão galantes
Iria ver como essa gente
Tão boazinha e sorridente
Como essa gente trata a quem trabalha
Como nos fala aqui no dia-a-dia
[instrumental]
Se Vossa Excelência, Senhor Presidente
Viesse cá almoçar mais vezes
Se cá viesse sem a comitiva
Então veria o que é a nossa vida
Veria a gente despedida
Ameaçada e ofendida
Por defender o pão das nossas bocas
Por defender o pão dos nossos filhos
[instrumental]
Se Vossa Excelência, Senhor Presidente
Viesse cá almoçar mais vezes
Se um dia aqui chegasse sem aviso
Então faria disto um bom juízo
Iria ver como é roubado
Quem dia-a-dia é explorado
Que aqui quem manda faz tudo o que quer
Mas não vai ser, não vai ser sempre assim
[instrumental]
Se Vossa Excelência, Senhor Presidente…
[instrumental]
* Fausto Bordalo Dias – guitarras
Rão Kyao – flautas
Pinguinhas – percussões

O Que Faz Falta

Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP “Coro dos Tribunais”, Orfeu, 1974, reed. Movieplay, 1987, 1996) [>>
YouTube]

 

[instrumental]
Quando a corja topa da janela
O que faz falta
Quando o pão que comes sabe a merda
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
[2x]
[instrumental / coros]
Quando nunca a noite foi dormida
O que faz falta
Quando a raiva nunca foi vencida
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
[2x]
[instrumental / coros]
Quando nunca a infância teve infância
O que faz falta
Quando sabes que vai haver dança
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
[2x]
[instrumental / coros]
Quando um cão te morde uma canela
O que faz falta
Quando à esquina há sempre uma cabeça
O que faz falta
O que faz falta é animar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
[2x]
[instrumental / coros]
Quando um homem dorme na valeta
O que faz falta
Quando dizem que isto é tudo treta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
[2x]
[instrumental / coros]
Se o patrão não vai com duas loas
O que faz falta
Se o fascista conspira na sombra
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta
[2x]
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é acordar a malta
O que faz falta
O que faz falta é empurrar a malta
O que faz falta
O que faz falta é agitar a malta
O que faz falta
O que faz falta é libertar a malta
O que faz falta
O que faz falta é avisar a malta
O que faz falta
O que faz falta é dar poder à malta
O que faz falta
* Guitarra acústica – Fausto Bordalo Dias
Percussões – Michel De Laporte
Vozes e cordas – Adriano Correia de Oliveira, Carlos Alberto Moniz, Fausto Bordalo Dias, José Afonso, José Niza, Vitorino
Teclados – Vitorino
Arranjos e direcção musical – Fausto Bordalo Dias
Gravado nos estúdios Pye Records, em Londres, de 30 de Novembro a 8 de Dezembro de 1974
Engenheiro de som – Bob Harper
Canção da Beira Baixa
Letra e música: Popular (Beira Baixa)
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP “Cantigas Portuguesas”, Orfeu, 1980; “Obra Completa”: CD “Cantigas Portuguesas”, Movieplay, 1994, 2007; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001) [>> YouTube] [>> YouTube]
Primeira versão de Adriano Correia de Oliveira (in EP “Lira”, Orfeu, 1964)
[instrumental]
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver
Acabado de nascer
[instrumental]
Quando eu já for velhinho
Acabado de morrer
Olha bem para os meus olhos
Sem vida são p’ra te ver
Acabados de morrer
[instrumental]
Era ainda pequenino
Acabado de nascer
Inda mal abria os olhos
Já era para te ver
Acabado de nascer
[instrumental]
* Arranjos e direcção musical – Fausto Bordalo Dias
Técnicos de som – Moreno Pinto e Manuel Cunha
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Vira de Coimbra
Letra e música: Popular
Arranjo: António Portugal
Intérprete: José Afonso* (in EP “Balada do Outono”, Rapsódia, 1960; LP “Baladas e Fados de Coimbra”, 1982; CD “Os Vampiros”, Edisco, 1987, 2006)
Outra versão de José Afonso (in LP “Fados de Coimbra e Outras Canções”, Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 1987, 1996)
[instrumental]
Dizem que amor de estudante
Não dura mais que uma hora;
Só o meu é tão velhinho,
Inda se não foi embora.
Coimbra p’ra ser Coimbra
Três coisas há-de contar:
Guitarras, tricanas lindas,
Capas negras a adejar.
Ó Portugal trovador,
Ó Portugal das cantigas,
A dançar tu dás a roda,
A roda co’as raparigas.
Vou encher a bilha e trago-a
Vazia como a levei;
Mondego que é da tua água?
Que é dos prantos que eu chorei?
* António Portugal e Eduardo Melo – guitarras de Coimbra
Manuel Pepe e Paulo Alão – violas
Charamba
Letra e música: Popular (Açores)
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira (in LP “Cantigas Portuguesas”, Orfeu, 1980; “Obra Completa”: CD “Cantigas Portuguesas”, Movieplay, 1994, 2007) [>> YouTube]
Primeira versão de Adriano Correia de Oliveira (in EP “Lira”, Orfeu, 1964)
[instrumental]
É esta a vez primeira,
A vez primeira
Que neste auditório canto;
Em nome de Deus começo,
De Deus começo,
Padre, Filho, Esp’rito Santo.
[instrumental]
A saudade é um luto,
Ai, é um luto,
É um luto, uma afeição;
É um cortinado roxo,
Ai, é um luto
Que me corta o coração.
[instrumental]
Eu cá sei e tu lá sabes,
E tu lá sabes,
O que não sabes eu sei;
Eu já vi andar a morte,
Andar a morte
Às costas de um peixe-rei.
[instrumental]
* Arranjos e direcção musical – Fausto Bordalo Dias
Técnicos de som – Moreno Pinto e Manuel Cunha
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa
Inquietação
Letra: Edmundo de Bettencourt
Música: Alexandre Resende
Intérprete: José Afonso* (in LP “Fados de Coimbra e Outras Canções”, Orfeu, 1981, reed. Movieplay, 1987, 1996) [>> YouTube] [>> YouTube] [>> YouTube]
[instrumental]
És linda, se foras feia
Mesmo assim eu te queria;
Não é por ser lua cheia
Que a lua mais alumia.
[instrumental]
Todo o bem que não se alcança
Vive em nós morto de dor;
Quem ama d’amor não cansa
E se morrer é d’amor.
* Octávio Sérgio – guitarra de Coimbra
Durval Moreirinhas – viola
Gravado nos Estúdios Rádio Triunfo, Lisboa
Técnicos de som – Jorge Barata e Moreno Pinto
Roseira Brava
Letra: António Ferreira Guedes
Música: José Niza
Arranjo: Rui Ressurreição
Intérprete: Adriano Correia de Oliveira* (in LP “Gente de Aqui e de Agora”, Orfeu, 1971, reed. Movieplay, 1999; “Obra Completa”: CD “Adriano Canta José Niza“, Movieplay, 1994, 2007; CD “Vinte Anos de Canções”, Movieplay, 2001) [>> YouTube]
[instrumental]
Roseira brava, roseira
barco sem leme nem remos
roseira brava é a vida
que amargamente vivemos.
Roseira brava não tem
rosas abertas nos ramos
roseira brava é espinho
que em nosso peito cravamos.
Roseira brava, roseira
rosa em botão desfolhada
roseira brava é teu rosto
rompendo de madrugada.
Roseira brava no vento
vai espalhando a semente
roseira brava é lembrar
quem se não lembra da gente.
Roseira brava, roseira
que o sol de Verão não aquece
roseira brava é o amor
a quem amor não merece.
Roseira brava é o ódio
que vai minando a raiz
roseira brava, roseira
roseira do meu país.
Roseira brava é o ódio
roseira do meu país.
[instrumental]
* Rui Ressurreição – piano e acordeão
José Niza – viola acústica
Thilo Krasmann – baixo
José Eduardo L. Cardoso – bateria
Produção e supervisão musical – José Niza
Gravado nos Estúdios Polysom, Lisboa
Técnico de som – Moreno Pinto
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio
Traz Outro Amigo Também
Letra e música: José Afonso
Intérprete: José Afonso* (in LP “Traz Outro Amigo Também”, Orfeu, 1970, reed. Movieplay, 1987, 1996) [>> YouTube] [arquivo da RTP >> YouTube]
[instrumental]
Amigo
Maior que o pensamento
Por essa estrada amigo vem
Não percas tempo que o vento
É meu amigo também
[instrumental]
Em terras
Em todas as fronteiras
Seja bem-vindo quem vier por bem
Se alguém houver que não queira
Trá-lo contigo também
[instrumental]
Aqueles
Aqueles que ficaram
(Em toda a parte todo o mundo tem)
Em sonhos me visitaram
Traz outro amigo também
[instrumental]
* Carlos Correia (Bóris) – viola
Luís Filipe Sousa Colaço – 2.ª viola
Gravado nos Estúdios Pye Records, Londres, em 1970
Biografia e discografia em: A Nossa Rádio
Quatro Quadras Soltas
Letra: Sérgio Godinho, António Aleixo e José Afonso
Música: Sérgio Godinho
Intérpretes: Sérgio Godinho*, Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Fausto Bordalo Dias (in LP “Campolide”, Orfeu, 1979, reed. Movieplay, 1999) [>> YouTube] [>> YouTube]
[Sérgio Godinho:]
Eu vi quatro quadras soltas
à solta lá numa herdade,
amarrei-as com uma corda
e carreguei-as para a cidade.
Cheguei com elas a um largo
e logo ao largo se puseram;
foram ter com a família
e com os amigos que ainda o eram.
Viram fados, viram viras,
viram canções de revolta;
e encontraram bons amigos
em mais que uma quadra solta.
Uma viu um livro chamado
“Este livro que vos deixo”,
reviu velhas amizades;
eram quadras do Aleixo:
[Adriano Correia de Oliveira:]
Ó i ó ai, Há já menos quem se encolha,
Ó i ó ai, Muita gente fala e canta;
Ó i ó ai, Já se vai soltando a rolha
Que nos tapava a garganta.
[Sérgio Godinho:]
Ora bem, tinha marcado
encontro com as quadras soltas;
pois sim, fiquei pendurado
como um tolo ali às voltas.
Chegou uma e disse: “Andei
a cumprimentar parentes.”
E eu aqui a enxotar moscas,
vocês são mesmo indecentes!
Respondeu-me: “Ó patrãozinho,
desculpe lá essa seca;
estive a beber um copito
com uma quadra do Zeca”:
[José Afonso:]
Ó i ó ai, Disse-me um dia um careca:
“Ó i ó ai, Quando uma cobra tem sede
Ó i ó ai, Corta-lhe logo a cabeça,
Encosta-a bem à parede!”
[Sérgio Godinho:]
Das restantes quadras soltas
não tinha sequer notícia;
dirigi-me a uma esquadra
e descrevi-as a um polícia.
Respondeu-me: “Com efeito,
nós temos aqui retida
uma quadra sem papéis
que encontrámos na má vida.
Diz que é uma quadra oral
sem identificação,
e que uma quadra popular
não precisa de cartão.
Se diz que pertence ao povo,
o povo que venha cá,
que eu quero ver a licença,
o registo e o alvará.
[Fausto Bordalo Dias:]
Ó i ó ai, Quando se embebeda o pobre
Ó i ó ai, Dizem “olha o borrachão!”
Ó i ó ai, Quando se emborracha o rico
Acham graça ao figurão.
[Sérgio Godinho:]
Fui com a quadra popular
à procura das restantes,
quando o polícia de longe
disse: “Venha aqui um instante
Temos aqui uma outra
não sei se você conhece;
desrespeita autoridades
e diz o que lhe apetece.
Tem uma rima forçada
e palavras estrangeiras,
e semeia a confusão
entre as outras prisioneiras.
Se for sua, leve-a já
que é pior que erva daninha!
Olhe bem para ela: É sua?”
Olhei bem para ela: “É minha!”
Ó i ó ai, Nós queremos é justiça
Ó i ó ai, E dinheiro para o bife;
Ó i ó ai, E não esta coboiada
Em que é tudo do xerife.
(Até ver…)
* [Créditos gerais do disco:]
Sérgio Godinho – voz e violas
Paulo Godinho – viola baixo
José Eduardo – contrabaixo
Guilherme Scarpa Inês – bateria
Luís Caldeira – flautas e saxofone
Pedro Osório – piano e acordeão
Pedro Caldeira Cabral – guitarra portuguesa
Carlos “Zíngaro” – violino
João Janeiro – vibrafone
António José Lages – tuba
Fernando Moura – clarinete
Emídio Coutinho – trombone
Tomás Pimentel – trompete
Paulo Pulido Valente – trancanholas
Adriano Correia de Oliveira, José Afonso e Fausto Bordalo Dias – vozes (em “Quatro Quadras Soltas”)
Arranjos e direção musical – Luís Caldeira e Sérgio Godinho
Gravado nos Estúdios Arnaldo Trindade, Lisboa (Rua de Campolide), nos princípios de Outubro de 1979
Técnico de som – Moreno Pinto
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biografia de Fernando Pessoa

esteve recentemente em Portugal na RTP no programa do Herman:

José Paulo Cavalcanti Filho escreveu biografia de Fernando Pessoa onde revela novos heterônimos

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO

José Paulo Cavalcanti Filho tinha um objetivo quando iniciou sua biografia de Fernando Pessoa (1888-1935): descobrir quem era o “homem real” por trás do grande poeta português.
Após oito anos de pesquisa, o autor e advogado pernambucano acabou deparando-se não com um, mas com 127 “Pessoas”.
É esse o número de heterônimos do poeta catalogado pelo livro “Fernando Pessoa: Uma (quase) Biografia”, que Cavalcanti lançou.
As múltiplas personas de Pessoa vão muito além de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e superam também o que pensavam os especialistas.
Cavalcanti cita no livro que, no início dos anos 1990, eram conhecidos 72 heterônimos de Pessoa. O livro acrescentou 55.
O conceito de heterônimo que adotou é amplo e não se restringe à definição padrão: “nome imaginário que um criador identifica como o autor de suas obras e que apresenta tendências diferentes das desse criador”.
Inclui todos os nomes, tendo estilo próprio ou não, com os quais o poeta assinou seus textos. A decisão pode ser contestada, mas a intenção de Cavalcanti nunca foi fazer uma biografia convencional.
As excentricidades já começam pelo subtítulo: “Uma (quase) Autobiografia”.
O autor refere-se ao trabalho como o “livro que escrevi com meu amigo Pessoa”.
A “amizade” é das mais antigas. Começou em 1966, quando Cavalcanti leu “Tabacaria”, um dos principais poemas do autor.
A partir daí, viria a montar umas das principais coleções sobre vida e obra de Pessoa.
O poeta deixou mais de 30 mil páginas com anotações sobre si mesmo, literatura, família e fatos cotidianos.
Cavalcanti usou tantos trechos que chega a dizer que seu livro tem “mais frases de Pessoa do que minhas”.
“Mas não se trata”, explica, “de Pessoa falando sobre si, é a palavra de Pessoa falando sobre ele. Ou melhor: é o que quero dizer, mas por palavras dele”.
Cavalcanti foi ainda além: para dar unidade estilística ao texto, tentou escrever como Pessoa.
Reduziu os adjetivos e adotou outro hábito dele: o uso, em média, de três vírgulas antes de um ponto final.

ilustração: Almada Negreiros
O escritor Fernando Pessoa, cuja biografia brasileira revela novos heterônimos, em caricatura feita por Almada Negreiros
O autor Fernando Pessoa, cuja biografia brasileira revela novos heterônimos, em caricatura de Almada Negreiros

SEM IMAGINAÇÃO
Durante a pesquisa, Cavalcanti foi até quatro vezes por ano a Portugal. Leu centenas de documentos e entrevistou parentes e pessoas que conviveram com Pessoa.
Dessas andanças, saiu com a certeza de que o poeta é o autor “menos imaginativo” que existe.
“Tudo o que escreveu estava realmente à volta dele. Não tinha nada inventado.”
Como exemplo, cita “Tabacaria”. O poema menciona cinco personagens e Cavalcanti revela que todos realmente existiram e eram próximos do poeta.
Quando se trata de Pessoa, contudo, nem tudo é claro. “Sabes quem sou eu? Eu não sei”, já advertia o poeta.
Sobre sua vida sexual ainda paira uma imensa dúvida. Teria sido gay? Cavalcanti acha que sim, embora não existam provas.
Também não há certeza sobre se teria ou não transado com Ophelia, seu mais conhecido relacionamento (Cavalcanti pensa que não foram além de beijos ardentes e leves toques nos seios).
Cultivar mistérios, ao que parece, fazia parte do estilo de Pessoa, e isso também Cavalcanti tentou incorporar.
O poeta tinha por hábito, diz o biógrafo, embaralhar as datas. O heterônimo Alberto Caeiro, por exemplo, morreu em 1915, mas há textos datados de 1930 atribuídos a ele.
No prefácio do livro, Cavalcanti também colocou uma data futura: 13/6/2011. Dupla homenagem, já que Pessoa nasceu nesse dia, em 1888.


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/893968-biografia-brasileira-de-fernando-pessoa-revela-novos-heteronimos.shtml

 
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>25 de abril precisa-se (opinião a título pessoal)

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25 de abril precisa-se (opinião a título pessoal)

 

Viva o 24 de abril que este sim deveria ser feriado, ainda não se lê nos jornais todos, mas ouve-se nas esquinas das ruas e nas mesas do café. Depois da censura económica, da autocensura e de todas as formas dissimuladas de censura, vão-se fazendo inquéritos, elege-se Salazar como a personalidade do século passado, mandam-se emigrar os jovens, promove-se o cinzentismo salazarista e tentam calar-se as vozes diferentes. Mais ano menos ano acaba-se com o feriado de 25 de abril que nada tem a ver já com o clima que se vive.
A revolução continua por fazer, a liberdade de expressão corre sérios riscos, agora que as outras liberdades se foram por causa da crise, o respeito pela diferença esbateu-se mais ainda, vamos tornar as massas ainda mais acinzentadas, uniformes e carneirenta por entre saudosismos (dantes era o sebastianismo, agora será o salazarismo salazarento. Por entre uma telenovela, Fátima e futebol o povo nem dá conta de como o levam para novo redil.
Há 38 anos deram a liberdade a Portugal e hoje no-la tiram. Eu continuarei (quase sozinho) um homem do 25 de abril até que me calem mas somos já muito poucos e menos ainda podem usar a voz. Hoje ainda me deixam escrever isto mas por quanto tempo mais?
Há seis anos publiquei no ChrónicAçores umas linhas em que prevenia e previa este status quo:
Sem questionar o feminismo ou outros ismos: antisionismo, antialentejanismo, antilourismo (das loiras) todas as piadas são objecionáveis por se basearem em estereótipos da sociedade, sejam eles humanos, animais ou até mesmo políticos, que não são uma nem outra coisa. Assim, depois de todas as pessoas defensoras desses “ismos” terem colocado as suas objeções porque são a favor do Obama ou do Bush, ou do Sócrates, porque se baseiam em estereótipos de mulher, de louras e louros, de alentejanos, de políticos e políticas (mas destas ainda há poucas), de judeus (e outras religiões como o cristianismo ou islamismo por ex.), de nacionalidades ou continentes de origem como com os africanos, os pobres, os ricos, os estudantes e os professores, os animais (mesmo aqueles que estão nas malas dos carros junto com a esposa ou esposo), verão o que fica: NADA. Acaba-se o humor.
Ao reproduzir, a seguir, Maiakovski e Brecht, pretendo alertar que me sinto muito mais incomodado com a violência, gratuita ou não, com as imagens cheias de “innuendo” (insinuações) da TV, desde os telejornais às séries, pois essas são as armas de estupidificação globalizante que a todos corroem.
O humor, usa a linguagem dos estereótipos que hão de ser substituídos com o tempo assim como a frase bota-de-elástico foi substituída por “cota”. Desde a década de 1980 vira surgir a censura dissimulada em fundamentos razoáveis e aceitáveis, pretendendo sanitizar as mentes. Já o vira na Austrália quando o politicamente correto foi introduzido na linguagem em meados daquela década. Como tradutor profissional tivera de o seguir mas como ser humano, inteligente (no sentido de pensante) recusava-o tanto hoje como ontem. Com o politicamente correto acabava-se o humor. Esse o cerne da questão que ninguém queria ver. Deve lutar-se contra a discriminação, em todas as suas formas, contra o assédio sexual, político e outros, lute-se contras as proposta novas normas europeias, lute-se contra o salário mínimo de miséria e de exploração (reminiscente do início da Revolução Industrial), contra as quotas ou falta delas nos elencos femininos do governo, contra a falta de acesso a pessoas com deficiências de qualquer tipo. Lute-se contra isso tudo mas deixem o humor de lado, a menos que seja difamatório (mas sem ser pelas normas norte-americanas), grosseiro, imoral, amoral. Quando se definira politicamente incorreto, é porque o politicamente correto é a forma mais fascista de sanitizar a língua, o pensamento e a vida em geral, criando uma sociedade assética e inócua. Todos iguais e cinzentos de acordo com a norma. Ninguém precisa de pensar nisto pois o futuro provará a sua veracidade melhor do que o Orwell alguma vez podia prever no 1984 ou outros ensaios semelhantes: a realidade já ultrapassou a ficção há muito.
Quem primeiro o antecipou foi Maiakovski – poeta russo “suicidado” após a revolução de Lenine que escreveu ainda no início do século XX:
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei .
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…”
Martin Niemöller, 1933 , símbolo da resistência aos nazistas.
Parodiando o pastor protestante Martin Niemöller, símbolo da resistência nazi:
“Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança,
que não era meu filho…”
Cláudio Humberto, 09 Fev. 2007
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
É PRECISO AGIR
Bertold Brecht (1898-1956)
Um passeio com Maiakovski
Na primeira noite
eles se aproximam
e colhem uma flor
de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem :
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz
da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
Tudo que os outros disseram fizeram-no depois de ler Maiakovski.
Incrível é que após mais de cem anos dessa lição, ainda nos encontremos tão desamparados, inermes e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes governantes, que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio: porque a palavra, há muito se tornou inútil! Agora, o politicamente correto ameaça o humor.
——-
A crise fará o resto e aí – sim – estarei definitivamente calado se não morrer antes. Só tivemos 38 anos de liberdade comparados com 48 de ditadura obscurantista mas pouco temos a celebrar neste ano de 2012 em que nos querem fazer recuar aos anos 50 ou 60 do século passado, a História em marcha à ré. Este ano vou gritar que o 25 de abril devolveu um direito fundamental: o direito à livre expressão e esse é o último que ainda posso celebrar nesta data. Chrys

 

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Eduardo Mayone Dias – A língua portuguesa ontem e hoje

CARTA DA CALIFÓRNIA, Eduardo Mayone Dias


1. Das origens à Idade Média

Pouquíssimo se sabe das mais remotas origens da língua portuguesa, os 
falares da Península Ibérica pré-romana. É contudo de supor que em franjas litorais e em planícies separadas por altas serranias se tenham desenvolvido diferentes enclaves linguísticos que com o rolar dos séculos  hajam originado os grupos galego/asturiano/português, basco/ navarro, castelhano/extremenho/andaluz e aragonês/catalão/ valenciano.
Esta é a pré-história do Português. A proto-história tem início com a invasão romana, durante a qual o latim foi imposto em todos os atos públicos, que podiam ir da administração até simples transações comerciais, e afogou os regionalismos linguísticos.
Desde os nossos primeiros anos de escola aprendemos que os legionários e colonos, gente do povo, aliás nem todos romanos, não falavam o latim clássico mas sim o vulgar, que pouco a pouco se foi mesclando com as variantes locais, dando assim origem às quatro línguas românicas hoje oficiais na Península, galego, português, castelhano e catalão.
 Durante o período romano, cerca de seis séculos, (1) o latim ia evoluindo e novas formas verbais foram criadas.  Para dar um prosaico exemplo, as
primeiras vagas colonizadoras usaram o termo “scopa”,  que resultou “escombra”  em catalão e ‘escoba’ em castelhano. Quando as últimas levas chegaram à costa oeste traziam um mais moderno vocábulo, “basaura”, que deu “vasoira” em galego e “vassoura” em português.
As inovações introduzidas pelos romanos implicaram naturalmente inumeráveis termos, referentes a todas as formas de vida. Assim, por exemplo, ao serem criados novos procedimentos agrícolas, surgiram  nomes de utensílios que   deram em português charrua, arado, enxada, sacho ou machado. Também do grupo celta,  possivelmente através de uma tardia latinização, vieram  vocábulos como  cerveja, camisa, carro, lousa e sabão. Como bem se sabe, depois de se haver corporizado a língua portuguesa, o latim persistiu ou foi revivido em expressões eruditas de variados campos do saber. Deste modo, por exemplo, na terminologia académica regista-se o doutoramento “honoris causa”, na diplomática a expressão “persona grata”, (2) na
jurídica “habeas corpus”,(3) na eclesiástica “urbi et orbi”, na lógica “quod
erat demonstrandum”, na estilística “ipsis verbis” e muitíssimo mais.
Entre aproximadamente os anos 406 e 411 da era de Cristo várias tribos germânicas, entre as quais se destacaram os visigodos, invadiram a Península e derrubaram o poderio romano.
Havendo-se convertido ao cristianismo e adotado muito do estilo de vida romano, pelo ano de 476 os visigodos constituíam já uma aristocracia guerreira que iria dominar a Península por cerca de três séculos.
A ela se devem numerosas contribuições ao falar hispânico em especial relativas à arte militar (o próprio termo “guerra” é uma delas) ou à equitação, que acabaram por dar à língua portuguesa formas como baluarte, elmo, escaramuça, guarda, trégua, brandir, esgrima, dardo, flecha, espora, arreio ou galopar. Outras formas são sala, burgo, agasalho, ufano e ganso. Entre nomes próprios de origem germânica contam-se Alberto, Rodrigo, Humberto, Rogério, Fernando, Afonso, Gonçalo, Álvaro, Elvira, Berta, Ermelinda e Gertrudes.
Chegado o ano 711 uma nova era se abriu para a história peninsular e para o evoluir do idioma português. Foi pois nesse ano que hostes mouras, lideradas por árabes, cruzaram o Estreito de Gibraltar e numa guerra-relâmpago ocuparam toda a Península Ibérica, com exceção de um pequeno reduto nas montanhas das Astúrias.
De aí, uns dez anos depois de 711 (desconhece-se a data exata), no seguimento da batalha de Covadonga,  os cristãos lançam o movimento da Reconquista que, ao impelir os invasores para o sul, deu origem a vários reinos, entre eles o de Portugal.
Dotados de uma avançada cultura, os muçulmanos introduziram novas técnicas em quase todas as áreas do conhecimento humano e com elas um fértil léxico que sobreviveu até hoje com cerca de 200 termos em português.
 Na sua maioria os neologismos foram adotados juntamente com o artigo
definido “al” (al caid> alcaide) ou a sua condensação num simples “a” (a
ris>arroz).
Os árabes trouxeram produtos agrícolas, cujas designações se mantiveram na fala dos seus súbditos cristãos: alface, algodão, alfazema, amêndoa, alfarroba, alfafa, alcachofra, açúcar, haxixe, azeitona, açafrão e outros.
Do aperfeiçoamento dos cultivos e do processamento das colheitas ficaram nora (com a sua roda de alcatruzes, ainda usada no século XX em Portugal) açude (represa), atafona (moinho de vento) ou azenha (moinho de água).
Medidas de peso, superfície ou volume,  por muito tempo empregadas, foram a arroba (cerca de quinze quilos), o alqueire (cerca de 25 metros quadrados), o arrátel (um pouco menos de meio quilo) e o almude (cerca de seis litros e meio). Quando se introduziu o sistema numérico hoje usado, em substituição do romano, divulgou-se o conceito de zero e a respetiva designação.
Para uso doméstico havia almofadas, alcofas, alcatifas, garrafas, almofarizes, alambiques, alguidares e alfinetes. (4)
Quanto à culinária temos o azeite, a açorda, o escabeche e as almôndegas.
Ainda há umas décadas existiam no Algarve, (5) região portuguesa de mais
longa permanência árabe, numerosas casas encimadas por “açoteias”, terraços onde se secavam frutos. E evidentemente, o interior podia ser decorado com “azulejos”.
Com o desenvolvimento de novas ou antigas técnicas especializaram-se
profissões e ocupações tais como alfaiate, arrais, alvanel (pedreiro), almoxarife (gerente de armazém), alcaide (governador militar e civil de um castelo e povoação adjacente), alfageme (fabricante de armas) e alcoviteira (intermediária paga de relações sexuais ilícitas).
A presença muçulmana na Península teve o ser termo no ano de 1242 em
Portugal com a tomada de Silves e a queda do Reino do Algarve e no de 1492 em Espanha, ao ser submetido o Reino de Granada.  

NOTAS
(1) A ocupação militar da Península Ibérica durou de 218 AC até 17 AC. Uma vez radicado, o domínio romano manteve-se até a primeira década do Século V.
(2) É bem sabido que um enviado diplomático estrangeiro tem de obter essa classificação antes de apresentar as suas credenciais ao Presidente da República portuguesa. Um caso jocoso ocorreu durante o período do Estado Novo. Um diplomata latino-americano, designado pelo seu Governo como embaixador em Lisboa, foi considerado pelas autoridades portuguesas “persona non grata”. As suas qualificações eram impecáveis mas atraiçoaram-no os seus apelidos, Porras y Porras.
(3) Nas fachadas de muitos tribunais portugueses pode-se ler “DOMUS IUSTITIAE”, casa da justiça. Por outro lado o histórico edifício da Câmara Municipal de Bragança é conhecido como Domus Municipalis.
(4) Então significando palitos para os dentes.
(5) Algarve (al Gharb) significa “o Oeste”.
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Copyright © 1997/99 The Portuguese Times http://www.portuguesetimes.com/Ed_2130/Cronicas/seccao.htm
Autorizada a reprodução de artigos publicados nesta página desde que mencionada a origem
Portuguese Times (18 Abril 12), P.O.Box 61288, 1501 Achushnet Avenue, New Bedford, MA 02746 – U.S.A
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filme timorense

Estreia do filme “A Guerra da Beatriz”
Husi FilhadeTimor | Kinta-feira, 08 Marsu , 2012, 06:00

“A Guerra da Beatriz” é o primeiro filme timorense, que resulta da parceria da FairTrade Film com a Dili Film Works.

O
filme é uma história de amor inspirada num caso verídico francês do
século XVI, sobre Bertrande de Rols e o seu marido Martin Guerre.

Para fazer a adaptação à realidade timorense, a história enquadra-se no tempo da invasão indonésia à colónia portuguesa.

A estreia do filme será no dia 8 de Março às 19h30 no Museu Oriente.

Para mais informações, consulte o site A guerra da Beatriz »»»http://www.aguerradabeatriz.com/

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