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CRÓNICA 369 OS TRÊS CÍRCULOS – REVISITANDO MACAU E UM AUTOR AÇORIANO ESQUECIDO

 

 

 

 

CRÓNICA 369 OS TRÊS CÍRCULOS – REVISITANDO MACAU E UM AUTOR AÇORIANO ESQUECIDO LEAL DE CARVALHO 5.12.2020

A vida em Macau era à época em que lá vivi (1976-82), um cadinho de povos e culturas, exemplo de miscigenação e liberdade num Oriente exótico, sedutor, mas problemático. Resumia-se a três círculos excêntricos que se tocavam no infinito. Desses, o médio interior era constituído pelos macaenses, força sem identidade nacional (arreigados à herança cultural lusófona falando e lendo fluentemente a língua de Camões, os mais cosmopolitas falavam chinês e inglês, e outro segmento nas bordas linguísticas do cantonense). Leal de Carvalho escreve

«a cidade que no passado recente abrigou russos brancos, chineses, indonésios, vietnamitas, filipinos e portugueses perseguidos pelos credores ou por mulheres ciumentas, e alguns, poucos, pelas ideias políticas. Um porto de abrigo para gente de mundos vários que aqui vieram por desvairadas razões: espírito de aventura e ambição pelo lucro fácil, refúgio às convulsões político-sociais da região e à loucura da guerra que lançara o mundo em fogo, evasão a problemas sociais ou familiares ou inútil fuga aos demónios próprios de cada um» (in Leal de Carvalho, Requiem para Irina Ostrakoff p. 5). A construção desta identidade fora «instalada, na educação das classes superiores da sociedade macaense, como processo de autonomização à imensa mole demográfica circundante que, pela força dos números, os ameaçava submergir» (in Leal de Carvalho, Ao Serviço de Sua Majestade, p. 377).

O autor fala ainda do convívio interracial que tinha reflexos na moral e nos valores da comunidade:

«A moral social local, da comunidade macaense e mais da chinesa, consentia a liberal sofisticação de costumes, manifestação viva da interpenetração dos valores culturais da região… fruto da emigração de lindas mulheres, que confundiam os olhares dos latinos, sobretudo as de Xangai. Alguns dos costumes orientais eram bem sedutores para os machos lusos, que lamentavam o facto de as «sucessivas Administrações Portuguesas não terem sabido aproveitar a lição de quatrocentos anos de contacto com a milenária cultura chinesa, mais antiga, sábia, realista, que admitia, na harmoniosa estrutura familiar e sob o austero Império da Primeira Esposa, um número indeterminado de concubinas e até “bichas,” solução cómoda e prática», diz o autor com não disfarçada ironia.» (in Leal de Carvalho in Os construtores do Império, p. 137)

Depois, havia um círculo menor, exterior, constituído pelos portugueses. Durante séculos, esse grupo era exclusivamente constituído pelos que iam e vinham com cada equipa governamental a que se acrescentava, aqui e ali, o elemento desgarrado que fora para a tropa ou para a polícia e por lá ficara, constituindo família e deixando-se miscigenar e assimilar pelos costumes locais. Havia adstritos a estes os estrangeiros que se deixaram encantar por Macau, aprendendo as línguas e costumes locais e acabando integrados na família lusófona, como é amplamente descrito na obra literária do atrás citado juiz açoriano Rodrigo Leal de Carvalho que ali viveu 40 anos entre 1959 e 1999.

Por último, um enorme círculo, exterior a tudo, com motor próprio na economia, constituído pelos chineses, liderados pela pequena elite, dependente de Pequim aonde viajavam frequentemente, a fim de receberem instruções e contarem os desvarios do delegado português encarregue nominalmente de governar. Decidiam como, porquê, onde e quando. Davam a entender ao governo português a insatisfação quando a administração exorbitava ou tinha uma “ideia brilhante” sem os consultar. Sempre mandaram no território e determinavam como os súbditos que representavam mais de 96% da população se comportariam. A clique que geria a “Cidade do Santo Nome de Deus de Macau, Não Há Outra Mais Leal” ocultava o facto de descender dos mandarins chineses que, após a Revolução Cultural, determinava o que se podia ou não fazer em Macau.

Voltemos aos aspetos culturais.

Não esqueçamos que para as comunidades chinesas, a mulher que namorasse um kwai-lo estava um escalão acima da mera prostituta. Mesmo que casasse ficava o estigma de que havia algo de errado com elas. Os pais da jovem podem nem mostrar insatisfação, mas o conceito é preponderante no meio social e refletido na linguagem, a todos os níveis. A família, altamente hierarquizada, é tradicionalmente dominada pelo macho. A mulher que se case com o kwai-lo, e o marido, estão abaixo da escala social e da estima dos parentes. Tecnicamente, deixou de pertencer à família e passou à dele, perdendo os laços consanguíneos. O mesmo sucede com os filhos que não farão parte do seio social e cultural da família de onde descendem. No caso da mulher casada com um não-chinês, ela está apenas um degrau acima do nível da prostituta, de facto, nem sequer é considerada como se se tivesse juntado a outra família, do marido. Para os chineses, os brancos não têm laços de família, além de que se divorciam por dá cá aquela palha, pelo que ora, a filha da família chinesa é um risco maior do que quando vivia em casa. A mulher tem menos valor na sociedade chinesa do que o homem e todos querem ter um filho e não uma filha, onde se manteve a regra do filho único (a lei do filho único (preferencialmente varão) foi mantida até novembro de 2015 data em que passou a ser permitido terem dois filhos ). Se a sogra chinesa tratar o genro como um ser humano isso só prova a sua amabilidade, ao evitar mostrar ao estúpido estrangeiro quanta raiva lhe vai na alma por ter casado com a filha. Obviamente que se o incluírem numa festividade ou celebração será um privilégio, tal como dar boleia aos que precisam…a sogra chinesa jamais entenderá a injusta e má sorte de ter um branco para genro.

O campo matrimonial na família é da mais alta responsabilidade e critério dos pais, sendo conhecidos casos de deserdados por não casarem com as escolhidas. Essa falta de obediência será a culpa a acarretar pelos filhos que os tornará responsáveis por quantas mortes ocorram, e problemas de saúde dos pais e parentes. Este tipo de normas repercute-se nos países de destino das famílias emigradas e representa a arreigada preservação das normas rurais das zonas de origem.

Nos países de acolhimento (como vi na Austrália) falam (por ex.º) Taishanês em vez de Cantonense pois Toisaan (Toishan – Taishan cidade no Delta do Rio das Pérolas, perto de Macau, pertence a Jiangmen (140 km W de Hong Kong), parte de um arquipélago de 95 ilhas incluindo a maior, Shangchuan Island (S. João) é o lar e a Austrália apenas um país estrangeiro que os circunda.

Lembrava-me que mesmo que lesse e falasse cantonês fluentemente – o que nunca foi o meu caso – jamais seria considerado como “um deles.” Sempre me limitei a ver, de fora para dentro, a sociedade que me rodeava, tentando não fazer juízos de valor antes me limitando a apreender o máximo. Nunca namorei – formal ou informalmente – uma chinesa e sabia que tal me estaria vedado ab initio. Nem todas estas caraterísticas se impuseram como norma nas famílias macaenses, mas, a mero título de curiosidade, posso confirmar que se telefonasse para uma macaense, cujos pais não conhecesse, seria submetido ao interrogatório de uma mãe tipicamente chinesa:

Quem sou? Como conheci a filha dela? De onde era a minha família?

Se era casado? Se os meus pais eram proprietários ou se trabalhavam?

Qual a profissão do meu pai? O que estudava (se andava a estudar)? Ou em que trabalhava (se andava a trabalhar)?

Porque é que tinha a ousadia de lhe telefonar para casa…”

E por aí adiante, num chorrilho de perguntas sem tempo para réplica, previamente desnecessária, as respostas nunca seriam satisfatórias porque eu seria sempre um kwai-lo. É neste imbróglio de agendas separadas que ali aterro em 1976, sem saber nada disto, além de escassos ensinamentos sobre a ancestral cultura clássica chinesa. As preocupações, à época, não me levavam a interessar pela sociologia ou linguística (a que me viria a dedicar depois de 1984). Achava curiosa a existência do patuá similar ao de Malaca, crioulo centenário, sobrevivente a tudo e todos com escassos falantes. A atração natural pela mulher oriental sobrelevava quaisquer outros interesses, a vontade de descobrir novos mundos em corpos de pele sedosa sensual, no prazer hedonista conquistaram-me enquanto jovem. Os olhos raramente se desviavam das cabaias de seda ou Cheong-sam, justíssimas, de cores vivas e refulgentes e grandes aberturas laterais até ao cimo da alva coxa, bem torneada, a deixar antever mistérios por decifrar e paraísos por descobrir. A queda inevitável pelas belezas asiáticas, bem como a flexibilidade dos costumes sexuais funcionam como forte motivação para a aceitação de alguns dos costumes do Outro…

Cito Leal de Carvalho:

«A interpenetração dos valores culturais das múltiplas comunidades locais, a flexibilidade dos códigos morais ou sociais do Oriente, a influência no meio macaísta dos usos e costumes chineses que instituíra na Colónia o concubinato com o reconhecimento social e legal, o contacto frequente com a sexualidade liberal dos aventureiros de outros mundos e etnias… O temperamento fácil das gentes do Sueste Asiático, as noites quentes e sensuais dos Trópicos tinham adoçado a rigidez de fachada vitoriana e marialva, da moral sexual de importação lusíada e conferido à sociedade macaísta, uma tolerância e sofisticação que comportava. Admissibilidade de pequenas infrações sexuais, aventuras pré-maritais com ou sem sequência matrimonial, recatados adultérios» (in O Senhor Conde, p. 214).

«Devia a mulher ser sempre «nova, esguia, bem torneada, na cabaia muito justa e brilhante, colarinho duro e alto, e grandes aberturas laterais até meia-coxa» (op. cit. p. 52)…

«Outros homens sentiam o mesmo fascínio por aquelas mulheres. É que, elas dançavam bem, estavam perfumadas, tinham «peles perfeitas e corpos esculturais, de feições enigmáticas, escondendo sabe-se lá que emoções ou sentimentos» (p. 53)…

 

«É ressaltada a beleza serena e um tanto enigmática da mulher oriental, a sua sensualidade e a suavidade da pele:… «as senhoras chinesas tinham uma complexion de pétala de rosa» (in Ao Serviço de Sua Majestade p. 602) caraterística que as macaenses herdariam. Ou «a resignação ancestral da mulher oriental, habituada à natureza traiçoeira dos homens em geral e dos europeus em particular» (Ao Serviço de Sua Majestade: 323).

Fizeram-se muitos casamentos com reinóis, donde provieram os macaenses. Estas macaenses acabaram por assumir lugar de destaque na sociedade local. Tudo isto (aqui magistralmente descrito pelo juiz açoriano e compilado pela Anabela Mimoso no 15º colóquio) servia de pano de fundo a emoções, paixões e desenfreamentos que assolavam os jovens ocidentais e a mim em particular.

Tentar à distância de décadas reviver sentimentos e outras sonoridades íntimas do ser humano é doloroso e pode carecer de fidelidade. Surgem sempre enevoadas memórias mais róseas do que talvez, na época, fossem. Os elementos negativos da solidão, do afastamento do lar familiar habitual, da necessidade de conjugar novos verbos, novas famílias, novos sentimentos e emoções sobrepunham-se então à mera excitação pelas descobertas que preenchiam dias e noites. Era um ocidental em busca de equilíbrio e de identidade, tal como os macaenses em ambiente estranho e hostil. Muitas forças contraditórias me impeliam e travavam. Tal como Kung-Fu-Tzu (Confúcio), entre as minhas preocupações estavam a moral, a política, a pedagogia e a religião, por esta ordem. O valor dado ao estudo, à disciplina, à ordem, à consciência política e ao trabalho são lemas que o confucionismo impôs à civilização chinesa da antiguidade e que se mantêm hoje. Não são uma religião, nem um credo estabelecido, mas apenas determinações rituais de caráter social, que permitem a liberdade de crença em qualquer sistema metafísico ou religioso que não vá contra as regras de respeito mútuo e etiqueta pessoal. Curiosamente, este paralelismo entre os valores confucionistas e os meus, deixaram aberta uma via de compreensão. À época faltavam-me muitos anos para entender, na globalidade, o verdadeiro significado do dito confucionista “Mesmo nas situações mais pobres uma pessoa que vive corretamente será feliz. Coisas mal adquiridas nunca trarão felicidade” que se tornaria no meu arquétipo após os quarenta e cinco anos.

Chrys Chrystello, Jornalista,

Membro Honorário Vitalício nº 297713 [Australian Journalists’ Association] MEEA]

[Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005) e

Tribuna das Ilhas (desde 2019)]

 

 

Açoriano escolhido para residência da Cinéfondation de Cannes – Jornal Açores 9

De acordo com a página oficial da fundação no Facebook, David Pinheiro Vicente, de 24 anos, é um dos seis participantes da residência a decorrer de março a julho do próximo ano, durante a qual vai desenvolver o seu primeiro projecto de longa-metragem, “A Casa do Vento”, como o realizador dise à Lusa. “Esta é […]

Source: Açoriano escolhido para residência da Cinéfondation de Cannes – Jornal Açores 9

RABO DE PEIXE 86 CASOS NOVOS

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86 novos casos em Rabo de Peixe em 24 horas diagnosticados no rastreio em massa feito à população
Na Vila de Rabo de Peixe, em 24 horas, foram diagnosticados 86 novos casos de Covid-19. Estas infecções foram detectadas no âmbito da testagem em massa que está a ser feita à população daquela Vila. Os testes continuam hoje e amanhã. A população tem aderido e tudo está a decorrer dentro da normalidade. A esta hora o Secretário da Saúde e a sua equipa estão na Vila a fazer o ponto da situação e a anunciar algumas medidas tendo em conta o número de casos.

WUHAN, GLAXO, PFIZER E OUTRAS CASUALIDADES

Casualidades, ou nem por isso?
O laboratório chinês de Wuhan pertence, na realidade, à Glaxo, que por casualidade possui a Pfizer que faz a gestão financeira da Black Rock, que por casualidade gere as finanças da Sociedade Aberta de George Soros, que por casualidade cuida dos interesses da francesa AXA e cuja sociedade alemã Winterthur construiu o laboratório chinês, comprado acidentalmente pela alemã Allianz, que por casualidade tem como grande acionista a Vanguard, acionista da Black Rock, que controla os bancos centrais e gere 1/3 do capital de investimento mundial, que por casualidade é uma grande acionista da Microsoft, cujo fundador (Bill Gates) é um grande acionista da Pfizer e que atualmente é o primeiro patrocinador da OMS.
Um mundo de casualidades …
( Pedro Fevereiro)

JORGE ARRIMAR E EDUARDO BETTENCOURT PINTO

Há 16 anos foi apresentado em Lisboa o livro “A Casa das Rugas” de Eduardo Bettencourt Pinto, meu amigo e escritor a residir há longos anos no Canadá. Julgo valer a pena revisitar esse momento, que existiu “em memória de Angola e dos nossos tempos de exílio insular”. No ano em que a apresentação se fez, cumpria-se quase trinta anos que nos havíamos encontrado na ilha de S. Miguel, nos Açores, num tempo em que achávamos que “o céu tinha desabado sobre a nossa cabeça”. Mas apesar da tristeza que experimentávamos, apesar de, por vezes, pensarmos que a nossa vida se havia estilhaçado, espalhado sem remédio por todos os desertos deste mundo, tínhamos as mãos abertas em concha e delas elevavam-se as nuvens brancas dos sonhos próprios de quem era jovem.
Era o tempo de desenharmos mapas na pele com coordenadas largas que abarcassem a imensidão de vida que ainda tínhamos pela frente, uma paisagem de labirintos que não se esgotava nos limites das ilhas, sempre tão ali ao virar de cada monte, no final de cada prado. Os nossos gestos guardavam memórias largas, segredos abertos, silêncios e sombras, escorregando por entre os muros de um tempo roubado, de regressos, dia a dia, planeados.
Tínhamos vinte anos, apenas, e o sonho contornava o perfil arredondado do horizonte de uma ilha que se havia feito nossa jangada. Ambos vínhamos da terra africana, do sul angolano, espaço que fora o nosso berço e onde crescíamos ao cheiro morno do café e ao sabor doce da cana-de-açúcar. A nossa geografia até ali centrara-se entre a Gabela do Eduardo e a minha Chibia. Foi assim, enquanto a queimada não se alastrava das matas para as vilas e cidades, e a nossa infância ainda brincava entre cafeeiros em flor, à sombra de frondosas mangueiras e nos misteriosos esconderijos dos canaviais.
No dia em que descobrimos que a fuga nos afastava da terra e das raízes dos embondeiros, vimos que, nos Açores, a ilha de S. Miguel sorria hortênsias para nós. Foi em 1976 que eu e o Eduardo nos encontrámos pela primeira vez, abençoados pelo silêncio da Lagoa do Fogo, silêncio que só o guincho das cagarras conseguia, de longe em longe, quebrar como o vidro. Encontrámo-nos apenas, porque conhecer já nos conhecíamos das mesmas memórias que trazíamos. Só éramos diferentes raízes dum mesmo embondeiro. E foi com fogo que ele escreveu o primeiro poema que chegou até mim:
ESPERANÇA
[…]
Guardo na minha alma o vazio / de uma fogueira que se apagou / num assopro irreversível de um adeus, / que veio até mim por entre vagas espessas / e sóis sem calor… / Sou, na madrugada, a areia fria / a divagar em todos os prantos do mundo. / Ah…Quem me dera viver num minuto… / Escolher os meus passos na estrada estranha / palmilhando na derrota a força de vencer. / Oh! Alma inquieta, filha do sem fim, / sinto o teu vozear profundo, a tua razão / e quedo-me nos mais ínfimos pormenores / desse anseio que na paz faz germinar / a mais sagrada Esperança…
(Publ. pela 1ª vez a 27 Set. 1976, em Ponta Delgada, num jornal local)
O impulso poético foi-se tornando cada vez mais poderoso em Eduardo. É então que ele nos oferece “Emoções”, o seu primeiro livro, publicado em 1978, e dedicado (entre outros) “À minha terra longínqua onde, agora oiço a voz da distância; Aos Açores, terra de minha mãe, onde todos os homens de bem encontram a sua terra”.
De facto, seria entre a terra de sua mãe, os Açores, e a sua terra natal, Angola, que Eduardo descobriria a cor das tintas com que encheria o arco-íris da sua criação literária, nessa altura, muito partilhada comigo e com outros jovens poetas. É de 1979 a edição coletiva “Nós Palavras”, que reuniu a poesia de vários poetas naturais e residentes nos Açores, na qual nos incluíamos; e a publicação de “Poemas”, um livro de Eduardo e meu, onde se expressava, de forma muito forte, a nossa angolanidade e a saudade da terra natal.
Desde “Poemas” até ao livro “A Casa das Rugas”, que agora vos apresentamos, já lá vão nove títulos de poesia; quatro de ficção; a organização de uma Antologia da poesia açoriana contemporânea e a tradução de oito poemas de Michael Yates, para além de ter assumido, durante alguns anos, a edição da revista virtual “Seixo Review”.
A escrita lírica e narrativa do Eduardo é, pelo peso da interioridade, uma escrita de movimento quase pendular, e como diria dele João de Melo, (Prefácio de “Tangos nos Pátios do Sul”), saída da “voz de um poeta ao mesmo tempo nítido e embrumado nas suas memórias”. Atrevo-me a avançar um elemento de ligação entre o seu primeiro poema, atrás referido, e este seu livro, pese embora o facto de ambos os textos serem de géneros literários diferentes.
Descobre-se o fechar dum ciclo na já longa espiral da sua vida de autor. Se o poema “Esperança”, publicado em 1976 (Há já quase três décadas, portanto!), é dedicado ao seu irmão Guilherme, o único dos irmãos que havia ficado e que ainda permanece em Angola, querendo com isso manter a ligação e a esperança de um reencontro com a terra natal; “A Casa das Rugas” – título que em si mesmo é uma metáfora, pois trata-se de um livro que se constrói a partir das rugas de uma casa que é o próprio tempo onde viveram as suas principais personagens, Pedro Rico e Mamã Carminha – é o regresso do autor à terra natal, através de uma história de amor entre um europeu que consciente, assumidamente, se deixa tomar pela terra africana, primeiro, e pela mulher africana, depois.
Desse amor, violentado pela guerra civil que assola o país a partir de 1975, nasceu um menino – Alexandre – que é um símbolo de reunificação, de redescoberta, enfim!, de Esperança. É este filho, que assume a cor da sua pele como “a cor do amor entre dois mundos diferentes”, que vai tecendo a trama deste livro, “convencido de que a arrumação do mundo começa sempre em volta das nossas mãos”. Ele inicia a tarefa difícil, mas gratificante, de escrever um livro como se faz a reconstrução de uma velha casa, primeiro pintar as “cadeiras, portas e paredes […] até os muros onde as buganvílias, sedutoras, se estendem em cintilações solares.”
E o livro vai surgindo entre o pó de reboco velho e o arco-íris de tinta ressequida que a humidade deixa por mais tempo no ar, como se fosse uma névoa a embaciar “os espelhos da memória”. A Casa das Rugas abre as suas portas ao leitor, e convida-o a subir cada degrau, a percorrer devagar cada quarto, num percurso de amor e de esperança. Sobretudo da esperança que se fundamenta no amor, como se depreende das palavras que estão inscritas à entrada da casa… ou no começo do livro, e que são da autoria de Alexandre Rico:
“Vou para Portugal estudar e em busca do meu pai. Diria melhor: do homem que descobri nas palavras e no reboar do amor de Mamã Carminha. Vou atrasado? É esse o fim que me cabe?, de recolher os restos do passado e reconstruir, dos fragmentos um pai que só existe em palavras […]”. É no amor, amor completo, que se revela, também, como um símbolo de inconformismo em relação às barreiras étnicas, sociais e culturais da época e do lugar, que o Eduardo tem depositado, nestas quase três décadas de atividade literária, a esperança da reconciliação, por que é desta que nasce a paz. Para mim, A Casa das Rugas é um hino ao amor, ao amor entre um homem e uma mulher e, naturalmente, ao fruto desse amor, essa criança que, na ausência da figura paterna, juntava “as folhas das mangueiras [para] tentar fazer com elas o rosto do [seu] pai”, na pueril crença de que, assim, Deus o levantaria “daquelas folhas desesperadas, do pó, da terra e do silêncio” e lhe apertasse a mão, levando-o “até às lágrimas de Mamã Carminha e as secasse para sempre.”
Eis o livro, e eis o autor aqui ao meu lado, o meu amigo para quem escrevi um poema, há vinte e dois anos (1982), intitulado Flor de Milho, quando ainda tínhamos a ilha como nossa segunda casa, antes de partirmos, como as cegonhas, para uma outra qualquer chaminé. Depois de tanto tempo vou lê-lo de novo, e faço-o como um sinal de renovação da amizade, como se o tempo não fosse mais do que uma nave que levasse dentro, incólume, os mesmos sentimentos. Que seja então um símbolo daquilo que nós não queremos que vá com o tempo num só sentido, sem retorno. Assim, na ilha como agora junto ao Tejo, eu ofereço-lhe este poema com o meu aceno rosa-de-porcelana:
FLOR de MILHO
Soltaste um pássaro de sol / pelo infinito dos caminhos / a desintegrarem-se em espuma / no vale das estrelas caídas… / Somente aquele poema de fogo / gravado no corpo descarnado dos vulcões / te faz ainda promessas de silêncio, / a mais pura das vozes a descer sobre ti / em gotas de orvalho perfumado. / Do seio prateado das lagoas / enlaçam-te raízes brancas como asas de borboleta,/ mas da tua boca eleva-se um sorriso / lavado com a água da saudade: / -“Nunca me esqueci que vim do Sul” / onde o mágico crepúsculo se banhava / no rio Chilo / e os cafeeiros em flor / cantavam versos de luar / ao som do velho quissanje / de Paulino Valúnje! / Das folhas do teu cajueiro / dispersas na tempestade de uma noite / que jamais se apagará / começa já a despontar a aurora / de uma flor de milho / que tu depuseste no colo nordestino / do teu ser em fuga…
(Jorge Arrimar, Açores, ilha de S. Miguel, 24 Out. 1982)
[…]
Jorge Arrimar
(Lisboa, Bairro Alto, Livraria “Ler Devagar”, 19.30 H, sábado, 20Nov. 2004. Publ. em Cadernos de Estudos Açorianos : Suplemento, 10Mar.2011, p.14-17)
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Chrys Chrystello
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