A ilha no interior… [Galiza 7 de abril de 2009] por concha rousia

A ilha no interior…  Galiza 7 de abril de 2009 por concha rousia

Amanhece no vale da Amaia, no vale em que eu, a três quilómetros da casa de Rosalía de Castro, moro; daqui ouço os sinos de Bastavales que por nós chamam. Na distância, se não fosse hoje um dia cinzento, poderia enxergar as torres da catedral de Santiago de Compostela. Mesmo assim o dia já anuncia, nestas horas temperãs do alvorecer, a beleza primaveril que vem conquistar este lado da Terra…do desabrochar das gemas dos majestosos carvalhos ao abrir das pétalas da mais delicada flor. Ora, se eu fechar os olhos, sinto é o latejar da ilha em mim, num ar que hoje traz aos meus ouvidos o som do piano de Rodrigo Warken em ‘saudades no coração’ que também vieram da ilha, e que muito agradeço a Edson Machado o ter trazido de Santa Catarina.
A ilha, sem eu saber, veio comigo, ou talvez fui eu que fiquei nela e vou voltando a pouco e pouco, mesmo que o meu corpo chegasse há algo mais de vinte e quatro horas. Em mim há hoje um vazio, um que desde miúda eu já aprendi a identificar como a morada da saudade… Atrevo-me a olhar lá dentro dessa morada e sinto a presença do que hoje me falta… Vejo a ilha, vejo as pedras negras abraçadas polo verde e o azul…
Penso no que sinto e em mim nasce um rio de palavras que querem ir ao vosso encontro; escrevo-as para todos vós, para nós, os habitantes dos colóquios, os habitantes de carne e osso da Lusofonia real que durante oito dias se converteu no nosso país… Daqui quase posso enxergar um sonho do futuro no que algum dia, parafraseando o grande bate, possamos todos dizer ‘A nossa pátria é a Lusofonia’.
Sei que para todos foi muito intensa a experiência de habitar nessa pátria da Lusofonia, pátria em construção que contrasta com a pátria em que os galegos moramos. Foi bom para os chegados dos continentes como o foi para os ilhéus… Ora, para os galegos foi ótimo. Para mim significou normalidade, significou ter pátria por um tempo que, mesmo que limitado, foi infinito… e eu levo em mim essa marca que levam os habitantes da diáspora, esses que sonham com voltar só para se verem e saberem de volta…
Essa saudade que é o sentimento que distingue os habitantes dos territórios nos que se fala a nossa língua… Eu, acostumada a analisar as profundezas dos sentimentos humanos, me pergunto hoje se essa saudade não virá desde que o nosso povo se partiu e nasceu entre nós uma fronteira política… Uma fronteira que rachou pola metade a árvore da nossa língua. Essa saudade tem que ter vido de algum momento no que nós perdemos qualquer cousa de essencial que nunca mais foi recuperada. Eu, sem entrar a analisar, só posso dizer que durante os dias em que duraram os colóquios, mesmo que eu quisesse, não poderia ter tido saudade por cousa nenhuma.
Agora é que sinto a falta desse tempo, de vós todos e também de mim, da que eu fui nesse tempo. Queria contar-vos isso e enviar um abraço desde esta Galiza, nossa mãe dos dous mares, um abraço no que caibais todos vós, aos que levo já para sempre dentro de mim, na ilha interior onde guardo os meus mais queridos membros da tribo, os que conheci ao longo desta vida, e os que já se foram para o além antes de eu nascer; a tribo à que eu pertenço e que dá sentido a tudo o que eu faço. Fecho os olhos e sinto as vossas vozes entrelaçadas e indistinguíveis das outras vozes que eu sempre cultivo em mim…
Sinto o rugir do mar rubro em cujas ondas vem hoje a serenidade e sabedoria do olhar genuíno de Bechara e de Malaca; a mim chega uma maré de sorrisos, de abraços, de imagens vivas… o restaurante Carlos onde a teoria do Sérgio, da inclusão através da arte, se faz realidade mágica, especialmente quando o restaurante é encerrado e a noite se continua no andar a rés-do-chão, onde a palavra ‘melting-pot’ que devia ser inventada em português, se faz carne. Sinto a fusão dos vizinhos da Lagoa com os chegados de toda a Lusofonia, fusão que emana do latir do coração brasileiro, do latir da música com que se derrete toda a barreira desnecessária para se sentir à vontade…nesta altura da minha crónica a minha voz sentiria eu, se estivesse a falar, congelar-se na minha garganta, mas nasceria logo o sorriso ao lembrar o frigorífico no que falou Cristóvão de Aguiar. Na ilha, nas noites de fusão cultural entre os ilhéus e os chegados, foi o mais perto que eu estive do Brasil… Guardo na memória do meu corpo abraços para um ano inteiro, ora isso não evita que eu, como o emigrante que sonha com as férias para voltar a casa, sonhe com o voltar dos colóquios. A mim chegam imagens que, sucintamente, gostaria de comunicar a todos vós…
Chega a mim a cachoeira da Achada com suas águas a ferver e humedecer os olhos de Silmara, minha aliada poeta e irmã. Chega também o sabor do vinho abafado num espaço vestido de artes tecidas por mãos femininas e açorianas. Chega o eco do almoço no que cantamos os parabéns à Helena, a musa dos colóquios que nascem de um vulcão chamado Chrys Chrystello, um vulcão do que brota uma maré de sonhos contagiosos em que todos temos direito a existir… Vem a mim a imagem de doçura e saber, e também saber dar, de Célia e o seu anjo ao que ela sabe cuidar… Vem a mim a magia do teatro Gira com sua arte que inclui a todo o mundo… Vem a música, mas como descrevê-la?! O que posso eu dizer dessa arca infinita de canções chamada Carlinhos… ou desse sorriso feito homem colado e inseparável do seu acordeão-sanfona-gaita a repartir felicidade… ou do penetrante olhar do Metre pop trançado com os fios do subtil soar do berimbau… ?
Tudo elevado nos pilares da escrita açoriana e lusófona…o Daniel [de Sá], o Cristóvão [de Aguiar], o Mário [Moura]. Os oradores e estudiosos das diversas temáticas destes colóquios. Os representantes dos governos da Câmara da Lagoa e do Governo de Santa Catarina. Os académicos. Os professores. Os poetas. E de novo a ilha… as suas pedras negras, as pradarias que sobem até ao capelo dos bicos, nada pronunciados, das lombas verdes que se recortam no céu mais cambiante que eu já vi, certamente num dia se podem viver as quatro estações do ano… A ilha exerce em todos nós um enorme fascínio; ela tem essa força magnética contra a que não podemos, nem queremos, lutar; força que lança as suas ondas do meio do mar aos quatro cantos desse planeta chamado Lusofonia…      


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Loanda – Escravas, Donas e Senhoras” de Isabel Valadão

Leia

Loanda – Escravas, Donas e Senhoras
Isabel Valadão
Edição em Português. Publicado em 05/2011
Expedido em 24h

«No século XVII, duas mulheres deixaram o seu rasto na história de Luanda. À sua volta teria gravitado um sem-número de indivíduos, fidalgos, traficantes, degredados, escravos e libertos. Uns, foram personagens marcantes do seu tempo, outros, simplesmente anónimos no papel de figurantes, todos eles fazendo parte de um específico contexto historiográfico da colónia angolana. Se existiram realmente ou se foram, apenas, o retrato fugaz de uma época, não há certezas, embora tenham perdurado de alguns vestígios de memórias escritas.»
Através do retrato de Maria Ortega e Anna de São Miguel, somos levados até Luanda do século XVII, de encontro ao percurso, queda e ascensão dos escravos e exilados do reino português. Cruzando a História num ritmo narrativo forte e surpreendente, Loanda é um retrato vivo, marcado pela força das mulheres que deixaram o seu rasto nesse território.

Ficha detalhada: “Loanda – Escravas, Donas e Senhoras” de Isabel Valadão
Autor Isabel Valadão
Editora Bertrand Editora
Data de Lançamento Maio 2011
ISBN 9789722523066
Nº Páginas 286
Encadernação Capa Mole

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Portugal e o Islão na Idade Média

 

Portugal e o Islão na Idade Média

João Silva de Sousa*

“(…)
Portugal pode considerar-se herdeiro da cultura islâmica, uma herança resultante de 500 anos de dominação muçulmana, legadora de diversas vertentes culturais, ainda hoje visíveis.
Um dos contributos mais evidentes desta civilização é, sem duvida, o vocabulário, embora não passe de substantivos, nada que se compare com o legado latino, o qual é demonstrativo da própria construção da frase e de um número de verbos e nomes absolutamente incontáveis. Quanto à influência muçulmana, neste sector, tudo leva a crer que não tenha ultrapassado as 800 ou mesmo nem tivesse chegado a tão estreito léxico. Algumas, inclusive, acabaram por desaparecer do nosso dicionário, sobretudo no que respeita ao âmbito da Administração. Ficam alfaias de casa, nomenclatura médica (em número reduzido), nomes respeitantes à alimentação… e, acima de tudo, o mais importante, indiscutivelmente, a numeração e a introdução do zero que trouxeram do Oriente.
Dentro do legado construído islâmico, indubitavelmente, a arquitectura militar é dominante, nos finais da alta Idade Média. Reflexo disso, era a existência, no século X, em todas as cidades de uma alcáçova ou torre alta da fortificação, das quas quais poucos vestígios sobreviveram. Carlos Alberto Ferreira de Almeida aponta como importante evidência a do Castelo de Santa Maria da Feira – uma construção torriforme, habitacional, dos finais do gótico, assenta sobre uma alcáçova muçulmana. O arco da sua entrada principal, hoje alargado, na origem, terá sido em ferradura, numa arcada segundo a técnica cordovesa. O Autor data esta base da alcáçova, pertencente ao Castelo de Santa Maria da Feira, do século X ou XI (Ilustração 10).

Entre este património construído, legado da ocupação islâmica, contam-se vários castelos levantados com taipa, com objectivos defensivos, dominando as vias de comunicação do Gharb al-Andalus. Os castelos são os principais vestígios arquitectónicos legados pelos Muçulmanos entre os séculos VIII e XII. Como exemplo destas fortificações, temos o de Alcácer do Sal, interessante pela sua contextualização histórica e de localização estratégica ao dominar a entrada de um amplo território. Outros são os exemplos de castelos islâmicos, como os de Beja, Coimbra, Elvas, Évora, Faro, Lisboa, Mértola, Santa Maria da Feira, Silves, entre outros. Nestes fortes, está presente a utilização islâmica da taipa na arquitectura militar, profusamente divulgada e difundida pela Península Ibérica no tempo do domínio islâmico. No entanto, a taipa não tem origens islâmicas, nem a sua utilização na Península Ibérica se fez apenas no período muçulmano; a utilização da taipa já se evidencia ao tempo da ocupação romana, mas a civilização islâmica em Portugal incrementou e foi influente na utilização da taipa e do adobe, de que os Berberes foram transmissores de notáveis conhecimentos práticos das técnicas de utilização. Esta é conhecida desde a mais remota antiguidade e teve um uso generalizado em áreas do Mediterrâneo, sendo, ainda hoje, perceptível como um dos sistemas essenciais de construção nas Províncias do Sul do nosso País. Também, na reconstrução de paredes e divisórias de casas de pedra, típicas, que duraram pelo andar dos tempos, na nossa actual Beira Interior. Exemplos desta brilhante aplicação técnica são as muralhas de Silves, Paderne e Alcácer do Sal, evidenciando taipa militar das dinastias Almorávida e Almoada (Ilustrações 16 e 17), semelhantes às taipas das muralhas de várias medinas do reino de Marrocos.

A unidade, a globalidade, a contemplação, a escrita cúfica como elemento decorativo e como sistema transmissor religioso constituíram-se como príncípios gerais da arte islâmica.

(…)”

* Professor da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa. Académico Correspondente da Academia Portuguesa da História.
Texto completo, clique aqui.
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Dicionário ganha novas palavras estimuladas pela tecnologia e internet

Dicionário ganha novas palavras estimuladas pela tecnologia e internet

Saiba qual é o trabalho do dicionarista e como as palavras vão parar no dicionário

EPTV

A nossa fala é viva, popular e está em constante transformação. A cada ano surgem novas expressões que ganham força nas ruas e principalmente na internet. O que pouca gente sabe não sabe, é que muitas dessas palavras já estão no dicionário e algumas bem conhecidas.

Na rua todo mundo conhece a palavra “Ricardão”. O vendedor Ademir Sanches não tem coragem de explicar, mas avisa. “Tem muito Ricardão andando por aí”.Ricardão, no dicionário quer dizer “o outro, o amante”.

Hoje eu já “tuietei”, “bloguei”. A tarde vou assistir a um filme em um “blu ray”, à noite tem “balada”. Essas expressões, palavras e até verbos que estão na boca do povo há algum tempo e que agora também tem espaço nos livros. Com a modernidade, a língua portuguesa também ganhou novos verbos: tuitar e blogar.

Muitos nomes estrangeiros também invadiram as ruas. A lista é grande: nerd, chororô, sex shop, Enem, flex, test drive e até a saidinha de banco. Alguns produtos e marcas, de tão conhecidos, viraram sinônimo.

O famoso curativo “band-aid” também ganhou espaço, só que foi “aportuguesado”. Ao contrário da marca que tem hífen, o que foi para o dicionário se escreve tudo junto e como se fala. “bandeide”.

Muita gente tem curiosidade para saber como as palavras vão parar no dicionário. O professor e dicionarista Francisco Borba explica como é o trabalho de registrar estas palavras. A função do dicionarista é recolher as palavras das mais diversas fontes e colocá-las numa determinada ordem dentro dos dicionários”, explica.

Francisco Borba é um caça palavras e já lançou três dicionários e prepara mais um, só que agora com ajuda de um aliado, uma ferramenta moderna: a internet, que facilitou a busca por novas palavras, inclusive pelas palavras estrangeiras. “A língua é uma entidade dinâmica e está sempre em movimento”, finaliza Borba.

Fonte: EPTV – Emissoras Pioneiras de Televisão

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“A ocupação da escola não é apenas corrigir qual o certo e qual o errado”

 

“A ocupação da escola não é apenas corrigir qual o certo e qual o errado”, diz sociolinguista

A distribuição do livro “Por uma vida melhor” pelo Ministério da Educação (MEC) para Educação de Jovens e Adultos (EJA) causou polêmica na sociedade, por trazer em seu conteúdo, além do português culto, questões como as variações linguísticas, variante social da língua que não segue a gramática normativa, mas o contexto social de origem. Na obra, são usadas frases como: “Nós pega o peixe”, com a explicação de que “na variedade popular, basta que a palavra ‘os’ esteja no plural”, pois “a língua portuguesa brasileira admite esta construção”. Os defensores da norma culta criticaram a publicação da obra, justificando que o livro incentivaria alunos a praticarem erros. Contudo, o que o livro apresenta são concepções da sociolinguística – sub-área da Linguística que estuda a variação da língua e o seu funcionamento social – e alerta para a existência do preconceito lingüístico.
Diante da polêmica em torno dos supostos “erros”, o professor Cosme Batista dos Santos, professor da Universidade do Estado da Bahia, em Juazeiro, e Doutor em Linguística Aplicada pela Universidade Estadual de Campinas, esclarece que, na concepção da sociolingüística, “não existe linguagem errada ou correta, existe linguagem que se usa em uma situação e em outra não”. Assim, é necessário compreender o conceito de certo e errado, e inserir na escola o ensino das variações linguísticas. Para o professor, os meios de comunicação fizeram uma interpretação errada da obra. “O livro não fala de “erro”, quem evidenciou a questão do “erro” foi a mídia. Ele não afirma, por exemplo, que falar errado é certo. A obra fala que é correto falar de certo modo em uma situação, mas que, em outras situações, é melhor falar de outro modo, ou seja, desconstrói e relativiza a noção de certo e errado na linguagem”.

Multiciência: Parte da sociedade acredita que o MEC defende que alunos sustentados pela sua variação linguística podem falar ‘errado’, mesmo em sala de aula. Qual a justificativa da sociolinguística como ciência a respeito do que é a variação da língua e sua relação com a norma culta convencional?
Cosme Batista: A sociolinguística vai explicar que certas estruturas da linguagem popular têm uma razão de ser, têm uma função e não é à toa que elas existem. A nossa linha é trabalhar com o relativismo linguístico, considerando que não existe linguagem errada ou correta, existe linguagem que se usa em uma circunstância e em outra não. O que a escola tem que fazer é assumir que tem uma heterogeneidade cultural em seu ambiente, sem abrir mão de ensinar a escrita padrão, o dialeto culto, pois é através da leitura e da escrita que o aluno tem acesso a outros conhecimentos.Multiciência: Na obra, ressaltou-se a substituição da classificação certa ou errada por adequada ou inadequada, a depender da situação. O que se entende por erro ou norma adequada?
Cosme Batista: A tarefa da escola não é apenas corrigir qual o certo e qual o errado, mas tentar estudar e explicar porque certas estruturas são consideradas erradas e porque outras são consideradas certas. Quais as relações de poder envolvidas? Por exemplo, se um aluno de determinada comunidade vai à escola e aprende que o correto é o dialeto padrão e que os outros são errados, ele pode chegar à sua comunidade discriminando o dialeto de seus pares, por exemplo, o dialeto dos idosos de tradição oral. Eu tenho depoimento de aluno que passou a vida escutando as histórias contadas pelos pais e avôs e que, após a escolarização, deixou de escutá-los, por não dar mais valor aquela linguagem. Por isso, a escola deve permitir que o aluno aprenda o saber escolar, respeitando o seu saber, a sua língua e a sua cultura, porque isso também é conhecimento.

Multiciência: Por que a Sociolinguística admite a construção “Os menino pega o peixe”, presente no livro. Em que circunstâncias a aplicação dessa oração fere a norma culta da língua portuguesa e deve ser ‘corrigida’?
Cosme Batista: Olha, para William Labov, pai da sociolinguística, a estrutura está correta. Ele diz até que é mais correta do que dizer “Os meninos”, por conta da redundância gerada pela dupla flexão “os” e “meninos”. Ou seja, é uma dupla flexão, desnecessária. Quando um usuário fala “Os menino” ele está simplesmente reduzindo, e apagando uma redundância que aparece em “Os meninos”. Em alguns casos chega a ser mais grave como na expressão: “Os meninos jogam”. Na expressão, você tem uma dupla redundância, então, a sociolinguística vai explicar que essa estrutura não é errada e pode ser legitimada, assim como se legitimou a norma padrão correta. Então, são dois usos possíveis.

Multiciência: Um conceito que, apesar de não ser novo, é a expressão preconceito linguístico. Como ele afeta a vida social de um aluno?
Cosme Batista: Um aluno de certa zona rural, por exemplo, sofre preconceito linguístico quando ele não é convidado a falar na escola. O aluno leva um conhecimento prévio para a sala de aula, um saber rico, no entanto, não é convidado a compartilhar essa experiência com os colegas e com a escola. O segundo é quando ele é convidado a falar, porém é corrigido de imediato antes de terminar sua história, antes de falar do seu mundo e de si. Ele também sofre um preconceito linguístico quando a escola, mesmo sabendo que ele tem um dialeto diferente do padrão escolar, não se esforça para poder proporcionar para ele outro dialeto. Isso também é um preconceito porque a escola não soube compreender a relevância dessa comunicação intercultural, ou seja, ela não deu possibilidades para que ele pudesse ter uma forma de deslocamento, a apropriação de um novo saber e de seu uso, como uma forma de empoderamento.

Multiciência: Como um professor, em sala de aula, deve se posicionar quando um aluno expressar “Os caderno rasgou”?
Cosme Batista: Concretamente, a escola escuta o aluno e fala: eu entendi o que você está falando, porém se você continuar falando desse modo, tem gente que não vai lhe escutar. Nesse caso, a escola vai entrar com o conhecimento da flexão gramatical padrão para que o aluno possa se deslocar e potencializar a sua fala. Nesse caso, a escola reorientou, ampliou as possibilidades, fortalecendo o aluno para falar em diversas situações.

Multiciência: E se em uma avaliação de Língua Portuguesa, o aluno escrevesse: “Os carro é azul”, como um professor avaliaria essa questão? O aluno seria corrigido pela gramática normativa ou a variação linguística prevaleceria?
Cosme Batista: Quando a escola elege que “Nós vamos” é o correto, e o aluno usa “Nóis Vai” em uma avaliação, por exemplo, ele será cobrado pelo padrão escolar. Mas ele estará errado não é porque utilizou “Nois vai”, é porque ele não usou o padrão escolar. É aí que reside a diferença entre o errado e o inadequado. O inadequado é quando o aluno tem consciência que já aprendeu que, naquele contexto, o uso é aquele e, no entanto, ele não usou o que foi ensinado para ele. O que é diferente de quando você diz que não se pode falar “Nois vai”, porque isso cria um silenciamento cultural e linguístico. É como se a escola dissesse para o aluno: eu só vou lhe escutar quando você disser: “Nós vamos”, porque “Nois vai” não é correto. Ideologicamente é um silenciamento: não me conte a sua história, não me conte quem você é, o que você faz. Assim, a escola apaga a oportunidade de conhecer o aluno e a sua história.

MultiCiência: Como o professor pode trabalhar a gramática normativa e a variação linguística em sala de aula?
Cosme Batista: A sugestão é tratar a língua como objeto de estudo e investigação, ou seja, se eu quero proporcionar para o meu aluno o aprendizado das variações lingüísticas, é importante que eu faça isso como trabalho de investigação. Então, uma coisa que eu proponho é que o aluno, a partir de sua inserção multicultural, seja capaz de escutar as narrativas dos idosos da sua comunidade. As narrativas dos idosos vão aparecer como uma variação dialetal, presente no cotidiano de determinada comunidade. Quando o aluno vai conhecendo essa variante, como investigador, ele tem duas conquistas: uma é que ele aprende a lidar com a variação dialetal, uma maneira particular de conhecer e explicar o mundo; a outra é que ele vai passar a estudar a razão de ser daquela variante linguística a partir do padrão de escrita da escola. Assim, é possível que ele entenda como aquela narrativa popular tem sentido. E para que ele possa compartilhar essa conquista, ele precisa estudar na própria escola, o que é uma narrativa, quais os seus padrões, quais as suas estruturas, além de poder ler e escrever no português padrão um pouco sobre aquilo que ele viu, ouviu e sentiu.

Multiciência: Por que é importante professores e até livros abordarem as variações linguísticas em sala de aula?
Cosme Batista: O livro didático, assim como a educação de jovens e adultos, precisa ser culturalmente relevante. E o que seria um livro didático culturalmente relevante? É aquele que conhece profundamente para quem se destina o seu conteúdo, quem é o seu leitor em sala de aula. Quando um livro didático coloca para um aluno que falar “Nois vai” não é errado, a obra estará apenas materializando uma relação que, em minha opinião, e de muitos sociolinguístas, é uma relação de respeito com o dialeto popular e, consequentemente, com o próprio povo. O livro não pode negar ao aluno o direito de valorizar o seu dialeto e, ao mesmo tempo, o direito de aprender outras variantes da sua própria da sua língua.

Multiciência: Como o Sr. avalia a função dos meios de comunicação, eles ajudaram a esclarecer a temática ou reproduziram preconceitos?
Cosme Batista: O que está caracterizado é uma enorme ignorância sobre o assunto. O material foi mal interpretado. O próprio livro não fala de “erro”, quem colocou a questão do “erro” foi à mídia. Ele não afirma, por exemplo, que falar errado é certo. A obra fala que é correto falar de certo modo em uma situação, mas que, em outras situações, é melhor falar de outro modo, ou seja, desconstrói e relativiza a noção de certo e errado na linguagem. O ensino da variação linguística é um conhecimento científico como qualquer outro. O aluno que está na idade escolar também tem o direito de saber quais são as descobertas científicas da linguística e não ficar o tempo todo decorando as normas da gramática normativa, como se isso fosse potencializar os seus usos mais competentes da língua e do conhecimento. E a gente chegou a um estágio de descoberta sociolinguística que nos permite dizer com segurança que “Nois vai” não é errado, é apenas inadequado para algumas situações.

Por Michelle Laudilio (texto) e Emerson Rocha (foto), matéria especial para o Gazzeta do São Francisco, publicado na edição de 8 de Junho.

 

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Sobre a origem e significado das palavras Portugal e Galiza

sobre a origem galiza
Sobre a origem e significado das palavras Portugal e Galiza
Quinta, 10 Fevereiro 2005 (11:15)
Luís Magarinhos Igrejas Galiza, Fevereiro de 2005
«As palavras, como os pássaros, voam sobre as fronteiras políticas»
DANIEL R. CASTELÃO (1886-1950) Da fala e da escrita, Galiza Editora, 1983, p. 79
Nenhum país com aspirações e vontade de ser no campo da modernidade, pode construir um futuro com
autoestima e dignidade suficiente se não assume com honestidade e valentia intelectual os verdadeiros
pilares que sustentam a sua identidade coletiva e as suas próprias origens como povo. Por isto é que hoje
sabemos, portugueses e galegos, galegas e portuguesas, que somos partilhadores duma identidade cultural e
linguística que nos define unitariamente. Muitos de nós, aceitamos já com poucas reservas, o facto de
Portugal e Galiza terem em comum um passado histórico e proto-histórico conjunto, uma realidade geográfica
e geológica própria e uma língua de influências milenárias que teimosamente segue sendo hoje a mesma.
Alguns, conheciam as nossas características etnológicas e antropológicas ou o existencialismo saudoso que
ontológica e diferencialmente nos define. Mas, poucos sabiam (ou sabíamos), que a ligação galegoportuguesa,
a ligação portugalega, ultrapassa inclusos estes elementos primordiais, que, de facto, seriam
mais do que suficientes para tirarmos conclusões sobre nós mesmos e o nosso hipotético futuro como
coletividade histórica. Mas, há algo mais, uma outra ligação que emerge por acima das fronteiras arbitrárias e
invisíveis, e que torna mesmo inquebrantável e imutável todo o anterior. Uma ligação que tem a ver mesmo
com a origem e significado das denominações que os nossos (nosso) povos têm recebido no decorrer
histórico. Tem a ver com a origem e significado das palavras Portugal e Galiza.
1. Cale vs. Gal, ou a procura das origens
Uma primeira olhada leiga sob as palavras Portugal e Galiza, permite-nos perceber de imediato a existência
dum radical Gal conteúdo nos dois vocábulos. O que de imediato nos faz, pelo menos intuir, algum tipo de
ligação etimológica entre as duas denominações. Aliás, a forma Gal, não é mais do que uma derivação latina
do radical indo-europeu Cale (Calem segundo as fontes). A origem da palavra Galiza (Calécia, Gallaecia), tem
a ver precisamente com o radical Cale. Concretamente, com o localizado numa das áreas onde hoje se
encontra a cidade do Porto. Mas, antes de abordarmos essa questão, seria bom aproximarmo-nos a algumas
das análises que sobre a etimologia e origem linguística Cale se têm realizado. Hoje sabemos, que a forma
Cale, esteve e está, muito presente ao longo de toda a geografia europeia. Especialmente nas áreas
geográficas onde perviviu ou pervive um substrato linguístico celta (ainda que se tem registado também em
outras línguas indo-europeias como o eslavo ou o albanês). Daí, por exemplo, que na Europa Atlântica (e não
só) tenhamos encontrado denominações como Gália, Calais, Gales, Galatia, Gaia, Galiza ou Portugal.
Palavras, sob as quais, uma simples olhada, dá para ver que é o que têm em comum em relação à raiz
Cale/Gal. Estes povos proto-históricos partilhavam uma língua comum indo-europeia que alguns autores
(Fuco O´Soer) relacionam com o goidélico, ainda existindo diversas ramas dentro dela, como seriam a gaélica
(Irlanda, Escócia…), britónica (Cornualhês, Gales, Bretanha) e a galaico-lusitana (Galiza e Portugal). Esta
última virá logo a misturar-se com o latim após a ocupação romana.
Mas, o que nos atinge agora, é tentar sabermos qual é a origem exata e significado de Cale dentro do corpus
linguístico celta do que é originário. Para Fuco O´Soer a origem do termo (que logo dará lugar à forma
latinizada Gallaecia) parte da Deusa mãe dos celtas Cal-leach, pois, segundo ele, era costume romana na
altura nomear aos povos conquistados pela denominação dos seus deuses. Isto dá, para lembrar-nos, que o
nascimento da Calécia/Gallaecia como entidade política, produziu-se após a batalha do Douro e a posterior
conquista romana. Para este autor, os celtas do Douro, virão a ser os Cal-laic-us (Calaicos) ou filhos da
Deusa mãe dos celtas Cal-leach. Cuja referencia se tem encontrado numa inscrição na forma de Calaic-ia no
lugar de Sobreira, perto do Porto. Uma outra análise do radical Cale no âmbito das línguas célticas: Palomar
Lapesa (1957) e Alberto Firmat (1966), liga este com o significado de «pedra», «rochedo», «duro», cuja
expressão se adequa com rigor às características geológicas e graníticas da cidade, nomeadamente do
morro da Sé. Para Higino Martins (1990) o vocábulo pré-indo-europeu Kala, definido como «abrigo»,
«refúgio», passou à língua celta sob a forma Cale e com significação de «terra», «montanha». Para ele, o
etónimo Calaico/a viria então a denominar ao «da terra», ao «do lugar». Outras interpretações, menos
consistentes desde o nosso ponto de vista, ligam a origem de Cale (vs Gal) com os galos ou gálatas. E
mesmo há autores que atribuem a fundação de Cale, a uma expedição de galos chegados às terras do Douro
através da Lusitânia. Mencionarmos também aos que como Pedro de Valdés ligam a origem da palavra com
vocábulo grego Kalos, «fermoso», daí que Calécia significasse para este autor «coisa fermosa».
2. Cale e o nascimento da Galiza (Calécia/Gallaecia)
Segundo múltiplas interpretações, entre as que sugerimos destacar as de Mendes Corrêa (1933), A. Tranoy
(1981) e Coelho da Silva (2000), a origem do nome da Galiza (Calécia/Gallaecia) dado pelos romanos (reforma
de Diocleciano 284-288 d.C.) ao território político-cultural enquadrado no Noroeste penínsular, delimitado com
a Lusitânia pelo rio Douro, é um caso de apropriação onomástica a partires dum topónimo que nomeava
apenas o povoamento proto-histórico ou castro de Cale, localizado na área que compreende o Morro da Sé e
o monte da Cividade do que hoje é a cidade do Porto. Lugar onde se estabelece a localização originária do
primeiro povoamento humano que se tem registado na cidade. A existência do castro ou cívitas de Cale,
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sobre a origem galiza
transmitido até os nossos dias pelas fontes clássicas (C. Plínio), permite-nos afirmar (concordando neste
ponto com as interpretações de quase todos os autores que têm estudado esta questão), que este topónimo,
deu nome ao etónimo Calaicos/as (habitantes de Cale), tribo que, além de distribuir-se em vários povoados
proto-históricos nos arredores do que hoje é a cidade e a foz do Douro (Sanfins, Penafiel ou Vila Chã),
contavam com um lugar de importância capital, devido ao valor estratégico na encruzilhada de caminhos, que
na altura, vinha a supor o lugar onde hoje se encontra Morro da Sé e o monte da Cividade do Porto. C. Plínio,
que definiria aos habitantes de Cale como Caleci/Galaicos, fez distinção entre estes, e os Lusitanos do sul do
Douro.
Mendes Corrêa aposta por localizar o monte da Cividade (e o povoado de Cale) no outeiro enquadrado entre a
Batalha e o lugar onde se hoje se encontra estação de São Bento junto com as ruas adjacentes (Cimo de Vila
e da Madeira) que ligam esta área com o Morro da Sé. Há autores que se têm decidido por localizar a
cívitas/castro de Cale, e posteriormente o seu porto (Portu Cale), na margem esquerda, na margem sul, do
Douro; no que hoje é Vila Nova de Gaia, mas, uma leitura sossegada das teses de uma e outra opção, levanos
a aceitar que o Cale original só tem podido localizar-se na margem direita do rio.
Para Leite de Vasconcelos, a mais antiga referência a Cale, é a feita por Salústio no S. I a.C. Na qual se
indica claramente, Cale ser uma cidade da Calécia, «cívitas in Gallaecia». Ora, a Calécia, como já foi dito,
situava-se ao norte do Douro. Mesmo também Vergílio Correia identifica a cidade de Cale com o convento
dos Brácaros, ao norte do Douro.
Segundo o que acabamos de afirmar, seria bom aclararmos mais uma vez como aponta Manuel de Sousa
(2004), que o facto dos romanos terem dado o nome de Calécia/Gallaecia a todo o noroeste da Península
Ibérica como uma das suas delimitações político-administrativas (neste caso o último e mais resistente
território a ser conquistado), não quer dizer, como já comentámos, que toda ela fosse habitada pelos
Calaicos. Pois na altura (S. I a.C.), existiam diversas tribos, que, mesmo partilhando um substrato étnico
cultural e um habitat comum, localizavam-se em diferentes populi em todo o noroeste. Além dos Calaicos, as
fontes escritas e arqueológicas, transmitiram-nos constância de muitas outras agrupações tribais, que, como
os Gróvios (Baixo Minho), Ártabros (Artábria, ou área da actual cidade da Corunha e Ferrol), Célticos
(Bergantinhos), Poemanos (Lugo), Brácaros (Braga), Caporos (Íria Flavia) ou os Quarquernos (Serra dos
Gerês) entre outros, distribuíam-se em pequenas cívitas por toda a área do que logo virá a ser a Gallaecia.
Mas só um desses populi, o de Cale, teria a sorte de erigir-se em topónimo fundador, e converter-se
posteriormente, no nome da atual Galiza.
3. O porto de Cale: Portu Cale
Segundo aponta Coelho da Silva (2000) a «justaposição natural da cívitas [ou castro] de Cale e o seu porto,
portus, poderão justificar a primeira referencia a Portu Cale», datada na segunda metade do século V d.C. e
transmitida pelo Chronicon de Idácio. Um Portu Cale que nos atrevemos a localizar, quase com toda
segurança, ao pé da margem norte do Douro, no que logo virá a ser Ribeira do Porto. Idácio, o cronista e
bispo de Chaves (falecido em 472 d.C.), afirma textualmente Portu Cale estar situado «ad extremas sedes
Gallaeciae» (na extrema da Gallaecia), que como se sabe, estando separada da Lusitânia pelo rio Douro,
«Fluvius Dourus dividens… Gallaecia et Lusitania…» (Julius Honorius), exclui claramente qualquer hipótese
de localização desse sitio na margem esquerda do rio. Mendes Corrêa (1933) escreve que «havia uns 500 ou
600 metros a percorrer [desde Cale] até o Douro pela via natural de trânsito, nas margens do [afluente] Rio da
Vila». Para o grande arqueólogo portuense, o vale que se vinha a conformar desde a Sé e o monte da
Cividade, até a beira do rio (o que hoje seria as rua das Flores e Mouzinho da Silveira), ligaria Cale com o seu
porto na margem norte do Douro, estabelecendo-se Portu Cale, já na época romana (daí a origem latina do
radical inicial da palavra), como porto de serventia para Cale. Chegados a este ponto não faz sentido, como já
afirmamos, que o porto de Cale se situasse do outro lado do rio, no castelo de Gaia, pois, o trajeto natural
desde Cale até o Douro, vinha a encorajar-se através do vale marcado pelo rio da Vila até a atual Ribeira da
cidade. «A Ribeira era o cais natural da Cividade sobre o Douro», afirma Mendes Corrêa (1933). Portu Cale
virá a nascer então como uma derivação natural das atividades de Cale para a beira do rio. Pois, era este, o
processo geral da «pax romana»: o abandono dos lugares altos e abruptos dos habitats castrejo/celtas, e a
migração para os vales, planícies e terras baixas. Por isto é que só a partires do século V d.C. que começa a
deixar de se falar de Cale como tal, e se iniciam as primeiras referências ao «porto de Cale» (Portu Cale).
Topónimo que teria a sorte de erigir-se em nome do atual Portugal, como séculos antes, o Cale de Portu
Cale, dera nome à Galiza.
4. PORTUGALIZA E O FUTURO
O professor Armando Coelho tem assinalado recentemente que Portugal não pode ficar com uma história
política que só é conhecida a partir dos limites do atual Estado: «há informações em termos de pervivencias
que não são inteligíveis se nós fizermos a nossa história só até o começo da nossa nacionalidade ou até o
começo da era romana. Temos que ir mais para trás». Afirmação com a que coincide David Santos Araújo
quando disse que «Portugal não precisa procurar as suas origens num caldo nebuloso e confuso onde todas
as conjeturas são possíveis». Por isto mesmo, e apelando ao respeito histórico, faz-se necessária a crítica
do mito lusitanista que se tem erigido como grande conformador da identidade portuguesa até os nossos dias,
mito que em certa medida, continua a reproduzir-se na atualidade no país. Hoje sabemos com claridade, que
o norte de Portugal; o território compreendido entre os rios Minho e Douro, nunca fez parte de nenhum marco
histórico ou político lusitano, no entanto sim galego, o que não quer dizer que estejamos a estabelecer
fronteiras onde não as houve. Mas sim podemos tentar recuperar a veracidade histórica a esse respeito. E se
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sobre a origem galiza
calhar, a melhor forma de ressarcir essa errada interpretação da história e do passado, seja, em primeiro
lugar, tentando reconhecer essa galeguidade da parte norte do país, através da recuperação da memória e
dos seus direitos históricos.
No ano 1998 celebrou-se em Portugal o referendo pela regionalização, onde por escassa margem, ganhou a
opção que advogava pela continuidade centralista. Mas hoje, quanto já têm transcorrido uns quantos anos
desde essa cita; são de novo, numerosas as vozes, que reclamam com força a necessidade de recuperar e
implementar a ideia da regionalização. O mal-estar nas periferias, nomeadamente no norte, não deixa de
acrescentar-se cada dia, agravado pelos desequilíbrios territoriais que o modelo atual tem propugnado. Nesta
ordem de coisas, a nossa proposta lançada desde a Galiza do norte ao País do sul, seria dirigida cara a ideia
de tentar levar a termo um novo processo de descentralização, na linha do que estabelece a própria
Constituição da República. Processo pelo qual, o norte do país (conformado pelas atuais províncias de Douro,
Minho e Trás-os-Montes), fosse englobado numa só entidade regional autónoma de nome Galiza. Esta nova
Galiza portuguesa viria entroncar com a Galiza espanhola na atual Euro-região Galiza-Norte de Portugal, que
ainda hoje se encontra na fase mais inicial do seu desenvolvimento, mas que conta com amplas
potencialidades no contexto europeu e global. Uma Galiza re-encontrada, que aliás, teria de confluir
necessariamente com a Lusitânia e o seu povo no marco duma entidade superior portugalega. Uma
Portugaliza desde Ferrol até Faro, o sonho de muitas e muitos.
Luís Magarinhos Igrejas, Galiza, Fevereiro de 2005 Fonte : PGL – Portal Galego da Língua http://www.agalgz.org/modules.php?name=News&file=article&sid=1857
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a Galiza é uma naçom!

A Galiza é uma naçom

A Galiza é uma naçom no noroeste da Península Ibérica.Aqui houve povoamentos
desde as épocas pré-históricas (3 000 a.C.). Segundo o grego Estrabão (c. 63 a.C. – 24
d.C.) os habitantes deste extremo da península chamavam-se Kallakoi (Calaico). Os
Romanos integraram esta parcela no seu Império já em finais do século I a.C.,
passando a designar-se Gallaecia durante o reinado do Imperador Diocleciano no
século III. Os Kallakoi não devem ser confundidos com os Galos da antiga Gália
1. Os pré-celtas e os celtas da Galiza
O estudo e o ensino deste tema são algo muito complexo, devido sobretudo à opinião
persistente, tão divulgada como errónea, de que esta região fora a mais celtizada da
península Ibérica. Os arqueólogos, historiadores e investigadores de todas as épocas
(os eruditos sérios, face aos achados arqueológicos e com a ajuda dos escritos de
gregos e romanos contam como pode ter sido e em que consistiu a chegada de certos
grupos célticos a esta região. Estes estudiosos da história foram directamente às
poucas fontes que podem manejar, sem se conformarem com traduções anteriores,
muitas vezes mal interpretadas e que puderam ver as numerosas pegadas deixadas
pelos celtas, ao longo e ao largo da Galiza, como os castros.
Parece que alguns grupos (do povo celta que chegara até ao sul península Ibérica), não
se deram bem nestas terras e iniciaram outra viagem migratória, em fases distintas
etapas já tardias, para o norte, através de terras lusitanas. Nesta situação de
emigrantes celtas desde o sul, pelo oeste, rumo ao norte, não chegam a estabelecer-se
na região galaica até ao século I a.C. É o grupo conhecido como sefes, que se move por
volta do século III a.C. quando alguns se situam entre o rio Tejo e o rio Douro e outros,
seguem para a Galicia.
Ao mesmo tempo que isto ocorria, produzia-se nas costas galaicas o desembarque de
gentes nórdicas procedentes da Bretanha. A arqueologia acredita nisto através dos
achados de Punta Neixón na ria de Arousa na Província de Pontevedra.
Os celtas sefes encontraram estas terras bastante povoadas. Estrabão assegura que
havia umas 50 tribos de povos diferentes, enquanto Plínio diz que eram mais de 65. O
professor (historiador, arqueólogo e escritor) Florentino López Cuevillas na sua obra A
civilización céltica na Galiza, depois de expor um estudo exaustivo sobre o aspeto
político e geográfico, assegura que todas estas tribos, na maior parte, não eram celtas.
A lista de tribos pré-célticas é bastante extensa:
– Estrimios (relacionados com os Lígures (e comuns a países bretões, ingleses e
irlandeses), que permaneceram até à chegada dos romanos),
– Albianos, seurros, tiburos, bibalos, caporos, zoelas, nobiagoi, abii, tirii, veasmini,
salassi, rilenii, helenii, grovii, etc., todos estabelecidos desde a Idade de Bronze, antes
de 600 a.C.
Esta é a base da população pré-céltica, que é a mesma que a normanda, inglesa e
irlandesa. Destes povoadores procedem as semelhanças étnicas entre estes povos e
não chegada dos celtas. As analogias entre galegos e irlandeses atuais não provêm
dum parentesco céltico, mas duma comunidade étnica anterior que remonta a 2.000
anos atrás.
As tribos celtas dos sefes recém-chegadas sobrepuseram-se a estas mais antigas e
adaptaram-se bastante bem, crê-se que pelo seu caráter afim indo-europeu. Foram os
celtas os que se acomodaram e a sua influência foi, na maioria dos casos, tardia e
esporádica, segundo se pode saber pela confirmação do estudo da arquitetura e a
metalurgia. A dita povoação autóctone mais antiga conservou a sua destacada
personalidade linguística e cultural e também soube intercambiar aspetos culturais
com a civilização céltica. Houve um verdadeiro intercâmbio de costumes e de
conhecimentos.
2. Romanos, suevos e visigodos
Os romanos entraram no ano 137 a.C. encontrando séria resistência, mas acabariam
por conquistar a região que denominariam Gallaecia.
Os suevos, 30.000 pessoas que só tinham 8.000 homens com capacidade para lutar,
concentram-se entre o Douro e o Minho, na zona de influência de Braga. Chegaram no
ano de 409, nomeando rei a Hermérico (409-438), que celebra um pacto ou foedus
com Roma no ano de 410 pelo qual os suevos estabelecem o seu reino na província
romana de Gallaecia e aceitam o imperador de Roma como o seu superior. Depois da
morte de Hermérico reina Requila (438-448), a quem sucederá Requiário (448-456).
Este último adotará o catolicismo no ano de 449. No ano de 456 tem lugar a batalha de
Órbigo, que oporá visigodos e suevos, com a derrota destes últimos e que terá como
consequência o assassinato de Requiário.
Depois da derrota frente aos visigodos, o reino suevo dividir-se-á e governarão
simultaneamente Frantão e Aguiulfo, desde 456 até 457, ano em que Maldrás (457-
459) reunificará o reino para acabar sendo assassinado depois duma conspiração
romano-visigoda que finalmente fracassará. Apesar de a conspiração não ter alcançado
os seus verdadeiros propósitos, o reino suevo viu-se novamente dividido entre dois
reis: Frumário (459-463) e Remismundo (filho de Maldrás) (459-469) que reunificaria
novamente o reino do seu pai no ano 463 e que se veria obrigado a adotar o
arrianismo no ano de 465 devido à influência visigoda.
Após a morte de Remismundo entra-se numa época escura, que durará até ao ano de
550, durante a qual desaparecem praticamente todos os textos escritos. O pouco que
se sabe desta época é que mui provavelmente Teodemundo governou a Suévia.
A época obscura terminará com o reinado de Karriarico (550-559) que se converterá
novamente ao catolicismo no 550. Suceder-lhe-á Teodomiro (559-570) (não se
confunda com Teodomiro, rei dos visigodos) durante o reinado do qual terá lugar o Iº
Concílio de Braga (561). Miro (570-583) será o seu sucessor. Durante o seu reinado
celebrou-se o IIº Concilio de Braga (572). Aproximadamente no ano de 577 inicia-se a
guerra civil visigoda na que intervirá Miro que no ano 583 organizará uma expedição
de conquista a Sevilla a qual fracassará. Durante o regresso desta expedição o rei
morre. No reino suevo começam a produzir-se muitas lutas internas. Éborico (também
chamado Eurico) (583-584) é destronado por Andeca (584-585) que falha a sua
intenção de evitar a invasão visigoda dirigida por Leovigildo que se tornará efetiva
finalmente no ano de 585, convertendo assim o rico e fértil reino suevo em mais uma
região do reino godo.
3. Reino independente
Afonso I das Astúrias (739 – 757) foi o primeiro príncipe que começou a expansão do
Reino Cristão. Desta forma a integração do Reino da Galiza no Reino das Astúrias
ocorre entre o seu reinado e o de Ramiro I que a estende até Tui (854).
Em 813, Afonso II o Casto, rei das Astúrias e Galiza, é informado pelo bispo Teodomiro
de Iria Flávia da aparição duma luz sobre uma antiga capela. O rei chega a Santiago de
Compostela e manda edificar uma igreja. Começa a lenda do Caminho de Santiago e
Santiago de Compostela converte-se num centro de peregrinação da Cristandade.
No ano de 910 Ordonho II converte-se em rei da Galiza (ver também Reino da Galiza)
No ano de 997 Almansor inicia uma expedição de saques em terras cristãs e chega até
Santiago de Compostela
No ano de 1035 Fernando I O Magno herdou o reino de Castela do seu pai Sancho III O
Maior, rei de Navarra, e no 1037 a sua esposa Sancha herdou os reinos de Leão e
Galiza do seu irmão Bermudo III. (ver também Reino de Leão). À sua morte em 1065
repartiu as suas possessões entre os seus 3 filhos: entregou Castela ao seu filho
Sancho, Leão a Afonso e Galiza a Garcia. Mas em 1072 Afonso VI de Leão matou
Sancho II de Castela e aprisionou por toda a vida Garcia de Galiza governando assim
sobre os reinos dos seus irmãos até à sua morte em 1109
O Reino da Galiza surgiu após a retirada muçulmana da zona que pouco antes ocupara
o reino dos suevos. Em muitos momentos da sua história viu-se unido ao Reino das
Astúrias e/ou ao Reino de Castela sendo nalguns casos difícil diferenciá-los.
Oficialmente manteve-se como reino até 1833 ano em que foi dividido em quatro
províncias e desaparecendo assim dos mapas.
3. Outra visão da Galiza e de Portugal por Alexandre Banhos (2009)
PODEMOS OS GALEGOS RECLAMAR O NOME DE GALEGO PARA A LÍNGUA COMUM?
Comunicação no IX Colóquio da Lusofonia, Bragança 2009, Alexandre Banhos Campo
Galiza e o seu projeto ibérico
Nos feitos históricos há sempre um fator de oportunidade e outro em não pequena
medida de azar. Mas nos fatos históricos há uma lei de ferro, -o que não se produzir no
momento em que as circunstâncias são ou eram favoráveis ou propícias, nesse
momento no que as ondas da história sobem a favor, já não há de se fazer. É dizer, que
aquilo que não se faz no seu momento, muito difícil será alguma vez voltá-lo a fazer;
ademais passado o momento mudam sempre as circunstâncias e estas som muito
difíceis de reconstruir, e já nunca serão as mesmas.
A Galiza foi de sempre um poderoso elemento da história europeia, o principal ator
político peninsular, foi o primeiro reino independente constituído dentro do império
romano no ano 411, foi muito pronto um dos grandes impérios da cristandade, junto
ao império Bizantino e ao sacro-império Romano-Germânico, foi quem guiou e liderou
a luta da “reconquista” frente a Espanha.
Os galegos da velha Galiza Árta bra e Astúrica do norte do Cordal, os que nunca foram
subjugados pelos muçulmanos, tinham-se pelos primeiros entre todos os peninsulares
e não se abaixavam ante ninguém; a Galiza o território peninsular mais densamente
povoado, inçado de linhagens nobres com os seus castelos e com capacidade para
terem as suas forças de homens de lança (exércitos privados nobres de entre 100 e
1000 lanças) que se tinham a sim próprios como iguais ao rei, eram o ator mais
poderoso no jogo peninsular. As numerosas forças galegas eram o fator mais temível
da península ibérica e já desde muito cedo senhores muçulmanos acabaram pagando
tributo e aceitando o seu domínio.
Os reis da Galiza não eram simples reis, muito cedo usufruíram o nome de
imperadores e para quem é tão grande a própria Galiza originária resultava pequena, e
assim todos os dias estavam a alargar os seus domínios para o leste e para o sul e com
eles avançava o domínio da cruz frente ao da meia-lua. E nas cabeças dos reis da Galiza
desde cedo estava o coroarem-se com a península ibérica toda como projeto
“nacional” galego.
A capital histórica da Galiza sempre foi Braga (por algo segue a ser a cidade primaz de
Portugal), e pelos séculos VII e VIII eram os de Braga os galegos por antonomásia. Ao
princípio do avanço muçulmano a cabeça da Galiza é trasladada desde Braga, a capital
da Galiza desde que a Galiza existir como entidade política, para a cidade ártabra de
Lugo, e os bispos de Lugo passam a ser cabeça da Galiza por delegação da vero caput
Braga.
O quadro político no que se insere o nascimento do reino de Afonso Henriques.
Desde muito cedo o separatismo castelão, é dizer do convento oriental da província
romana da Gallaecia de Diocleciano, Clunia, é algo que informa a política do reino da
Galiza.
Os castelãos não aceitam muito pacificamente a dominação ocidental, a galega; e os
castelãos com Sancho III rei de Navarra, chamado pelos historiadores castelhanoespanhóis
Sancho I rei de Castela -o primeiro com esse nome, quem a médio de uma
simples boda com a herdeira do Condado de Castela separou o território, o qual falanos
do fraco controlo que o arredismo castelão impusera ao controlo galaico.
Os castelãos com ele sentiram por primeira vez um seu desenvolvimento longe do
controlo galaico. A geopolítica que os colocou no espaço central peninsular ajudou de
seguida, não pouco, ao seu sucesso.
À sua morte – de Sancho III – o seu filho Fernando herda o reino de Castela, porém o
azar e a fortuna farão que venha a ter a posse tamém do reino da Galiza –do império-
(Galiza-Leão). A inércia e superior domínio cultural galaico fazerem há não pouco, para
trazer de novo o centro cultural para o ocidente.
Fernando I segue a sua morte a doutrina do seu pai e reparte territórios e posses aos
seus cinco filhos, três reinos aos filhos: Sancho mais velho Castela; Afonso Leão. E
Garcia, o mais novo, à Galiza do aquém dos Montes de Leão. Para as suas duas filhas:
Urraca e Elvira foram respetivamente as cidades de Zamora e Toro.
Garcia como rei dessa Galiza cujo nome já não abrangia todo o espaço cristão norte –
ocidental peninsular, e sim estava limitada ao leste pelos Montes de Leão adota no seu
reino, várias medidas: a primeira restaurar Braga como centro do reino e levar a
cabeça de Lugo a Braga como correspondia, já não existiam razões para Lugo agir por
delegação de Braga.
Nessa Galiza de Garcia, Compostela a urbe que respondia ao projeto cristianizador de
Carlo Magno suplanta a Iria Flávia como cabeça do maior bispado da Galiza, e é essa
Compostela, a quem o Apostolo está a encher de Ouro e de ambições, quem, digamolo
suavemente, não gosta de Garcia e a sua política bracarense.
O reino da Galiza não era já um pequeno espaço no norte, pelo sul há já tempo que
tem incluída a região conimbricense, e tem já por zonas a sua extrema no rio Tejo.
Cobra ademais tributo das poderosas taifas de Badalhouce e Sevilha.
Afonso quem herdara o reino de Leão, com o seu centro curial, pronto se sente
imperador, e num golpe de mão com engano e colaboração de Sancho desfam-se de
Garcia encerra preso ao seu irmão Garcia e fai-se com a Galiza ocidental. O seu apoio a
Compostela e o abandono da política bracarense do seu irmão, pronto lhe dá
poderosos apoios na Galiza ártabra (e não é por casualidade que de Afonso VI o
imperador, venham a repousar os seus restos em Compostela).
Sancho o mais velho dos irmãos reis é não menos ambicioso que o seu irmão tamém
ambiciona todo o de Afonso com o que de seguida não tudo é entendimento, mas as
guerras constantes que o seu reino tem que levar contra Navarra e Aragão por
determinar as extremas, facilitou o trabalho de Afonso, porém o feito de estar sempre
em guerra preparou-o para se enfrentar a qualquer conquista, e acabou fazendo-se
com todos os territórios do irmão, mas com eles não durou nem um ano. Assaltando
Zamora, a fortaleça da sua irmã Urraca muito fidel de Afonso, faleceu, e Afonso
acabou recuperando o velho império todo do seu pai já bastante alargado.
Os Borgonhois
Afonso VI tem vários matrimónios (5), concubinatos e relações com várias mulheres,
do que ao final só vão resultar filhas sobreviventes. Do matrimónio-concubinato com a
viúva do rei de Córdoba (a muçulmana Zaida – ainda que a historiografia cristianizou-a
como Isabel) terá um filho e duas filhas. O primeiro Sancho a quem muito amava e era
o seu olho e a quem queria de herdeiro, morre na batalha de Ucles (ano 1108) e isso
dá-nos para conhecermos na crónica De Rerum Hispaniae do bispo de Toledo (cidade
que Afonso conquistara), o pranto do rei pelo seu filho – o qual aparece inserido no
texto latino na nossa língua galaico-portuguesa, o que nos vem a falar de qual era a
língua do poder e da corte.
Um dos matrimónios de Afonso VI, o segundo, foi com Constança de Borgonha (do que
sobreviveu a filha Urraca), o que levará a ter certas relações com Borgonha e que de
acolá venham ao reino nobres borgonhois como Raimundo e Henrique.
O Rei Afonso casou a sua filha e herdeira Urraca, com Raimundo de Borgonha (ano
1090), a quem se lhe garante o reino da Galiza, e a Teresa, uma rapazinha ainda muito
nova, a quem tivera dumas relações com Jimena Nunes, com Henrique (ano 1095),
quem é submetido a Raimundo com a obriga da guarda do limes sul da Galiza.
Raimundo muito faz para gosto de Afonso, desde a fortificação da cidade de Castela
conhecida por Ávila e nos textos antigos como A Vila, por ser território de fronteira, e
alargando os territórios para o sul pola extrema do reino da Galiza (a Estremadura). Foi
conquistando Santarém, assaltando as suas muralhas, que Raimundo de Borgonha
faleceu.
A Urraca viúva com o seu filho Afonso acha apoio protetor no poderoso bispo Gelmires
de Compostela, e quando esta casa com Afonso o Batalhador rei de Aragão, pronto
Gelmires -apoiando-se na vontade de Afonso VI faz rei da Galiza à criança (Afonso VII –
Reimundes – no ano de 1111) filho de Raimundo e Urraca, pois nele tem Gelmires um
instrumento das suas ambições políticas.
Afonso Henriques
Na Braga restaurada por Garcia não gostam da política imperial e desconsiderada da
recém chegada Compostela e começa a dar-se uma conjunção de interesses entre as
classes dominantes e o bispo de Braga.
Henrique de Borgonha como conde de Portucale o condado ao sul da velha Galiza tem
a inteligência política de passar despercebido, e ir construindo ali um governo local
tranquilo, no que age e a vez não discute a autoridade real. O Bispo de Braga e desde
muito cedo contrário a Compostela. A Compostela de Gelmires chegará a fazer uma
expedição a Braga para roubar o espólio de santos ali depositado –Pio Latrocínio – e
ganhar assim prestigio da vero caput para Compostela, frente a Braga, e ante o Papa.
Henrique de Borgonha com Teresa (designada na historiografia como de Leão) tem um
filho Afonso Henriques. E aceita-se que desde o ano do seu nascimento, 1109 até o
1128 viveu em Guimarães.
A mai estava muito ligada a nobreza do norte poderosa na corte de Leão e verdadeiros
pares do rei.
Porém a igreja de Braga e a nobreza local, que defendem os seus interesses empurram
ao puto (14-15 anos) contra a mai para terem assim um maior controlo local,
Em 1120, sob a direção do arcebispo de Braga, o puto Afonso tomou uma posição
política oposta à da mãe, quem apoiava o partido dos Travas (poderosa família galega
mui ligada a Gelmires nessa altura). O bispo, forçado a emigrar, levou consigo o infante
que em 1122 se armou cavaleiro em Tui.
Restabelecida a paz, voltaram ao condado. Entretanto, novos incidentes provocaram a
invasão do Condado Portucalense por Afonso Reimundes (VII) da Galiza, Leão e
Castela, quem em 1127 cercou Guimarães, onde se encontrava Afonso Henriques,
sendo-lhe prometida a lealdade deste pelo seu aio Egas Moniz, Afonso VII desistiu de
conquistar a cidade.
Mas alguns meses depois, em 1128, as tropas de Teresa e Fernão Peres de Trava
defrontaram-se com as de Afonso Henriques na batalha de São Mamede, tendo as
tropas do nosso puto de 17 anos com a bênção do bispo de Braga saído vitoriosas – o
que consagrou a sua autoridade no território portucalense, levando-o a assumir o
governo do condado.
Consciente da importância das forças que ameaçavam o seu poder concentrou os seus
esforços em negociações junto da Santa Sé, Afonso Henriques sempre bem guiado
pólo arcebispo de Braga Pedro (primaz da Galiza) com um duplo objetivo: alcançar a
plena autonomia da Igreja portuguesa e obter o reconhecimento do Reino.
Em 1139, depois de uma estrondosa vitória na batalha de Ourique contra um forte
contingente mouro, D. Afonso Henriques recebe a coroa e a consagração de Rei de
Portugal do bispo de Braga João Peculiar.
Afonso VIII da Galiza e Leão
Em 1230 morre em Sárria Afonso VIII com 82 anos e trás mais de sessenta anos de
reinado na Galiza -na parte norte ou Ártabra desse território histórico – e Leão. Afonso
estava velho e canso, vinha de passar os últimos 16 anos da sua vida em guerra com o
seu filho Fernando, pois foi contra o parecer do pai proclamado rei de Castela, e para o
seu pai esse feito equivalia a renuncia de quaisquer direitos sobre as coroas de Galiza e
Leão
Afonso VIII casara com duas parentes de segundo grau, Teresa de Portugal. prima
direta, com quem tem duas filhas Sancha e Dulce (e um filho Fernando que faleceria),
matrimónio que a igreja rompe e obriga a novo casamento (por detrás está
Compostela). Rutura a que muito se resistiu pois estava fundamente namorado da sua
esposa e logo com Berenguela filha de Afonso VIII de Castela, tamém prima direta,
com quem tem a Fernando, mas este matrimónio a igreja consente e apoia pois estava
na linha do programa imperial peninsular da Galiza e Compostela.
O seu testamento é claro, as herdeiras dos seus tronos são as filhas de Teresa: Sancha
e Dulce (cada uma o seu); e como garantes, a sua mai, o Rei de Portugal e a Ordem de
Santiago. Qualquer solução incluída a união com Portugal é valida mas em nenhum
caso a unificação com Castela.
Fernando reclama (e paga muito). A Igreja da Galiza e de Leão está muito dividida e na
maioria e contrária a Fernando, mas a intervenção do bispo de Compostela e os de
Castela são decisivos para que o Papa declare ilegítimo o testamento do bom rei.
Compostela e certas camadas nobres galegas sentem que com Fernando III controlam
o centro peninsular, que o seu projeto imperial vai avante.
Portugal nunca aceita o ilegítimo acordo.
Com Fernando III, rei muito abençoado pola Igreja, que acabou por fazê-lo santo, o
projeto central castelhano avança, a reconquista avança até o estreito de Gibraltar, em
Sevilha e Toledo vai estar a corte sob a capa duma corte de nobres galegos, de língua
galaico-portuguesa, com galegos que se enriquecem neste processo, de filhos dos
nobres cortesãos que enviam os filhos a educarem-se com aios na Galiza, como o filho
do rei e futuro rei Afonso X.
Afonso X que brilhou nas nossas letras, porém foi quem impulsionou o primeiro
estatuto dominante para a escrita da chancelaria em castelhano. Sancho IV seu filho
ainda vai continuar ligado a tradição cultural galaica. A chegada ao trono com 9 anos
do seu filho Fernando apaga não pouco essa tradição, sob novos tutores e aios o
predomínio e domínio galaico da corte esvai-se, A nobreza galega e a igreja de
Compostela será firme no apoio a este rei como ainda um dos seus e assim como ao
seu filho Afonso XI e neto Pedro I.
Os interesses imperiais de Castela e a sua visão peninsular triunfam definitivamente
sobre os galaicos com o assassinato de Pedro I pelo mercenário bretom Douglesclin, e
com a chegada ao trono de uma dinastia limpidamente castelhana sob o nome galaico
dos trastámaras. As tropas galegas que se batem a prol de Pedro saem coa sua
nobreza dirigente muito diminuída em influência.
É a dinastia castelã dos Trastámaras a que vai tentar se apoderar de Portugal, que
renasceu logo triunfante em Aljubarrota frente a Juam I de Castela (trastámara).
Que houvesse passado se Afonso Henriques não fosse quem de iniciar um reino.
A monarquia portuguesa frente ao modelo imperial do norte, sempre com aspirações
peninsulares, centrou-se sobre sim própria e em consolidar pouco a pouco o seu
território, que ficava de costas a península, mas aberto ao mar. Sancho I, Afonso II,
Sancho II, esforçam-se nessa linha de conduta.
Se o puto Afonso Henriques e a sua cabeça pensante, o bispo de Braga, nom fossem
quem de achar um destino para o sul da Galiza alongado de projetos imperiais
peninsulares, hoje teríamos a Galiza unificada desde a extremadura ao norte, mas a
sua vida cultural e linguística não seria sequer tão pobre como a da Galiza atual. Seria
muito semelhante a que se vive no âmbito asturo-leonês-mirandês é dizer no velho
galaico-oriental (galor em palavras de Cosériu).
Essa visão que Portugal tinha de sim próprio é a que o levará a ser um centro dum
império com as costas viradas a península.
O português da Galiza
O galego da Galiza até para o mais ferrenho isolacionismo foi muito vivificado pólo
português universal e da corte de Lisboa. O português da Galiza tirado o muito que
sugou e continua a sugar do português, estaria limitado a uns dialetos rurais bastante
fraturados e os seus utentes só teriam para beber e encher os ocos criativos do mesmo
o castelhano, como é o que se passa nos restos que ficam do asturo-leonês.
O sucesso da nossa língua e cultura (ao norte e ao sul do Minho) deve-se ao projeto
que encetou Afonso Henriques virado de costas ao projeto imperial e originário
galaico. Não temos direito a reclamarmos nada sobre o nome internacional da língua,
já que se não fosse por Portugal nada seriamos nem nada teríamos ao norte e ao sul
do Minho
Afonso Henriques, da Galiza do sul fiz um Portuscale, um reino, e o galaico ou galego
desse reino acabou por ter por nome o do próprio reino, o galeguíssimo nome de
Portugal – português-.
O português da Galiza está na situação que está, por não sermos quem de assumirmos
que as falas galegas só podem viver no português universal, e que falarmos de galego
como contraposição ao português universal -o verdadeiro galego – e seguirmos
pagando as portagens imperais de Castela-Espanha.
Assumirmos a língua como português da Galiza é o melhor jeito galego de chamarmos
ao galego da Galiza para que poda ser ele mesmo e libertarmo-nos do ferrete
esmagador castelhano, pois o futuro do galego-castelhano é só um só – espanhol -.
APONTAMENTO FINAL
Faz bem Portugal em estar sempre à espreita e com receio do que vem do norte do
Minho, pois muito matute espanhol e espanholista se vende sob presunto galeguismo
e muito projeto imperial espanhol ainda paira em cabeças galaicas no avanço cara a
nada e cara nengures.
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1981
Oliveira Martins. História da Civilização Ibérica, LIVROS EUROPA-AMERICA
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Hermano Saraiva, José. História Concisa de Portugal, LIVROS EUROPA-AMERICA 1984
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Ed. TOXOSOUTOS 2003
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Barros, Carlos. Mentalidad Justiciera de los Irmandinhos, Siglo XV. SIGLO XXI DE
ESPAÑA EDITORES 1990
Barbosa Alvares, José Manuel. Atlas Histórico da Galiza. Edições Galiza 2008
Merecem especial menção por terem sido os seus trabalhos muito influentes na
perspetiva destas reflexões historicistas, Os múltiplos artigos e eflexões de Ernesto
Vasquez Souza, e alguns trabalhos divulgativos do presidente da Associação Fala Ceive
do Berzo, Xavier Lago Mestre.
(Traduzido para português europeu. In Wikipédia 12 Dezembro 2005)
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Rede: http://www.lusofonias.net

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