VASCO PEREIRA DA COSTA texto de 2011

Cultura

Português do mar alto

Não sei já a que propósito, num qualquer escrito que enviei para oExpresso das Nove, ironicamente, localizei o texto na ilha de Coimbra. O Eduardo Jorge Brum achou piada (ainda bem que ainda há quem decifre o humor…) e, vai daí, agita esse chiste e devolve-mo como assunto sério. E é! Quem disse que a ironia era coisa mesquinha?

Pois pede-me ele agora que deslinde a ironia. Aqui vai, portanto, este depoimento quase catártico, baseado, antes de mais, no aprendizado de Ortega y Gasset (ainda há quem dele se lembre?) que proclamava “eu sou eu e a minha circunstância”. Circunstância dos tempos e tempo de circunstâncias – eis, pois, por que Coimbra, aonde aportei há quarenta e cinco anos, seja para mim um espaço rarefeito, de onde se deve partir no momento em que se aviste no Mondego um cais de aventura.

Para que não haja insularização, entenda-se. Pressupõe esta legítima viagem um aprendizado de navegante pela cultura europeia e um afastamento das margens localistas, regionalistas, nacionalistas, chauvinistas, pechenchinhas. E exige atentos olhos de arrais para a decifração das tormentas e das bonanças – porque são imprevisíveis as rotas europeias e os seus campos magnéticos desregulam amiúde as agulhas de marear.

Ora, isto vale tanto para Coimbra como para qualquer povoado, ainda que não seja praia nem tenha rio. Navegar é preciso…estão-me entendendo?

Vem isto a propósito da estafada insularidade como desculpa ou fatalidade, como prosápia ou jactância, como, pior ainda, como afeição masoquista ou cançoneta de bonifrate. Basta ler um jornaleco insular para que a aflição se instale perante a iminência da mediocracia.

Vale a pena recordar o que Miguel Torga registou no Diário XI, quando passou pela Terceira, no dia 18 de Março de 1970 :“Insularidade! – ponderei. – Mas insular é o próprio continente português, cercado de solidão por todos os lados! Insular é o próprio globo em relação ao mundo universo! O que são as viagens à lua, senão tentativas de fuga à insularidade da Terra? A insularidade é uma situação, não é uma condenação”.

E a terminar a reflexão: “«Português do mar alto» chamou alguém ao homem açoriano. Mas não é fácil às vezes compreender que empoleirado numa gávea de terra se pode ver mais do que sentado num café de Paris…”.

A questão está, com efeito, em enxergar o mundo, em decifrar o planeta como casa comum – ser “português do mar alto”. E, assim, cá estou eu no ilhéu de Santa Clara, ao largo da ilha de Coimbra, teimando em não ser insulado – enquanto a vida me conceder esta vantagem e puder esbracejar contra qualquer território intelectual exíguo.

VASCO PEREIRA DA COSTA
Poeta
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a favela – origem do nome

Interessante esse breve histórico sobre o porquê do nome ‘favela’…


 
Favela com o Cristo Redentor ao fundo

Você já parou para pensar qual o motivo de chamarmos os bairros pobres e sem infraestrutura de “FAVELAS”?
Eu sempre achei que fosse um nome indígena ou qualquer coisa assim, mas a história é bem mais interessante que isto.
O origem do nome “FAVELA” remete a um fato marcante ocorrido no Brasil na passagem do século XIX para o século XX: a Guerra de Canudos. Na Caatinga nordestina, é muito comum uma planta espinhenta e extremamente resistente chamada “FAVELA”
Produz óleo comestível e combustível
 
 
Entre 1896 e 1897, liderados por Antônio Conselheiro, milhares de sertanejos cansados da humilhação e dificuldades de sobrevivência num Nordeste tomado de latifúndios improdutivos e secas, criam a cidadela de Canudos, no interior da Bahia, revoltando-se contra a situação calamitosa em que viviam. 
Mapa da Região de Canudos – Bahia
Em Canudos, muitos sertanejos se instalaram nos arredores do “MORRO DA FAVELA”, batizado em homenagem a esta planta.
Estátua de Antonio Conselheiro olha pela Nova Canudos.
 A cidade original foi alagada para a construção de um Açude
Morro da Favela em dois momentos: Guerra de Canudos (esquerda) e atualmente (Direita)
 
Com medo de que a revolta minasse as bases da República recém instaurada, foi realizado um verdadeiro massacre em Canudos, com milhares de mortes, torturas e estupros em massa , num dos mais negros episódios da história militar brasileira, feito com maciço apoio popular.
Quando os soldados republicanos voltaram ao Rio de Janeiro, deixaram de receber seus soldos, e por falta de condições de vida mais digna, instalaram-se em casas de madeira sem nenhuma infraestrutura em  morros da cidade (o primeiro local foi o atual “Morro da Providência”), ao qual passaram a chamar de “FAVELA”, relembrando as péssimas condições que encontraram em Canudos.
Morro da Providência em foto antiga. Onde tudo começou…
Morro da Providência atualmente

Este tipo de sub-moradia já era utilizado a alguns anos pelos escravos libertos, que sem condições financeiras de viver nas cidades, passaram também a habitar as encostas. O termo pegou e todos estes agrupamentos passaram a chamar-se FAVELAS.
Mas existem vários “MITOS” sobre as Favelas que precisam ser avaliados…

01 – Costumamos achar que as maiores Favelas do mundo encontram-se no Brasil, mas é um engano. Nenhuma comunidade brasileira aparece entre as 30 maiores do Mundo. México, Colômbia , Peru e Venezuela lideram o Ranking, em mais um triste recorde para a América Latina.
 

 


 
Vista aérea da Favela de NEZA, nas proximidades da Cidade do México.
A Maior do Mundo, com mais de 2,5 milhões de Habitantes
02 – Outro engano comum é achar que as Favelas são um fenômeno “terceiro-mundista”, restrito a países subdesenvolvidos ou emergentes. Apesar de em quantidade bem menor, países desenvolvidos como Espanha também tem suas Favelas, chamadas por lá de “Chabolas”.
 
 
Chabolas madrileñas, as favelas espanholas
03 – E um terceiro mito é o de que as Favelas apenas aumentam, não importa o que o governo faça…A especulação imobiliária e planos governamentais já acabaram com algumas favelas, mesmo no Rio de Janeiro . O caso mais famoso é o da Favela da Catacumba, ao lado da Lagoa Rodrigo de Freitas, que foi extinta em 1970. A Favela do Pinto também é um outro exemplo…
 
 
Favela da Catacumba na Década de 60. Hoje, parque e prédios de luxo
Dizia-se que no local existiu um Cemitério Indígena.

                            ORIGEM DOS NOMES DE ALGUMAS FAVELAS DO RJ
 
 
Vista do Morro da Babilônia com Corcovado ao fundo
 
Babilônia
A vegetação exuberante e a vista privilegiada de Copacabana levou os moradores a compararem o local com os “Jardins Suspensos da Babilônia”.

Rocinha
Rocinha
Nos anos 30, após a crise da Bolsa de 1929 que levou vários produtores de café à bancarrota, o terreno da Fazenda Quebra-Cangalha foi invadido e dividido em pequenas chácaras, que vendiam sua produção na Praça Santos Dumont, responsável pelo abastecimento de toda a Zona Sul da cidade. Quando os clientes perguntavam de onde vinham os legumes, diziam: “-É de uma tal Rocinha lá no Alto da Gávea”

 
Morro da Mangueira
Mangueira
Nos anos 40, na entrada da trilha de subida do Morro, que na época ainda era coberto pela mata, foi colocada uma placa que dizia: “Em breve neste local, Fábrica de Chápeus Mangueira”. A fábrica nunca foi construída, mas a placa permaneceu, batizando uma das mais emblemáticas comunidades cariocas.

Morro do Vidigal
Vidigal
Em homenagem ao dono original do terreno onde hoje se localiza a Favela, o Major Miguel Nunes Vidigal, figura muito influente durante o Império

                                                                         

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