FRASES FEITAS DO GALEGO

A fraseologia galega coincide em parte com a do português europeu e menos com a do português do Brasil
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ALGUMAS FRASES FEITAS DO GALEGO

Alfredo Maceira Rodríguez

1. INTRODUÇÃO

1.1. O ESTADO DA ARTE

A fraseologia galega coincide em grande parte com a do português europeu e, talvez em menor escala, com a do português do Brasil. É sabido que o português e o galego constituíram durante séculos uma única língua, que, mais tarde, veio a cindir-se mais por injunções políticas que por diferenças histórico-culturais. Por esse motivo e pelo contato de línguas e culturas na Península (portuguesa, galega e espanhola) não é de admirar que o discurso repetido incorporado no patrimônio destas três línguas peninsulares tenha muito em comum.

A fraseologia comum em maior ou menor grau a estas línguas ibéricas está de tal forma inserida em seu inventário lingüístico que muitas vezes não é percebida como tal. O discurso repetido inclui todos os tipos de expressões fixas, que são unidades lingüísticas não substituíveis ou recambiáveis pelas regras da língua atual.i O acervo fraseológico (adágios, máximas, sentenças, ditados e frases feitas em geral) tem origem principalmente nas camadas populares, mas vai gradativamente penetrando nas camadas tidas como elitistas até ser adotado pela língua escrita e registrado nos dicionários.ii O discurso repetido é produzido em todas as épocas, mas boa parte do que já foi incluído na língua ou dialeto dominante, vem de séculos passados. Ele reflete a cultura e o período histórico dos povos que o produziram, embora não se possa dizer que é totalmente original. Assim como as lendas e outras manifestações folclóricas,
encontram-se em diversas culturas, mesmo distantes no tempo e no espaço, frases feitas de vários tipos, muitas vezes com diversas alterações, mas no fundo com a mesma mensagem. Isto implica comunicação oral entre povos desde épocas remotas.

A temática da fraseologia de um povo retrata o homem, suas características, conflitos, modo de vida

e atividades. Como grande parte das frases feitas que chegaram até nós tiveram sua origem na Idade Média, observam-se nelas relações com a agricultura e, em menor grau, com a pesca, possivelmente por haver menos pessoas envolvidas nessa atividade.

De há muito, estudiosos de diversos países têm como objeto de estudo a fraseologia. Ela tem sido abordada de diversas maneiras e com finalidades distintas. Umas vezes como estudo sério, tanto do ponto de vista lingüístico como de outros aspectos culturais: história, folclore, crenças, camadas sociais, etnografia, costumes, etc. Outras vezes sua coleta e publicação só teve por objetivo apontar aspectos curiosos de frases arcaizadas, principalmente as modalidades que têm como característica mais destacada a rima. Não havia muita preocupação com seu estudo sistematizado, porém a análise do discurso repetido é válida porque permite apreender a língua e a cultura de um povo e de uma época fixadas em palavras ou expressões (sintagmas) que permaneceram invariáveis ao longo do tempo.

No Brasil não eram muito comuns as publicações de trabalhos de fraseologia. A maior parte das publicações limitavam-se a recolher a fraseologia oral de uma localidade ou região, geralmente relacionada com lendas, crendices e anedotas do repertório popular. Neste campo vem-se operando uma grande mudança principalmente entre os participantes dos cursos de pós-graduação em Filologia. Interessantes monografias e teses abordando aspectos inéditos da fraseologia brasileira vêm sendo produzidas. Atualmente está em andamento um trabalho de fôlego de recolha, estudo e classificação que tenta abranger tudo o que é possível da fraseologia brasileira. Este trabalho é seguramente o mais abrangente e profundo que se realizou no Brasil. Consta de vários volumes, alguns já terminados, outros bem adiantados, cuja publicação não demorará muito. Este trabalho é da responsabilidade do Prof. José Pereira da Silva, quem escolheu uma equipe de
auxiliares para ajudá-lo a desempenhar tão ampla tarefa. Na certa que será levada a bom termo e preencherá uma grande lacuna na filologia e lexicografia do português.

Na Galiza também está sendo realizado um trabalho semelhante por uma equipe de professores galegos, tendo como objeto de estudo a fraseologia da língua galega.

1.2. O PRESENTE TRABALHO

O que pretendemos apresentar aqui não é mais do que uma pequena amostra de frases feitas do galego. O espaço não nos permite maior amplitude. As frases desta amostra pertencem à língua viva de hoje, usadas na língua oral e escrita, conhecidas e empregadas em todo o domínio do galego. Muitas delas apresentam algumas variantes. Procuramos recolher as que nos pareceram mais divulgadas e mais expressivas. Freqüentemente incluímos também alguma de suas variantes. As frases relacionadas abaixo foram recolhidas no Diccionario Xerais da Língua (1993). Não nos ocupamos com frases originárias da ciência e tecnologia, profissões, etc. Limitamo-nos às de domínio geral, de caráter atemporal. Tampouco consideramos o tipo de frase, rima, mensagem, etc.

Quase todas as expressões fixas que apresentamos dependem de um verbo, que pode flexionar. Também na parte dita fixa pode ocorrer flexão de gênero ou número: Vostede é un botaporela (gabola); vostedes son uns botaporelas. O que não ocorre é a troca dos lexemas que constituem as expressões fixas por outros com o mesmo valor semântico na língua atual. Assim: Vostede é un gabola, não é frase feita. É uma expressão comum da língua galega. A parte fixa pode ser representada por um sintagma (locucional, suboracional, oracional, supra-oracional ou por uma seqüência)iii, que, em muitos casos, pode ser comutado por uma palavra (subtantivo, pronome, adjetivo, advérbio). Exemplos: Se-lo pai da criatura; ti e-lo pai da criatura; el foi o pai da criatura. Ser agudo coma un esquío (esquilo); ti es agudo coma un esquío; eles son agudos coma esquíos. Eles póñense no bico das zocas (zangam-se); ela poñerase no bico das zocas, etc.

O sintagma o pai da criatura pode-se comutar por o culpado, o causador, etc. O mesmo ocorre com agudo coma un esquío = moito esperto, moito vivo, e no bico das zocas = así, desa maneira, etc. A comutação é uma das possibilidades de decodificação das expressões de forma fixa.

Existe também um grande número de frases feitas usadas exclamativamente. Costumam-se empregar isoladas, sem relação com o contexto. Muitas não possuem verbo ou ele também forma parte da frase feita. Colocamo-las num item separado.

1.3. A LÍNGUA

O galego é muito semelhante ao português, por isso nem sempre damos a tradução literal das frases. Quando existe uma frase feita equivalente no português do Brasil, transcrevemo-la. Nos outros casos, oferecemos a tradução que parece denotar melhor seu valor semântico. Palavras que se afastam semanticamente do português do Brasil, esclarecemo-las em nota. Não pretendemos dar nem mesmo um resumo das normas do galego de hoje. Citaremos somente alguns dos aspectos que mais se afastam do português e que devem ajudar.

Algumas diferenças entre o galego e o português:iv

a) As grafias do galego ñ e ll correspondem, respectivamente, às portuguesas nh e lh: baño, palla.

b) Não existem no galego os grafemas do português ç, ss e j, devido à não-equivalência dos fonemas correspondentes: moza, paso, hoxe.

c) A regra de acentuação dos hiatos aproxima-se da norma do espanhol: día, súa, fililoxía.

d) Os pronomes átonos enclíticos não se separam por hífen: Visiteinos onte; démoslle os libros.

e) Os artigos não se ligam foneticamente ao substantivo e sim ao verbo precedente e ligam-se graficamente a ele por hífen, quando terminam em -r ou em -s: Compramo-los coches; mandou face-la casa nova.

f) O pronome indefinido galego un eqüivale em português ao indefinido a gente: Un non sabe que facer; danlle a un o mellor

g) No galego, como no espanhol, existe um fonema africado representado graficamente pelo dígrafo ch (não corresponde ao ch do português). Nos dicionários espanhóis e galegos tem entrada independente (depois da letra c). Seguimos essa ordem na relação que segue.

2. FRASES FEITAS E EXPRESSÕES GALEGAS

2.1. SINTAGMAS RELACIONADOS A UM VERBO:

Abrir

Abrir a porta e a arca. (Receber as pessoas com os braços abertos.)

Non abri-lo bico; pecha-lo bico. ¡Cala-lo bico! (Não falar; fechar a boca. Boca calada!)

Actuar

Actuar por debaixo da corda; baixo corda. (Agir por debaixo dos panos; às escondidas.)

Afogar

Afogarse en pouca auga. (Ver dificuldades em qualquer coisa; por pouco motivo.)

Agarrar

Agarrar alguén polo rabo. (Indica dificuldade para alcançar o que já passou, o que fugiu.)

Andar

Andar a máis; andar a paso de can. (Andar com pressa.)

Andar a mal; andar ás malas. (Dar-se mal com alguém, estar de mal.)

Andar coa lúa. (Estar algo doido; ser lunático.)

Andar coa area na zoca. (Andar com a pulga atrás da orelha; andar desconfiado.)

Andar daquela maneira; andar de mes; andar a mal; andar á mala. (Estar menstruada.)

Andar de cacho para cribo. (Andar de ceca em meca; andar dum lugar para outro sem fazer nada.)

Andar en canelas. (Andar sem meias.)

Andar ó rabo. (Andar atrás.)

Andar sen arrendo. (Viver com inteira liberdade; andar com a rédea solta.).

Andar con pés de manteiga. (Andar com cautela.)

Andar nos bicos dos pés. (Andar nas pontas dos pés.)

Andar cun pé calzo e outro descalzo. (Fazer algo com pressa; ser muito pobre.)

Andar teso; andar teso coma un pao. (Andar muito direito; andar empertigado, com jeito arrogante.)

Andar no conto. (Andar fofocando; interferir em algum assunto.)

Anda o demo na casa. (Diz-se quando na casa há muita confusão ou dissensões.)

Anda o demo ceibov. (Diz-se quando há revoltas ou problemas graves em vários lugares ao mesmo tempo.)

Andar polas mans do demo. (Ir ou andar de mal a pior.)

Andar na boca de alguén. (Ser objeto de comentários maldosos.)

Aí anda o diaño. (Diz-se de um assunto que não se consegue solucionar devido a forças desconhecidas.)

Apelar

Apelar ós pés. (Passar sebo nas canelas; fugir às pressas.)

Aprender

Aprendeu co demo. (Diz-se de quem só tem habilidade para o mal.)

Arrimar (se) (encostar-(se)

Arrimarse ó sol que mais quenta. (Servir ao mais poderoso; ficar do lado do vencedor.)

Atar

Atar moscas polo rabo. (Fazer trabalhos inúteis; fingir que se trabalha.)

Baixar

Baixa-las orellas; agacha-las orellas. (Baixar a crista; agüentar; obedecer; ceder.)

Bater

Bater coas zocas no cu; bater cos pés no cu. (Fugir às pressas.)

Botar

Bota-la língua a pacer; bota-la língua ó sol. (Falar demais; falar o quem não se deve; falar mal dos outros.)

Botar chispas. (Estar furioso.)

Botarse un á auga. (Decidir-se a enfrentar um perigo; atirar-se a algo.)

Botar un xerro de auga fría. (Deixar alguém desenganado de alguma coisa.)

Botar bo pelo; botar pelo novo. (Prosperar financeiramente.)

Botarlle os cans a alguén. (Receber mal alguém.)

Buscar

Buscar cinco pés ó gato. (Tentar a paciência de alguém com risco de irritá-lo.)

Buscar tres pés ó gato. (Empenhar-se em algo impossível.)

Caer (cair)

Caer auga a xerros; caer auga coma quen a emborca; caer auga a Deus dar. (Chover muito; chover a cântaros.)

Caer de pé coma o gato. (Ter muita sorte num empreendimento.)

Caer do burro. (Reconhecer um erro.)

Cagar

Cagar nos pantalóns. (Ter muito medo.)

Calcar

Calcarlle as costelas a alguén; medirlle as costelas. (Bater muito em alguém.)

Cantar

Cantarlle as corenta a alguén. (Dizer-lhe poucas e boas; adverti-lo severamente.)

Coma se cantase un carro. (Entrar por um ouvido e sair pelo outro; como se nada tivesse sido dito.)

Marchar cantando baixiño. (Sair com o rabo entre as pernas; envergonhado; humilhado.)

Casar

Casar por detrás da igrexa; casar por detrás da silveiravi. (Amancebar-se.)

Colgar

Colga-los libros. (Deixar de estudar.)

Coller

Coller auga nun cesto. (Trabalhar inutilmente.)

Coller unha monavii (Pegar uma carraspana; embebedar-se.)

Comer

Comerlle o pan a alguén. (Estar sendo sustentado por alguém.)

Comer alguén a bicosviii. (Beijar alguém repetida e intensamente.)

Comerlle a porca os libros. (Diz-se do mau estudante.)

Poder come-lo pan coa codia. (Já estar restabelecido de uma doença.)

Non comer por non cagar. (Aplica-se a uma pessoa avarenta.)

Coñecer

Coñecer a alguén coma se se parira. (Conhecer as manhas, os maus procedimentos de alguém.)

Coñecer ben a agulla de marear. (Conhecer bem a maneira de comportar-se.)

Contar

Contarlle os pelos a un can. (Perseguir alguém; acusá-lo.)

Poder contarlle a un as costelas. (Estar muito magro.)

Custar

Custarlle a bola un pan. (Custar os olhos da cara; custar mais do que se pensava.)

Chamar

Chamarlle ós pés compañeiros. (Fugir a toda pressa.)

Chegar

Chegar e bica-lo santo. (Conseguir algo só com intentá-lo; sem esforço nem demora.)

Chorar

Chorar ás cuncas; chorar coma unha veiga tallada; chorar os sete chorares. (Chorar muito.)

Chorar coma unha Madalena. (Chorar desconsoladamente.)

Chover

Nunca choveu que non escampara. (Depois da tormenta vem a bonança; tudo tem remédio.)

A este chóvelle. (Diz-se de quem tem pouco juízo; é pouco esperto.)

Xa choveu dende aquela. (Já passou muita água por baixo da ponte; já passou muito tempo.)

Dar

Dar couces contra o aguillón. (Dar murros em ponta de faca; lutar inutilmente.)

Dar ó rabo. (Mostrar-se; exibir-se; pavonear-se.)

Non dar pé con bola. (Não acertar uma; dar-lhe tudo errado a alguém.)

Darlle a alguén polo pao. (Dar razão a alguém, mesmo que não a tenha.)

Derrear

Derrear a alguén a paos. (Deixar alguém meio morto com uma surra.)

Durmir

Durmi-la mona. (Dormir a bebedeira.)

Enganar

Engana-lo demo. (Ser muito astuto.)

Ensinar

Ensina-la orella. (Deixar escapar a intenção interesseira por palavras ditas inadvertidamente.)

Escribir

Escribir cos pés. (Escrever mal.)

Escribir na auga. (Fazer algum trabalho realmente inútil.)

Espertar

Esperta-lo can que dorme. (Empenhar-se em coisas impossíveis.)

Estar

Estar coma unha cabra. (Não estar bem da cabeça.)

Estar de lúa. (Estar meio louco.)

Estar a velas vir. (Estar ocioso.)

Estar de punta en branco. (Estar nos trinques; estar impecável.)

Estar ó cabo do conto. (Estar bem informado sobre o assunto.)

Estar coma o rei nunha cesta. (Ter muito conforto; estar rodeado de comodidades.)

Estar contento coma un cuco (Estar muito contente.)

Estar calado coma na misa. (Estar em silêncio total.)

Estar coma ós cans na misa; facer falta coma os cans na misa. (Ser desnecessário; inconveniente.)

Estaría o demo a cagar. (Diz-se quando uma pessoa mesquinha resolve dar alguma coisa.)

Estar coa auga deicaix boca; estar coa auga ó pescozo (Estar em situação muito apertada.)

Estar con un pé aquí e outro acolá. (Ir num pé e voltar no outro.)

Facer

Facer rabos ás culleres. (Fingir que se trabalha; trabalhar sem interesse.)

Facer chorar as pedras. (Mover a compaixão.)

Facerse a gata morta (Fingir-se humilde)

Face-lo cartox. (Ganhar dinheiro.)

Face-la mona; pinta-la mona. (Querer ser engraçado; ser ridículo.)

Falar

Falar coma un libro aberto. (Falar bem e com clareza.)

Gañar

Non gaña-la auga que bebe. (Diz-se de quem ganha pouco no trabalho.)

Gaña-lo que gañan os cans na misa. (Sair-se mal em alguma coisa; não obter qualquer vantagem.)

Haber

Haber gato encerrado. (Existir um motivo suspeito ou misterioso.)

Hai zocas alleas debaixo da cama. (Já não estamos em família; cuidado com o que se fala.)

Ir Aínda vai a misa no credo.(Ainda fica muito por fazer.)

Ir coma o gato polas ascuas. (Andar com muito cuidado num assunto perigoso.)

Irse da língua. (Não ser capaz de guardar um segredo)

Írselle a alguén o santo ó ceo. (Ficar distraído; esquecer o que se ia fazer ou dizer.)

Ladrar

Ladrarlle á lúa. (Insultar alguém a quem não é afetado pelos insultos.)

Lamber

Lamber os pés a alguén; lamberlle o cu. (Ser muito servil; adulador; puxa-sacos.)

¡Vas lamber unhas! (Vais apanhar; vais levar uma surra.)

Levar

Levar que lamber. (Receber a resposta adequada; receber o troco; ter o que se merece.)

Levarse coma o pan e o leite. (Ser amigos íntimos; dar-se muito bem; ser unha e carne.)

Leva-lo gato á auga .(Conseguir um triunfo em disputa com outros competidores.)

Esa pera rabo leva. (Diz-se da frase que tem segundas intenções.)

Lucir (brilhar, luzir)

Lucirlle o pelo a alguén. (Estar com aparência saudável; estar contente com a marcha de algum negócio.)

Mandar

Mandar alguén a pedir. (Deixar alguém na miséria.)

Meter

Mete-los cans na bouzaxi; mete-las cabras na horta. (Semear a discórdia.)

Meter un chasco a alguén. (Enganar alguém.)

Meter alguén nun puño. (Dominar alguém.)

Mete-la língua na boca; morde-la língua. (Engolir em seco; conter-se e calar quando se é atacado.)

Meterlle os dedos na boca. (Puxar pela língua a alguém; experimentar alguém para saber sua intenção.)

Mete-la pata. (Dar mancada; interferir num assunto de maneira inoportuna.)

Meterlle algo polos ollos a alguén. (Enganar alguém com facilidade.)

Mexar (mijar, urinar)

Mexar por alguén. (Humilhar alguém.)

Mexar polas rocas. (Ser muito idoso.)

Mexar por un e ter que dicir que chove. (Ter que agüentar o que outros querem; ter que dizer amém.)

Mexarse de medo. (Ser muito medroso.)

Mexar fóra do caldeiro; mexar fóra do testo. (Referir-se ao que não vem a propósito na conversa.)

Oír

Oír con orellas xordas. (Fingir que não se ouve porque não convém.)

Xa oíu cantar máis de catro cucos. (Já tem muitos anos, já é muito idoso.)

Pasar

Pasarlle a alguén o sol pola porta. (Deixar escapar uma oportunidade que não volta mais.)

Pedir

Pedi-la lúa. (Pedir o impossível.)

Non pedir pan para o camiño. (Fugir às pressas.)

Pillar (pegar, agarrar, pilhar)

Pillar unha mona. (Pegar uma carraspana; embebedar-se.)

O meu can pillou unha lebre. (Acertar em alguma coisa por puro acaso; só acontece uma vez na vida.)

Poñer (pôr)

Poñer alguén nos cornos da lúa. (Pôr alguém nas nuvens; elogiar alguém em excesso.)

Poñe-los cornos. (Faltar à fidelidade conjugal.)

Poñerse de cornos. (Aborrecer-se; zangar-se.)

Poñer alguén a pan pedir. (Ofender ou maltratar verbalmente alguém.)

Poñer alguén a parir. (Insultar muito alguém, envergonhá-lo.)

Poñerlle a alguén o pao no lombo. (Bater muito em alguém com uma estaca ou pedaço de pau.)

Poñer tódolos santos en procesión; baixar do ceo cantos santos hai. (Blasfemar muito.)

Ninguén lle pon o pé diante. (É muito seguro de si; muito decidido e inteligente.)

Prometer

Promete-la lúa. (Prometer o que não se sabe se se pode cumprir.)

Quecer, quentar

Quecérenlle a alguén as orellas. (Não ter sossego; estar muito preocupado.)

Quecerlle as orellas; quentarlle as orellas a alguén (Bater-lhe; repreendê-lo severamente.)

Quentárselle a boca a alguén. (Falar demasiado sobre algo; não poder calar.)

Quedar (ficar, quedar)

Quedar á altura do betume. (Ficar muito mal moralmente em alguma empreitada; ficar com a cara no chão.)

Quitar (tirar)

Coma se lle quitasen as moasxii. (Como se lhe tirassem os dentes. Diz-se do que se faz à força.)

Quitar a cobra da parede coa man doutro. (Atirar a pedra e esconder a mão.)

Quitar o pelello. (Meter o malho em alguém; difamar; caluniar; criticar mordazmente.)

Quitarlle o pao ó tolo. (Tirar-lhe a alguém o instrumento com que pode causar dano: estaca, arma, etc.)

Quitarlle os bríos a alguén. (Reprimir alguém; contê-lo.)

Quitarlle os fociños a alguén. (Bater muito em alguém.)

Quitarllo das unllasxiii. (Indica o difícil que é tirar o poder das mãos de outrem.)

Non quitar nen poñer rei. (Diz-se de quem não toma decisão nem tem parte num negócio.)

Non quita-las zocasxiv. (Não se incomodar; não dar importância.)

Roer

Roer corda. (Agüentar; sofrer por não poder solucionar um problema.)

Saber

Saber de que pé coxea. (Conhecer-lhe os defeitos, as fraquezas.)

Saír

Saír a tódolos aguillóns. (Ser valente, destemido ao extremo.)

Saír as contas furadas; saír a porca mal capada; sair a galiña choca; sair a pascua na sexta feira; sair a pascua ó venres. (Sair tudo mal; sair tudo ao contrário do que se esperava; dar tudo errado).

Saí-la cadela can. (Ser enganado, iludido.)

Non saír do rabo de alguén. (Não deixar alguém nem a sol nem a sombra; andar colado a alguém.)

Semellar

Semellar unha gata parida. (Diz-se da pessoa fraca e extenuada.)

Ser

Ser agudo coma o pé de un muíño. (Não ser nada esperto; ser bobo; que custa a reagir.)

Ser avogado das silveiras. (Diz-se de quem sem título nem estudos pretende saber de leis.)

Ser coma a virxe do puño. (Ser tacanho, mesquinho.)

Ser coma unha zoca. (Ser bobo; ser retardado; ser uma mala.)

Ser persoa de pouco pelo. (Ser pessoa humilde ou de poucos recursos.)

Ser tres pés para un banco. (Ser três pessoas preguiçosas ou pouco aptas para o esporte.)

Ser coma un cuco. (Ser habilidoso.)

Ser capaz de contarlle os pelos ó demo. (Ser capaz de indagar tudo, com todos os detalhes.)

Ser outro conto. (Ser outra questão.)

É conto calado. (É um assunto onde há algum mistério.)

Non ser unha persoa santa da devoción doutra. (Ser uma pessoa que inspira antipatia ou desconfiança.)

Non ser rei nin Roque. (Indica que determinada pessoa não representa nada no tema em discussão.)

Non ser da mesma corda. (Não ter a mesma opinião.)

Ser unha chispa. (Ser muito experto; ativo.)

Ser cariñento coma un can. (Ser muito carinhoso.)

Ser lixeiro de língua. (Dizer o que primeiro vem à boca, sem pensar.)

Ser irmán de detrás da silveira. (Ser irmão bastardo.)

Ser cu de mal asento. (Diz-se de quem não tem parada em nenhum lugar.)

Ser unha cadela coma un can. (Ser muito ruim.)

Ser corrido coma unha mona. (Ficar envergonhado.)

Ser unha xogada de libro. (Ser uma jogada de mestre.)

Ser un can vello. (Ser uma velha raposa; ser astuto e precavido.)

Ser máis vello que andar a pé. (Ser muito velho; velho e relho; mais velho que a Sé de Braga.)

Ser un carto no cu; termar dos cartos. (Ser unha de fome; ser avarento; segurar o dinheiro; ser tacanho.)

É o libro das corenta follas. (É o baralho.)

Ter

Ter montes e moreas; ter moita terra na Habana. (Expressão irônica sobre quem se gaba de ter muitos bens.)

Ter cara de can. (Ter cara de poucos amigos; ser mal encarado.)

Ter mala uva. (Ter mau gênio.)

Ter palabriñas de santo e unllas de gato. (Ter discurso diferente do procedimento; ser hipócrita.)

Ter mala chispa. (Ter mau gênio.)

Ter unha boa chispa; te-la língua grosa. (Estar bêbado.)

Ter moito rabo. (Ser sonso; ser uma raposa.)

Te-la meigaxv; ter mala pata. (Ter má sorte; ser azarado.)

Ter muito bico. (Ter muita língua; muita lábia; falar demais.)

Non ter que limpar; non ter unha cadela. (Ser muito pobre; não ter um tostão.)

Non as ter todas consigo. (Estar intranqüilo ou temeroso.)

Ter pauto co demo. (Diz-se quando a uma pessoa lhe sai tudo bem.)

Ter pelos un asunto. (Diz-se de um assunto que apresentar dificuldades.)

O demo nunca ten sono. (As desgraças não se acabam.)

Tanto ten; tanto ten azoutar coma no cu dar. (Se ficar o bicho come, se correr o bicho pega.)

Tanto ten Xan coma seu irmán. (Tanto faz um como o outro; nenhum deles é melhor que o outro.)

Tocar

Tocarlle o santo a alguén. (Bater em alguém; dar-lhe uma surra.)

Tomar

Tomar a alguén unha meiga. (Sair-lhe tudo mal a alguém.)

Tomarlle o pelo a alguén. (Fazer gozação; fazer chacota de alguém.)

Traer

Traer rabo unha cousa. (Diz-se de algo que pode causar graves complicações.)

Traer ó conto. (Trazer à baila; citar oportunamente.)

Untar

Untar as uñas a alguén; untar o carro. (Subornar alguém; dar gratificação para obter vantagem.)

Untarlle o lombo a alguém. (Dar-lhe uma forte surra.)

Valer

Valer un conto calado. (Ser algo de muito valor.)

Ver

Verlle as trazas a alguén. (Descobrir-lhe as intenções.)

Verse en calzas pretas. (Estar em apuros.)

Verlle as orellas a alguén (Descobrir-lhe as más intenções)

Verlle as orellas ó lobo. (Estar à beira dum grande perigo.)

Coma quen ve chover. (Não prestar atenção; não ligar; entrar por um ouvido e sair pelo outro.)

Non ver un burro a tres pasos. (Ter vista fraca; não perceber com facilidade.)

Vestir

Vestirse polos pés. (Ser do sexo masculino.)

Vir

Vir co conto de algo. (Vir com o pretexto ou com a desculpa de alguma coisa.)

Vir ó pelo. (Vir a calhar; chegar no momento apropriado.)

2.2. FRASES EXCLAMATIVAS:

¡Acabaramos de parir! (Até que enfim! Diz-se quando finalmente se resolve algo de há muito esperado.)

¡Aí está o conto! (Eis a questão!)

¡Morra o conto! (Acabou-se a história; não se fale mais nisso.)

¡Quen te chora! (Choras de barriga cheia! Aplica-se a quem não tem falta de nada.)

¡Quen te pariu que te arrolexvi! (Quem não te conheça que te compre.)

¡Quita de aí! (Para com isso! Denota incredulidade no que alguém diz.)

¿A santo de que? (Por que motivo? Por quê? Indica desaprovação.)

¡Por tódolos santos! (Pelo amor de Deus! Expressão com que se quer que alguém pare de dizer disparates.)

¡Pídechas o corpo! (Andas procurando briga! Procuras sarna para te coçar.)

¡Naceu un corvo branco! (Ocorreu uma raridade; uma casualidade.)

¡Que me coma o demo! (Juramento com que se reforça a verdade do que se afirma.)

¡Por min, que chova! ¡Xa pode chover! ¡Chova que neve! (Para mim tanto faz; pouco me importa.)

¡Cata que diaño! (¡Claro que sim! ¡Bem o vejo!)

¡Arre demo! (Exclamação que denota surpresa ou assombro.)

¡Inda o diaño ten cara de coello! (Diz-se quando as coisas saem mal.)

¡Meigas fóra! (Expressão de surpresa desagradável quando se supõe que há interferência de bruxas.)

3. CONCLUSÃO

Podemos verificar que, em geral, parte da fraseologia do galego não difere muito da do português. Os verbos que admitem maior número de frases feitas são os que têm grande circulação e que se referem a qualidades e atitudes do ser humano: ser, estar, andar, ter, poñer, quitar, dar, etc. Da mesma forma há lexemas nominais que comparecem com mais freqüência nas frases feitas. No nosso corpus, apesar de reduzido, podemos verificar a ocorrência freqüente de alguns. Entre eles, geralmente com sentido metafórico, observamos os seguintes: can, gato, mona, demo ou diaño, meiga, fociño, uñas ou unllas, rabo, pan, rei, etc.

A maior parte das frases feitas inclui-se na linguagem figurada. Assim, no corpus encontramos figuras pertencentes ao eixo metafórico como metáforas: El é unha chispa; símiles: É unha cadela coma un can; hipérboles: Poñer alguén nos cornos da lúa, etc. A metonímia também comparece em boa parte da frases aqui relacionadas: Hai zocas alleas debaixo da cama; é o libro das corenta follas, etc.

Observando o corpus acima é fácil concluir que, embora o galego seja a língua mais próxima do português, sendo considerado por diversos lingüistas como co-dialeto deste, ao menos na fraseologia notam-se bastantes diferenças, o que prova que tem que ser estudada em separado, embora todos tenhamos muito a lucrar com estudos comparativos, não só na fraseologia como nos demais aspectos lingüísticos. Os grandes trabalhos que estão sendo desenvolvidos no campo da fraseologia irão contribuir muito para o melhor conhecimento das línguas e culturas românicas originárias da Península Ibérica. O campo para estes e outros estudos é muito vasto e esta pequena amostra já nos indica que falta muito por fazer.

4.RECAPITULAÇÕES SUMÁRIAS

4.1. RESUMO

A fraseologia do galego não difere muito da do português. Verbos relacionados com o ser humano, suas características e atividades admitem a maior parte das frases feitas. Há também alguns lexemas muito freqüentes na frases estudadas. Grande parte das frases feitas pertence à linguagem figurada, tanto no eixo da metáfora como no da metonímia. Há no corpus bastantes diferenças entre a fraseologia galega e a portuguesa. É preciso estudar as duas em separado. Trabalhos comparativos serão úteis para todos. Estão sendo realizados trabalhos importantes, mas ainda há muito o que fazer.

4.2. ABSTRACT

The Galician phraseology does not differ so much from that of Portuguese. Verbs related to the human being, his caracteristics and activities admit the majority of idioms. There are also some very frequent lexical items in the studied expressions. A large part of the idioms belongs to figures of speech, as much in the metaphorical axis as in the metonymical one. In the corpus there are enough differences between Galician and Portuguese phraseology. It is necessary study both of them under separate cover. Comparative works will be useful for all. There are being performed important works, but there are still a lot for doing.

5. BIBLIOGRAFIA

CÂMARA JR., J. Mattoso. Dicionário de lingüística e gramática. 13. ed. Petrópolis, Vozes, 1986.

DICCIONARIO XERAIS da língua. 4. ed. corrix. Vigo: Xerais, 1993.

DICIONÁRIO AURELIO Eletrônico. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, /1996/.

NORMAS ORTOGRÁFICAS E MORFOLÓXICAS do idioma galego: Santiago de Compostela: Real Academia Galega / Instituto da Língua Galega, 1982.

SILVA, José Pereira da. As “frases feitas” de João Ribeiro. Rio de Janeiro: UERJ / Faculdade de Letras (mimeo), 1985.

6. NOTAS

i. SILVA, J. Pereira da. As “frases feitas”…, p. 9
ii. XERAIS e AURÉLIO. Passim
iii. CÂMARA, J. Mattoso. Dicionário…, p. 223
iv. NORMAS…, passim
v. ceibo (solto
vi. silveira (silvado, sarçal, tapume de silvas
vii. mona (macaca; fig. bebedeira
viii. bico (beijo, também bico = ponta
ix. deica (até
x. carto (dinheiro, m. us. no plural
xi. bouza (mata, capoeira, capão
xii. moa (dente molar
xiii. unlla, uña (unha
xiv. zoca (espécie de tamanco todo de madeira)
xv. meiga (bruxa)
xvi. arrolar (ninar, arrulhar)

http://www.filologia.org.br/revista/artigo/3(8)39-49.html

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O May be man MIA COUTO

O May be man MIA COUTO
Existe o “Yes man”. Todos sabem quem é e o mal que causa. Mas existe o May be man. E poucos sabem quem é. Menos ainda sabem o impacto desta espécie na vida nacional. Apresento aqui essa criatura que todos, no final, reconhecerão como familiar.
O May be man vive do “talvez”. Em português, dever-se-ia chamar de “talvezeiro”. Devia tomar decisões. Não toma. Sim­plesmente, toma indecisões. A decisão é um risco. E obriga a agir. Um “talvez” não tem implicação nenhuma, é um híbrido entre o nada e o vazio.
A diferença entre o Yes man e o May be man não está apenas no “yes”. É que o “may be” é, ao mesmo tempo, um “may be not”. Enquanto o Yes man aposta na bajulação de um chefe, o May be man não aposta em nada nem em ninguém. Enquanto o primeiro suja a língua numa bota, o outro engraxa tudo que seja bota superior.
Sem chegar a ser chave para nada, o May be man ocupa lugares chave no Estado. Foi-lhe dito para ser do partido. Ele aceitou por conveniên­cia. Mas o May be man não é exactamente do partido no Poder. O seu partido é o Poder. Assim, ele veste e despe cores políticas conforme as marés. Porque o que ele é não vem da alma. Vem da aparência. A mesma mão que hoje levanta uma bandeira, levantará outra amanhã. E venderá as duas bandeiras, depois de amanhã. Afinal, a sua ideolo­gia tem um só nome: o negócio. Como não tem muito para negociar, como já se vendeu terra e ar, ele vende-se a si mesmo. E vende-se em parcelas. Cada parcela chama-se “comissão”.
Há quem lhe chame de “luvas”. Os mais pequenos chamam-lhe de “gasosa”. Vivemos uma na­ção muito gaseificada.
Governar não é, como muitos pensam, tomar conta dos interesses de uma nação. Governar é, para o May be Man, uma oportunidade de negócios. De “business”, como convém hoje, dizer. Curiosamente, o “talvezeiro” é um veemente crítico da corrupção. Mas apenas, quando beneficia outros. A que lhe cai no colo é legítima, patriótica e enqua­dra-se no combate contra a pobreza.
Mas a corrupção, em Moçambique, tem uma dificuldade: o corrup­tor não sabe exactamente a quem subornar. Devia haver um manual, com organograma orientador. Ou como se diz em workshopês: os guidelines. Para evitar que o suborno seja improdutivo. Afinal, o May be man é mais cauteloso que o andar do camaleão: aguarda pela opi­nião do chefe, mais ainda pela opinião do chefe do chefe. Sem luz verde vinda dos céus, não há luz nem verde para ninguém.
O May be man entendeu mal a máxima cristã de “amar o próximo”. Porque ele ama o seguinte. Isto é, ama o governo e o governante que vêm a seguir. Na senda de comércio de oportunidades, ele já vendeu a mesma oportunidade ao sul-africano. Depois, vendeu-a ao portu­guês, ao indiano. E está agora a vender ao chinês, que ele imagina ser o “próximo”. É por isso que, para a lógica do “talvezeiro” é trágico que surjam decisões. Porque elas matam o terreno do eterno adiamento onde prospera o nosso indecidido personagem.
O May be man descobriu uma área mais rentável que a especulação financeira: a área do não deixar fazer. Ou numa parábola mais recen­te: o não deixar. Há investimento à vista? Ele complica até deixar de haver. Há projecto no fundo do túnel? Ele escurece o final do túnel. Um pedido de uso de terra, ele argumenta que se perdeu a papelada. Numa palavra, o May be man actua como polícia de trânsito corrup­to: em nome da lei, assalta o cidadão.
Eis a sua filosofia: a melhor maneira de fazer política é estar fora da política. Melhor ainda: é ser político sem política nenhuma. Nessa fluidez se afirma a sua competência: ele e sai dos princípios, esquece o que disse ontem, rasga o juramento do passado. E a lei e o plano servem, quando confirmam os seus interesses. E os do chefe. E, à cau­tela, os do chefe do chefe.
O May be man aprendeu a prudência de não dizer nada, não pensar nada e, sobretudo, não contrariar os poderosos. Agradar ao dirigen­te: esse é o principal currículo. Afinal, o May be man não tem ideia sobre nada: ele pensa com a cabeça do chefe, fala por via do discurso do chefe. E assim o nosso amigo se acha apto para tudo. Podem no­meá-lo para qualquer área: agricultura, pescas, exército, saúde. Ele está à vontade em tudo, com esse conforto que apenas a ignorância absoluta pode conferir.
Apresentei, sem necessidade o May be man. Porque todos já sabíamos quem era. O nosso Estado está cheio deles, do topo à base. Podíamos falar de uma elevada densidade humana. Na realidade, porém, essa densidade não existe. Porque dentro do May be man não há ninguém. O que significa que estamos pagando salários a fantasmas. Uma for­tuna bem real paga mensalmente a fantasmas. Nenhum país, mesmo rico, deitaria assim tanto dinheiro para o vazio.
O May be Man é utilíssimo no país do talvez e na economia do faz-de-conta. Para um país a sério não serve.
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Pobreza emburrece?

 

Pobreza emburrece?
Gilberto Dimenstein – 22/08/11

Para quem estuda o cérebro, a resposta da pergunta que está no título é sim: a pobreza emburrece.

Apenas metade da inteligência de um indivíduo pode ser explicada pela herança genética, segundo estudo divulgado neste mês pela Universidade de Edimburgo, que envolveu cientistas de diversos países. O restante da composição do QI vem do ambiente em que se vive e dos estímulos educacionais recebidos desde o berço. Simplificando: um Einstein nascido na miséria, sem apoio para aprender, até seria inteligente, mas dificilmente um gênio. Alguém com potencial de ter uma alta inteligência torna-se apenas mediano. É como se um músculo deixasse de ser desenvolvido.

Chegou-se a essa conclusão depois de testes laboratoriais com 3.118 pessoas espalhadas pelo mundo. Imaginava-se que as forças externas seriam bem menores na formação do QI. Tradução: inteligência é uma habilidade que, em boa parte, se aprende, depende da família e das oportunidades na cidade.

É um ângulo interessante para ver a parceria, anunciada na quinta-feira, entre a presidente Dilma Rousseff e os governadores da região Sudeste de unificação de seus programas de complementação de renda para combater a pobreza, batizado de Brasil sem Miséria.

Menos miséria acarreta mais inteligência?

A pesquisa dos neurocientistas ajudou-me a ver por outro ângulo um dos projetos mais emocionantes que conheço (Ismart) no Brasil: jovens de baixa renda, a maioria deles vindos de comunidades pobres, são escolhidos e preparados para estudar em escolas de elite.

Quase todos eles costumam entusiasmar seus professores porque, apesar da adversidade extrema (muitos passam parte do dia no trajeto de ônibus até a escola), conseguem recuperar a cada ano o tempo perdido. Logo estão no mesmo nível de aprendizagem de seus colegas mais abastados e até os superam, entrando nas melhores faculdades.

Conheci vários desses jovens e tendia a atribuir sua performance à garra, a uma inteligência acima do normal, tudo isso, é claro, favorecido por escolas de qualidade.

O que impressiona a todos é a rapidez da evolução. O que aquela pesquisa da Universidade de Edimburgo traz é a suspeita de que, com tantos estímulos, desafios e apoio, a taxa de QI possa ter sofrido um upgrade -afinal, nessa fase o cérebro ainda está em formação.

É, por enquanto, apenas uma especulação.

O que não é uma especulação é o caminho inverso, mostrando a relação entre pobreza e aprendizagem. Com apoio do Unicef, o Cenpec analisou, desde o ano passado, 61 escolas de de São Miguel Paulista, região da periferia da cidade de São Paulo. Já sabemos que, em geral, quanto mais pobre um bairro, pior tende a ser a nota dos alunos.

Mas essa investigação foi mais longe. Analisou as escolas de uma mesma região, comparando alunos com semelhante posição socioeconômica. Detectou-se uma expressiva diferença segundo as peculiaridades de cada território, especialmente a oferta de serviços públicos em cada um deles.

Nos lugares com menos serviços públicos, as demandas sociais tendem a sobrecarregar mais as escolas e, com isso, afastam ainda mais os professores e as famílias que têm maior repertório cultural. Nesses locais, há menos oferta de creche e pré-escola, retardando o processo de aprendizagem.

Esses programas da renda mínima unificados (acertadamente) por Dilma e os governadores têm como contrapartida a permanência dos alunos nas escolas. Mas a subida da renda, a julgar pelas descobertas da pesquisa do Cenpec, será limitada à aprendizagem dos alunos se não houver um investimento e articulação nos territórios.

Nem será justo que se avaliem essas escolas com padrões semelhantes aos das demais, já que os professores, mesmo os mais capacitados, terão uma margem de manobra limitada.

Programas como o Bolsa Família são um bom exemplo de política para a redução da miséria. E, por isso, têm um efeito eleitoral, mas terão um baixo impacto educacional caso não se perceba o território como uma extensão da sala de aula.

Não pensar na educação como uma linha que passa pela família, pela escola e pela comunidade é falta de inteligência pública.

http://portal.aprendiz.uol.com.br/2011/08/22/pobreza-emburrece/

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Instruções que Vasco da Gama deu a Pedro Álvares Cabral

in diálogos lusófonos

O texto que se segue tem também como interesse, o registro da língua
portuguesa no séculos XV-XVI . A ortografia mudou tanto…
Instruções que Vasco da Gama deu

 

 

a Pedro Álvares Cabral

 

 

 

 

Esta he a maneira que parceo a vasco da gama que deue teer pedrealvarez em sua yda prazendo a nosso senhor

 

 

Item primeiramente ante que daquy parta fazer muy bõoa hordenança pêra se nam perderem huuns nauyos dos outros nesta maneira

 

 

A saber cada uez que ouuerem de vyrar fará o capitam moor dous foguos e todos lhe Responderam com outros dous cada huum. E depois de lhe asy Réspomderem todos viraram saluo se allguua das naaos nam sofrer também a vella como a do capitam e a força do tenpo lhe rrequerer que ha tire

 

 

E asy lhe terá dado de synal que a huum fogo será por seguir E três por tirar moneta E quatro por amaynar E nêhuum nam virara nem amaynara nem tirara moneta sem que primeiro o capitam moor faca os ditos fogos E todos tenham respomdydo E depois que asy forem amaynados nam guyndará nêhuum senam depois que ho capitam mor fizer três fogos e todos Responderem e mynguando allguum nom guyndaram soomente andaram amaynados ate que venha o dya porque nom poderam tanto Rollar as naaos que no dya se nam vejam E por saparelhar fará qualquer que for desaparelhado muytos fogos por tal que os outros nauyos vaão a elle.

 

 

se os nauyos partindo desta cidade ante da travasarem aas canaryas os tomar tenpo com que ajam de tornar taram todo o posyuel por todos tornar a esta cidade E se allguum a nom poder aver trabalhara quamto poder de tomar Setuuel E dhonde quer que se achar fará logo aqui sauer omde he pêra lhe ser mandado o que faça.

 

 

se estes nauios partymdo desta costa se perderam huus dos outros com tenpo que huus corram a huu porto e outros a outro A maneira pêra se ajuntarem.

 

 

E nam lhe fazendo de noite os ditos synaes allgun dos nauios nem no vemdo pella menhã

 

 

vos fares com todos os outros o vosso caminho direito a agoada de Sam Brás.

 

 

se tornaram ante a Ilha de sam nicolao no caso desta necesidade pela doença da Ilha de Sam tiago

 

 

E aly em quanto tomardes agoa vos poderá ho dito nauyo encalçar E nam vos encalcando partires como fordes prestes e leixar lhe es hy taaes synaes pêra que sayba quamdo aly chegar que soes pasado e vos siga

 

 

Item depois que em bõoa ora daqui partirem faram seu caminho direito a y lha de samtiago e se ao tenpo que hy chegarem teuerem agoa em abastança pêra quatro meses nam deuem pousar na dita ylha nem fazer nëhuuma demora soomente em quamto lhe o tenpo seruyr

 

 

A popa fazerem seu caminho pelo sul E se ouuerem de guynar seja sobre ha bamda do sudueste E tanto que neles deer o vento escasso deuem hyr na volta do mar ate meterem o cabo de bõoa esperança em leste franco E dy em diante nauegarem segundo lhe serujr o tenpo e mais ganharem porque como forem na dyta parajeem nom lhe myngoara tenpo com ajuda de noso senhor com que cobrem o dito cabo E per esta maneira lhe parece que a nauegaçam será mais breue e os nauyos mais seguros do bussano e jsso mesmo os mantymentos se teem mjlhor e a jente yraa mais sâa.

 

 

E se for caso que nosso senhor nam queyra que allguum destes nauyos se perca do capitam deuesse de ter de loo quanto poder por ver o cabo e hir se a agoada de sam bras E se for hy primeiro que ho capitam deue se damarar muy beem e^speraito

 

 

porque he necessário que ho capitam moor vaa hy pêra tomar sua agoa pêra que dy em diante nam tenha que fazer com ha terra mas aRedar se delia ate monçenbique por saúde da jente e nam ter nella que fazer

 

 

E se for caso que o capitam moor venha primeiro a esta agoada que ho tal nauyo os naujos que se delle perder *.

 

 

* lembre que se deue dar marcas domde se façam os caminhos pêra os nauios que se asy perderem e que jsto se fará com muy booa pratica de todolos pilotos
(Nota: Confiram o texto acima com a primeira página do original, a seguir, que podem ampiar.)

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TRAJETÓRIAS JUDAICAS

prof ª Jane Glasman * enviou:

TRAJETÓRIAS JUDAICAS
A história do povo judeu, com suas diferentes diásporas vividas – e revividas em muitas cerimônias religiosas – é bastante conhecida. Uma dentre essas distintas trajetórias me toca de forma bastante particular, por envolver o ramo paterno da minha própria família. Refiro-me aos judeus que saíram de Jerusalém após a destruição do Primeiro Templo, há aproximadamente vinte e seis séculos, radicando-se na Península Ibérica, a Sefarad dos relatos bíblicos. Juntamente com a fé no Deus único, os judeus que se fixaram no espaço que hoje abriga Portugal e Espanha levaram para a nova terra seus costumes e tradições, com destaque para a alegria de viver e um riquíssimo acervo musical, progressivamente enriquecido com o passar dos séculos. Por intermédio de muitas de suas melodias é possível acompanhar a trajetória percorrida pelas correntes migratórias judaicas a partir de Eretz, ao tempo da conquista de Jerusalém pelas tropas de Nabucodonosor, assim co mo os dois mil anos de permanência na Península Ibérica até à expulsão de 1492 na Espanha e a conversão forçada de 1497 em Portugal. E, também, a dicotomia ocorrida entre os que puderam sair e se fixar na França, Holanda e os territórios do Império Otomano onde continuaram praticando a fé ancestral e os que precisaram ocultá-la para sobreviver durante o longo período de trevas representado pela Inquisição na Espanha, Portugal e suas colônias.
Diásporas Judaicas no Velho Mundo
HAD GADIÁ
Para ilustrar de forma sonora essa longa e tortuosa trajetória selecionamos para os leitores da Rua Judaica uma melodia do cancioneiro israelita que julgamos ser do conhecimento, se não de todos, certamente de uma expressiva maioria. Refiro-me à canção Had Gadiá, entoada durante a cerimônia familiar do Pessach, em suas versões em hebraico e ladino, assim como uma popular melodia do folclore brasileiro nela inspirada. A música começa contando o triste fim de um cabritinho que custou dois levanim, moeda corrente em algum dos diferentes períodos em que essa história, contada e cantada durante o Seder de Pessach, se passa. O cabritinho, coitado, acabou sendo devorado por um gato, apesar da desproporção de tamanho entre um e outro bicho, mas isso não vem ao caso. Gato esse que foi mordido por um cachorro que, por sua vez, foi afugentado por um pedaço de pau, que acabou queimado pelo fogo. O fogo foi apagado pela água, por sinal bebida por um boi q ue acabou sacrificado por um Sochet e assim sucessivamente, até o final que, dependendo da versão, pode ser bastante feliz ou extremamente triste. Já deu para perceber que é uma canção destinada ao entretenimento das crianças na longa celebração da Páscoa Judaica.
Seder de Pessach na Idade Média
Comecemos com a versão original, em hebraico, em um clipping que mostra um afinadíssimo coral feminino de Israel interpretar de forma magistral essa tradicional melodia. Quem assistiu ao filme Free Zone, do controvertido Diretor Amos Gitai, talvez lembre da trilha musical, cantada de forma monocórdica e intencionalmente enfadonha, que contava essa mesma história, enquanto um personagem feminino se desmanchava em lágrimas. Se fosse no Brasil poderíamos dizer que ela estava chorando a morte da bezerra. No caso do filme, o mais acertado seria afirmar que ela também chorava a morte, só que de um cabrito.
O LADINO
Após 1492 os judeus que preferiram deixar seus bens para trás a ter de abandonar a religião ancestral, foram mesclando, à medida que viajavam em busca de um porto seguro, os diferentes dialetos falados na Península Ibérica ao português, francês, italiano, grego e turco, formando o ladino, a primeira forma unificada do castelhano. Nas palavras de uma das maiores autoridade brasileira em ladino, Professora Cecilia Fonseca da Silva, os sefaradis podem ser considerados “A Espanha Itinerante”. E a canção Had Gadiá, agora conhecida como El Kavretiko, continuou a ser entoada em ladino nas cerimônias do Pessach das famílias sefaradis radicadas nos países que compunham o vasto território otomano, para deleite de adultos e crianças. A graça era ir aumentando a velocidade da interpretação, em uma espécie de desafio, para ver quem conseguia chegar até o final sem se confundir com as novas estrofes que íam sendo progressivamente agregadas às iniciais. Par a interpretar El Kavretiko ninguém melhor do que o cantor, ator e parlamentar israelense Yehoram Gaon, cuja primeira língua, o ladino, foi aprendida em casa, com os pais.
A VELHA A FIAR
Se prestarmos atenção à letra do Kavretiko é possível constatar que sete estrofes inteirinhas, sem mexer uma única vírgula nem omitir nenhum dos bichos e elementos, se encaixam como uma luva na brasileiríssima A Velha a Fiar. Pura coincidência? Claro que não. Prova inconteste de que a melodia do folclore nacional descende em linha direta do Had Gadiá – Kavretiko, com alguns pequenos e perceptíveis acréscimos, plenamente justificáveis nos tempos obscuros das perseguições religiosas. Trata-se da inclusão de animais não-kasher, como a aranha, a mosca e o rato, além da própria velha, seguramente para despistar os esbirros da inquisição. É interessante escutar atentamente a versão em português que selecionamos e constatar, pelos próprios ouvidos, a presença da milenar tradição judaica na formação da cultura popular brasileira.

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Casamansa-o crioulo

Casamansa-o crioulo, uma lingua que sintetiza o português e as culturas locais

Do contato com os portugueses do sec XV aos finais do XIX em Casamansa surgiu o crioulo, uma lingua que sintetiza o português e as culturas locais. O crioulo falado em Zinguincho,uma cidade do Senegal localiza-se no sul do país na região de Casamança, é do mesmo tipo que o de Cacheu (Guiné-Bissau, país que fica apenas a poucos km desta cidade), com alguns termos acreolizados do francês, sendo contudo intelegivel mutuamente com os crioulos guinienses e mesmo caboverdianos.

O crioulo da Casamansa provém da língua de Camões e de línguas africanas
A seguir passo o “Pai-Nosso” no crioulo de Casamansa

No Pape ki stana seu
Pa bu nomi santificadu
Pa bu renu thiga
Pa bu bontadi fasidu riba di tera suma na seu
Partinu aos pom di kada dia
Purdanu no pekadus, suma no ta purda kilas ki iara nu
ka bu disanu no kai na tentasom
Ma libranu di mal
Amen

Fonte: Dicionário temático da lusofonia, Fernando Cristóvão,Maria Helena Amorim,Maria Lucia Garcia Marques, Susana Brites Moita

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coisa e coisar: PARA APRECIADORES DE QUESTÕES LINGUÍSTICAS

Demasiado importante, para ficar na gaveta!!!!

(PARA APRECIADORES DE QUESTÕES LINGUÍSTICAS)

 

Achei muito bom, procurei autoria, mas…
permanece desconhecido! Vale a pena ler !!!!!!!!

Coisa

A palavra “coisa” é um bombril do idioma. Tem mil e uma utilidades. É aquele tipo de termo-muleta ao qual a gente recorre sempre que nos faltam palavras para exprimir uma idéia. Coisas do português.

A natureza das coisas: gramaticalmente, “coisa” pode ser substantivo, adjetivo, advérbio. Também pode ser verbo: o Houaiss registra a forma “coisificar”. E no Nordeste há “coisar”: “Ô, seu coisinha, você já coisou aquela coisa que eu mandei você coisar?”.

Coisar, em Portugal, equivale ao ato sexual, lembra Josué Machado. Já as “coisas” nordestinas são sinônimas dos órgãos genitais, registra o Aurélio. “E deixava-se possuir pelo amante, que lhe beijava os pés, as coisas, os seios” (Riacho Doce, José Lins do Rego). Na Paraíba e em Pernambuco, “coisa” também é cigarro de maconha.

Em Olinda, o bloco carnavalesco Segura a Coisa tem um baseado como símbolo em seu estandarte. Alceu Valença canta: “Segura a coisa com muito cuidado / Que eu chego já.” E, como em Olinda sempre há bloco mirim equivalente ao de gente grande, há também o Segura a Coisinha.

Na literatura, a “coisa” é coisa antiga. Antiga, mas modernista: Oswald de Andrade escreveu a crônica O Coisa em 1943. A Coisa é título de romance de Stephen King. Simone de Beauvoir escreveu A Força das Coisas, e Michel Foucault, As Palavras e as Coisas.

Em Minas Gerais, todas as coisas são chamadas de trem. Menos o trem, que lá é chamado de “a coisa”. A mãe está com a filha na estação, o trem se aproxima e ela diz: “Minha filha, pega os trem que lá vem a coisa!”.

Devido lugar: “Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça (…)”. A garota de Ipanema era coisa de fechar o Rio de Janeiro.“Mas se ela voltar, se ela voltar / Que coisa linda / Que coisa louca.” Coisas de Jobim e de Vinicius, que sabiam das coisas.

Sampa também tem dessas coisas (coisa de louco!), seja quando canta “Alguma coisa acontece no meu coração”, de Caetano Veloso, ou quando vê o Show de Calouros, do Silvio Santos (que é coisa nossa).

Coisa não tem sexo: pode ser masculino ou feminino. Coisa-ruim é o capeta. Coisa boa é a Juliana Paes. Nunca vi coisa assim!

Coisa de cinema! A Coisa virou nome de filme de Hollywood, que tinha o seu Coisa no recente Quarteto Fantástico. Extraído dos quadrinhos, na TV o personagem ganhou também desenho animado, nos anos 70. E no programa Casseta e Planeta, Urgente!, Marcelo Madureira faz o personagem “Coisinha de Jesus”.

Coisa também não tem tamanho. Na boca dos exagerados, “coisa nenhuma” vira “coisíssima”. Mas a “coisa” tem história na MPB. No II Festival da Música Popular Brasileira, em 1966, estava na letra das duas vencedoras: Disparada, de Geraldo Vandré (“Prepare seu coração / Pras coisas que eu vou contar”), e A Banda, de Chico Buarque (“Pra ver a banda passar / Cantando coisas de amor”), que acabou de ser relançada num dos CDs triplos do compositor, que a Som Livre remasterizou. Naquele ano do festival, no entanto, a coisa tava preta (ou melhor, verde-oliva). E a turma da Jovem Guarda não tava nem aí com as coisas: “Coisa linda / Coisa que eu adoro”.

Cheio das coisas. As mesmas coisas, Coisa bonita, Coisas do coração, Coisas que não se esquece, Diga-me coisas bonitas, Tem coisas que a gente não tira do coração. Todas essas coisas são títulos de canções interpretadas por Roberto Carlos, o “rei” das coisas. Como ele, uma geração da MPB era preocupada com as coisas.

Para Maria Bethânia, o diminutivo de coisa é uma questão de quantidade (afinal,“são tantas coisinhas miúdas”). Já para Beth Carvalho, é de carinho e intensidade (“ô coisinha tão bonitinha do pai”). Todas as Coisas e Eu é título de CD de Gal. “Esse papo já tá qualquer coisa…Já qualquer coisa doida dentro mexe.” Essa coisa doida é uma citação da música Qualquer Coisa, de Caetano, que canta também: “Alguma coisa está fora da ordem.”

Por essas e por outras, é preciso colocar cada coisa no devido lugar. Uma coisa de cada vez, é claro, pois uma coisa é uma coisa; outra coisa é outra coisa. E tal coisa, e coisa e tal. O cheio de coisas é o indivíduo chato, pleno de não-me-toques. O cheio das coisas, por sua vez, é o sujeito estribado. Gente fina é outra coisa. Para o pobre, a coisa está sempre feia: o salário-mínimo não dá pra coisa nenhuma.

A coisa pública não funciona no Brasil. Desde os tempos de Cabral. Político quando está na oposição é uma coisa, mas, quando assume o poder, a coisa muda de figura. Quando se elege, o eleitor pensa: “Agora a coisa vai.” Coisa nenhuma! A coisa fica na mesma. Uma coisa é falar; outra é fazer. Coisa feia! O eleitor já está cheio dessas coisas!

Coisa à toa. Se você aceita qualquer coisa, logo se torna um coisa qualquer, um coisa-à-toa. Numa crítica feroz a esse estado de coisas, no poema Eu, Etiqueta, Drummond radicaliza: “Meu nome novo é coisa. Eu sou a coisa, coisamente.” E, no verso do poeta, “coisa” vira “cousa”.

Se as pessoas foram feitas para ser amadas e as coisas, para ser usadas, por que então nós amamos tanto as coisas e usamos tanto as pessoas? Bote uma coisa na cabeça: as melhores coisas da vida não são coisas. Há coisas que o dinheiro não compra: paz, saúde, alegria e outras cositas más.

Mas, “deixemos de coisa, cuidemos da vida, senão chega a morte ou coisa parecida”, cantarola Fagner em Canteiros, baseado no poema Marcha, de Cecília Meireles, uma coisa linda. Por isso, faça a coisa certa e não esqueça o grande mandamento: “amarás a Deus sobre todas as coisas”.

ENTENDEU O ESPÍRITO DA COISA????

 

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>Petição-Carta Aberta a Paulo Portas, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal

>

Petição-Carta Aberta a Paulo Portas, Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal

Exmo. Senhor

Doutor Paulo Portas

Ministro dos Negócios Estrangeiros de Portugal

Temos apreciado a importância que tem dado às relações com os restantes países lusófonos, numa aparente reorientação estratégica de Portugal que o MIL sempre defendeu, dado o seu Horizonte ser, precisamente, o reforço dos laços entre os países e regiões do espaço da lusofonia – no plano cultural, mas também social, económico e político.

Esta carta prende-se, tão-só, com a posição de Portugal relativamente à Galiza, a nosso ver uma dessas regiões integrantes do espaço lusófono – daí a nossa reiterada defesa da sua especificidade linguística e cultural. Com efeito, no Conselho de Ministros da Comunidade de Países de Língua Portuguesa, na sua XVI reunião, realizada em Luanda no passado dia 22 de Julho, soubemos que Portugal foi o único país a não apoiar a concessão da categoria de Observador Consultivo à Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa, entidade que, como sabe, tem já um histórico muito apreciável, tendo sido por isso reconhecida para nossa Academia das Ciências, sendo ainda membro do Conselho das Academias de Língua Portuguesa.

Ainda mais recentemente, também soubemos que o novo Governo Português tem expressado as suas dúvidas sobre a presença de observadores da Galiza no Instituto Internacional de Língua Portuguesa, assim como pela inclusão do seu Léxico no Vocabulário Ortográfico Comum que está a ser preparado por essa instituição, quando é sabido que uma Delegação de Observadores da Galiza participou nesse processo desde o princípio.

Face a isto, perguntamos apenas até que ponto houve uma inflexão da posição do Estado Português relativamente à Galiza, já que, desde que foi apresentada a candidatura da Fundação Academia Galega da Língua Portuguesa, Portugal sempre deu o seu apoio expresso a essa candidatura nos diversos órgãos da CPLP.

Muito cordialmente

MIL: Movimento Internacional Lusófono

www.movimentolusofono.org

Para subscrever:

CartaAbertaaPauloPortas.movimentolusofono.org

 

Expressamente apoiado por algumas das mais relevantes personalidades da nossa Cultura, o MIL é um movimento cultural e cívico, registado notarialmente no dia 15 de Outubro de 2010, que conta já com mais de 5 MIL adesões, de todos os países da CPLP. Entre os nossos órgãos, eleitos em Assembleia Geral, inclui-se um Conselho Consultivo, constituído por 70 pessoas, representando todo o espaço da lusofonia.
Defendemos o reforço dos laços entre os países lusófonos – a todos os níveis: cultural, social, económico e político –, assim procurando cumprir o sonho de Agostinho da Silva: a criação de uma verdadeira comunidade lusófona, numa base de liberdade e fraternidade.

 

CONTACTOS: 967044286; [email protected]

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