momento poético

564. polir sóis com uma peneira 25 dezembro 2012

 

polir textos é como arear pratas

perde-se sempre algo

nunca se sabe se o brilho que fica

é maior do que o sujo limpo

 

polir amizades é como sacudir o pó

com a gentileza de uma pena

nada se perde nem se transforma

basta um gesto, um telefonema

uma sms, mensagem

talvez apenas um like no Facebook

como se fosse natal todos os dias

 

polir matrimónios é complicado

como diamantes em bruto

pode partir-se a agulha ou o casamento

e em vez de 24 ficam 6 quilates

questão de sorte e perícia

em panos de fina seda

 

polir países é arriscado

as limas devem ser afiadas

à prova de lóbis e governos

cortam-se as esquinas angulosas

talham-se as aparas mais finas

em areias de fina brancura

é como ir ao barbeiro do futuro

ao alfaiate do tempo

encomendar um fato por medida

para dar com a cor do cabelo

e há o risco de cortar o país todo

talhar pessoas trinchar tradições

sem memória nem história

serrar distritos, fender concelhos

encurtar fronteiras até ao mar

e finava-se Portugal em praias e arribas

 

 

polir palavras é bem mais fácil

corta-se uma folha de papel em A4

verifica-se a tinta nos tinteiros

gravam-se carateres como granito

basalto, quartzo ou ametista

lavram-se sulcos como rios

erguem-se sombras como montanhas

sombras de marés vivas

deixa-se a marinar antes do banho-maria

leva-se ao lume brando com pitada de sal

junta-se pimenta a gosto e louro e basilicão

retira-se do fogo e serve-se a gosto

 

sempre sonhei ser poeta

navegar em utopias

escrever cardápios de vida

imensos e belos como o oceano

livres e úteis como o ar

na solidão dos mares açorianos

 

 

chrys chrystello dez 2012

 

 

 

565. solitudes 31 dezembro 2012

 

solidão não me assusta

estar sozinho sim

 

silêncio não me assusta

solilóquio sim

 

inverno não me assusta

cinzento sim

 

multidões não me assustam

estar só no meio delas sim

 

a poesia é uma arma

carregada de solitude

 

 

 

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FERNANDO VENÂNCIO E O VOLP DA ACADEMIA

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15 e 16 de Dezembro de 2012

 

Fernando Venâncio

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 1

Custou-me 40 €. Pesa quase um quilo e meio. Mas não tenham dó de mim.

O novíssimo «VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO ATUALIZADO DA LÍNGUA PORTUGUESA», produzido pela ACADEMIA DAS CIÊNCIAS DE LISBOA, é uma fonte de delícias.

Irei dando conta da minha observação do volume. A sua elaboração e publicação – lemos na Nota de abertura – «é uma competência» da ACL.

Calem-se, pois, a Porto Editora, mailo ILTEC, maila Priberam, que outro poder mais alto se…

… veremos, então, o que aqui se levanta.

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 2

Primeiro, duas maravilhas.

O «Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa» (VOALP para os íntimos) consagra ÓPTICA e ÓPTICO (termos oftalmológicos), a distinguir de ÓTICO (termo otorrino). Alvíssaras!

Consagra, também, CONCEPÇÃO (e CONCEPCIONAL, CONCEPTIVO, CONCEPTUAL, CONCEPTUALIZAR) a par de CONCEÇÃO (e CONCECIONAL). Louvores!

Ora, raciocinemos. Se é verdade (como julgo que é) soar o P nas formas «concepcional», «conceptivo», «conceptual» e «conceptualizar», infere-se que a ACL consagra, também, a pronúncia CON-CEP-ÇÃO. Será porque é a pronúncia brasileira? Vamos supor que não é isso, e só uma mostra (excessiva) de generosidade.

Mas logo surge um cartão vermelho. Quando se esperaria a inclusão de ANTICONCEPCIONAL e ANTICONCEPTIVO, não: o VOALP só dá ANTICONCECIONAL e ANTICONCETIVO.

Continuaremos.

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 3

Vimos a generosidade das formas CONCEÇÃO e CONCEPÇÃO. Podiam aguardar-se mais bónus destes. Por exemplo, PERCEÇÃO e PERCEPÇÃO, PERCECIONAR e PERCEPCIONAR. Desenganem-se. Só temos direito a PERCEÇÃO e PERCECIONAR (quando eu digo, e muita gente diz, distintamente, PERCEPCIONAR).

Podia esperar-se a generosidade de RECEÇÃO e RECEPÇÃO, de RECECIONISTA e RECEPCIONISTA. Pois não. Só há formas sem P.

Mas ‘pera lá! Junto a RECEÇÃO vem indicado «RECEPÇÃO (B)». Mas porque não se fez o mesmo em PERCEÇÃO? E porque se admitiram, sem uma nota brasileira, CONCEÇÃO e CONCEPÇÃO?

Ó Academia. Isto é para levar a sério?

Prosseguiremos. Levaremos esta cruz ao calvário.

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 4

O VOALP consagra PERSPECTIVA, PERSPECTIVAR, PERSPECTIVO. Não tem formas sem C. Em contrapartida, só contém RESPETIVO.

Como interpretar isto? Que a pronúncia portuguesa é RES-PÈ-TI-VO, mas PERS-PÈC-TI-VA?

O VOALP só consagra ASPETO e ASPETUAL. Mas donde surgiu, de repente, ASPECTÁVEL? Vocês conheciam?

Damos com EXPECTANTE, EXPECTATIVA, EXPECTÁVEL. Óptimo.

Damos, por outro lado, com ESPETRO e ESPECTRO. Mas só vemos ESPECTRAL. Concordais, ó gentes?

Mais um cartão vermelho, este vermelhíssimo. Encontramos «CORRETOR /é/», quer dizer, aquele que corrige, mas ignora-se «CORRETOR», o senhor da Bolsa, com «e» fechado.

Ó Academia! Como te chamar?

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 5

Eu não queria dizer mal nenhum de ARTUR ANSELMO, pessoa que muito estimo. Mas ele é o Presidente da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da ACL, portanto o responsável número 1 deste VOALP. Terei de registar, aqui, algumas excentricidades.

Num dos prefácios do volume, que ele assina, escreve RESPECTIVO, o seu VOALP só regista RESPETIVO. Escreve TÃO SOMENTE, mas o Vocabulário impõe (e bem) TÃO-SOMENTE. Escreve SELEÇÃO na pág. XVIII e SELECÇÃO na pág. seguinte. Escreve ENCORPORAR, e o VOALP só conhece INCORPORAR (que ele também usa). Escreve a forma adjectival ACEITAS, e o VOALP só reconhece ACEITES.

Também escreve CONCEPÇÕES, e RECTIFICADAS, e EXCEPCIONAL[MENTE], e ADOPTADOS (tudo na pág. XIX), formas que o seu VOALP indignamente baniu.

João Roque Dias: a tua “CHOLDRA ORTOGRÁFICA” veio, de facto, para ficar.

E com que cara, dizei-me, pode obrigar-se alunos e professores a uma escrita… correta?

Haverá mais. Infelizmente.

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 6

Este VOCABULÁRIO distingue-se dos demais (o da Porto Editora, produzido pelo académico Malaca Casteleiro, e o do ILTEC, que o Governo de Portugal declarou “oficial”) pela informação ortoépica, isto é, relativa à pronúncia.

Assim, regista: ADOÇÃO /ó/, ADOTAR /ó/, CONCEÇÃO /é/, CONCETIVO /é/. E deixa sem anotar CONCEPÇÃO e CONCEPTIVO. No que há certa lógica. Ou um testimonium paupertatis, desculpem-me o atrevimento.

Mas é curioso que registe DIRETA /é/ ou DIRETO /é/, que, sendo de acento tónico, não deveria entrar nestas andança, e que são – objectivamente – simples marcas de má-consciência. (Honra lhes seja!).

Outra coisa. Regista-se ESPETACULAR /é/ e ESPETÁCULO /é. Mas em ESPETADOR não há nenhum /é/. Isto é gravíssimo. Não só ignora a correntíssima forma ES-PEC-TA-DOR, como convida à pronúncia «esp’tador».\

Ó Academia: eu não peço devolução dos 40 €. Só digo que não gastaste um centavo com um CORRECTOR, porra!

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 6A

Transcrevo da pág. 447:

espetacular /pé/
espetáculo /pé/
espetaculoso /pé/
espetada
espetadela
espetado
espetador
espetanço
espetão

Como desejam eles que se leia ESPETADOR?

Mais (e repetindo-me): onde ficou o correntíssimo ES-PEC-TA-DOR?

 

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 7

Comentando um destes «posts», escreveu Ernesto Rodrigues:

«Artur no lugar de Malaca e Anselmo no de Casteleiro? Coitados. A ausência de Malaca é devida a quê: eleições? falta de credibilidade? coisa grave? Gostava que me explicassem.»

Disso nada sei, Ernesto. E duvido que algum dia no-lo digam. Ignoro, mesmo, se temos o direito de sabê-lo.

O que constato é o silêncio absoluto sobre JOÃO MALACA CASTELEIRO neste «Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa».

No seu prefácio, Telmo Verdelho (o maior lexicólogo que este país jamais teve) informa-nos de que, na confecção do VOALP, se fez «uma revisão minuciosa» de outros Vocabulários, entre eles o «Vocabulário Ortográfico da Língua portuguesa» da ABL, de 2009 (que está online), e o «Vocabulário Ortográfico do Português» do ILTEC, mais recente (também online).

A grande ausência é, obviamente, o «Vocabulário Ortográfico da Língua Portuguesa», da Porto Editora, elaborado por Malaca Casteleiro, inculcado em 2009 como «a nova Bíblia da língua portuguesa».

Esse Vocabulário existiu? Poderia duvidar-se. Na altura, procurei-o por livrarias em Lisboa, e nada. Pedi ao editor que mo enviasse, e nada. Mas existe. Estive, um dia, com o volume na mão na livraria da Porto Editora, no Porto. Não o comprei. Foi a minha pequenina vingança? Até certo ponto. Mas já então o Vocabulário do ILTEC tinha sido oficializado para Portugal. O da Porto pode, porém, consultar-se online no site da editora.

Torna-se evidente que o académico Malaca Casteleiro mais a sua Academia andam de candeias às avessas. Porquê, exactamente? Qualquer dia a coisa transpira.

Mas nada disto abona na credibilidade do empreendimento ortográfico. O Brasil fez UM Vocabulário. Os nossos TRÊS andam por aí. Um desaparecido em combate, ou em modo zombie. Um pago pelo Estado e por ele tornado oficial. E agora outro, da entidade que, ela sozinha, o devera ter feito.

Devera ter feito? Não, senhores. Nada disto tem o menor sentido.

O aparecimento desta terceira abantesma seria o pretexto mais feliz para, de uma vez por todas, o Estado Português se libertar de um objectivo vexame.

 

 

A DESORIENTAÇÃO ACADÉMICA – 8 (e último)

Terá sentido continuar a mostrar as deficiências do VOALP, o novel Vocabulário Ortográfico Atualizado da Língua Portuguesa? Tem. E por uma razão, simples, mas ponderosa: a da IMPOSSIBILIDADE de algum dia confeccionar esse «VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO COMUM DA LÍNGUA PORTUGUESA» que se nos prometeu, e promete.

O problema foi criado pelo próprio Acordo Ortográfico 1990, ao consagrar a PRONÚNCIA CULTA de cada país de língua portuguesa como primeiro critério da grafia, destronando para segundo lugar a ETIMOLOGIA.

Em si, esta inversão é um progresso. Mas qual é a PRONÚNCIA CULTA PORTUGUESA? Este VOALP poderia tê-la definido, frontalmente, mas ignora a questão (como todos os demais ignoraram). E, no entanto, opera como se ela tivesse sido definida. Alguns exemplos.

O VOALP consagra, e bem, as formas APOCALÍPTICO, DACTILOGRAFAR, EXPECTATIVA e EXPECTÁVEL, FACCIOSISMO, FACTÍCIO, GALÁCTICO, INTERRUPTOR, LACTAÇÃO, JACTANCIOSO, PICTÓRICO, RETRÁCTIL, SECÇÃO, VASECTOMIA. Tudo isto, não obstante desenhar-se algum uso emudecedor da primeira consoante dos grupos. Talvez por isso assinale as formas INTERRUTOR e RETRÁTIL (esta com a enigmática indicação de «adj. unif.». Será «unificado»? Mas de quê, se o Brasil admite as duas formas?).

O VOALP admite DETECÇÃO, DETECTAR, DETECTIVE ao lado de DETEÇÃO, DETETAR, DETETIVE. Admite PERFECCIONISMO, PERFECCIONISTA, PERFECTÍVEL ao lado de PERFECIONISMO, PERFECIONISTA, PERFETÍVEL. Admite SECTOR, SECTORIAL, ao lado de SETOR, SETORIAL. Já não se perdeu tudo.

Mas – e como já assinalei – o mesmo VOALP, admitindo CONCEPCIONAL e CONCECIONAL, só admite ANTICONCECIONAL. Do mesmo modo, admitindo PERFECTÍVEL e PERFETÍVEL, só admite IMPERFETÍVEL. E, ainda, admitindo INDEFECTÍVEL e INDEFETÍVEL, só admite DEFETÍVEL.

Não deveria, porém, o VOALP admitir algumas «facultatividades» mais? Que mais não fosse, para «segurar» a articulação de grupos consonânticos?

Com efeito, ouvimos à nossa volta CARACTERÍSTICA, mas o VOALP só admite CARATERÍSTICA. Ouvimos PEREMPTÓRIO, mas ele só admite PERENTÓRIO. Ouvimos CEPTICISMO, mas ele só admite CETICISMO. Ouvimos RECEPTADOR, RECEPTAÇÃO, mas ele só admite RECETADOR, RECETAÇÃO. Ouvimos OPTIMIZAR, mas ele só admite OTIMIZAR. Ouvimos PERCEPTÍVEL e IMPERCEPTÍVEL, mas ele só admite PERCETÍVEL e IMPERCETÍVEL.

*

Escrevi acima que a confecção de um VOCABULÁRIO ORTOGRÁFICO «COMUM» DA LÍNGUA PORTUGUESA se me afigura, cada vez mais, uma impossibilidade. É que confio, ainda, no discernimento humano. Senão, vejamos.

Este VOALP consagra bastantes facultatividades portuguesas. Fazem-no também o vocabulário da PORTO EDITORA e o do ILTEC. Mas estão, nisso, longe de coincidirem. Só que o vocabulário da ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS consagra incomensuravelmente mais, e outras, facultatividades. E o que farão os angolanos, e os caboverdianos, e os moçambicanos, e os demais? O que será para eles consagrável (mas não para os outros) e admissível (mas não para os outros)?

Se o académico VOALP já é a desorientação que aqui se tentou assinalar, que planetária barafunda não se prepara com um Vocabulário «COMUM»? Imagino que, além de mim, já alguém, e esse com responsabilidades, terá enxergado esse abismo de loucura ortográfica.

Mandem, já, para casa os tristes confeccionadores dessa obra monstruosa. Chegam-nos, e sobram-nos, os TRÊS VOCABULÁRIOS deste tresloucada pátria.

 

 

 

 

Comentário:

 

João Pedro da Costa: é claro que há a possibilidade FÍSICA de confeccionar esse Vocabulário. Digo-te mais: secretamente, DESEJO que o façam. Ele demonstrará, definitivamente, a que situação caótica o AO90, desde sempre, estava condenado a conduzir.

Imagina uma fusão (sim, porque é de fusão que se trata, em última análise) de um Vocabulário português com o Vocabulário da Academia Brasileira. Sirvo-me da lista do ILTEC para te dar uma ideia. Importa saber que o Brasil admite p.ex. COLECTA e COLETA, mas Portugal só COLETA. Aqui vai o resultado.

coleção (Brasil, Portugal)
colecionação (Brasil, Portugal)
colecionador (Brasil, Portugal)
colecionador (Brasil, Portugal)
colecionadora (Brasil, Portugal)
colecionar (Brasil, Portugal)
colecionável (Brasil, Portugal)
colecionismo (Brasil, Portugal)
colecionista (Brasil, Portugal)
colecionístico (Brasil, Portugal)
colecta (Brasil)
colectânea (Brasil)
colectâneo (Brasil)
colectar (Brasil)
colectário (Brasil)
colectável (Brasil)
colectício (Brasil)
colectivamente (Brasil)
colectividade (Brasil)
colectivismo (Brasil)
colectivista (Brasil)
colectivístico (Brasil)
colectivização (Brasil)
colectivizar (Brasil)
colectivo (Brasil)
colectomia (Brasil, Portugal)
colector (Brasil)
coleta (Brasil, Portugal)
coletânea (Brasil, Portugal)
coletâneo (Brasil, Portugal)
coletar (Brasil, Portugal)
coletário (Brasil, Portugal)
coletável (Brasil, Portugal)
coletício (Brasil, Portugal)
colético (Brasil, Portugal)
coletivamente (Brasil, Portugal)
coletividade (Brasil, Portugal)
coletivamente (Brasil, Portugal)
coletividade (Brasil, Portugal)
coletivismo (Brasil, Portugal)
coletivista (Brasil, Portugal)
coletivístico (Brasil, Portugal)
coletivização (Brasil, Portugal)
coletivizar (Brasil, Portugal)
coletivo (Brasil, Portugal)
coletor (Brasil, Portugal)

Agora imagina o que será um «Vocabulário Comum» COMPLETO. É muito prático, não é?

 

E que formas valem – e quais não valem – para CABO VERDE, GUINÉ, SÃO TOMÉ, ANGOLA, MOÇAMBIQUE e TIMOR? Imagina-se essa informação inserida na lista acima?

 

 

 

 

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Da crise de 2012 ao resgate de 2013 OSVALDO CABRAL

Da crise de 2012 ao resgate de 2013

 

 

Há uma linha profunda que separa 2012 de 2013.

Chama-se “empobrecimento” e parece não ter fim à vista.

No final de 2012 há nos Açores cerca de 20% da população em risco de pobreza (a taxa de risco mais elevada do país), enquanto os mais ricos do país ganham quase 10 vezes mais do que os pobres.

Mais de 50 mil açorianos vão entrar no novo ano a ganhar menos de 400 euros, que é o limiar da pobreza, 21% das empresas regionais vão estar em risco de falência, o desemprego vai continuar a aumentar e poderá atingir os 20% e continuaremos cada vez mais dependentes do exterior, porque não fizemos o trabalho de casa nas últimas décadas.

Ainda acham que há razões para desejar um Bom Ano, sabendo que ele vai ser péssimo?

Eis 10 etapas que marcaram 2012 e que vão perdurar em 2013.

 

  1. “Entroikados” com a crise

 

A crise que se abateu durante todo o ano deixou marcas profundas.

O desinvestimento privado e as dificuldades no acesso ao crédito bancário mexeram com a economia açoriana, apesar da propaganda governamental ao congratular-se com a “resistência da economia regional à crise”.

Por cada semana que passou em 2012, quatro famílias ou empresas dos Açores entraram em insolvência – um aumento de 185% em relação ao ano anterior.

De 2011 para 2012 o desemprego aumentou na região de 9 para 15%!

A nossa balança comercial tem um défice do tamanho da cratera das Sete Cidades.

De todas as empresas da região, apenas 1,4% exportam, o que representa um valor ridículo para uma região que já deveria estar a gerar riqueza suficiente para se tornar menos dependente.

A troika está a pôr muita coisa no seu devido lugar, mas há outras que são nitidamente o resultado da mediocridade política que temos.

 

  1. O fim do ciclo cesariano

 

Foi o acontecimento mais marcante de 2012. O fim da era de Carlos César abre novos caminhos para uma outra geração de políticos.

Vasco Cordeiro, Duarte Freitas, Vitor Fraga, José Manuel Bolieiro e outros da mesma geração não podem falhar, porque representam a única esperança que ainda nos resta no meio de tanto descrédito que a velha classe política assentou durante 2012.

Haja rigor nas decisões e mais mérito nas promoções.

Houve muitos interesses instalados nestas últimas décadas e muita gente a viver à sombra de compadrios políticos.

O facilitismo não pode continuar a imperar numa região tão frágil e com desequilíbrios sociais tão acentuados.

 

  1. Desemprego a galope

 

O desemprego foi o maior flagelo de 2012 e é mais que certo que vai galopar em 2013.

Mais de 20 mil desempregados em ilhas onde o investimento e a criação de riqueza é como agulha em palheiro, este vai continuar a ser o maior problema social dos Açores.

Tudo isto a somar a mais cerca de 20 mil beneficiários do Rendimento Social de Inserção e a um terço da população que já vive abaixo do limiar da pobreza, estão reunidas as condições para um caldo social explosivo.

Não admira que, de três em três meses, 130 casas sejam entregues à banca e as instituições de solidariedade estejam a abarrotar de pedidos de esmola.

 

 

4. Turismo e SATA

 

O ano fica também marcado pela forte recessão no sector do turismo na região.

Não é só a crise. Foram, também, políticas erradas e uma falta de estratégia confrangedora.

Só em promoção gastaram-se dezenas de milhões nos eventos mais disparatados e sem retorno, desde vacas em Lisboa, camelos nos Açores e paisagens nos táxis de Londres. Foi um fartar de adjudicações por ajuste directo, sites virtuais a rodos e um mar de disparates.

A SATA é, também, uma das principais causas deste descalabro.

A gestão incompreensível da sua política de tarifas agravou o fosso e ajudou a enterrar, ainda mais, um sector já de si desregulado e muito dependente da estratégia dos governos.

Creio que vamos levar muitos anos a recuperar.

Até lá, a imagem que perdura é a mesma do famoso Casino-Fantasma em Ponta Delgada, representando, emblematicamente, a degradação que se vive no sector.

 

5. Universidade e RTP-Açores

 

São duas instituições da nossa Autonomia que representam bem o pensamento de uma certa política cada vez mais discutível: queremo-las como nossas, mas o Estado a pagá-las.

Está visto que não vai ser assim. O Estado vai desobrigar-se, cada vez mais, de responsabilidades nas Regiões Autónomas, com o argumento de que não tem receitas suficientes para chegar a tudo.

A Universidade e a RTP-Açores foram vítimas, em 2012, da nova política que vai fazer escola no Terreiro do Paço, aliada à habitual passividade dos políticos regionais.

Cabe à Região enfrentar, sem medos, o futuro das duas instituições e saber, junto da sociedade, o que é que os açorianos querem para cada uma delas.

Não pode é haver mais demoras.

 

6. Este homem existe?

 

Se o Estado desobriga-se de algumas responsabilidades na Região, a Região também deveria desobrigar-se de algum paternalismo do Estado.

Por exemplo, o Representante da República.

Ele existe? Alguém dá pela falta dele? Serviu para quê em 2012?

 

7. Base das Lajes

 

Nem de propósito. Quem ocupa hoje a cadeira do Representante da República é um Embaixador que esteve bastante envolvido nas negociações com os Estados Unidos, no âmbito dos Acordos de Cooperação, devido à Base das Lajes.

Alguém ouviu uma palavra da figura representativa da república?

A retirada dos americanos haveria de acontecer um dia, porque sabemos que o mundo mudou muito.

O nosso problema, o nosso espanto, é que não nos preparamos para isto.

Como sempre, só acordamos para os nossos problemas quando somos confrontados com o agudizar deles.

Raramente planeamos.

Geralmente chegamos tarde.

 

8. O resgate que vem aí

 

“Memorando de Entendimento entre o Governo da República Portuguesa e o Governo da Região Autónoma dos Açores” – nome pomposo para dizer que, durante os próximos 10 anos, a região passa a ser controlada pelo poder central (vai começar com a nova Lei de Finanças Regionais).

Andamos estes anos todos a gastar à tripa forra, tal como o país, sem cuidar da criaçaõ de riqueza.

Nas últimas duas décadas foram investidos nos Açores cerca de 25 mil milhões de euros, qualquer coisa como 100 mil euros por cada habitante.

Qual a riqueza que tudo isto gerou?

Deste total, é provável que 16,6 mil milhões – dois terços do investimento – terão saído da região para pagar importações, serviços externos, juros de empréstimos bancários, etc.

Mesmo assim, continuamos a gastar sem saber o que produzimos.

Tudo agora vai piorar.

Começando pela saúde, com os três hospitais regionais em falência técnica.

Só de empréstimos bancários, os três hospitais passaram de 7,5 milhões de euros em 2008 para 64,3 milhões em 2009 – 8 vezes mais em apenas um ano.

2012 foi a corda ao pescoço.

Com as receitas próprias da região a cobrir apenas 86% das despesas correntes, como é que vamos continuar a sobreviver?

 

  1. Políticos a mais

 

Em 2012 foi evidente que há instituições políticas e gente delas dependentes a mais no país e na região.

Vasco Cordeiro corrigiu no governo, diminuindo os departamentos e as chefias.

Falta agora a Assembleia Regional, a única que aumentou os seus efectivos e as suas despesas.

Gastar mais de 12 milhões de euros por ano para tanta gente e tão pouco trabalho produzido (o último mês de 2012 foi mesmo de gazeta), é uma provocação para a restante sociedade açoriana, que vive com um rendimento médio de 700 euros.

O escândalo ia sendo maior em 2012 quando se descobriu que, devido ao fantasmagórico aumento de eleitores nos cadernos eleitorais, a Assembleia Regional quase que engrossava para 64 deputados.

Não fosse a pressão pública e os movimentos cívicos, e hoje teríamos um parlamento ainda maior.

 

  1. Desertificação nas ilhas

 

A crise financeira e os problemas associados a toda a economia deixaram escapar um problema muito sério que se começa a agravar no país e na região.

Há fortes sinais de que vamos assistir a um défice demográfico muito acentuado, que pode pôr em causa o futuro de algumas ilhas.

O número de mortes está a ultrapassar largamente a quantidade de nascimentos.

Até ao final de Novembro tinham nascido no país pouco mais de 83 mil bébés, menos 6 mil do que igual período de 2011.

É uma curva que se inclina a 7%. É como se não tivesse nascido 14 vezes toda a população do Corvo.

Nos Açores ainda não são conhecidos os dados totais, mas é muito provável que acompanhe a tendência nacional.

Nos Censos de 2011 a região tinha aumentado ligeiramente a população, mas apenas em S. Miguel, Terceira e Corvo,

Todas as restantes ilhas perderam nuita população e, segundo o pouco que se conhece deste ano, a tendência é para se agravar.

Trata-se de um problema muito complicado para a região.

Numa altura em que se fala tanto de coesão regional e desenvolvimento harmónico, se não houver população não há coesão que resista.

Poderá ser a falência de um projecto e de uma região.

 

Pico da Pedra, Dezembro 2012

Osvaldo Cabral

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PESSOA PLURAL Nº2

Caros,

Como nestas coisas nenhuma publicidade é em vão porque alguém não interessado pode sempre reencaminhar para um amigo, aqui vai o número 2 (sim, não o anúncio mas o próprio número,, que atinge as 340 páginas) da revista Pessoa Plural, que acabámos de disponibilizar na rede.
Por favor passem aos amigos eventualmente interessados.
Um grato abraço do
onésimo
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ESCOLAS PORTUGUESAS NO MUNDO

Escolas Portuguesas no Mundo

Escolas Portuguesas no Mundo

O GEPE assegura o acompanhamento das escolas públicas portuguesas no mundo, constituindo-se como interface entre estas e os diversos serviços do Ministério da Educação e do Ministério dos Negócios Estrangeiros

A Direção de Serviços de Ensino e das Escolas Portuguesas no Estrangeiro (DSEEPE) tem por missão garantir a concretização das políticas de gestão estratégica e de desenvolvimento dos recursos humanos da educação afetos às estruturas educativas nacionais que se encontram no estrangeiro, visando a forte promoção da nossa língua e cultura. À DSEEPE compete: a) Definir a rede das escolas portuguesas no estrangeiro; b) Promover e assegurar o recrutamento, seleção e outras formas de mobilidade para as escolas portuguesas no estrangeiro; c) Apoiar a aplicação de políticas de desenvolvimento de recursos humanos no que respeita à formação dos docentes; d) Apoiar a gestão dos estabelecimentos; e) Promover a monitorização do funcionamento e gestão dos estabelecimentos; f) Promover a celebração de contratos de parceria e de interligação com estruturas locais; g) Promover o desenvolvimento das boas práticas de gestão e administração educativa.   GEPE: Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação   Escola Portuguesa de Díli A Escola Portuguesa de Díli entrou em funcionamento em 2002. No ano lectivo de 2008/2009, contará com ensino secundário. Sobre a Escola Portuguesa de Díli     Contactos da Escola Portuguesa de Díli Rua de Balide, Santa Cruz Díli, Timor-Leste N.º de telefone: 670 3322070 N.º de fax: 6703310581 Endereço electrónico: [email protected]   A Escola Portuguesa de Luanda A Escola Portuguesa de Luanda possibilita uma formação de base cultural portuguesa, permitindo o alargamento do ensino básico e secundário aos jovens portugueses e angolanos em idade escolar. Contactos da Escola Portuguesa de Luanda Rua N’Gola M’Bandi, n.º 278 Luanda, Angola N.º de telefone / n.º de fax: 244 222329558 Endereço electrónico: [email protected]   Escola Portuguesa de Macau A Escola Portuguesa de Macau, criada em 1998, assegura o ensino curricular em língua portuguesa nos ensinos básico e secundário. Sítio na internet: Escola Portuguesa de Macau Contactos da Escola Portuguesa de Macau: Av.ª Infante D. Henrique S/N R. A. E. Macau N.º de telefone: 853 28572240 N.º de fax: 853 28710473 Endereço electrónico: [email protected] Endereço electrónico dos Serviços Administrativos: [email protected] Sítio na Internet: www.epmacau.edu.mo   Escola Portuguesa de Moçambique A Escola Portuguesa de Moçambique contribui para implementar uma política de cooperação cultural e educativa naquele país africano. Sítio na internet: Escola Portuguesa de Moçambique Contactos da Escola Portuguesa de Moçambique: Av.ª para o Palmar, n.º 562 – caixa postal 2940 Maputo, Moçambique N.º de telefone: 258 21 481300 N.º de fax: 258 21 481343 Endereço electrónico: [email protected]   ESCOLAS PORTUGUESAS NO ESTRANGEIRO Lista de escolas por país

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portugueses e brasileiros na Suíça

in diálogos lusófonos

Brasileiros e portugueses no sistema previdenciário suíço

Vivendo entre dois mundos, brasileiros e portugueses nem sempre recebem seus direitos por medo ou por não conhecerem bem o funcionamento do sistema previdenciário suíço.

Grande parte de brasileiros e portugueses vivendo na Suíça já possui a dupla cidadania, ou são cidadãos da comunidade europeia, o que não significa estarem bem informados de seus direitos e obrigações no país.

Na maioria dos casos, a barreira da língua é o que impede logo na chegada de procurarem as informações corretas. Além disso, os que estão ilegais temem procurar seus direitos e ajuda dos órgãos especializados com receio de punições ou expulsão. E isto não é tudo.

O bom conhecimento das leis, no entanto, é o que garante ao trabalhador estrangeiro na Suíça segurança e uma possível economia de impostos. Para evitar surpresas após a carreira profissional, seria necessário, portanto, que todos conhecessem seus direitos e obrigações, adaptando-se o mais rápido possível a esta nova sociedade, na qual as informações existem, inclusive em português.

Depoimentos de vários brasileiros e portugueses que vivem no país mostram claramente que muitos deles, apesar de estarem satisfeitos com o sistema previdenciário suíço, desconhecem o funcionamento do 3°pilar. E, como já era de se esperar, quase todos os entrevistados vivem com um pé na Suíça e outro no país de origem. A maioria espera receber duas aposentadorias e alguns não estão informados a respeito da possibilidade de se retirar o capital depositado no 2° e 3° pilares no caso de deixarem o país.

A lenda brasileira em Berna

A alegre Maria “Marijô” Perrin – que com sua coleção de 4.600 colares entrou para o Livro dos Recordes – é uma aposentada brasileira que acha ter nascido em 1935 e virou personalidade em Berna. Após 18 operações e uma prótese no joelho, ela se diz realizada na Suíça e muito satisfeita com o apoio do sistema previdenciário suíço.
Maria "Marijô" Perrin é uma brasileira aposentada na Suíça.

 


Marijô saiu de ônibus de João Pessoa, Paraíba, ainda muito pequena para trabalhar no Rio de Janeiro com uma patroa paraibana. Estudou em Ipanema, quando foi convidada para trabalhar na casa de um diplomata brasileiro em Berna. Em 1972, realizou seu sonho de criança de conhecer a Europa e viajar de avião.
Muito trabalhadora, serviu nove anos como ajudante de enfermeira em Köniz, perto da capital suíça, e durante vários anos serviu como governanta em asilos da capital helvética. Apesar destes anos todos morando no cantão de Berna, confessa não conhecer bem a previdência social. “Nunca me preocupei muito por confiar nos patrões, confiava que eram honestos e pagavam os 1° e 2° pilares pra mim”.

Mesmo tendo sido casada como um suíço, nunca se diz suíça. Marijô dá uma gargalhada e declara: “A gente não deixa nunca de ser brasileira, sempre tenho uma bandeira do Brasil comigo!”.

Ela diz não ter economias, mas sim anjos da guarda no Brasil e em Berna. Aposentada nos dois países, ela recebe da Suíça uma aposentadoria de dois mil francos suíços por mês e o sistema social de Berna complementa sua pensão, pagando o plano de saúde. Para completar a renda e viajar, a paraibana dança, apresenta-se em pequenos shows e cozinha por encomenda.

“Minha irmã sempre pagou o INSS no Brasil pra mim e hoje minha amiga recebe e paga minhas contas”, conta. Depois de várias hospitalizações, confessa que sempre foi bem tratada como aposentada e como paciente nos hospitais suíços.

Marijô espera não perder sua pensão do Brasil e diz que é segurança psicológica poder voltar e viver tranquila. Sabe que, neste caso, tem direito de continuar recebendo sua aposentadoria suíça, mas nunca entendeu bem o sistema. Hoje, ela se diz muito satisfeita com o sistema de previdência na Suíça, mas, se pudesse escolher, gostaria de ser enterrada no túmulo com a mãe em sua terra natal.

 

Sistema previdenciário: resumo

O sistema de aposentadoria helvético é considerado um dos melhores do mundo.

Na Suíça o trabalhador conta duas fontes obrigatórias: a primeira, mais conhecida como 1° pilar, é o seguro básico para todas as pessoas que residem ou trabalhem na Suíça. Ela é baixa, mas garante que ninguém deixe de ter uma renda mínima quando atingir a idade de abandonar o batente, atualmente aos 65 anos.

A segunda base é a previdência profissional, o chamado 2° pilar, que assegura todos os empregados a partir dos 25 anos de idade e cujo salário anual atinje o limite mínimo anual de CHF 19.350. Ela complementa a renda e é calculada por uma taxa de conversão do capital acumulado durante os anos de trabalho. A taxa atual de conversão do 2° pilar é de 6,4 ou seja, para um capital acumulado de 100 mil francos, ao se aposentar com 65 anos de idade, a pessoa terá um salário anual de 6 mil e 400 francos.

O terceiro pilar é a previdência privada.

Texto adaptado de http://www.swissinfo.ch/por/guia_da_suica/saude/Brasileiros_e_portugueses_no_sistema_previdenciario_suico.html?cid=6994324

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