POR QUE SOU A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO

DE CÁ E DELÁ

Daqui e dali, dos lugares por onde andei ou por onde gostaria de ter andado, dos mares que naveguei, dos versos que fiz, dos amigos que tive, das terras que amei, dos livros que escrevi.
Por onde me perdi, aonde me encontrei… Hei-de falar muito do que me agrada e pouco do que me desgosta.
O meu trabalho, que fui eu quase todo, ficará de fora deste projecto.
Vou tentar colar umas páginas às outras. Serão precárias, como a vida, e nunca hão-de ser livro. Não é esse o destino de tudo o que se escreve.

Quinta-feira, 21 de Janeiro de 2010

POR QUE SOU A FAVOR DO ACORDO ORTOGRÁFICO

1º – Porque não somos donos da língua portuguesa. Existem cerca de 225 milhões de lusófonos e nós, em Portugal, somos apenas 10 milhões.
Fundámos a sociedade, mas detemos só 5 por cento das acções. Queremos mandar em quem?
Esse notável instrumento de comunicação representa, a par das Descobertas, um dos nossos maiores legados para a cultura universal. Criámo-la, mas constituímos uma minoria das pessoas que a falam. Ela é já muito maior do que nós. Fernando Pessoa, cidadão da palavra, compreendeu isto quando afirmou, há um século: “A minha Pátria é a Língua Portuguesa”.2º – Porque considero necessário e útil um instrumento regulador.
As línguas são vivas e tendem a diversificar-se em cada dia que passa. Basta pensarmos no crioulo de Cabo Verde e lembrar os escritos de Mia Couto.
As pressões de outros países sobre os PALOPs não vão deixar de crescer e hão-de ter também repercussão linguística.
Dentro em breve, com acordo ou sem ele, os livros escolares dos PALOPs serão feitos no Brasil, onde os custos de produção são mais reduzidos. As telenovelas brasileiras constituem um instrumento poderoso de divulgação da língua. Não somos suficientemente competitivos nessa área.
Quer nos agrade, quer não, se a língua portuguesa perdurar no mundo, será na versão brasileira.

3º – Porque considero melhor existir um mau acordo do que não haver nenhum e deixar a língua à solta, sem nenhum mecanismo que tente, ao menos, regulá-la. São necessárias directrizes que exerçam um papel de contenção e de estruturação nas variantes que estão a nascer espontâneamente, um pouco por toda a parte.
E, tanto quanto sei, o acordo nem é assim tão mau. Não sou linguista e mal me atrevo a meter a foice nesta seara mas, a meu ver, boa parte das alterações propostas vem apenas apressar uma evolução que iria ter naturalmente o mesmo resultado, anos mais tarde. Para que servem as consoantes mudas ou não articuladas?
E não lhe chamem novo! Tem 19 anos, embora tenha sido recentemente ratificado por Portugal. Provavelmente, está ultrapassado. Nos “SMS” dos telemóveis, o K está a fazer ao QU, quando o U não se pronuncia, o mesmo que o F fez ao PH, tempos atrás. Mais tarde ou mais cedo, este fenómeno terá repercussão na escrita formal.

Há questões que ultrapassam os acordos. Em primeiro lugar: quem irá cumpri-lo?
Eu, não! Tenho 66 anos e não vou mudar agora. Sou incoerente? Nem tanto. A mudança deve começar nos bancos da Escola Primária. Será opcional nas Universidades da Terceira Idade… A transição poderá ser fácil se a nova grafia conquistar o seu espaço no Windows.
E os brasileiros? Sabem que são os mais fortes nesta área e que o tempo joga a favor deles. Será que o vão mesmo cumprir?
Tanto dá! Acreditem ou não, tenho poucas saudades do tempo em que farmácia e outras palavras correntes se escreviam com ph.

António Trabulo

Publicada por em 08:15

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música dos judeus

in diálogos lusófonos

Alguns  temas do fórum Dialogos_Lusofonos:

atualidades ou questões relacionadas com migrações, língua, cidadania, genealogia, intercâmbios,  história dos povos que tem “elos” com os que falam português e as heranças: africana, ameríndia, galega, judaica e muçulmana.

 

Culturas lusófonas

Música dos judeus no Brasil Holandês

http://omelomano.blogspot.de/2008/05/msica-dos-judeus-no-brasil-holands.html

A presença de judeus no Brasil e seu impacto na cultura brasileira ainda estão completamente sub-dimensionados. Um autor que afirma isso é Martin Dreher, no 4º volume de sua série da História do Cristianismo, e também em sua história das leituras da Bíblia (veja sobre estes livros aqui). Mas mesmo este autor apenas dá a dica de que houve forte presença de judeus (na verdade cristãos-novos ou cripto-judeus) que praticaram suas festas litúrgicas na América Portuguesa e cuja religiosidade teve profundo impacto no catolicismo popular gestado nos três séculos de colonização portuguesa e depois violentamente reprimido pelo ultra-montanismo a partir de meados do século XIX. (Uma outra dica quente está aqui no Contra-senso)

Vem da musicologia uma bela contribuição ao conhecimento desta presença judaica. Ana Maria Kieffer reconstituiu algumas canções que testemunham a presença judaica: elas estão gravadas no disco Teatro do descobrimento, e as explicações da gravação estão no mesmo texto que explica a gravação dos Cantos Tupinambás.

Três canções são reconstituições de cantos sinagogais registrados no período do domínio holandês em Pernambuco (1630-1655) – único período em que a prática do judaísmo foi tolerada no continente colonizado pelos europeus. Outras duas são aboios recolhidos no nordeste por Mário de Andrade em 1928 – ambos com forte indício de influência judaica no folclore nordestino.

A primeira gravação é um poema de Isaac Aboab da Fonseca, rabino da sinagoga do Recife entre 1642 e 1654. Zecher asiti leniflaot El (1646) é considerado o primeiro poema judaico das Américas. Nesta gravação a melodia é criada e cantada pelo hazan David Kullock, estudioso da cultura sefardita, e complementada por rabeca e cravo (grupo Anima – faixa 14 do disco). O poema ficou assim na tradução de Sami Goldestein:

Memorial em nome de Deus, pois as lágrimas cessaram
Cantarei na minha cidade vivo com todo meu júbilo
Também cantarei sua misericórdia, se não cessarem
Uma canção não conforme Seu tamanho mas com toda minha força.
Pois quem poderia exaltar Suas Maravilhas elevadas
Sobre toda criação acima e abaixo de minha lua?
Será como lembrança para elogiar o Nome de Deus
Para a congregação do Deus Excelso e Rocha de Israel

A segunda música é exclusivamente vocal, um canto-recitado sinagogal – Mi chamocha, poema de autoria do mesmo rabino em comemoração à chegada de navios holandeses com víveres para abastecer a população do Recife faminta devido ao cerco de tropas portuguesas em 1647. Em 1648, nos estatutos da Congregação Tsur Israel, estabelece-se que este poema ou salmo seja recitado na data de celebração da chegada dos navios. Essa forma de recitar cantando é antiqüíssima na tradição sinagogal, e provavelmente foi desta prática que derivou o canto cristão que hoje se conhece (erroneamente) como Canto Gregoriano. (faixa 15 do disco)

A terceira música é o Cântico de Moisés, mencionado no mesmo estatuto de 1648, e cantado nesta gravação com a melodia mantida até hoje na Sinagoga Portuguesa Sherit Israel em Manhattan. Esta região de Nova Iorque (antiga Nova Amsterdã) foi fundada pelos judeus portugueses que fugiram do Recife após o fim do período holandês quando as chacinas e perseguições voltaram com força total. O acompanhamento instrumental (cravo e flauta – grupo Anima) tenta uma referência à harpa de Davi e às flautas dos pastores, bem como à prática dos comerciantes judeus abastados do Recife holandês, que se reuniam em suas casas para tocar instrumentos musicais. (faixa 16 do disco)

As duas cantigas de aboio recolhidas por Mário de Andrade denunciam a presença judaica. Na primeira delas o personagem encomenda ao sapateiro um calçado para a celebração do sábado judaico (faixa 13 do disco). Na segunda, uma referência a um certo “boi judeu” que a autora especula ser uma Torá presente nas casas de judeus do Recife. Pergaminhos de rolo guardados em uma caixa preta com pontas de fora e penduradas na parede, vistas da janela da rua podiam parecer a um cristão a cabeça de um boi chifrudo. Ainda mais quando a resposta do que fosse o objeto (Torá) pudesse ser equivocadamente entendido comotoura, conforme uma denúncia anotada contra um cristão-novo em Olinda, 1593 (faixa 17 do disco).

As gravações:

(no final do  link: http://omelomano.blogspot.de/2008/05/msica-dos-judeus-no-brasil-holands.html)

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ONÉSIMO, PROGRESSO E RELIGIÃO POR DANIEL DE SÁ

Minha gente

A propósito do livro do Onésimo “Utopias em Dói Menor”, eu tinha-lhe prometido dar o meu ponto de vista a respeito de uma ideia feita de que a Europa protestante se desenvolveu mais do que a católica. Mas, como talvez interesse a mais alguém, envio-o por este meio. O Onésimo, tal como eu, não defende aquela visão viciada pela simples constatação de que, nos países de maioria protestante, o progresso foi maior do que nos de maioria católica, o que se deveria à repressão católica, sobretudo por intermédio da Inquisição, contra as ideias novas que iam surgindo. Ora esta repressão acontece no campo do pensamento religioso – principalmente teológico e moral – raramente interferindo com o pensamento científico. O caso de Galileu é uma questão excepcional, e motivado principalmente pela inveja dos seus rivais ou invejosos colegas cientistas. Sem eles, seus delatores, Galileu dificilmente teria chegado ao tribunal da Inquisição.
Ora, sendo a repressão do Santo Ofício uma tentativa de vasculhar as ideias teológicas e morais, e de condená-las quando lhe parecessem merecedoras de tal, é muito difícil provar que isso tenha tido implicações no avanço científico. Alguns dos nomes que o Onésimo cita entre os cientistas de maior vulto em Portugal na época da expansão marítima, estão por exemplo Pedro Nunes, Garcia de Orta e D. João de Castro, que fizeram as suas investigações em plena época da Inquisição, se bem que os primeiros tenham sido perseguidos depois de mortos! E foram descendentes seus que sofreram os rigores estúpidos da Inquisição. A perseguição religiosa, sobretudo à conta de reis que não queriam ver em perigo a unidade nacional (como os “santos” Reis Católicos” de Espanha ou os “beatos” D. Manuel e D. João III), foi prejudicial nesse caso. O Onésimo fala de havermos perdido Espinosa, e eu acrescento agora, em Espanha, o caso de Miguel Servet. Este é mesmo um exemplo perfeito de que, a havê-lo, não teria sido só catolicismo o responsável por um hipotético menor desenvolvimento nos países onde era dominante. E isto porque, tendo de fugir de Espanha, Servet desenvolveu no estrangeiro o seu pensamento teológico e estudou a circulação do sangue nos pulmões. E como acabou ele? Condenado à morte na Suíça por insistência de Calvino! Porque, se a Igreja Católica, por intermédio da Inquisição de raízes mais políticas (ou pelo menos tanto quanto) que religiosas, condenava “hereges”, os protestantes não o fizeram menos nem com menor crueza, sendo que normalmente até fingiam menos o julgamento do que a Inquisição.
Além disso, a Igreja Católica não conseguia impor-se tanto quanto se imagina em questões morais. Lembre-se que os católicos não eram grandes cumpridores das orientações religiosas, tendo em reis, cardeais, bispos e padres exemplos de deboche moral e de ilimitadas ambições materiais. Aliás, a confissão foi sempre mal entendida pela maioria esmagadora dos católicos, que viam naquele sacramento uma maneira de serem perdoados os seus pecado quando quisessem, e, em último caso, na hora da morte, desconhecedores de que assim caíam nos chamados pecados contra o Espírito Santo, pelo que o sentido religioso do pecado por ambição material era pouco tido em conta. Já os protestantes, mormente os luteranos, que negavam o valor a confissão, viam no julgamento divino uma apreciação da totalidade da vida humana, pelo que, para eles, o pecado teria uma implicação que de certo modo se projectava mais na eternidade do que segundo a noção (errada, repito) dos católicos.

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