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Breve história da letra CA história das letras é muito curiosa. Hoje, olhamos para o C, que tem os seus caprichos.
Foto de Nikhil Mitra em Unsplash O nosso alfabeto serve muito bem para representar o português, mas tem umas peculiaridades bem conhecidas. Uma delas é o C, que não só se lê de maneira diferente conforme a letra que se lhe segue, como tem uma outra letra a morder os calcanhares, que não seria, estritamente falando, necessária. Falo, claro, do Q — e nem precisamos de chamar ao palco o K, que raramente se usa. Além disso, e como se não bastasse, o C ainda se desdobra no famoso C de cedilha, só para confundir — C de cedilha esse que também se lê como outra letra: o S (claro que este também tem as suas complicações). Para perceber de onde vêm estas atrapalhações alfabéticas, temos de recuar até ao tempo dos Fenícios — e temos ainda de saber que as nossas letras surgiram de uma viagem longa entre as letras fenícias, as letras gregas, as letras etruscas (já na Península Itálica), até terminarem no alfabeto latino que usamos hoje. Tabela incluída no Atlas Histórico da Escrita. Comecemos na antiga Fenícia. Para representar um som semelhante a /k/, os Fenícios usavam duas letras que são os antepassados de K e Q: o kap e o qop. Por que razão tinham duas letras para o mesmo som? Na verdade, não era o mesmo som – havia uma subtil diferença na posição da língua e estes dois sons parecidos eram representados por duas letras diferentes. Hoje, se ouvíssemos um fenício a falar, dificilmente detectaríamos a diferença. É um pouco como acontece com as vogais de «cheap» e «chip» em inglês: um português julga ouvir o mesmo som; para um inglês, são dois sons diferentes. Um linguista dirá que estas duas vogais, para um português, são duas realizações do mesmo fonema; para um inglês, são dois fonemas diferentes. Além do kap e do qop, os Fenícios tinham ainda o antepassado da nossa letra C, o giml, que usavam para representar o som /g/. Avancemos até à Grécia Antiga. Quando transformaram as letras fenícias no seu famoso alfabeto, os Gregos importaram as três letras: C, K e Q. No entanto, como não faziam distinção entre K e Q, acabaram por deixar cair esta última — embora tenha perdurado durante algum tempo. Na altura em que o Q desapareceu do alfabeto grego, já os Etruscos tinham começado a imitar o alfabeto grego para representar a sua língua. Os Etruscos não tinham o som /g/, mas sim três variações do som /k/. Pois bem: aproveitaram as três letras para representar essas três variações: C, K e Q passaram a representar sons muito semelhantes a /k/, mas suficientemente diferentes para merecerem letras diferentes no alfabeto etrusco (note-se que não temos a certeza de que sons seriam esses; a língua etrusca continua a ser um mistério). Chegamos, por fim, ao nosso alfabeto. Quando os Romanos copiaram os Etruscos, tiveram outro problema: não distinguiam três versões de /k/, mas precisavam de uma letra para representar /g/. Se tivessem copiado os Gregos directamente, teriam a solução: poderiam usar o C para o /g/ e o K ou Q para o /k/. Como o alfabeto latino nasceu do alfabeto etrusco e não directamente do grego, os Romanos acabaram por inventar uma pequena variação da letra C para representar o som /g/. Assim nasceu o nosso G. Os Romanos tinham, ainda assim, três letras para o som /k/. Acabaram por abandonar o K, que ficou apenas para importações gregas, e reservaram o Q para uso antes do U (que, na verdade, se escrevia V) e de outra vogal. Esta solução talvez tenha sido influenciada pela variação do som /k/ antes de /u/ entre os Etruscos. Não temos a certeza — o que sabemos é que o alfabeto latino acabou por incluir um C e um Q a representar o mesmo som (e ainda um K em certas situações) e um G para representar outro som (diga-se que /k/ e /g/ são sons muito parecidos; a única diferença é a vibração das cordas vocais). Assine para receber todos os artigos e apoiar o meu trabalho. Obrigado! Assim compreendemos porque temos um excesso de letras para representar o som /k/. Ainda falta explicar, no entanto, por que razão a letra C se comporta de forma tão estranha antes de I e E. No latim clássico, o C tinha sempre o valor de /k/. O nome de Cícero seria lido como /ki.ke.ro/. Foi no final do Império que os falantes começaram a alterar o som antes de um /e/ ou de um /i/ – estas vogais obrigam a puxar a língua para a frente, pressionando o som consonântico anterior no sentido de uma consoante em que a posição da língua seja semelhante. O mesmo aconteceu, ao longo da Idade Média, com o som /g/. Este fenómeno de mudança da consoante para facilitar a produção da vogal que se lhe segue criou uma diferença na leitura das letras C e G antes do E e do I em contraste com as outras vogais, uma peculiaridade partilhada por todas as línguas latinas, com a curiosa excepção do sardo e da antiga língua latina do Norte de África, hoje desaparecida, que mantiveram a leitura do C sempre como /k/. Estas mudanças são modas que se espalham por largos territórios, por imitação, mas têm mais dificuldade em invadir ilhas ou outros continentes… Por razões que terão de ficar para outra altura, o desenvolvimento da escrita nas várias línguas ibéricas levou à criação de uma variação da letra C que permitisse usá-la antes de A, O ou U com o som /s/. Surgiu assim o C de cedilha, que na verdade se baseia numa forma do Z típica da escrita visigótica, uma variação do alfabeto latino que se usou na Península Ibérica. Esta forma do C veio a ser imitada por franceses e abandonada por castelhanos. Mas essa é uma história para outro dia… Este texto baseia-se num capítulo do Atlas Histórico da Escrita. Aqui fica o mais recente episódio da Pilha de Livros:
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© 2023 Marco Neves |
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Apenas 7,5% dos contratos públicos para a JMJ tiveram concurso público, mas quase metade de todo o investimento refere-se a estes contratos.
Source: Jornada Mundial dos ajustes diretos. Apenas 7,5% dos contratos foram por concurso público
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Na celebração de trinta anos do aniversário da Revolução maoista, a República Popular da China decidiu abrir as portas aos diabos estrangeiros. Era 1 de outubro de 1979 e logo, me aprestei a colocar o nome na lista dos candidatos a visitar a RPC. Nenhuma viagem se realizaria antes de janeiro de 1980 e mesmo assim só me calharia a vez lá para março desse ano. Em cada mês apenas deixavam ir uma dezena de pessoas e calhou-me a data de 28 de março a 1 de abril de 1980 para passar 5 dias e quatro noites na China. Ainda tinha a noção adolescente de que o maoismo seria um dos melhores sistemas políticos à face da terra, e após a visita enterrei-os seis pés debaixo de terra.
A expetativa era enorme, e o grupo era reduzido, ao custo unitário de 1450.00 MOP (patacas, seriam hoje 150 euros). Não eram aceites pessoas com passaportes de Israel, Coreia do Sul, África do Sul e Rodésia (ainda não era Zimbabué). A acomodação era feita na base de duas pessoas por quarto, com banho privativo, e não se podia levar divisa estrangeira a menos que declarada, devendo-se adquirir previamente Renminbi (yuan). O documento que recebemos antes de partir explicava os costumes e normas de cortesia e aqui fica pela curiosidade que ora representa quando as viagens para a China são comuns, ao contrário de então. Perdoem a tradução literal do inglês.
O programa iniciou-se em Macau dia 29, bem cedo, rumo a Chung San para visitar a aldeia de Cuiheng-Cun, onde nasceu o primeiro líder chinês Sun Yat-sen, seguido de almoço em Sheak Kei. Depois, até Shun Duc para visitar uma fábrica de algodão, com descanso na Casa de Hóspedes de Shun Duc e visita à Comuna Tchong lòng Tam (Clock Fall Pond) e à Brigada de Produção Long-Rui na Comuna de Shiqi (Sha-qi), condado de Zhongshan, com uma área cultivável de 3600 acres (1450 ha ou 14,5 km²).
Em Cantão, o alojamento era no Hotel Bayun (Pak Wan) em Huanshi Road, seguido de ida ao Hotel Tung Fóng para visitar um clube noturno tradicional e ouvir música.
No dia 30 além da visita à comuna podiam apreciar-se as vistas, visitar o hospital, uma casa particular, um jardim-de-infância e uma loja do povo para fazer compras. Da parte de tarde após o almoço na comuna uma visita ao zoológico, a uma loja do povo e jantar no hotel. Depois, noite cultural com ópera no parque citadino em Cantão.
Dia 31 pequeno-almoço às 7 e meia, indo para Foshan, visitar o velho templo, a fábrica de cerâmica, uma de recortes artísticos em papel (paper cutting) e almoço em Foshan. De tarde, visita a uma loja de cinco andares, parque, à fábrica de marfim seguida de jantar no restaurante do hotel pelas 18.30.
Dia 1 – seis da manhã, verificação de bagagem e partida para a estação de comboio rumo a Hong Kong.
O panfleto dizia que Cantão era tão conhecida como Pequim ou Xangai pela Feira Internacional criada em 1957 (bianual, na primavera e no outono). Localizada no delta do Rio das Pérolas a 120 km de Hong Kong, Cantão era recomendada para se visitar o Instituto Nacional do Movimento Campesino, fundado pelo Presidente Mao, o Memorial ao doutor Sun Yat-sen, o Parque dos Mártires da Revolta de Kwang-chow, o Mausoléu dos 72 Mártires em Huanghuakang, o Parque Cultural no Rio das Pérolas, o Parque da Montanha em Paiyun (Nuvem Branca) e o Parque Yuehsiu, o Parque Liuhua (corrente de flores), além do zoológico de Kwang-chow onde habitam os tradicionais Pandas gigantes, indústrias cerâmicas, de seda, de moldes metálicos em Foshan, a antiga residência do doutor Sun Yat-sen na aldeia de Tsui Hang em Chung San, entre a Comuna Shek-kei e Macau. Cantão tinha então dois milhões de habitantes (hoje vai nos 12 milhões) e desfrutava da sua história de mais de dois mil anos.
Não constava do programa, mas conseguimos autorização para uma curta visita à Cidade Proibida dos Estrangeiros em Shameen (ilha de Shamian) onde vimos habitações das missões estrangeiras acreditadas em Cantão no tempo da Guerras do Ópio. Nela encontramos a casa que servira de Consulado e onde vivera o Cônsul Português, avô da minha mulher, até ao fim da Segunda Grande Guerra ((houve relações ininterruptas entre Portugal e a China até 1949, depois de Tomé Pires em 1517 ter desembarcado em Cantão como primeiro embaixador ). Shamian foi um importante porto de Guangzhou (Cantão) para o comércio internacional desde a dinastia Song à dinastia Qing. Do séc. 18 a meados do séc. 19, os estrangeiros viviam numa série de casas seguidas, conhecidas como as 13 Fábricas, junto das quais ancoravam barcos com milhares de pessoas. Era um ponto estratégico vital para a defesa da cidade durante as Guerras do Ópio (1856-1860).
Em 1859, o território foi dividido em duas concessões, a francesa (1/5) e a inglesa (4/5 da ilha) e ligado ao continente por duas pontes que fechavam diariamente pelas dez da noite. A ponte inglesa era guardada pela Guarda Real de soldados Sikhs, e a francesa por soldados Anamitas do Vietname. Havia companhias mercantis da Grã-Bretanha, Estados Unidos, França, Holanda, Itália, Alemanha, Japão e Portugal ali estabelecidas, em mansões de pedra ao longo da marginal, em construções tipicamente europeias de telhados inclinados e largas varandas.
A ilha presenciou um sangrento e mortífero episódio entre cadetes da Academia Militar e estudantes, que ficou conhecido como o “incidente de 23 de junho de 1925”. Permanecem até hoje (1980) em bom estado de conservação a católica Igreja de N. Sra. de Lurdes (dos franceses em 1892) e a protestante Igreja de Cristo (construída pelos ingleses em 1865).
Nas últimas décadas todos os edifícios foram reconstruídos e recuperados, com placas a comemorar a utilização anterior, mas quando os visitei em 1980 estavam decrépitos e albergavam dezenas de famílias, cada um deles, numa ocupação selvagem ditada pela anexação em 1949, quando se converteram em edifícios públicos, apartamentos e fábricas. Por curiosidade fui agora mesmo ver na internet, Cantão e a zona de Shamian estava irreconhecível.
Dos velhos edifícios decadentes, sobrepovoados e quase em ruínas, restauraram as velhas mansões coloniais ao seu brilho de há século e meio atrás com todos os requisitos da moderna civilização. Estava rejuvenescida Shamian, podia ser Paris ou Londres com as alamedas de frondosas árvores, a traça larga das avenidas e as mansões resplandecentes. As estátuas ocidentais que pontuam as várias ruas lineares na visita de 1980 estavam em avançado estado de decomposição mas foram igualmente recuperadas. O consulado português, segundo creio, é hoje um Café Starbucks…
Voltemos agora ao roteiro de 1980 e a essa viagem mágica da primeira incursão na China de Mao. De início tudo correu bem até verem que a minha mulher macaense e a guia de Macau, que acompanhava o senhor Chen (guia oficial chinês), eram fluentes em cantonês. De facto, estavam a traduzir mais que o senhor Chen, pois este deixava de fora muita informação e desinterpretava muita coisa do que se dizia e se perguntava, mormente na Comuna.
Aqui, além de vermos os patos, galinhas, gansos, a produção de arroz, outros cereais e vegetais fizemos perguntas à dona da casa sobre o marido. Ela disse que se encontrava num campo de trabalho (de concentração?) a dias de viagem e há anos que não ia a casa. A tradução oficial do senhor Chen foi de que o competente trabalhador se dispusera a ajudar outra comuna que precisava mais dos seus serviços e da sua experiência….
Quando se quis saber como é que uma mulher que vivia só com dois ou três filhos pequenos (estavam na creche da comuna) tinha uma cozinha com tantas cadeiras, a resposta original era de que tinha de ter cadeiras para visitantes como nós, mas a tradução oficial dizia que lá se reuniam os membros da comuna para tratar de assuntos relacionados com a produção agrícola da comuna…. Ela tinha aquelas cadeiras todas por ser do Partido!
A visita ao hospital regional perto da comuna de Tchong lòng Tam foi assustadora (logo à entrada) com a enorme exposição pública de frascos e amostras de fetos com deformações várias, e sabe-se lá que mais ali estava em exposição. Uma verdadeira viagem ao mundo do Dr Jekyll e Mr Hyde acompanhada da nauseabunda explicação da diretora clínica. Se era um hospital modelo só suplicávamos que ninguém adoecesse na viagem. A precariedade das instalações, os equipamentos anteriores à Grande Guerra e um estado geral de abandono e decadência eram assustadores. Ainda se – ao menos – tivessem caiado as paredes depois da Grande Guerra…. Era de fugir…
Excecionais e memoráveis foram as visitas às fábricas de marfim, da seda, de “paper cutting (recortes de papel)” salientando-se na primeira, a detalhada explicação sobre a morosidade do trabalho mais fino e a precisa manipulação de instrumentos para as partes em filigrana de marfim. Era deveras impressionante como se conseguia colocar uma bola dentro de uma peça de marfim antes de estar completa para que não caísse depois. Semelhante às bolas que estão na boca dos dragões que adornam a entrada de muitos templos. Acabei por trazer além de uma pequena peça, elaboradíssima e complexa em marfim, um grão de arroz com o meu nome inscrito nele.
(Nota triste do autorJ:) – o destino ingrato deste grão de arroz foi o esgoto da cidade do Porto. Uma empregada doméstica, a violenta dona Violante, no começo do século XXI deixara cair a pequena caixa onde estava o grão de arroz, coberto por um minúsculo vidro, e para que ninguém notasse que a peça se tinha partido, foi buscar o aspirador e eliminou as provas do crime, sem nada dizer! Motivo para despedimento na hora com justa causa.
As fábricas de algodão e de seda eram deveras interessantes, a fábrica de metalurgia sem novidades. O local onde cortavam o papel de arroz para fazer figuras filigranadas era outro espanto de paciência chinesa e de precisão. Ainda hoje guardo religiosamente inúmeras amostras destes trabalhos artísticos tão originais.
A pior parte foi quando tentei que o guia me autorizasse a falar com o diretor da estação de rádio. Ocidentalizado como era, pedira como quem pede um copo de água, para fazer uma curta transmissão para Macau como previamente organizara (e levava documento comprovativo) com a TDM/Rádio Macau. O guia e o porta-voz oficial da estação começaram a falar em mandarim, a perderem a compostura, em voz altissonante, como se acabasse de cometer um crime insultuoso contra o Grande Líder, Mao Tse Tung (Máo Zédōng).
Sem perceber o que se passava (ninguém entendia mandarim) acabei por ser informado que era altamente ilegal tentar fazer uma transmissão da China para o estrangeiro e que jamais seria autorizada. Como resultado do pedido a visita à estação de rádio acabou cancelada logo ali, do lado de fora do gradeamento. Passei a conter-me mais, a partir desse momento, para não ser considerado um perigoso espião a passar segredos de Estado ao estrangeiro sobre o atraso de vida que era a China na época.
As estradas eram um susto, cheias de buracos, piores que as estradas municipais de Portugal, toda a gente conduzia e apitava ao mesmo tempo e ninguém pensava duas vezes se cabiam duas viaturas ou não, tentavam ambas passar em simultâneo. Os sobressaltos na estrada eram tantos que deixei de olhar em frente e passei a olhar para os lados, para os campos na esperança de ver algo interessante. Também ao observar as estradas, aí residira nova surpresa: nesses campos, em plena berma da estrada, onde quer que calhasse, vi muitos chineses e chinesas fazerem as suas necessidades em plena vista de todos, com o ar mais descontraído do mundo. Houve mesmo quem acenasse ao nosso autocarro…. Grotesco …. Ali na China, nem sequer estava disponível o buraco no chão, tão típico destas regiões asiáticas (como na Indonésia e Tailândia). Pelo que vi nos campos (e pelo que, mais tarde, li), em plena vista de todos, fazia-se tudo, amanhavam-se as terras, plantava-se e colhia-se o arroz, defecava-se, urinava-se e até nasciam crianças numa curta pausa, para não interromper o ciclo produtivo das massas operárias. Seria assim que pensavam aumentar a produtividade?
Com efeito, desde a ida ao hospital, era enorme o meu desencanto pelo atraso de tudo o que nos rodeava. Os templos eram soberbos, mas tinham sido construídos séculos antes. De facto, a grande revolução cultural mais não fizera além de matar a intelligentsia e enviar para campos de concentração os literatos, intelectuais e artistas e destruí-los. Na visão genocida de Mao todo o saber e conhecimento eram burgueses. (Deve ser por isso que hoje há tanto ignorante em Portugal, não querem que as massas sejam burguesas!) A coletivização dos campos limitou-se a tirar as terras a quem as tinha e substituir quem lá estava por trabalhadores iletrados e com poucos conhecimentos sobre a agricultura (uma espécie de má reforma agrária no Alentejo, mas em escala muito grande). Habituados a trabalhar, em funções repetitivas, sem capacidade de iniciativa nem conhecimentos técnicos, os trabalhadores que passaram a gerir os coletivos revelaram-se um desastre total. Da quase autossuficiência passou à necessidade de importar e à fome generalizada. Assim, a China virou, de celeiro do mundo a importador de comida. Grande Mao. Grande líder que assim me enganaste. Nada do que vi tinha correlação com o Livrinho Vermelho nem com os grandes placards de publicidade ao maoismo. Apenas certificava a enorme campanha de lavagem ao cérebro do povo iletrado, educando-o contra quem o regime pensava que eram os inimigos (de classe, claro) e pretendendo que era o povo quem mais ordenava. Muito orwelliano…nesta visita tudo o que era belo e despertava a curiosidade era anterior à Grande Revolução de massas e à Grande Marcha, nada havia para ver, pelo contrário. Apenas a derrota do inimigo capitalista.
Do quarto de Hotel, pelas seis e meia da manhã, não se viam carros (poucos havia ainda nesses idos de 1980, eram os do partido e poucos mais) mas sim autocarros bem antigos e fumegantes (a poluição ainda não era o perigo insalubre que seria mais tarde) e milhares, senão mesmo, milhões de bicicletas. No entanto, o barulho de buzinas fazia prever que se estava em Carachi ou Bombaim. Ao fim da tarde o espetáculo repetia-se em sentido inverso, da esquerda para a direita do meu campo visual, com o regresso das massas trabalhadoras aos locais de origem, nos dormitórios fora de Cantão.
A ópera chinesa no parque fora uma grande “seca” de mais de duas horas, com a habitual peculiaridade de homens maquilhados desempenharem os papéis femininos, na tradição da cantoria tradicional chinesa. Por outro lado, já o clube noturno fora uma agradável surpresa e uma viagem no tempo, com um grupo de instrumentistas e cantantes vestidos à moda da década de 1920, a interpretarem temas de música norte-americana do fim do século XIX ou princípio do século XX. Parecia o faroeste revisitado com olhos em bico. Todos os presentes se mostravam muito curiosos com estes diabos brancos que os escutavam, ainda se não tinham habituado a ver caras brancas (e uma delas era loura) pois poucos turistas tinham ainda entrado no país. As lojas do povo foram outra deceção pois poucos produtos estavam em exposição, lembravam as velhas prateleiras dos supermercados dos países de leste durante a Guerra Fria. Nada havia de interessante ou diferente para comprar, além do vinho de arroz e outras bebidas exóticas. Não havia dúvidas de que a China dava os seus primeiros passos na abertura a Ocidente.
Espantoso é ver o que conseguiram em trinta anos, como comprovei na curta visita de um dia à zona de Zuhai, no fim do 15º colóquio em 2011. Sem comparação, haviam convertido a China numa versão oriental das grandes metrópoles ocidentais com todo o consumismo que isso implica e a disponibilização de todos os bens. Não havia paralelismo possível entre o que observei em 1980 e o que via agora. Dava vontade de viver na China e partilhar a pujança económica de crescimento acelerado se considerarmos que se trata da pátria de 1,4 biliões de pessoas. Era a mesma pujança que vi em Macau trinta anos depois, nesta visita de 2011. Infelizmente, a missão a Macau durava apenas dez dias e teríamos todos de regressar para aquele país europeu que se afundava lentamente, com crescimento negativo esperado por muitos e bons anos, fruto da desgovernação de décadas após a revolução de 1974. Portugal era um país que se atrasava.
No entanto parecia muito desenvolvido em 1980 quando comparado com a China de então. Assim parecera também no início da década de 1960 em comparação com a vizinha Espanha. O milagre económico da China, não tenhamos dúvidas, foi feito à custa da violação de muitos direitos humanos e de abusos e crimes quanto à proteção do meio ambiente, num regime alegadamente comunista onde o Partido ainda hoje decide tudo sobre as pessoas que estão sob o seu comando. Mas fiquem bem cientes de que a maioria das pessoas vive hoje (de um ponto de vista material e de conforto) incomensuravelmente melhor do que em 1980. Disso não devem restar dúvidas a ninguém.
Esse crescimento económico, à custa da exploração desenfreada e sem pruridos, de uma mão-de-obra extremamente barata teve e tem o seu preço, mas quem for mais santo do que eu atire a primeira pedra e decida. Por comparação, em Portugal os trabalhadores estão cheios de direitos (férias, subsídios de natal, direito à greve, e sabe-se lá que mais), que dão para reformas miseráveis. Na China estas não existem.
Pela fisionomia apenas, não creio que os portugueses sejam mais felizes do que os chineses e com a agravante de que se queixam infinitamente mais. E os portugueses não conseguem gerir e fazer crescer um país mais pequeno do que a maior parte das cidades chinesas é porque (à sua moda) copiam o ataque de Mao à cultura e educação. Em ambos os casos, vi as diferenças de regimes e os resultados que em ambos se atingiram, apenas no decurso de metade da minha vida já vivida.
Provavelmente, não viverei o suficiente para ver a China passar ao estatuto de supernação, como os EUA já foram, mas dificilmente o poderia imaginar aquando da minha visita em 1980. A história é feita de cataclismos e convulsões, guerras e desastres naturais e humanos, mas a continuar como está, o mundo ocidental está definitivamente morto e enterrado e as nações emergentes como a China e a Índia poderão, em breve, dominar esse mundo. Limitaram-se a adotar a mesma fórmula, ajustada à enorme dimensão dos maiores e mais populosos países. Vi então (1980) e tornara a ver (2011) os alunos de escolas chinesas, silenciosos, ordeiros, obedientes e disciplinados. Que diferença para a selva das escolas portuguesas.
O sistema de escrita chinesa é o resultado de um longo processo de depuração dos primeiros pictogramas, há oito mil anos, que mais não eram do que uma estilização da realidade. A sua primeira aplicação metódica seria uma espécie de linguagem em código nas mensagens trocadas entre líderes militares com ordens e informações diversas sobre o terreno das batalhas ou disposição das tropas. No sistema uniformizado de hoje os sinogramas (carateres) são módulos cujas combinações determinam o sentido final. Os dicionários dão conta de mais de 48 mil carateres, mas a esmagadora maioria caiu em desuso e sobrevive em chinês arcaico. Para se ler um jornal em chinês “só” preciso reconhecer uns dois mil carateres – padrão que a China considera nível literário médio. Os programas básicos para chinês em computador incorporam entre 6 e 13 mil carateres. A escrita de um sinograma obedece à agregação lógica de ideias e é composto por duas partes: uma semântica que dá o sentido, e a sonora. O de madeira, ou árvore 木, corresponde na estilização a uma árvore, o caratere floresta é a justaposição de dois ou três carateres de árvore 林. Também os carateres que transmitem o conceito água utilizam módulos ou radicais de água (氵) como rio (河), sumo (汁) ou baía (澳). Por exemplo, a palavra Macau (Àomén em mandarim) escreve-se com os dois carateres – 澳 e 門 – que, isolados, assumem diferentes significados. Segundo o dicionário da Universidade de Estudos Internacionais de Xangai, o caráter 澳 isolado significa enseada, ancoradouro, Austrália, baía ou Oceânia, e o caráter 門 significa porta, entrada, escola, budismo enquanto seita, ou disciplina académica. Macau é em língua chinesa, uma porta – entre a China e o mundo – localizada numa baía.
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