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Festas da Praia recordam tempos dourados da Base

Praia. As festas concelhias regressam de quatro a 13 de agosto, com o mesmo modelo e uma aposta nos artistas locais.

Primeiro existiam os campos de trigo, que se estendiam pelas terras onde depois surgiu a base militar. Os ingleses chegaram em 1943 e seguiram-se os americanos. A Base das Lajes moldou o desenvolvimento da ilha e da Praia da Vitória ao longo de décadas.
É este o ponto de descolagem das Festas da Praia 2023. Com o tema “Do Trigo Dourado aos Pássaros de Ferro”, exploram a história contemporânea do concelho, como explicou a coordenadora artística, Judite Parreira.
“As Festas da Praia são a nossa montra, a possibilidade de expormos o que somos e o que temos. Entendi que este ano seria a altura de expormos um pouco da nossa história”, disse.
Judite Parreira referiu que houve um trabalho de pesquisa prévio. “Escolhi da história mais recente a parte que verdadeiramente elevou o concelho da Praia e lhe deu a dimensão até internacional que hoje tem”, adiantou.
O facto de se assinalarem os 80 anos da chegada dos militares ingleses à ilha foi outro elemento que contribuiu para a escolha do tema. “Há 80 anos chegaram os ingleses e transformaram o chão de trigo”, recordou.
As festas conservam o modelo, apesar da crise financeira que o município atravessa. “São um motor económico e social desta cidade e deste concelho. Apesar das circunstâncias, era impensável não as realizarmos, até pelo contributo real que elas geram para a nossa economia. Mantemos o modelo, reforçamos a gestão rigorosa e pormenorizada das contas, reforçamos os meios e estratégias de geração de receitas e apostamos fortemente nos artistas locais”, defendeu a presidente da Câmara Municipal da Praia da Vitória, Vânia Ferreira.
Concurso para concessão da Dream Zone com duas propostas
Segundo o município, o orçamento global é de 462 mil euros, com a autarquia a suportar perto de 257 mil. O restante valor assenta nas receitas publicitárias, a angariar pela Cooperativa Praia Cultural.
Está em fase final o concurso para a concessão da “Dream Zone”, espaço principal de concertos. De acordo com Paula Sousa, vereadora com o pelouro da Cultura, verificaram-se duas propostas.
Segundo Paula Sousa, a autarquia pretende também expandir a área das tascas na zona verde.
“Terão oportunidade de ver um programa rico, mas adequado à situação atual do município”, vincou.
Vânia Ferreira argumentou, sobre as dúvidas que rodearam a realização das festas este ano, que foi equacionada uma “possível alteração de modelo mediante a situação financeira”, mas que “nunca esteve, em momento algum, em cima da mesa que não acontecessem”.
“Desde o momento que terminaram as festas de 2022 e convidámos a coordenadora artística, assumimos que teríamos de gerar este momento. Seria muito comprometedor para o nosso concelho. Não poderíamos, em momento algum, pensar que não iriam existir festas da Praia. O que temos é de adaptar-nos”, disse.
A presidente do município prometeu “trabalhar de forma contida e organizada”, também no sentido de “assegurar o máximo de qualidade, com o máximo de contenção face aos custos”.
As Festas da Praia 2023 realizam-se de quatro a 13 de agosto. A Feira de Gastronomia abre a quatro e, no dia seguinte, realiza-se o desfile de abertura. A tourada de praça será no dia sete, organizada pela Tertúlia Tauromáquica Praiense. Para o dia 10, está marcado o desfile infantil.
A Feira de Gastronomia, com organização pela Escola Profissional da Praia da Vitória, conta com os restaurantes O Típico (Mealhada), Tasca Algarvia (Algarve), Cufra (Porto), Do Dia para a Noite, Carne Arouquesa, O Académico e a Tasca do Ramo Grande. DAMAR, da Serra da Estrela, Bísaro, de Trás-os-Montes, e Marquês, do Alentejo, são as charcutarias. Na feira estarão as pastelarias Capote, Amêndoa Doce e Queijadinhas d’Anita. Realiza-se também a Feira de Artesanato.
A nota das festas é de esperança, sublinhou Judite Parreira. “O campo de aviação foi o que realmente nos projetou no mundo. Hoje, não será tanto assim, lá está, mais uma viragem e mais uma mudança que nos preocupam. Mas, com certeza, os jovens do nosso concelho conseguirão, porque são mais arrojados e desassombrados, transformar este momento numa altura de oportunidades”, refletiu.
  • in, Diário Insular, 20 de Maio / 2023
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sexta-feira, 19 de maio de 2023

De Nuno Costa Santos E Da Sua Arte Literária


Um homem fuma um cigarro à proa de um iate, concentrado no som do ma
r.

Nuno Costa Santos,
Como Um Marinheiro Eu Partirei

A citação em forma de epígrafe aqui é a última frase de uma das mais brilhantes novelas publicada entre nós desde há muito, Como Um Marinheiro Eu Partirei: Uma Viagem Com Jackes Brel. Toda a obra literária de Nuno Costa Santos tem uma firme unidade temática, sem qualquer repetição nas suas variadas formas, desde os iniciais sketch de melancómico: ele a caminho de casa numa indistinta rua lisboeta com um saco plástico na mão numa representação de desamparo, a sobrevivência minimalista, ou de um quotidiano com pouco mais a fazer. Na sua ficção, desde Céu Nublado com Boas Abertas à sua poesia de Às Vezes É um Insecto Que faz Disparar o Alarme, ao seu teatro e crónicas de aqui e ali, entre outras representações públicas, tem sempre as artes como refúgio ou recurso, a música como referência preferencial, um escritor de meia-idade no século XXI em busca de um sentido para melhor se perceber a si próprio, e sobretudo as suas circunstâncias num mundo à deriva e filosoficamente num vácuo que lhe faz retroceder à história fluida e perplexa que o colocou nestes dias, seus e nossos. Entretanto, são poucos os escritores no nosso meio cuja obra se torna um jogo de espelhos, tal como a subentendemos em breves passos autobiográficos. Alguns dos livros de Nuno Costa Santos estão cheios de boas cumplicidades familiares, amizades espalhadas por toda a parte, uma atuação criativa que se contrapõe ao habitual ego doentio dos muitos que esperam palmas e pelo menos os seus quinze minutos de fama em qualquer contexto. Basta lembrar aqui que o anual encontro Arquipélago de Escritores, organizado por ele e pela sua companheira Sara Leal, desdobra-se por várias das nossas ilhas e é um generoso gesto de solidariedade e valorização de tantos outros autores.

Sei pouco da música de Jackes Brel, para além da canção Ne me quitte pas, e pouco mais da sua vida e carreira. Os meus anos de América foram particularmente desatentos à Europa, tirando a vida literária portuguesa e europeia em geral que tinha um lugar proeminente nas nossas faculdades. Só que a presente novela de Nuno Costa Santos é uma peça que naturalmente não requer mais saber sobre o grande artista. A sua condição existencial é precisamente o que nos transmite este livro, desta vez com os Açores (para além de Paris e Bruxelas, naturalmente) como geografia significante dos seus últimos anos quando decidiu interromper a sua carreira e fazer-se ao mar num veleiro chamado Ashoy, a caminho das ilhas Marquesas e a outras onde acabaria a viver e a fazer bem até à sua morte aos 49 anos de idade em 1978.

Como Um Marinheiro Eu Partirei é feito dessa prosa híbrida que marca agora alguma da melhor literatura da contemporaneidade, todas as formas convergindo num só ato ficcional: à biografia junta-se a autobiografia, o narrador fala de si no encontro com o seu sujeito, o quotidiano de certo desespero artístico por entre a banalidade dos dias vazios e da luta pelo reconhecimento, o autor da escrita revê-se nos versos das letras e poemas musicados e tornados património universal. Para um leitor açoriano tudo isto é relevante, para além da estória de uma voz que muitos embalou na alegria e na tristeza generalizada dos tempos, o cantor ora em agonia no amor, ora na denuncia sem rancor da ordem das coisas que nos enrolam por perto ou à distância. Nuno Costa Santos revisita os passos e as gentes com quem Jackes Brel se encontrou na Horta. Cá temos a história do famoso Peter Sport Café à boca da doca como um centro da universalidade de nós todos – quer lá tenhamos tomado o seu gin, quer somente ter lido sobre. Aliás, a história do Peter’s faz parte da narrativa. A viagem de Jackes Brel é também um inteiro regresso a si próprio, tal como o de Nuno Costa Santos ao deixar Lisboa após ter vivido lá boa parte da sua vida, e eventualmente optar pelo seu regresso aos Açores, à bruma da sua tranquilidade, ao sol da sua infância, o amor fazendo-lhe trocar o Livramento em São Miguel pela Terceira, onde continua à beira da baía de Angra do Heroísmo. Brel sente as saudades dos seus mais próximos em Bruxelas e em Paris, e Nuno Costa Santos sente as saudades dos seus três filhos que ficaram na nossa capital, chamando-os com frequência ao conforto reencontrado na ilha e no amor. Ninguém esquece ninguém – mas partir, como diria o outro, é preciso, para nunca se deixar de chegar a nós próprios. O autor faz-nos acompanhar todos os passos de Jackes Brel durante os seus anos de luta e eventual triunfo nos palcos e nos estúdios de gravação, e depois no Faial após a morte do seu grande amigo e colaborador Jojo, onde aparecem também os primeiros sinais de uma vida em estágio final. Nomeia as personagens conhecidas e menos conhecidas que mantêm com o cantor algum contacto e convivência, e de seguida Nuno Costa Santos convoca a sua própria memória de andanças e relacionamentos casuais ou literários na ilha do vulcão dos Capelinhos, parte do seu território arquipelágico de nascença e destino. Jackes Brel e a sua música desperta-lhe uma outra visão da condição como ilhéu em constante viagem geográfica e emocional.

Os dias – diz o narrador a propósito de si e dos seus filhos, que estão também predestinados às partidas e regressos, à sorte lusa nas ilhas como no continente – estão organizados com amor e método, a melhor forma de calendarizar uma temporada estival curta e que se quer intensa , vivida. Deixar o Verão à sua sorte, no seu talento maior de tornar mais lentas as horas e de estender a preguiça, mas também programar o que se quer fazer e como se quer fazer para dar ao Verão o Inverno de que precisa…

Além dos mergulhos no Calhau, houve passeios de barco a ilhéus e voltas de buggy. Mas o mais importante foi estarem aqui. Senti como que uma desdramatização da situação. Estou cá,, estão ali. Podem vir. Não é longe. Vão crescendo. Quem sabe, poderão passar temporadas aqui. Quem sabe, poderão namorar aqui.

Já conhecem o desenho do lugar onde o pai decidiu viver. É um começo. Um recomeço”. O autor quando já não é jovem, passe o trocadilho joyceano, no seu labirinto emocional, na sua perfeita consciência de que o passado nunca é passado, de que a sua arte não é mais do que um reflexo de uma vida ou vidas que não obedecem ao que pensamos destinar e seguir, apenas reagem às circunstâncias nunca programadas mas decisivas. Na palavra de um escritor ou na voz de um cantor, é só na geografia do coração que vivemos. Jackes Brel chega aos Açores fumando o cigarro da sua morte na proa de um veleiro. Só que está bem vivo entre quem encontra na terra nova a meio atlântico, recorda a garrafa e as mulheres do seu velho continente, faz-nos rir da ironia de nunca se desligar dos que na Bélgica e na França chamava de flamingants, e cuja língua dizia recusar a falar enquanto no seu país, e muito menos cantar: “O meu nome é Jackes Brel, repetiu em flamengo para uma plateia agora marítima. Vive la République/Vive les Belgiens/Merde pour les flamingants”. Reencontra no Faial – a ironia acompanha-nos a todos – alguns representantes dos seus “antepassados”, com destaque para um médico de aguda consciência social e de nome Decq Mota, tão do nosso conhecimento nas ilhas no Triângulo e no resto do arquipélago. Mais os Brum e os Goulart, o próprio nome da cidade da Horta decalcado e a lembrar os primeiros flamengos chefiados por Joss Van Herten, que lá chegaram no século da descoberta. “Amava o seu país – relembra-nos o autor – com a sua meteorologia humana e com o seu céu. Os belgas e a Bélgica – criticava-os mais dentro dos portões do que fora. Era também clássico nessa forma de lealdade”.

Como Um marinheiro Partirei: Uma Viagem Com Jackes Brel é mais uma prosa em poema, um poema em prosa, a autenticidade de um artista, e, para nós, de um agora inesquecível momento nos Açores, o resumo de uma vida imortalizada pelo seu desassossego de alma, pela sua voz, e ainda pelo seu fim a fazer bem a todos numa pequena e esquecida ilha do Pacífico. Nuno Costa Santos deixou tudo à curiosidade e ao prazer do texto a cada leitor. De resto, trata-se de uma edição que é um objeto de arte: em cor, textura de capa, tamanho perfeito para uma leitura que poderá ser de poucas horas, ilustrado com fotos desses momentos do artista na ilha. É para ser saboreado vagarosamente, a significação de cada passo a representar uma vida que pensávamos conhecer apenas pela letra-poesia, e em que, afinal, nos revemos, tal como me parece ser o caso de Nuno Costa Santos em primeiro lugar. Aliás, tem sido ele o autor, em livro ou por outros meios, de outras biografias dos que estavam num certo limbo do esquecimento, como Fernando Assis Pacheco, Ruy Belo, Rui Knopfli, e J. H. Santos Barros. Participou ainda no programa da RTP e depois em forma de livro, Mal-AmanhadosOs Novos Corsários das Ilhas, que lembraram os que não conhecíamos nos esconderijos dos Açores.

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Nuno Costa Santos, Como Um Marinheiro Eu Partirei: Uma Viagem Com Jackes Brel, Lisboa, Penguin Random House Grupo Editorial, 2023.

BorderCrossings do Açoriano Oriental, 19 de maio de 2023.

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