Uma viagem no tempo dentro do Comboio Histórico do Douro

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Num percurso acompanhado pelo rio Douro, a locomotiva a vapor e as cinco carruagens históricas percorrem a distância que vai da Régua ao Tua, numa viagem ao passado, marcada pela paisagem do Douro Vinhateiro, classificada pela UNESCO como Património Mundial.

Source: Uma viagem no tempo dentro do Comboio Histórico do Douro

JORGE DE SENA PARABÉNS

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Jorge de Sena nasceu em Lisboa, a 2 de novembro de 1919. Foi poeta, ensaísta, ficcionista, crítico, dramaturgo, tradutor e professor universitário.
‘Da Vida… não Fales Nela’
Da vida… não fales nela,
quando o ritmo pressentes.
Não fales nela que a mentes.
Se os teus olhos se demoram
em coisas que nada são,
se os pensamentos se enfloram
em torno delas e não
em torno de não saber
da vida… Não fales nela.
Quanto saibas de viver
nesse olhar se te congela.
E só a dança é que dança,
quando o ritmo pressentes.
Se, firme, o ritmo avança,
é dócil a vida, e mansa…
Não fales nela, que a mentes.
– Jorge de Sena, in ‘Pedra Filosofal’
Jorge de Sena foi um dos mais influentes intelectuais portugueses do século XX e uma das figuras decisivas nas letras contemporâneas em língua portuguesa. Ficou conhecido não apenas pela qualidade da sua vasta obra, mas também pelas suas intervenções incisivas e controversas, sempre atentas ao ambiente literário no seu país de origem, apesar de se ter tornado professor universitário no estrangeiro (Brasil e Estados Unidos) a partir de 1959. A sua obra mais famosa, “Sinais de Fogo” – um romance autobiográfico – foi adaptada ao cinema em 1995 por Luís Filipe Rocha.
Recebeu o Prémio Internacional de Poesia Etna-Taormina, pelo conjunto da sua obra poética, e foi condecorado com o grau de Comendador da Ordem do Infante D. Henrique (1977), por serviços prestados à comunidade portuguesa. Postumamente, recebeu a Grã-Cruz da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada de Portugal (1978). Em 1980, foi inaugurado o Jorge de Sena Center for Portuguese Studies, na Universidade da Califórnia, em Santa Bárbara. António Ramos Rosa, Eduardo Lourenço e Eugénio Lisboa estão entre os ensaístas que mais se dedicaram ao estudo e análise da obra de Jorge Sena.
Morreu em 1978 em Santa Bárbara, na Califórnia, E.U.A.
Veja um programa dos Arquivos RTP dedicado ao escritor Jorge de Sena, que inclui testemunhos de vários autores portugueses sobre a vida e obra do escritor:
Jorge de Sena
ARQUIVOS.RTP.PT
Jorge de Sena
Programa dedicado ao escritor Jorge de Sena, no

NORBERTO ÁVILA FRENTE À CORTINA DE ENGANOS

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A LETRAS LAVADAS E A AICL ACABAM DE LANÇAR O LIVRO

 

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FOLHETIM
NORBERTO ÁVILA
Romance
Capítulo 9
Nem três semanas sequer haviam decorrido sobre a inesquecível aventura veneziana dos jovens Galisteus e seu querido companheiro Santiago quando, certa vez, à boquinha da noite, Clara aplicava o terminante retoque num avultado, volumoso arranjo floral, a um canto da sala de estar. Era um gritante atropelo de hortênsias, cravos, gerberas e gladíolos emergentes da folhagem de verdes variados.
D. Laura e Fortunato, com Marco, Sandra e Andreia, formando cortejo de pompa e circunstância, regressavam entretanto do jardim.
“Bravo, Marco,” disse o pai. “A decoração ficou mesmo bonita. O único adjetivo que encontro… é: gostei.”
Sandra moderou um sorriso bem-humorado perante o costumeiro erro gramatical. E o irmão emitiu, acanhadamente, um “obrigado, papá”.
Na opinião de Laura, um decorador profissional não faria melhor.
“Acredito,” acrescentou o abastado comerciante.
“E esse não seria modesto no pedir…” lembrou o decorador-amador.
“Pois tudo isto são maneiras de economizar,” comentou Sandra. “Não é verdade, papá?”
Ouviu-se um toque sucinto na campainha da porta.
“Isto há-de ser o Bruno,” conjeturou a dona da casa.
Clara apressou-se a abrir. E ouviu-se a voz do jovem Santiago, fora, dando boa noite.
“Boa noite, menino Bruno,” correspondeu a criada.
Entrou o rapaz, também muito bem vestido e com dois ramos devidamente acondicionados por mãos sabedoras de florista, sendo um de rosas amarelas, outro de rosas brancas, ambos aromáticos até mais não.
“Cá estou eu. Venho demasiado cedo?”
“De modo nenhum,” contrapôs Fortunato. “É mesmo a hora de darmos início à nossa festa.”
O recém-chegado ofertou à dona da casa o ramo de rosas amarelas: “Este é para a Sr.ª D. Laura. Melhor dizendo: para o casal Galisteu, com as mais cordiais saudações.”
“Muito obrigada,” disse ela, sorridente. E trocaram discretos beijos na face.
Fortunato estendeu a mão ao rapaz, e agradeceu-lhe com um sorriso bonacheiro.
Empunhando o outro ramo, esclareceu Bruno: “E este é para a gentilíssima aniversariante. Onde está a Sr.ª D. Glória?” “Está lá em cima,” respondeu D. Laura, “mas já aí vem.” Voltou-se então para Sandra e pediu-lhe que fosse buscar a avó.
A rapariga, passando à ilharga de Bruno, trocou com ele um beijo, tchuc-tchuc, e dirigiu-se para a escada, que subiu apressada.
“Tudo isto está lindo,” observou o visitante. “A começar pelo jardim.”
“Graças ao Marco,” confidenciou Andreia.
A sala, nesse entretanto, fora-se compondo de convidados, alguns notáveis e outros nem por sombras: D. Teodósio, Bispo resignatário de…; gente da alta finança e do empresariado; pessoal de maior destaque nas funções directivas dos Supermercados Fortunato; algum fornecedor de mais calibre; representantes de certa imprensa divulgadora da fofoquice lisboeta; Claudite Marlene e Zebedeu Corujão; Mestre Libânio, D. Estefânia Pampulha e uns bem seleccionados colegas de estudos de Sandra e de Marco, e outras muitas figuras, figurões e figurinhas cujo nome talvez me ocorra no decurso da escrita deste capítulo, o 9.º (ai valha-me Deus, que o romance ainda só vai a meio! Ou deverei precisamente regozijar-me porque ele já vai a meio? Enfim, a consabida história do pessimista e do otimista perdidos no deserto, a quem faltava beber, na garrafa, um volume igual ao que já tinham bebido.)
A criadagem da casa também primava pela presença mais ou menos folgada, porquanto o serviço da recepção fora, muito acertadamente, confiado a um primoroso restaurante das redondezas. A cozinheira Belmira e o marido, o motorista Dionísio, foram os últimos a comparecer.
Em dado momento, Marco tomou Andreia pela mão e dirigiu-se com ela a Bruno Santiago: “Ainda não conheces a Andreia, pois não?”
“Não tinha esse prazer,” respondeu o outro.
“É minha colega no Instituto Superior de Publicidade,” elucidou o jovem Galisteu.
“Ah,” fez Bruno.
“Olá,” disse Andreia. E beijaram-se na face.
Por outro lado, Marco esclareceu Andreia: que o Bruno era colega da Sandra, na Faculdade de Letras.
Ao alto da escada, acompanhada da neta, em cujo braço se apoiava, fez a sua aparição a velha Glória.
Vinha embaralhada num longo, branco e vaporoso vestido de noite, quase restabelecida de uma entorse num tornozelo, em consequência de pequeno acidente doméstico.
Passando junto de um seu empregado entendido em sonorizações de ambiente, disse-lhe Fortunato: “Prepara-te, rapaz. A música!” E o factotum, diligente e instantâneo, dirigiu-se a um recanto, debaixo da escada, onde se ocultava um gravador de som, que logo manipulou, com um esforço de atenção e desejo de eficácia. Desencadeou-se então uma música festiva, própria da entrada de grande personagem em espectáculo americano, com alguma exuberância de metais.
A luz concentrou-se mais intensa na zona da escada e da área em que se encontrava, alegremente florida, uma cadeira de baloiço. Para ser mais acabado na descrição: pelas voltas e contravoltas do espaldar e dos braços de pau-santo espreguiçavam-se, como em gradeamento de jardim, enramadas de jasmineiro e roseira-brava.
Descendo Glória os últimos degraus, para ali se dirigiu Fortunato e substituiu Sandra na condução da aniversariante até à referida cadeira, já quando a música festiva se desvanecera.
Disse então o dono da casa, em tom discursivo, depois de ter ajudado a mãe a sentar-se: “Mãe gloriosa: Vários são, esta noite, os motivos do nosso contentamento. O primeiro dos quais é, naturalmente, o simples facto de se cumprirem hoje 75 anos sobre o seu prodigioso nascimento.”
“Parabéns! Parabéns!” gritaram os convivas, rompendo em aplausos.
“O segundo motivo,” prosseguiu Fortunato, “está impreterivelmente ligado ao primeiro. Porque eu, que sempre adorei esta mãe que Deus me deu (mãe há só uma, não é verdade?) achei que deveria casar, isto há 25 anos, neste mesmo dia 13 de Junho, dia do seu aniversário e dia do milagroso Santo António. Assim, é este também o momento insofismável (insofismável?) em que Laura e eu celebramos as nossas bodas de prata!”
Aproximou-se então da mulher, que abraçou e beijou cinematograficamente, isto é: com expressiva fogosidade. Os convivas aplaudiram e gritaram uma vez mais “Parabéns! Parabéns!”
Retomando a palavra, disse Fortunato Galisteu: “O terceiro motivo, sendo o último da minha enumeração, é certamente o mais representativo, o mais intermitente. (Intermitente?) Eu explico.” Fez uma pausa breve, preparante de mais substanciais informações. “Como todos sabem, as autoridades competentes tornaram público, há já algum tempo, que, mediante concurso, um novo canal de televisão seria autorizado no nosso País. . Portanto, além das três estações já existentes (TV Lusa, com dois canais, TV Planeta e TV Orbe), uma 4.ª estação virá completar o leque televisivo nacional. Sabem todos do meu interesse em participar em semelhante empreendimento. Quase todos saberão, possivelmente, que entreguei a respectiva documentação, a qual vai ser apreciada por um júri competente, ao longo destes próximos meses. Isto, segundo julgo saber, em competição com outros três concorrentes. . Mas creio, (modéstia à parte), que o nosso projecto reúne todas as condições para vencer.”
“Muito bem! Muito bem!” exclamaram os convivas.
E tornou Fortunato: “O que eu não disse ainda, mas vou dizê-lo já, é o nome por que há-de ser conhecida a nossa querida estação de televisão.” De novo uma pausa, geradora de expectativa. “Pois a nossa estação, certamente com a concordância de todos vós, chamar-se-á… TV Glória!” E indicou, com um gesto teatral, a materna figura.
Rebentaram vibrantes aplausos. Glória mostrava-se comovida. Bruno Santiago aproveitou a maré de entusiasmo para entregar à homenageada o seu ramo de rosas brancas, valorizado com um beijo na face da velhota.
“A minha extremosa mãe,” acrescentou Fortunato, “desde que apareceu em nossa casa o primeiro televisor, ainda a preto e branco (já lá vão vinte e tal anos), sempre mostrou uma devoção fervorosa por essa endrómina que, com o rodar do tempo, também a mim me fascinou. Sem que possa seguir-lhe o exemplo,” e fez um gesto designando a mãe, “em tamanha fidelidade.” Depois, para ela, com um sorriso irónico: “Quantas telenovelas vê por dia, minha mãe?”
“Seis ou sete. Depende.”
“E ainda há que juntar os concursos, os realitinha chós (ou lá como é que lhes chamam)…”
Sandra, que estava junto dele, segredou-lhe: “reality shows”.
“Ou isso. Outra coisa. Ou melhor: Na sequência do que acabo de expor, já todos se aperceberam certamente da honrosa presença de uma velha maquineta…” E apontou-a, ereta sobre um pedestal improvisado, no outro extremo da sala. “Trata-se de uma velha câmara de TV, das primeiras que houve entre nós, segundo me dizem, uma relíquia dos anos 50. Estava para ser vendida para um museu de Nova Iorque. Ou Katmandu? Não sei bem. Comprei-a eu, porque ofereci mais umas notas. Ali está ela, portanto, e a verdade é que até parece manobrada por aquele manequim de loja de confeções. A razão é simples: Nós, família Galisteu, (melhor ainda: Fortunato, que é nome de maior ressonância nacional), depois de nos tornarmos um sólido império de supermercados, preparamo-nos agora para enfrentar outro desafio ousado e incon… incongruente (incongruente?): o de virmos a ser um poderoso império no domínio televisivo. Nestes próximos meses, enquanto aguardamos a decisão do júri, forçosamente favorável às nossas pretensões, habituar-nos-emos à presença indiscreta mas simpática daquela jigajoga e do seu manipulador.” E fez um aceno cordial para aquelas bandas. “Olá, Mestre Câmara!”
Marco, mais com um movimento de lábios que com a própria emissão de voz, parecia transmitir a Fortunato uma palavra: pu-bli-ci-da-de.
O supermercadista (chamemos-lhe assim), tomando em consideração o discreto lembrete, avançou na parlenda: “Escusado será dizer que a nossa querida TV Glória vai ser, incontestavelmente, o natural suporte dos acreditados Supermercados Fortunato! Ainda que eles, com o incremento que ganharam nestes últimos anos, já possam suportar-se a si próprios. Mas enfim… a publicidade é a mola real do êxito comercial. E, dada a sua espess… espessi… especefeci…”
“Especificidade,” segredou-lhe Marco.
“…es-pe-ci-fi-ci-da-de (porra!), esses serviços, verdadeiramente vitais e ‘caris…temáticos’ numa estação de TV, serão entregues a Marco,” e designou-o, “estudioso dessas matérias.”
Regressaram os aplausos. Sandra, mais com um movimento de lábios que com a própria emissão de voz, parecia transmitir ao discursante uma palavra: te-le-no-ve-las.
“E por outro lado,” prosseguiu Fortunato, “obedecendo a uma tendência muito latina, e em todo o caso a um gosto muito português, a transmissão massiva de te-le-no-ve-las será também uma característica da TV Glória. Mas não ficaremos (ao contrário de outros concorrentes nossos) tão dependentes da produção brasileira, mexicana, argentina e venezuelana. Pelo menos 7 a 10 por cento das telenovelas que tencionamos apresentar serão de produção nacional, realizadas nos nossos estúdios. E, a propósito, quero revelar-lhes que um dos Supermercados Fortunato, o de Camarate, menos necessário neste momento, será oportunamente transformado num complexo de estúdios.” Fez uma pausa. E acrescentou: “Mas isto foi um parêntese.” E, para si próprio: “O que é que eu ia a dizer?”
Sandra voltou a prestar-lhe ajuda, com o mesmo movimento de lábios.
“Ah. Já sei. Dado que a Sandra,” e designou-a, “é a verdadeira literata da família, e esteve com um brasileiro durante uns bons meses… aprendendo essa arte certamente difícil e tão apreciada da telenovela… esse sector telenovelesco, digamos assim, ser-lhe-á confiado.”
Saudadas estas palavras com alguns aplausos, o rei dos Supermercados apressou-se a concluir: “É isto, de momento, o que tenho para dizer. A festa, a tripla festa terá o seu ponto alto com uma ceia servida debaixo da grande magnólia do jardim, para isso ornamentada de coloridas grinaldas de papel e balões acesos, em honra do milagroso Santo António de Lisboa…”
“…de Pádua,” opinou D. Teodósio.
“…de Pádua e de Lisboa,” contemporizou Fortunato. “Uma coisa não desvaloriza a outra. Porque há-de ser o berço natal menos importante que o leito mortuário? É que já admito que a festarola possa ser ‘quadrúpede’…”
“Quádrupla,” emendou Sandra.
“Ou isso,” E enumerou, tocando com a ponta do indicador direito as pontas de quatro dedos da mão esquerda:
“Os 75 anos de um nascimento; os 25 anos de um feliz matrimónio; o auspicioso projecto televisivo; a subida ao Céu do Santo universal! Pois seja ele favorável ao nosso desejo mais querido e preocupante, este que acabo de referir. Entretanto, com o acompanhamento de música popular própria da época, confortaremos o estômago com o perfumado caldo verde, a gorda sardinha assada, a famosa broa de Avintes, os ricos vinhos do Dão e do Alentejo, o precioso arroz-doce…”
Bruno interrompeu-o, delicadamente: “Falta-nos ouvir a gentil aniversariante.”
“Ah, sim!” reconheceu Fortunato. “O Bruno Santiago tem muita razão.”
“Apoiado!” exclamou D. Laura.
E Andreia concordou e reforçou a petição: “Queremos ouvir a Sr.ª D. Glória!”
O dono da casa voltou-se para a mãe, com um sorriso orgulhoso: “Então, Sr.ª D. Glória? Venham algumas palavras, simplórias que sejam.”
“Vá lá, minha querida,” encorajou a nora. “Mesmo sentada, que ninguém é de cerimónia.”
A aniversariante, finalmente, vencendo a timidez, aceitou o desafio: “Ora, que querem que eu lhes diga?” Fez uma pausa. Baixou os olhos por um momento. E então, erguendo-os de novo: “Sei muito bem que não nasci para estas grandezas. Sempre fui uma simples mulher, uma camponesa mal adaptada às etiquetas da Capital. Em todo o caso, quero agradecer a festa que me fazem, desta vez porque me atrevo a completar 75 anos. De qualquer modo, estou contente por continuar viva. Oh, sim. Porque tenho um filho e uma nora que são uns encantos de pessoas…”
Aplausos.
“…uns netos que são una amores…”
Aplausos.
“…e vivo numa casa maravilhosa, estimada por um pessoal que me trata como uma senhora fina.”
Aplausos.
Glória, surpreendida ela própria com o à-vontade das suas palavras, preparou-se para concluir: “Sinto uma grande alegria com a comemoração das bodas de prata de Laura e de Fortunato. Oxalá continuem assim felizes até às bodas de ouro. Por essa altura já eu cá não estarei, é quase certo. Mas mandarei um telegrama… e um raminho de margaridas… se o Senhor São Pedro mas deixar apanhar nos relvados celestes.”
Aplausos.
A este passo dir-se-ia que o ambiente se tornara um tanto onírico. D. Glória continuava na sua cadeira de baloiço, que era quase um trono florido, tendo nos braços o ramo de rosas brancas que Bruno lhe oferecera. Dir-se-ia também que uma luz poética, caindo do alto (verdade ou ilusão?), quase a isolava num círculo. E todas as outras figuras começaram a deslocar-se muito lentamente, com aquele movimento retardador, vagarosíssimo, que normalmente se acha próprio dos sonhos, até ficarem definidas as suas novas posições.
Fortunato Galisteu fora sentar-se num sofá da área de convívio principal.
Marco, na poltrona ao lado. Entenderam então os convidados que algo de invulgar estava iminente e logo foram tomando assento onde melhor lhes pareceu, noutros sofás, poltronas e cadeiras. D. Teodósio, por exemplo, flanqueou D. Laura com grande prazer e um sorrisinho por certo eclesial. Mas a Sandra, o Bruno e a Andreia, naturalmente, prescindiram de semelhante comodidade e mantiveram-se de pé.
Súbito, vibrante e sonoro, brotou do gravador japonês um indicativo musical.
Marco e Fortunato concertaram, nas golas dos casacos, os presumíveis, minúsculos microfones. Então, recuperando o ritmo habitual, Marco assumiu uns ares de apresentador de programa e entrevistador; Fortunato, os de entrevistado.
“Senhoras e Senhores Telespectadores,” disse o rapaz, “bem-vindos uma vez mais ao programa A Minha Vida Dava uma Telenovela, que tem o patrocínio da revista Fofocas. O nosso entrevistado de hoje é um homem que, como ele a cada passo faz questão de acentuar, saiu do nada e se fez a si próprio. E a sua presença aqui, como nosso convidado, deve-se ao facto de o Sr. Fortunato Galisteu, (e talvez muito em breve, segundo parece), ir ser nosso concorrente, criando uma nova estação de televisão. Digo bem?”
O entrevistado concertou-se na poltrona e respondeu: “Portanto. Insofismavelmente, trata-se da TV Glória. Glória é o sagrado nome de minha querida mãe. Deus lhe dê vida e saúde, ainda por muitos anos.”
Tutora simbólica desta sonhadora aventura televisiva, Glória abriu-se num sorriso enternecido e balançou-se ligeiramente, por um instante.
“Homenagem merecida, digamos,” comentou o apresentador Marco.
“Oh, e de que maneira!”
“O Sr. Fortunato, hoje detentor desse fabuloso empório comercial, a cadeia de supermercados que tem o seu nome, teve uma infância atribulada, não é assim?”
“Portanto,” respondeu o magnate.
“Quer evocar, – ou recordar –, para os nossos telespectadores, alguns passos dessa infância?”
“O meu pai (puta que o pariu) abandonou minha mãe quando eu ainda gatinhava. Era isto, diz ela, numa terra modesta da Beira Alta, mesmo nos entrefolhos da Serra da Estrela.”
“Bons ares, pelo menos. Bom leite e bom queijo.”
“Mas a minha pobre mãe, coitadinha, tanto que se viu desamparada, tratou logo de arranjar maneira de ganhar algum. Meteu-se então a lavadeira. Foi o que lhe pareceu mais apropriado no momento. De modo que, muito de manhã cedo, passava por casa dos fregueses. Com enormes trouxas de roupa à cabeça, (aquilo foi mesmo uma mártir!, uma mártir e uma heroína!), seguia depois para a ribeira, saltitando de pedra em pedra, até encontrar o sítio da água mais clara. E, como não havia detergentes (qual quê, só apareceram muito depois), era um tal ferver águas, com cinzas, ao jeito de barrela, para branquear os lençóis do Pírulas Boticário e as ceroulas do Sr. Prior.” “Isso é que eram tempos difíceis! E o Fortunatinho, entretanto…?”
“Eu ia ficando aos cuidados de uns vizinhos. Até que fui para a escola, onde aprendi umas letras gordas e uns números atrapalhados.”
“Então e a sua vinda para Lisboa…?”
“Pois foi assim. Uma vez, andava eu pelos meus 11 anos, apareceu lá pela terra, a passar uns dias, um senhor dali mesmo natural, mas que vivia há uns anos em Lisboa, onde tinha uma mercearia. Era isto pelo Natal. E o dito senhor encontrou-me várias vezes na Sociedade de Recreio, onde eu gostava de assistir ao ensaio da banda. Falou-me ele dias a fio, meio falinhas-mansas, meio parlapatão. Achou-me espertalhote. E pediu a minha mãe que me deixasse acompanhá-lo até Lisboa, para entrar de marçano na tal mercearia. Passado dia de Reis, já nós vínhamos por aí abaixo, de comboio, bum-barlabum, bum-barlabum, com muitas cestas de presuntos, queijos e não sei que mais.”
“Aí começou o seu tirocínio merceeiro.”
“O meu quê?”
“A sua aprendizagem na arte de medir o azeite e o feijão.”
“Pois. Esperto como era, aprendi num amém o que o Sr. Inocêncio me quis ensinar. De modo que, para lhe mostrar a minha gratidão, pela hospedagem e pelo ensinamento, habituei-me a medir ligeiramente a favor dele quantos artigos me passavam pelas mãos, no momento de servir o cliente descuidado. E o bom Inocêncio, por sua vez reconhecido com estas minhas habilidades, acabou por atribuir-me um ordenado muito razoável. Melhor ainda, lá mais para diante. De simples merceeiro fez-se armazenista de secos e molhados, e deu-me sociedade na nova firma.”
“Estupendo! Mas, segundo me disse há bocado, ao jantar, esse Sr. Inocêncio tinha uma filha…”
“Portanto. Era aí que eu queria chegar. Laurita, que veio a ser minha esposa. Ela deve estar a ver-me, lá em casa. Posso mandar-lhe um abraço?”
“Oh Sr. Fortunato! Faça favor…”
“Pois aí vai, Laurita.” Ergueu os braços, simulando o amplexo. “Um abraço e um beijinho.” E imitou com os lábios um beijo repenicado.
Ouviram-se aplausos. Depois, tendo ele baixado os braços, ficou um instante imóvel, o olhar abstrato, em todo o caso dirigido à velha câmara de televisão. E foi então que Laura se levantou, com aquele mesmo movimento vagarosíssimo anteriormente descrito, e acabou por sentar-se no mesmo sofá, ao lado do marido. Simultaneamente, e de idêntico modo, Sandra substituiu Marco na função entrevistadora.
Agora soava o indicativo de outro programa televisivo, em que se evidenciavam românticos violinos langorosos.
Sandra e Laura concertaram, nas golas, os presumíveis, minúsculos microfones. E a primeira, terminado que foi o indicativo musical, deu início ao seguinte entretenimento: “Senhoras e Senhores Telespectadores, bem-vindos ao programa Felizes para Sempre, patrocinado pelos preservativos Capuchinho… e dedicado aos casais de vida exemplar.
Temos hoje o prazer de ter connosco o Sr. Fortunato Galisteu, florescente proprietário dos famigerados Supermercados…” (e ele fez vénia) “e de sua encantadora consorte, Sr.ª D. Laura.” (E ela fez vénia.) “Casados, então, há 25 anos, não é verdade?!”
“É verdade,” confirmou D. Laura.
“Graças a Deus,” acrescentou Fortunato.
Sandra, congeminando os passos da entrevista, disse: “Mas, segundo nos confessou a Sr.ª D. Laura, há pouco, ao jantar, as relações entre ambos já vinham de longa data…”
“Exacto,” comprovou a entrevistada. “O meu pai (que Deus haja!) era grossista, melhor dizendo: armazenista de secos e molhados.”
Mas Sandra, parecendo-lhe que tais pormenores já haviam sido tratados no programa A Minha Vida Dava uma Telenovela, e como os espectadores eram sempre os mesmos… no que respeitava a reality shows… ateve-se à informação da própria D. Laura, sobre aquelas relações, “que já vinham de muito antes…”
“É isso. Bem vê… O meu pai (Deus lhe dê Céu!) recebeu o Fortunato lá em casa… era ele pequeno…”
“Tinha 11 anos,” informou Fortunato.
“E eu… apenas 8,” acrescentou D. Laura. “De modo que, bastante mais tarde… andava eu pelos 17 anos…”
Então o marido, depois de contar pelos dedos: “E eu… aí pelos 20…”
“Ora, enquanto eu trabalhava no escritório,” recordou a entrevistada, “(tinha a meu cargo toda a facturação), o Fortunato trabalhava no armazém. Mas certo dia, tendo eu ido ao armazém, precisamente, aconteceu-me ajudar o Fortunato na embalagem de qualquer mercadoria…”
“Especiarias várias,” recordou ele, “lembro-me bem…”
“O certo é que o novelo de sisal se me escapa das mãos, rola pelo sobrado e desenrola-se por ali abaixo, pela escada que ia dar à cave. E eu, toda lépida, corro atrás do novelo, onde está ele, onde não está, e grito cá para cima ao Fortunato: ‘Ó Fortunato, acode aqui, por favor!’ ”
“E eu, desejoso de prestar bom serviço à patroazita (que era linda como os amores), precipito-me imediatamente, em busca do bendito novelo. Que estava atrás duma parede de caixas de marmelada.”
Laura ajeitou o cabelo. “De modo que foi assim.”
“E foi muito bem,” disse ele.
“Ora, com o andar do tempo,” explicou ela, “o nosso bom entendimento tornou-se ainda melhor…”
“Como o vinho do Porto…” comentou o grosso comerciante.
Sandra interveio: “E tudo isso acabou em casamento, para 25 anos de felicidade.”
“Pelo menos,” suspirou o anafado Fortunato. “Ah, mas por essa altura (aquilo é que foi uma desgraça!) andávamos nós com as guerras do Ultramar. De modo que a Tropa (aquela gentil senhora!) deita-me o gadanho, e lá vou eu para Angola. Por acaso, e graças a Deus, fiquei como impedido dum capitão, que me facilitou a vida. A tal ponto que eu, utilizando os transportes militares, andava pelas roças a comprar café (a preços muito vantajosos, diga-se a verdade), que mandava depois a meu sogro.”
“Quase sempre em aviões militares,” revelou D. Laura. “Tivemos essa sorte.”
A entrevistadora perguntou: “E filhos, entretanto, não havia?”
Nervosamente, Laura pôs-se a escarafunchar nas unhas. E foi Fortunato quem respondeu: “Quer dizer… o primeiro rebento estava encomendado.”
“Pois estava,” confirmou a mulher. “Mas a quem te referes concretamente, Fortunato?”
“Ao Marco. Ao nosso Marco, Laurita.”
“Ao nosso Marco? Pobre criança, que não chegou a ter nome, a bem dizer.”
“Ó mulher, tu hoje pareces abstrusa.”
“O nosso Marco.” E voltou-se para Sandra, a entrevistadora. “A inocência com que ele diz aquilo!”
“Como?” perguntou Fortunato Galisteu, levantando-se. “Dar-se-á o caso…? Explica-te, por favor. Inferno dos infernos!” E agarrou a mulher pelos gorgomilhos. “Foste-me infiel?! Diz lá, puta fingida! Desrespeitaste-me alguma vez? Antes, depois da minha ausência? Durante as nobres guerras do Ultramar?!”
“Não! Larga-me, bruto!”
“Andava eu a defender o território nacional, lá pelas Áfricas, e tu, marafona de pacotilha, metida com outro?!”
“Ai!” E a voz ficou-lhe estrangulada, nas mãos fortes do marido.
(O Bispo D. Teodósio estava varado, direi mesmo atónito!)
E Sandra, a entrevistadora, aproveitou este extraordinário momento de tensão dramática para lembrar aos telespectadores que o programa Felizes para Sempre tinha o patrocínio dos seguríssimos preservativos Capuchinho.
Laura libertou-se, finalmente: “Ai, que eu morro!” Levantou-se e procurou na malinha um lenço, para enxugar o suor da testa. (Era um lencinho de cambraia, com morangos bordados. Porventura aquele que perdeu Desdémona?)
Fortunato, de punhos cerrados, espumava de raiva: “Diz-me a verdade, Laura! Diz-me a verdade… ou dou-te cabo do canastro!”
E ela, titubeante: “A verdade… Queres que eu diga a verdade… quando, afinal, só poderei dizer-te… meia verdade.”
“Meia verdade? E o resto?”
“Pois não sei.”
“Mas sente-se, Sr.ª D. Laura,” solicitou a apresentadora. “E acalme-se, por favor.” E fez a mesma recomendação ao exaltado Fortunato.
Voltaram a sentar-se os cônjuges desavindos. Mas ele insistiu: “Repito, Laura: Diz-me a verdade.”
“Meia verdade, Fortunato, é quanto te posso dizer.”
“Pois venha ela. Com meia verdade…” (E exibia os punhos cerrados) “…quem sabe se não chegarei à verdade toda?!” Depois, mais calmo: “Atraiçoaste-me?”
“Nunca te atraiçoei. Nunca! Respeitei a tua ausência, nesse tempo da guerra de Angola, e sempre, sempre, antes e depois, onde quer que estivesses, onde quer que eu estivesse.”
Fortunato enxugava, também, o suor da fronte: “Então, a que vem esse despropósito de mau gosto?, o de insinuares que o nosso Marco… não é o nosso Marco?”
“Pois dir-te-ei… tudo o que sei… sobre o caso.”
Sandra, a entrevistadora, achou que deveria chamar a atenção dos Sr.s Telespectadores para o momento da grande revelação. Que teve o seguinte desenvolvimento:
“Quando partiste para Angola, Fortunato, deixaste-me realmente grávida. De quatro meses, o que era bem visível.”
“E era eu… o promotor dessa gravidez?”
“Homem, que dúvida! Juro! Sou uma mulher honesta!”
“A que vem então essa história mirabolante… de o nosso Marco não ser o nosso Marco? Explica-te de uma vez por todas.”
E ela, depois de breve hesitação: “O nosso Marco… não chegou a ser baptizado.”
“Como assim? O nosso Marco… não chegou a ser baptizado?”
“Pois não.”
“Ó mulher duma figa, do mal o menos. Ainda estamos a tempo… Não se esgotou por estas bandas, creio eu, a água benta nas pias batismais.” Levantou-se num ímpeto: “Mas espera aí…! Então que fantochada foi aquela, hã? Fotografias do baptizado… bem me recordo eu de as ter recebido.”
“Só que… meu querido Fortunato… o nosso Marco morreu… poucos dias depois de nascer.”
“Como assim? E é essa a meia verdade que tinhas para me contar?!”
“Ainda não chega a meia verdade. Apenas um quarto, digamos assim. Mas senta-te e sossega. De outro modo, não terei coragem de continuar.”
“O nosso Marco morreu? E como foi isso de eu nunca ter sido informado? Mas então… inferno dos infernos!… e quem é o nosso Marco?”
Sandra foi até ele, pedindo-lhe que se sentasse. E, tornado cada qual ao seu assento, D. Laura, lamuriosa, prosseguiu o seu relato: “O nosso Marco era um chorão, coitadinho. Não tinha culpa disso. E uma noite, num grande berreiro, acordou-me. Mas, como estávamos mais ou menos na hora da mamada, não me zanguei. Dei-lhe a mamada e, receando que ele me acordasse novamente durante a noite, não o deitei no berço. Meti-o na minha cama, mesmo ao meu lado, muito agasalhadinho. De manhã, quando despertei, achei-o debaixo de todos aqueles cobertores…” (E choramingava, recordando a situação.)
“Sempre tiveste um dormir muito agitado… Não me digas que…”
“Estava… pobre criancinha… mortinho de todo.” Enxugou os olhos com o lenço. “Sufoquei-o, asfixiei-o sem querer, foi o que foi.”
“Oh, sorte malvada! Morto? De uma vez para sempre?”
Laura fez um gesto afirmativo com a cabeça.
“Mas então… e o nosso Marco?”
“Qual deles?”
“Ó mulher, esse que anda por aí.”
“Eu conto tudo em pormenor. Eu conto tudo o que sei.”
Fortunato Galisteu, enxugando uma lágrima com o lenço de algodão monogramado, pedinchou:
“Eu quero toda a verdade, Laurita. Toda a verdade.”
“Eu já disse que só saberia dizer… meia verdade…” Ele então exasperou-se: “Mas venha ela, carago!”
“Sendo assim, bem contra a minha vontade, terei de entrar um pouco na vida alheia.” Fez uma pausa. “A Belmira…” E explicou, voltando-se para Sandra, a entrevistadora: “Refiro-me a uma pobre rapariga que era moça de cozinha numa taberna, lá em frente da nossa primeira casa… na Rua dos Cavaleiros.”
“E que aliás, dali a uns anos,” rematou Fortunato para Sandra, “veio a tornar-se nossa cozinheira.”
D. Laura continuou: “A Belmira, dizia eu, por essa mesma altura… Não sei se tu, antes de partires para Angola, chegaste a notar-lhe o levedar da barriguinha…”
“Sim? Não tenho ideia.”
“Ora, Fortunato… Tu ias lá à taberna jogar às cartas…”
“Ó mulher, preocupado com as perspectivas da viagem, com a tristeza de deixar-te e o receio daquelas guerras… ia lá reparar nesses pormenores…”
“A Belmira, dizia eu, por essa altura em que aconteceu a grande desgraça… Refiro-me à desastrosa morte do nosso Marco… Belmira deu à luz um belo rapazinho. E então, por um lado… porque ela se afligia com a chegada daquele filho ilegítimo, que ela até nem teria grandes possibilidades de sustentar e educar convenientemente… Por outro lado, porque ela me viu assim destruída no meio de tamanho infortúnio… (Refiro-me ao meu infanticídio involuntário…) Concordou em deixar-me nos braços o vergonhoso fruto das suas entranhas… Pobre criancinha. Isto, no maior segredo, de parte a parte.”
“Resumindo e concluindo…” disse ele, levantando-se, “o nosso Marco… não é o nosso Marco.”
Ela ergueu-se também: “Pois não. Não era. Mas passou a ser.”
“Oh, Laura, que tristeza!” E abraçou-se à mulher, lastimoso. “Não há nada como um filho verdadeiro, um filho do nosso sangue!”
“Podia ser pior, Fortunato. De qualquer modo, não temos uma filha?, a nossa querida Sandra?”
E ele, depois de ter dado uns passos em volta: “Mas quanto ao nosso Marco (digamos assim): alguma vez a Belmira se descaiu, dizendo quem era o pai de tão inesperado rebento?”
“Não. Isso queria eu saber. Por simples curiosidade feminina, claro está. Mas nunca ela me deu o mínimo sinal… Tem sido um segredo bem guardado.”
Nisto, apareceu Belmira, transtornada, ao cimo das escadas. Cambaleante, levando uma mão ao peito, apoiou-se com a outra no corrimão, e veio descendo, na maior angústia.
Chegando a cozinheira aos degraus inferiores, Marco correu para ela, de braços estendidos: “Mãezinha!”
“Ó filho, deixa-me, por agora,” respondeu a aflita mulher. “Ai, que eu rebento!”
Marco refugiou-se nos braços de Sandra.
Fortunato atabalhoou uns passos na direcção de Belmira: “Mas o que foi? Que aconteceu?”
“A Clara, aquela galdéria, está fechada no quarto! Com o meu homem!”
Continua…
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O FLHANÇO DA FRANÇA ANTÁRTICA NO RIO DE JANEIRO

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França Antártica: A colônia fracassada dos franceses no Rio de Janeiro.
Na segunda metade do Século XVI a França era um poder europeu florescente, mas era uma nação dividida por guerras religiosas causadas pela Reforma, colocando católicos (“papistas”) contra huguenotes, hereges Calvinistas. Nicolas Durand de Villegagnon (1510-71), oficial da Marinha, simpatizava com os huguenotes e desejava encontrar-lhes um refúgio colonial longe da França. Ele recrutou o apoio do rei francês Henri II, que queria despejar os huguenotes em outro continente, e vários aristocratas de inclinação huguenote, para financiar o empreendimento.
Navegando com dois navios e 600 colonos provavelmente desesperados e em grande parte protestantes em novembro de 1555, Villegagnon foi para a Baía de Guanabara, no Brasil. Segundo o historiador Francis Parkman, também havia “jovens nobres, inquietos, ociosos e pobres, com artesãos imprudentes e marinheiros normandos e bretões piratas” entre as fileiras.
Portugal já havia estabelecido assentamentos no Brasil, mas os franceses vinham invadindo clandestinamente a costa há anos para colher o lucrativo Pau-brasil nativo.
Em 1555 após desembarcar e imediatamente celebrar a missa, os colonos escolheram uma ilha, chamada Serigipe pelos índios locais. Construíram um forte que chamaram de Fort Coligny, em homenagem ao famoso huguenote e banqueiro da colônia Almirante Gaspard de Coligny.
Eles planejaram um assentamento mais permanente no continente próximo.
À aldeia continental ainda pouco desenvolvida, Villegaignon deu o nome de Henriville, em homenagem a Henrique II , o rei da França, que também conhecia e aprovou a expedição, e havia fornecido a frota para a viagem. Villegaignon garantiu sua posição fazendo uma aliança com os índios Tamoio e Tupinambá da região, que lutavam contra os portugueses.
Villegagnon porém logo teve uma mudança de convicções religiosas, como muitos franceses fizeram naqueles dias, e voltou ao catolicismo, problemático em um assentamento de maioria protestante.
Outros três navios com 300 colonos virgens (incluindo pelo menos cinco mulheres e uma freira!) chegaram dois anos depois, em 1557. Entre eles estavam alguns zelosos padres calvinistas huguenotes, com os quais Villegagnon teve um feroz conflito. Ele finalmente os baniu, primeiro para o continente, depois para a França, e eles navegaram de volta para a Europa sem comida ou suprimentos.
Por ocasião da Páscoa de 1558 ocorreu um primeiro enfrentamento entre os católicos e os calvinistas, devido à oração proferida por Villegagnon que segundo Léry deixou entender que ele havia aderido ao calvinismo. A partir de então, em diversas situações não ficaram claras as tendências de Villegagnon, até que na Ceia de Pentecostes, ainda segundo Léry, Villegagnon declarou ter mudado de opinião em relação a Calvino: “declarando-o um herege transviado da fé,” e a partir daí as relações com os protestantes se deterioraram completamente, devido à inconstância religiosa de Villegagnon e a desumanidade com que tratava sua gente, até que os calvinistas resolveram deixar a Guanabara. Para os calvinistas a atitude de Villegagnon era decorrência do fato de ter recebido cartas do Cardeal de Lorena censurando-o por ter mudado de religião. O sonho de Calvino no Brasil acaba com a expulsão dos calvinistas do Forte Coligny em 1558, que retornaram à França , embarcados num velho navio normando.
Villegagon, o novo católico, estava farto e voltou para a França logo depois, mas não antes de açoitar e exilar vários outros colonos.
Os Portugueses alertados da presença de Franceses Protestantes no Rio de Janeiro montaram uma frota de 26 navios de guerra para recuperar a Baía de Guanabara e expulsar os huguenotes. Depois de três dias, os portugueses, liderados pelo novo governador do Brasil, Mem de Sá, destruíram o forte, mas não conseguiram exterminar os colonos, que, com a ajuda de seus aliados tupis, fugiram para o continente. O sobrinho de Mem, Estácio de Sá, fundou o Rio de Janeiro no Morro do Cão em 1565, mas os colonos franceses continuaram por ali até 1567, quando Estácio e os portugueses finalmente os expulsaram. E assim o sonho da França Antarctica chegou ao fim.
Entre o primeiro bando de colonos estava o franciscano André Thévet (1516-90), atuando como o padre da frota de Villegagnon. Ele escreveu suas observações sobre a história natural e os povos do Brasil em seu livro As Singularidades da França Antártica (1558). Ele foi o primeiro na França a escrever observações de plantas nativas como abacaxi e tabaco. Outro colono, o ministro huguenote Jean de Léry (1536-1613), escreveu suas experiências em “História de uma viagem à terra do Brasil, também chamada América” (1578). Fonte: Francis Parkman, Pioneiros da França no Novo Mundo , University of Nebraska Press, 1996.
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Cinco leões fogem de Zoo na Austrália antes da abertura ao público – Mundo – Correio da Manhã

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Um dos animais teve que ser tranquilizado para voltar ao recinto.

Source: Cinco leões fogem de Zoo na Austrália antes da abertura ao público – Mundo – Correio da Manhã

Property prices: Cheapest places to buy a home in Australia revealed | news.com.au — Australia’s leading news site

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For many young Australians, the thought of being able to break into the property market may seem nearly impossible – but there are still some areas where you can snag a bargain.

Source: Property prices: Cheapest places to buy a home in Australia revealed | news.com.au — Australia’s leading news site

Castro Outeiro Lesenho ( em Boticas)

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Castro Outeiro Lesenho ( em Boticas)
com o imponente Guerreiro Galaico
Classificado em 1990 como “Imóvel de Interesse Público”, o “Castro de Lesenho” (ou “Outeiro Lesenho”, como também é conhecido), ergue-se no topo de um outeiro sobranceiro à rib.ª do Corgo, subsidiária do rio Lamais, com um excelente domínio sobre a paisagem circundante e de onde se conseguem avistar todos os povoados fortificados da região.
Construído durante a II Idade do Ferro, o povoado foi dotado de um complexo sistema defensivo composto de três cintas de muralha (com uma espessura máxima de três metros) construídas com silhares assentes em seco e perfeitas de dois paramentos paralelos preenchidos com material pétreo, e que, nalguns pontos, maximizaram as características do afloramento existente, ao qual foi adossado. Não obstante, a abertura de um caminho conducente ao posto de vigia de incêndios edificado na plataforma superior implicou a demolição parcial das três linhas de muralha e de outras construções aí existentes, pese embora o facto de, em 1960, José Rodrigues dos Santos Júnior ter promovido a reconstrução de alguns dos seus troços.
A linha interna de muralhado delimita uma vasta área de planta sub-circular onde foram identificadas várias estruturas habitacionais de planta predominantemente circular. As pesquisas arqueológicas conduzidas no local permitiram recolher diversos fragmentos de cerâmica comum atribuída à Idade do Ferro, bem como vestígios de materiais de construção do período romano, como tegulae e imbrex. Mas apesar da relevância inequívoca destes elementos, não podemos deixar de destacar as quatro estátuas graníticas de guerreiros (denominadas “Galaicas”), com cerca de dois metros de altura, actualmente depositadas no Museu de Viana do Castelo e no Museu Nacional de Arqueologia.
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LUÍS FILIPE SARMENTO ESCREVE SOBRE A ATUALIDADE

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Com as eleições brasileiras, a guerra na Ucrânia, a policromada hipocrisia criminosa dos pequenos e grandes impérios, as elites estão esgotadas em si. Esqueceram o planeta onde vivem. São cegas, surdas e mudas às catástrofes e guerras que assolam o mundo. Como se a vida começasse com eles e com eles acabasse. Viram as costas à linguagem do caos. A excepção impõe-se como primeira defesa contra o colapso anunciado. E a decadência ética é abalada por um vírus desconhecido. Os seus pilares desmoronam-se. Pensar, hoje, o mundo deverá sustentar-se no que já foi vivido para acautelar com dignidade democrática tudo o que está por viver. Devemos isso aos que estão a nascer. Há que saber escolher as palavras; elas não servem para amarrotar as ideias nem para humilhar corpos despedaçados pela miséria e sobretudo pela tristeza da miséria do conhecimento. Os deuses já há muito abandonaram os templos a si dedicados; o que resta deles são escombros de crenças fatídicas e fiéis perdidos nas trevas da ignorância. A ideia de céu regenerador abateu-se como uma hecatombe, esmagando uma humanidade sem ferramentas para reestruturar o plano social no seio de uma nova linguagem do caos. Os olhos já não vêem para além da neve e da lama que os cega perante a desoladora paisagem do nada cujo futuro se prostra perante a inevitabilidade do nunca. Contudo, portas e portais abrem-se misteriosamente entre brumas, nevoeiros e fumos de catástrofes carbonizadas. Os mundos alterados do cosmos, as suas interrogações, as galáxias que brilham numa viagem que em muitos casos a origem morreu. Há ignições imprevisíveis para a extravagância da surpresa. E é nesta extravagância que se oculta a salvação do novo pensamento. A manipulação dos vivos e a fórmula dos ignorantes que usurpam o poder entraram num ciclo de esgotamento. O que virá poderá ser pior ou melhor. Esse, o grande mistério para futuras existências. A revolta das novas ideias com a consistência alegórica do absolutamente novo para uma rotação dos sentidos, para uma estesia que configure o inesperado numa circulação de diferenças. E chegado a esse momento a cultura da observação e aceitação cumprir-se-á, economizando fortunas para uma implosão estratégica de todos os défices projectados ao serviço da cleptocracia. Commedia.
Luís Filipe Sarmento, «Commedia», 2022
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  • Fatima Rocha

    EXELENTE TEXTO !!! Quando acordarem ja será tarde ..Culpados todos nós ..Que deixamos tudo isto acontecer sem nada fazer

PALAVRAS EM DESUSO

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estou mesmo cotapois nos meus escvritos ainda uso esta riqueza de palavras que dizem que estão em desuso…chrys c

Viriato Porto

50 palavras antigas que desapareceram da língua portuguesa

1. Vitrola

2. Tabefe ainda uso chrys

3. Sacripanta ainda uso chrys

4. Basbaque ainda uso chrys

5. Petiz

ainda uso chrys

6. Quiproquó

ainda uso chrys

7. Balela

ainda uso chrys

8. Supimpa

9. Alpendre

ainda uso chrys

10. Janota

ainda uso chrys

11. Gorar

12. Cacareco

13. Botica

14. Brunir

ainda uso chrys

15. Garçon

16. Jorna

ainda uso chrys

17. Ladroa

18. Lambisgoia

ainda uso chrys

19. Patego

ainda uso chrys

20. Safanão

21. Sirigaita

22. Soer

ainda uso chrys

23. Vosmecê

24. Munheca

25. Quiçá

ainda uso chrys

26. Aposentos

ainda uso chrys

27. Ceroulas

ainda uso chrys

28. Leda

29. Convescote

30. Acartado

31. Cosmonauta

ainda uso chrys

32. Deveras

ainda uso chrys

33. Pachorra

34. Obséquio

ainda uso chrys

35. Lanfranhudo

36. Ósculo

ainda uso chrys

37. Escaganifobético

38. Catre

39. Zoar

40. Fuzarca

41. Carraspana

42. Alvíssaras

ainda uso chrys

43. Basbaque

44. Sostra

45. Asseverar

46. Admoestar

ainda uso chrys

47. Boticário

48. Dondoca

49. Estorcegar

50. Asseado

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PORTUGUESES NO JAPÃO

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«Luís Fróis, o português que ajudou a compreender o Japão
Nascido em Lisboa em 1532, Luís Fróis entraria no ano de 1548 na Companhia de Jesus. Em 1565, integrou uma missão jesuíta de evangelização do território japonês, vinte anos depois do estabelecimento das relações entre Portugal e o Japão.
Chegaria em 1566 à cidade de Quioto, onde seria recebido por Ashikaga Yoshiteru, então xogum, general comandante do exército japonês. Fróis acabaria por se instalar definitivamente na residência de Oda Nobunaga, daimyo que ficaria conhecido como o grande guerreiro que iniciaria a reunificação do Império do Sol Nascente, na cidade de Gifu.
Luís Fróis desenvolveu um aprofundado trabalho de compreensão e descrição das tradições e cultura nipónicas do século XVI, escrevendo cartas onde as descrevia para Macau, a Santa Sé e a Coroa.
Tendo sido orientado pelo também missionário português Gaspar Vilela, Fróis relatou nas suas cartas a guerra civil que se desenrolava em torno da capital do Império Japonês, tendo estas sido traduzidas para variadas línguas e conquistado grande fama na Europa.
Luís Fróis terminaria em 1585 o seu “Tratado das Diferenças entre a Europa e o Japão”, obra onde explicava pormenorizadamente, com recurso a mais de 600 exemplos, que as duas civilizações eram opostas nas suas práticas, mas assemelhavam-se no facto de serem igualmente civilizadas.
Fróis foi capaz de estabelecer o difícil equilíbrio entre duas civilizações que, à partida, pareciam integralmente antagónicas, estudando de forma aprofundada a cultura japonesa sem nunca pôr de parte as suas raízes portuguesas. Prova da grande compreensão que detinha das tradições nipónicas é a ocasião em que escreveu sobre as diferenças entre o suicídio na Europa, pecado pela fé católica e a prática do Seppuku, ritual de suicídio japonês que podia ser a maior honra da vida de um guerreiro.
Luís Fróis faleceria no ano de 1597 em Nagasaki, aos 65 anos de idade, mas os textos que o português escreveu descrevendo a sua vasta experiência de 34 anos no Japão são ainda hoje fonte incontornável para a compreensão da História e cultura do Império do Sol Nascente.»
Por Miguel Louro, in Nova Portugalidade
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