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LER AÇORES programa 20 – Onésimo Teotónio DE ALMEIDA
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LER AÇORES programa 20 – Onésimo Teotónio DE ALMEIDA
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Escrito há um século!
Um texto de Fernando Pessoa sobre o Provincianismo Português.
O PROVINCIANISMO PORTUGUÊS
Fernando Pessoa
In “Notícias Ilustrado”, nº 9, série II, Lisboa, 12 de Agosto de 1928
In “Textos de Crítica e Intervenção”, de Fernando Pessoa, Ática, Lisboa, 1993
In “O Provincianismo Português”, Editorial Nova Ática, Lisboa, Janeiro 2006
Se, por um daqueles artifícios cómodos, pelos quais simplificamos a realidade com o fito de a compreender, quisermos resumir num síndroma o mal superior português, diremos que esse mal consiste no provincianismo. O facto é triste, mas não é peculiar. De igual doença enfermam muitos outros países, que se consideram civilizantes com orgulho e erro.
O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela – em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
O síndroma provinciano compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incapacidade de ironia.
Se há característico que imediatamente distinga o provinciano, é a admiração pelos grandes meios. Um parisience não admira Paris; gosta de Paris. Como há-de admirar aquilo que é parte dele? Ninguém se admira a si mesmo, salvo um paranóico com o delírio das grandezas. Recordo-me de que uma vez, nos tempos do “Orpheu”, disse a Mário de Sá-Carneiro: “V. é europeu e civilizado, salvo em uma coisa, e nessa é vítima da educação portuguesa. V. admira Paris, admira as grandes cidades. Se V. tivesse sido educado no estrangeiro, e sob o influxo de uma grande cultura europeia, como eu, não daria pelas grandes cidades. Estavam todas dentro de si”.
O amor ao progresso e ao moderno é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incidentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique, com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando – toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos. Dante adorava Vergílio como um exemplar e uma estrela, nunca sonharia em comparar-se com ele; nada há, todavia, mais certo que o ser a “Divina Comédia” superior à “Eneida”. O provinciano, porém, pasma do que não fez, precisamente porque o não fez; e orgulha-se de sentir esse pasmo. Se assim não sentisse, não seria provinciano.
É na incapacidade de ironia que reside o traço mais fundo do provincianismo mental. Por ironia entende-se, não o dizer piadas, como se crê nos cafés e nas redacções, mas o dizer uma coisa para dizer o contrário. A essência da ironia consiste em não poder descobrir o segundo sentido do texto por nenhuma palavra dele, deduzindo-se porém esse segundo sentido do facto de ser impossível dever o texto dizer aquilo que diz. Assim, o maior de todos os ironistas, Swift, redigiu, durante uma das fomes da Irlanda, e como sátira brutal à Inglaterra, um breve escrito propondo uma solução para essa fome. Propõe que os irlandeses comam os próprios filhos. Examina com grande seriedade o problema, e expõe com clareza e ciência a utilidade das crianças de menos de sete anos como bom alimento. Nenhuma palavra nessas páginas assombrosas quebra a absoluta gravidade da exposição; ninguém poderia concluir, do texto, que a proposta não fosse feita com absoluta seriedade, se não fosse a circunstância, exterior ao texto, de que uma proposta dessas não poderia ser feita a sério.
A ironia é isto. Para a sua realização exige-se um domínio absoluto da expressão, produto de uma cultura intensa; e aquilo a que os ingleses chamam detachment – o poder de afastar-se de si mesmo, de dividir-se em dois, produto daquele “desenvolvimento da largueza da consciência” em que, segundo o historiador alemão Lamprecht, reside a essência da civilização. Para a sua realização exige-se, em outras palavras, o não se ser provinciano.
O exemplo mais flagrante do provincianismo português é Eça de Queirós. É o exemplo mais flagrante porque foi o escritor português que mais se preocupou (como todos os provincianos) em ser civilizado. As suas tentativas de ironia aterram não só pelo grau de falência, senão pela inconsciência dela. Neste capítulo, “A Relíquia”, Paio Pires a falar francês, é um documento doloroso. As próprias páginas sobre Pacheco, quase civilizadas, são estragadas por vários lapsos verbais, quebradores da imperturbalidade que a ironia exige, e arruinadas por inteiro na introdução do desgraçado episódio da viúva de Pacheco. Compare-se Eça de Queirós, não direi já com Swift, mas, por exemplo, com Anatole France. Ver-se-á a diferença entre um jornalista, embora brilhante, de província, e um verdadeiro, se bem que limitado, artista.
Para o provincianismo só há uma terapêutica: é o saber que ele existe. O provincianismo vive da inconsciência; de nos supormos civilizados quando o não somos, de nos supormos civilizados precisamente pelas qualidades por que o não somos. O princípio da cura está na consciência da doença, o da verdade no conhecimento do erro. Quando um doido sabe que está doido, já não está doido. Estamos perto de acordar, disse Novalis, quando sonhamos que sonhamos.
Fim
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http://youtu.be/olv0WLIcBnU
http://www.lusofonias.net/doc_download/1599-maria-nobody-piano-e-baritono-versao2.html
8 abril 2013 segunda execução em público da composição de ana paula andrade e poema de chrys chrystello, interpretado por recital no conservatório de ponta delgada “compositores portugueses” com miguel rodrigues barítono e raquel machado ao piano
A PRIMEIRA INTERPRETAÇÃO PÚBLICA DESTE POEMA MUSICADO POR ANA PAULA ANDRADE DO CONSERVATÓRIO REGIONAL D EPONTA DELGADA OCORREU A 17 MARÇO NA MAIA NO DECURSO DO 19º COLÓQUIO DA LUSOFONIA COM ANA PAULA, HENRIQUE CONSTÂNCIA E HELENA FERREIRA E ESTÁ DISPONÍVEL EM
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Em 1973, a caminho de Dili, Timor Português, rumei por Banguecoque de ar irrespirável com mais de 40 ºC e 95% de humidade Na pista ruminavam búfalos de água que era preciso afugentar à chegada de cada avião. Nesse tempo, a capital do antigo reino do Sião era uma pacata urbe que não sofria da massificação turística nem de grandes confrontos armados. Sobre ela escrevera
NO REINO DO SIÃO
é já dia
os arrozais me espreitam
verde o país
castanho é banguecoque
em plena pista búfalos pachorrentos
a banhos de lama
camponeses debruçados
nos pântanos colhem o arroz
pequenas árvores dividem o asfalto
chove lá fora
sob 42º C de sol
lufadas de calor húmido nos penetram
densa respiração no ar por condicionar
lentas formalidades num inglês arrevesado
a vida possui aqui uma lenta ritmia
todo o tempo nos espera
nas autoestradas camionetas com jovens
patrulhas militares
todos os veículos se cruzam dos lados todos
coloridos templos incrustados de pedrarias
ouro maciço de budas
descalços com cintos sagrados
nos embasbacámos
este o país do mistério
igrejas e fortes portugueses
memórias de tratados reais siameses e lusitanos
o mercado flutuante é uma cidade imensa
longos canais pútridos nesta veneza oriental
sente-se o aroma do dólar nas ruas
por entre golpes de estado adiados
a cem quilómetros se combate
é o apelo do futuro
os thais são simpáticos e ardilosos
milhares de anos de sabedoria a explorarem europeus
os preços função da nacionalidade
no faustoso erawan hotel
o luxo grandiloquente oriental
a sofisticada comodidade do ocidente
uma volta rápida pela cidade dos mil-e-um-templos
para lá das faces mudas
se encerra
o mistério
o convite
voltarei
um dia.
Ao lado ficava a Birmânia (Myanmar) por onde os Portugueses andaram, embora poucos o saibam hoje e mais a sul era a cidade mais desejada, Malaca.
Fernão Mendes Pinto voltou para Malaca, onde estava o seu capitão, e ao seu serviço começou uma nova aventura. Tantos caminhos fez, tantas guerras viu e tantos países visitou, que é impossível contá-los. Fora enviado a Martavão no golfo de Bengala onde foi aprisionado e feito escravo com os companheiros por um general do rei da Birmânia. Subindo o Ganges e o Bramaputra acompanharam o general até à capital do Calaminhão (Tibete?), observando as suas extraordinárias práticas religiosas. Sucedem-se batalhas, cercos, marchas de exércitos em que os soldados se contam às centenas de milhar. Há revoltas, traições, suplícios no país devastado pela Guerra. Um dia, na confusão da batalha, os Portugueses escapam-se. Descendo numa jangada os rios que correm para o golfo de Bengala…para Goa. (Excertos do prefácio de António José Saraiva à “Peregrinação” de Fernão Mendes Pinto, ed. Sá da Costa, 1961)
Fernão Mendes Pinto regressou a Portugal, pobre como um Job e apelidado de mentiroso. Voltara do Japão e de Goa em 1557. Fixara-se numa quinta no Pragal, perto de Almada e requerera uma tença como prémio dos seus serviços no Oriente. Esta foi-lhe concedida vinte e seis anos mais tarde, em carta de janeiroJaneiro de 1583, mas em 8 de julhoJulho seguinte falecia. Quando estava apoquentado pela nostalgia do Oriente, no fim da vida, sentava-se na margem do Tejo. Esperava as caravelas com a Cruz de Cristo, de velas desfraldadas ao vento, para que as tripulações lhe transmitissem coisas do Oriente. Foi acusado de “intrujão” pela retrógrada mentalidade portuguesa da época e acossado pela censura demolidora da Santa Inquisição, mas reportou a realidade do Oriente como nenhum português até hoje na sua Obra em dois volumes “A Peregrinação”.
Os portugueses chegados ao Sudeste Asiático, não fugiram à regra da época. São humildes, ordeiros, fiéis aos Reis que servem, como soldados mercenários, fossem estes do Sião ou do Pegú (Birmânia). Lutaram homens lusos, irmãos de sangue, em campos adversos, embrenhados na poeira provocada pelas patas, as bestas de guerra, dos elefantes…Os gemidos desses portugueses, feridos na peleja, encontraram o apoio moral e espiritual do irmão, inimigo, no campo de batalha em Lampang. Passados 450 anos, da coragem dos soldados portugueses o feito, ainda se encontra na memória dos locais. A seiscentos quilómetros de Banguecoque, os canhões portugueses, estão expostos em um jardim público na cidade de Lampang, num fortim, no templo Budista, “Prakaew Dao Tao”. No museu do templo, estão duas armas ligeiras da grande peleja… O templo foi murado e no cimo foram montadas as tradicionais ameias portuguesas que foram trazidas para a Banguecoque moderna; imortalizadas no Grand Palace, na Montanha Dourada, e em outros sítios. Portugal transforma o mundo depois de 1500 como elo de ligação entre o Ocidente e o Oriente. As armas, as especiarias, a cruz e o amor são fatores importantes para a fixação do homem luso no Oriente. Assimilou-se a outras etnias com facilidade. Não abandonou os filhos que as mulheres lhe deram, casara sob os preceitos da Igreja Católica. Formara comunidades lusodescendentes, que ainda estão vivas, em Malaca e Singapura. Adaptara-se ao meio que o acolheu, amado pela magia da submissa mulher oriental. (Excertos Monumentos de Portugal na Tailândia, José Gomes Martins http://portugalnatailandia.blogspot.com/2010/06/soldadosarmasa-cruz-e-o-amor.html)
Da colonização britânica e da holandesa nasceram Estados mas da portuguesa nasceram comunidades de afeto. Praticamos o monopólio, destruindo a concorrência mas contando com fidelidades regionais que extravasavam o interesse diplomático, comercial e político da coroa. A língua portuguesa era língua franca, “portugueses” eram todos os que professassem a fé católica, amigos e aliados todos os que aceitassem um quinhão nessa comunidade. As “lusotopias” não eram da Coroa mas das comunidades que se formavam, cresciam e prosperavam, na unidade religiosa das igrejas e na entreajuda das misericórdias. Resistiram aos ventos e tempestades da história. Teimosamente, mantiveram a língua, os costumes, a memória da linhagem. Na Birmânia, no Sião, na Malásia, na Indonésia há populações que orgulhosamente afivelam o nome de Portugal. Os outros passaram. Ficámos lá, sem apoios e sem estímulo do Portugal distante, abúlico e “europeu”, que regrediu para a visão tardo-medieval dos contactos internacionais: a Bruxelas, a costa da Guiné e pouco mais. A “Ásia Portuguesa” está para além das Portas do Cerco, do bazar de Díli e dos limites de Goa. Pede-se que os decisores de Lisboa abram os olhos e tirem partido da imensa vantagem que foi, é e será se o quisermos, a grandeza em terras da Ásia. © Miguel Castelo Branco http://www.alamedadigital.com.pt/n1/portugueses_oriente.php
Em 1511, Malaca era um centro económico transbordante de riqueza.
O Sultão foi mandado para o exílio depois de Albuquerque a conquistar facilmente pois sonha já com a fundação do vasto império português na Ásia e conquista Ormuz, no estreito que liga o Indico ao Golfo Pérsico (1507) e Goa (1510). O Mar Vermelho está na posse da navegação portuguesa com o controlo marítimo em direção ao Mediterrâneo. As embarcações do Império Otomano transportando mercadoria de Malaca pelo Golfo Pérsico e Mar Vermelho, já não assustam Albuquerque. Pretende ir mais além: o senhorio absoluto do comércio da Costa do Coramandel na Baía de Bengala, Reino do Pegú, Malaca, Samatra e Sião. No pensamento do grande português, estavam outras terras no sul dos mares da China estendendo-se até ao Japão.
Albuquerque não é só um guerreiro indomável, é um diplomata, negociador inteligente que prefere tratar dos assuntos pacificamente que servir-se das armas. Não pretende conquistar países, deseja apoderar-se dos grandes pontos estratégicos de comércio onde todos vivam na melhor das harmonias. Falta, para concretizar o seu objetivo a administração do empório de Malaca.
À península malaia chegam têxteis da Índia, sedas e cerâmicas da China, cravo das Molucas, noz-moscada de Banda, papel de arroz de Samatra, cânfora do Brunei, madeira de Sândalo de Timor, pau-santo, benjoim, chifres de Rinoceronte, marfim, pérolas, carpetes, adagas, batiques de Java. Os mercadores árabes do Cairo, Meca, Adén, Ormuz e da África Oriental, chegavam carregados de armas, tapeçarias, talheres de cobre, ópio, água de rosas e incenso. Juncos chineses aportavam com seda em bruto para manufaturar vestidos brocados, drogas aromáticas, coralina e marfim. Do reino do Sião aportam, todos os anos, 30 barcos com carregamentos de laca, madeira de teca, pedras preciosas, roupas, pimenta e metais que permutam por escravos ou por mercadorias. Da Birmânia vinha arroz, produtos agrícolas, rubis, estanho e prata. De Palembanque (Samatra) escravos, ervas medicinais e produtos alimentares conservados. A presença portuguesa foi particularmente forte na região (séc. XVI e XVII). Muitas palavras birmanesas são de origem portuguesa: Lelain (Leilão); Tauliya (Toalha); Natatu (Natal); Balon (Bola, Balão); Waranta (Varanda). In Carlos Fontes http://lusotopia.no.sapo.pt/indexOP.html
Um interessante guia para a Birmânia é o Further India de Hugh Clifford (ed. White Lotus Co. Bangkok 1990).
Publicado pela primeira vez em 1904, o autor, acérrimo defensor do sistema colonial britânico, descreve de um modo isento para a época, a epopeia do desbravamento destes territórios pelos ocidentais, desde os árabes aos primeiros portugueses como Albuquerque e outros (the Filibusters). Fala dos exploradores, desconhecidos para os portugueses, António de Faria, António de Miranda, Duarte Fernandes, Ruy de Araújo, Francisco Serrano, António de Abreu, Pedro Afonso de Loroso, o conhecido Fernão Mendes Pinto, dos franceses Mouhot e Garnier a quem se atribui erradamente a descoberta dos templos de Angkor Vat, dos holandeses e dos ingleses.
O termo flibusteiros aplicado aos portugueses deve-se a serem, de todos os que exploraram o sueste asiático, os únicos que construíram fortes, impuseram a religião e comercializaram pela força.
Até à sua chegada, eram os árabes os únicos cuja influência se alastrava até ao oriente e nunca se imiscuíam na política local. O posterior sucesso dos holandeses e ingleses deveu-se ao facto de só quererem o comércio, nunca as terras nem as almas das gentes. A colonização veio depois. Essa perspetiva é nova, para os que nasceram e cresceram no mundo paroquial da epopeia quinhentista da História de Portugal de Adolfo Simões Mueller. Muitos sentem-se afrontados ao lerem opiniões sobre Vasco da Gama diferentes das que o ensino da Ditadura inculcou nos jovens portugueses.
Como acontece com a Birmânia, também a religião predominante no Sião (Tailândia) e o alfabeto servem de prova da forte influência cultural indiana durante o primeiro milénio, embora os primeiros relatos históricos só comecem no séc. X. A religião é a mesma, os alfabetos são distintos, mas de inspiração comum.
No ano de 849 foi criado um reino Thai cuja capital era Pagan (hoje Bagan). O seu santuário fica na China (Iunão), de onde se deslocam para Sul (séc. X e XII) desalojando o reino khmer para sudeste e atual Camboja. Um príncipe funda a capital em Ayuthia (1350) e ganha a supremacia no Sião. Foi um reino com elevado grau de sofisticação, como os portugueses descobriram quando se tornaram vizinhos ao conquistarem Malaca quando o Sião esteve envolvido em luta épica com os birmaneses.
Do contacto ficou a norma, que perdurou por mais de 300 anos, da corte siamesa empregar o português como idioma diplomático, para desconcerto do embaixador norte-americano que ali apresentou credenciais no séc. XIX. Sob o tema da presença portuguesa na Ásia. Jorge Morbey (ex-Presidente do Instituto Cultural de Macau) escreveu (Jan.º 2006) ao então Presidente Jorge Sampaio, longa missiva da qual se extraem excertos:
Como referiu o descendente de portugueses, Arcebispo Emérito de Mandalay (Birmânia) U Than Aung, onde a maioria do clero católico é de origem portuguesa com origem em Pegú (1600), quem nunca recebeu a mais ténue manifestação de solidariedade nada tem a esperar. Que poderão as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente esperar de Portugal? A sua incapacidade nesta matéria tem sido uma evidência secular, filha da ignorância e do preconceito. A pequena Cristandade Crioula Lusófona de Korlai [Chaúl], na Índia, somente em 1982 seria revelada ao Mundo pelo etnólogo romeno Laurentiu Theban. A Cristandade Crioula Lusófona da Birmânia já não usa a língua crioula e perdeu os nomes e apelidos cristãos, apesar de permanecer fiel à religião católica. As Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente mantidas na ignorância dos conflitos entre Portugal e a Santa Sé lutaram anos sem fim contra as novas autoridades eclesiásticas por as considerarem estrangeiras. Clamaram sempre pelo envio de clero, de Portugal, Goa ou Macau. Em vão. A transferência de domínios entre países europeus, de Portugal católico para a Holanda protestante, constituiu o pano de fundo em que emergiram as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente. Com a substituição da dominação portuguesa, permanecendo nas terras que as viram nascer, deportadas para outras paragens, ou forçadas à emigração, essas comunidades mestiças talharam a sua identidade própria que perdurou até aos nossos dias, assente em dois pilares principais: a religião católica e a língua crioula. A religião fora trazida de Portugal ou de Goa. Convertidos ou nascidos nela, com ela haveriam de morrer, geração após geração. A sua língua, o crioulo, era a língua portuguesa que lhe garantira o estatuto de língua franca no litoral da Ásia e da Oceânia, desde o séc. XVI até à sua substituição pelo inglês, no séc. XIX. Holandeses, ingleses, dinamarqueses e franceses não podiam prescindir de um “língoa” [intérprete] a bordo para poderem comerciar nos portos do Oriente, na língua que as Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente falavam e, muitas, ainda falam. Tratados, entre países europeus e poderes locais, foram firmados nessa língua, por ser a única a que os europeus podiam recorrer para comunicar no Oriente. Hoje, Cristão” [Kristang] e “Português” [Portugis] são sinónimos. A profanação e a destruição de igrejas e mosteiros, a expulsão dos padres, a proibição do culto católico, as deportações maciças, a redução de muitos à condição de escravos, compeliram os membros dessas cristandades à clandestinidade e à emigração: Macau, Índia, Insulíndia, Sião e Indochina. Tais irmandades permaneceram até aos nossos dias e conservam determinadas prerrogativas que limitam a autoridade dos párocos. Perdida a confiança que a Santa Sé depositara desde o séc. XV no Rei de Portugal, na sequência do corte de relações diplomáticas do Governo liberal em 1833 e a extinção das ordens religiosas por decreto de 31 de maio de 1834, o Padroado Português do Oriente sofreu um golpe mortal, na Índia, no Ceilão, no Sudeste Asiático, na China e na Oceânia. Os missionários do Padroado não seriam substituídos. O clero secular de Goa acorreu em socorro das Cristandades Crioulas Lusófonas do Oriente que iam ficando sem religiosos. A língua crioula falava-se nas Cristandades Crioulas da Tailândia (Ayuthia/Ayutthaya) e, Banguecoque até aos anos 50 do séc. XX, onde permanecem vocábulos correntes no relacionamento familiar e nas práticas católicas. Na Indonésia, além de Java, nas Flores [Larantuka e Sikka], ilhas de Ternate, Tidore e Bali. Em Timor [Lifau e Bidau]. No Bangladesh – Chittagong e Daca – até aos anos 20 do séc. XX era muito viva a presença da língua crioula nas Cristandades locais. © Jorge Morbey http://combustoes.blogspot.com/2006/01/os-crioulos-portugueses-no-oriente.html
O homem português na Ásia nunca esqueceu a pátria. Tomemos o exemplo de Venceslau Morais, Escondia as suas misérias no exílio nipónico e tendo escrito e enviado dezenas de cartas e postais ilustrados à irmã Francisca Paúl, para Nelas (Beira Alta), nunca lhe referiu a intenção de regressar a Portugal. A memória do Cônsul de Portugal em Kobe, no longínquo Sol Nascente, ficou nos anais das relações culturais entre Portugal e o Japão. http://www.portugal-linha.pt/legado/voriente/psiao3. José Gomes Martins
Por tudo o que atrás ficou dito recorde-se o grande universalista português. No último canto de “Os Lusíadas”, Vasco da Gama, o almirante herói, é recebido pela deusa Tétis na Ilha dos Amores. Lá, naquele espaço encantado, ela lhe descortinou a Máquina do Mundo, a visão do Cosmo e dos continentes da terra recém-descoberta pelos lusos, cena que coloca o poeta português como quem por primeiro, no campo das letras europeias, percebeu os efeitos irreversíveis da globalização que então dava os seus primeiros passos.
“Vês aqui a grande máquina do Mundo,
Etérea elemental, que fabricada
Assim foi do Saber, alto e profundo,
Quem é sem princípio e mete limitada.
Quem cerca em derredor este rotundo
Globo e superfície tão limada,
É Deus: mas o que é Deus, ninguém o entende,
Que a tanto o engenho humano não se estende”
(Canto X, 80)
É então que a deusa, abrindo os braços para enfatizar a amplidão, a magnitude do reino augusto, aponta ao Gama as mais diversas regiões do mundo.
Povoam-na “gente sem lei”, a bruta multidão, “bando espesso e negro de estorninhos”, do império do Benomotapa (Zimbabué) à Taprobana (Sri-Lanka). Todos à espera da chegada da cruz, desenhada na vela principal da nau dos argonautas lusitanos. Mostra-lhe o Mar Vermelho, o Monte Sinai, a secura dura e arenosa da Arábia, o Tigre, o Eufrates, o planalto dos cavaleiros da Pérsia, o estreito de Ormuz, o Sind, a terra dos Brâmanes onde S. Tomé tentara a conversão dos gentios, o Ganges e o Indo, a terra da Birmânia, o império do Sião, Sumatra, a ponta estreita de Singapura, o Camboja e o rio Mekong no qual Camões naufragou mas salvou os versos. Em seguida, margeando com os olhos a costa da Cochinchina (o Vietname), mostrou-lhe a China e mais longe o Japão, de onde vinha a maravilhosa seda e o ouro fino. De tudo se desprendia o aroma do cravo, da noz-moscada, do licor perfumado do benjoim, do coco do mar, do incenso, da mirra e do raro âmbar, de onde se extraem fragrâncias mil. Tétis, voltando-se para o outro lado da Terra, apontou-lhe as partes recentemente conquistadas pelos castelhanos, que lançaram o seu rude colar sobre as gentes cativas do Novo Mundo. Da Terra de Santa Cruz, do litoral do Brasil, o braço lusitano já carregava o tronco vermelho, o Ibirapitanga dos nativos, para dele extrair as tintas para os panos. Reembarcados os portugueses, partindo da Ilha dos Amores, aos adeuses no convés, velas soltas ao vento em mar tranquilo, carregados de refrescos e iguarias deliciosas, navegaram de volta à boca do Rio Tejo.
De então em diante estavam todos convencidos de que os fados da Humanidade, desde que Vasco da Gama unira o Ocidente ao Oriente, não se prendiam a um só reino, a uma só nação ou a um só hemisfério. Somente gente surda e endurecida, fechada, teimosa, não reconheceria que, escancarado para sempre o Caminho das Índias, o mundo se globalizaria cada vez mais, tornando-se algo único, entrelaçando para sempre povos e continentes num destino em comum. Ainda hoje estou rodeado dessa gente surda e empedernida.
O mesmo se passou com os Colóquios. Isto de Lusofonias e Lusotopias tem muito que se lhe diga. Falta aos Estados a visão, o amor e a dedicação que só alguns indivíduos conseguem ter pela língua e cultura de um povo. Governos e governantes estão de candeias às avessas para a defesa desses valores, tal qual a população de S. Miguel está sempre de costas para o mar, enquanto outras não vivem sem ele, como no Pico. Falarei brevemente de dois autores que lutam contra os Fados da Humanidade mostrando a globalização da língua portuguesa através da sua visão açoriana do mundo.
Vozes críticas ou arredadas dos estereótipos não abundam nem são benquistas. As elites dominantes e os poderes caciqueiros logo se insurgem. A ingratidão, vergonha e falta de patriotismo são epítetos comummente usados para denegrir os que ousam. Citam-se páginas relevantes da heroica gesta açoriana, com destaque para as guerras liberais e desventuras de emigrantes que triunfaram. Surgem editorais e recensões violentas nos jornais locais. Os caixeiros-viajantes da cultura logo se arrogam o direito de defender a açorianidade ofendida pois nela assenta exclusivamente o seu currículo. Tais declarações de repúdio raramente extrapolam os cantos do arquipélago pois falar dos Açores ainda não é moda na grande capital do Império.
Foi isto que, por mais de uma vez, aconteceu ao meu amigo escritor Cristóvão de Aguiar. Apodaram-no de tudo e mais alguma coisa, pois convém sempre ser mais papista que o papa. Em meios pequenos é consabida a tendência para apoucar aqueles que da leis do esquecimento se desembaraçaram, como diria o vate, enquanto o imperador e seu séquito distribuem viagens e mordomias. É uma questão de tempo até começarem a zurzir nos forasteiros que ousam opinar sobre o arquipélago dos Açores. Quando se perora sobre as nove ilhas, filhas de Zeus, urge não melindrar os interesses estabelecidos. As visões críticas ou não conformadas aos cânones podem acarretar sérios riscos para a saúde mental dos seus autores. Terras pequenas, invejas grandes ou a reprodução literária do mote popular “a minha festa é maior que a tua”. Para o comum dos mortais a vida prosseguiria o seu rumo, mas os Açores são uma réplica miniatural da corte lisboeta. As elites não perdoam aos que não comungam da verdade única com força de dogma que os sustenta e valida.
Cristóvão escreve com uma pluma incómoda. Reservou-se um papel de narrador que pensa, fala e escreve sem recorrer aos lugares comuns que tamanho gáudio causam na população. Não reivindica verdades absolutas ou duradouras, limita-se a (d)escrever o que sente e vê. Criaram-lhe a fama de irascível. Quantas vezes com justas e fundadas razões? Recebi “avisos amigos” para tais perigos quando o convidei a estar na Lagoa (março 2009) para o 4º encontro açoriano. Congratulo-me que, relutantemente, Cristóvão tenha acedido. Ao longo de meses trocamos correios eletrónicos e telefonemas criando uma amizade saudavelmente aberta e crítica durante a qual aprendi imenso com a personagem que tantos cuidados incutia aos arautos e defensores da paz podre açoriana.
Cristóvão é um permanente Passageiro Em Trânsito, título do seu mais benquisto livro, sempre na rota do inconformismo. Ele é a voz que se não cala e tem o direito a tal. Chama os bois pelo nome sem se deter nas finuras das convenções do parece bem ou mal. É crítico impiedoso dos destinos que alguns queriam que fosse eterno, o da subserviência e submissão aos senhores das ilhas, descendentes diretos dos opressores da gleba. Grandes narrativas que se assemelham a uma técnica de travelling em filmagem, com grandes planos, zooms, e paragens detalhadas nos rostos e nas mentes dos atores principais das suas crónicas e outros escritos. A câmara detém-se e escalpeliza a alma daqueles que ele filma com as suas palavras aceradas como vento mata-vacas que sopra do nordeste. Cristóvão de Aguiar, já o disse, não é um autor fácil nem facilita, exige quase tanto dos seus leitores como de si mesmo, ele é o magma de que são feitas as gentes de bem destas ilhas. Tal como as palavras sentidas, gravadas fundo num granito que não existe nas ilhas mas que encontro na Relação de Bordo I. Verdade seja que ando imerso na sua escrita tateando como um recém-nascido às escuras fora do ventre materno. Ele é um escritor que se crê maldito porque outros o fizeram assim, e porque é de si mesmo um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo. Para ele, a escrita nunca será catarse pois ela é fruto de amores incompreendidos entre si e a sua ilha… Psicanalisando as gentes e a terra que o viram nascer adotou o Pico como nova ilha mátria em 1996. Como ele diz (Relação de Bordo II pp. 199-200) Primeiro foi a ilha, nunca mais a encontramos como a havíamos deixado…trouxemos somente a imagem dela ou então foi outra Ilha que connosco carregámos…
A escrita lávica de Cristóvão fica a boiar no nosso imaginário. Ninguém consegue escrever da forma única e inimitável como só ele sabe e sente sobre os Açores. Essa a sua forma de amar e de recompensar a terra que o viu nascer…para que desate as grilhetas que a encarceram no passado e ele se desobrigue finalmente da tarefa hercúlea de carregar a ilha como um fardo ou amor não-correspondido, que nisto de ilharias há muitas paixões não correspondidas. É um lídimo representante da mundividência açoriana na escrita contemporânea e é tarefa dos Colóquios da Lusofonia torná-lo benquisto e conhecido no mundo inteiro. Com a literatura os autores açorianos iam chegar mais longe. Libertar-se. Para isso teriam de mondar mercados novos e virgens, como a selva amazónica antes dos novos bandeirantes. Se não chegassem às novas gerações açorianas, poderiam alcançar descendentes, expatriados e os que aprendem o orgulho da nação açoriana, na sua cultura, tradição e outros valores primordiais que tão arredados das escolas andam hoje. Mas os colóquios queriam levá-los a mercados e leitores insuspeitos, até à velha Cortina de Ferro onde há apetência para escritores lusófonos.
A ilha para Natália Correia é Mãe-Ilha, para Cristóvão de Aguiar, Marilha, para Daniel de Sá, Ilha-Mãe, para Vasco Pereira da Costa, Ilha Menina, para mim nem mãe, nem madrasta, nem Marília nem menina, mas Ilha-Filha, que nunca enteada. Para amar sem tocar, ver engrandecer nas dores da adolescência que são sempre partos difíceis. Toda a vida fui ilhéu, perdi sotaques Ma não malbaratei as minhas ilhas-filhas. Trago-as a reboque, colar multifacetado de vivências dos mundos e culturas distantes. Primeiro em Portugal, ilhota perdida da Europa durante o Estado Novo, seguidamente em mais um capítulo naufragado da História Trágico-marítima nas ilhas de Timor e de Bali, seguido da então (pen)ínsula de Macau (fechada da China pelas Portas do Cerco), da imensa ilha-continente denominada Austrália, e nesta ilhoa esquecida de Bragança no nordeste transmontano, antes de arribar à Atlântida Açores.
Cumes de montanhas submersas que assomam, a intervalos, aqui no meio do Grande Mar Oceano onde se mantêm gentes orgulhosas e ciosas das suas tradições e costumes, em torno da família nuclear dizimada pelo chamado progresso. Os políticos ocupados na sua sobrevivência sempre se olvidaram da presença mágica destas ilhas de reduzidas proporções e populações. Como se fosse uma espécie de triângulo das Bermudas, onde tudo o que é relevante desaparece dos telejornais. Já era assim durante o Estado Novo e pouco mudou quanto à visibilidade real destas ínsulas, apenas evocadas pelas catástrofes naturais e pelo anticiclone do bom ou mau tempo.
Falemos da literatura. Acolhemos nos Colóquios, como premissa, o conceito de açorianidade formulado por José Martins Garcia que, «por envolver domínios muito mais vastos que o da simples literatura», admite a existência de uma literatura açoriana «enquanto superstrutura emanada dum habitat, duma vivência e duma mundividência»[1].
No 4º Encontro Açoriano da Lusofonia, Cristóvão de Aguiar rejeitou o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona. «O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor. Machado Pires sugeriu em tempos “literatura de significação açoriana”. Outros preferem o termo “matriz açoriana”. Há vários tipos de autores, os açorianos nascidos e vividos no arquipélago (ausentes ou não), os emigrados, os descendentes, os insularizados ou ilhanizados e os estrangeiros que escrevem sobre os Açores. Falta destrinçar se os podemos incluir a todos nessa designação açórica. Lentamente, todos encontraram o seu espaço, não havendo míngua de quantidade, mas, frequentemente sem projeção fora das ilhas, com exceções contemporâneas como as de João de Melo, Cristóvão de Aguiar, Daniel de Sá, Vasco Pereira da Costa e Dias de Melo, para citar alguns. Tarefa inglória tem sido a de os tentar convencer que a sua universalidade é de matriz açoriana e só assim os conseguiremos levar ao grande púlpito do mundo, a eles, autores que se contentam em ser portugueses.
Quedemo-nos, doravante, na perspicaz apreciação que faz Cristóvão de Aguiar da obra, intitulada Nas Escadas do Império de Vasco Pereira da Costa, autor que hoje é aqui homenageado:
“Não é por acaso que Vasco Pereira da Costa, poeta de mérito, mas ainda no silêncio da gaveta, se apresenta no mundo das letras sobraçando uma coletânea de contos. Numa terra onde quase todos sacrificam às (as) musas e se tornou quase regra a estreia com um livrinho de poemas, a atitude (ou opção) do autor de Nas Escadas do Império não deixa de ser de certo modo corajosa como corajosos são os contos que este livro integra. Não fora o receio de escorregar na casca do lugar-comum, e eu diria que esta mancheia de contos vivos, arrancados com mãos hábeis e um sentido linguístico apuradíssimo ao ventre úbere, mas ainda mal conhecido, da sua terra de origem, vem agitar as águas paradas, onde se situa o panorama nebuloso e um tanto equívoco da literatura de expressão açoriana. O conto que abre esta coletânea, Faia da Terra, é bem a prova do telurismo, no sentido torguiano do termo, de que o jovem escritor (Angra do Heroísmo, junhoJunho de 1948) está imbuído, sem cair no pitoresco regionalista, tão do agrado de muitos escritores açorianos. Não resta a mínima dúvida de que o Gibicas, A Fuga e outras peças de antologia que aqui figuram vêm contribuir para o enriquecimento do conto português de especificidade e caraterística açoriana. Contudo, Vasco Pereira da Costa corre o risco (e ele mais do que ninguém disso está consciente) de vir a ser queimado nas labaredas inquisitoriais de certos meios ideológico-literários açorianos que têm tentado, oportunisticamente, mas sem raízes verdadeiras, edificar […] uma literatura açoriana em oposição à Literatura Portuguesa. Nas Escadas do Império, quer queiram ou não os arautos da mediocracia, vem dizer-nos exatamente o contrário.”
Com efeito, não podia deixar de ser mais justo o juízo de valor supracitado.
– Em primeiro lugar, estreia-se Vasco Pereira da Costa, em 1978, com a coletânea de contos, Nas Escadas do Império, à qual se seguirão a novela Amanhece a Cidade (1979); a memória Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo (1980); os poemas de Ilhíada (1981); Plantador de palavras Vendedor de lérias, antologia de novelas galardoada com o prémio Miguel Torga no ano de 1984; Memória Breve, (1987); Risco de marear (Poemas em 1992); e, por fim, três obras poéticas, a saber Sobre Ripas Sobre Rimas, Terras e My Californian Friends, (respetivamente publicadas em 1994, 1997 e 1999).
– Em segundo lugar, urge referir a originalidade de Vasco Pereira da Costa, evidente tanto na sua obra poética como na sua prosa, que vem, segundo o Autor de Raiz Comovida, agitar as letras açorianas. Assim sendo, e numa perspetiva temática, cumpre realçar o telurismo genuíno patente em “Faia da Terra”, história do enamoramento de Teresa por um americano da Base, da sua subsequente partida para o Novo Mundo, já com o nome de Mrs. Teresa Piel, e da secagem da faia, dois meses após a descolagem do avião da Pan America. Nesta novela inaugural perpassam vivamente, como que fotografadas ao vivo, as rotineiras fainas insulares que, pela via da repetição, regem o quotidiano do ilhéu: “Era sexta-feira e a mãe amassava o crescente com a farinha de milho. No forno estalavam a rapa, o eucalipto e o loiro: […] Lavou depois as folhas de botar pão e veio sentar-se ao pé dos meus socos de milho – bois de veras, espetados com palhitos queimados arremedando os galhos – no estrado do meio-da-casa. Arrumou as galochas no sobrado […] ” (1978: 11).
Por vezes, é a loucura insular que faz a sua aparição em cena, na figura do poeta Vicente, “um Côrte-Real impotente, tacanho e degenerescente” (1978: 71), o qual, volvido esse tempo em “que escrevia coisas tão lindas, de tanto sentimento”, tem o despautério de acumular guarda-chuvas na falsa e de publicar no jornal da Ilha desairosos alinhavos poéticos: “Prometeu / Prometeu / Não cumpriu / A promessa / Homessa!//” (“A Fuga”, 1978: 74).
– Em terceiro lugar, e ainda na ótica de Cristóvão de Aguiar, a coragem de Vasco Pereira da Costa, que a sátira, nas suas diversas vertentes, revela à saciedade. Assim sendo, atente-se quer na crítica ao salazarismo, regime repressor, totalitário e punitivo dos que ousam transgredir as regras impostas – “Como vim aqui [à ilha] parar? É simples: por ser anarquista e não peitear o Manholas de Santa Comba” (“O Manel d’Arriaga”, 1978: 31) -, quer na crítica à mentalidade medíocre, cuja pequenez constrangedora se espraia, em espaço íntimo e público, pela vida de outrem tão sigilosamente resguardada quanto violada de supetão – “ […] cada qual dava a sua sentença, todos em grande pensão, e não havia alcatra de couves que, à hora da ceia, não fosse temperada com palpites de desenlace.” (“Primavera”, 1978: 59) -, quer na crítica ao jornalismo barato e ao provincianismo dos articulistas, cujo discurso, pouco inovador, se vai ritualizando – “Começou então o embaraço. No jornal de amanhã, por entre os aniversários da gente fina […] as partidas e as chegadas, os partos e as notícias do País e do Estrangeiro, os casamentos e os pedidos de, os horários de barcos e de aviões, as orações ao Menino Jesus de Praga e ao divino Espírito Santo […] ” (“A Fuga”, 1978: 82-83) -, quer, por fim, na crítica a uma certa ‘cultura de superioridade’ que ‘Mestre’ Gibicas se apresta a denegar: “ […] estávamos de língua entre os dentes para sibilar o th. O professor fazia empenho pois […] era uma vergonha virem por aí abaixo os americanos e nós sem sabermos agradecer. […] Até que foi a tua vez [Gibicas]. […] Agarraste na caixinha vermelha, azul e branca, com as estrelinhas desse people para o nosso povo e, sem esperar o afago da farda grandalhona, gritaste-lhes alto, como ninguém ainda o fizera: – SANABOBICHAS!” (“Gibicas”, 1978: 137-138-141). Em asterisco de rodapé, explica o Autor o neologismo: “Son of a bitch”.
– Em quarto lugar, a variedade genológica em que se move o Escritor homenageado, desde o conto e a novela, até à memória e à “crónica” breve, passando pela Poesia. E, a este propósito, não resistimos à tentação de transcrever alguns excertos.
O primeiro de o Plantador de Palavras:
“Ah, meus senhores, mas isto aqui não é a Itália. É a mui nobre leal e sempre constante cidade de Angra do Heroísmo, ao tempo em que o Autor nela carregava a sua adolescência de amores, temores e rancores. Como podem observar, uma cidade espartilhada entre mar e mar, com dois castelos a estrangulá-la; com suas casas, nobres por fora e burguesíssimas por dentro; praças com estátuas e engraxadores; lojas sonolentas, comerciantes lentos e clientes ensonados; automobilistas imprevidentes nos seus vinte à hora, que quase atropelam a distração dos peões; um governador civil e três governadores militares; cinquenta e sete prostitutas; dezanove bombeiros voluntários que voluntariamente vão de borla ao cinema; vinte e cinco meninas que namoram à janela e, estatísticas de ontem, catorze desfloradas nos saguões; um bispo, dois monsenhores, sete cónegos na sua Catedral; três parvos oficiais, que fornecem o riso oficial e obrigatório nos dias úteis e inúteis; um Presidente para a sua Câmara, com o seu secretário e um contínuo – que, por ser funcionário público, não está incluído no número dos três parvos oficiais que o quadro comporta. Esta cidade tem trinta e quatro velhas de lenço e três senhoras idosas de chapéu; quarenta e sete bêbados e oito senhores que andam às vezes alegrinhos; cento e vinte e nove rapazes, cento e trinta e duas raparigas, vinte e dois meninos e trinta e uma meninas; o número de naiões – invertidos encartados e Sócios de Mérito da Corporação das Criadas de Servir – é de setenta e sete, mas nunca foi feito o recenseamento dos homens com pitafe; quarenta e três professores do Liceu, dos quais vinte são professores do Seminário Maior, onde há quinhentos e setenta e oito seminaristas menores, dos quais oitenta e nove vírgula seis por cento oriundos da cristianíssima ilha de São Miguel o Arcanjo e do Senhor Santo Cristo dos Milagres e ainda de outros Senhores, que se passeiam no Jardim Duque da Terceira, todas as quintas, entre as duas horas e sete minutos e as quatro horas e quarenta e oito da tarde, em bandos de estorninhos; quinze chauferes, um cauteleiro, sessenta e nove caloteiros identificados com o indicador da mão direita, noventa e seis donas-de-casa e igual número de maridos operacionais; quarenta e sete viúvas praticantes, vinte e seis viúvas protestantes e oito viúvas de fresco ainda indecisas; sessenta e oito cavalheiros são simultaneamente irmãos devotos da Confraria de Nossa Senhora do Monte Carmelo, da Irmandade do Senhor dos Passos e da Ordem Terceira de São Francisco; quatro agiotas dissimulados, que vestem de preto e usam chapéu, e que se sentam, para o negócio, na terceira banqueta do Pátio da Alfândega; cinquenta agentes da Polícia de Segurança Pública, dos quais três são da Secreta e, por isso, para não serem conhecidos, trajam à paisana: o Cebola, o Tombado e o Zarolho; dois vendedores de milho torrado, pevides e caramelos sugardady; duzentas e nove beatas de novena, quarenta e oito de terço e mantilha, vinte devotas de enfeitar capelas, dezassete de sacristia, catorze irmãs de padre e meia dúzia de sobrinhas; um batalhão de soldados do Castelo, que aparecem à boquinha da noite triste, arrastando as botas tristes pelo empedrado tristonho; três namoradas de aspirantes, que fazem todas as recrutas; uma média de um vírgula oito por mil de americanos da United States Air Force Azores Pochugal por dia, facilmente reconhecíveis pelo tamanho dos pés e por uma garrafa de Matiós Rossé dançando na mão direita; quarenta e três indivíduos usam gravata verde porque são adeptos do Lusitânia e trinta e nove põem gravata vermelha porque são sócios do Angrense, havendo que mencionar ainda dois laços – um poeta e um boticário. A cidade tem dezoito tabernas, seis cafés e duas pastelarias.
Vamos agora mudar o cenário…”
Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo
“[…] …e o Imparador que se desempenhe do seu ofício em obrigação ao Senhor Espírito Santo, e festejemos nós com ele, […] Antes de mais, o Imparador dar-lhe-á três pancadinhas na porta do meio e dirá:
‘ – Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo convidar o dono da casa para acompanhar o Senhor Espírito Santo e a mim, na sexta-feira, para matar o bezerro, e, no sábado, para ajudar a levar a carne, e, no domingo, para me acompanhar de casa até à Igreja, da Igreja até a casa, jantar comigo e levar o Senhor Espírito Santo ao Imparador novo.’
É de ir!
A coisa promete, e olhe que não terá alcatrinha de coives apanhadas no bacelo… O Imparador sabe da sua função e lá por casa, que a Imparatriz tem brios, há de ter Mestra que faça umas sopas a preceito, com olores de hortelã, pão de mesa, bom vinho velho, arroz doce e… alcatra!…
Alcatra!… Alcatra!…
Se cada terra tem o seu manjar peculiar, se a Paella é valenciana, o borrego alentejano, a Lasagna Stuffata dos italianos, o Roast-beef das Inglaterras, as esquisitices francesas, as enguias da Murtosa, a Alcatra – é nossa!
Já dizia Tia Livramento que para fazer uma boa Alcatra era preciso uma boa gueixa. […] E o Imparador já separou um cambulhão de cebolas doiradinhas, e já mandou o pequeno mais moço à quinta das Medeiras apanhar loiro cheirosinho, e já despachou a pequena do meio para a Venda do Linhares buscar uma baratinha de pimenta em grão e pau-de-cravo, e já provou e aprovou um vinho de cheiro velho e encorpadinho, que guardava sacramente na loja de trás-de-casa, e já disse à Sua Senhora que haverá de ser daquele toicinho fumado mais largo que se tirariam as taliscas, e já aventajou ao Prudêncio Sacristão para avisar amanhã na missa da manhã que queria falar com a Tia Machada, e já apanhou uma rama de calibres e de faias e já rachou e pôs a secar umas achas bem asseadas para não se babarem como babões e que façam um fumo incensador […]”
(Venho cá mandado do Senhor Espírito Santo. Angra do Heroísmo, 1980. pp. 6-7.
“A ilha, para ele [Ti Fausto], não são freguesias, canadas, casas, faias, inhameiros, macieiras, pastos, gado e todo o povo. É uma namorada antiga, que ele afaga nos dias ensoados e que ama com paixão maluca nas noites curtas e eternas. […] Amar a Ilha Menina, de olhos puros como dois torrões de lava fresca e vidrada e gotejante da seiva da terra. Ir na dança do seu meneio de baile, dedilhado nos bordões do violão mais cantante. […] Amar a Ilha Mulher, inteiriça e possante, arranhar uma pétala de perfume e lume, sentir-lhe os requebros, o bafo quente da boca fogosa, gostar na ponta da língua o cerúmen das orelhas fugidias, […] Amar a Ilha Mãe, regaço acolhedor e cálido. Pousar a cabeça no repouso do seu ventre largo. Deixar que a sua mão se esqueça e se abandone na nuca sonolenta. Abrir então os olhos e animar esta pietá com um beijo lento na palma da mão e o sorriso abrindo-se devagar, desatento à estátua que ora forjo – Ti Fausto e a Ilha, […] Ti Fausto serve-me de verdelho. Saudamos a comoção que nos amarra a esta mesa.
Uma gota boia num sulco de madeira. […] Ti Fausto estala a língua e estende-me o olhar cínico de deus incréu:
– E aí está como um neto de lavradores, filho de comerciantes, tem as mãos finas… Plantador de palavras… Vendedor de lérias…
Cá estou eu, Ti Fausto, o doutor da letra redonda, com a gana de invocar o teu amigo Arquimedes, com quem deambulaste em Antioquia, e de quem recebeste nos ouvidos divinos o grito da descoberta.
Cá estou eu, Ti Fausto, buscando a justificação que me dê o contentamento de mim. Porque, com a minha lavoira de palavras, consegui explicar-me toda (toda…?) a verdade familiar. E absolvo-me. O meu eureka é este: o ser capaz de, pelo domínio da palavra, encontrar a remissão para a renúncia… imperdoável. Com esta esfera que escreve […] tudo me parece verosímil e tão cheio de verdade! Como ser eu o filho de Manuel Terra Policarpo, arribado na chalupa Esperança à baía de Angra com uma trouxa de linho, uma saquinha de trapos donde roera o último biscoito de raiz de feto, e a carta ao desconhecido. Era o ano de 1920. Meu pai tinha dez anos.
Por saber estão ainda os segredos da sua infância – nunca revelados: o sofrimento está entranhado nas nervuras mais profundas do esquecimento desejado.
O menino perdeu-se nas canseiras impiedosas de uma ilha com fome. E apenas o conheço homem feito, fazendo a vida na Terceira, que é ilha de festas e panzoada – no dizer dos velhos picarotos que lavram as águas do mar e cravam os arpões da vontade no negro mais sáfaro das lavas arrefecidas.”
(”Plantador de palavras”, Plantador de palavras Vendedor de lérias. Coimbra, Serviços Culturais, 1984 – “Prémio Miguel Torga”, pp. 18-19-35- 36).
– transcreve-se, por fim, o poema “Rose era o nome de Rosa”:
A mãe disse não mais
não mais eu não mais tu filha
não mais nomes na pedra do cais
não mais o cortinado da ilha
não mais Rosa sejas Rose agora
não mais névoas roxos ais
não mais a sorte caipora
não mais a ilha não mais
Porém Rose o não mais não quis
e quis ver a ilha do não mais
o cortinado roxo infeliz
os nomes na pedra dos cais
Pegou em si e foi-se embora.
Não mais Rose. Rosa outra vez agora.
(My Californian Friends, 1999: 25).
chrys chrystello lomba da maia, açores, agosto 2010
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| 40) De ALMEIDA, Onésimo Teotónio, (1986), Da Literatura Açoriana. Subsídios para um Balanço. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura |
| 41) De Almeida, Onésimo Teotónio, (1987) “O que é a L(USA)LÂNDIA” in L(USA)LÂNDIA, A décima Ilha, Angra do Heroísmo. SREC |
| 42) De Almeida, Onésimo Teotónio, (1994) Que nome é esse, ó Nézimo? – E outros advérbios de dúvida, 1ª ed. Lisboa, ed. Salamandra |
| 43) De Jesus, Eduíno, (sd) “Breve notícia histórica da poesia açoriana de 1915 à atualidade”, in Estrada Larga, vol. 3, Porto Editora, [s/d], pp. 425-430. |
| 44) De Melo, José Dias, (1958) Mar Rubro, 1958, 2ª ed. 1980 Lisboa, ed. Salamandra |
| 45) De Melo, José Dias, (1964) Pedras Negras, 2.ª ed., Lisboa, Vega, 1985, tradução para inglês 1988 Dark Stones ed. Gávea-Brown. 4ª ed. VerAçor 2008 |
| 46) De Melo, José Dias, (1973) Na noite silenciosa (poesia) 1973, 2ª ed. VerAçor 2007 |
| 47) De Melo, José Dias, (1976) Mar pela proa, 1976, 2ª ed. Lisboa, ed. Salamandra |
| 48) De Melo, José Dias, (1979) Vinde e Vede. Narrativas, Lisboa: Editorial Ilhas |
| 49) De Melo, José Dias, (1983) Vida vivida em terra de baleeiros, Angra, SREC; 2ª ed., Lisboa, ed. Salamandra |
| 50) De Melo, José Dias, (1990) Das velas de lona às asas de alumínio, Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau |
| 51) De Melo, José Dias, (1990) O autógrafo. 1990 Lisboa, ed. Salamandra 2ª ed. 1999 col. Garajau |
| 52) De Melo, José Dias, (1992) O Menino deixou de ser menino. Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau |
| 53) De Melo, José Dias, (1993) A Viagem do medo maior. Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau |
| 54) De Melo, José Dias, (1994) Pena dela, saudades de mim. Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau |
| 55) De Melo, José Dias, (1995) Crónicas do Alto da Rocha do Canto da Baía. Lisboa, ed. Salamandra |
| 56) De Melo, José Dias, (1996) inverno sem primavera Lisboa, ed. Salamandra |
| 57) De Melo, José Dias, (2000), Reviver: na Festa da Vida a Festa da Morte. Lisboa, ed. Salamandra, col. “Garajau”. |
| 58) De Melo, José Dias, (2001) À Boquinha da noite, Lisboa, ed. Salamandra |
| 59) De Melo, José Dias, (2002) Milhas contadas, Lisboa, ed. Salamandra |
| 60) De Melo, José Dias (2003), Pedras Negras. Lisboa, Edições Salamandra, 3ª edição portuguesa. |
| 61) De Melo, José Dias de (2004), Poeira do caminho. Reminiscências do Passado, vivências do Presente. Porto, Campo das Letras – Editores, col. “Instantes de Leitura”. |
| 62) De MELO, José Dias de (2007), Na noite silenciada. Poemas de Natal. Ponta Delgada, Ver Açor, Lda. |
| 63) De MELO, José Dias (2008), Mar Rubro, Baleeiros do Pico. Ponta Delgada, Ver Açor, Lda. Editores, 3ª edição. |
| 64) De Melo, João (1982) – Há ou Não Uma Literatura Açoriana? Lisboa ed. Vega |
| 65) De Melo, João, (1983) O Meu Mundo Não é Deste Reino, Lisboa, Publ. D. Quixote traduzido nos Estados Unidos e em Espanha |
| 66) De Melo, João, (1988) Gente Feliz com Lágrimas, Lisboa, Publ. D. Quixote, 1988. Traduzido em Espanha, França, Holanda, Itália, Roménia e Bulgária |
| 67) De OLIVEIRA, Álamo, (1978) Almeida Firmino / Poeta dos Açores ed. DRAC (esgotado) |
| 68) De SÁ, Daniel, (1988) Bartolomeu (teatro), ed. DRAC, Angra do Heroísmo: SREC |
| 69) De SÁ, Daniel, (1992) Ilha Grande Fechada (romance), Lisboa, ed. Salamandra |
| 70) De Sá, Daniel, (1995) Crónica do Despovoamento das Ilhas (e Outras Cartas de El-Rei) (crónicas históricas), Lisboa, ed. Salamandra |
| 71) De Sá, Daniel, (2007) O Pastor das Casa Mortas, Ponta Delgada, ed. VerAçor, 2007 |
| 72) De Sá, Daniel, (2007) Santa Maria, Ilha-Mãe, Ponta Delgada, ed. VerAçor, 2007 |
| 73) De Sá, Daniel, (s.d.) Um trovador na corte de D. Sancho |
| 74) Dias, Eduardo Mayone, (1989) Falares Emigreses, 1ª ed. Lisboa; Amadora, Portugal: Instituto de Cultura e Língua Portuguesa, Ministério da Educação; Distribuição comercial, Livraria Bertrand |
| 75) Dores, Victor Rui, (1991) Sobre Alguns Nomes Próprios Recolhidos na Ilha Graciosa (ensaio) Separata do Boletim do Museu de Etnografia da Graciosa |
| 76) Dores, Victor Rui, (no prelo) Ilhas do Triângulo – coração dos Açores (ed. VerAçor). |
| 77) FIRMINO, Almeida, (1982), Narcose, Angra do Heroísmo: SREC |
| 78) Garcia, José Martins (1973) Feldegato Cantabile (poesia) Antologia Poética dos Açores, Angra do Heroísmo: SREC, 2ª ed. 1979 |
| 79) Garcia, José Martins (1974) Katafaraum é uma Nação, col: Peninsulares Literatura. Editor: Assírio & Alvim |
| 80) Garcia, José Martins. (1987), Ainda a questão da Literatura Açoriana In Para uma Literatura Açoriana. Ponta Delgada, Universidade dos Açores: 9-32. |
| 81) Garcia, José Martins (1987), Atualidade da Literatura Açoriana, In Para uma Literatura Açoriana. Ponta Delgada, Univ. dos Açores: 111-124 |
| 82) Garcia, José Martins (1992) Katafaraum ressurrecto, Edição do Autor |
| 83) Garcia, José Martins (1997) Contrabando original, Lisboa, ed. Salamandra col. “Garajau”, 2ª ed. |
| 84) Kinsella, John M., (2007) Voices from the islands (An anthology of Azorean Poetry), ed. Gávea-Brown, USA |
| 85) Nemésio, Vitorino. (1923) Por que não temos Literatura Açoriana [entrevista com Vitorino Nemésio, por Rebelo de Bettencourt] In Almeida O. T. (org.) (1983), A Questão da Literatura Açoriana. Recolha de Intervenções e Revisitação. Angra do Heroísmo, Secretaria Regional da Educação e Cultura |
| 86) NEMÉSIO, Vitorino. (1932) “Açorianidade” in Insula, n.º 7-8, Ponta Delgada, julho, 1932 |
| 87) Nemésio, Vitorino. (1949) Mau Tempo no Canal, Lisboa, Livraria Bertrand e Livros Unibolso, ed. Associados, col. «Biblioteca Universal» |
| 88) NEMÉSIO, Vitorino. (1994) Mau Tempo no Canal, 7.ª ed., Lisboa, Imprensa Nacional, 1994. |
| 89) ORRICO, Maria. (1994) Terra de Lídia, Lisboa, ed. Salamandra, 1994. |
| 90) Pavão, J. Almeida. (1991), Constantes da insularidade numa definição de Literatura Açoriana, In Caminheiros da Cultura. Ponta Delgada, Instituto Cultural de Ponta Delgada: 133-152 |
| 91) Petri, Romana. (1997) O Baleeiro dos montes, Lisboa, ed. Salamandra |
| 92) Pires, A. M. B. Machado. (1983) Para a Discussão de um Conceito de Literatura Açoriana. Boletim do Instituto Histórico da Ilha Terceira, XLI: 842-858 |
| 93) Pires, A. M. B. Machado. (1987), A Identidade Cultural dos Açores, Sep. De Arquipélago (série Línguas e Literaturas), IX |
| 94) TABUCCHI, António. (1998). Mulher de Porto Pim. ed. Difel 5ª ed. 1998 |
| 95) Valadão Serpa, Caetano. (1978) A Gente dos Açores, ed. Prelo 1978 |
| 96) Valadão Serpa, Caetano. (2000) Um Pessoa só é pouca gente, Lisboa, ed. Salamandra col. Garajau |
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Povo que lavas no rio,
que vais às feiras e à tenda,
que talhas com teu machado
as tábuas do meu caixão,
pode haver quem te defenda,
quem turve o teu ar sadio,
quem compre o teu chão sagrado,
mas a tua vida, não!
Meu cravo branco na orelha!
Minha camélia vermelha!
Meu verde manjericão!
Ó natureza vadia!
Vejo uma fotografia…
Mas a tua vida, não!
Fui ter à mesa redonda,
bebendo em malga que esconda
o beijo, de mão em mão…
Água pura, fruto agreste,
fora o vinho que me deste,
mas a tua vida, não!
Procissões de praia e monte,
areais, píncaros, passos
atrás dos quais os meus vão!
Que é dos cântaros da fonte?
Guardo o jeito desses braços…
Mas a tua vida, não!
Aromas de urze e de lama!
Dormi com eles na cama…
Tive a mesma condição.
Bruxas e lobas, estrelas!
Tive o dom de conhecê-las…
Mas a tua vida, não!
Subi às frias montanhas,
pelas veredas estranhas
onde os meus olhos estão.
Rasguei certo corpo ao meio…
Vi certa curva em teu seio…
Mas a tua vida, não!
Só tu! Só tu és verdade!
quando o remorso me invade
e me leva à confissão…
Povo! Povo! Eu te pertenço.
deste-me alturas de incenso,
mas a tua vida, não!
Povo que lavas no rio,
que vais às feiras e à tenda,
que talhas com teu machado,
as tábuas do meu caixão,
pode haver quem te defenda,
quem turve o teu ar sadio,
quem compre o teu chão sagrado,
mas a tua vida, não!
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Auteur : DEVEAU Jean-Michel Illustrateur : CACHIN Claude Collection : L'Histoire en images Renovo-lhe a expressao de toda a minha consideracao. Simao SOUINDOULA HISTÓRIA DE AFRICA A KILUANJE REAPARECE NA FRANCA ATLANTICA O facto foi notado com a recente publicação, em Saint-Herblain, perto da cidade Nantes, de “Nzingha, Reine d’Angola” da autoria de Jean-Michel Deveau e Claude Cachin. A obra saiu na editora Gulf Stream na sua coleção A Historia em imagens, chancela que conta, entre outras personagens, célebres, biografadas, o Louis Pasteur e a Marie Curie. Selado em 72 páginas, o álbum, de formato 22/28, profusamente, ilustrado, com um novo pseudo-retrato da “Dizonda” articula-se numa dezena de capítulos, entre os quais, distingue-se a apresentação dos grandes momentos educativos, púberes, da filha de Mbandi, a corajosa ida, como Embaixadora, da Princesa a São Paulo de Loanda, capital da constituída, arbitraria, Colonia de Angola, a laboriosa conquista do poder e o fim do seu longo reinado. Nota-se, entre os mapas, inseridos nesta publicação, o indicando os Reinos do Congo, Ndongo, Matamba e o pais dos Jagas Kassanji, no seculo XVII. Jean – Michel Deveau, redator dos textos, confirma que a adolescente, de comportamento bem varão, era, mesmo, a preferida do seu pai. A delicada missão de negociações da Princesa de Cabazzo, iniciada em 1622, com o Governador da Colonia, autoproclamada, sobre as terras do Ndongo, constitui uma das partes essenciais do livro. Sensível a importância da inteligência politica e militar, a irmã do Rei Ngola comprova a presença de navios negreiros, na baia de Loanda, e aprecia o dispositivo defensivo da cidade, que privilegia a linha marítima. Aprecia a natureza, fortemente, esclavagista da cidade, meio-seculo depois da sua fundação. REGENCIA A incontornável anedota da cadeira humana, o impressionante domínio do raciocínio diplomático, a sua estratégica conversão ao cristianismo e a sua perfeita expressão em português são realçados. São, igualmente, destacados as vivas rivalidades de natureza politica no seio da família real, sobretudo em 1617, as dificuldades militares e as contrariedades nas campanhas de evangelização. A pretensa Regência da Nzinga do trono e comentada, assim como as suas tentativas, falhadas, de ofensiva militar em direção ao Ndongo ocupado, a famosa Guerra das Ilhas do Coanza, empreendidas entre Kitaxi e Danji. A Muene recuara para o hinterland e com a ajuda dos errantes Jagas conquistara, o Reino da Matamba, em 1630. A evolução histórica dará uma acalmia a Grande Singhille com a ocupação de Loanda pelos holandeses de 1640 a 1648. Perante a restauração do domínio português e a sua idade avançada, a Ngola conduzira uma política diplomática conciliadora, eficaz, ate a sua morte. A publicação da Nzinga, Reine d’ Angola confirma a reputação que atingiu a Giague na Europa ocidental, e, particularmente, no Hexágono. ROSTO Este álbum segue diversas iniciativas de natura científica, literária e artística serão, aí, notadas. Essas consubstanciaram-se, do século XVIII ate aos nossos dias, pela edição de romances a carácter histórico, a evocação da figura da temível “Kiluanje” em várias obras clássicas assim como a publicação de relações antigas e de crónicas biográficas. E, e Paris que dará, nos meados do século XIX à filha de Kenkela - ka – Nkombe, um rosto. A obra de Jean-Michel Deveau e Claude Cachin, que tocara, particularmente, a juventude dos 77 países, total ou parcialmente, de língua francesa, e não só, e uma contribuição a elevação da “Nzinga van Matamba”, através das tradições e expressões orais, rituais e eventos festivos, ligados a Soberana angolana, a Património da Humanidade; dinâmica que esta a acompanhar, notavelmente, pela sociedade civil do Quadrilátero, com entidade tal como a Semba Comunicação, que acaba de organizar, em Luanda, o bem-sucedido Coloquio Internacional sobre a Rainha e que prontificar em Setembro, uma serie sobre a “Dona de Angolla”. Por Simão SOUINDOULA Historiador. Perito da UNESCO C.P. 2131 Luanda (Angola) Tel.: + 244 929 79 32 77 ------------------------------------ WEB: http://www.multiculturas.com
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Comissão de Educação, Ciência e Cultura
28.fevereiro.2013 – 14h00
RELATÓRIO DE AUDIÊNCIA
Entidade: Professor Doutor Carlos Reis, Professor da Universidade de Coimbra e
filólogo
Dr. José Carlos Vasconcelos, diretor do Jornal de Letras
Recebidos por: Deputados do Grupo de Trabalho de Acompanhamento da Aplicação do
Acordo Ortográfico
Assunto: Acordo Ortográfico
Exposição: O Coordenador do Grupo de Trabalho deu as boas vindas aos intervenientes (o
Professor Carlos Reis a ser ouvido em videoconferência e o Dr. Vasconcelos presencialmente)
e solicitou-lhes que expusessem a sua posição sobre o Acordo Ortográfico (AO) e a sua
aplicação.
O Professor Carlos Reis iniciou a sua intervenção referindo que a vigência do AO não está em
causa e informando que o Brasil prolongou por mais tempo o período de transição, não
obstante o Acordo já esteja em vigor naquele país, sem questões e sem dramas.
Referiu depois que não foi claramente transmitido o que se pretende com o Acordo, situação
que favorece a reação negativa em relação ao mesmo. Nessa sequência, clarificou que se
pretende que o mesmo seja um instrumento político de apoio à internacionalização da língua
portuguesa. Realçou também que se espera tudo do mesmo, mesmo aquilo que ele não pode
dar.
Referiu que as intervenções na língua causam sempre perturbação e informou que em vários
países europeus houve intervenções recentes nesta matéria, nomeadamente em Espanha,
Holanda, França. Salientou depois que a ortografia é também uma questão de hábito e ainda
na década de 1990 foram introduzidas alterações, nomeadamente a nível de acentos, que
estão já assumidas e aceites.
Reiterou que as alterações ao AO precisam de habituação, defendendo que a comunicação
social e o ensino já o incorporaram. No entanto, reconheceu que há algumas dificuldades, que
entendeu que sempre acontecem e que se resolvem com o hábito e com o vocabulário comum.
Reconheceu que não se construíram instrumentos de regulação atempadamente,
nomeadamente o vocabulário comum, embora já exista o vocabulário ILTEC e os vocabulários
da Academia Brasileira e da Academia de Ciências de Lisboa. Realçou que a intervenção do
AO é inferior às alterações de 1911. Por outro lado, informou que o Brasil tem tido uma maior
intervenção no sentido do esclarecimento das alterações geradas pelo AO.
Concluiu que o Acordo permitiu que haja português com uma única norma (não português de
Portugal e brasileiro), como aconteceu noutros países com a respetiva língua.Comissão de Educação, Ciência e Cultura
2
O Dr. José Carlos Vasconcelos referiu que o Acordo Ortográfico está integrado na política da
língua, realçando a necessidade de entendimento a nível da ortografia da língua portuguesa.
Fez depois referência à criação, na década de 1990 e com esse objetivo, do Instituto
Internacional da Língua Portuguesa, que não teve grande sequência.
Indicou como objetivo do Acordo a internacionalização da língua e a maior facilidade de ensino
e de aprendizagem da língua portuguesa. Referiu, a título exemplificativo, a situação de Timor,
que tem professores de Portugal e do Brasil (ao abrigo de acordos de cooperação), os quais
ensinam português de forma diferente, pretendendo-se que haja uma forma comum.
Realçou que uma ortografia única é fundamental para a presença do português nas instituições
internacionais e referiu que o Acordo era para entrar em vigor em 1994 e não se percebe a
demora verificada, realçando que as leis aprovadas têm de ser cumpridas. Informou depois que
só Angola ainda não ratificou o Acordo.
Defendeu que o Acordo não é para escritores e que há questões de grafia a reponderar e a
mudar, nomeadamente o para/para, espectador/espetador, mas seria dramático suspender ou
alterar a aplicação do mesmo.
Interveio depois o deputado Miguel Tiago (PCP), que agradeceu os contributos e referiu que o
seu Grupo Parlamentar não parte com objetivos fixos e deixa em aberto todas as hipóteses, de
vigência do Acordo Ortográfico ou de alteração do mesmo, conforme a interpretação que
fizerem do interesse nacional a nível da política da língua, defendendo que ainda não tinha
havido um debate global da sociedade com esta amplitude.
Referiu que o argumento de unificação da língua em plataformas internacionais não é um bom
exemplo, referindo que nas traduções, se houver unificação de ortografia (realçando que ainda
não há) e prevalência do brasileiro, isso terá um efeito dramático.
O deputado Michael Seufert (CDS-PP) referiu que no seu Grupo Parlamentar estão abertas as
várias soluções, informando que em 2008, aquando da discussão da Proposta de Resolução
do Acordo, houve duas intervenções de deputados do CDS-PP, uma a favor outra contra e que
essas posições se mantêm atualmente.
Depois, questionou se entendem que o objetivo enunciado, de unificação da língua, é
exequível, manifestando a convicção de que haverá sempre diferenças em relação às duas
formas de escrita. Perguntou ainda se houve uniformidade com o Acordo, referindo que
atualmente há 3 formas de escrita.
A deputada Rosa Arezes (PSD) informou que estava a fazer-se a primeira audição com
pessoas a favor do Acordo, salientando que pelo que se sabe mais de metade da população
portuguesa é contra aquele, o mesmo acontecendo com muita comunicação social. Questionou
depois que interpretação fazem desta relutância da população e da comunicação social e bem
assim quais as matérias a mudar no Acordo.
A deputada Gabriela Canavilhas (PS) realçou a riqueza das duas intervenções, referiu que a
não ratificação por parte de Angola se prende com o facto de não ter havido introdução de
palavras específicas daquele país e realçou que é lapidar a indicação do Dr. José Carlos Comissão de Educação, Ciência e Cultura
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Vasconcelos de que, se se fazem leis, as mesmas têm de ser cumpridas. Realçou a
sensibilidade com o desconforto de quem é contra, referindo que muitas vezes o poder político
deixa-se condicionar pela sociedade civil e defendeu a necessidade de ouvir a academia.
Questionou depois quais os procedimentos a levar a cabo para introduzir alterações que
melhorem a aceitação do Acordo e se o Vocabulário Ortográfico Comum pode suprir as
dificuldades atuais ou o que é que entendem necessário para esse efeito.
O deputado Luís Fazenda (BE) referiu que o Vocabulário Ortográfico Comum não quer dizer
único. Informou depois que o BE, em 2008, entendeu que era importante haver uma
aproximação das várias ortografias e uma plataforma comum da língua, sob pena de
prevalência da brasileira, considerando que acantonarmo-nos na nossa grafia não parece ser a
solução. O óbice agora indicado é que o AO não trouxe unicidade, mas aumentou a
divergência.
Referiu ainda 2 óbices atuais, a saber: o facto de o Brasil ter introduzido uma prorrogação,
enquanto o nosso Ministro dos Negócios Estrangeiros diz que Portugal não alterará a sua
posição; a existência de uma iniciativa legislativa de cidadãos contra o AO, em relação à qual
os Grupos Parlamentares deverão tomar posição, analisando os seus vários argumentos.
Indicou ainda o BE com diferenciação de posições e questionou quais os mecanismos de
atuação que temos se o Brasil não cumprir o Acordo.
Em resposta às questões colocadas e às observações feitas, o Professor Carlos Reis reiterou
que o Brasil está a cumprir o Acordo e bem, tendo apenas prorrogado o período de transição.
Em relação aos objetivos do Acordo, realçou que não se pretende unificar as línguas, mas
esbater as suas diferenças, aproximando-as. Nessa linha, fez referência a um artigo de Jorge
Candeias sobre as diferenças ultrapassadas pelo Acordo e as geradas pelo mesmo, tendo
concluído que se regista um balanço de 5 para 1 a favor das diferenças ultrapassadas.
Reiterou o objetivo do AO de dar ao português uma norma única, sem prejuízo das diferenças
existentes em algumas palavras. Salientou que a ortografia não tem influência no léxico e
normativo da sintaxe e realçou que o português é mais condicionado pela televisão,
nomeadamente pelas telenovelas brasileiras, que geraram a introdução de muitas expressões
e palavras.
Informou que já existe software formatado que respeita as diferenças existentes e defendeu
que o Vocabulário Ortográfico Comum é decisivo para mostrar a grafia das palavras diferentes,
tendo dado como exemplo a palavra autocarro.
Na sequência da indicação de que tinha sido feita a audição de professores e alunos do ensino
secundário, sugeriu a audição de alunos mais jovens, que estão a aprender a escrever, tendo
defendido que o Acordo permite uma aproximação da escrita com o que se diz.
Em traços gerais, manifestou uma opinião favorável em relação às vantagens do AO. Em
relação à indicação de que mais de metade da população é contra o mesmo, referiu que as
pessoas resistem às mudanças, mas há uma pura opinião em relação ao número de pessoas
que estão contra, sem recurso estatístico. Nessa linha, indicou que dos 10 jornais mais lidos, 8 Comissão de Educação, Ciência e Cultura
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já usam a ortografia do AO. Salientou ainda que há questões que têm de ser reajustadas, como
sejam o caso da utilização do hifen.
O Dr. José Carlos Vasconcelos referiu que o Brasil fixou uma data limite para aplicação do AO,
não obstante esteja já em franca aplicação do mesmo. Indicou que muitas pessoas estão
contra o Acordo para não serem ultrapassadas pelo Brasil, entendendo, no entanto, que a
inexistência de aproximação linguística é que geraria a prevalência da grafia brasileira.
Reiterou que a ortografia tem pouco a ver com a literatura e que o tempo resolve muitas coisas
de ortografia. Salientou que em 1911 também houve muita resistência à mudança de
ortografia, por exemplo à queda do y. Esclareceu que Timor subscreveu o AO. Por último,
salientou que a questão principal do Acordo é a internacionalização da língua e a introdução de
maior facilidade no ensino.
A documentação da audiência, incluindo a gravação, encontra-se disponível na página da
Comissão, na Internet.
Palácio de São Bento, 28 de fevereiro de 2013
A assessora
Teresa Fernandes
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Julgo que se pode dizer que a literatura sempre teve, para mim, algum tipo de serventia em particular. Tomei contacto com ela aos quatro/cinco anos, soletrando de dedo esticado as palavras da Bíblia Sagrada, e logo ela assumiu a sua primeira utilidade prática. Nós éramos protestantes, manuseávamos “O Livro” – e era através d’“O Livro” que começávamos por manifestarmo-nos gente.
Mal se insinuava no horizonte a entrada para a escola, recebíamos do nosso avô um relógio e dos nossos pais um exemplar das Escrituras, tradução de João Ferreira de Almeida, Velho e Novo Testamento num volume só – e era com esse volume debaixo do braço, transportado numa pastinha de napa, sublinhado a marcadores fluorescentes e decorado nos seus versículos essenciais (João 3:16, todo o Salmo 23, o “Ide por todo o mundo e pregai o Evangelho”, do Evangelho Segundo Marcos) – era com esse volume debaixo do braço que nos tornávamos, por assim dizer, gregários.
Depois, aos catorze/quinze anos (talvez dezasseis, embora eu goste de acreditar que foi mais cedo), eu percebi, enfim, que a literatura existia [não foi só a literatura, mas tudo o resto que se descobre aos catorze anos é inconfessável]. Dei numa montra com um exemplar de “Um Deus à Beira da Loucura”, de Daniel de Sá [há aqui vários amigos e admiradores de Daniel de Sá], e, da primeira vez que alguém me pôs dinheiro no bolso, peguei em quinhentos escudos e fui comprá-lo.
Eu alinhava razoavelmente as frases na disciplina de Português, mas não fazia sequer ideia de para que servia um livro que não a Bíblia. Na verdade, era aquele qualificativo, “À Beira da Loucura”, atribuído ao Criador de todas as coisas, que me interessava. Eu julgava ter descoberto que o Deus que me cativara a infância era, afinal, invejoso e castigador, repleto de proibições e de cólera – e ter aquele livro sobre a mesa de cabeceira assumia duas serventias em simultâneo: não apenas me fazia sentir profundamente subversivo, como também menos só na posse desse segredo de que Deus, na verdade, era mau.
Depois, sim, depois li essa pequena novela de Daniel de Sá. E depois um romance. E outro, e outro – uma série deles, açorianos e do mundo. E ler livros tornou-se uma bandeira: aquilo que me distinguia no meio do marasmo de uma ilha triste e enfadonha. E depois a ideia de que escrevia bem tornou-se outra bandeira ainda: o meu melhor recurso para aplacar a menoridade social.
Nada disto, até aqui, é distinto daquilo que aconteceu convosco. E estamos de acordo: esta é, muito provavelmente, a serventia mais frívola que os livros e a literatura podem ter nos nossos percursos de vida: primeiro colocam-nos numa posição um nadinha mais a salvo das crueldades da adolescência (do tipo: “Deixa lá estar esse, que lê livros e deve ser meio maluco”) e depois até nos arranjam namoradas, nos tempos da faculdade, onde qualquer vago aforismo parece capaz de mobilizar a raiva, ou pelo menos de enternecer um coração.
Quem nunca precisou dos livros para prevalecer sobre a inaceitação, qualquer que ela seja, provavelmente nunca precisou dos livros como os livros devem ser precisados.
E depois, finalmente, veio a utilidade da idade adulta. Lidos ou mesmo escritos por mim, os livros passaram a servir-me para regressar a casa. Eu vivia em Lisboa há cinco, há dez, há quinze anos – e só os livros conseguiam devolver-me à ilha, inclusive à ilha que já nem sequer existia, e que aliás agora já não me parecia tão triste e enfadonha, mas alegre e exuberante e autêntica e minha. Também nisto coincidiremos, muito provavelmente: escrever, como ler, continua a ser sobretudo um modo de voltar. De voltar à infância. De voltar a casa. De voltar, até, a onde nunca sequer se esteve, se me permitem o paradoxo fácil. Um modo de fazer as pazes. E um modo de continuar.
Julgo que, se não tivessem sido os livros, eu nunca teria conseguido viver vinte anos em Lisboa, penando com a ausência da terra-mãe. E tenho a certeza de que, se não tivessem sido eles, não teria conseguido regressar em definitivo a ela, como fiz recentemente, instalando os meus modos e os meus gestos e os meus cheiros e as minhas rotinas e os meus objectos lisboetas na freguesia rural da Terra Chã, ilha Terceira, na casa onde os meus avós viveram os últimos cinquenta anos das respectivas vidas, e assim dizendo o meu próprio: “Para sempre. Aqui estou.”
Mas: para que me vão servir os livros agora? Eis a dúvida por que me deixei assaltar aqui há umas semanas, quando peguei nas cento e poucas páginas já escritas do romance em curso, as reli pela duocentésima vez e cheguei à conclusão de que estavam, afinal, “uma merda” – de que, em suma, eu não tinha a mínima ideia do que estava a fazer.
Para que vou eu precisar dos livros agora? Tenho as pazes feitas com Deus, de cuja música e de cuja arquitectura gosto tanto. Os vizinhos colhem batatas ou matam um porco ou fazem uma pipa de aguardente de néveda e vêm dependurar-me na porta um bocado, para eu provar. De namoradas, já tive mais do que merecia: duas – e, aliás, ou muito me engano, ou já casei vezes suficientes [casei com as duas].
E, entretanto, regressei de facto a casa. Regressei a casa e sento-me a ler o jornal da terra naquela mesma cozinha onde o meu avô, José Guilherme, se sentava a ler o jornal da terra – e às vezes vem o meu pai e senta-se comigo, e às vezes vem o Zé Maria e senta-se connosco, embora só eu o possa ver porque é um fantasma – e a certa altura já estamos à mesa todos, eu e aqueles a quem dediquei livros, sobre quem escrevi, cujo amor quis conservar, e pergunto-me: “Escrever o quê, agora?” E o que estou a perguntar é: “Escrever para quê? Terão alguma serventia, a partir daqui, os meus textos?”
Afinal, sem serventia, neste tempo, é que já não dá mesmo. John Banville está a reescrever Philip Marlowe e William Boyd a reescrever James Bond – talvez com a serventia de enriquecerem, talvez com a serventia de submeterem a literatura às regras do cinema comercial. Cada vez mais de nós estão a escrever segundo uma estranha corruptela desta língua, “exceção” sem P, “hei de” sem hífen, “para!” sem acento – talvez com a serventia de ajudarem a tornar a língua num mercado, talvez com a serventia apenas de agradarem a nem sabem bem quem.
E eu, não sendo capaz de reescrever Elias Santana, nem sequer João Garcia, e menos ainda Calisto Elói, escreverei agora para quê? “Apenas” para tentar reinventar ligações entre as palavras, na presunção de que poderei ser eu a iluminar-lhes novas utilidades e, por conseguinte, a abrir-nos a todos novos modos de pensar?
Logo eu, que vivo subjugado pelos computadores, dependente da Internet, submetido à ditadura dos iPhones e dos iPads – poderei ser eu a oferecer à literatura uma nova superação da sua subalternidade, a permitir-lhe vingar-se, mais uma vez, da urgência de uma serventia, a encontrar-lhe nova e superior serventia? E logo neste tempo em que se deixou, em definitivo, de ouvir as palavras “Este livro mudou a minha vida”? Logo agora, que até se convencionou que as elites se podem dispensar de uma cultura literária e serem simplesmente cretinas – e dizerem, inclusive, que se um sem-abrigo aguenta, temos todos nós mas é de aguentar também?
Resta-me, pois, juntar-me a Daniel de Sá e escrever para aquela montra de Angra do Heroísmo onde talvez passe um jovem de dezasseis anos e queira distinguir-se entrando. Resta-me, provavelmente, juntar-me a Daniel de Sá e a Álamo Oliveira e a Dias de Melo e a Madalena Férin e a Urbano Bettencourt e a Emanuel Jorge Botelho e a Vamberto Freitas e a Onésimo Teotónio de Almeida e a João de Melo – a João de Melo também, sim –, e aliás a tantos outros, e tentar oferecer aos meus livros a serventia de tocarem um rapaz de dezasseis anos e, quem sabe, deixá-lo para sempre obcecado com a ideia de voltar a casa.
Interessa-me pouco o debate académico em torno da existência ou não de uma literatura açoriana, em que tantos dos escritores da geração anterior à minha se desgastaram. Mas interessa-me que a literatura tenha sido, ao longo destes quase quarenta anos de autonomia política e administrativa dos Açores, uma das mais importantes ferramentas para a consolidação de uma identidade comum àqueles nove (e tão distintos) pedaços de terra dispersos pelo mar.
Por isso, se me dão licença, eu vou ficar ainda um pouco mais chato com os Açores. Os meus livros vão tornar-se mais açorianos ainda e as minhas conversas mais açorianas ainda e eu mais insistente ainda nas tentativas de despertar os lisboetas e os portugueses para a opressão silenciosa – para a opressão sorridente – de que a minha gente e as suas possibilidades estão a ser alvo.
Será essa, a partir de agora, e em definitivo, a minha serventia. “A serventia dos meus textos”, como diz o poeta. Também eu quero, enfim, tornar-me naquilo que sempre fui: um escritor de fronteira, atento à fúria dos elementos e atento à fúria dos homens.
E, pelo meio, talvez os meus livros venham a ser capazes de sugerir que, no fundo, nunca se regressa verdadeiramente a casa. Que, na verdade, a infância é irrepetível – e que, muito provavelmente, a maior tragédia de todas é mesmo essa.
Talvez eles possam, enfim, continuar a ser literatura. Ou mesmo serem-no finalmente.
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“Estamos demasiado portugueses. Temos de tornar-nos novamente um pouco mais açorianos e um pouco menos portugueses.” Digo-o a meio de um raciocínio mais ou menos tortuoso sobre literatura açoriana, feito em resposta a uma pergunta da audiência. Não me soa tão mal quanto isso, e o incómodo com que alguns dos presentes reagem agrada-me. A dirimir.
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Muito me agradaria se me convidassem todos os anos, para este ou para outro festival. Um festival literário a cada doze meses seria uma boa maneira de, face às fronteiras da ilha, me reposicionar perante a coisa literária, o seu universo, a sua magia. O vereador que preside à cerimónia de encerramento elogia-me a intervenção e convida-me a voltar em 2014. Talvez tenham sido palavras de circunstância. Mas fico satisfeito.
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É, para além de um milagre e um exemplo de organização, o certame. Esta tarde vinha caminhando na rua com o Marmelo e logo apareceu um carro oficial, com um diligente motorista oferecendo-nos transporte para alguma parte. Inspirador.
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Na última noite de copos, volta a cantar-se o “Grândola”, meio a brincar e meio a sério. Alguns dos mais zangados olham para mim, a conferir se tenho coragem. Já algum tempo que sou o conservador de serviço, e não se pode dizer que a ideia me desagrade. Mas canto com eles, naturalmente. Sou um democrata e não apenas respeito, como admiro (mais do que admirar: venero) o 25 de Abril. Exactamente como eles. E que possam questionar-se sobre isso é outro sinal da esquizofrenia em que neste momento vivemos.
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De resto, até para isso este festival serviu: para confirmar a hipótese de os intelectuais não estarem a desempenhar devidamente o seu papel nesta crise. Identifica-se o problema, mas não se propõe alternativa – e, pelo meio, tudo se resume a um maniqueísmo ritualista muito mais próximo (de novo) do comportamento de uma claque de futebol, ou do dos adolescentes carregados de hormonas em dia de aula de Educação Física, do que do pensamento. É normal um intelectual comportar-se como um soldado, num certo instante ou durante um determinado período de tempo. Mas, se todos os intelectuais se comportam como soldados ao longo de um mesmo período de tempo, a quem poderemos recorrer como intelectuais?
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Mas não, este não é um tempo especialmente auspicioso para um moderado. De facto, não é.
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A autonomia muda
Manuel Leal
Para publicação no Expresso das Nove
A autonomia está sob um ataque matreiro, subtil e silencioso. É o prosseguimento da política de contenção iniciada ainda em 1975 pelo general Altino de Magalhães, um militar ardiloso como uma raposa. Desde então, todas as chamadas conquistas autonómicas não passaram de concessões táticas da República. O governo central beneficia ainda da conspiração de interesses internacionais que o dominam.
Seria de esperar, todavia, que os órgãos do Governo Regional reagissem a esta nova investida. Não há uma estratégia credível das chamadas hostes autonómicas para resistir como em termos históricos antes ocorreu. Porque é preciso colocar o Governo da República perante um nó górdio. Ou respeitaria a autonomia, ou teria de acabar com ela, forçosamente. Mas seria preciso coragem, e lealdade aos Açores, para se colocar a justiça desta posição, sistematicamente e de modo insistente, à avaliação do povo açoriano. Por isso a TV regional, independente e isenta de cordelinhos prosélitos, é mais necessária do que os «melhoramentos» de fachada com propostos publicitários.
A oposição a este assédio cada vez mais apertado tem de fazer-se através da voz popular. De maneira que o governo central se veja forçado a intervir diretamente ou a respeitar a vontade açoriana. A primeira seria recebida no mundo, e sobretudo onde a diáspora açoriana possui uma presença numerosa, com um vozeirão de protesto. A segunda, porém, não enfraqueceria a integridade da nação. Não está em disputa o gestalt nacional, mas o processo neocolonialista no exercício do poder central.
Independentemente dos erros que o governo de Carlos César cometeu ao longo dos anos, em alguns dos momentos mais graves ele identificou-se, pelo menos de modo simbólico, com a defesa da autonomia. Mas o governo do seu sucessor, Vasco Cordeiro, parece manifestar uma timidez incómoda, evocativa dos últimos anos, anémicos, da governação de Mota Amaral.
Nenhum dos partidos no Governo Regional soube ainda lutar pela autonomia numa aliança inequívoca com o povo, após o período inicial do entendimento entre o PPD/ PSD e a FLA. Por isso caiu a administração social-democrata de Mota Amaral, que abandonou o governo apadrinhado pelo seu partido nacional. O atual elenco socialista, tanto no Executivo como na Assembleia, de que muito se esperava, prefere funcionar no silêncio no relacionamento com a metrópole . Fora da observação popular, francamente, ninguém sabe o que faz.
Os partidos com assento nos órgãos do governo do Arquipélago são extensões dos partidos nacionais, como as vacas à corda. Só assim se explicam as verbas eleitorais e outros privilégios que os reizetes regionais recebem dos sobas nacionais. Naturalmente, presume-se que têm de obedecer à estratégia eleitoralista, e não só, das estruturas centrais sedeadas em Lisboa.
Por outro lado, os açorianistas ainda não souberam trazer para as eleições líderes relevantes e geralmente respeitados como tal, e populares, a fim de conquistarem a confiança dos eleitores. Nem possuem os meios financeiros e a organização para competirem com as associações nacionais. A legislação portuguesa, como todos os sistemas centralizados e neocoloniais depois da doutrina de Woodrow Wilson, criou uma organização enganosa e legalista que favorece os chefes partidários e os grupos de interesses apostados na minimização do poder regional.
A autonomia perdeu credibilidade. Não alimenta a esperança, nem oferece uma alternativa, de que as instituições açorianas se possam opor ao centralismo da metrópole. O Governo Açoriano, e o partido que o mantém, caminha para um fiasco sem uma postura claramente autonómica.