como vivi e escrevi sobre o 25 de abril (em Timor-Leste)

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in ChrónicAçores volume um

Por mais que o tentassem convencer que o 25 de Abril fora um erro, jamais esqueceria a Ditadura Nacional e os anos que se seguiram e preencheram a primeira parte da sua vida. Chegava já a admitir que a sociedade no tempo da ditadura era menos corrupta, a justiça funcionava melhor, e a educação (se bem que elitista) proporcionava muitos mais conhecimentos do que hoje em dia. Mas a falta de liberdade, a opressão política, a cegueira colonial e a falta de visão para o futuro, eram zonas negras dos anos de obscurantismo salazarista. A sua mãe bem se podia orgulhar de ter apertado a mão ao ditador (o seu pai costumava ironizar dizendo que ela andara dias sem a lavar) mas todos esses anos foram apenas de obscurantismo e repressão. Uma minoria de pessoas, que se julgavam importantes, bajulavam o velho ditador em troca dumas pequenas benesses e lugares de proeminência, enquanto a polícia política, silenciosa e matreiramente, se encarregava de punir todos os que queriam pensar pela sua própria cabeça. Cuidando do país como se de uma mercearia se tratasse e escorreitas as contas, o ditador começara a amealhar uma valiosa fortuna para o país, para a geração pós 25 de Abril perdulariamente esbanjar. Tal como o ditador fazia com ele mesmo, na sua espartana e sovina maneira de ser, incorrupto, acabaria por nunca investir nem gastar essa fortuna. Nem para melhorar o país, nem para uso pessoal (honra lhe seja feita) pois o país não precisava de progresso que esse só traz a devassidão e maus costumes. Era conhecido por “botas” por jamais usar outro calçado que não botas. De igual forma imaginava um país, vestindo uniforme e cinzento, como ele mesmo. Queria uma massa de seguidores fiéis que nunca o questionassem, e uma população ignorante para poder continuar a dirigi-la sem que ela se inquietasse com o rumo seguido, numa visão paternalista e autocrática. Um bom dono de mercearia mas sem ideias para o país, para além dos seus ideais sempre próximos do Eixo da 2ª Grande Guerra, por quem nunca escondeu a sua simpatia apesar de ter mantido Portugal “oficialmente” neutro na guerra (exceção feita à ocupação de Timor pelos japoneses e australianos). Emulava o seu vizinho da Espanha que vencera a guerra civil espanhola contra os comunistas e outros vermelhos, inimigos dos católicos e da pátria, mas jamais poria os pés fora do torrão continental do velho e decadente Império Colonial Português. Nunca se apercebera de que deveria ter melhorado a situação de pobreza extrema e de miséria da maioria da população.
Lembra-se de ter escrito um artigo sardonicamente crítico das eleições para a famigerada Assembleia Nacional. A sua sátira mordaz fora entendida pelos apaniguados do regime (como o secretário do governador, José Joaquim Espiga Tomás Gomes) como sendo exemplificativa do apoio que as novas gerações davam ao velho regime. Só lamentava não ter recuperado esse número de A Voz de Timor e não ter guardado esse manuscrito. Logo a seguir dá-se o abortado Golpe das Caldas (da Rainha) a 16 de Março e logo a seguir o 25 de Abril que só chegaria a Timor a 18 de Novembro desse ano. A onze de Março, e sem qualquer pré-aviso, o Governador Alves Aldeia deixa o território rumo a Portugal para “expor os problemas de maior impacto [ao Governo de Lisboa] na promoção socioeconómica do povo timorense, considerada prioritária em relação a todos os demais.”
A dezasseis de Março, na pequena vila das Caldas da Rainha em Portugal, um grupo de oficiais do exército tenta, sem sucesso, arrebatar o poder ao Dr. Marcello Caetano, então Primeiro-ministro, que sucedera a Salazar, como perpetuador da ditadura, sob um manto de pseudo-abertura política designada como “primavera política”. Sobre o abortado ‘Golpe das Caldas‘ nada transpira em Timor até mais tarde. Em 26 de Março, o governo australiano apresenta um protesto formal ao governo português pela concessão por Lisboa dos direitos de prospeção de petróleo à companhia norte americana “Oceanic.” A área em contencioso tinha cerca de 23 mil milhas quadradas (59,565 km²) e, de acordo com a reivindicação australiana, continha partes já sob a concessão dada à companhia australiana Woodside-Burmah Oil. Para além disso, de acordo com a Nota Oficial de Protesto, do governo de Camberra, outras áreas da zona de concessão da Oceanic faziam parte de uma área que estava a ser negociada entre a Indonésia e a Austrália para perfurações de prospeção. De facto, um terço da área concedida à Oceanic era um enclave entre plataformas offshore já projetadas, e cedidas por concessão à australiana Woodside-Burmah. Entretanto, em Camberra, o embaixador português, Dr. Mello Gouveia apresentava ao Governo Australiano uma Nota Oficial [de Protesto] onde o Governo declarava “não poder reconhecer a reclamação australiana, por não haver legislação suplementar entre os dois países, ambos signatários do Tratado de 1954 (Convenção Internacional sobre Fronteiras Marítimas).” Gough Whitlam, primeiro-ministro australiano reagiu energicamente a esta Nota, numa Conferência de Imprensa, em que afirmava, que: “O Governo Australiano tem o direito de defender os recursos naturais do país que estão a ser postos em questão no Mar de Timor.”
Esta confrontação sobre o dossier petróleo vai, em breve, passar a segundo lugar face às gravíssimas crises constitucionais em ambos os países. Uma controvérsia sobre educação abalava por esses dias Timor, com o Dr. Félix Silva Correia, (então representante da ANP em Timor e Chefe da Repartição dos Serviços Provinciais de Educação), reagindo iradamente contra observações críticas às estruturas da educação e alegados aumentos de alfabetização. O jornal local “A Voz de Timor” publicara, em 19 de Março, um suplemento especial dedicado à educação e, nele incluía uma entrevista auto elegíaca do Dr. Félix Correia. Os editoriais denunciam as falsas estatísticas e apresentam propostas para melhorar o nível de ensino e de alfabetização. Em vez de aceitar os dados estatísticos oficiais de 80% de alfabetização JC avançava com o mesmo número mas representando o analfabetismo. De imediato, a máquina política manipulada pelo Dr. Correia inicia um coro de protestos de apoio à educação, na sua maioria assinados em cartas à Redação pelos mais representativos líderes locais e funcionários públicos. JC é sujeito a um inquérito oficial liderado pelo Governador interino. Alguns professores, irritados pelas acusações, que consideram difamatórias, exigem uma reparação.
Timor vive os últimos dias do decrépito Estado Novo e nem sequer se dá conta disso. No mesmo número, publicava-se um artigo ‘Educação e Autonomia’, já com algumas décadas, do autor português proscrito, António Sérgio. Recorde-se que este autor era tabu (antes do 25 de Abril), mas o artigo não motivou comentários, se bem que devesse ter sido banido de publicação. Incoerência dos censores ou mera e flagrante ignorância?
Curiosamente (ou talvez não), Ramos Horta escreve editoriais a apoiar Félix Correia. Como Editor-Chefe do jornal e autor de “Educação – Um Suplemento Especial” JC é suspenso. Sendo oficial miliciano está sujeito aos regulamentos e normas militares, devendo enfrentar a justiça militar pelo seu crime. A repressão das hierarquias militares suscita uma greve simbólica (de braços caídos) dos Serviços da Imprensa Nacional, liderados por Cristóvão Santos, onde o jornal era impresso. O Governador interino impõe profundos controlos no jornal depois daquele danoso desaire. O autor, silenciado com a mordaça do RDM (Regulamento de Disciplina Militar) fica impedido de se expressar publicamente ou de apresentar defesa. Esta controvérsia arrasta-se até Abril 1974.
Entretanto, como Chefe Interino do Batalhão de Serviços de Intendência, responsável por víveres e combustíveis em todas as unidades militares do território, JC consegue aprovar um novo sistema de utilização de gasolina. Pela primeira vez, os soldados e os cabos (os mais desfavorecidos economicamente) passam a ter direito a obter artigos de consumo para uso pessoal, tal como já acontecia com as elites hierarquicamente superiores. Crê-se que o Comandante Militar Interino, Tenente-coronel Mário Dente, assinara o despacho para o novo sistema, sem lobrigar a sua perigosa latitude. Nesse mesmo dia, 5 de Abril, como resultado da ação do novo sistema, outra controvérsia surgia: as autoridades civis exigem que o governo intervenha e cancele o sistema. Convém referir que os civis estavam sujeitos a restritas medidas de racionamento de gasolina desde Dezembro 1973. Os militares tinham estoques à sua disposição para um consumo máximo até dezoito meses, fruto da gestão cuidada dos Serviços de Intendência. A situação entre civis e militares é tensa. As chefias militares temerosas. Evitam agir em vésperas da chegada do Governador e Comandante em Chefe. O próprio Governador, Coronel Aldeia, nomeara JC para tomar conta do jornal, pouco depois de o trazer de Bobonaro para Dili.
Ainda na célebre edição de 19 de Março, JC publicara uma colagem com alusões à falhada rebelião das Caldas da Rainha. Incluíra-se também uma menção ao controverso livro “Portugal e o Futuro” pelo, então General Spínola (em breve, novo Presidente de Portugal), e o apoio que tal livro recebera nas Nações Unidas.
Outros editoriais naquele número histórico abordavam os problemas que poderiam ter provocado o Golpe das Caldas, seus precedentes e possíveis implicações futuras. Nada disto fora censurado. O sucesso foi tal que obrigou, pela primeira vez na história do jornal, a que se fizesse uma re-edição…Enquanto isto acontecia, reorganizara o jornal e passara-o a diário, lentamente aumentara a tiragem e o tamanho da edição especial de sábado. Começara com 8, passara a 12, 16 e finalmente 24 páginas, com a ajuda do Chefe da Imprensa Nacional, Cristóvão Santos e com o (futuramente celebrado prémio Nobel da Paz) José Ramos-Horta a trabalhar como seu secretário no jornal. Era uma tarefa difícil num sítio onde não chegavam notícias, a não ser por onda curta, as revistas e jornais da metrópole eram velhas quando chegavam…Fizera colagens bem interessantes, retiradas de várias revistas para ilustrar as principais notícias, dado que tinham grandes dificuldades técnicas em imprimir imagens, e as que podiam eram pequenas. O equipamento era bem antigo. A composição era manual e morosa pois não havia grande variedade de tipos de letra.
O Governador Aldeia retorna a Timor a 19 de Abril. Logo após a sua chegada ao aeroporto profere o seu mais virulento discurso, para espanto dos locais.
Negando qualquer representatividade ao denominado “Movimento dos Capitães,” Aldeia salienta que “o abortado Movimento das Caldas foi severamente reprimido, e não encontrou qualquer eco ou apoio em todas as camadas, inclusive as militares.” Classificando de ‘traidores‘ os capitães envolvidos, Aldeia, neste discurso, diz ainda da alegria que sentia (em nome dos timorenses), ao ver satisfeitas todas as propostas apresentadas ao Governo Central, abrindo caminho a uma nova era de prosperidade para Timor: “Falando em nome de todos os Timorenses, tenho o prazer e a alegria de vos dizer que o Governo de Lisboa está satisfeito por poder ajudar o fiel povo de Timor, que durante tantos séculos tem sido tão fortemente Português.” Este discurso, o mais político de todos os que Aldeia fez marcou uma viragem do seu estilo habitual, de sobriedade política. Houve quem especulasse que estaria a aproveitar-se dos últimos acontecimentos durante a sua estadia em Portugal. Pouco tempo demoraria a que Aldeia e o seu discurso fossem votados ao esquecimento total, lá no cemitério da política donde raramente se regressa.
De facto, o seu melhor discurso marcou o princípio e o fim das suas aspirações políticas.
Em 27 de Abril, por sua ordem direta, executada pelo seu Secretário pessoal, Dr. J. J. Thomás Gomes, a composição deste seu discurso era retirada da Imprensa Nacional e a gravação do mesmo era retirada da estação local de radiodifusão ERT (Emissora de Radiodifusão de Timor.) O discurso quer no seu registo magnético, quer na sua transcrição escrita são, deveras, comprometedores, em termos do 25 de Abril em Portugal. Assim começou o que alguns denominaram, como “Aldeiagate.”
Embora Timor não dispusesse de telex, desde o ano anterior dispunha já de contactos radiotelefónicos com o mundo exterior. Assim, quando a Revolução dos Cravos aconteceu em 25 de Abril houve quem recebesse a notícia via telefone. Depois disso, era só uma questão de perder algum tempo agarrado aos rádios de ondas curtas…Era hora de jantar e JC estava de Oficial (Ajudante) de Dia no Quartel-general. O idoso Oficial de Dia já estava há muito a olhar para o seu umbigo, depois da sua rodada habitual de vinho “Periquita” ou outro qualquer. O operador da Telecom local, a Rádio Marconi, ligou a dizer a JC que ia ter uma chamada telefónica uma hora depois. Chamou o condutor de serviço, mandou-o ligar o Jeep e passados quinze minutos estava em Díli, ansiosamente esperando ‘a chamada’. Pressentia tratar-se de algo muito importante. Anteriormente, acordara com a família que só haveria telefonemas em caso de emergência. Há muito que confirmara que toda a sua correspondência era sujeita a censura prévia e as suas chamadas telefónicas gravadas. Sem perder tempo, pede ao condutor para passar por casa nos apartamentos da SOTA, no Largo de Lecidere, onde comunica aos colegas de habitação (o cirurgião Prata Dias e o engenheiro Proença de Oliveira, subchefe da Repartição dos Serviços de Agricultura) o que ouvira. Era a REVOLUÇÃO. Pede-lhes o máximo sigilo, liga o rádio em ondas curtas e regressa ao Q.G. (Quartel-General) onde anota no relatório que nada havia a assinalar da ‘ronda’ pela cidade. Durante o resto da noite, escuta avidamente os noticiários da BBC, Rádio Austrália e toda uma série de emissoras (até ouvira a Rádio Paquistão, pela primeira vez). Na manhã seguinte, o camarada Freitas, que ia render o autor, pergunta se havia novidades de Portugal. Sem confiar em ninguém, depois do que se passara com a controvérsia no jornal no mês anterior, responde-lhe: “Nada, que esperavas?”
Os dias que se seguem são caóticos, com toda a espécie de rumores a circular e um generalizado sentimento de incredulidade pelos acontecimentos. Quando as novas de que o governador tinha mandado apreender a gravação e a versão impressa do seu discurso, a maior parte das pessoas convenceu-se de que a ‘Revolução dos Cravos’ não era já fruto da imaginação. Os dias passam, e o oportunismo camaleónico é avassalador. Do dia para a noite todos são revolucionários. A necessária e esperada demissão do Governador Alves Aldeia começa a demorar mais do que as pessoas haviam esperado. Torna-se necessário que ele entregue a sua carta de demissão depois do já famoso discurso em que, de forma obstinada, se opunha àquilo que era já o novo regime político.
Começam a tomar vulto os rumores de que o capitão tenente Leiria Pinto, Comandante da Defesa Naval, é o nomeado pela Junta para agir localmente. Estes boatos confundem muita gente, pois Leiria Pinto era considerado como tendo ideias de direita extremamente conservadoras. Ao mesmo tempo, há quem afirme que o Chefe de Estado-maior, Major Arnao Metello, um sombrio oficial de carreira, do exército, vindo de boas famílias, é o homem de confiança da Junta de Salvação Nacional. O major Metello é um oficial conservador conhecido pela sua falta de decisão e pela falta de garra em tudo o que se reportava à ação colonial de Portugal. A oposição à continuação do coronel Aldeia no poder cresce de dia para dia. Ameaça tornar-se numa bola de neve, com os militares definitivamente divididos entre os progressistas – na sua maioria oficiais milicianos, furriéis e sargentos – e a velha guarda dos oficiais de carreira.
Entretanto em Portugal, os soldados usam os cravos encarnados nos canos das suas espingardas. O povo anda excitado com a liberdade acabada de aprender. Sobem os barómetros da esperança depois de 48 anos de obscurantismo. A situação começa a clarificar-se em Maio, embora nem todos os decretos aprovados em Lisboa se tornem extensivos a Díli. Quase nem um tiro fora disparado em Portugal. O regime caiu porque estava tão podre que estava incapacitado de suster qualquer ataque frontal. A celebrada vitória vem estampada em todos os jornais e revistas que chegam a Timor, mas de uma certa forma, parece estar a anos-luz de Timor.

Depois do 25 de Abril (data da Revolução dos Cravos em Portugal) JC começara a publicar artigos que o Comando Militar e, em especial o CEM (Chefe do Estado-Maior Arnao Metello) queriam evitar. Começara a ser chamado todas as manhãs ao CEM que simpaticamente mandava o seu motorista no velho Volkswagen do Estado-Maior buscá-lo a casa. Nessa rotina lá tinha de explicar porque publicara artigos censurados e considerados material proibido. Esta rotina prolongou-se por bastante tempo e trouxe consequências ao seu serviço militar. Uma verdadeira caça ou o jogo do gato e do rato. Em Julho desse ano morreu o seu avô materno por quem nutria um amor muito especial e de forma profunda por essa pessoa doce, carinhosa e com um enorme coração. Só saberia dessa morte em Setembro

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J. CHRYS CHRYSTELLO, 

biografia de Fernando Pessoa

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esteve recentemente em Portugal na RTP no programa do Herman:

José Paulo Cavalcanti Filho escreveu biografia de Fernando Pessoa onde revela novos heterônimos

MARCO RODRIGO ALMEIDA
DE SÃO PAULO

José Paulo Cavalcanti Filho tinha um objetivo quando iniciou sua biografia de Fernando Pessoa (1888-1935): descobrir quem era o “homem real” por trás do grande poeta português.
Após oito anos de pesquisa, o autor e advogado pernambucano acabou deparando-se não com um, mas com 127 “Pessoas”.
É esse o número de heterônimos do poeta catalogado pelo livro “Fernando Pessoa: Uma (quase) Biografia”, que Cavalcanti lançou.
As múltiplas personas de Pessoa vão muito além de Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos, e superam também o que pensavam os especialistas.
Cavalcanti cita no livro que, no início dos anos 1990, eram conhecidos 72 heterônimos de Pessoa. O livro acrescentou 55.
O conceito de heterônimo que adotou é amplo e não se restringe à definição padrão: “nome imaginário que um criador identifica como o autor de suas obras e que apresenta tendências diferentes das desse criador”.
Inclui todos os nomes, tendo estilo próprio ou não, com os quais o poeta assinou seus textos. A decisão pode ser contestada, mas a intenção de Cavalcanti nunca foi fazer uma biografia convencional.
As excentricidades já começam pelo subtítulo: “Uma (quase) Autobiografia”.
O autor refere-se ao trabalho como o “livro que escrevi com meu amigo Pessoa”.
A “amizade” é das mais antigas. Começou em 1966, quando Cavalcanti leu “Tabacaria”, um dos principais poemas do autor.
A partir daí, viria a montar umas das principais coleções sobre vida e obra de Pessoa.
O poeta deixou mais de 30 mil páginas com anotações sobre si mesmo, literatura, família e fatos cotidianos.
Cavalcanti usou tantos trechos que chega a dizer que seu livro tem “mais frases de Pessoa do que minhas”.
“Mas não se trata”, explica, “de Pessoa falando sobre si, é a palavra de Pessoa falando sobre ele. Ou melhor: é o que quero dizer, mas por palavras dele”.
Cavalcanti foi ainda além: para dar unidade estilística ao texto, tentou escrever como Pessoa.
Reduziu os adjetivos e adotou outro hábito dele: o uso, em média, de três vírgulas antes de um ponto final.

ilustração: Almada Negreiros
O escritor Fernando Pessoa, cuja biografia brasileira revela novos heterônimos, em caricatura feita por Almada Negreiros
O autor Fernando Pessoa, cuja biografia brasileira revela novos heterônimos, em caricatura de Almada Negreiros

SEM IMAGINAÇÃO
Durante a pesquisa, Cavalcanti foi até quatro vezes por ano a Portugal. Leu centenas de documentos e entrevistou parentes e pessoas que conviveram com Pessoa.
Dessas andanças, saiu com a certeza de que o poeta é o autor “menos imaginativo” que existe.
“Tudo o que escreveu estava realmente à volta dele. Não tinha nada inventado.”
Como exemplo, cita “Tabacaria”. O poema menciona cinco personagens e Cavalcanti revela que todos realmente existiram e eram próximos do poeta.
Quando se trata de Pessoa, contudo, nem tudo é claro. “Sabes quem sou eu? Eu não sei”, já advertia o poeta.
Sobre sua vida sexual ainda paira uma imensa dúvida. Teria sido gay? Cavalcanti acha que sim, embora não existam provas.
Também não há certeza sobre se teria ou não transado com Ophelia, seu mais conhecido relacionamento (Cavalcanti pensa que não foram além de beijos ardentes e leves toques nos seios).
Cultivar mistérios, ao que parece, fazia parte do estilo de Pessoa, e isso também Cavalcanti tentou incorporar.
O poeta tinha por hábito, diz o biógrafo, embaralhar as datas. O heterônimo Alberto Caeiro, por exemplo, morreu em 1915, mas há textos datados de 1930 atribuídos a ele.
No prefácio do livro, Cavalcanti também colocou uma data futura: 13/6/2011. Dupla homenagem, já que Pessoa nasceu nesse dia, em 1888.


http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/893968-biografia-brasileira-de-fernando-pessoa-revela-novos-heteronimos.shtml

 
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>25 de abril precisa-se (opinião a título pessoal)

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25 de abril precisa-se (opinião a título pessoal)

 

Viva o 24 de abril que este sim deveria ser feriado, ainda não se lê nos jornais todos, mas ouve-se nas esquinas das ruas e nas mesas do café. Depois da censura económica, da autocensura e de todas as formas dissimuladas de censura, vão-se fazendo inquéritos, elege-se Salazar como a personalidade do século passado, mandam-se emigrar os jovens, promove-se o cinzentismo salazarista e tentam calar-se as vozes diferentes. Mais ano menos ano acaba-se com o feriado de 25 de abril que nada tem a ver já com o clima que se vive.
A revolução continua por fazer, a liberdade de expressão corre sérios riscos, agora que as outras liberdades se foram por causa da crise, o respeito pela diferença esbateu-se mais ainda, vamos tornar as massas ainda mais acinzentadas, uniformes e carneirenta por entre saudosismos (dantes era o sebastianismo, agora será o salazarismo salazarento. Por entre uma telenovela, Fátima e futebol o povo nem dá conta de como o levam para novo redil.
Há 38 anos deram a liberdade a Portugal e hoje no-la tiram. Eu continuarei (quase sozinho) um homem do 25 de abril até que me calem mas somos já muito poucos e menos ainda podem usar a voz. Hoje ainda me deixam escrever isto mas por quanto tempo mais?
Há seis anos publiquei no ChrónicAçores umas linhas em que prevenia e previa este status quo:
Sem questionar o feminismo ou outros ismos: antisionismo, antialentejanismo, antilourismo (das loiras) todas as piadas são objecionáveis por se basearem em estereótipos da sociedade, sejam eles humanos, animais ou até mesmo políticos, que não são uma nem outra coisa. Assim, depois de todas as pessoas defensoras desses “ismos” terem colocado as suas objeções porque são a favor do Obama ou do Bush, ou do Sócrates, porque se baseiam em estereótipos de mulher, de louras e louros, de alentejanos, de políticos e políticas (mas destas ainda há poucas), de judeus (e outras religiões como o cristianismo ou islamismo por ex.), de nacionalidades ou continentes de origem como com os africanos, os pobres, os ricos, os estudantes e os professores, os animais (mesmo aqueles que estão nas malas dos carros junto com a esposa ou esposo), verão o que fica: NADA. Acaba-se o humor.
Ao reproduzir, a seguir, Maiakovski e Brecht, pretendo alertar que me sinto muito mais incomodado com a violência, gratuita ou não, com as imagens cheias de “innuendo” (insinuações) da TV, desde os telejornais às séries, pois essas são as armas de estupidificação globalizante que a todos corroem.
O humor, usa a linguagem dos estereótipos que hão de ser substituídos com o tempo assim como a frase bota-de-elástico foi substituída por “cota”. Desde a década de 1980 vira surgir a censura dissimulada em fundamentos razoáveis e aceitáveis, pretendendo sanitizar as mentes. Já o vira na Austrália quando o politicamente correto foi introduzido na linguagem em meados daquela década. Como tradutor profissional tivera de o seguir mas como ser humano, inteligente (no sentido de pensante) recusava-o tanto hoje como ontem. Com o politicamente correto acabava-se o humor. Esse o cerne da questão que ninguém queria ver. Deve lutar-se contra a discriminação, em todas as suas formas, contra o assédio sexual, político e outros, lute-se contras as proposta novas normas europeias, lute-se contra o salário mínimo de miséria e de exploração (reminiscente do início da Revolução Industrial), contra as quotas ou falta delas nos elencos femininos do governo, contra a falta de acesso a pessoas com deficiências de qualquer tipo. Lute-se contra isso tudo mas deixem o humor de lado, a menos que seja difamatório (mas sem ser pelas normas norte-americanas), grosseiro, imoral, amoral. Quando se definira politicamente incorreto, é porque o politicamente correto é a forma mais fascista de sanitizar a língua, o pensamento e a vida em geral, criando uma sociedade assética e inócua. Todos iguais e cinzentos de acordo com a norma. Ninguém precisa de pensar nisto pois o futuro provará a sua veracidade melhor do que o Orwell alguma vez podia prever no 1984 ou outros ensaios semelhantes: a realidade já ultrapassou a ficção há muito.
Quem primeiro o antecipou foi Maiakovski – poeta russo “suicidado” após a revolução de Lenine que escreveu ainda no início do século XX:
Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.
Como não sou judeu, não me incomodei.
No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.
Como não sou comunista, não me incomodei .
No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.
Como não sou católico, não me incomodei.
No quarto dia, vieram e me levaram;
já não havia mais ninguém para reclamar…”
Martin Niemöller, 1933 , símbolo da resistência aos nazistas.
Parodiando o pastor protestante Martin Niemöller, símbolo da resistência nazi:
“Primeiro eles roubaram nos sinais, mas não fui eu a vítima,
Depois incendiaram os ônibus, mas eu não estava neles;
Depois fecharam ruas, onde não moro;
Fecharam então o portão da favela, que não habito;
Em seguida arrastaram até a morte uma criança,
que não era meu filho…”
Cláudio Humberto, 09 Fev. 2007
Primeiro levaram os negros
Mas não me importei com isso
Eu não era negro
Em seguida levaram alguns operários
Mas não me importei com isso
Eu também não era operário
Depois prenderam os miseráveis
Mas não me importei com isso
Porque eu não sou miserável
Depois agarraram uns desempregados
Mas como tenho meu emprego
Também não me importei
Agora estão me levando
Mas já é tarde.
Como eu não me importei com ninguém
Ninguém se importa comigo.
É PRECISO AGIR
Bertold Brecht (1898-1956)
Um passeio com Maiakovski
Na primeira noite
eles se aproximam
e colhem uma flor
de nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite,
já não se escondem :
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles,
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a lua, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz
da garganta.
E porque não dissemos nada,
já não podemos dizer nada.
Tudo que os outros disseram fizeram-no depois de ler Maiakovski.
Incrível é que após mais de cem anos dessa lição, ainda nos encontremos tão desamparados, inermes e submetidos aos caprichos da ruína moral dos poderes governantes, que vampirizam o erário, aniquilam as instituições, e deixam aos cidadãos os ossos roídos e o direito ao silêncio: porque a palavra, há muito se tornou inútil! Agora, o politicamente correto ameaça o humor.
——-
A crise fará o resto e aí – sim – estarei definitivamente calado se não morrer antes. Só tivemos 38 anos de liberdade comparados com 48 de ditadura obscurantista mas pouco temos a celebrar neste ano de 2012 em que nos querem fazer recuar aos anos 50 ou 60 do século passado, a História em marcha à ré. Este ano vou gritar que o 25 de abril devolveu um direito fundamental: o direito à livre expressão e esse é o último que ainda posso celebrar nesta data. Chrys

 

Eduardo Mayone Dias CARTA DA CALIFÓRNIA,- A língua portuguesa ontem e hoje

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CARTA DA CALIFÓRNIA, Eduardo Mayone Dias

 


1. Das origens à Idade Média

Pouquíssimo se sabe das mais remotas origens da língua portuguesa, os
falares da Península Ibérica pré-romana. É contudo de supor que em franjas litorais e em planícies separadas por altas serranias se tenham desenvolvido diferentes enclaves linguísticos que com o rolar dos séculos hajam originado os grupos galego/asturiano/português, basco/ navarro, castelhano/extremenho/andaluz e aragonês/catalão/ valenciano.
Esta é a pré-história do Português. A proto-história tem início com a invasão romana, durante a qual o latim foi imposto em todos os atos públicos, que podiam ir da administração até simples transações comerciais, e afogou os regionalismos linguísticos.
Desde os nossos primeiros anos de escola aprendemos que os legionários e colonos, gente do povo, aliás nem todos romanos, não falavam o latim clássico mas sim o vulgar, que pouco a pouco se foi mesclando com as variantes locais, dando assim origem às quatro línguas românicas hoje oficiais na Península, galego, português, castelhano e catalão.
Durante o período romano, cerca de seis séculos, (1) o latim ia evoluindo e novas formas verbais foram criadas. Para dar um prosaico exemplo, as
primeiras vagas colonizadoras usaram o termo “scopa”, que resultou “escombra” em catalão e ‘escoba’ em castelhano. Quando as últimas levas chegaram à costa oeste traziam um mais moderno vocábulo, “basaura”, que deu “vasoira” em galego e “vassoura” em português.
As inovações introduzidas pelos romanos implicaram naturalmente inumeráveis termos, referentes a todas as formas de vida. Assim, por exemplo, ao serem criados novos procedimentos agrícolas, surgiram nomes de utensílios que deram em português charrua, arado, enxada, sacho ou machado. Também do grupo celta, possivelmente através de uma tardia latinização, vieram vocábulos como cerveja, camisa, carro, lousa e sabão. Como bem se sabe, depois de se haver corporizado a língua portuguesa, o latim persistiu ou foi revivido em expressões eruditas de variados campos do saber. Deste modo, por exemplo, na terminologia académica regista-se o doutoramento “honoris causa”, na diplomática a expressão “persona grata”, (2) na
jurídica “habeas corpus”,(3) na eclesiástica “urbi et orbi”, na lógica “quod
erat demonstrandum”, na estilística “ipsis verbis” e muitíssimo mais.
Entre aproximadamente os anos 406 e 411 da era de Cristo várias tribos germânicas, entre as quais se destacaram os visigodos, invadiram a Península e derrubaram o poderio romano.
Havendo-se convertido ao cristianismo e adotado muito do estilo de vida romano, pelo ano de 476 os visigodos constituíam já uma aristocracia guerreira que iria dominar a Península por cerca de três séculos.
A ela se devem numerosas contribuições ao falar hispânico em especial relativas à arte militar (o próprio termo “guerra” é uma delas) ou à equitação, que acabaram por dar à língua portuguesa formas como baluarte, elmo, escaramuça, guarda, trégua, brandir, esgrima, dardo, flecha, espora, arreio ou galopar. Outras formas são sala, burgo, agasalho, ufano e ganso. Entre nomes próprios de origem germânica contam-se Alberto, Rodrigo, Humberto, Rogério, Fernando, Afonso, Gonçalo, Álvaro, Elvira, Berta, Ermelinda e Gertrudes.
Chegado o ano 711 uma nova era se abriu para a história peninsular e para o evoluir do idioma português. Foi pois nesse ano que hostes mouras, lideradas por árabes, cruzaram o Estreito de Gibraltar e numa guerra-relâmpago ocuparam toda a Península Ibérica, com exceção de um pequeno reduto nas montanhas das Astúrias.
De aí, uns dez anos depois de 711 (desconhece-se a data exata), no seguimento da batalha de Covadonga, os cristãos lançam o movimento da Reconquista que, ao impelir os invasores para o sul, deu origem a vários reinos, entre eles o de Portugal.
Dotados de uma avançada cultura, os muçulmanos introduziram novas técnicas em quase todas as áreas do conhecimento humano e com elas um fértil léxico que sobreviveu até hoje com cerca de 200 termos em português.
Na sua maioria os neologismos foram adotados juntamente com o artigo
definido “al” (al caid> alcaide) ou a sua condensação num simples “a” (a
ris>arroz).
Os árabes trouxeram produtos agrícolas, cujas designações se mantiveram na fala dos seus súbditos cristãos: alface, algodão, alfazema, amêndoa, alfarroba, alfafa, alcachofra, açúcar, haxixe, azeitona, açafrão e outros.
Do aperfeiçoamento dos cultivos e do processamento das colheitas ficaram nora (com a sua roda de alcatruzes, ainda usada no século XX em Portugal) açude (represa), atafona (moinho de vento) ou azenha (moinho de água).
Medidas de peso, superfície ou volume, por muito tempo empregadas, foram a arroba (cerca de quinze quilos), o alqueire (cerca de 25 metros quadrados), o arrátel (um pouco menos de meio quilo) e o almude (cerca de seis litros e meio). Quando se introduziu o sistema numérico hoje usado, em substituição do romano, divulgou-se o conceito de zero e a respetiva designação.
Para uso doméstico havia almofadas, alcofas, alcatifas, garrafas, almofarizes, alambiques, alguidares e alfinetes. (4)
Quanto à culinária temos o azeite, a açorda, o escabeche e as almôndegas.
Ainda há umas décadas existiam no Algarve, (5) região portuguesa de mais
longa permanência árabe, numerosas casas encimadas por “açoteias”, terraços onde se secavam frutos. E evidentemente, o interior podia ser decorado com “azulejos”.
Com o desenvolvimento de novas ou antigas técnicas especializaram-se
profissões e ocupações tais como alfaiate, arrais, alvanel (pedreiro), almoxarife (gerente de armazém), alcaide (governador militar e civil de um castelo e povoação adjacente), alfageme (fabricante de armas) e alcoviteira (intermediária paga de relações sexuais ilícitas).
A presença muçulmana na Península teve o ser termo no ano de 1242 em
Portugal com a tomada de Silves e a queda do Reino do Algarve e no de 1492 em Espanha, ao ser submetido o Reino de Granada.

NOTAS
(1) A ocupação militar da Península Ibérica durou de 218 AC até 17 AC. Uma vez radicado, o domínio romano manteve-se até a primeira década do Século V.
(2) É bem sabido que um enviado diplomático estrangeiro tem de obter essa classificação antes de apresentar as suas credenciais ao Presidente da República portuguesa. Um caso jocoso ocorreu durante o período do Estado Novo. Um diplomata latino-americano, designado pelo seu Governo como embaixador em Lisboa, foi considerado pelas autoridades portuguesas “persona non grata”. As suas qualificações eram impecáveis mas atraiçoaram-no os seus apelidos, Porras y Porras.
(3) Nas fachadas de muitos tribunais portugueses pode-se ler “DOMUS IUSTITIAE”, casa da justiça. Por outro lado o histórico edifício da Câmara Municipal de Bragança é conhecido como Domus Municipalis.
(4) Então significando palitos para os dentes.
(5) Algarve (al Gharb) significa “o Oeste”.
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OLIVENÇA A HERANÇA PERDIDA DE PORTUGAL

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Falam de Olivença, mas poderia-se mudar o local â Galiza, ou qualquer local do mundo submetido e ocupado e onde os ocupantes tem o direito de imporem a sua língua e cultura, e a isso chama-lhe sempre liberdade de escolha


UMA ENTREVISTA EM “HOY”  COM NOTAS A FINAL DE CARLOS LUNA
Recebido de Carlos Luna presidente do GAO

«EN OLIVENZA NO HUBO GUERRA DE LAS NARANJAS, NO LLEGÓ A DISPARARSE UN TIRO»”Entrevista en HOY a Servando Rodríguez; Responsable de la oficina de Turismo de Olivenza»
«Mis padres, entre ellos, solo hablaban portugués en casa. Mi madre me riñó en Portugués hasta que se murió»
«Los portugueses hacen turismo nostálgico. Vienen a ver algo que era suyo y perdieran. No se organizan, no llaman a Turismo»

Nace en San Jorge de Alor, una de las cinco aldeas “portuguesas” de Olivenza. Las otras cuatro son Táliga, que ya es município, Villarreal, que no era de Olivenza, sino de Juromenha hasta 1801, San Benito y Santo Domingo. En San Jorge hay 500 habitantes. Llegó a tener más de mil.


Hoy-A Qué se dedicaban sus padres?
Servando -Mi padre trabajaba en el campo hasta que por los años 60 se fue a Suiza y luego estuvo 15 años en Alemania. Fui hijo de emigrante. Mi padre venía en Navidad a coger la aceituna de los olivares que había ido comprando con los ahorros. Era como los Reyes Magos: venía de Alemania y venía en Navidad. Traía regalos que por aquí no había. Mi madre y mis
dos hermanas se quedaron solitas porque yo me fui a estudiar a un seminario de hermanos maristas en las cercanías de Madrid. Mi padre me recogía en Madrid y llegábamos los dos hombres de la casa en vacaciones.

Hoy-Como llega a ese seminario?
Servando-Venia un hermano reclutador, el hermano Ladislao, la persona más buena del mundo. Llegó un día a la aldea con su sotana en un Seat 600 alquilado. Se acercó a la escuela y nos contó cómo era aquello. Me pareció una aventura muy bonita y le dije que sí desde el primero
momento. Mis padres me apot«yaran y me fui. Alli estudié hasta 3.º de Bachillerato y ya me vine aquí, donde acabé el Bachillerato. Estudié portugués en la Escuela de Idiomas de Madrid.

Hoy-Que presencia tenía el Portugués en su vida durante la infancia?
Servando-Todo. Mis padres, entre ellos, solo hablaban en Portugués en casa. Mi madre a mi siempre me riñó en Portugués hasta hace año y pico que se murió. Sin embargo, a quienes nacemos a finales de los 50, princípios de los 60, ya se dirigen a nosotros en español, cosa que no pasaba con sus padres. Mi madre con mi abuelo solo hablaba en portugués. Los únicos que hablábamos solo en castellano éramos los niños. De tal manera que una vez pasó por el pueblo una família portuguesa con un niño. Nos dimos cuenta de que el niño hablaba portugués y fuimos todos detrás de aquel niño porque en nuestra cabeza no cabia que un niño hablara aquella lengua que era de los mayores, no la de los niños.
Hoy-Habia más presencia de lo Portugués en la vida cotidiana?
Servando-El idioma era la mayor presencia que habia porque nadie se sentía portugués. Ellos hablaban de lo portugués con ese cierto tono despectivo que se empleaba en el resto de Extremadura. Ellos ya eran españoles y mis abuelos, también. En lo demás era todo Extremadura: la comida, los costumbres.

Hoy-Que situación turística se encuentra cuando llega a la oficina en 1993?
Servando-El turista que venía por aqui era de Extremadura, de Portugal, y, según la época del año, de Madrid o de Andalucia. Habría que llamarlo excursionista más que turista. Olivenza recibe muchos grupos de autobús: escolares y mayores, gente que prácticamente no se queda a comer, no gasta demasiado. El turista eds lo que viene con la feria del toro: viene la família, se quedan a comer y a dormir, vienen unos días antes. Ahora sigue habiendo más excursionistas, pero se va notando un cambio. A finales de los 90, el turismo empieza a crecer mucho. Olivenza tenia cerca de 60000 visitantes anuales. Hace un par de años empezó a bajar. Este año se
ha recuperado, pero tenemos mucho campo por hacer. La crísis quizás nos beneficie al turismo de interior.

Hoy-Los portugueses como vienen a Olivenza, con que actitud?
Servando- Ellos no vienen aquí como turistas, sino a ver una cosa que es suya y que la perdieran. No se organizan, no llaman a la oficina de turismo para saber los horarios. Vienen a ver los escudos de Portugal, es un turismo nostálgico.

Hoy-Como se explica la história de Olivenza en Portugal?
Servando-Ellos se quejan de que ahora los maestros no se preocupan de explicar la história de Olivenza a los niños, pero a los mayores si se la explicaron. Como necesitan demostrar que Olivenza es portuguesa, retuercen los argumentos y empiezan los origenes de Olivenza falsamente como portugueses. Que después se pierde y se recupera y se fijan en la parte
final, cuando con la Guerra de las Naranjas se produce una ocupación ilegal.

Hoy-Y como se explica usted a los portugueses que visitan Olivenza?
Servando-Nosotros la explicamos de otra manera. La parte final es más complicada, pero claro, en 1801 existe el derechpo de conquista, que visto desde el punto de vista de hoy no tiene sentido. Yo empiezo contándoles que la primera vez que aparece Olivenza es en un documento de 1257 que se conserva en el archivo de la Catedral de Badajoz. En él, el reciente obispado dice cuales son los límites de la diócesis, dentro de los cuales deben enterrarse sus fieles y el documento dice del lado de acá del río Olivenza. Luego aparece en un pleito que surge entre Alconchel y Badajoz. Cuando en 1230 el rey Alfonso IX toma Badajoz y sigue camino de Sevilla,
para consolidar estas posiciones, entrega el castillo de Alconchel a la orden templaria, que puebla en la zona de Olivenza. desde Badajoz se quejan al rey que los templarios han repoblado en tierras que no eran de ellos, sino de Badajoz. En eses documento aparece Olivenza. Los templarios están aqui 28 años hasta que el rey da la razón a Badajoz y se tienen que ir.
De todo esto, los portugueses no hablan nada, aunque los documentos están ahí(1).

Hoy-.El cambio de nacionalidad, cuando Olivenza pasa a ser española en 1801?
Servando-La moderna historiografía portuguesa está empezando a considerar la Guerra de las Naranjas como la primera invasión francesa. Antes contaban tres invasiones y ahora cuentan cuatro. Carlos IV les declara la guerra formalmente. Además se la declara a su hija porque la reina consorte de Portugal es su hija. Es una guerra rapidísima porque la diferencia de fuerzas es muy grande. En Olivenza en realidad no hubo guerra. Simplemente se cercó la plaza, se le dijo al gobernador que si se rendia.

Hoy-Entonces se rinde sin resistencia?
Servando- El gobernador de Olivenza entrega la plaza sin pegar un tiro porque si se resiste, las consequencias para la población hubieran sido muy graves. De hecho lo condenaran a muerte en Portugal pero le conmutaron  a pena. Juromenha también se entregó sin resisténcia. En Olivenza no hubo Guerra de las Naranjas. No llegó a dispararse ni un tiro. Los portugueses consideran que España entra con Francia a tomar Portugal (2). El tratado de Viena es consecuencia de la caída de Napoleón. A eses tratado, Portugal manda un buen embajador a defender sus intereses: el Duque de Palmela. El conde de la Torre, que creo que era extremeño, va por parte española. Lo primero que hacen los portugueses es reivindicar Olivenza y meten el artículo 105, donde se reconocen los derechos de los portugueses y se estipula que los españoles y los portugueses deben reunirse para que se devuelva. Los portugueses dicen que ahí se dice
claramente que se devuelva y los españoles argumentan que solo se dice que se reúnan para ponerse de acuerdo. España no fiorma el Tratado en erse momento, sino tres o cuatro años después. El embajador español no se opuso mucho a esto. Por esa época, desde Brasil se toma el territorio de las Siete Misiones, el actual Uruguay, y desde España se dice que si no
devuelven esos territorios, no pueden reivindicar Olivenza(3).

Hoy-En este contexto, qué le parece la comemoración de la Guerra de las Naranjas?
Servando-Los portugueses aprovechan cualquier cosa. Ellos reivindican Olivenza, aunque su gobierno no lo haga de manera acdtiva, y cualquier cosa les da alas. Había una buena intención en Olivenza desde el pinto de vista del turismo porque esta corporación municipal e4stá muy interesada en desarrollar el turismo. Olivenza podría tener una fiesta que atriga gente, además de la de los toros. Por eso se pensó en este espectáculo. Aquí la Guerra de las Naranjas no tuvo conflicto ninguno. Se haq intentado cambiar y que la representación tenga que ver con la historia de Olivenza y a mi me parece bien porque así, la gente de aquí y del resto de Extremadura conocerá mejos la historia, como transcurre desde el siglo XIII hasta ahora. Estoy de acuerdo en que se haga algo así, que atraiga el turismo.

Hoy-Que opina de nuevas asociaciones que han surgido para el fomento de las relaciones con Portugal como es el caso de Além Guadiana?
Servando-A mi me han invitado a pertenecer a ella, pero me sentiria un poco raro si hubiera pertenecido a esa asociación porque he notado cierto acompañamiento de grupos portugueses, aunque la asociación no tiene culpa, pero podrían instrumentalizarla. Otra cosa que no entiendo de esa asociación es que si por el 85 empezaron los Encuentros de Ayuda, si tenemos unos fondos portugueses en la biblioteca que no los tienen ni las universidades portugueseas, sin embargo parece como si esta asociación ignorara todo el anterior, como si empezaran de cero. Lo entiendo porque la mayor parte de sus miembros son gente nueva, que ha dejado de lado todo lo que se había hecho antes, que se podría haber aprovechado.

Hoy-El Grupo de Amigos de Olivenza?
Servando-Nace en Lisboa (4). Salazar no les reconoce y no pueden funcionar  como asociación hasta que no llega la democracia. Se creó otro grupo en Estremoz y acabaron absorbidos por el de Lisboa. Presionan continuamente a las autoridades portuguesas para que no se olviden del tema. Pero estas autoridades saben que no hay vuelta de hoja con la cuestión. Cuando ha habido cumbres hispano-portuguesas y han aparecido estes grupos a meter baza, los mantienen a un kilómetro de la sede de la cumbre. Tienen unas anteojeras, confunden el deseo con la realidad (5). En el siglo XIX, quizás, pero hoy es imposible que ningún vecino de Olivenza diga que
quiere ser portugués, Otra cosa es que se intente que los oliventinos conozcan sus raíces.
Eso sí es interesante (6). (FIM)
_____________
Notas pessoais engadidas por Carlos Luna- sobre erros e tergiversações na entrevista:

(1) Já se sabe que Olivença foi conquistada em 1230 por Templários leoneses, mas isso não era Espanha de hoje nem o seu antecedente). Mas… era uma aldeia. Por outro lado, terras como Ayamonte e San Lúcar foram conquistadas pelos portugueses, bem como Aroche e Aracena. Em
1297, o Tratado de Alcañices definiu Olivença como portuguesa, e esses outros territórios como de Castela.  Nas trocas de então, foram deslocadas populações. Olivença só se tornou importante sob domínio português, recebendo foral em 1298 e incentivos para o povoamento. Até 1801, fez parte de Portugal, e muitos dos seus filhos contribuíram para a História lusa. O entrevistado, que sabe disto, “pula” logo para 1801, desprezando 604 anos de história. Será isto ser imparcial?

(2)Não por acaso, o Tratado de Badajoz de 1801 só seria considerado válido se TAMBÉM se assinasse um tratado de paz com a França….

(3) Várias coisas são omitidas aqui. Por exemplo, em 1811, o Município Oliventino pediu a reitegração em Portugal, coisa que espanhóis e ingleses não permitiram. Por outro lado, em 1814, em Paris, ficou acordado que todos os tratados assinados debaixo da influência da França
Napoleónica (incluindo o expressamente o  citado Tratado de Badajoz de 1801) seriam considerados nulos. Espanha assina o artigo 105 sem pôr quaisquer reservas, em 1817, o que invalida a Questão do Uruguay. Aliás, em termos de Direito Internacional, a ocupação de um território não pode justificar a ocupação de um terceiro… e isto desde o século XVIII. Finalmente, a diplomacia portuguesa aceita sair do Uruguay logo que cheguem tropas espanholas. Em 1820, as tropas que se preparavam para sair de Espanha com esse destino resolvem fazer a Primeira Revolução Liberal em Espanha. Porque a situação tornou inviável o envio dessssas tropas em 1820. 1831, 1822, 1823, tanto mais que em 1822 o Brasil se declarou independente (reconhecido em 1825) e o Uruguay seguiu o mesmo caminho em 1828 (reconhecido como tal por Espanha em 1835), Portugal considerou que não fora possível, e por culpa de Madrid, a “transação” Olivença-Uruguay, pelo que o acordo de 1815 continuava a estar em vigor!

(4)fundado por um oliventino, Ventura Ledesma Abrantes.

(5) Servendo esquece-se das reivindicações espanholas sobre Gibraltar (desde 1704) e argentinas sobre as Malvinas /(desde 1833). Parece que, neste caso, não se trata de “anteojeras”, mas sim atos determinados!!

(6)Em resumo, desde que uma ocupação ilegal se prolongue durante 200 anos, se escondam a História, as raízes (daí a necessidade que o entrevistado vê em que os oliventinos conheçam as suas raízes; quem os levou a esquecer?), se combata o uso da língua “nativa”, se promovam
deslocações de população (caso dos funcionários públicos…), tudo se torna LEGAL. Pena que a Espanha não aplique o mesmo princípio a Gibraltar, onde 99,9 % da população votou CONTRA a união a Espanha…
__,_._,___

DANIEL FELIPE um poema de amor e da resistência

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hoje dia mundial da poesia:Para este dia um poema de amor e da resistência:

em anexo as minhas 3 versões de homenagem a este poeta e poema que me marcaram desde há mais 40 anos...Chrys Chrystello

1.     e.37. tantos os sonhos (a soeiro pereira gomes) mar 16, 1973

tantos os sonhos
                             nunca demarcados
meu irmão de todo o tempo
                                                 insubmisso
perseguidos
                     por uma mancheia de quimeras
engalanámos as palavras
                                           falaciosas ambições
imensos campos
                             por habitar
lezírias de lentas mortes
                                          estioladas
gretava o verão
                            severos carões
ninguém cuidara
                            os linótipos esmaeciam
aquosos gradeamentos
                                        da saudade
– era então o tempo –
fortunas dissipadas
                                 amargor de mil cansaços
                                 prematura senilidade
febril catarro
                     escrava luta
cifras
        tabelas
                  gráficos
mecanizado o homem
                                      engrenagem-sem-nome
impiedosa e febril cadeia
                                          gangrenosos ossos
no silêncio chantagista
                                        se diluía a sobrevivência
vasta paisagem
                         por entre o adobe
paredes
            quatro
                       desfraldadas
vogando ao vento
                                 do desprezo motorizado das sanguessugas
PERFEITA SÚCIA/DADE
                                       
irrefreado progresso
                                   civilização do abandono
deserda-se a agricultura
cria-se ferro
                    cimento
                     fome
tímida e simples
                            a voz do povo
                                                    (que ainda resta)
recusa a caridade
                              das piranhas
secretas as greves
                               corrompem a opressão
selvagens se abatem
                                   esbirros e lacaios
(ah! como é bom ser-se proletário
                                                           no feudo do patrão)
tu – meu irmão
não assististe
                     ao mito no apogeu
de nascença condenado
                                        o sentenciavas
tuas mãos eram a dor
                                     sempre retardada
escreviam a agonia lenta
                                          dos que calam
exultante vitória dos que não consentem
militantes modelos
                                 de rebeldes se venderam
falsos heróis
                    covardes de merda
felizes os traidores
                                 pelo pão nunca trincado
                                 pela carne inviolada e casta
                                 pela fome mitigada
riquezas imensas
                             saldo de lassos músculos
quem as ergueu?
imolados os corpos
                                 sem palavras nem gestas
abatem-se de luto aldeias
paga-se da fome
                             a vida
a salto se emigra
                            a preço de morte
– decide-te irmão –
volte a nós quem a nós pertence
connosco reagirás
                              à opulência de discursos em família
– obsoletas conversas que não asfixiam –
repudiamos toda a antropofagia
                                                      que nos hipoteca
não os executemos
também eles sentirão
                                     um só dia que seja
                                    um só instante
o vão esforço do suor grátis
nesse dia
               urgente e único
inexorável
                o grito
                            então comunitário
                            então revolucionário
                                                               PRESENTE!
para que não morram por desprazer
pelas dores insofridas
pelo sangue ulcerado nunca cuspido
pelas mãos imaculadas sempre assassinas
revolver-se-ão aposentados donos
                                                            deste feudo saqueado
dançaremos o cântico final
                                               apoteose de labaredas
                                                                                       vossos corpos defuntos
serão nossos o chão
                                  a pátria liberta
                                  a vocação insubmissa
ninguém nos apode de vingativos
honraremos
                     das memórias a vossa
adubaremos das cinzas vossas
                                                   o pão
algo renasce das ruínas vossas
                                                    a esperança
– quem nos confortará
                                      nesse instante ingente? –


******

2.  474. poesia revisitada ( de novo a ti, daniel filipe) 16 mai 1976

ALERTA!  a imaginação tomou de assalto o poder!
hoje
       virão talvez crianças
                                          descendo as sagradas ruas das máquinas
                                          acampando nas avenidas da liberdade
                                                                                                           por inventar
                                          dando-nos as mãos
                                                                             os sorrisos
                                                                                                 os sonhos
hoje
       nas campas rasas
                                     estarão heróis que nunca foram
perguntarão
        quando somos ouvidos?
(a nossa carne encheu canhões
                                                    no-la recusam agora?)
os mendigos
                     desempregados                      
  reformados
                                                                     deficientes das guerras todas
as pegas
              messalinas
        prostitutas
                           meretrizes
         chulos
                                                       traficantes de ilusões
os ladrões
                 criminosos
e demais gente ordinária e vulgar
anunciam manifs reivindicativas
       “a greve será total! – dizem”)                                    
enquanto isso
                        partidos
                                      militares                              
                            sindicatos
demais desorganizações de massa
                                                        exigem
do governo
                   a ordem
                                 a força
         a autoridade
das armas
                 a repressão
            o estado-de-sitio
a censura
                até mesmo a pena de morte
por toda a parte
solidária é a luta dos oprimidos
       – clama o poeta!
única é a voz dos marginais
            – escreve o louco sensato
                                                  nas paredes sem grades
                                                                                       desta prisão
(aqui e além leves escaramuças populares
não há baixas dignas de registo
                                                     – asseveram fontes oficiais
                                                       geralmente desinformadas)
a sociedade é um flagelo social do indivíduo
libertemo-nos da grande ameaça
         – denunciam os dissidentes
a situação é calma
                                assegurado o controlo total do país
militares, militarizados e milícias
                                                       em prevenção rigorosa
algures à mesma hora
                                      num público jardim
                                                                       um casal de amantes
felizes
          desocupados
                                 despolitizados
                                                         fazem amor
                                                                           despreocupado
sem caráter de urgência
confundidos por vulgares agitadores da ordem
foram chacinados ao despontar o amanhã
(felizmente havia luar!
             comentou lacónico o primeiro-ministro
              muito dado a lucubrações intelectuais).
*****

3. 524 reinvenção do amor , revisitando daniel filipe, 18 outubro 2011

o pássaro descreve o seu voo
na sinusoide deste tempo
a voz e a palavra são campos floridos
evocam verdes infâncias
é preciso inventar o amor
com caráter de urgência
dizia Daniel Felipe
mas são precisos homens e mulheres
dispostos a amar
capazes de ouvir e perdoar
os sentimentos podem esfriar
mas não se gastam
nem devem ser mudados
com a  frequência das camisas
não são fraldas descartáveis
precisam de ser regados
com a humidade das neblinas
e o orvalho das lágrimas
neste deserto com vozes
a felicidade é um mito
o mundo é um inferno
a paixão uma utopia
e tu acreditas, meu amor?
andam
– de novo –
      pássaros à solta nos jardins de Eros.

MUSEU DA LÍNGUA PORTUGUESA

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quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

O SUCESSO DO IDIOMA

Após cinco anos de vida e já tendo recebido mais de dois milhões e quinhentas mil visitas, o Museu da Língua Portuguesa é considerada uma instituição de referência no Brasil e no Exterior.
Existe algum motivo especial para tanto sucesso? Existe algum fator preponderante para que um museu tão jovem já tenha se firmado como instituição respeitável e referencial?
Como Diretor do Museu da Língua Portuguesa, desde sua inauguração, eu tenho certeza que a resposta para as duas questões acima propostas só pode ser uma resposta afirmativa.
Em assim sendo, qual o motivo de tanto sucesso e qual o fator a firmar o museu como instituição respeitável e de referência? A resposta para as duas perguntas é uma só… nossa língua portuguesa!
A ideia de se criar um museu que tem por acervo um idioma é uma ideia genial e extremamente original. Falo com tranqüilidade, porque não participei da equipe de conceitualização e criação do museu.
Lembrando sempre que a língua, no caso a nossa portuguesa, é um patrimônio imaterial, talvez a língua venha mesmo a ser o mais imaterial dos patrimônios imateriais, pois a mesma não está no texto escrito, a língua não está nos livros de gramática, não está na ortografia, a língua não está na literatura ou na poesia. A língua está em todos estes sítios sim, mas está, verdadeiramente, na “cabeça” e no universo imaginário de cada um daqueles que a usa como ferramenta principal de comunicação.
Logo, o Museu da Língua Portuguesa é o museu da imaterialidade por excelência, mas de uma imaterialidade que circunda e reveste todos nós que usamos este belo idioma, é o museu da imaterialidade que está presente no nosso dia a dia e até nos nossos sonhos. Creio que isto já explica o sucesso do museu, pois tendo a língua como acervo, o museu faz com que todos os visitantes se sintam especialistas e grandes entendedores dos conteúdos apresentados em suas exposições.
Devo aqui fazer uma pausa e celebrar a equipe de criação desta instituição, que contou com a participação de mais de 40 profissionais sensíveis e renomados de diversas áreas (linguistas, sociólogos, arquitetos, historiadores, museólogos,professores e artistas).
Ao longo destes cinco anos, toda a minha equipe do museu foi aprendendo a lidar com as possibilidades oferecidas por um acervo imaterial e novas abordagens dos conteúdos apresentados foram ganhando força. Partindo do princípio que a língua portuguesa é o elo primeiro da identidade cultural dos brasileiros, o museu contém um grande painel da rica diversidade cultural do Brasil, logo, é um espaço identitário para todos nós nascidos neste grande país.
Logo, plena é minha certeza ao afirmar que o motivo de tanto sucesso do museu é a própria língua portuguesa!
Naturalmente os recursos tecnológicos usados para a apresentação de um patrimônio imaterial e a interatividade das áreas expositivas do museu contribuem para o sucesso da instituição, mas de nada valeriam sem o acervo, o nosso idioma.
Mais uma vez a língua portuguesa é a resposta para a respeitabilidade alcançada nestes poucos cinco anos, respeitabilidade que acabou por transformar o Museu da Língua Portuguesa em espaço referencial no Brasil e em todo o mundo.
A partir de nosso idioma, a equipe do museu foi perseguindo metas, adotando padrões de atendimento e pensando e criando suas ações educativas, de formação e difusão cultural.
A língua portuguesa é um patrimônio acessível a todos, logo, o museu tem que ser um patrimônio com acesso aberto à população em geral. Evitamos transformar o museu em um espaço acadêmico, voltado apenas a grande estudiosos. Desta forma, os programas desenvolvidos pela instituição estão sempre preocupados em permitir o acesso e aproveitamento de segmentos muito distintos da sociedade, dos mais letrados aos que apresentam níveis muito baixos de educação formal. O museu atende a todos com o mesmo respeito e consideração, pensando ações que supram às necessidade de cada segmento de seu público, mas que sejam, ao mesmo tempo inclusivas, como inclusiva deve ser a língua!
Desde sua inauguração, a instituição assumiu parcerias com organizações das mais variadas com o objetivo de alcançar um público muito diversificado, assim, hoje, atendemos os visitantes em geral, escolares da rede pública e privada, portadores de deficiências físicas, grupos de terceira idade, grupos de alfabetização adulta, jovens infratores em processo de assistência do Estado, moradores de rua e muito outros segmentos, além disso, o Núcleo Educativo do museu desenvolve o projeto “ Dengo: um museu para todos” que leva o museu até segmentos da sociedade impossibilitados de visitar a instituição, como crianças em tratamento de câncer e pacientes graves internados em grandes instituições hospitalares de São Paulo.
Cabe ressaltar que a universidade e a academia também encontram espaço dentro do museu, aliás, nosso consultor há cinco anos é o Prof. Dr. Ataliba Teixeira de Castilho, considerado um dos maiores estudiosos da língua portuguesa no Brasil e oriundo de duas das maiores universidades brasileiras ( USP – Universidade de São Paulo e UNICAMP – Universidade de Campinas). Entretanto, no museu, os temas por mais complexos que venham a ser, devem ser apresentados de forma fácil ao entendimento da sociedade no seu todo.
Referência hoje são, também, as exposições temporárias montadas pelo museu ( Guimarães Rosa – Grande Sertão: Veredas; Clarice Lispector – A hora da estrela; Gilberto Freyre – intérprete do Brasil; Machado de Assis – mas este capítulo não é sério; O Francês no Brasil em Todos os Sentidos, Cora Coralina – coração do Brasil; Menas, o certo do errado, o errado do certo; e Fernando Pessoa – plural como o universo).
Neste caso também a língua portuguesa figura como fator principal do sucesso das mostras que as transformou em referência nacional. Nosso idioma é tão rico, tão cheio de curiosidades e nos rendeu tantos escritores, autores e poetas magníficos, que nossas exposições apenas retratam esta riqueza e diversidade, valendo-se, claro, de curadores competentes, cenógrafos criativos e dos mais diversos recursos expositivos disponíveis hoje.
Com média diária de mil e quinhentos visitantes, referência em ações educativas, apontado pela mídia como “ o mais querido museu de São Paulo”, modelo para países como Qatar, Itália, Israel, Inglaterra, Alemanha e até Portugal, o Museu da Língua Portuguesa só vem reforçar algo que me parece muito nítido: nossa língua portuguesa é realmente um grande sucesso!
A nossa língua portuguesa ganha, dia a dia, importância maior em todo mundo, tanto no que se refere ao número crescente de falantes, como à importância que os países membros da CPLP vão gradativamente alcançando no cenário mundial.
O nosso belo idioma ganha paulatinamente, mas de forma sempre ascendente, alunos e estudiosos pelas Universidades de todo o mundo.
Assim, instituições e programas que têm por foco nosso idioma também ganham importância. Tanto o Museu da Língua Portuguesa como o Observatório da Língua Portuguesa se destacam e, cada qual com seus objetivos próprios, atuam para um fortalecimento ainda mais expressivo da nossa língua, de nossas histórias comuns e ricas e da cultura que permeia mais de 240.000.000 de pessoas ao redor do mundo, que, guardadas suas diferenças, se encontram e se identificam no idioma português!
Antonio Carlos de Moraes Sartini

Olivença e a “Guerra das Laranjas”

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Mais um testemunho (blogue “Avenida da Liberdade”)

Com a devida vénia, dou divulgação ao testemunho do Dr. José Ribeiro e Castro, ex-presidente da Comissão de Negócios Estrangeiros da Assembleia da República, no seu blogue “Avenida da Liberdade”:

Olivença e a “Guerra das Laranjas”
A questão de Olivença é uma delicada pendência dormente nas relações luso-espanholas. É, não – era! Um alcalde “voluntarioso” do lado espanhol resolveu chutar o tema para as primeiras páginas dos jornais. E inevitavelmente para a primeira linha da política. Agora, procura dobrar a língua, mas o mal está feito e o seu gesto tem tudo menos de inocente.
Nos últimos anos, o ambiente melhorava: com apoio das autoridades regionais extremenhas, a autarquia de Olivença abrira-se à revelação das raízes portuguesas, recuperando e reafirmando traços identitários na toponímia histórica das ruas e em festivais anuais de matriz portuguesa. Simultaneamente, com algum pragmatismo, dos dois lados da fronteira, descobriam-se formas imaginosas de tornear dificuldades políticas, a fim de responder às necessidades das populações – por exemplo, no dossier de  reabilitação de uma  ponte de acesso à vila. Este desanuviamento revelava grande sentido prático e era um processo inteligente, que procurava andar para diante sem ferir o alto melindre político da questão. As autoridades locais e regionais espanholas pareciam interessadas em avivar a especial identidade de Olivença, até para a singularizar na região como pólo específico de procura turística, e circunscrevendo o processo a traços de identidade cultural, sem entrar obviamente pelo delicadíssimo – e potencialmente explosivo – plano político.
Estávamos nós postos neste sossego, quando o “enérgico” alcalde Bernardino Píriz aterra em Olivenza e resolve reabrir a Guerra de las Naranjas. Desde há semanas que éramos alertados para a provocação que congeminou. Até que o PS e autarcas locais do lado português – a meu ver, bem – resolveram agarrar no assunto.

Além do disparate político monumental, a iniciativa do novo alcaide oliventino interrompe esforços positivos que os autarcas alentejanos vizinhos conhecem bem e estavam a acompanhar e apoiar.
“Festejar” a Guerra das Laranjas em Olivença é uma coisa de flagrante mau gosto. Seria um pouco como a Rainha Isabel II ir celebrar a Gibraltar o Jubileu de Diamante no próximo mês de Junho.
José Ribeiro e Castro

>MIA COUTO E O AO1990

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Muito interessante a entrevista de Mia Couto ao i. Destaco, aqui, a resposta a uma pergunta sobre o acordo ortográfico:
Não sou um militante contra o acordo. Não me reconheci em algumas da razões que foram invocadas para chegar a este acordo, como por exemplo que este acordo facilitaria um melhor entendimento entre a língua. Sempre li livros do Brasil e com o maior prazer, pelo facto de eles terem uma grafia ligeiramente diferente. Os meus livros e os de Saramago são publicados com a grafia original e nunca ninguém se queixou. Acho inclusivamente que há uma diferença na grafia que só traz valor. Mas não faço guerra ao acordo. As nossas guerras são outras, é perceber porque é que nós, países de língua portuguesa como Portugal ou Moçambique, estamos tão distantes do Brasil, porque é que o Brasil está tão distante de nós. Por que razão é que um filme português no Brasil tem de ser legendado. Porque é que quando eu chego ao Brasil e digo que sou de Moçambique, ninguém sabe onde é ou o que é Moçambique.

AGUALUSA E O AO1990

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Apontamentos sobre o acordo ortográfico e o desacordo!

“Caso o Acordo Ortográfico não venha a ser aplicado — por resistência de Portugal —, entendo que Angola deveria optar pela ortografia brasileira”, José Eduardo Agualusa.

Acorda, Acordo,ou dorme para sempre *
José Eduardo Agualusa

Participei[em 2008] na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa, num debate sobre o Acordo Ortográfico — que o Brasil prometeu aplicar este ano, e Portugal também, tendo Portugal depois recuado de forma inexplicável.

Pela experiência que ganhei participando em debates públicos cheguei à conclusão de que as opiniões contrárias ao Acordo Ortográfico resultam:

1) da confusão entre ortografia, as regras da escrita, e linguagem. O Acordo Ortográfico tem por objetivo a existência de uma única ortografia no espaço da língua portuguesa, não pretende, o que aliás seria absurdo, unificar as diferentes variantes da nossa língua.

2) no caso de Portugal, de um enraizado sentimento imperial em relação à língua. No referido debate, na Casa Fernando Pessoa, este sentimento ficou explícito quando um espetador se levantou aos gritos: “A língua é nossa!” A História desmente-o. A língua portuguesa formou-se fora do espaço geográfico onde se situa Portugal — na Galiza. Por outro lado, a língua portuguesa tem sido sempre, ao longo dos séculos, uma criação coletiva de portugueses, africanos, brasileiros e povos asiáticos. Basta pensar na influência árabe. Se retirarmos todas as palavras de origem árabe e banto à língua portuguesa, deixaremos de a conseguir utilizar.

3) de uma série de objeções técnicas ao presente acordo. Muitas delas fazem sentido. Neste caso parece-me que o mais correto seria corrigir essas deficiências e depois aplicar o acordo.

Angola tem mais a ganhar com a existência de uma ortografia única do que Portugal ou o Brasil. Não produzimos livros. Porém, necessitamos desesperadamente deles. Se queremos educar as nossas populações, e desenvolver o país, teremos de importar nos próximos anos muitos milhões de livros. Espero das nossas autoridades que criem rapidamente legislação tendente a facilitar a entrada de produtos culturais e, em particular, de livros. Importamos livros de Portugal e do Brasil. Isso significa que temos livros em duas ortografias no nosso território, fato/facto que suscita natural confusão, sobretudo aos leitores recentemente alfabetizados — em particular jovens e crianças.

Acrescente-se que um dos maiores desafios que temos pela frente, nos próximos anos, é o de alfabetizar toda a nossa população. Ora, uma das virtudes do actual Acordo Ortográfico é precisamente o de facilitar a escrita.

Caso o Acordo Ortográfico não venha a ser aplicado — por resistência de Portugal —, entendo que Angola deveria optar pela ortografia brasileira. Somos um país independente. Não devemos nada a Portugal. O Brasil tem cento e oitenta milhões de habitantes, e produz muito mais títulos, e a preços mais baratos, do que Portugal. Assim sendo, parece-me óbvio que temos mais vantagem em importar livros do Brasil do que de Portugal.

No futuro, Portugal pode sempre unir-se à Galiza. Isto supondo que a Galiza não tenha entretanto começado a aplicar o Acordo Ortográfico, ou, no caso de o Acordo não vencer, começado a utilizar a ortografia brasileira.

http://www.ciberduvidas.pt/controversias.php?rid=1602

requiem pelo vale do tua

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o criminoso ato de destruição do vale do Tua (Douro) e da sua linha férrea deixa-nos a todos mais pobres e tristes, desde 2007 que lutámos contra isto, mas a construção da barragem avançou e todos perdemos uma parte importante do património da humanidade do rio douro

veja na nossa página alguma simagens e vídeos inestimáveis desta beleza única:
http://www.lusofonias.eu/conteudo/outros-videos-relevantes/

humor: Dicionário algarvio de termos e dizeres do Algarve (já com o novo acordo ortográfico)

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D

 

Dicionário algarvio de termos e dizeres do Algarve (já com o novo acordo ortográfico)

Publicado em 30/09/2011 por Vitor Madeira


Eis o esboço para a grande obra a inaugurar em breve, o grande “Dicionário algarvio de termos e dizeres do Algarve (já com o nove acorde ortográfique)
Quem tiver sugestões para adicionar, é bem-vindo a contribuir! É só colocar uma resposta no fim desta página.
Espero que seja do vosso agrado.

A

Abuscar – Buscar, procurar (Ex: ‘Us cãs abuscarem os coelhes no mê do mate’)

Acarditar – Acreditar. (ex: ‘Moce, até parace que n’acarditas em mim.’)

Acêfa – Ceifa (Ex: ‘Temes c’acêfar o milhe’)

Açotêa – Terraço usado para secar frutos secos e peixe.

Ademorar – demorar (Ex: ‘Ó Chique, pra quê tamanh’ademora?’)

Adés – Adeus (Ex: ‘Adés óme, pr’ónd’é que vás?’)

Ah mon – Ai mano, ai moço. (Ex: ‘Ah mon, tá tude bem?’)

Alagar tramôçes – Preparar tremoços (que consiste em mergulhar os tremoços durante alguns dias em água corrente da ribeira após a cozedura inicial)

Alcagoita – Aperitivo para descascar e acompanhar uma cerveja bem geladinha na taberna. O mesmo que minduim. (Ex: ‘Ti Tonho, traga umas alcagoitas prá gente quemer de companha c’as sarvejas’)

Alevantar – O acto de levantar com convicção. (Ex: ‘Alevantê-me e fui-me embora!’ ou ‘Alevanta-te Zé Manel!’)

Almariade – mal disposto, tonto, enjoado, conforme o contexto. (Ex: ‘Ah. mon, moce, até parece que tou almariade’)

Alpendrada – o mesmo que alpendre.

Alumiar – Apontar uma luz em direção a algo. (Ex: ‘Ó Luís, alumeia-me aqui o caminhe’)

Alvariade – Alguém que anda com a “cabeça no ar” por causa de namoro. (Ex:‘Maldeçoada da minha filha, c’anda alvariada per’cása daquele maldeçoade’)

Amandar – O acto de atirar com força: (‘O guarda-redes amandou a bola pra lá de Cacilhas’)

Amantizade – Alguém que vive maritalmente com outra pessoa sem contudo ter casado para o efeito. União de facto. (Ex: ‘A Maria e o Manel vivem amantizades’)

Amarinhar – Ir para o mar tripular navios (Ex: ‘U mé filhe anda amarinhade’)

Amigáde – Semelhante a Amantizade.

Amódes – De maneira que… (Ex: ‘Amódes q’iste é assim’ – Ver também ‘De modes’)

Andémes – Andámos (Ex: ‘- Ondé c’anderem moces? – Andémes na debulha.’)

Andérem – Andaram (Ex: ‘-Ondé c’andeste? -Andi pur aí.’)

Apertelência – Ousadia (Ex: ‘Tem munta apertetência, aquele Tonhe Jaquim.’)

Arrear – Deixar caír, desistir, bater, embater, esmurrar. (Ex: ‘Vou-t’arrear umas purradas!’)

Arrelampag – Efeito luminoso que ocrre normalmente durante as tempestades. (Ex: ‘Moce, tira-te daí c’ainda levas com um arrelampag!’)

Arram – Rã (Ex: ‘Fui à rebêra e vi uma arram’)

Arreata – Lábia, ousadia (Ex: ‘Tem uma arreata, aquele Ventura…’)

Arrenca-pinhêres – Homem muito baixo e muito magro.

Arrencar – Arrancar (Ex: ‘Brune, já arrencast’us pregues?’)

Arrioça – Baloiço (Ex: ‘Jorge toma cuidade pra na caíres d’arrioça.’)

Aspergic – Medicamento português que mistura Aspegic com Aspirina.

Assebiar – Assobiar (ex: ‘U Nune assebia munte bem’)

Assebida – Parte de uma estrada ou caminho com uma inclinação ascendente acentuada (Ex: ‘Danada daquela assebida, aquile é que custa a assebir!’)

Assentar – O acto de sentar, só que com muita força, como fosse um tijolo a cair no cimento. (Ex: ‘Atã na ‘tassentas Jaquim?’)

Atão – Então (Ex: ‘Atão Mari-Tereza, na t’espachas?’)

Auga – Água (Ex: ‘Na bebas áuga antes de dermir Zé Manel, que mijas na cama’)

Avó – Avô (no masculino) (Ex: ‘O mê avó tem muntas farrobas’)

Avó – Avó (no feminino) (Ex: ‘A minha avó tá’amassar o pão’)

B

Baldear – Enlouquecer (Ex: ‘Agora é que cumadre Silvina baldeou de vez…’)

Bassôra – Também com a vertente ‘vassoira’. Utensílio doméstico para recolha de lixo, habitualmente com a ajuda da ‘apá’.

Belancia – Melancia (Ex: ‘Agora come-se a belancia’);

Barimbar – Indiferença, não querer saber (ex. ‘Tou-m’a barimbar pra isse’)

Barreca – Barraca (Ex.: ‘Prontes, já tá a barreca armada’.)

Batenêra – Máquina que serve pra fazer betão, cimento armado. (Ex: ‘Moss, liga a batenêra’)

Bele – Belo (Ex: ‘Cumadre, que beles trabalhes de renda’)

Berculose – Tuberculose (Ex: ‘O pobre do Asdrubal tá com berculose’);

Béqme – Bem que me… (Ex: ‘Béqme parecia crer… É sabia!’)

Besaranha – Vento desagradável (Ex: ‘Andava cavande mas o raie da besaranha na me largava da mão’)

Bicha – Cobra, víbora

Borra-botas – Profissional de fraca qualidade cujo trabalho é deficiente

Bradár – Gritar (Ex: ‘Ó Flipe, tu na m’ouves é bradar per ti?’);

Bucha – Almoço, merenda ou lanche (Ex: ‘Iste já tá na hora da bucha’)

Buftada – Chapada (Ex: ‘Ah maldeçoade dum ladrão… Tás aqui, tás a levar uma buftada.’)

C

C’anda – Que anda (Ex: ‘O Tonhe é c’anda com a enxada’)

Calêra – Camalhão usado para abrir regos (rede de canais na terra) usados da rega artesanal introduzida pelos árabes a península ibérica.

Cagalôse/a – Pessoa sensível, medrosa. (Ex: ‘Ó Chique, hoje tás tode cagalôse!’)

Cagorre – Susto (ex: ‘Aquele maldeçoade do Zé da Silva, amandou-me um cagorre c’até vi luzes’)

Caguifa – Medo. (Ex: ‘De nôte tenh’uma cacuifa, mas de dia na tenhe’)

Caminéte – Autocarro (Ex: ‘Ontre-dias atrazê-me e perdi a caminéte’)

Caminhe – Caminho, caminhar. (Ex: ‘É caminhe no caminhe’)

Campe – Campo

Cantarinha – O mesmo que cântaro. (Ex: Fui ó pôce e dexê caír a cantarinha’)

Capacha – Tapete. (ex: ‘Tenhe as capachas du carre todas nejentas’)

Capache – O mesmo que capacha, abanico para avivar o lume. (ex: ‘Carles, da dêxes o fogue s’apagar! Abana isse c’u capache’)

Capom – Porta que tapa o motor do automóvel que quando se fecha faz POM!

Catatumbas – Sitio para onde se vai depois de morto. (Ex: ‘É cá nã quer’ir pr’uma catatumba, quer’ir pró chão’)

Cáxa – Caixa (Ex: ‘Moce, na dás uma prá cáxa…’)

Cemente – Tradução algarvia para cimento;

Cesterna – Cisterna (depósito subterrâneo para recolha de águas pluviais e posterior consumo humano)

Cirque – Circo (Ex: ‘Vames andande pra mod’ir pó cirque.’)

Capetania – Capitania

Córas-som? – Perguntar as horas (Que horas são? – Ex: ‘Ah mon, córas-som iste?’)

Comá-gente – Como nós (ex: ‘Fomes ó Alenteje e vimes unz’omes a beber sarveja lá comá-gente’)

Comé-quié? – Como é que é? (Ex: ‘Ó Chique, comé-quié?’)

Companha – Companhia (Ex: ‘Cumadre, faça-me companha aqui na renda’)

Cromade – Opção que se exerce em vida pra quando se morre. (Ex: ‘É’cande morrer, quêre ser cromade’)

Cucharro – Colher grande feita a partir de cortiça para beber água. (Ex: ‘Fui à fonte e bebi água com o cucharro’)

Debulha – Separar a palha dos grãos de cereal (ex: ‘Moces, andem todes daí e vames debulhar o trigue’)

D

Demódes – De maneira que… (Ex: ‘Demódes qu’iste é assim’ – Ver também ‘Amodes’)

Desbrugar – Descascar favas ou ervilhas. (Ex: ‘Ó filha, desbruga-me aí umas ervilhinhas’)

Desbugalhades – Usado para referir uma pessoa com os olhos bem abertos. (Ex:‘A Silvina apareceu aqui ontre-dias com us olhes desbugalhades’)

Descabide – Iname, sem jeito. (Ex: ‘Aquele Tonhe anda même descabide’)

Desfolhada – Tirar as folhas à maçaroca de milho.

Desgroviade – O mesmo que desnorteado. Homem desorientado. (ex: ‘Aquele Marceline é même desgroveade.’)

Deslargar – Ato de lagar o que tinha sido largado. (Ex: ‘Ah mon… Moce! Deslarga-me da mão!’)

Desmazia – O dinheiro remanescente que se recebe depois de se pagar uma compra. (Ex: ‘Aqui tem a sua desmazia Ti Maria.’)

Despôs – Depois (ex: ‘É fui ó mar, despôs vim’embora.’)

Destrocar – Trocar uma nota de dinheiro de alto valor para ficarmos com notas mais pequenas. (Ex: ‘Ó ti-Tonho, destroque aqui esta nota, faz-afor.’)

Dexê – Deixei (Ex: ‘Na sê ond’é que dexê u raie das chaves’)

Diéb – Diabo. Muito usado para monstrar indignação perante alguém. (Ex: ‘Té dieb, nam’apoquentes, maldeçoade!’)

Disvorciada – Mulher que se diz por aí que se vai divorciar.

E

É – Eu (Ex: ‘É na sê quem foi, más iste chêra-ma’esturre’.)

Empachade – Pessoal que leva muito tempo para se despachar. Pode referir-se também a alguém que sofre de obstrução intestinal. (Ex: ‘Ó Albertine, até parece que tás empachade, moce…’)

Empanzinar – Comer em demasia até abarrotar. (Ex: ‘Na te digue nada Zé, hoje quemi em desmazia. Tou même empazinade…’)

Empulheta – Pequena caixa à saida de um tanque por onde sai a água. (Ex:‘Tenhe que destapar a empulheta pra mod’ir regar a horta.’)

Encalipe – Eucalipto (ex: ‘-Ondé que forem o João e a Maria? -É cude que forem pós encalipes’)

Enfusa – Bilha (ex: ‘Miga, dá-m’aí a enfusa da água.’)

Entropeçar – Tropeçar duas vezes seguidas. (ou só uma mesmo! Ex: ‘Cuidade Zé, que já entropeçastes’)

Êrade da cesterna – Zona delimitada à volta da cisterna, com inclinação constante, para recolher a água da chuva.

Êres – Moeda alternativa ao Euro, adoptada por alguns portugueses, nomeadamente a sul do rio Sado.

Escampar – Parar de chover. (Ex: ‘Vezinha, na s’importa qu’é fique aqui pa m’abrigar da chuva até escampar?’)

Esgarrões – Chuvas muito intensas e fortes.

Estrafega – Tarefa intensa e contínua para tentar acabar um qualquer trabalho com uma data limite apertada. (ex: ‘Fui cavar batatas e aquile é que foi uma estrafega…’)

Esturre – Estado do que fica muito seco e quase queimado. (Ex: ‘Iste chêra-ma’esturre.’)

F

Falastes (dissestes…) – Articulação na 4ª pessoa do singular. (Ex.: ‘é falê, tu falaste, ele falou, TU FALASTES…’)

Farroba – Alfarroba (Ex: ‘Maldeçoades dos pórques que já me forem às farrobas’)

Faz-avôr – Se faz favôr, por favôr. (Ex: ‘Cumadre, dêm’aí o guidal, faz’avôr’)

Fêjão carite – Feijão frade (Ex: ‘Goste munte duma saladinha com fêjão carite’)

Feniscadinho – Homem muito magro (ex: ‘Pálino, andas même feniscadinhe’)

Franquelim – Homem fraco (ex: ‘Esse dieb é um franquelim qualquer c’anda pr’aí’)

Fezes – Canseiras, preocupações. (Ex: ‘Ah mon, tenhe andade c’umas fezes pur cása do vizinhe…’)

Fraturação – O resultado da soma do consumo de clientes em qualquer casa comercial. (ex: ‘Cása que n’a fratura, na predura.’)

Frent – Frente (Ex: ‘Maldeçoade, tira-te já da minha frent, qu’é na te posse ver!’)

G

Galegue – Pessoa do norte. (ex: ‘Aquel’óme c’apareceu pr’aqui ontem deve ser galegue.’)

Griséu – Ervilha.

Guidal – Alguidar (Ex: ‘Cumadre, dêm’aí o guidal, faz-avôr’)

Gurnir – Grunhir (Ex: ‘Us pórques levem a nôte toda a gurnir’)

H

Há-des – Verbo ‘haver’ na 2ª pessoa do singular: (e: ‘É hei-de cá vir um dia; tu há-des cá vir um dia…’)

I

I-di – E daí (Ex: ‘O Carles assebiu, i-di caiu.’)

Impertante – Importante. (Ex: ‘Iste é um assunte munt’impertante’)

Inclusiver – Forma de expressar que percebemos de um assunto, ou não percebemos de todo! (Também existe a variante ‘Inclusivel’. Ex: ‘E digue ainda más: É inclusiver ache este assunte munte impertante.’)

L

Lambarêre – Pessoa que não consegue guardar um segredo. (Ex: ‘A Améla é uma lambarêra’)

Ladêra – Descida acentuada (Ex: ‘Filha, tem cuidade a descer a ladêra pra na caíres’)

Lagues – Lagos

Lariar a pevide – Passear sem permissão para tal, vadiar (Êx: ‘O Manel anda a lariar a pevide’)

Larada – Algo provável de se encontrar nas fraldas dos bebés. (ex: ‘Ah mon, a Beatriz chêra tã mal c’até parece que tem uma larada nas fraldas’)

Laruêre – Pessoa que anda sempre a laruar, ou seja, na boa vida, sem prestar contas a ninguém. Semelhante a lariar. (Ex: ‘Aquele Tonhe Jaquim e´um laruêre’)

Legues – Lagos

Lêra – forma de talhar a terra para o cultivo. (Ex: ‘Chique, vai cavar a lêra das couves.’)

Liquidazinha – O mes moque “nitidazinha”. Diz-se que a ‘omaja tá munte liquidazinha’ quando pretendemos indicar que a televisão tem uma imagem muito bem definida. (Ex: ‘Ó vezinha, a sua tlevezão tem uma omaja munte liquidazinha’)

Lógues – Lagos

Luzescús – Pirilampos (Ex: ‘Esta nôte tá tude chê de luzescús’)

M

Macheia – Uma mão cheia. (Atualmente usa-se muito o termo “bué” Ex: ‘Jaquim, hoje vi uma macheia de combois a passar.’)

Madronhe – Aguardente de medronho (Ex: ‘Este madronhe é même du bom’)

Magane – Vendedor ambulante comparável a um cigano (Ex: ‘Aquele magane das camisas é um maldeçoade!’)

Magala – Idêntico a magano.

Maline – Maligno, mau, teimoso (Ex: ‘U Humberte é même maline’)

Má que jête? – Mas que de jeito? Expressão muito popular utilizada para mostrar indignação num diálogo perante um tema ou assunto relativamente insólito. (ex:‘Manel, atã tu na vás danças com a Jaquelina? -Eu? Má que jête?’)

Maldeçoade – Almaldiçoado (Ex: ‘Ah moce maldeçoade, tira-te já daqui, pra qu’é na te veja na minha frente!’)

Marafade – Irritado, zangado, teimoso ou com garra. No Sotavento algarvio diz-se marfadu (Ex: ‘Ha moce marafade!’)

Marcade – Mercado (Ex: ‘Ontem foi o marcade d’Odeáxere’)

Marcar – Comprar, vender, negociar, conforme o contexto.

Más – Mais (Ex: ‘É na sê quem foi, más iste chêra-ma’esturre’.)

Mate – Mato (Ex: ‘Us cãs abuscarem os coelhes no mê do mate’.)

Matrafona – Mulher feia e gorda. Boneca de trapos. (Ex: ‘A filha do Alberte tá fêta matrafona’)

Mázi – Mas e (ex: ‘Ó ti Manel, mázi comé c’avera de ser isse?’)

– Meu (Ex: ‘Que jête u mé cão ter pulgas?’)

Meceia – Vossemecê (Ex: ‘Cumadre, agora na posse falar co’meceia, porque tenhe que tender o pão’)

Mechas – Expressão usada para demonstrar aborrecimento (eufemismo de ‘merda’) (Ex: ‘Mechas que já dexê cair os oves’)

Melanças – Melancias (geralmente usado apenas no plural. Ex: ‘Cumprade, na tem aí adube prás melanças?’)

Miga – Amigo ou amiga em ato muito familiar (ex: ‘Miga, passa-mu pão.’)

Minduim – Aperitivo para descascar e acompanhar uma cerveja bem geladinha na taberna. O mesmo que alcagoita.

Moss – Moço (Ex.: ‘Moss, deslarga-me da mão’)

N

Na dou fête – Não consigo fazer. Diz-se quando não se consegue fazer algo ou desempenhar determinada tarefa. (Ex: ‘Moce, é na dou fête isse!’)

Nha – Assim como Mon, é a forma mais prática de articular a palavra MINHA. Para quê perder tempo, não é? (Ex: ‘A ‘nha mãe é que sabe, n’é a tua!’)

Númaro (Também com a vertente ‘númbaro’) – Número. (Ex: ‘Ah mon, qual é o númaro do té tlefone?’)

O

Omaja – Tradução algarvia para Imagem. (Ex: ‘Ó Chique, percebes de tlevesons? A minha na dá omaja…’)

Óme – Homem (Ex: ‘Adés óme, pr’ónd’é que vás?’)

Ontre-dias – Há pouco tempo (Ex: ‘Ontre-dias, passou por aqui o Zeferine’)

Oves – Ovos

P

Pciclete – Veículo de duas rodas sem motor (Pode também referir-se aos com motor. Ex: ‘Maldeçoades, ondé que meterem a minha pciclete?’)

Pêche – Peixe (Ex: ‘Hoje fui à praça, ma ná’via pêche’)

Parteleira – Local ideal para guardar os livros de Protuguês do tempo da escola.

Patiar – Pisar, patinhar, geralmente onde não se deve. (Ex: ‘Sai daí Jaquim, tu na vêz que tás-ma patiar u chã tode?’)

Patochadas – Tolices (ex: ‘Aqueles plitiques só dizem patochadas’)

Perssunal – O contrário de amador. Muito utilizado por jogadores de futebol. (Ex.:‘Sou perssunal de futebol’ – Dica: deve ser articulada de forma rápida.)

Pial – Banco de taipa (construção de barro e pedras) encostado à parede da entrada das casas onde as pessoas se sentavam a conversar ao fim da tarde. (Ex:‘Compadre assente-se aí no pial’)

Pitaxio – Aperitivo da classe do ‘mindoím’.

Pitróle – Petróleo (ex: ‘Hoje na tenhe dinhêre nem pó pitróle’)

Pliça – Polícia (ex: ‘Per cása daquele maldeçoade, tive que chamar a pliça’)

Plitique – Político (ex: ‘Aqueles plitiques só dizem patochadas’)

Pôce – Poço (Ex: ‘Brune, tira-te daí c’ainda cais no pôce!’)

Pôrre – Uma queda (Ou caír um…) Caír uma queda. (Ex: ‘Caí um pôrre no chão e fiz sãingue’)

Precura – Ato de perguntar (Ex: ‘Deixa-me fazer-te uma precura…’)

Pregue – Prego (Ex: ‘Vítor, dá-m’aí u pregue’)

Prenha – Mulher grávida (Ex: ‘A maria anda prenha’)

Prontes – Pronto (Ex.: ‘Prontes, já tá a barreca armada’.)

Percása – Por causa (Ex: ‘Ah, mon, atã na vês quiste caiu percása daquile?’)

Q

Quáje – Semelhante à palavra muito apreciada pelos nossos pseudo-intelectuais “quaise”. (Ex: ‘Ontem, fui atravessar a estrada, e quáje qu’era atropelade pr’um carre’.)

Quebra-jum – Pequeno almoço (Ex: ‘Filhe, antes de t’ires embora, na te esqueças do quebra-jum’)

Que jête? – De que jeito? O mesmo que ‘Má que jête?’

Quemer – Comer (Ex: ‘É vou quemer, laranjas e bananas’)

R

Renda – O mesmo que crochê (ex: ‘Cumadre, que beles trabalhes de renda’)

S

Sarveja – Cerveja (Ex: ‘Já tá o Tonhe Jaquim enfrascade na sarveja’)

Sãingue – Sangue (Ex: ‘Caí um pôrre no chão e fiz sãingue’)

Sequinhe/a – Pessoa magra de fraca aparência, lingrinhas. (Ex: ‘O Manel anda même sequinhe’)

Stander – Local de venda com especial destaque para o ’stander de carres’. (Ex:‘Quere comprar um carre nove, mas ainda na fui ó stander’.)

T

Tãinque – Tanque (Ex: ‘Us moces maldeçoades forem ôtra véz tomar banhe pó tãinque’)

Talego – Saco de tecido de fecho com cordão de correr pela boca que se usava para transportar o farnel ou para guardar o pão na cozinha. Também pode designar as mangas de tecido que são enchidas para produzir farinheiras algarvias (de Monchique). Por vezes as próprias farinheiras são chamadas de talegos.

– Teu (Ex: ‘U té pai teve aqui ontre-dias’)

Té-diéb – Muito semelhante a Diébe. Muito usado para monstrar indignação perante alguém. (Ex: ‘Té dieb, nam’apoquentes, moce!’)

Tem avonde – Já chega. Diz-se que ‘tem avonde’ quando se quer dizer que uma medida qualquer já é suficiente. (Ex: ‘Jaquim, já tem avonde de sarveja!’)

Teste – tampa de panela.

Tendal – Lençol onde se coloca o pão a descansar antes de ir para o forno.

Tender – Estender a massa do pão andes da cozedura no forno. (Ex: ‘Cumadre, agora na posse falar co’meceia, porque tenhe que tender o pão’)

Tiosque – Quiosque. Hoje em vias de extinção, era outrora o local onde se podiam comprar jornais, revistas, pitaxios, etc.

Tipe – Juntamente com o ‘É assim’, faz parte das grandes evoluções da língua portuguesa. Também sem querer dizer nada, e não servindo para nada, pode ser usado quando se quiser, porque nunca está errado, nem certo. (Ex: ‘É assim… Tipe, táza ver?’)

Tlevezão – Tradução algarvia para televisão (Ex: ‘Caluda, c’u primêre menistre vai falar na tlevezão’)

Tonhe – António (ex: ‘U Tonhe já anda metide no madronhe outra vez’)

Tosquia – Ato de cortar o cabelo. Ex: ‘O chique foi à tosquia’)

Tôca do forne – Esfregona feita com trapos velhos com que se limpam os fornos de lenha antes cozer o pão.

Tramôces – Tremoços (Ex: ‘Ti-Tonhe, dê-m’aí uns tramôces pra companha da sarveja’)

Trinca-espinhas – Pessoa magra de fraca aparência, lingrinhas. Pior que ‘Sequinhe’. (Ex: ‘O Afonse foi sempre um trinca-espinhas’)

Treuze – Palavras para quê? Todos nós conhecemos o númaro treuze.

Tu-nouves? – Tu não ouves? (Ex: ‘Ó Meguel, atã tu-nouves é’chamar per ti?’)

U

U – O (Ex: ‘U presidente vem cá despôs d’amanhã’)

V

Vossemeceia – O mesmo que Meceia, vossemecê (Ex: ‘Compadre, vocemesseia na tem adube pás melanças?’)

Z

Zorra – Raposa ou mulher elegante mas matreira. (Ex: ‘A Mari-Luísa é cum’uma zorra’)

448 pensamentos em “Dicionário algarvio de termos e dizeres do Algarve (já com o novo acordo ortográfico)”

BECHARA Brasil cedeu mais do que Portugal

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Brasil cedeu mais do que Portugal no Acordo Ortográfico

Publicado em 2011-04-12

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O responsável pelo vocabulário ortográfico no Brasil, Evanildo Bechara, defendeu hoje que o Brasil fez mais concessões para o novo Acordo Ortográfico do que Portugal, atribuindo a tese contrária defendida por muitos ao “abuso” das consoantes mudas.
foto Bruno Simões Castanheira
Brasil cedeu mais do que Portugal no Acordo Ortográfico
João Malaca Casteleiro

“A base fundamental do Acordo Ortográfico está indissoluvelmente ligada ao Acordo de Portugal de 1945. Se há cedências foram do Brasil”, disse o linguista responsável pela implementação do Acordo Ortográfico no Brasil, na abertura do 15.º Colóquio da Lusofonia em Macau.
Sobre as pesquisas de outros especialistas que indicam que o Acordo Ortográfico alterou 1,6 por cento do vocabulário de Portugal e 0,5 por cento do vocabulário do Brasil, Evanildo Bechara considerou que aquelas “resultam do grande emprego na escrita (de Portugal) de consoantes que não se pronunciam”.
“Essa argumentação proporcional mostra apenas um facto: há um excesso de consoantes mudas. Não concordo com o argumento, porque no Brasil as mudanças representam quatro, cinco, seis cedências dos brasileiros e Portugal só fez uma”, disse à Agência Lusa.
Segundo aquele membro da Academia Brasileira de Letras, de 83 anos, a “ortografia portuguesa usa e abusa das chamadas consoantes inarticuladas”, enquanto que o Brasil, “desde 1943 e antes, adopta a solução de escrever só os fonemas que se pronunciam”.
O linguista constatou que “essas consoantes mudas estão em todas as páginas dos dicionários”, o que faz com que o novo Acordo Ortográfico, em termos quantitativos, tenha maior impacto no vocabulário de Portugal do que no do Brasil.
“O brasileiro teve de abrir mão do trema, dos acentos em palavras com ditongos abertos como ‘ideia’ e ‘jiboia’ – e isso é uma agressão à pronúncia brasileira –, do circunflexo de ‘voo’, ‘enjoo’, ‘perdoo’ e de ‘creem’, ‘veem’ e ‘leem’ e os diversos empregos do hífen, muito mais próximos da ortografia portuguesa de 1945 do que a da brasileira de 1943”, explicou.
Por seu lado, João Malaca Casteleiro, da Academia de Ciências de Lisboa, que participou na redacção do Acordo Ortográfico, admitiu também a possibilidade de, “em termos absolutos, poder ter sido o Brasil a fazer mais alterações” do que Portugal.
Mas as alterações no vocabulário do Brasil “reflectem-se num menor número de palavras, porque em Portugal a supressão das consoantes mudas afectou um número larguíssimo de palavras e de uso muito frequente”, disse à Lusa.
“Não é possível chegar-se a um acordo perfeito porque 100 anos de ‘guerra ortográfica’ geraram muitas diferenças assentes em pronúncias também diferentes. E portanto como unificar? Impossível, temos de consagrar a dupla grafia”, concluiu.
Bechara reconheceu a importância do novo Acordo, que “reflecte que os países de língua oficial portuguesa atingiram uma maioridade política e cultural”.
O linguista referiu ainda que “se a unificação ortográfica era no século passado um anseio de professores, hoje tem interesses económicos e políticos para mostrar que aquele grupo de países tem um peso que antes não tinha”, realçou.

Artigo Parcial

 

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BECHARA introdução ao novo acordo

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Introdução ao Novo Acordo Ortográfico – Evanildo Bechara

MA – estadão.com.br () Imprimir

Qualquer discussão, crítica ou indagação que envolva as novas normas de escrita propostas pelo Acordo Ortográfico aprovado em 2008 pelas esferas governamentais para entrar em vigor a 01/01/09, exige conhecimento mais largo do assunto.

Neste primeiro contato com esses leitores, acreditamos que não seria de todo descabido mostrar-lhes as dificuldades inerentes com que tiveram de lutar os ortógrafos anteriores, num espaço de quase cem anos até a elaboração do atual texto objeto de nossas conversas. Isto sem contar os desafios dos escribas medievais para pôr em escrito as palavras utilizadas no seu tempo contando com um alfabeto herdado dos romanos e que se mostrava inadequado a reproduzir sons da nova língua que o latim não conhecia.
Toda essa maravilhosa aventura vai ser aqui posta de lado por fugir ao propósito imediato de nossas considerações. Interessa-nos mais de perto o esforço desenvolvido no final do século 19 até o livro seminal do foneticista português Gonçalves Viana, Ortografia Nacional, saído em Lisboa em 1904, obra que pôs a questão ortográfica nos trilhos da ciência linguístico-filológica do seu tempo. O subtítulo do livro anunciava claramente a intenção que movia seu autor: simplificação e uniformização sistemática das ortografias portuguesas.
O plural ortografias alude às bases dos dois sistemas que presidiam cada corrente apontada como digna de ser seguida: a etimológica e a sônica ou fonética; segundo esta última, as palavras deviam ser escritas como se pronunciam. A escrita etimológica era a que se atribuía ares de ciência, por seguir a tradição greco-latina, com suas letras dobradas e com os dígrafos ph (phosphoro), th (theoria), sc (sciencia), etc. Ambas tiveram de buscar ajuda de diacríticos desconhecidos das duas línguas clássicas: os acentos agudo (´), grave (`) e circunflexo (^), o apóstrofo (‘), o til (~), o hífen (-), a cedilha (,) sotoposta ao c e poucos outros, no que já eram dispositivos que seriam aproveitados nos formulários ortográficos oficiais elaborados pelas comissões acadêmicas a partir do século 20. A utilização dos acentos gráficos tem por objetivo indicar a correta sílaba tônica para os falantes nativos e estrangeiros que não desejam ou não podem cometer erros de pronúncia. Línguas há que dispensam o recurso aos sinais gráficos, como é o caso do latim clássico e dos idiomas germânicos, pelo fato de terem estruturalmente marcada a posição da sílaba tônica. No grego antigo a necessidade do uso dos acentos gráficos se deu no Egito em virtude de a língua da Hélade ter passado a ser veículo de comunicação falada entre estrangeiros que desejavam acertar na posição da sílaba tônica. Entre portugueses e brasileiros a acentuação gráfica também visava a um expediente didático.
Se os acentos tinham funções bem demarcadas entre os timbres aberto e fechado da vogal da sílaba tônica, desde cedo os ortógrafos variaram as funções do hífen e das iniciais maiúsculas e minúsculas, concedendo-lhes aspectos objetivos e subjetivos, criando aos utentes perplexidades de emprego que não puderam ser disciplinadas inteligentemente pelas técnicas e postas em prática pelo homem comum na hora de registrar por escrito esses sinais ortográficos, perplexidades que chegam até ao acordo de 1990 que os signatários tentaram disciplinar e simplificar.
Cabe aos representantes das duas Academias e aos especialistas estudar-lhes as normas aprovadas e dar-lhes condições técnicas para que seja alcançado o propósito dos signatários do acordo, qual seja “um passo importante para a defesa da unidade essencial da língua portuguesa e para o seu prestígio internacional”.
Para dar conta da tarefa que lhe cabe neste particular, a Comissão de Lexicologia e Lexicografia da Academia Brasileira de Letras e sua equipe de lexicógrafos elaboraram quatro princípios metodológicos que nortearam a operacionalização das bases do acordo:
a) respeitar a lição do texto do acordo;
b) estabelecer uma linha de coerência do texto como um todo;
c) acompanhar o espírito simplificador do texto do acordo;
d) preservar a tradição ortográfica refletida nos formulários e vocabulários oficiais anteriores, quando das omissões do texto do acordo.
Por: Evanildo Bechara

* Evanildo Bechara é filólogo e gramático, membro da Academia Brasileira de Letras e Coordenador da Comissão de Lexicologia e Lexicografia da instituição

Bechara defende novo acordo ortográfico

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29/12/2008 – 08h19

Gramático Evanildo Bechara defende novo acordo ortográfico

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SYLVIA COLOMBO
da Folha de S.Paulo

Evanildo Bechara tinha 11 anos quando cometeu seu primeiro erro de tradução. Viajando de Pernambuco para o Rio de Janeiro, de navio, o garoto que se tornaria um dos gramáticos mais famosos do Brasil fez uma parada em Salvador.

Antônio Gaudério/Folha Imagem
O gramático Evanildo Bechara defende o acordo ortográfico que começa a vigorar no Brasil nesta semana
Evanildo Bechara defende o acordo ortográfico que começa a vigorar no Brasil nesta semana

Entrou num restaurante e pediu um vatapá. O garçom perguntou como ele queria o prato. Bechara respondeu: “bem quentinho”, como era costume fazer-se em sua terra para determinar a temperatura da comida.
Acabou tendo de engolir um bocado com muita pimenta. Foi então que as lágrimas brotaram de seus olhos.
“Aprendi na pele que “bem quentinho”, na Bahia, era “bem apimentado”. Por conta desse episódio e de outros que vivi quando minha família me mandou para o Rio para estudar, passei a me interessar pelas diferenças que a língua portuguesa tem em diferentes lugares. Aí virei professor, viajei, dei aulas no exterior, lancei meus livros e cheguei aqui”, resume.
Bechara, 80, hoje ocupa a cadeira 33 da Academia Brasileira de Letras, para a qual foi eleito em 2000, e tem uma dura tarefa pela frente. A partir de 1º de janeiro, quando as regras do Novo Acordo Ortográfico entrarem em vigor em oito nações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, será ele a autoridade máxima no Brasil para decidir as possíveis querelas e pendências com relação ao modo como os brasileiros terão de passar a escrever.
“Não me sinto confortável nessa posição. É muito incômodo. E é claro que a interpretação que fiz está sujeita a erros. Só não erra quem não faz”, disse em entrevista à Folha, na sede da instituição, no Rio.
As regras têm como objetivo unificar as diferentes grafias que o português tem nos países em que é língua oficial. Elas começarão a ser aplicadas em janeiro de 2009, mas as atuais continuarão sendo aceitas até dezembro de 2012.
No caso brasileiro, as principais mudanças serão a eliminação de alguns acentos e do trema e a adoção de outras regras para a hifenização. “Tem gente fazendo tempestade em copo d’água. Já passamos por cinco reformas e nunca houve um grande trauma. E mais, o Brasil sempre foi quem mais cedeu até hoje. Nesta reforma, está acontecendo o contrário, os outros países, Portugal principalmente, é que estão cedendo mais”, diz.
De todas as mudanças, as que regulam o uso do hífen têm causado mais polêmica. Bechara explica que a idéia, de um modo geral, foi a de “suavizar” sua utilização. “Como um homem comum, que não é um gramático nem tem formação técnica sobre a língua, pode saber, por exemplo, que uma expressão é um substantivo que em outros casos pode ter outra função? Ao tirarmos os hífens, estamos facilitando a sua vida.”
Contexto
O gramático explica que o espírito das novas regras é deixar que o contexto explique aquilo que a ortografia não alcança. É o caso, por exemplo, da contestada retirada de acento de “pára”, do verbo “parar”.
Como diferenciá-lo da preposição “para”? “Bem, quando se diz “manifestação para avenida”, fica bastante claro que se trata do verbo, porque os outros elementos na frase levam a essa dedução”, diz.
O caso dos ditongos que perdem o acento, como “idéia”, também causaram estranhamento. “Não é possível termos duas grafias diferentes para o mesmo tipo de formação. Por que “aldeia” não tem e “idéia”, sim?”
Bechara acha que a retirada do acento não vai confundir, por exemplo, crianças em processo de alfabetização. “O primeiro aprendizado de uma pessoa é sempre imitativo. Depois vem a reflexão. Quando ela for aprender a escrever, já saberá a diferença de pronúncia das duas palavras sem que seja necessário usar um sinal gráfico.”
Para Bechara, a reforma ortográfica é necessária para defender a língua portuguesa. Trata-se do único idioma falado por um grupo majoritário -mais de 230 milhões de pessoas- no mundo a ter duas grafias diferentes. “É essencial que o português se apresente internacionalmente com uma única vestimenta gráfica. Para manter o prestígio e para que seja melhor ensinado e compreendido por todos”, conclui.