faleceu daniel de sá

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faleceu daniel de sá

em memória do escritor Daniel de Sá
as nossas homenagens estão em
http://www.lusofonias.net/doc_download/759-caderno-02-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/959-suplemento-2-daniel-desa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/1532-daniel-de-sa.html
http://www.lusofonias.net/doc_download/488-declaracao-amor-daniel-de-sa.html entre muitos outros textos…

 

“O Santaneiro”

Eu já não tenho o gado p’ra tratar,
Nem livros que me esperam para estudo;
Nem tenho de mentir, para ir brincar,
Dizendo que já sei, que já fiz tudo.

Mas chego a crer que um dia, se eu voltar,
A linda ilha dir-me-á quanto me iludo:
Que é pequena p’ra ver, grande p’ra amar,
Que a vida é sempre igual e eu é que mudo!…

Quem voltasse a tirar (inda o desejo)
Às cabras leite, às crias o barbilho,
Sorvendo, de manhã, o sol num beijo.

E gostar de comer, com pão de milho,
Peixe assado e beber chá de poejo,
Ser criança, ter Pai e ser bom filho.”

Daniel de Sá

este foi o texto que escrevi sobre ele no 16º colóquio outº2011 que a ele era dedicado sob o título Santa Maria Ilha-Mãe…

DESCOBRIR DANIEL DE SÁ OU O POETA DAS CASAS MORTAS
por chrys chrystello aicl, 16º colóquio da lusofonia, 30 setembro – 5 de outubro 2011 em santa maria, vila do porto   ( a azul os textos a ler pelo Luciano)

 

Este é o autor que primeiro descobri e traduzi. Depois dele viriam Dias de Melo, Valadão Serpa, Onésimo de Almeida, Urbano Bettencourt, Cristóvão de Aguiar, Vasco Pereira da Costa, Eduardo Bettencourt Pinto, apenas para mencionar os que estiveram nos Colóquios) e muitos outros que fui lendo e traduzindo. Creio que posso dizer que conto com eles como amigos e companheiros. Cheguei a esta idade sem ter um autor amigo embora amigos tivesse que eram Autores. Foi com eles – e com muitos outros que não nomeio por desfastio – que cresci a apreciar e a ler autores de matriz açoriana.

FALO HOJE e AQUI DE Daniel de Sá, um escritor e um amigo, cuja obra comecei a traduzir antes de o ler, de ser amigo, antes mesmo de saber a cor e o cheiro dos seus lugares de infância e de calcorrear as ruínas onde habitou e das quais se serviu para essa obra que é o “O Pastor das Casa Mortas”. Nesse livro e no plano da linguagem, o autor [1]dá-se ao luxo de exportar, por efeitos de mimética, para uma das regiões mais interiores e montanhosas de Portugal, a Beira Alta, o seu herói em busca de um amor perdido no léxico e na sintaxe dos velhos montes escalavrados por entre o pastoreio numa verdadeira apologia da solidão física e mental que é o retrato de Manuel Cordovão esse lusitano de um amor só para toda a vida. Como o autor diz, logo a começar, trata-se de um livro dedicado “Às mulheres e aos homens que ainda acendem o lume nas últimas aldeias de Portugal.”

Mas não é da Beira Alta que se fala, nem do pastor, nem das casas, é sobretudo das memórias de casas onde o autor viveu e construiu, lentamente, uma teia de imagens, sentimentos e de princípios que nortearam a sua vida. Só conhecendo as ruínas, as pedras que foram casas, os campos que foram pastos e hoje perderam o cheiro, nos podemos vangloriar de entender a sua escrita mariense que sempre o marcou apesar de ter passado a maior parte da sua vida na micaelense Maia.

Guardadas na infância, as reminiscências, fragrâncias e as colorações perpassam ao longo de quase uma centena de páginas numa narrativa utilizando terminologia neutra (i.e. não insular) que deve ser lida como uma ode ao açoriano isolado, de si e do mundo, num amor perdido que se encontra apenas quando Caronte ronda, tal como o açoriano expatriado que volta à ilha para morrer.

Como diz o autor noutra obra “Embora eu vivesse numa ilha pequenina, a cinco minutos de um passeio calmo até ao aeroporto de quase todas as companhias aéreas que havia no Mundo, isso para o caso pouco importa! Aliás esta transposição da naturalidade geográfica do personagem deixa-nos permanentemente na dúvida se a Teresa do “Pastor” não será irmã gémea da outra personagem feminina que acompanha os seus passos numa digressão do livro “Santa Maria: a Ilha-Mãe”. Trata-se de uma visita não só ao Despovoamento do país real, montanhoso, interior e árduo de Portugal mas ao próprio “despovoamento das ilhas”. Aqui não se resgata o imaginário coletivo naquilo que tem de mais genuíno e identificador, antes pelo contrário, se dá a palavra a uma erudição improvável de um apascentador de cabras.

Aqui não há a memória plural das “Saudades da Terra”, que vem desde os tempos de Gaspar Frutuoso, mas sim uma ficcionalização dum fenómeno que não se mimetiza apenas na digressão pela Beira Alta. As Casas Mortas são-nos apresentadas como um resultado inevitável e inelutável ao longo da vida do personagem principal, sem que a sátira ou o humor permeiem a couraça de convicções de Manuel Cordovão, quiçá à semelhança do autor. Existe uma interdependência do autor, dos personagens e do leitor que nos levou a ver e rever dezenas de vezes, uma só passagem do livro para lhe dar na sua tradução em inglês a sonância, a cromia, a harmonia e a poesia das prosas.

De início pensei que seria ocasião única, mas rapidamente me apercebi de que era recorrente à totalidade da obra ficcionada. O resultado é uma prosa rica, densa e tensa, enovelando em diálogos simples e curtos um enredo que nos prende da primeira à última página e me levou a ficar órfão intelectual desde que acabei de traduzir o livro. As suas personagens e a sua escrita fazem de tal modo parte da minha vida que sinto uma espécie de síndroma de Estocolmo, fiquei cativo e apaixonei-me pelos captores…e agora, como vai ser?

Já o outro livro, traduzido na mesma época, “Santa Maria Ilha-Mãe”[2] é uma viagem ao passado, permeada de uma nostalgia quase lírica e uma trova à magia da infância e das suas colorações simples mas bem nítidas.

Fala-se de como os Açores conviveram com o isolamento ao longo dos séculos, sob a ameaça constante dos ataques de piratas, a inculcar ainda mais vincadamente as crenças de origem religiosa — numa ilha que felizmente não foi muito assolada por terramotos nem explosões piroclásticas. Essa mundividência, leva-nos naquilo que pode ser considerado o mais interessante guia ou roteiro turístico desta ilha que ora começamos a conhecer.

O título gerou controvérsia, quer na versão portuguesa quer inglesa (Santa Maria: Ilha-Mãe; Santa Maria, Island Mother”, e como o próprio autor notaria: “Não se trata de “mãe” com valor de adjetivo, mas sim de dois substantivos, tanto mais que os liguei com hífen em Português. Como … uma ilha que é mãe também…”

Diz-nos o autor que O Clube Asas do Atlântico era um dos meus quatro lugares míticos. Os outros três, também sagrado um deles, eram a capela de Nossa Senhora do Ar, o Externato e o Atlântida Cine. Ainda hoje recordo exatamente o seu cheiro e todos nós – ao lê-lo – sentimos com ele, os cheiros, as cores e as toadas que nos descreve.

Estes dois livros pertencem a um mesmo tempo, em que “falar do passado açoriano é, também, falar do seu presente, e referir-se ao presente é remeter inapelavelmente ao passado, o que mostra a unidade e a solidez de propósitos do livro”, como diria Assis Brasil, referindo-se ao notável e quase único traço constante de profundo humanismo que informa os textos. Todas as suas personagens, são de tal forma credíveis que nos sentimos transportados ao local e vivemos partilhando os sentimentos dos interlocutores.

Como magistralmente disse a escritora canadiana Ann-Marie MacDonald,

A tradução, tal como a escrita, é uma arte e uma maestria, com um toque de alquimia. Quando o autor e o tradutor se reúnem, o resultado pode ser inspirador. As nuances traduzem a língua numa forma de arte. [3]

Assim, como tradutor desloquei-me, de novo à ilha em 2010 para conhecer as pedras, as casas e as ruinas do autor que em 2006 mal conhecia quando o comecei a traduzir e a quem aqui hoje rendemos preito. Calcorreei montes e vales, falei com gentes e saltei sebes e muros para ver de mais perto essa memória que criara a magia do livro “O Pastor das Casas Mortas”. E a este respeito escrevia o autor em 2/9/2010

Emocionei-me mesmo, corisco adotivo dum raio. Eu sabia que facilmente descobririas a casa da Ribeira do Engenho bem como, mais facilmente ainda, as ruínas da casa do pastor de ovelhas, de cabras e de vacas. Aquela casinha da Ribeira do Engenho mantém-se tal e qual era há sessenta anos, quando nos mudámos para a de Santana, a tal que nunca tinha sido chamada casa antes de lá morarmos.

Um forte abraço, comovido. Daniel

E à tarde nessa data, acrescentava:

Apesar de tudo, tenho saudades daquelas pedras. Elas não tinham culpa de não terem qualquer nobreza. Nós demos-lhes a possível. De caráter, claro. Obrigado. Obrigado. Um forte par de abraços.

Bastaram as fotos que eu tirara em Santa Maria às “ruínas do Daniel” como então lhes chamei, para provocar uma avalancha de recordações que vinham à tona como se tivessem ocorrido na véspera:

Em 9 de outubro 2010, daniel.de.sá escrevia

… a Sr.ª Francelina e a Almerinda! Meu Deus, como me lembro bem delas! Pois é, e além daquilo tudo ainda cabia a máquina de costura! O que valia é que as mãos de minha Mãe eram tão pequeninas que quase não ocupavam espaço. Mas olha que eram mãos de fada, lá isso eram. Iam várias senhoras do Aeroporto lá a casa à costura e havia raparigas que iam aprender. Aquele retangulozinho dava para tantas coisas e tanta gente! Até se dançava pelas festas principais do ano. Pendurava-se o porco ou deixava-se a carne em alguidares pelo chão, vigiada pela  Durana (a cadela que se tornou uma lenda). Havia senhoras com o corpo assim mais para o menos bem feito que gostavam muito do trabalho de minha Mãe, que lhes ajustava o tecido como se elas fossem manequins. Quando meu Pai morreu, tínhamos uns blocos de cimento que tinham sido feitos nos Anjos e estavam postos a secar no murinho do adro da ermida. A minha irmã ia comigo todos os dias regá-los para não racharem e ninguém os roubou nunca! Eram para fazer uma casita, que a Câmara tinha autorizado usar os terrenos baldios em frente aos nossos pastos, numa parte larga da canada. Vendemo-los e serviram para pagar a renda desse ano ao “menino” José António Arruda. A dívida corrente de uma mercearia, nas Pedras de Santo Antão, ficou por pagar.  Só a pude pagar cinco anos mais tarde (vim só com o 4º ano). Pedi a um compadre meu que passasse por lá, a perguntar quanto era a dívida, que eu iria em breve na minha primeira visita de saudade e queria pagá-la. Eram 900$00. O dono da loja, que nunca imaginara poder receber aquele dinheiro, disse ao meu compadre: “Ainda há gente séria neste mundo!” Graças a Deus, não éramos dos piores… Mas que estou para aqui a dizer? Esta conversa não interessa a ninguém, só a mim e às minhas saudades. Culpa do Chrys, que me trouxe para aqui estas coisas memoráveis. Abraços. Daniel

Em 10 outubro de 2010, o autor voltava à carga emocional que as fotos das ruínas da sua velha casa em Santa Maria lhe inspiravam:

Vou falar só mais um pouco a propósito das fotografias do Chrys. Só lhes falta o cheiro. Foi precisamente do cheiro que mais falta senti, quando no verão de 2009 fui a Santa Maria depois de dezanove anos sem lá ter posto os pés. Os nossos pastos, sobretudo à volta da casa, eram amarelos e azuis da macela e do poejo. No resto a paisagem estava cheia de murta, giesta ou juncos. Arrotearam tudo. Ficou sem pasto nem jardim. Já não cheira. No Aeroporto, dos velhos cheiros, nada. Só um arzinho dele na casa da Ana [Loura]. A capela de Nossa Senhora do Ar ardeu, e foi substituída por aquela, muito parecida, mas de cimento. Resistiu a torre, que é de pedra, como pudestes ver. Meu Pai trabalhou na sua construção. Chegou a levar às costas uma pedra de duzentos quilos, que está lá, com certeza. Foi no alto daquela torre que meu Pai me mostrou (a única vez que o fez) que ficara muito satisfeito com uma classificação minha. Só confessava a sua satisfação às escondidas, a minha Mãe. Creio que o dizia aos amigos. Ele pedira-me para eu ir fazer qualquer trabalho relacionado com as vacas. Eu tinha de estudar, porque ia haver chamadas orais de Francês, mas disse que não fazia mal, havia de me desenrascar. Meu Pai, que chegou a dizer que então iria ele, estava tão cansado que aceitou que eu fosse. No outro dia fui ter com ele ao cimo da torre, e perguntou-me de imediato: "E então?" Eu respondi: "Tive quinze." Beijou-me, muito contente.
Aquelas silvas, em primeiro plano nas fotos das ruínas da casa, davam umas amoras diferentes de todas as que conheço. Embora gradas, não eram tão doces como as outras, e tinham uma pelica branca, muito ligeira, a cobri-las em parte. Em buracos das pedras daqueles muros as abelhas selvagens construíam uns favos em barro (dois ou quatro) onde faziam um mel castanho, muito escuro, depositando um ovo em cada favo. Eu ia muitas vezes, mais um amigo da minha idade, à procura desses favos, a que chamávamos casulos. Abríamo-los com um espeto e chupávamos o mel trazido na ponta do próprio espeto. Esta espécie de abelhas é tão rara que o Dr. Virgílio Vieira, biólogo, que estuda esse tipo de bicharada cá nos Açores, nunca tinha ouvido falar delas. As matas do Aeroporto perderam o cheiro também. As árvores cresceram muito e são muito menos do que antigamente. O hotel também ardeu, não poderia cheirar como antes. O Clube Asas do Atlântico envelheceu tanto que lhe fizeram uns transplantes, pondo cimento onde havia madeira. Pronto, não se fala mais nisso. Eu teria praticamente uma história para cada foto, já disse. Mas poupo-vos. Abraços. Daniel 10 outubro 2010

Não fiz esta segunda viagem à Ilha-Mãe como amigo do autor, mas como tradutor de um escritor que aprecio. Pode nunca ganhar a fama de um Prémio Nobel mas escreve para quem gosta de o ler e tem sido nossa missão nos Colóquios divulgá-lo e traduzi-lo. Muito há para fazer ainda neste campo mas para já convém partilhar convosco esta relação umbilical nunca cortada entre o autor e a ilha, e para isso nada melhor do que um texto do Daniel intitulado: Santa Maria, uma declaração de amor

Considero-me um privilegiado quando me chamam mariense. Porque, como filho destas ilhas, tenho a sorte de ter pai e mãe. Foi meu pai São Miguel, minha mãe, Santa Maria, e se se pode ter dupla nacionalidade, por certo que poderá ter-se dupla “insularidade”.

                Sou mariense, sim, e julgo que de pleno direito. Cagarro e santaneiro. O que foi outro privilégio, ter vivido em Santana. Mais de oito anos, depois de quatro por São Pedro, na casa do Sr. Armando Monteiro, e seis meses na Ribeira do Engenho, numa casinha que era toda ao pé da porta e tinha o telhado à altura do caminho.

                De São Miguel saí ainda de cabelos compridos, de que guardo uma vaga memória mas somente do dia em que mos cortaram, já em São Pedro. Antes disso, e da ilha onde fui gerado e onde nasci, só sei o que me contava minha mãe. Tempo esse em que uma criança de dois anos podia andar pelas ruas e ir até longe, no longe relativo do tamanho do corpo, sem deixar preocupado quem quer que fosse. Palmo e meio de pernas bastava para fugir facilmente das rodas de uma carroça ou de um carro de bois.

                Muito cedo comecei a ser aluno da vida, em Santa Maria. Que belas lições recebi! Recordo a sabedoria de um povo a quem vi cavar um poço antes do tempo da sede. Aprendi a sua bondade em coisas tão simples como aquelas grandes pedras, postas ao alto à semelhança de pequenos menires, onde o gado ia roçar-se placidamente. A minha definição como pessoa começou a fazer-se com estes e com outros ensinamentos casuais ou espontâneos, sem pedagogia diplomada.

                Pode parecer um contrassenso considerar um privilégio ter vivido em Santana, porque aquela era uma das aldeias mais rurais de Portugal. Nem havia sequer uma canada razoável que lhe fosse caminho. A que existia servia, em parte, como leito de uma ribeira, onde aflorava a rocha irregular posta a descoberto pela erosão. Durante séculos, foi a única via que levava a Vila do Porto. Maior isolamento do que aquele é difícil de imaginar. Ainda assim, em Santana nasceram e viveram pessoas de grande valor humano e social. Prodígios da superação.

                De súbito, tudo mudou em 1945. Em Santana propriamente não, porque ela ficou imutável na sua rústica ancestralidade. Mas, mesmo ali ao lado, fora feito um aeroporto para ser um dos melhores e mais concorridos do Mundo. A Vila deixou de ser a principal referência, porque até na religião os de Santana se tornaram como que paroquianos da capela de Nossa Senhora do Ar, que antes fora lugar de culto de protestantes, católicos e judeus. Ia-se e vinha-se usando atalhos desenhados por milhões de passadas, cortados aqui e ali por muros que era preciso saltar. A aldeia isolada ficara a poucos minutos de um mundo novo e impensável. Mas aquela gente recebeu-o quase com a mesma naturalidade com que via nascer o Sol todos os dias, o Sol que gretava o solo árido no verão, depois de secos os lameiros do inverno. Aquela gente, que resistira à angústia da fome, numa penúria humilhante e indigna da condição humana. Como um pouco por toda a ilha, aliás. Mas que manteve uma dignidade bíblica, porque a dignidade é um estado de espírito mais do que uma afirmação social.

                A nossa casa nunca fora chamada casa antes de lá morarmos. Nesse tempo, era um absurdo pensar que quem tivesse menos de dezasseis anos não podia trabalhar. Não o proibia a lei, e a isso obrigava a necessidade de as mães não terem falta do que pôr na mesa à hora de comer. Apesar disso, não lamento nada da minha infância.

Fui pastor de cabras, de ovelhas e de vacas. Cavalguei em pelo e sem esporas nem freio, como os índios. Nunca ninguém me ensinou a ter medo do dia nem da noite. Fui cowboy ou índio na mata de Monserrate e nas do Aeroporto. Mas não estraguei nenhuma árvore, nem os meus companheiros de aventuras. Contei histórias ao meu amigo Elias, e contava-me ele outra por cada uma das minhas. Matávamos o menor número possível de personagens, quer fossem índios ou bandidos. Apenas o essencial para haver vencedores e vencidos.

Entretanto, ia aprendendo em livros ou num quadro preto. Primeiro na escola de Santana. Com a D. Eduarda na 1ª classe, a D. Doroteia, na 2.ª, a D. Úrsula, na 3.ª, a D. Francisca, na 4.ª. Continuam a ser das minhas heroínas preferidas. Fizeram o milagre de me ensinar a ler, de explicar que povo somos e a que terra pertencemos. Depois veio o Externato. Juntei à minha lista de heróis e de heroínas mais uns quantos predestinados para o bem e a sabedoria. Passei a pertencer também à geração do Cavaleiro Andante, sem dúvida a mais prodigiosa publicação juvenil que houve em Portugal. Não tínhamos dinheiro para livros nem revistas, por isso era o José Guilherme Correia que mo emprestava sempre. E alguns livros também, como o José Vieira Souto Martins, um amigo de que nada sei há meio século. Foi assim que pude ler Emílio Salgari, Mark Twain ou Enid Blyton.

E havia o Clube Asas do Atlântico. O Asas! Nunca ninguém me pôs na rua nem mostrou desagrado pela minha presença. Nem imaginavam o bem que me estavam fazendo. Ali ouvíamos os relatos do futebol e do hóquei das nossas alegrias patrióticas. Era onde eu tinha à disposição os principais jornais que se publicavam em Portugal. Um dos mais bem escritos era A Bola, e por isso, ao mesmo tempo que a rivalidade entre o Sporting e o Benfica era um dos principais fatores de unidade dos Portugueses, o desporto, contado naquele jornal que mudou tanto que se pode considerar extinto, era também uma lição de cultura.

Não longe, o campo dos jogos épicos do futebol romântico de dois defesas, três médios e cinco avançados. Com o mítico Badjana a dar os últimos pontapés na bola, jogando pela equipa da Direção do Serviço de Obras, onde meu pai trabalhava. Depois veio outro clube, o de Gonçalo Velho, para o qual minha mãe e minha irmã bordaram os primeiros emblemas.

No entanto, a alegria suprema tinha lugar reservado no Atlântida Cine. O seu porteiro deixava muitas vezes as crianças entrarem sem pagar bilhete. Por isso o Sr. Cardoso faz parte da minha lista de heróis particulares. E o grito “ó Cardoso, apaga a luz” ainda ecoa nas minhas recordações como o anúncio de todas as claridades. Outro benfeitor de homens a haver.

Na capela de Nossa Senhora do Ar aprendi o lado mais humano da vida. Aquele que pensa acima de tudo no que nos distingue dos irracionais. Se é certo que sem uma fé sobrenatural se pode ser boa pessoa, o cristianismo à maneira do Padre Artur é o testemunho do bem na Terra.

Mas qualquer pedaço de mundo vale pelo que vale a sua gente. A do meu tempo era feita destas e de outras figuras que marcaram o modo de ser de um tempo e de uma geração em que havia na ilha mais forasteiros do que naturais dela. Sorte nossa que a maior parte dos que em Santa Maria buscaram um pouco mais de fortuna ou um pouco menos de infortúnio eram pessoas de deixar saudades. Por isso o reencontro com velhos pioneiros dos tempos modernos da Ilha de Gonçalo Velho é sempre um momento de festa que dificilmente tem semelhança quando as amizades foram feitas por outras bandas.

O próprio aeroporto, começado a construir durante a guerra, acabou por ser um lugar de passagem para a paz. Se, em 1918, Franklin Delano Roosevelt escolheu Ponta Delgada para apoio ao transporte de tropas a caminho da Europa, por aquelas pistas passaram sobretudo soldados de regresso a casa. O nome de código da operação, “Green Project”, era ele mesmo uma declaração de esperança numa nova era. Foi neste ambiente, um dos espaços nacionais onde mais se concentravam pessoas com ensino superior ou com uma cultura acima da média, que começou a germinar a minha vontade de fazer das palavras escritas um uso para além da obrigação de alguma carta familiar. Sem Santa Maria, sobretudo sem o seu Externato, eu teria ficado pela 4.ª classe, tal como todos os rapazes que nasceram na Maia, em São Miguel, no mesmo ano que eu. Por um desses acasos que são difíceis de explicar, cresci logo nos primeiros anos de vida com uma curiosidade sem limites. Um dia, ainda antes de completar seis anos, perguntei a meu pai como é que se faziam versos. Ele era um improvisador de quadras e de histórias como poucos conheci na vida. Chegou a fazer o negócio de uma burra cantando ao desafio. E, nos intervalos do almoço, contava casos a homens da sua idade, mas tão interessados como crianças. Vi muitos filmes pelos seus olhos, ou ouvi-os da sua boca. Ele levou a sério a minha pergunta sobre poesia, e respondeu como se deve sempre responder a uma criança: dizendo a verdade das coisas como se se falasse ao adulto que a criança será um dia. Logo a seguir exercitei o meu novo conhecimento cantando para uma vizinha da minha idade, de que só guardo a memória de uns longos caracóis loiros. Sei que começava assim, esse que foi em rigor o meu primeiro poema: “Sou Daniel/ da ilha de São Miguel”.

Era, sim, com a sorte de ser da Ilha-Mãe também. E nela vivia então um poeta que fez parte do meu imaginário, e de quem eu muito quis ser imitador: Lopes de Araújo. Não tive a sorte de ser seu aluno, mas a ânsia de alcançar um estatuto semelhante ao seu foi talvez o maior impulso que me levou a dedicar-me à escrita. Mas Santa Maria veio a ser para mim cenário de drama também. Numa certa manhã, os responsáveis pela Direção do Serviço de Obras estavam reunidos para despedir pessoal. O critério escolhido foi o de optar pelos trabalhadores com menos filhos. O nome do meu pai foi um dos primeiros a serem falados, porque éramos só minha irmã e eu. Minha irmã não estudara porque as propinas equivaliam a um terço do ordenado de meu pai que levou um ano a decidir se eu deveria frequentar ou não o Externato. Acabou por resolver-se pela positiva, e eu revi a gramática da 4.ª classe, feita um ano antes, estudando-a enquanto vigiava as vacas. Valeu-nos que nunca paguei propinas no colégio, como chamávamos ao Externato.

O Miguel Côrte-Real, esse homem da linhagem dos primeiros povoadores e a quem Santa Maria muito deve, não concordou com a ideia, alegando que eu estudava, e que meu pai e minha mãe, costureira, se sacrificavam a trabalhar mais do que podiam para eu ter aquele privilégio. Estava a questão por decidir quando chegou um funcionário com uma notícia dramaticamente irónica. Meu pai acabara de deixar vago definitivamente o seu lugar na vida.

Daniel de Sá é o autor açoriano que primeiro descobri e traduzi. Por ter sido o primeiro que traduzi quis vir aqui homenageá-lo na terra que ele me deu a conhecer nesse seu livro. Propus até que designassem uma rua com o seu nome ou como ele sugeriu que dessem o nome de Santa Maria Ilha-Mãe a uma rua e espero que o Município avance com essa proposta. Por ter sido o primeiro foi ele um dos que levei nessa jornada dos colóquios pelo mundo, para que fosse traduzido em várias outras línguas como o Búlgaro, Russo, Romeno, Polaco, Esloveno, Italiano e Francês.

Por mais que não queiram os seus autores ali vive a todo o instante a palavra mar. Essa a omnipalavra que jamais se desvanece também nos poemas de Vasco Pereira da Costa e de Eduardo Bettencourt Pinto, ambos aqui presentes, e mesmo quando Daniel de Sá escreve sobre montes e vales das Beiras. Aliás Daniel escreveu que, aqui bem perto, na Ribeira do Capitão e na Praia dos Lobos as arribas praticamente desaparecem oferecendo a ilha a quem vem do mar. E esta ilha, nós, que somos corsários das palavras, a tomamos como nossa para todo o sempre para que seja partilhada entre todas as pessoas de bem e de boa vontade desfraldando bem alto esta bandeira da Lusofonia que por todo o mundo erguemos como se fora um Padrão dos Descobrimentos. O meu Obrigado ao Daniel e à Ilha-Mãe surge em forma de poema:

1004. VOLITANDO

Vieram os deuses

plantaram ilhas 

onde dantes havia água

uma era Ilha-Mãe,

havia a Mãe-Ilha,

outra Marilha,

a Ilha Menina

a Ilha-Filha

nove irmãs

filhas de Posídon e de Afrodite

nascidas da espuma do mar

 

nos montes verdes

rugiam dragões

cuspiam fogo

tremiam os chãos

secavam ribeiras

vomitavam magma

choviam trovões

de Thor filho de Ódin

esquecido das gentes e animais

 

pobres escravos e colonos

amanhadores de rochas e fomes

desbravadores de mínguas

crentes e temerosos

orando promessas seculares

criam no destino e sabiam-se culpados

 

ainda hoje penam

com liberdades que não pagam dízimos

votam com os pés da emigração

a libertação de todas as cangas

mas voltam sempre

romeiros em promessas várias

açorianos até ao tutano

 

sem alforrias nem autonomias

perenes escravos destas ilhas

escrevem a história que poucos leem

4 maio 2011

É graças a esse primeiro autor que traduzi e que, hoje, aqui homenageamos que os Colóquios se arvoraram em paladinos da literatura de matriz açoriana, encarregues de atravessarem mares nunca dantes navegados e chegar a leitores insuspeitados em línguas diversas que também aí se faz a Lusofonia em que acreditámos.

Assim se explica que este 16º colóquio da Lusofonia tenha chegado não numa caravela quinhentista mas nas asas do sonho a que chamamos Lusofonia. Os únicos corsários que encontramos por esses mares foram aqueles que ainda não reconheceram o valor dos colóquios, da necessidade da defesa intransigente da língua e da cultura de todos nós. Mas a nossa artilharia de mais de 200 milhões de lusofalantes, a Gramática de Evanildo Bechara, os Dicionários de Malaca Casteleiro e a obras da novel Academia Galega da Língua Portuguesa foram suficientes para evitarmos a abordagem. Os monstros adamastores, para os quais nos haviam alertado, soçobraram com as primazias do novo Acordo Ortográfico de 1990 e foram juntar-se em triste carpideira aos Velhos do Restelo.

Que da ocidental praia Lusitana, por mares nunca de antes navegados, passamos ainda além da Taprobana, em perigos e guerras esforçados, mais do que prometia a força humana, e entre gente remota edificamos o Novo Reino da Lusofonia, que tanto sublimámos.

Em uníssono: Bem hajas Daniel. Bem hajas Daniel.

(este foi o texto lido mas a comunicação original continua …i;)

1] (ed. VerAçor 2007)

[2] (editado em 2007)

[3] “Translation, like writing, is both art and craft, with a touch of alchemy. When translator and author actually get to meet, the result can be inspired. Nuance is what translates language into art.” Ann-Marie is a Toronto-based writer and actor. She has received accolades for her playwriting, acting and writing. Her play Goodnight Desdemona (Good Morning Juliet) won the Governor General’s Award for Drama, the Chalmers Award for Outstanding Play and the Canadian Authors’ Association Award for Drama. She won a Gemini Award for her role in the film Where the Spirit Lives and was nominated for a Genie for her role in I’ve Heard the Mermaids Singing. Her first novel, Fall On Your Knees, was published in 1995 to much critical acclaim in Canada and abroad. Her latest book, The Way the Crow Flies, was shortlisted for both the Giller Prize and Governor General’s Award.

http://www.banffcentre.ca/programs/93_words/2007/biltc/past_programs.aspx

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DA CÂMARA MUNICPAL DA RIBEIRA GRANDE

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Morrer na ilha grande fechada…

 

Há dois mestres da literatura açoriana contemporânea que ficarão na história como exemplos da perfeição da escrita: Fernando Aires e Daniel de Sá.

Ambos admiravam-se e nós, humildes seguidores das suas obras, admirávamos a limpidez da escrita de ambos, desde a síntese de Fernando Aires à “prosa enovelada e tensa, plena de subentendidos, a tecer sua urdidura através de achados linguísticos” de Daniel de Sá, como escreveu Luis António de Assis Brasil.

Ambos partiram quando menos se esperava.

Daniel de Sá decidiu sair da sua “Ilha grande fechada” no dia seguinte às celebrações da Santíssima Trindade, assumindo a sua forte convicção e formação religiosa, sacrificando a família e amigos, como o protagonista João do referido romance.

Ao deixar-nos, Daniel dá vida à frase mais bonita que inventou: “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”.

Daniel de Sá ficará para sempre na ilha, mesmo naquela que reside na memória de cada um de nós.

A minha ilha esteve sempre rodeada pelo Daniel.

Desde os tempos do “Correio dos Açores” até há poucas semanas atrás, guardava com enlevo tudo o que recebia do amigo, mentor e inspirador.

Era rara a semana que o Daniel não me enviava um ‘email’, a propósito das minhas crónicas neste jornal: apoiava, discordava, sugeria-me, corrigia-me, inspirava-me, acrescentava e até esclarecia-me sobre as dúvidas mais misteriosas da nossa história insular.

A última, que guardo religiosamente nos meus arquivos, ocorreu há pouco tempo, dias antes de ele ter adoecido.

Fiquei confuso com algo que tinha lido na nossa imprensa, a propósito de uma eventual presença de romanos, fenícios e outros povos de há milénios na ilha Terceira.

Na mesma hora em que interrogava Daniel de Sá sobre tal mistério, ele respondeu-me de rajada: “Meu Caro, para perceber a história dos Açores, é essencial conhecer um pouco de náutica antiga. Aquilo de os romanos terem andado por aqui é uma variante da versão fenícia. Ora os romanos só criaram navios para combater Cartago. Até então quase não os usavam. Mas eram navios preparados para o Mediterrâneo apenas, sem capacidade de viagens muito longas, tanto mais que a maior parte da sua capacidade de carga teria de ser, em tais casos, para armazenar alimentos para os remadores, talvez os mais desgraçados condenados de sempre. Os próprios fenícios, que viajavam também só com terra à vista, e que iam até às ilhas britânicas, diziam que no mar do Norte a terra subia e se aproximava dos navios. Era o fenómeno das marés, desconhecido no mediterrâneo. Outra razão para não se atreverem a viajar para longe da terra”.

Escrupuloso nas suas investigações, não o era menos sobre os historiadores: “Não se pode dizer isto em voz muito alta, mas antes do Dr. José de Torres e do Ernesto do Canto, não se fez História credível nos Açores, porque o próprio Gaspar Frutuoso tem dias…”.

O humor do Daniel era outra vertente contagiante.

Vê-lo a contar histórias do arco da velha, com o Onésimo, na esplanada da Praia dos Moinhos, como no Verão passado, era uma delícia para o intelecto.

Tive o privilégio de apresentar um dos seus livros na tertúlia de então do Solar de Lalém, já lá vão uns anos, mas sempre que nos encontrávamos, geralmente na Livraria Solmar para o lançamento de algum livro, dizia que tinha uma dívida para comigo e, no seu jeito brincalhão, perguntava: “quando é que apresento o teu?”.

Infelizmente já não vai a tempo amigo Daniel.

Mas fica a certeza de que os teus ensinamentos, as tuas sugestões (e a tua riquíssima colaboração como revisor), ficarão gravadas na memória deste pobre escriba que te admirou muito.

Como disse o Onésimo, logo após conhecermos a tua morte, “perdemos um irmão e um amigo. Quem só o conhecia dos livros perdeu um escritor. Os Açores perderam uma voz. Que vai fazer muita, muita falta. Sobretudo quando ela, nas nossas contas humanas, ainda deveria intervir por muitos, muitos mais anos”.

Termino com o que Daniel de Sá escreveu, em Novembro de 2010, na morte de Fernando Aires: “Hoje não me levantei. Não volto a levantar-me, já disse. Não me cansei da vida, nem da família, nem dos amigos. Nem sequer me cansei de mim. Mas tinha de haver este dia. O dia de nunca mais. Até qualquer dia companheiros”.

 

Pico da Pedra, Maio de 2013

Osvaldo Cabral

 

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ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA

Recebi a notícia no comboio, vinha eu do Porto. Telefonou-me o Urbano, pois sabia que eu estava em viagem. Profundamente tocado, telefonei logo ao Eduíno a entristecer-me com ele. Deixei mensagem. O que se seguiu foi uma chuva de telefonemas toda a gente a dar-se pêsames uns aos outros como se fôssemos uma família muito chegada e que tivéssemos perdido alguém bem de dentro dela. Já perdi a conta desses telefonemas que me foram chegando enquanto o Alfa avançava para Lisboa. Foi do João de Melo (em Lisboa), do Artur Goulart (de Évora), o Vamberto (de Ponta Delgada), da minha Leonor (de Providence, que tinha recebido um telefonema do João Luís Pacheco, lá de Rhode Island, que tinha estado recentemente em S. Miguel), da Ana Loura (de Santa Maria e em choro convulsivo), da Maria João Ruivo (de Ponta Delgada), do Marcolino Candeias (de Angra), do Assis Brasil (de Porto Alegre, no Brasil – a Lélia, em Santa Catarina, já saberá?), e de tantos outros numa lamentação da grande ausência que nos acaba de acontecer. Agora, enquanto escrevo este e-mail, e já depois de ler as mensagens de vários no World Azorean, o Café dos Açorianos no Mundo, particularmente a do Francisco Fagundes, que nos últimos anos descobriu o Daniel e o Daniel a ele, para grande alegria mútua, não posso, no meio desta tristeza, esconder a doçura da amizade que, mesmo no meio de diferenças, ao longo dos anos todos fomos criando.    O Daniel é um irmão desta família. Todos o respeitávamos imenso e continuaremos a respeitar a sua memória e a sua obra. Todos o reconhecíamos – eu, desde bem cedo, a meados da década de sessenta –  como homem de fortes convicções, íntegro e isento, profundamente honesto, leal, crente de pensar por si , estudioso e amante profundo dos factos, implacável com fanatismos por via de ser senhor de um espírito crítico que o ajudava a discernir desvarios, crendices e pieguices de factos e realidades. Para além de tudo o mais, era também um escritor onde punha tudo aquilo em que cria com a finura de linguagem que ele cultivava com esmero, devoção e brilho.

Eu perdi um irmão. Nós perdemos um irmão e um amigo. Quem só o conhecia dos livros perdeu um escritor. Os Açores perderam uma voz. Que vai fazer muita, muita falta. Sobretudo quando ela, nas nossas contas humanas, ainda deveria intervir por muitos, muitos mais anos.
Já liguei para o número lá de casa que para sempre guardarei de cor. Não falei com ele porque está em sesta. Só que, desta vez, não poderei ligar mais tarde. É eterna. Como a minha saudade.
Adeus, Daniel!
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a ilha abriu-se
para te levar
Depois, em mágoa grande,
fechada, ficou de luto

Adeus
querido Daniel

josé costa

 

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O Daniel de Sá partiu. A Ilha Grande ficou mais pequena.Ficámos debaixo da antiga pérgola do jardim do Hotel, onde na primavera se enrolavam os cachos lilases de Glicínias caídas.
Já passava das onze da noite.Estava uma noite quente e húmida de Agosto e eu já não via o Daniel há uns anos valentes, desde que deixara a ilha de São Miguel para vir para Lisboa. Estávamos em Santa Maria, há quatro anos atrás, terra das nossas infâncias, onde já não voltávamos há muitos anos. Um amigo comum, o Mário Mesquita, proporcionara-nos esse reencontro, numa iniciativa do Forum Roosevelt. Fomos ficando a beber cerveja e a recordar a ilha onde crescêramos, pessoas, locais, histórias. Às vezes ficávamos em silêncio por algum tempo e só se ouviam as cigarras ali no mato em volta que separa a Belavista e o Hotel da estrada do meio e da Brasília.
O Daniel fala de Santana onde vivera, ali a um quilómetro do caminho de baixo, mas onde a estrada não chegava nos anos cinquenta.
Fala pausadamente, com a simplicidade que o caracteriza e com que sempre vive, mas as palavras e as ideias fluem com a riqueza de uma cultura imensa e uma sensibilidade delicada. Evoca os professores do externato que frequentámos ,o sacrifício dos Pais par que estudasse, a morte do pai tão novo e como essa notícia o atingiu pela violência e pelo inesperado. Diz-me que o Pai trabalhara na construção da Torre da Igreja. Essa?… A de Nossa Senhora do Ar, aquela onde tomámos a primeira comunhão e que ardeu? Essa mesmo…O Daniel confirma-me. E fala-me dos anos difíceis da infância, da escola e dos colegas. Fala-me de meu Pai seu Professor com um carinho que me deixa lágrimas nos olhos. Na minha casa, o Daniel sempre foi apontado pelo meu Pai como um exemplo a seguir, de inteligência, de honestidade, de carácter.Uma referência para mim.
As horas rolaram e não me canso nem de o ouvir nem do prazer de o rever.Já a noite esfria e a cerveja desaparece e continuam as recordações e os locais. Falou-me de uma pedra onde tinha feito uma marca em criança, no caminho para Santana e de como a encontrara outra vez, indo directamente ao seu encontro, tantos anos depois. Lá estava a pedra e o tempo parou então naquele momento, como se nunca tivéssemos saído da ilha. E penso então como é possível que o Daniel um dos grandes escritores Portugueses contemporâneos, não seja conhecido do seu País e de como afinal mesmo na escrita, não saíra da sua ilha. E de como estamos condenados a esse silêncio e desconhecimento se ficamos na ilha ou de como sofremos tanto se a deixamos. E o Daniel diz em “Ilha Grande fechada” que “sair da ilha é a pior maneira de ficar nela”…
Não nos voltámos a ver. Trocávamos emails e saudações ,promessas de uma visita à sua Maia do Coração de onde raramente saía.
A notícia chegou-me assim inesperada hoje à tarde-O Daniel partiu!
Simples e sábio, socialista e humanista, homem de Fé, escritor da nossa gente , do seu sofrimento e da sua Grandeza e um amigo de referência que perdi.
Há algum tempo ele escrevera a Batista Bastos, admirador como ele do Padre António Vieira, o texto bonito que aqui deixo.
Vieira não o faria melhor….“Senhor,
Dá Deus o dom da fala a todos os homens, mas a alguns somente o da palavra. Porque também os tontos falam, pelo que não é à míngua de inteligência que há quem não fale; e falam os néscios, pelo que ao falar não faz falta o entendimento; e falam os brutos, pelo que ainda que aos homens falte a sensibilidade, sendo mudos não o serão por causa disso.
Mas ao dom da palavra se requer inteligência, entendimento e sensibilidade. Inteligência, para saber o que convém ser dito; entendimento, para discernir como se deve dizê-lo; e sensibilidade, para escolher o momento oportuno em que o ouvinte seja disposto a ouvir.
O dom da palavra pode abrir os ouvidos que teimam em estar fechados ou fechar os ouvidos que sempre estão abertos. Porque há aquilo que deve ser ouvido, e há quem não queira ouvir; e há o que não convém que seja ouvido, e abunda quem queira ouvir.
A vós, senhor, deu Deus o dom da palavra. E muito me regozijo porque haveis sido lembrado para lembrar o dia em que minha mãe me pôs no mundo, para nele ficar até quando o Senhor das nossas vidas for servido. Porque desde o dia em que nasci muitas vezes morreram mil vezes mil homens, e eu continuo vivo, não por mérito meu senão pela graça de Deus e pela bondade de corações como o vosso.
Desculpai-me, senhor, se tão mal ditei esta carta que quem ma escreve não a entendeu bem, ou se, ditando-a eu como devia, não fui entendido como convinha.
A rogo do P. António Vieira, S. I., por não poder escrever,
Daniel de Sá”***

publicado por JN em 27/5/13

Morreu o meu primeiro escritor. Um dos grandes – dos Açores e do mundo. Devo-lhe a entrada de “O Terceiro Servo” para o Plano Regional de Leitura, devo-lhe um monte de gargalhadas (e de poemas satíricos) a pretexto das derrotas do nosso bem-amado Sporting e devo-lhe o testemunho da família harmoniosa e repleta de sentido de humor, que de imediato impressionava quem o visitava na Maia. Mas devo-lhe sobretudo “Um Deus à Beira da Loucura”, a novela que desaguou em “E Deus Teve Medo de Ser Homem”, e cujo existencialismo cristão (como ele próprio gostava de definir) me tornou primeiro leitor e depois, em boa parte, escritor. Encontrámo-nos pela última vez em Ponta Delgada, no dia do lançamento do meu “Os Sítios Sem Resposta”. Saíra da Maia, coisa rara, e viera oferecer-me em mãos um volume de contos natalícios e o livro que escrevera para Maria Alice, e de que tirara apenas uns quantos exemplares, para oferecer aos amigos. Lembro-me de pegar nele , de folheá-lo como ele devia ser folheado (como se fosse um livro de animação, assim se completando o retrato de Maria Alice), e de pensar: eis, aí, a célula que funda a família harmoniosa – um homem que ama a sua mulher. Hoje faço silêncio por Daniel de Sá. Um homem, mais ainda do que um escritor – e, definitivamente, um exemplo. Mas não me despedirei dele: os seus livros continuam na minha mesa de cabeceira.

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Morreu o escritor açoriano Daniel de Sá

os.
Daniel de Sá e a Alice (esposa)
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Lusa

O escritor açoriano Daniel de Sá morreu hoje ao final da manhã na sua residência, na Maia, ilha de São Miguel, nos Açores, disse à Lusa o presidente da Associação Internacional dos Colóquios da Lusofonia, Chrys Chrystello.

Natural da Maia, Daniel de Sá faleceu vítima de doença aos 69 anos com várias obras publicadas, desde crónicas, contos, romances ou ensaios, “tendo contribuído ainda para inúmeras revistas e jornais”.

Chrys Chrystello sublinhou à Lusa que o escritor deixa “uma vasta obra na literatura”, lembrando que Daniel de Sá era também o presidente da comissão do Plano Regional de Leitura.

O escritor colaborou nos Colóquios da Lusofonia, que o têm homenageado desde 2008.

Além disso, as duas antologias de autores açorianos contemporâneos, lançada pelos Colóquios, contêm excertos das obras de Daniel de Sá, indicou Chrys Chrystello.

Daniel de Sá, que nasceu a 02 de março de 1944, fez o curso do Magistério Primário antes de ser professor.

APE // ROC

Cultura Turismo Cmrg commented on your status.
Cultura wrote: “Os Colóquios sempre primaram pela assertiva homenagem a homens da cultura e ao Daniel de Sá nunca faltou o vosso interesse de o levar ao Mundo. bem hajam pelo vosso trabalho e pelo que fizeram pelo Daniel e seu trabalho”
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poema – ao Luiz Fagundes Duarte

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http://folhinhapoetica.blogspot.com.br/2013/05/25mai13-chrys-chrystello.html

 

POEMA AO LUIZ FAGUNDES DUARTE HOJE NA Folhinha

557. (ao luiz fagundes Duarte), açores 16 ago 2012

estar numa ilha é um modo de vida

por vezes sinto-a prisão sem grades

rodeado de mar, céu e vacas

aves e peixes que não me falam

pessoas com passados heroicos

gestas de povo sofrido e resignado

de basalto e pedra-pomes também

gente que veio no mar e a ele se condenou

em terra e nas ondas dos baleeiros

quando a terra não tremia

e os vulcões estavam silentes

mares de mil e uma cores

do azul ao negro e ao vermelho do sangue

cheio de monstros e poucas sereias

gente que veio com sonhos e fomes

sofreu a escravatura infame dos senhores

feudalismos tardios e encobertos

a coberto do manto da igreja

em troco de promessas etéreas

suor, lágrimas e sacrifícios

povo que dominou fajãs

gente que criou maroiços

construiu ambições e voou

para outros países sem deixar este

à roda do qual o mundo gira

e regressam sempre e sempre

superando os que ficaram

e construíram estas nove ilhas

do enorme orgulho pátria

ser açoriano é ser único

em nove identidades afins

não sei descrever os sons

os cheiros, as cores, os paladares

todos iguais, todos diferentes

todos açorianos

aceito este destino estrangeiro

moldo-me e adapto-me

ao clima e ao ritmo

a esta velocidade lenta

de início de mundo

a este fatalismo ingente

a estas devoções salvadoras

às promessas com que se enganam

romagens de comprar perdões

folclores e tradições recriadas

alheios ao que roda lá fora

toleram a autonomia que não têm

e no meio destas gentes

surgem escritores, poetas, autores

neles me encontro e observo

imagem refratada doutro espelho

o lado de lá do eu

até quando?

inédito joana félix O BALEEIRO (Para Lourenço da Silva)

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  • O BALEEIRO
    (Para Lourenço da Silva)

    Naquele largo que diziam
    ser tão grande quanto o oceano,
    nasceu uma ilha azul.
    O vento emergiu do Norte,
    veio dos navios e das névoas
    e a lava esculpiu o Penedo Negro.
    A praga do oídio secou
    os figos e as uvas com cheiro a mar,
    repleto de flores brancas.
    Foi então que nasceu o baleeiro
    que veio com as gaivotas
    para ser capitão das nuvens
    no mar imenso que é o céu
    onde permanece
    erguido como o arpão.

    Joana Félix

    ____
Joana Félix shared < Bellissime Immagini >‘s photo.
BILHETEO teu sorriso
é um poema e basta,Não precisa de palavras.Porém, se não existisseseria eu a inventá-lo.J.F.

___
diz chrys:
o teu poema
é um sorriso
e basta
tu também não precisas de palavras e se não existisses não seria eu a inventar-te pois não tenho dons de perfeição, agradece aos teus pais a sorte que nós temos em ter-te hoje aqui
gosto de ti, da tua poesia, das verdades que ainda não conseguiste escrever, das prisões que manténs encarceradas na tua alma…tu também não precisas de palavras e se não existisses não seria eu a inventar-te pois não tenho dons de perfeição, agradece aos teus pais a sorte que nós temos em ter-te hoje aqui
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MAIS UM POEMA DA JOANA
A DANÇA DOS PEIXES

Neste cais de pedra cinza
olho o mar em silêncio.
Deixados nos sonhos
há peixes de prata
que serpenteiam,
parecem pássaros sem medo
que não se casam.
Agitam as barbatanas
e cantam com frequência,
deslizam no infinito
em direção ao escuro.
Desaparecem
talvez para dormir…

Joana Félix

''Your Worst enemy cannot harm you as much as your own unguarded thoughts. '' Buddha

estrelinha de Sta Maria (Açores)

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POESIA A 2 MÃOS COM JOANA FÉLIX

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                QUIETUDE

Já não tenho tempo
para tristezas,
fiz as contas
e tenho a agenda
cheia de sorrisos !

Joana Félix

QUIETUDE 2 para a joana félix

Já não tenho agenda
para contas,
fiz as tristezas todas
e tenho o tempo
cheio de sorrisos !

rota dos corsários em santa maria

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SANTA MARIA INAUGUROU A “ROTA DOS CORSÁRIOS”
NB este é o desenvolvimento de várias ideias sobre roteiros do turismo surgidas e constantes das conclusões do 16º colóquio da lusofonia em outubro 2011 na vila do porto, sta maria…
Trata-se de uma iniciativa histórico-cultural que junta Câmara Municipal de Vila do Porto e Associação Juvenil da Ilha de Santa Maria.
O antropólogo Paulo Ramalho é o responsável pela investigação temática que coloca em painéis, e em zonas estratégicas da ilha uma história que cativa miudos e graúdos.
Este percurso interpretativo começa no Forte de São Brás onde serão colocados dois painéis; o terceiro painel informativo vai residir junto ao edificio da Câmara Municipal de Vila do Porto; o quarto painel envolve os Anjos; a quinta estrutura do género será instalada no lugar das Covas, e termina este percurso interpretativo no Forte São João Batista, na Praia Formosa.
A inauguração teve lugar ontem, dia 18 de Maio.

NB este é o desenvolvimento de várias ideias sobre roteiros do turismo surgidas e constantes das conclusões do 16º colóquio da lusofonia em outubro 2011 na vila do porto, sta maria…
-- 
Chrys Chrystello, An Aussie in the Azores /Um Australiano nos Açores,
SANTA MARIA INAUGUROU A “ROTA DOS CORSÁRIOS”Trata-se de uma iniciativa histórico-cultural que junta Câmara Municipal de Vila do Porto e Associação Juvenil da Ilha de Santa Maria.
O antropólogo Paulo Ramalho é o responsável pela investigação temática que coloca em painéis, e em zonas estratégicas da ilha uma história que cativa miudos e graúdos.
Este percurso interpretativo começa no Forte de São Brás onde serão colocados dois painéis; o terceiro painel informativo vai residir junto ao edificio da Câmara Municipal de Vila do Porto; o quarto painel envolve os Anjos; a quinta estrutura do género será instalada no lugar das Covas, e termina este percurso interpretativo no Forte São João Batista, na Praia Formosa.
A inauguração teve lugar ontem, dia 18 de Maio.Texto: Baluarte c/ C.A.A.
fotos: Daniel Gonçalves
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Rota dos Corsários
  • Rota dos Corsários

conto timorense As tres filhas mais lindas de Timor Leste! Mau Dick

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By Carlos Batista

Conto – As três filhas mais lindas de Timor Leste!

Na terra do crocodilo havia um casal Bui Bere e Mau Bere que queriam formar família própria. Durante muitos anos tentaram sem contudo terem sucesso.
Sofreram na pele a amargura pois os anos passavam-se e cada vez mais se tornava difícil desejo tão do seu peito.
Um dia dois peritos regionais, o senhor How Hard e o senhor Ha Bibi decidiram dar uma mãozinha a Bui Bere e Mau Bere.
Passados uns anos, a 20 de Maio, tiveram três filhas gémeas muito bonitas, a que deram o nome de Independência, Democracia e Liberdade.
Independência, Democracia e Liberdade, hoje já crescidinhas, 12 anos frequentam a Escola Portuguesa de Díli, onde são alunas com distinção.
Independência não se quer casar e o seu maior receio e de que o pai lhe arranje uma madrasta ou mesmo que a mãe decida por um padrasto.
Democracia e Liberdade sonham em casarem-se um dia e terem muitos filhinhos.
Democracia até já tem um pretendente o Respeito, um rapagão que não lhe tira os olhos de cima.
Liberdade diz que também tem já alguém debaixo do olho, e o Direito um puto muito apreciado nestas paragens da saia.
Bui Bere e Maubere não escondem o seu contentamento e amanha vão dar uma festança e já convidaram toda a família e amigos do estrangeiro para assistirem a mais um aniversário. De salientar o aspeto muito positivo de este ano terem sido convidados os familiares das petizes, pois que em anos anteriores têm apenas espreitado pelo buraco da fechadura.
Esperemos que vivam felizes para sempre naquela terra onde o sol nascendo vê primeiro.

Mau Dick
(Poeta, escritor e contador de historias de Timor Leste na Austrália

poema a duas mãos de Joana Félix e Chrys

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QUIETUDE

Já não tenho tempo
para tristezas,
fiz as contas
e tenho a agenda
cheia de sorrisos !

Joana Félix

QUIETUDE 2 para a joana félix

Já não tenho agenda
para contas,
fiz as tristezas todas
e tenho o tempo
cheio de sorrisos !

o papel dos galegos Angelo Cristóvão

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O papel dos galegos na lusofonia como elo de ligação entre África, Portugal e o Brasil

Ângelo Cristóvão, da Associação Galega da Língua Portuguesa, escreve para uma amiga galega.

Sim, há gente à nossa espera, sempre estiveram mais ou menos à nossa espera, só que talvez os reintegracionistas não acertávamos com a apresentação e o discurso adequados. Também poderia dizer-se que todos os passos anteriores foram necessários. E deve assinalar-se como data significativa o 7 de abril de 2008. A partir desse dia há uma mudança importante na perceção da língua, especialmente em Portugal. Aquela Conferência Internacional sobre o Acordo Ortográfico foi uma espécie de parlamento da língua, em que falaram representantes mais ou menos autorizados de toda a geografia da língua, mesmo os galegos, convidados pela Assembleia da República. O Acordo Ortográfico cria o contexto, a oportunidade ou a escusa para a integração do português da Galiza. Isto já o tenho dito em muitos lugares. O maior valor do AO’90 não é a ortografia unificada, é a mudança de paradigma, algo que os velhos do restelo não conseguem perceber. O nosso acerto é vermos isto com antecedência, em 1986 e 1990. Vê-lo agora, depois de feito, já não tem tanto mérito.

A AGLP é um grupo de pessoas que decidem assumir uma responsabilidade que ninguém lhes atribuiu. A legitimação está a produzir-se a posteriori, em função das ações, do resultado. Simplesmente fazemos o que nunca iriam fazer as “autoridades competentes”.

O primeiro que insinuou publicamente (e depois disse claramente em reunião privada) o papel que os galegos podíamos ter na lusofonia, como elo de ligação privilegiado entre África, Portugal e o Brasil, foi João Craveirinha, sobrinho do conhecido escritor moçambicano, durante a sua presença em Santiago, na altura da sessão inaugural da AGLP (outubro de 2008). Ele dizia aproximadamente isso, que os galegos temos a vantagem de sermos um país pequeno (=não podemos ser ameaça para ninguém), onde nasceu a língua portuguesa (=pode atribuir-se-lhe a origem e legitimidade histórica da língua), que não tem passado colonialista (=isto facilita um diálogo fluído e em igualdade), que se situa na Europa (=associado a prestígio e margem de manobra), mas dependente politicamente da Espanha (= logo é percebido pelos africanos e facilita a empatia e a solidariedade). Tudo isto são chaves que nós, sócios da Pró e da Academia, guardamos e nunca devemos dizer em público. Percebermos os discursos não implica a necessidade de torná-los explícitos. Mais bem, sabê-lo, obriga-nos a mantermos a humildade que se nos pressupõe. O que nunca nos perdoariam é irmos com a “chulería” castelhana de “sabermos mais que ninguém”.

Por outro lado acho que Portugal tem de fazer as contas com o seu passado. Ainda hoje resulta impensável para o governo português uma política de promoção do português em África, em termos normais. E ainda uma parte das classes dirigentes de Angola e Moçambique anda à procura de retaliação pelas feridas da guerra colonial, que acabou em 1974. Tenho observado isto ocasionalmente em declarações sobre a língua portuguesa. Para exemplo só uma anedota: Contaram-nos que houve uma reunião o ano passado, convocada pela CPLP em Lisboa, da que não se produziu notícia pública, em que a maior discussão e esforço foi dedicado à procura de perífrases (eufemismos) para contentarem a certo país africano, cujos representantes não aceitavam num texto comum a todos os países da CPLP a palavra “lusofonia”. Fique entre nós.

Finalmente, o facto de a Galiza não ser um país soberano significa para mim que é preciso um esforço suplementar; que temos de abrir o caminho por que outros irão vindo depois; que a AGLP só pode ter sucesso trabalhando muito e fazendo tudo bem à primeira vez; que se falharmos ninguém nos dará uma segunda oportunidade; que não há garantia de que, finalmente, sejam outros os que tirem proveito do nosso esforço.

Fico por aqui. Grande abraço.

Ângelo Cristóvão

toujours Piaf la vie en rose

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vocabulário micaelense ( S Miguel, Açores)

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Dicionário Micaelense

Corisco mal-amanhado = Safado; traquinas
Gama = Pastilha elástica (do inglês Bubble Gum)
Braçado = Companheiro de boa aparência
Pelo eu! = Ai de ti!
Atoleimado = Tolo
Naião = Homossexual
Pau-de-filete = Poste de luz
Poderios = Muito
Requinho = bonito; engraçado
Abençoado = Querido
Fogue t’abrase = Fogo te abrase (injúria)
Vento encanado = Corrente de ar
Gueixa = vaca nova
Pana = Alguidar
Fonte = Torneira
Papo-seco = Carcaça
Gadanhos = Dedos
Apoquentação = Inquietação
Aboiar = Atirar
Tás muito mal enganado = Enganas-te redondamente
Foge diante = Sai da frente
Tás vesgueta = Estás cego
Tás co olho!? = Para onde estás a olhar!?
Enlameirados = Enlameados; caminhos com lama
Peúgos/peúgas = Meias
Meias = Collants
Rabichel = Rabo
Amanda = Manda
Clame = cuspo
Mesmo deveras = A sério
Estás bem amanhado = Estás lixado
Asno = Burro
Vais apanhar nas ventas = Vais levar na cara
Ilhó = olho do cu
Carro de praça = Táxi
Arressaca (deturpação de Ressaca) = Briga
O chofer da fragonete = Chauffeur da Furgoneta
Fominha negra = Muita fome
Testos = cacos
Olhos arregalados = Olhos em bico
Penca = Nariz
Macaquinhos = Desenhos animados
Cramalheira = Queixo
Petcheno = Pequeno; Rapazola
Nisca de gente = Rapazinho
Queijada = Pastel
Fogareiro/Fogão = Mulher feia
Grande padaria = Grande rabo
Chofer = Motorista; Taxista
Paranhos = teias de aranha
Gadelhas = Cabelos
Que peste = Que pivete
Alvarozes = Jardineiras

Já se sabe = Pois claro

Punhado = Uma porção

Punhada = soco

Suera – Camisola de malha

É de arder! = que causa grande trabalho ou apoquentação

Prisões = ganchos de cabelo

Nica/nisca/niquinha/nisquinha = pedacinho

Pois alevá!= O que é que se há de fazer?

Negaças = Provocações

Estás cegando = Estás a aborrecer-me

Teso de marreta = Difícil, duro de roer

Grande espoleta = Grande rombo na carteira

Pinarreta = Criança atrevida

Estarraçar = Estragar

Destarelado = Insensato

Tarelo = Tino

Paranhos = Teias de aranha

Canada = Beco de terra

Enrediadeira = Cusca

Cisqueira = Pá do lixo

Bueiro = Valeta, esgoto

Pana = Alguidar

Mapa = Esfregona

Correr roupa = Passar roupa a ferro

Escarolar = Partir, quebrar

Friza = Congelador

Falsa = Sótão

Malina = Má

Calor = Bebedeira

Ferveleta = Pessoa inquieta

Pisar = Aleijar

Tem medo que se pela = Tem muito medo

Escabelado = Muito limpo

Esgadelhado= Despenteado

A comida que cresceu = A comida que sobrou

Ceidiço = Diz-se de comida estragada

Pau de virar tripas = Pessoa muito magras

Canhão = Mulher da vida

Largueza = Quero é distância

Botar = Pôr, colocar

Insonso/a = Pessoa falsa

Atarrachador = Chave de fendas

Música = Instrumento musical de sopro (Ex. «Bateu-lhe com a música na cabeça»)

Testo = Mulher da vida

Embusiado = Chateado, macambúzio

Fera = Ordenado

Vou-me arranjar = Vou evacuar

Escaparate = Mesa de cabeceira

Psiché/psichel = Toucador

Falsa = Sótão

Ondagora = Há pouco tempo

Grande impôla = Grande chato

Bicha = Fila

Roqueira = Foguete

Bombão = Foguete

Bagou = Tonto, pataroco

Murganho = Ratito

 

 

 

EDUÍNO BORGES GARCIA E A AÇORIANIDADE 1953

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Em 1953, Eduíno Borges Garcia […] é o primeiro a lançar nos Açores a apologia de uma Verdadeira Literatura Açoriana (v. separata do jornal A Ilha), numa série de artigos que se ficou como sinal de aviso contra o produto fácil e os equívocos da literatice inflacionária. Os pontos de vista ali expressos denotam de algum modo as impressões de um meio circunscrito a meia dúzia de nomes. Se aclara a excessiva generosidade reinante em determinados espíritos de compromisso mais que sectário, é também certo que se deixa permeabilizar a outras tantas hipóteses literárias nem sempre convincentes. Mas o merecimento deste pequeno trabalho de crítica e intervenção cultural reside, estamos em crer, na sua tentativa de redefinir o conceito neo-realista. Com ele se opera a autópsia do preconceito, a corrupção da coluneta jornalística e o acomodismo de certos escribas incapazes de se desfossilizarem.

 

João de Melo (1978)

In lusofonia.com.sapo.ptEm 1953, Eduíno Borges Garcia […] é o primeiro a lançar nos Açores a apologia de uma Verdadeira Literatura Açoriana (v. separata do jornal A Ilha), numa série de artigos que se ficou como sinal de aviso contra o produto fácil e os equívocos da literatice inflacionária. Os pontos de vista ali expressos denotam de algum modo as impressões de um meio circunscrito a meia dúzia de nomes. Se aclara a excessiva generosidade reinante em determinados espíritos de compromisso mais que sectário, é também certo que se deixa permeabilizar a outras tantas hipóteses literárias nem sempre convincentes. Mas o merecimento deste pequeno trabalho de crítica e intervenção cultural reside, estamos em crer, na sua tentativa de redefinir o conceito neorrealista. Com ele se opera a autópsia do preconceito, a corrupção da coluneta jornalística e o acomodismo de certos escribas incapazes de se desfossilizarem.

 

João de Melo (1978)

 

 

 

 

POR UMA AUTÊNTICA LITERATURA AÇORIANA

Eduíno Borges Garcia (1953)

Sumário:
a. Os pioneiros e o futuro
b. O regional e o universal
c. Mentalidade turística ou humanismo moderno?
d. Carta aberta aos jovens intelectuais açorianos

 

a. OS PIONEIROS E O FUTURO

Desde os primórdios do povoamento dos Açores que os literatos destas Ilhas têm falado do homem açoriano. Mas é no século XIX que a literatura de ficção começa a ter alguma importância, embora o homem açoriano ainda não apareça em profundidade. Até quase aos nossos dias, só por acaso é que essa ficção tocou o problema seriamente, pelo lado que julgamos verdadeiramente de interesse. Pode dizer-se que essa ficção ou era uma tentativa falhada literariamente, ou, se literariamente tinha algum valor é porque se filiava inteiramente na literatura de Portugal Continental, e então não era mais do que Literatura Portuguesa escrita por portugueses dos Açores. Alusões diretas ao nosso meio geográfico e diálogos onde se punha a nossa característica maneira de falar, eram elementos acessórios e não chegavam para disfarçar a verdadeira origem tradicional e estética dessa «literatura».

Já em pleno séc. XX, a preocupação de criar uma literatura tipicamente açoriana apresenta-se sob a forma de tentativas dispersas, quase sempre inconscientes e falhadas — se é que houve tal preocupação.

Urbano de Mendonça Dias na vasta série de romances que escreveu foi um falhanço em toda a linha. Literariamente maus (o seu conhecimento de técnica literária mais elementar era fraco, para não dizer nulo), no que se refere ao homem e ao meio como elementos estéticos, os seus livros nada valem porque nada contêm de essencial do homem açoriano. O «açorianismo» de U. Mendonça Dias é um açorianismo postiço, porque é um açorianismo de superfície. Explora o pitoresco, o «típico» pelo lado mais pobre, sem nunca descer ao fundo do homem e compreendê-lo em relação com o meio em que vive.

Escolhemos este escritor por ser um caso bastante característico, o que facilita a compreensão do nosso ponto de vista. Claro que podíamos falar de outros exploradores do pitoresco, mas isso nada adiantava, porque o pitoresco não é Literatura Açoriana. Também não é Literatura Açoriana o falar-se de gaivotas, cheiro de maresia ou ânsias hereditárias de emigrar. É por isso que não se pode chamar poesia açoriana por exemplo à poesia dos nossos conterrâneos Eduíno de Jesus e Jacinto Soares de Albergaria. Não queremos com isto dizer que essa poesia seja uma tentativa falhada de açorianização, pelo simples facto de que na poesia dum e doutro não há nada que nos leve a crer estarem interessados na construção duma Literatura Açoriana.

Eduíno de Jesus e Jacinto Soares de Albergaria são, aliás confessadamente, «poetas europeus». Mas há quem confunda as coisas teimando chamar-lhes poetas açorianos e daí a razão da nossa explicação, ficando assente que, de entre outros, Eduíno de Jesus e Jacinto Soares de Albergaria nada têm que ver com uma autêntica Literatura Açoriana.

Armando Côrtes-Rodrigues, que depois da fase do Orfeu se pode dizer que retrogradou ao entrar no nosso acanhado meio intelectual, só veio de novo a ganhar altura depois da sua identificação com o nosso povo, a quando da recolha da poesia popular que aparece em 1937 na Poesia Popular Açoriana e depois no Cancioneiro Popular Açoriano.

Depois do contacto benéfico do poeta com a fonte mais pura da alma do povo açoriano, a sua poesia humanizou-se, tornou-se mais nossa mais objetiva, no sentido mais profundo da palavra, tornou-se mais açoriana.

O Teatro de Armando Côrtes-Rodrigues a que ele Próprio chama regional, não há dúvida que contém qualquer coisa como que uma tentativa de universalização.

Considerando a sua peça O Milhafre, para nós a sua melhor obra teatral e também a que contém em maior grau o específico açoriano, vamos analisar alguns pontos de capital importância para a compreensão de certos princípios estéticos que nos propomos defender.

A linguagem de Côrtes-Rodrigues é uma linguagem fluente e pura. Há na sua prosa a legítima intenção de tornar límpida e vernácula a linguagem falada pelo nosso povo. Não há a menor vontade de explorar o pitoresco dos falares San-Miguelenses, mas sim aproveitar deles o que é mais expressivo e belo. Outro tanto fez Graciliano Ramos com a linguagem rural do Brasil e isso valeu-lhe ser considerado, e com justiça, um clássico da língua.

Os diálogos são perfeitos e de tal modo encadeados e consequentes que despertam um interesse e comunicam uma adesão crescentes. São como uma engrenagem perfeitamente ajustada, movendo-se sem a mais pequena falha, sem um desgaste.

O conflito posto em O Milhafre é cheio de interesse humano. Simplesmente — e isso é para nós muito importante — o modo de focar o problema, o ângulo de visão em que o autor se coloca, não é o dum humanista consequente que mostre conhecer profundamente o homem que artisticamente estuda.

Pergunta-se: porque é que António emigrou para a América? Na peça, não se acredita que tal coisa seja uma necessidade premente. A família não sente que isso seja necessário — até se espanta com essa ideia de António. E este quando volta, é a sua própria mãe que o acusa de ter abandonado o lar, tornando-o portanto responsável pelo drama (?) que a sua ausência originou.

A peça que sugere um conflito sério, no fim de contas não passa duma tempestade num copo de água, e termina num «Happy end», que desgosta quem leva a sério os problemas do homem açoriano. O autor teve entre mãos um tema de que não soube, pelo menos artisticamente, compreender a verdadeira medula sociológica, o autêntico sentido humanístico. Homem e meio não chegam a depender-se na medida em que uma criação artística se torna vigorosa na medida em que os problemas humanos dum determinado lugar geográfico são postos com a força do que é essencial e profundo para os indivíduos que constituem a humanidade restrita desse lugar determinado.

Um problema é esboçado, mas não posto claramente. Depois é resolvido com superficialidade, de maneira frouxa, o que nos leva a duvidar se a peça realmente valeu a pena.

Mas não se julgue que menosprezamos a obra de Côrtes-Rodrigues, que pretendemos simplesmente deitar a baixo tudo o que honesta e amorosamente vem construindo o autor de Quando o Mar Galgou a Terra.

Num meio onde a crítica, por mais ligeira que seja, não existe, é natural que espíritos tacanhos não saibam entender o verdadeiro sentido das nossas palavras. Mais — estamos certos de que se existisse crítica no nosso meio, talvez a obra de Côrtes-Rodrigues tivesse subido a um grau que não alcançou, apesar da sua qualidade e da seriedade intelectual com que foi criada.

E, se, ao falarmos duma autêntica Literatura Açoriana, escolhemos o teatro de Côrtes-Rodrigues para expormos os nossos pontos de vista, é porque consideramos que, na Ilha de S. Miguel, foi quem com maior honestidade e com maior talento tentou criar uma obra artística em que o regional ganhasse foros de universal. Ë por isso que a obra de Côrtes-Rodrigues merece a maior consideração.

O grande passo para a Literatura Açoriana é dado com Vitorino Nemésio, primeiro com o romance Mau Tempo no Canal e depois com o livro de contos Mistério do Paço do Milhafre.

Chegou a grande hora para a Literatura Açoriana. O regional universaliza-se.

Na obra de ficção deste escritor, o homem dos Açores é estudado em diversas das suas mais características facetas. Quem não for dos Açores fica a conhecer como são os Açores, como é o homem dos Açores, pelo menos o homem pertencente à classe social, melhor, às classes sociais, que o autor pretende analisar.

A obra de Vitorino Nemésio requer uma análise minuciosa que está fora do âmbito deste pequeno esquema. Por isso, e por o considerarmos, em certa medida, enquadrado, dentro dos princípios estéticos que defendemos, guardamos para outro trabalho a crítica dessa obra capital.

Mas a grande revelação vem com o livro de Pedro da Silveira A Ilha e o Mundo. Diversos sectores da crítica portuguesa foram unânimes em considerar o livro como obra de mérito, mas, e em Portugal isso acontece, faltou a verdadeira compreensão do caso açoriano. «Fora das coordenadas geográficas de Lisboa o crítico treslê», disse alguém acertadamente.

O livro foi considerado como se fosse mais um livro de poemas português, por ser escrito em língua portuguesa. Mas isso é um erro gravíssimo. Será literatura portuguesa tudo o que é escrito em português? Será porventura literatura portuguesa, por exemplo, a dum Lins do Rego ou dum Graciliano Ramos?

Pedro da Silveira, profundo conhecedor da gente dos Açores (ou não fosse ele o verdadeiro globe-trotter das nossas Ilhas), pelo menos na sua mais profunda maneira de sentir e de agir, dá-nos de amorosa maneira o verdadeiro sabor das velhas gentes açorianas. O «burgo» que é assim triste e morto desde o princípio do mundo, os baleeiros antigos, valentes e ingénuos, os que emigraram e construíram cidades e ajudaram países estrangeiros a serem grandes, os que trabalham nos campos e cantam a Chamarrita, os que desesperam porque os navios os não levam já para as terras da fartura, os que voltam com o coração cheio de ternura por tudo o que deixaram e que encontram sem alteração e os que num momento sonham que alguma coisa de diferente vai acontecer, todos, toda essa multidão de gentes que constitui o nosso pequeno mundo, lá estão autênticos e tristes como se fossem vivos.

Com todos os seus defeitos (não quererá Pedro da Silveira dar um sentido demasiado estreito ao conceito da Pátria Açoriana?), o livro tem o valor dum documento vivo e o excitante incitamento dum novo caminho descoberto.

Pessoalmente, não somos dos que acreditam que o maior valor duma literatura está na sua poesia. De grosso modo até porque duvidamos do grande interesse da Poesia como forma de conhecimento. Se a ciência visa unicamente o conhecimento puro, não há dúvida que o romance sendo arte, visa alguns aspetos do conhecimento que estão vedados à ciência. Isto é assim com todas as formas artísticas, embora com umas mais do que com outras. Com isto queremos significar que esperamos mais do romance e até do conto do que da poesia. E isto para concluirmos que, embora com o devido apreço pelos nossos poetas, aguardamos com a maior fé que os jovens contistas e romancistas em formação nos deem brevemente o verdadeiro homem açórico, num autêntico meio açoriano.

Chegados a este ponto do nosso trabalho é legítimo que surja a pergunta: que caminho devem então tomar os jovens escritores açorianos para se conseguir uma verdadeira, uma autêntica Literatura Açoriana?

A resposta não é fácil, nem mesmo seria honesto afirmarmos que possuímos a fórmula secreta, a «pedra filosofal», da pretendida literatura.

Por muito estudarmos e meditarmos o problema, é que nos atrevemos a sugerir o que nos parece de capital importância.

Ë claro que não pode surgir uma literatura sem que haja escritores. Por essas razões os nossos jovens pretensos escritores terão de estudar a técnica de escrever. Isso só por si constitui já uma tarefa árdua e morosa, embora não queiramos dizer que antes de mais nada o escritor deva conseguir o seu estilo, O estilo vem mais tarde. Vem só quando o escritor tem as suas convicções, quando já tem dentro de si um mundo de conhecimentos sólidos, cada dia renovado e enriquecido pela conquista de cultura e fecundado pelos contactos profundos com o quotidiano, com o mesquinho e grandioso teatro da vida.

O que é indispensável é um profundo conhecimento do caso açoriano. É preciso conhecer o homem e o meio. O homem terá de ser historicamente estudado, geograficamente estudado, economicamente estudado, sociologicamente estudado. Estudar de que modo se formou a mentalidade do homem açórico, não cabe mais aos eruditos fazê-lo mas sim aos contistas e aos romancistas. Estudar todas as realidades exteriores ao homem, mas que o dominam e o impelem a agir de maneira determinada é o que nos parece fundamental na tarefa a empreender.

No momento em que os nossos jovens escritores começarem a ter consciência disso, dessas forças ocultas que comandam o homem, no momento em que a economia, a geografia, a história dos Açores forem estudadas tendo em vista o homem; no momento em que os nossos escritores começarem a escrever poesias, contos, novelas c romances ao mesmo tempo que aprofundam e não perdem de vista esses conhecimentos, então estaremos realmente construindo a nossa literatura, a autêntica Literatura Açoriana.

b. O REGIONAL E O UNIVERSAL

A Ciência é uma forma de conhecimento, e dissemos já que considerávamos a Arte também como uma forma de conhecimento. Mas não idênticas, é claro. Enquanto a Ciência compreende e transmite servindo-se da inteligência e da razão, a Arte compreende e transmite servindo-se da intuição e da sensibilidade.

E, tanto a Ciência como a Arte são universais. — Ciência e Arte universais; que quererá isso dizer? — Quer dizer que a inteligibilidade dos factos e das coisas é idêntica para todos os homens. Ciência e Arte não distinguem nacionalidades nem raças. Para o Teorema de Pitágoras ou para o D. Quixote não há fronteiras.

Mas a Ciência é progressiva, os conceitos transformam-se caminhando sempre para diante; enquanto na Arte não há progresso, mas sim uma maior ou menor consciencialização dos problemas humanos e sociais — o resto reduz-se à técnica e ao talento criador.

Por agora o que nos interessa é saber que a verdadeira Arte é universal. Mas dirão alguns, e a «arte regional»? Não há porventura uma Arte Regional? — A pergunta é legítima.

Não existe verdadeiramente uma Arte Regional, como não existe uma Ciência Regional. Quando o artista interpreta o homem dum dado lugar geográfico, quando o equaciona com o meio em que vive, quando o surpreende no seio da classe a que pertence, quando se apercebe das forças que dominam; em suma, quando nos dá «a representação exata dos caracteres típicos em circunstâncias típicas» ele não está a fazer Arte Regional mas simplesmente Arte.

Vamos à literatura: Almas Mortas de Gogol e, por exemplo Os Cardos do Baragan de Panait Istrati, ou ainda Moleque Ricardo de José Lins do Rego e São Jorge dos ilhéus de Jorge Amado são romances regionais. (Falamos nestes livros ao acaso, mas é também oportuno citar Mau Tempo no Canal de Vitorino Nemésio). São romances regionais, dissemos — homem e meio são bem determinados; são um homem e um meio típicos. Mas essas obras que se passam num determinado lugar da terra e que nos dão um homem particular (o homem que vive nesse lugar), são entendidas e sentidas por todos os homens. Mas então o «típico» não restringe? O «típico» restringe e limita quando é um fim em si, não quando é um simples elemento de que o escritor se serve, porque para além disso está a profunda consciência do escritor, o sentido humanista que integra um homem e um meio no todo universal.

Que o escritor fale dum homem particular, vivendo em determinadas circunstâncias, mas que o faça de modo a que a sua criação artística fale por si própria. O conto, a novela, o romance, a peça de teatro quer se passem nos Arrifes ou na Ribeira Quente, se realmente valerem, tanto serão compreendidos e sentidos por qualquer San-Miguelense como por qualquer japonês ou italiano.

Que pensem nisto os nossos jovens escritores. Que façam a si próprios a pergunta: este conto, esta novela ou esta peça, quando lidos por um norte-americano ou representada num palco parisiense, alcançará o mesmo êxito artístico que aqui nos Açores?

Entenda-se que o nosso ponto de vista é que a autêntica Literatura Açoriana, será uma literatura de carácter regional — típica, se quiserem.

De carácter regional, sim senhores; mas de interesse universal. E isto é uma questão de grau.

A esse regionalismo de interesse universal, opõe -se o que chamaremos regionalismo estreito. Será, pois, vantajoso tentarmos definir o que entendemos por regionalismo estreito. Por regionalismo estreito queremos significar aquele regionalismo que, em arte, ou melhor, nas tentativas de criação artística, dá o aspeto superficial do homem dum determinado lugar geográfico; um homem definido por caracteres superficiais, movendo-se dentro dum meio definido também por caracteres que não são os essenciais e ao qual se mostra ligado não pelas verdadeiras determinantes, mas por liames frouxos e acidentais, ainda que, por vezes, verosímeis.

Fechados nesse regionalismo estreito estão os escritores (?) que com tanta diligência nos têm dado uma repousante literatura caseira, «para uso interno», falha de tudo, especialmente sentido humano. Em certa medida foi também esse regionalismo estreito quem formou o que chamaremos mentalidade turística, curiosa atitude de alguns dos nossos intelectuais (?), mas isso fica para mais tarde.

Uma autêntica Literatura Açoriana será regional pelo ambiente e pela forma (entendendo-se por ambiente o meio geográfico, o próprio homem e a engrenagem social; e por forma a maneira de, esteticamente, mostrar o homem e a engrenagem social — isto, grosso modo) e universal pelo sentido, pelo ângulo de visão do escritor. Para isso o escritor não poderá ser um agente passivo que receba e transmita caracteres sem que ele próprio intervenha como intérprete, como artista autêntico. Era a altura de se fazer a destrinça entre Naturalismo e Realismo autêntico. Para já, fique a ideia de que não consideramos c escritor como elemento passivo da sociedade, mas sim como um verdadeiro «engenheiro de almas».

Já dissemos que o caso açoriano tinha de ser seriamente estudado pelos nossos jovens escritores interessados numa autêntica Literatura Açoriana. Para isso será necessário analisar os fatores de ordem estritamente local e que são responsáveis pelo modo de vida e pela mentalidade do homem açoriano, assim como os fatores de ordem mundial que determinam direta ou indiretamente certas transformações sociais.

As pragas, a gumosa e a cochonilha, são fatores locais que levaram à ruína a cultura dos laranjais açorianos. O que originou socialmente essa ruína dos laranjais?

O facto da agricultura, a posse da terra, estar ainda em larga escala, nas mãos duma classe que vem mantendo-se fechada desde os primórdios do povoamento, imprimiu certo estilo à nossa vida social, e à mentalidade do nosso homem.

Além destes fatores de ordem regional, temos os de ordem mundial que não podem deixar de ser considerados. Por exemplo a presença das tropas expedicionárias portuguesas durante a 2ª Grande Guerra, trouxe até nós, além de certa prosperidade material, o contacto de muita gente culta, que se fez ouvir através dos nossos jornais, especialmente. A quebra na exportação do ananás e do chá foi também causada por circunstâncias de ordem internacional.

a isto que os nossos jovens escritores devem estar atentos. Escrever sobre a gente açoriana, sobre a sua vida e sobre os seus problemas, sim senhores; fazer literatura regional, sim senhores, mas aqui muito cuidado! O homem açoriano tem os seus direitos à cidadania do mundo. Fazer literatura regional mas uma literatura regional que se integre nas literaturas do mundo!

O que está feito é muito pouco mas não há dúvida que a semente está lançada.

E, não seria útil o estudo da literatura oral dos Açores? Nos Contos Tradicionais do Povo Português de Teófilo Braga há mais casos das nossas ilhas. Por outro lado, em S. Miguel o Teatro é das formas de arte popular a que maior interesse desperta entre a massa da população rural.

Não seria benéfico para o escritor, mergulhar nessa fonte de águas límpidas que é o povo? Pelo que respeita à poesia, ao conto e ao teatro, certamente muito haveria que aprender.

Terminamos fazendo nossas as palavras da tia Maria ao José, personagem central do romance Home is an Isand» de Alfred Lewis:

«Quando tu chegares a ser um grande escritor, escreve acerca da paz; escreve acerca do homem que parte e da mulher que espera; acerca daqueles que trabalham nos campos, na construção das casas, estradas, barcos… sim, escreve a respeito deste povo e destas coisas».

A Tia Maria tinha muita razão: «escrever a respeito deste povo e destas coisas, é o que é preciso aprender a fazer!

c. MENTALIDADE TURÍSTICA OU HUMANISMO MODERNO?

Quando o escritor se encontra preparado para escrever, deve, ainda antes de iniciar o trabalho, fazer a si próprio uma pergunta fundamental; — para quem vou escrever?

Quer isto dizer que o escritor deva escolher a forma e o assunto consoante o público a quem destina a sua obra? Ou haverá realmente mais alguma coisa para além disso?

Se considerarmos o escritor como um industrial que produz livros conforme o mercado comprador, não há dúvida que o melhor caminho será escolher o fundo e a forma que agradem plenamente à clientela. Mas já dissemos que considerávamos a tarefa do escritor como uma tarefa séria e elevada; portanto um livro não é uma mercadoria qualquer.

O escritor sério pergunta-se para quem vai escrever, porque tem consciência de que uma arte que não conta com um público, que não fala dos mais profundos anseios e problemas desse público, resulta como atitude estéril. Quer dizer que determinada atitude estética corresponde forçosamente a uma atitude perante a vida, a uma mentalidade. Mas pode, por circunstâncias particulares, surgir no seio duma sociedade com uma certa mentalidade, um escritor ou vários escritores com uma mentalidade diferente da citada sociedade. E, por outro lado, embora esse ou esses escritores tratem com a maior objetividade os problemas humanos e sociais, o certo é que a sua atitude não pode ser um gesto isolado, sob pena de não encontrarem em quem os lê a ressonância que justifique o esforço da criação.

Claro que fazedores da «arte pela arte» se contentam com pouco, pois que a sua atitude de afastamento da sociedade em que vivem, outra coisa lhes não pode dar do que um reduzido público constituído principalmente por outros fazedores de «arte pela arte» ou indivíduos para quem os problemas humanos nada contam.

O escritor sério deve perguntar-se para quem vai escrever, porque pode não ter ainda chegado o momento oportuno de escrever novelas e romances para o público com que conta.

O momento oportuno? Mas então há momentos oportunos para as criações artísticas?

Para o escritor que se considere um engenheiro de almas, a mentalidade do público para quem pretende escrever, tem de ser, além doutros elementos de peso, um assunto de primacial importância a considerar.

Os jovens escritores açorianos têm de se deter neste ponto, que requer séria reflexão.

Para que surja uma autêntica Literatura Açoriana, é indispensável que surja uma autêntica mentalidade açoriana, na mais elevada aceção da palavra. Uma verdadeira Literatura Açoriana afinada ao diapasão universal, implica uma mentalidade açoriana afinada ao diapasão universal

Mas então podemos agora rapidamente chegar à conclusão de que a Literatura não é o único caminho que se deve imediatamente trilhar para conseguir a tal mentalidade açoriana. Mais podemos afirmar que não consideramos a autêntica Literatura Açoriana como um fim em si (nem qualquer manifestação artística séria pode ser considerada como um fim em si) mas uma das formas de conhecimento e de expressão da nossa realidade geográfica, social e humana.

Contos, novelas, poesias e romances, além de constituírem um deleite espiritual, dirão a nós e ao mundo como somos. Mas, é preciso que os jovens intelectuais açorianos se capacitem que a sua inteligência e a sua cultura terão de ser postas constantemente ao serviço da formação duma mentalidade açoriana à altura da nossa época. E, por a inteligência e a cultura constantemente ao serviço duma mentalidade açoriana à altura da nossa época, significa que para além da Literatura, há outras tarefas urgentes a realizar, sem o que não será possível a estreita comunhão do escritor com as largas camadas do público.

Antes de afinarmos o nosso diapasão pelo diapasão universal, teremos de entrar em contacto com o mundo.

Conhecer o que é o mundo, não ignorar nada de fundamental do que é presente, do que constantemente se transforma; das grandes realizações do espírito e da tenacidade do homem; dos pequenos e obscuros factos que estão na base das grandes transformações; conhecer a vida dos grandes e dos pequenos povos — as suas aspirações e as lutas que travam para conseguir realizá-las.

É preciso conhecer tudo isso e ter esperança no futuro do homem. E, conhecer o mundo e ter fé e esperança no futuro do homem é, no fim de contas, ser um humanista consequente, um humanista moderno — e uma autêntica Literatura Açoriana será criada por esse tipo de intelectuais, os únicos à altura da nossa época.

Materialmente como se conquista tal conhecimento do mundo? Para nós, açorianos, está aqui uma grande dificuldade.

Se dissermos que é pela leitura atenta das publicações periódicas e dos livros, é claro que damos uma informação muito fácil, muito ingénua. Onde estão as publicações periódicas e os livros que nos digam o que vai pelo mundo? Temos acaso livrarias e bibliotecas que satisfaçam as condições mínimas da aquisição duma cultura viva e atual? Não temos!

Não temos nos Açores fontes de informação, eis o que é. Mas devemos proclamá-lo sem rebuço, em alto e bom som, porque fazê-lo de frente, sem rodeios, é já pugnar pela tal mentalidade açoriana afinada ao diapasão universal.

A nossa imprensa, é sabemos, uma imprensa pobre, mas não nos parece, salvo raros lampejos, estar cumprindo integralmente o importante e sério papel que lhe cabe, mesmo considerando os acanhados limites das suas possibilidades materiais.

Devemos pugnar, dissemos, por uma mentalidade açoriana afinada ao diapasão universal, mas não nos parece que a nossa imprensa esteja muito interessada nisso. Pelo menos poucas provas tem dado nesse sentido. São até exceção os artigos em que o homem seja o tema básico, especialmente quando se trata do caso insular. Antes pelo contrário, o grande prato de resistência é a prosa turística: «como estão floridas as nossas estradas»… «a beleza e a magia das lagoas das Sete Cidades»… «o Senhor Barão de tal disse extasiado que os Açores são um paraíso»… «As Furnas nesta época do ano são o recanto da terra».

À pobreza franciscana destes estafados chavões, corresponde um estado de espírito coletivo que poderemos classificar de «turístico» e que se vai mantendo aceso devido à pertinácia de certos intelectuais (?), como se as belezas paisagísticas fossem a nossa única riqueza, a única coisa séria que possuímos e de que não nos envergonhamos de falar.

Assentemos então no nosso ponto de vista: para o aparecimento duma autêntica Literatura Açoriana, cremos ser indispensável renovar e enriquecer a mentalidade do nosso povo. Se o não fizermos correremos o risco de não ter um público amplo e sério a quem falar.

Uma Literatura Açoriana autêntica não será uma coisinha a mais para os nossos caçadores de picuinhas mostrarem mais uma vez as suas habilidades, falando gratuitamente dela como falam doutras coisinhas inofensivas.

Os nossos jovens escritores têm de conquistar para si próprios uma compreensão profunda dos conceitos estéticos básicos, e construir, apoiados por uma cultura atual, um sentido da vida e do mundo amplo e universalista — como simultaneamente é indispensável que se esforcem para que o público açoriano se não mantenha afastado do mundo, e ignorante da história dos nossos dias, que por ausência de informação, se processa fora das suas vistas, fora do seu estreitíssimo campa do conhecimento.

Os amantes das coisas fáceis dirão que exigimos demasiado aos nossos jovens intelectuais e que a literatura nada tem a ver com o resto do mundo. A nossa resposta é que também esses senhores nada têm a ver com uma autêntica Literatura Açoriana, e que o melhor será realmente seguirem o seu caminho, burilando as suas tão queridas rimazinhas choronas e continuarem a pintar os seus belos quadros de prosa verdejante.

O caminho que nos propomos trilhar é árduo, e a nossa atitude será sempre a de extrema seriedade e de profundo respeito humano pelo homem açoriano. Os que vêm na literatura um simples divertimento, nada têm, pois, a ver connosco.

Para que a Literatura Açoriana não continue sendo uma acumulação fortuita de raras obras de valor, é que vale a pena tentar esclarecer ideias e definir conceitos. Para os jovens honestos, e hesitantes no momento em que tentam os primeiros voos literários, põe-se sempre o problema de como vou escrever e para quem vou escrever. O nosso panorama literário, especialmente no que se refere à ficção, é extremamente pobre e representa um peso morto para quem nele procure modelos que sugestionem ou atitudes que valham a pena imitar.

Sob pena de fracasso, os nossos jovens intelectuais açorianos terão de encher o peito de ar e deitar os olhos para mais vastos horizontes. Se quiserem construir obra série, terão de ser verdadeiros humanistas consequentes — respeitando o trabalho do homem açoriano, escutando os seus anseios e compreendendo os seus problemas. A nossa vida, tanto nas suas relações com o mundo como nas suas dependências de ordem local, terá de ser esquadrinhada em pormenor, para que uma análise objetiva possa ser possível. A verdade terá de ser enfrentada com virilidade e nunca disfarçada para proveito de alguns.

Uma autêntica Literatura Açoriana terá de combater contra preconceitos de castas e de classes. Tanto irá observar e estudar o homem nas cidades, como nas vilas e nos campos.

E, não são precisos acontecimentos extraordinários para fazer literatura séria. Impõe-se antes de tudo uma pertinaz observação do nosso viver quotidiano. Mas para isso é indispensável um sentido de objetividade acima de todas as conveniências, e muita cultura — uma cultura viva e atual: uma cultura humanista.

d. CARTA ABERTA AOS JOVENS INTELECTUAIS AÇORIANOS

Sobre Literatura Açoriana muito mais havia a dizer. Mas, agora que já demos a nossa contribuição, esperamos que sejam os jovens a entrar na liça, entregando-se entusiasticamente à tarefa de escrever ficção ou artigos de ideias.

Sabemos que o receio que têm de errar os proíbe, muitas vezes, de levar avante o que urge ser feito imediatamente. E, para muitos, esse «deixar para mais tarde» prolonga-se por uma vida inteira.

Já não é a primeira vez que repetimos que o escritor tem a obrigação de ser um indivíduo consciente e com honestidade mental suficiente para se não deixar arrastar pelas facilidades das coisas já feitas, e – especialmente para nós — pelo excessivamente açoriano. Não há dúvida que é um erro seguir o caminho da busca do excessivamente açoriano, do excessivamente típico, para a realização de qualquer obra literária séria. Fecharmo-nos no excessivamente açoriano é isolarmo-nos do mundo — é cair no tal regionalismo estreito, espécie de mezinha caseira com que os pobres enganam as doenças.

Mas, íamos dizendo, «guardar para mais tarde» não deve, contudo, ser preocupação. Para os jovens, o que devemos aconselhar acima de tudo é virilidade para enfrentar os problemas e seriedade ao examiná-los, nunca permitindo que a rotina e os preconceitos os desviem do verdadeiro caminho.

Se os jovens aceitarem este conselho, e embora o que escrevam venha ainda com muitas hesitações, muitas imperfeições e falhas, o certo é que farão melhor do que muitos dos chamados «valores da nossa terra», que não cuidam de mais nada senão da estabilidade da sua gloriazinha, construída dia a dia, diligentemente, durante longos anos.

Mais do que perfeições formais, se pede aos nossos Jovens uma atitude humanista, uma posição de intelectuais autênticos para quem o nosso povo e a nossa vida seja a preocupação constante. A forma, o chamado estilo, virá depois, e estará de acordo com o tema escolhido. Não queremos dizer com isto que a forma seja um elemento a desprezar, mas simplesmente que será uma consequência do tema e da atitude do artista perante esse tema. A forma é sempre a forma de alguma coisa, e portanto essa «alguma coisa», esse conteúdo, será para nós o mais importante, e é por aí que começaremos. Mais tarde virá a perfeição formal.

Os nossos pseudoescritores, que mais não sabem do que cantar as belezas da paisagem, que dizem estar construindo Beleza com um B grande, perdem lastimosamente o seu tempo se julgam estar fazendo Literatura Açoriana. Escapa-lhes o que é essencial: o homem açoriano.

Mais — uma autêntica Literatura Açoriana terá uma atitude construtiva sobre o homem açoriano. Não irá tecer louvores à sua humilde pobreza (apesar do que certos poetas se esforçam por cantar, ninguém quer ser pobre!), nem se mostrará desgostoso com o pouco progresso que se vai efetuando nas Ilhas. Os muitos vapores e aviões que fazem escala pelos nossos portos, serão antes motivo para regozijo por estarmos mais perto do mundo. Para os intelectuais de hoje, senhores da missão que têm a cumprir, acabou-se a torre do marfim.

Mas aos jovens escritores açorianos pede-se mais do que regozijo perante o progresso; pede-se que sejam eles próprios uma fonte de progresso. Eles que não fiquem comodamente aplaudindo o pouco ou o muito que se faz pela nossa gente. A sua atitude será uma atitude ativa perante a nossa vida, sem campo de ação. Observá-la-ão o mais detidamente possível, e depois irão intervir pessoalmente nela, apontando as feridas, procurando as verdadeiras soluções, melhorando-a.

Essa atitude de amor ao progresso, será para os nossos jovens escritores alguma coisa como os próprios olhos da cara.

Suponhamos por ex.: um escritor de «la belle époque» que vai pela milésima vez extasiar-se com o panorama das Sete Cidades: ele chega, olha, abre a boca, fecha os olhos, dá dois passos em frente, três à retaguarda e depois solta um «formidável» clássico. Diz mesmo que descobriu coisas novas na paisagem, e conta algumas histórias ou anedotas alusivas. Alguns dias depois deliciar-nos-á com mais um artigo turístico, num dos nossos jornais. Suponhamos agora que o escritor é doutra espécie. O homem chega e, está um sol esplendoroso:

— Formidável!, exclama o nosso escritor. Mas um habitante das Sete Cidades responde-lhe:

— É mas é uma grande desgraça não chover! Temos os milhos todos secando, à míngua de água.

O intelectual vai observar e vê os milhos realmente quase perdidos. Mas os seus olhos topam com as duas lagoas ali logo — milhões e milhões de litros cúbicos de água inútil. Ao cérebro ocorrem-lhe imediatamente várias coisas relacionadas com o sol, com o milho secando, com as águas inúteis, com a desgraça das gentes. Ele lembra-se por ex.: que a eletrificação da Ilha está longe de ser satisfatória; e sabe que se houvesse energia elétrica barata e disponível, uma simples bomba acionada eletricamente bastaria para matar a sede aos milheirais.

Se o escritor for um humanista consequente, irá investigar se há possibilidades de termos energia elétrica barata e disponível e, no caso afirmativo, porque não a teremos ainda. Só então lançará a mão à pena.

Eis aqui, esquematicamente, como o mesmo objeto — a paisagem das Sete Cidades — pode impressionar dois tipos diferentes de intelectuais, e originar duas criações literárias absolutamente diversas.

De numerosíssimas sugestões a apresentar aos nossos jovens escritores, destaca-se o caso da emigração. O problema já foi tratado com a maior elevação mas ainda não no campo artístico. Não podemos deixar de mencionar O Problema dos Excedentes Demográficos do Dr. Armando Cândido, trabalho duma seriedade, duma objetividade tão raras e corajosas que o queremos apontar como exemplo.

Artisticamente, melhor, literariamente o caso da emigração, nunca foi visto com clareza e objetividade, como dizíamos.

Antes de mais é indispensável estudar a sua base económica: dinheiro e roupas enviadas regularmente da América — relacionar essa base económica com as ideias que o povo tem.

Essa base económica, por ser duma importância capital para as classes rurais e proletárias, exerce sobre elas, além do mais, fortíssima influência psicológica. Atualmente, mais do que regulador demográfico, a emigração para a América atua imediatamente sobre a nossa gente com forças de ordem material e moral, do que resulta um estado de consciência coletivo específico.

Fernando de Lima no conto Embarque que nos diz de que maneira um jovem açoriano, vivendo a vida chata do nosso quotidiano viver, «namorando à antiga portuguesa», se encontra subitamente obcecado pela presença duma norte-americana mais velha do que ele, pela simples razão de que namorá-la e casar com ela representa para ele a obtenção dum passaporte.

Conclusão: o jovem Fernando de Lima, ainda sem obra definitiva, soube no citado conto, encarar artística e humanamente, uma importante faceta da emigração atual.

São tantos os aspetos da vida açoriana por que os nossos jovens intelectuais se devem interessar, que se pode mesmo dizer que todos os aspetos da nossa vida os devem interessar. O que é importante é o ângulo de visão do artista, a sua atitude perante a vida, a sua mentalidade.

Há dias um Jovem plástico escreveu-nos a dizer:

«Quero ir pintar para as Sete Cidades, mas não sei como fazê-lo sem repetir mais uma vez o que já tem sido tantas vezes feito».

A esse jovem o que há a aconselhar é descer às Sete Cidades e observar de que maneira vive o povo que lá habita. Se quiser pintar ou desenhar os homens e as mulheres na sua luta diária, poderá começar por observar as lavadeiras, o dia inteiro mergulhadas na água. Depois poderá saber as dificuldades que enfrentam os que fazem carvão, vendo aproximar-se o dia em que as lenhas acabarão de vez. E, se o artista tiver olhos na cara, estamos certos de que não irá voltar costas a tão humanos temas para se pôr a borrar de verde mais uma ou duas telas.

Só os cegos ou os mal-intencionados poderão dizer que é impossível o aparecimento duma Literatura Açoriana autêntica. Dizem eles que é porque não temos uma «língua própria», e também porque não temos «uma vida característica» (!). Claro que para esses senhores não temos uma vida característica, mas temos muitas coisas típicas, como por ex.: o ananás, o inhame e os búzios do mar… verdade, o mar? Só o que temos capaz é o mar — o Atlântico. E daí o ser mais bem-sonante e mais grandioso o ser Atlantista, do que ser simplesmente um autêntico intelectual açoriano!…

Há ainda os que preferem as hortenses e as gaivotas, mas essa sobriedade não é o bastante para tornar a sua arte (?) útil, ou sequer defensável.

Ë claro que com esses senhores teóricos das nuvens, nada há a fazer. Ainda se quisessem por os pés no chão…

A nossa esperança está nas gerações mais novas. Só os jovens ainda não subjugados pelo preconceito, poderão, se quiserem aprender com o que se escreveu a sério, fazer brotar das vigorosas raízes já lançadas, os ramos viçosos, as belas flores e os saborosos frutos da Literatura Açoriana para todos os açorianos — serão eles quem fará crescer e frutificar a Autêntica Literatura Açoriana.

 

Eduíno Borges Garcia

(Separata composta e impressa na Oficina de Artes Gráficas de Ponta Delgada, em agosto de 1953, e que reúne uma série de artigos publicados no semanário A Ilha, nos n.°s 1106, 1116 e 1118)

Caro Chrys,
Só hoje encontrei aqui esta mensagem com o fragmento do João e Melo e a separata de Borges Garcia (que cheguei a conhecer pessoalmente em Lisboa).
Após a publicação da separata, Borges Garcia publicou (no início de 1954 e também no jornal A Ilha ) um quinto artigo ( numerado na sequência dos anteriores e com o título «A Literatura Açoriana é ou não Literatura Portuguesa?» A resposta dele é sim, mas de modo diferente) que complementa o seu pensamento sobre o assunto. Há anos publiquei-o de novo no SAC/Correio dos Açores, com uma introdução muito genérica a contextualizá-lo (19.12.1996)
O texto de Borges Garcia tem lacunas informativas sobre literatura açoriana pouco desculpáveis em 1953, era uma aplicação estreita e ultra-ortodoxa do neo-realismo aos Açores, mas teve o mérito de suscitar a discussão e a intervenção de outros (Manuel Barbosa, Fernando Reis, José Enes, José de Almeida Pavão, por exemplo).
Abraço
Urbano