O USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO MEIO EDITORIAL Views: 2 Nuno QuintasNuno Quintas• 2º• 2ºtranslator, copy-editor and proofreader | transcreator | language and literary consultanttranslator, copy-editor and proofreader | transcreator | language and literary consultant Conecte-seConecte-se a Nuno Quintas O USO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NO MEIO EDITORIAL Apesar da denúncia, há uns meses, da má qualidade de obras literárias traduzidas por ferramentas de inteligência artificial (IA) em livros à venda no mercado português, alguns tradutores e revisores têm recebido pedidos de «revisão» de clássicos universais (em várias línguas) traduzidos por estas ferramentas. A tradução literária não replica só um texto noutra língua: é uma arte, acarreta um vasto conjunto de interpretações e escolhas, depende de muitos anos de estudo e experiência. Os sistemas de tradução automática são incapazes de reconhecer e transpor todos os elementos das obras literárias. Numa obra literária, substituir os tradutores por uma máquina é prescindir da qualidade em prol da quantidade e arrasar subtilezas e sensibilidades em prol de uma solução rápida e aparentemente barata. A utilização da IA pelas editoras neutraliza a literariedade do original e da tradução. Aceitar tais propostas de «revisão» é sancionar um sistema que visa eliminar o trabalho dos tradutores. Implica fazer o trabalho de dois profissionais (tradutor e revisor) pela remuneração mais baixa dos dois. Para quem conhece as condições laborais dos trabalhadores independentes, não espanta que haja profissionais obrigados a aceitar tais propostas para sobreviver — mas é preciso que saibam que preferem escassos ganhos de curtíssimo prazo e geram enormes perdas de médio prazo. Participar nestas «revisões» alimenta uma estratégia que prejudica revisores e tradutores, leitores e editoras. Os leitores adquirem traduções de má qualidade; as editoras minam o capital de confiança na qualidade das traduções, levando os leitores a preferirem edições noutras línguas, nomeadamente em inglês, o que reduz as vendas das traduções portuguesas. A tradução automática promove, pois, a delapidação financeira de editores e livreiros, e degrada uma profissão já muito pressionada pela falta de reconhecimento: a dos tradutores. Assim, reiteramos: é essencial identificar o nome do tradutor nas capas dos livros. Responsabiliza quem traduz e mostra que a editora merece a confiança dos leitores. Defendemos ainda que as editoras que usem a tradução automática têm de o indicar na ficha técnica e no frontispício dos livros. Só assim faremos um trabalho transparente e credível. Por tudo isto, não aceitaremos nenhum pedido deste tipo que nos seja dirigido e reservamo-nos o direito de os publicitar como denúncia, que não é mais do que uma defesa pública do ofício. Sugerimos, pois, aos colegas tradutores, revisores e editores que se juntem a nós na denúncia e no repúdio de tais práticas. * Esta denúncia foi escrita e é assinada pelos membros da Caixa Alta — Guilherme Pires, Madalena Caramona e Nuno Quintas — e pela nossa colega tradutora Alda Rodrigues. Share this: Share on Facebook (Opens in new window) Facebook Share on X (Opens in new window) X Like this:Like Loading… Related Publicado por CHRYS CHRYSTELLO Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL Ver todos os artigos de CHRYS CHRYSTELLO
Apesar da denúncia, há uns meses, da má qualidade de obras literárias traduzidas por ferramentas de inteligência artificial (IA) em livros à venda no mercado português, alguns tradutores e revisores têm recebido pedidos de «revisão» de clássicos universais (em várias línguas) traduzidos por estas ferramentas.
A tradução literária não replica só um texto noutra língua: é uma arte, acarreta um vasto conjunto de interpretações e escolhas, depende de muitos anos de estudo e experiência.
Os sistemas de tradução automática são incapazes de reconhecer e transpor todos os elementos das obras literárias. Numa obra literária, substituir os tradutores por uma máquina é prescindir da qualidade em prol da quantidade e arrasar subtilezas e sensibilidades em prol de uma solução rápida e aparentemente barata. A utilização da IA pelas editoras neutraliza a literariedade do original e da tradução.
Aceitar tais propostas de «revisão» é sancionar um sistema que visa eliminar o trabalho dos tradutores. Implica fazer o trabalho de dois profissionais (tradutor e revisor) pela remuneração mais baixa dos dois. Para quem conhece as condições laborais dos trabalhadores independentes, não espanta que haja profissionais obrigados a aceitar tais propostas para sobreviver — mas é preciso que saibam que preferem escassos ganhos de curtíssimo prazo e geram enormes perdas de médio prazo.
Participar nestas «revisões» alimenta uma estratégia que prejudica revisores e tradutores, leitores e editoras. Os leitores adquirem traduções de má qualidade; as editoras minam o capital de confiança na qualidade das traduções, levando os leitores a preferirem edições noutras línguas, nomeadamente em inglês, o que reduz as vendas das traduções portuguesas.
A tradução automática promove, pois, a delapidação financeira de editores e livreiros, e degrada uma profissão já muito pressionada pela falta de reconhecimento: a dos tradutores.
Assim, reiteramos: é essencial identificar o nome do tradutor nas capas dos livros. Responsabiliza quem traduz e mostra que a editora merece a confiança dos leitores.
Defendemos ainda que as editoras que usem a tradução automática têm de o indicar na ficha técnica e no frontispício dos livros. Só assim faremos um trabalho transparente e credível.
Por tudo isto, não aceitaremos nenhum pedido deste tipo que nos seja dirigido e reservamo-nos o direito de os publicitar como denúncia, que não é mais do que uma defesa pública do ofício.
Sugerimos, pois, aos colegas tradutores, revisores e editores que se juntem a nós na denúncia e no repúdio de tais práticas.
*
Esta denúncia foi escrita e é assinada pelos membros da Caixa Alta —
Guilherme Pires, Madalena Caramona e Nuno Quintas — e pela nossa colega tradutora Alda Rodrigues.