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padre ANTÓNIO VIEIRA E A ESCRAVATURA

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O PADRE ANTÓNIO VIEIRA E A ESCRAVATURA
por João Pedro Marques – (2018)
Seria o padre António Vieira um defensor da escravatura dos africanos? A resposta, depois do que ficou exposto, é claramente não. Aceitar ou tolerar não são sinónimos de defender ou promover.

“Cada Um é da Cor do seu Coração” (…) é uma seleção de textos representativos do pensamento do padre António Vieira sobre a escravatura. Trata-se de uma obra muito útil pois continuam a escrever-se e a dizer-se coisas incrivelmente ignorantes sobre a forma como Vieira via a escravatura dos africanos. Algumas confusas cabeças deram, até, em acusá-lo de ser um acérrimo defensor da escravidão dos negros. Terá isso algum fundamento?

A dificuldade de responder com um simples sim ou não a essa pergunta, como se estivéssemos num tribunal ou num teste americano, mostra bem a estupidez de aplicar, de forma mecânica, esquemas mentais e grelhas de questionário do século XXI a homens e situações do século XVII. Digamos que essa é mesmo a única virtude da acusação que se faz a Vieira, ou seja, a de nos fazer tomar consciência de que estamos perante um mundo muito diferente do nosso e de que a tradução de um para o outro não é instantânea nem simples nem linear. Quem não entender essa verdade elementar não entenderá o passado nem o que condicionava e motivava as pessoas que nele viveram. Sabe-se que há muita gente que não está interessada em compreender coisíssima nenhuma, apenas em condenar e apedrejar. Para todos os outros, os que gostam de perceber as coisas, e que querem saber se as acusações são ou não justificadas, aqui ficam umas linhas sobre a relação do padre António Vieira, e de outras pessoas do seu tempo, com a escravatura.

A primeira coisa que é preciso perceber é que no século XVII, com raríssimas excepções, as pessoas em toda a parte do mundo, até mesmo em África e entre os africanos, aceitavam a escravatura. Diz-se que os próprios escravos negros a rejeitavam, o que é uma ideia muito romântica e aparentemente muito lógica, mas que tem o grande inconveniente de ser falsa. Muitos dos escravos que se revoltavam e fugiam, e que conseguiam, assim, atingir a liberdade, escravizavam outras pessoas, ou seja, tornavam-se, por sua vez, senhores ou traficantes de escravos. Foi assim no famoso quilombo de Palmares, foi assim entre os escravos revoltosos da região de Baçorá, no actual Iraque, foi, inclusive, assim, com alguns dos líderes da grande revolta de São Domingos (futuro Haiti) e em muitos outros casos historicamente documentados. Antes da última metade do século XVIII não havia abolicionistas nem na Europa nem em nenhuma outra parte do mundo. Apenas algumas, poucas, vozes que criticavam certas modalidades do tráfico de pessoas ou certas perversões e crueldades na relação dos senhores com os seus escravos. Fala-se, por vezes, no padre Fernando Oliveira como sendo alguém oposto à escravidão, mas trata-se de um mal-entendido. Fernando Oliveira admitia a escravidão que resultasse de guerra justa.

O padre António Vieira, que viveu no século XVII, também aceitava a escravidão, o que não quer dizer que a aplaudisse ou promovesse. Para perceber a sua posição e o seu pensamento é útil recuar até à Antiguidade Clássica, até às filosofias de Aristóteles e dos estóicos, porque, no Ocidente, foi sobre elas que se moldou boa parte do que os séculos posteriores pensaram sobre a questão dos escravos. Para Aristóteles, a escravidão estava no mesmo plano de qualquer outra relação de subordinação de cariz doméstico, como as relações pai/filho, por exemplo. O filósofo grego acreditava que a escravidão teria uma base natural e racional, que muito simplesmente residia na inferioridade do escravo. Na sua visão alguns estariam, desde a hora do nascimento, destinados à sujeição, ainda que isso nem sempre fosse perceptível por sinais exteriores (o que implicava potenciais injustiças, pois a guerra e outras convulsões sociais e políticas podiam lançar gente intrinsecamente livre na escravidão). Os estóicos tinham uma perspectiva diferente. Viam a escravidão como algo basicamente contrário à natureza. Contudo, esse facto não os levava a contestá-la, porque os estóicos relativizavam a ideia de liberdade (e, consequentemente, também a de escravidão). Para eles a verdadeira liberdade consistia na capacidade da pessoa se elevar acima das suas limitações, dos apetites materiais e das agruras da vida. Nessa óptica, o papel que um indivíduo desempenhava na sociedade não seria determinante e o escravo estava, à partida, e nesse âmbito, tão bem posicionado como qualquer poderoso do mundo. Para lá da aparência das coisas, o escravo podia ser realmente livre, enquanto que o cidadão abastado e juridicamente livre poderia não passar de um miserável escravo dos seus instintos e impulsos. Ou seja, para os estóicos havia escravos aparentes e escravos reais. Na esteira dessa concepção, no século I, Séneca viria a defender que só o corpo do escravo podia ser propriedade do senhor visto que a sua alma era livre, ou melhor, potencialmente livre. Os estóicos consideravam, de facto, que, na prática, a verdadeira liberdade era atingida apenas por um número reduzido de pessoas que a ela acediam através do seu esforço individual. A grande maioria da população, fosse qual fosse o seu estatuto social, era geralmente escrava do vício, do desejo, da má acção.

Os primeiros teóricos da Igreja, que conciliaram Cristo com as realidades do mundo romano, embeberam as concepções aristotélicas e estóicas na mensagem cristã e conseguiram reforçar os seus pontos de convergência e harmonizar as suas divergências. No seu pensamento, as dicotomias estóicas de escravo aparente/escravo real e de corpo cativo/alma livre foram integralmente aproveitadas, e a ideia de inferioridade natural do escravo foi absorvida no conceito de pecado. Para os padres da Igreja, a verdadeira liberdade era a ausência ou remissão do pecado. Essa forma particular de liberdade estava ao alcance de todos — não apenas de uma elite como pretendiam os estóicos —, e obtinha-se através da entrada na comunidade cristã. Para os pensadores da Igreja o que realmente importava era não tanto a libertação do corpo, mas a salvação da alma, visto que o único escravo verdadeiro era o escravo do pecado. O recurso ao conceito de pecado permitia, aliás, solucionar a questão da potencial injustiça do acto escravizador, que Aristóteles identificara mas não chegara a resolver. De facto, e como dizia Santo Agostinho, na medida em que o pecado marcava toda a humanidade, ninguém seria inocente, cabendo a Deus indicar quem devia comandar e quem devia obedecer.

É para este quadro de referência, que resultou da fusão do pensamento das principais autoridades da Antiguidade com o dos teólogos cristãos, que os sermões de António Vieira sobre escravatura remetem. Assim, quando Vieira explicava aos escravos negros que deviam entender e aceitar o estado de escravidão, não estava a ser hipócrita, nem a desrespeitar os valores cristãos, nem, obviamente, a ser um sádico escravista. Na verdade, e em concreto, Vieira arrepiava-se com a dureza e iniquidade do tratamento infligido aos escravos. Entristecia-se com a visão dos navios que chegavam de África carregados de centenas de negros. Revoltava-se com o contraste entre a humildade do pobre escravo africano e a soberba e opulência do seu senhor. Mas esses sentimentos eram amortecidos pela convicção profunda de que essa situação, aparentemente iníqua, obedecia a um propósito divino oculto. Vieira era um homem de Seiscentos, um homem da Igreja, que vivia num mundo regido pela Vontade de Deus. Acreditava que todas as coisas tinham uma razão de ser no âmbito dessa Vontade. Acreditava firme e sinceramente na dualidade corpo/alma, e achava, à maneira de Séneca e de outros filósofos (que Vieira explicitamente cita), que o que interessava verdadeiramente era a libertação e a salvação das almas, não a dos corpos. A importância do estado de escravidão era, por isso, muito relativa. Vieira não tinha a nossa noção moderna de escravatura nem, acrescente-se, a nossa noção de liberdade. Essas noções estão inter-relacionadas, não são imutáveis e têm, como todas as outras coisas, uma história. Quem quiser percebê-la deverá recorrer ao livro de David B. Davis, The Problem of Slavery in Western Culture, uma das obras essenciais da historiografia da escravatura, que tem sido estranha e persistentemente ignorada em Portugal, apesar de também existir em edição brasileira.

Aqui chegados talvez seja altura de voltar à pergunta de onde partimos: seria o padre Vieira um defensor da escravatura dos africanos? A resposta, depois do que ficou exposto, é claramente não. Aceitar ou tolerar não são sinónimos de defender ou promover. Imagine-se a viver em 1650 no Brasil, em São Salvador. Suponha que é um homem do clero e que, da janela do seu quarto ou da porta da sua igreja, vê chegar regularmente os navios que vêm da costa de África cheios de escravos negros. Não se esqueça de que vive em 1650, um tempo em que, na esteira de Santo Agostinho e de outros Padres da Igreja, ainda se vê a escravidão como o resultado de guerra justa, uma consequência do pecado e uma forma de civilizar os pagãos. Acha, sinceramente, que teria uma visão muito diferente da do padre Vieira? Eu faço esta pergunta às pessoas razoáveis, não aos que, de há um ano a esta parte, projectam no passado as suas mal-informadas e mal-alinhavadas ideias e acusam Vieira e outros antigos portugueses de mil erros e crueldades. Essas pessoas têm a prosápia dos que estão convencidos de que, se tivessem vivido no século XVII, teriam certamente acabado com o tráfico negreiro e com todas as injustiças do mundo. É fácil a estes cavaleiros e cavaleiras do bem falar assim, numa altura em que o problema já está, felizmente, resolvido. Se tivessem vivido no tempo de Vieira a sua prosápia fiaria mais fino.

João Pedro Marques é historiador e romancista

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  • Antonio Simoes da Silva É muito importante saber em que agua se navegava nesse tempo…..Todos os disparates que hoje se fazem não tem a ver com um coração melhor do que o outro mas sim derrubar e denegrir a história que jamais pode ser esquecida por pretos e brancos ….
    Muitos dos que hoje protestam deveriam de estar gratos a alguns momentos da sua história…..
  • Luis Gil Tudo dito…andámos a “alimentar isto”, através do BE/AR!
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coriscos mal-amanhados hoje na RTP AÇORES

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‎Luís Filipe Borges‎ to Açores Global
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Hoje, 9ª etapa da viagem, Santa Maria 🙂 RTP Açores
“Terminar Onde Tudo Começou”20h50, hora atlântica, 189 NOS / 160 MEO / 175 Vodafone / 28 Cabovisão / transmissão simultânea no FB da RTP-A.

A viagem termina na ilha primeira: na mais anciã do arquipélago, com entre 5 a 6 milhões de anos, e que se recusa a parar no tempo – entre NAV, ESA, Galileo e quiçá futura rampa de lançamento de foguetões -, Santa Maria é uma dança triunfal entre o velho e o novo, o tradicional e o tecnológico. Nuno e Luís perdem-se no deserto, tocam em fósseis, revelam a “Little America” e acabam em missão conjunta, e inusitada: …numa aula de Consciência Corporal.

#MalAmanhados #OsNovosCorsáriosdasIlhas

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Voos de Ícaro em direcção ao depois

A hospitalidade do Rui Parece Baptista, o nosso drone a afastar-se quilómetro e meio mar adentro, desvendando o farol de Gonçalo Velho – sentinela do mar que já salvou uma aeronave, a “Sapateia” na voz e viola da Isabel Mesquita – feita hino dos Açores, o tempo bipolar a desafiar-nos (e ao mapa e ao raccord), o repentismo do Teo Camacho, a dor por não ter o Pepe Brix (na altura a preparar uma exposição em Marrocos), o ambiente do Espaço em …

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adolescentes incultos e ignorantes em manifs

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E quando os adolescentes vão para as manifestações antes de ter ido para a escola. Perguntar a cada um deles , qual é o motivo da luta. Hilariante…ninguém sabe responder! Só porque sim e porque não tinham nada para fazer! Da saga : ” a estupidez não tem limites” .

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einstein 1 newton 0

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Foi em Abril passado, e é fascinante. MAS A PRIORIDADE É O NOSSO PLANETA, A TERRA, e isso não pode ser escamoteado nem deixar de ser o centro das preocupações. NÃO NOS DISTRAIAM DEMASIADO COM O ESPAÇO!!!

Grupo de cientistas (entre os quais há portugueses) descobriu que as estrelas viajam à volta de um buraco negro tal como Einstein tinha previsto há mais de um século

EXPRESSO.PT
Grupo de cientistas (entre os quais há portugueses) descobriu que as estrelas viajam à volta de um buraco negro tal como Einstein tinha previsto há mais de um século

IMPERATIVO LER o estado da região

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o estado da região

POR PEDRO ARRUDA

Sejamos sinceros, isto já estava mau antes do vírus, ficou foi ainda pior. E, a grande probabilidade é que, passada a pandemia vírica, fique pior ainda, por força da pandemia económica. Não interessa, muito, por isso, preguiçar indolentemente na culpabilização da coisa. Se o bicho é uma invenção chinesa ou uma criação americana; se o confinamento salva ou se os suecos ganharam imunidade de manada; se as vacinas virão com nano chip integrado ou se vamos voltar todos a viver no “novo paleolítico”. Tal não significa, porém, que não se deva proceder ao devido escrutínio político das decisões tomadas e, à consequente responsabilização e aprendizagem. Mais do que uma vacina, talvez seja esse aprendizado o que nos possa salvar da próxima vaga deste bicho ou da, mais que certa, vaga de um novo bicho. Mais do que identificar o código postal do laboratório onde o corona foi manipulado, importa sim entender que a circulação e disseminação deste tipo de vírus se deve à maciça destruição de habitats, levada a cabo nas últimas décadas, pelos Seres Humanos. Importa, sim, interiorizar que a opção pelo confinamento não foi uma decisão ponderada, tomada com base em conhecimentos tanto médicos como sociológicos, económicos e políticos. O confinamento foi um desespero de causa, cooptado por virologistas e governantes, em pânico com a ideia de verem os eleitores subitamente transformados em urnas funerárias, multiplicando-se como cogumelos, em quantidades industriais. E que, esse confinamento, foi decidido sem que os governos tivessem qualquer esboço de plano sobre como limitar, combater e/ou contrariar os óbvios e catastróficos efeitos do mesmo na frágil tessitura social do nosso contemporâneo neo-liberal-capitalismo-global.
Aqui chegados, o que fazer? Pois bem, estes são os factos: o vírus existe, tal como existirão outros, até potencialmente mais perigosos para a saúde humana. O confinamento não é uma cura, nem sequer uma profilaxia. De que serve “salvar” batimentos cardíacos se com isso se destroem corações? A vida é um complexo entrelaçado de condimentos, não é apenas e só um mero registo de funções fisiológicas. Esse é um tipo de pensamento útil apenas para bastonários e nunca para altos dignitários. A política, aliás, serve para escutar os técnicos, mas, acima de tudo e exactamente, para os contrariar, quando a técnica se mostra incapaz de abranger a vasta complexidade do devir humano. O mundo, o mundo todo, está hoje confrontado com a maior crise dos últimos cem ou duzentos anos. Para sairmos disto, temos de recorrer ao que temos, ao que sempre tivemos, o engenho e a arte, a criatividade e a capacidade do ser humano para, solidariamente, suplantar a adversidade, a tirania e o caos.
Para esta crise não há soluções isoladas, ou isolacionistas. Daqui só sairemos de mãos dadas. Inexplicavelmente, ou não, o caminho que a Europa e, por arrasto, o País e a Região, parecem estar a seguir, por preconceito ideológico e por pressão dos lóbis do capital, é o do endividamento. A única resposta visível até ao momento é a do pedir dinheiro emprestado e, depois, logo se vê. É como se os directórios europeus desejassem que, em cima da já de si brutal crise, sobreviesse uma astronómica e gargantuana banca rota, que explodisse em cima de nós todos como um gigantesco e psicadélico cogumelo atómico. Quando, pelo menos a mim, parece-me perfeitamente cristalino que a única forma de ultrapassar este momento seria (será!) imprimir euros e distribuí-los, equitativamente, por países e por pessoas, por via de um Rendimento Básico Incondicional, pelo tempo estrito da duração desta crise, seja ela em desenho de V, de U, de vários W ou de um doloroso e infindável L…
Mas, passemos a questões mais concretas – Açores e Turismo. O Turismo, em toda a sua cadeia de valor, desde o pequeno agente, à grande companhia aérea, passando pelo alojamento, a animação e a restauração, o Turismo, dizia eu, foi a primeira vítima global do Covid-19. Uma Indústria alicerçada na Hospitalidade não pode sobreviver num mundo de portas fechadas e de pessoas isoladas. No entanto, é óbvio que não podem ser assacadas responsabilidades ao Governo Regional pela debacle do sector. Mas, nas respostas à situação, sim, podem. E, se até poderemos considerar que muitas dessas respostas estão dependentes de soluções partilhadas com a República e entre Estados, há, claramente, considerações que são estritamente locais. Desde logo, a manutenção e eventual requalificação da oferta. O foco da atenção actual do Governo Regional, e dos empresários, diga-se, deveria estar totalmente empenhado na defesa e salvaguarda da oferta, permitindo que, quando e como, a retoma se der, se se der, o Destino Açores ainda exista como tal. Com alojamento, animação e serviços de qualidade. Isto sim é Sustentabilidade.
O foco no emprego, não passa de uma arma eleiçoeira e uma forma de, em género de tratos de polé, condenar as empresas ao inferno da dívida. Manter despesa, quando não há rendimento significa défice, que leva a encargos, que levam a, acertaram, falências. A fórmula pífia do layoff esquece todos os outros custos que as empresas continuam, regular e impreterivelmente, a ter. Quartos para arejar, carros para manter, luz e água, taxas, impostos, como o inefável IMI, dividas à banca, mas, vá-la que as moratórias são das poucas coisas que até tem corrido bem, e todo um imenso rol de pequenos custos que, ao final de cada mês, são o prego no caixão de cada infeliz empreendedor. O ponto a que esta situação nos vai levar é a um desvario indiscriminado de falências, em que apenas se vão salvar, os grandes, os sacrificados ou os aldrabões e sem que a Região tenha mexido um dedo mindinho para proteger a qualidade e a diferenciação da oferta e salvaguardar a criação de valor. O que se exigia, o que devia estar a ser veementemente exigido pelos empresários do sector, era que o Governo tivesse já instituído um Gabinete de Crise, com a missão de, directamente no terreno, ilha a ilha, empresa a empresa, estudar e implementar medidas de suporte básico de vida para o sector. Rendimento zero = despesas idem. Simples! No entretanto, avaliar cuidadosamente a oferta instalada, podando os excessos, as redundâncias e as ervas daninhas para que, aquilo que realmente tenha potencial de crescimento possa, na verdade, prosperar quando se der a retoma, que todos esperamos e que, inevitavelmente, irá acontecer.
Outro dos logros em que o Governo e os empresários estão a laborar é a questão dos mercados. Se a ideia do mercado nacional era, já de si, improvável, ao que acresce o estar a ser estupidamente mal trabalhada. A ideia, então, do mercado regional é de tal maneira estapafúrdia que causa dor e repulsa a insistência com que os responsáveis regionais se utilizam dela. A números de 2019, a Região tinha cerca de 25000 camas e registou perto de 1 milhão de hóspedes para, numa estada média de 3 noites, pouco mais de 3 milhões de dormidas. E isto, atenção, para uma taxa de ocupação global a rondar os 34% (!!!). Ora se tivermos em conta que a região tem uma população de 245 mil almas e que dessas, apenas, 123 mil são população activa, ficamos com uma ideia de como o “mercado regional” não passa de um verdadeiro gambuzino, por mais campanhas “seguramente açorianas” que se façam. E, já nem vou sequer mencionar o facto de a Região Autónoma dos Açores ter os piores índices de distribuição de riqueza, porque isso reduzia o mercado regional à capacidade de um ou dois aviões da SATA.
No que toca ao mercado nacional, esse morreu em dois momentos. Primeiro, na descontinuidade territorial e não, não estou a falar de constitucionalidade ou inconstitucionalidade, estou a falar mesmo das perto de 900 milhas, os 1.500 quilómetros, as duas horas de avião, que separam Lisboa de Ponta Delgada. E, aqui a ênfase deve ser posta no avião. Este ano só os muito ricos e despreocupados, que como sabemos, em Portugal, são uma minoria, é que vão andar de avião, os outros vão pegar no carrinho e vão de férias à terrinha. O segundo, foi o timing. É bom lembrar que até praticamente ao início de Junho a mensagem que os Açores andaram a passar foi a de que não queriam cá ninguém. Que a peste viajava alojada no buço dos turistas e dos tugas do continente e que não queríamos que viessem para cá infectar as nossas pombinhas do Espírito Santo. Tanto que, até hoje, António Costa e Vasco Cordeiro não se falam e o continental rumina com os seus botões que aqueles açorianos são todos birutas. Ora, o que isso fez, foi com que o pai de família, subchefe de repartição, pegasse na Maria e nos dois putos e marcasse as feriazinhas de verão na praia fluvial de Pedrógão, para ajudar os locais, que perderam tudo nos fogos, coitados. Açores? Não, isso é para o Marcelo e para a tia Maria João.
Chegados aqui, com que é que ficamos? Uma mão cheia de nada. Um Presidente do Governo, em campanha eleitoral, correndo de porta em porta, vestido de negro e de máscara, como um médico da peste, receitando Éter aos moribundos. Uma oposição presa nos clichés do politicamente correcto e refém dos obscenamente altos números da abstenção. Uma associação de empresários de turismo que está morta há muitos anos, mas que teima, qual Rasputin da contratação pública, em não querer ver declarado o óbito. E, por fim e o pior de tudo, uma população em que praticamente dois terços depende, directa ou indirectamente, do Sérgio Ávila para meter comida na mesa ao fim do mês.
Como dizia no início, isto já estava mau, o Covid, que nos meteu a nós de máscara, só veio desmascarar o quão mau isto estava…
Sejamos sinceros, isto já estava mau antes do vírus, ficou foi ainda pior. E, a grande probabilidade é que, passada a pandemia vírica, fi…

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Sejamos sinceros, isto já estava mau antes do vírus, ficou foi ainda pior. E, a grande probabilidade é que, passada a pandemia vírica, fi…

Quase todos os portugueses dizem que corrupção está disseminada no país – Renascença

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Portugal apresenta a terceira maior taxa e muito acima da média da União Europeia (UE 71%), segundo um inquérito Eurobarómetro.

Source: Quase todos os portugueses dizem que corrupção está disseminada no país – Renascença

A FALÁCIA DIREITA – ESQUERDA

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Miguel Rm
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Bom artigo. As velhas categorias (como direita-esquerda, ricos-pobres, capitalismo-socialismo ou democracia-luta de classes) qualquer dia serão tão úteis para percebermos o mundo de hoje como, por exemplo, “Os 101 Dalmatas” das produções Walt Disney.
A “guerra de gerações no NYT”, ora aí está uma notícia interessante…

Ser a voz da sensatez num mundo de loucos requer a coragem de Weiss. A que todos, desde dos que escrevem nos jornais aos que os lêem, devemos ter porq…

OBSERVADOR.PT
Ser a voz da sensatez num mundo de loucos requer a coragem de Weiss. A que todos, desde dos que escrevem nos jornais aos que os lêem, devemos ter porq…
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  • Miguel Rm Para completarem a compreensão sobre o que penso quanto a dicotomias úteis para os dias de hoje, leiam a minha publicação de dia 9 de Junho, com a intervenção do deputado Cotrim: liberdade ou extremismo, eis um dilema necessário para hoje e amanhã…
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Carta Aberta Comércio Tradicional e Restauração Ponta Delgada

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Carta Aberta Comércio Tradicional e Restauração Ponta Delgada

Exma. Sra. Presidente da Câmara de Ponta Delgada,
Exmo. Sr. Presidente da Câmara de Comércio e Indústria de Ponta Delgada,
A crise que afeta o comércio tradicional e restauração da nossa cidade, fruto do encerramento forçado pelo combate à pandemia de Covid-19, é conhecida e tem sido amplamente divulgada e discutida. O profundo impacto que a forte quebra no sector turístico terá, trará consequências dramáticas em muitas das empresas, direta e indiretamente, sendo que mesmo nas mais otimistas previsões, 2020 será um ano de enormes desafios para toda a economia, muito em particular para as micro e pequenas empresas. Sabendo que a afluência de turistas será muito menor do que tem sido a média dos últimos anos, penso que é consensual a grande necessidade de contar com o mercado local para ajudar a ultrapassar os meses mais próximos sem insolvências e salvaguardando o mais possível os postos de trabalho.
Estou certo que é papel de toda sociedade empenhar-se na recuperação das nossas empresas que são a alma da nossa Região, muito em particular da nossa cidade. No entanto, cabe às instituições que lideram a responsabilidade de promover e facilitar as medidas necessárias para que possamos ultrapassar este que é o maior desafio económico das últimas décadas. Todas e qualquer ação é urgente de modo a que pelo menos Julho e Agosto possa ser uma ajuda. Não é altura para demoras desnecessárias. É tempo de ação e coragem.
Assim nesse sentido, e também como comerciante da nossa cidade, gostaria de sugerir as seguintes ações tendo em vista a minoração do impacto deste verdadeiro “estado de emergência económico”:

OFERTA DE 1 HORA DE ESTACIONAMENTO

Oferta da primeira hora de estacionamento em toda a cidade de modo a promover e dinamizar a acessibilidade à baixa. Repetidamente é este o principal impedimento referido por cliente à sua deslocação ao centro histórico. A oferta da primeira hora de estacionamento irá promover a rotação de estacionamento e o aumento da afluência de pessoas.

RESTAURANT WEEKS PONTA DELGADA 2020

Promoção de um evento em parceria com a AHRESP que permita descontos em restaurantes aderentes de modo a promover todo o sector junto do mercado local. Este evento, ou semelhante deveria ocupar uma semana por mês até ao Verão de 2021 pelo menos. Pode ser uma importante medida para atrair locais a espaços até agora vocacionados para turistas. Eventos semelhantes têm sido organizados em outras cidades europeias com enorme sucesso.

APP COMÉRCIO LOCAL PDL

Criação de um cartão e aplicação móvel que permita a acumulação de pontos através das compras efetuadas no comércio local. Pontos esses que depois possam ser trocados por descontos ou produtos junto dos estabelecimentos aderentes. Essa aplicação pode constituir um elemento fundamental de comunicação e marketing, tendo como objetivo a fidelização de clientes ao centro histórico da cidade. A informação recolhida por essa aplicação, pode constituir um fator decisivo para a gestão da marca “centro histórico de PDL”.

PROGRAMA ESPLANADAS XL PDL

Dada a limitação das lotações em espaços cobertos a criação de um programa que ajude no aumento da áreas de esplanadas em espaço público de forma a garantir todo o distanciamento social. Reduzir as taxas relativas a esses equipamentos e aumentar a área de encerramento ao trânsito deverão ser medidas complementares. Nunca foi tão importante a maximização de espaço ao ar livre para a restauração. O encerramento de vias ao trânsito no período noturno e/ou fins de semana deve ser alargado.

REAVIVAR O “PASSEIO DA AVENIDA”

Criação de um programa que recupere a ancestral tradição do “Passeio da Avenida” (com distanciamento social e em segurança) atraindo as famílias ao centro da cidade, em particular à sua avenida marginal. Este programa poderá ser uma importante ajuda ao comerciantes dessa zona, bem como aos vendedores ambulantes que serão seriamente afetados pelos cancelamentos de todas as festas populares. Com isto poder-se-ia associar uma feira de street food permanente bem como outras atividades que promovam a frequência de pessoas na nossa avenida marginal que nos últimos anos tem perdido a sua relevância no verão.

NOITES VERÃO

A aposta na animação, como tem sido feita nos últimos anos, deve ser reforçada e centrada nos artistas locais. Estes são também dos mais afetados pela falta de festas de verão devido à pandemia.
O comércio tradicional, bem como o sector da restauração são a alma das nossas cidades, envio estas sugestões como contributo para que de modo decisivo se aposte na nossa cidade e nos que foram sempre o seu motor de desenvolvimento e progresso. Estou convicto que esta também pode ser a oportunidade para quem uma vez por todas, se olhe para o centro histórico da nossa cidade como o seu coração, mas que agora, e com urgência, terá de ser ajudado dadas as difíceis circunstância que todos acreditamos serem temporárias.
Com os melhores cumprimentos
André Silveira
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  • André Silveira Eu sei que provavelmente algumas destas coisas até já devem estar em preparação. Mas é urgente que coloquem cá fora as medidas. Senão Julho e Agosto ainda será pior.
    Ontem sai para jantar fora e cenário é desolador.
    Já agora o Sr. Presidente do Governo já fazia uma visita ao comércio tradicional e à restauração. Só lhe ficava bem. Tarde, mas antes tarde…
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  • João Manuel Gregório Muito bem.👏
  • Pedro Gouveia Seria uma boa (e necessária) iniciativa !

Estrategizando | Agência dos Direitos Fundamentais da UE : há que criminalizar os atos de racismo

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A lusa juventude, a caucasiana, a Negra, a asiatica a mestiça deu sinais claros – o racismo não é com ela numa inesperadamente grande manifestação que acom

Source: Estrategizando | Agência dos Direitos Fundamentais da UE : há que criminalizar os atos de racismo