393. O 25 de abril sempre 2021

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393. O 25 de abril sempre 2021

Houve tempos difíceis depois da primeira grande Guerra e durante a segunda. Com o racionamento faltavam bens essenciais que nenhum dinheiro podia comprar. Depois veio a esperança, a reconstrução, novas tecnologias após 1950. Nesta bela casa, hoje dilapidada e desabitada, à espera do camartelo municipal para se construir uma qualquer gaiola de cimento sem vida nem alma, habitaram famílias (felizes ou não), nasceram jovens, cresceram, foram à Guerra colonial, e voltaram ou não, para casar e arranjar emprego, terem filhos, seguirem o curso de vida normal nesses tempos. Naquela casa houve festas, aniversários, dançaricos, celebrações, ouviram-se risos e choros, alegrias e tristezas. Em tempos, criadas fardadas de preto e branco serviram à mesa, na escravatura de só saírem umas horas, ao domingo de tarde, para namorarem um magala do quartel mais próximo.

Foi nessa altura que o mundo calmo e salazarento se desmoronou e perdeu a inocência. Primeiro a ocupação de Goa, Damão, Diu, a que se seguiram as chacinas em África, que deram início a 14 anos de Guerra colonial sangrenta, estúpida, sem senso. Um confronto militar perdido antes de ter começado, seguindo a teoria de dominó de Henri Kissinger, onde Portugal nunca teve hipóteses face ao xadrez dos EUA e Rússia em África. Mais de uma dezena de milhares de mortos e muitos milhares de feridos e estropiados que ainda hoje penam com stresse pós-traumático. Tudo deixou marcas na velha casa, onde um jovem revolucionário, embandeirou em arco com o 25 de abril, ameaçando as fundações da família. Velhos e irrelevantes, os donos da casa foram-se consumindo com o tempo, sem se ajustarem aos ventos democráticos cuja voragem aniquilou as escassas reservas amealhadas em gerações. Quando se finaram, a casa também se finou com eles sem ninguém interessado em manter e preservar o velho casarão que, há muito necessitava de obras custosas, para manter a aparência senhorial.

E que acontecia entretanto? Na época eu, e qualquer jovem, vivia com dois dilemas, a espada de Dâmocles da malfadada tropa (o exército colonial português que decepava vidas e esperança dos jovens ao enviá-los para a Guerra colonial que ninguém queria nem entendia), a outra, era não pertencermos à Europa (nem ao mundo) na política do “orgulhosamente sós” a que a ditadura salazarenta se agarrava. Mas havia esperança, a Guerra colonial acabaria, tal como a do Vietname. A democracia havia de chegar a Portugal como chegou à Europa após a segunda Grande Guerra. Não sabíamos quando.

Estive como aspirante a oficial miliciano, no RAL-4 Leiria, e nos passeios longos de tertúlia com o (major) Melo Antunes nas margens do Rio Lis (abril a setembro 1973) ele dizia que se estava a preparar algo para daí a dois ou três anos (no pior cenário, cinco anos). Falava-se de vida, filosofia, aspirações e sonhos. Felizmente vivi o suficiente para ver a maior parte desses sonhos concretizados. Jamais esquecerei o que era viver sem liberdade. Sempre afirmei, e reitero, mesmo que não sirva para grande coisa, o 25 de abril trouxe o bem mais precioso: a liberdade de expressão.

osvaldo cabral, as eleições

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MAIS DO MESMO NAS AUTÁRQUICAS?
À semelhança do que acontece no país, a grande incógnita das eleições de domingo, nos Açores, é saber até onde poderá ir o Chega.
Nas eleições para a Assembleia da República, em Maio passado, o Chega foi o único partido que cresceu em número de votos, ganhando 2 dos 19 concelhos e 25 das 156 freguesias, 12 das quais em Ponta Delgada, o que corresponde a metade do concelho, passando a segunda força política mais votada.
José Pacheco aposta a própria reputação com a sua candidatura a Ponta Delgada, depois de já ter concorrido na Lagoa, há quatro anos, com um resultado pífio.
Será que a zanga dos eleitores com os partidos tradicionais, manifestada nas eleições nacionais, terá correspondência nas autárquicas de domingo?
Tudo leva a crer que não, porque nas autárquicas nem sempre é o partido que está na primeira opção dos eleitores, mas sim o perfil dos candidatos e o grau de proximidade de cada um nas suas localidades.
O mais certo é que o Chega faça mossa nestas eleições, mas daí até ganhar Câmaras Municipais seria uma surpresa absoluta.
O fenómeno está testado em vários países da Europa, onde a extrema-direita ou os populistas têm obtido grandes resultados nas eleições nacionais, mas não consegue implantação ao nível do poder local, sobretudo nas grandes cidades ou nos maiores centros urbanos.
Porém, a história das eleições autárquicas nos Açores ensina-nos, pelo menos nos últimos 16 anos, que há sempre uma surpresa na noite eleitoral, com mudanças quase inesperadas, como já aconteceu com Vila do Porto, Ribeira Grande, Nordeste ou Praia da Vitória.
No próximo domingo é previsível que haja alguma surpresa, porque o cenário eleitoral este ano é muito diferente de há quatro anos, onde a fragmentação parece mais acentuada. É muito provável que, mesmo em autarquias bastiões, desapareçam as maiorias absolutas.
Uma coisa é certa, do modo como as forças políticas se têm apresentado nesta campanha, vai haver muitas leituras na noite eleitoral e praticamente todos vão dizer que venceram à sua maneira.
Ponta Delgada, Lagoa, Vila Franca, Angra do Heroísmo, Praia da Vitória e os dois municípios das Flores são, à partida, os concelhos mais interessantes de seguir na noite eleitoral, por razões diferentes e, também, devido aos resultados obtidos pelo Chega em Maio passado.
É claro que estas são eleições diferentes, mas é legítimo questionar se os eleitores zangados de Maio repetirão domingo o protesto contra o PSD e PS.
Enquanto em Ponta Delgada o Chega empurrou o PS para a terceira força política, ganhando uma dúzia de freguesias rurais, o PSD manteve-se em primeiro graças às freguesias citadinas.
O facto do PS concorrer em Ponta Delgada dividido entre a candidatura forçada de Isabel Rodrigues e a ex-socialista Sónia Nicolau, retira qualquer hipótese dos socialistas vencerem a “joia da coroa”, podendo mesmo obter um resultado humilhante.
O PS sempre foi a força de oposição tradicional ao PSD em Ponta Delgada, ficando apenas a 6 pontos percentuais nas autárquicas de 2021, com o BE em terceiro, mas desta vez haverá mudanças nestas posições, até porque o BE concorre coligado com o PS.
O concelho da Lagoa, que foi uma das surpresas na noite eleitoral das nacionais, com o resultado obtido pelo Chega, será outra incógnita em termos de comportamento do eleitorado, onde o Chega venceu em 4 das 5 freguesias.
Vila Franca, onde o Chega também venceu no concelho, é outro município a seguir com atenção, até porque não há um candidato incumbente.
De resto, para além de Vila Franca, há outras Câmaras Municipais onde se registarão mudanças ao nível da presidência, porque os actuais presidentes atingiram o limite de mandatos.
São os casos de Ribeira Grande, Angra do Heroísmo, Calheta, Velas, Santa Cruz das Flores, Lajes das Flores, Madalena e Corvo. Poderá não haver mudanças na cor política, mas não deixa de ser uma oportunidade para quem esteve na oposição nos últimos anos.
Nas eleições de 2021 o PSD conseguiu segurar os municípios que já detinha, em que a grande incógnita já era o resultado que o Chega poderia alcançar, depois de ter eleito dois deputados nas eleições regionais do ano anterior e que serviram para viabilizar o governo de Bolieiro.
Outra diferença de monta é que, naquele ano, o Chega apresentou apenas 8 candidaturas nos 19 concelhos, enquanto que este ano concorre a todos, embora com muitas listas de candidatos “importados” do Continente.
Finalmente, outra expectativa nestas eleições será o comportamento do PS, partido vencedor das últimas autárquicas em 2021, com 9 Câmaras Municipais contra 8 do PSD e respectiva coligação, mas que já se apresentava em queda livre, tendo perdido três municípios.
Os socialistas sempre tiveram, nestas últimas décadas, forte implantação no poder local, o que lhes poderá ajudar a segurar algumas câmaras no próximo domingo.
Se perder alguma e obtiver um mau resultado em Ponta Delgada, então será mais uma má notícia para a liderança de Francisco César, acusado pelos seus próprios pares de não ter sabido gerir o processo de candidatura de Ponta Delgada.
Não há previsão de nenhum descalabro eleitoral no próximo domingo, mas será interessante verificar o comportamento do eleitorado face a uma nova realidade regional.
Da parte da coligação de José Manuel Bolieiro, segurar as câmaras que já detém e, eventualmente, ganhar alguma ao PS, seria uma grande vitória eleitoral, considerando que a governação regional está numa fase de alguma impopularidade, a julgar pelo coro de críticas e descontentamentos pelo seu desempenho.
Aliás, a desastrada forma como geriu a privatização da SATA foi muito subtilmente atirada para depois de domingo. Mas convém ir dizendo que, a confirmar-se o desastre final do processo, há que retirar consequências no Governo Regional, com Duarte Freitas e Berta Cabral à cabeça.
Quanto à pré-campanha e campanha em geral, foram ambas atípicas, com pouca adesão popular e sem rasgo.
Tirando uns cartazes manhosos, promessas completamente absurdas e irrealistas, algumas a roçar o ridículo, à mistura com alguns candidatos cromos, se não fossem os debates na RTP-Açores e a cobertura da imprensa regional, os cidadãos nem saberiam quem são os candidatos.
A tensão eleitoral, este ano, foi mais elevada, atendendo à introdução de um discurso mais populista, com discussões intragáveis, como alguns debates televisivos, e muita demagogia à solta, onde até se prometeu dar dinheiro às pessoas para comprarem casa ou medicamentos, como se isto fosse uma função das autarquias. Alguns candidatos demonstraram um profundo desconhecimento sobre como funciona o poder local e outros fizeram propostas como se vivêssemos no Dubai e houvesse petróleo nos respectivos municípios, alguns deles falidos por via das contas ruinosas das suas empresas municipais.
Outra conclusão a retirar desta campanha eleitoral é o continuado declínio da qualidade dos candidatos, cada vez mais nivelado por baixo, como já se tinha notado, também, nas eleições regionais.
Tudo junto poderá contribuir para uma maior abstenção (45% em 2021), que apesar de tudo é das mais baixas em todas as eleições.
Quem estuda o comportamento das massas sabe que, em momentos de tensão, os extremismos tendem a ser mais fortes.
O que estamos a viver a nível mundial, as crises e as guerras, os “casos” e “casinhos” na política interna, o ambiente insultuoso e odioso ampliado nas redes sociais, tudo isto contribui para comportamentos mais extremados na sociedade, que foram visíveis nesta campanha e que podem reflectir-se nas urnas.
Como diz a ‘Rainha’ das Flores, Gabriela Silva, “com o mundo num caos, o poder local é uma espécie de oásis para os munícipes (…). Seria muito interessante que, após este período de combate, pudéssemos remar todos para o mesmo lado, colocando o interesse coletivo acima do individual.”
Também há alguns sinais positivos no processo eleitoral deste ano, como o aparecimento, cada vez maior, de muitos jovens e movimentos independentes, provando que o sistema eleitoral para as regionais e nacionais precisa de ser alterado.
A oligarquia partidária tem impedido, até agora, qualquer mudança no sistema, mas de susto em susto, em cada eleição, pode ser que acordem para a realidade.
Há uma espécie de ‘wokismo’ nos aparelhos dos partidos contra a cidadania e aqueles que pensam pela sua própria cabeça.
Preferem o rebanho partidário e a obediência cega ao líder todo poderoso.
Bem poderiam aprender com o Poder Local, onde o sistema é mais generoso para as populações e inspirador para o regime.
A Democracia agradece.
Outubro 2025
Osvaldo Cabral
(Açoriano Oriental, Diário Insular, Portuguese Times EUA, LusoPresse Montreal)

A REVOLUÇÃO E O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO

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574. A REVOLUÇÃO E O ADMIRÁVEL MUNDO NOVO 21.02.2025

 

Ano de eleições autárquicas que prometem virar o país de alto a baixo como nunca se viu. Parece ser verdade, os nossos políticos vão fazer o que prometeram durante a campanha eleitoral.

Agora, todos os funcionários dos departamentos governamentais vão ser prestáveis e até vão preencher os próprios formulários que estão sempre a fazer perguntas para as quais eles já sabem as respostas.

As Finanças deixam de atender por marcação prévia.

Os Hospitais deixam de ter esperas de 6, 10 ou 15 horas e terão médicos e enfermeiros suficientes para todos serem atendidos em menos de 15 minutos.

Nenhum médico privado ou público atenderá os pacientes com mais de 10 minutos de atraso em relação á hora marcada e terá de pedir desculpas e garantir que isso não se repete sob pena de pesadas coimas.

As reuniões escolares nunca durarão mais de 2 horas, os envolvidos estarão familiarizados com a agenda e terão fins e objetivos facilmente comprováveis.

Quando telefonamos a uma empresa, vão mesmo atender a chamada.

Nos cafés e restaurantes açorianos quando pedirmos uma garrafa de água ela virá acompanhada de um copo.

Nos restaurantes, o “couvert” será gratuito e fará parte do cartão-de-visita de Relações Públicas local.

O “Em espera” está a ser banido de todos os telefones.

As pessoas vão “falar” em vez de enviar mensagens de texto.

Os adolescentes vão ser prestáveis em vez de se queixarem.

O Governo está a eliminar os impostos sobre o vinho, gás , gasolina, cerveja.

A publicidade está a ser banida da televisão.

A fidelização de telecomunicações nunca será superior a 30 dias, podendo ser cancelada a qualquer momento sem aviso prévio.

Vamos ser servidos em grandes armazéns em vez de sermos ignorados e, sim, Pingo Doce, Continente, etc. estou a olhar para ti. Deve ser divertido no nosso admirável mundo novo.

Admirável era constatar que a lei de Português Simples tinha sido posta em prática e que os contratos da NOS; MEO etc. em vez de 27 páginas tinham apenas 12 linhas que toda a gente entendia e podiam ser lidos sem lentes de aumento. Outra novidade que pensei: qualquer documento de seguro passara a conter 3 páginas incluindo a descrição completa e detalhada do bem seguro.

As rotundas passaram a ter obstáculos que obrigavam os que circulavam mais à direita a virar tal como a lei propugna.

As trotinetas e bicicletas de aluguer deixaram de ser abandonadas em qualquer ponto onde acabava o aluguer ou a falta de civismo impelia.

A Meta, X, Microsoft e outras deixam de ter acesso aos seus dados pessoais, aos locais na internet que visitam, aos seus gostos e escolhas pessoais, ao seu registo de compras, de pesquisas, preferências de música, cinema, etc.

A IA deixara de ter acesso às bases de dados donde retirava as suas informações plagiadas para partilhar como se fossem muito inteligentes. Os algoritmos tinham sido proibidos em todas as áreas comerciais, na saúde, na justiça, na educação.

O dinheiro gasto em contratações milionárias para abrilhantar as festas da paróquia, da passagem de ano ou outra qualquer efeméride seria gasto em apoio a artistas locais e regionais, o fogo-de-artifício ruidoso (causador de tantos problemas em idosos, doentes e animais) fora substituído por fogo silencioso de belos efeitos luminosos.

As touradas finalmente abolidas tal como acontecera já às lutas de gladiadores que eram bem menos dolorosas e injustas.

Os processos judiciais passaram a ter um prazo limite de 12 meses para irem a julgamento e os culpados (em especial em casos de corrupção) nunca teriam penas suspensas. Deixou de haver prescrição de penas e foi abolida a limitação de 25 anos de pena máxima.

A SATA não foi privatizada e dá prejuízo como a Carris, a CP e similares mas servia o desígnio de unir as 9 ilhas e estas ao continente. A diáspora era servida pela TAP.

Trump pedira 5% do orçamento (PIB) da Europa dedicado à defesa mas nos Açores 5% do PIB eram alocados à cultura (nas suas vertentes popular, clássica, elitista em todos os ramos) a qual passou a ser um dos itens mais exportados e não só nos mercados da memória e da saudade..

Afinal os mundos perfeitos só existem em filmes e livros, de repente acordei e estava ainda em fevereiro 2025, nada mudara nem mudaria, mas foi bom enquanto durou.

Catarina Valadão Desconexão gourmet

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Desconexão gourmet
Lembram-se de quando o telemóvel servia para pouco mais do que telefonar? Era uma coisa prática: ligar à mãe, marcar um jantar, chamar um táxi e jogar Snake. Agora é um pequeno ditador de bolso, sempre a vibrar e a pedir atenção. Nós, obedientes, largamos a conversa, o garfo, a vida, só para ver se alguém no planeta se lembrou de nós. E quando não vibra? Crash! “Será que o mundo acabou e ninguém fez update?” Calma: o bug não é do planeta, é teu.
Entrar hoje num restaurante é como assistir a uma convenção de zombies tecnológicos. As cabeças mergulham nos ecrãs com tanta devoção que só falta o cântico gregoriano como beat de fundo. O prato chega, tira-se a fotografia, põe-se o filtro “vida perfeita” e deixa-se a comida arrefecer – a comida arrefece, mas pelo menos a selfie sai em 4k. Entretanto, o diálogo é reduzido a “Passa-me o sal” escrito no WhatsApp, porque falar em voz alta parece intrusão. E quando finalmente se mastiga, a refeição já é um ficheiro saído de uma disquete.
As redes sociais são o all-you-can-eat da bisbilhotice. Fazemos scroll como quem folheia um menu de humanos. “A prima fica top de bikini” ou “O vizinho do terceiro partilhou um reel do cachorro”. Lá vamos nós, curiosos, a dar like, quando na verdade nem falamos pessoalmente com a prima ou com o vizinho.
É uma tragédia cómica: conhecemos a dieta do influencer de Silicon Valley, mas ignoramos se o nosso melhor amigo jantou ontem. É mais fácil emocionar-nos com o TikTok de um cão vestido de unicórnio do que com a avó ao nosso lado a contar histórias de quando as pessoas falavam cara-a-cara. O afeto, esse coitado, anda a viver de restos. Abraço? Só com marcação. Beijo? Só com filtro vintage e # kiss. É como se estivéssemos mais próximos de quem está a dez mil quilómetros do que do amigo sentado a meio metro.
Os jantares são hoje encontros de estranhos unidos pelo carregador múltiplo. O ambiente é tão íntimo como a fila das finanças. Cada um trata do seu feed com o ar compenetrado de quem está a encriptar segredos de Estado, quando na verdade só está a ver memes de preguiças em loop. E quando alguém se lembra de iniciar conversa, aparece o ecrã azul: “Mas… porquê?”
A vida real, aquela com cheiro, vento e gente, anda em stand-by e parece menos interessante porque não tem botão de like. O céu muda de cor, o mar faz surround, os pássaros cantam sem login e nós nem reparamos, porque estamos ocupados a ver se alguém reagiu ao nosso “bom dia” de ontem – aquele que nunca vivemos offline.
E não é culpa do telemóvel, coitado – hardware inofensivo. O bug somos nós. Seres humanos que preferem olhar para um ecrã retina do que para a cara, às vezes igualmente luminosa, de quem está mesmo à nossa frente.
A solução? Simples e barata: fazer logout. Sem drama. Ninguém vai morrer se não mexericarmos o Instagram por uma hora. Pelo contrário, talvez ganhemos vida. Pousar o telemóvel, erguer a cabeça, melhorar a postura e descobrir que as pessoas têm olhos, expressões e piadas medonhas. Que o jantar sabe melhor quando não está frio e pixelizado.
Arrisco-me a chamar esta mania de “desconexão gourmet”: a arte de ignorar a realidade com (uma tentativa de) requinte. Mas nada é mais chique do que estar (e ser) presente, sem lag.
Hoje, o premium é retro: conversar ao vivo, rir sem emoji, ouvir sem fones, abraçar sem hashtag.
Desconetar é o verdadeiro refresh: reaver o presente, a vida e a humanidade. E, convenhamos, é um espetáculo muito mais divertido do que qualquer vídeo viral de gatos – e eu adoro gatos!
A vida, a verdadeira, não acontece através de um ecrã.
Catarina Valadão
Publicado no jornal Açoriano Oriental a 11.10.2025

May be an image of newsagent and text
João Mendes Coelho

Maravilhoso texto!

os nossos livros mais recentes 2022-2025 (AICL Colóquios da lusofonia)

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CHRÓNICAÇORES

(Volume 7 – 2021-2023)
todos estes livros (menos o ChronicAçores vol 7 em pdf /flipbook) estão disponíveis na livraria Letras Lavadas,
https://www.letraslavadas.pt/contacto/

Grupo Nova Gráfica, Lda.
Largo da Matriz, 69 R/C – 9500-094 Ponta Delgada – São Miguel – Açores
Tef +351 296 283 113 (Chamada para a rede fixa nacional) | livraria@letraslavadas.pt
publicor@publicor.pt ​ | www.letraslavadas.pt

Wook, Fnac, Bertrand, worten, etc…

Açores testam semana de quatro dias na administração pública em janeiro – jornalacores9.pt

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O governo açoriano vai aplicar em janeiro de 2026 o projeto-piloto da semana de quatro dias de trabalho na administração pública regional e a amostra dos serviços e trabalhadores envolvidos será constituída em novembro, foi hoje revelado. “Em novembro […] será constituída a amostra de serviços e [de] trabalhadores que irão participar neste projeto-piloto. Assim, […]

Source: Açores testam semana de quatro dias na administração pública em janeiro – jornalacores9.pt

Um asteroide acabou de passar a rasar a Terra (e só percebemos depois)

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Uma tangente mais próxima da Terra do que a distância Porto-Algarve: 430 km que nos “salvaram” de um asteróide. A 430 km da Terra, um asteroide acaba de passar um “voo rasante” ao nosso planeta e tornar-se segunda passagem mais próxima registada até hoje (apenas superado pelo 2020 VT4, que passou a apenas 368 quilómetros da Terra há 5 anos). Agora, o 2025 TF, passou sobre a Antártida às 00:47:26 UTC de quarta-feira, 1 de outubro, a uma altitude de cerca de 428 quilómetros, explica a Science Alert. E foi mesmo uma tangente: a ilustração da capa mostra que o

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imigrantes indesejados, anos 60

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O que era dito na França a propósito dos emigrantes portugueses:
“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.
Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. (…) Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.
(…)
São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão. Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem.”
___
“́ “. Ricardo M. Santos.2015
Foto de Immigrées portugaises dans un bidonville. Saint-Denis (Seine-Saint-Denis), 1966-1967.
Do mural de Paulo Maia Fernandes.May be a black-and-white image of 3 people and crowd

Prémio Nobel da Paz atribuído à opositora venezuelana Corina Machado

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O Comité Norueguês anunciou esta sexta-feira a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Corina Machado, rosto da oposição venezuelana a Nicolás Maduro. Corina Machado foi laureada “pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela”.

Source: Prémio Nobel da Paz atribuído à opositora venezuelana Corina Machado

Trabalhadores portugueses ao serviço dos EUA nas Lajes sem salário atualizado – jornalacores9.pt

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Os trabalhadores portugueses ao serviço do contingente militar norte-americano na Base das Lajes, nos Açores, estão sem o aumento salarial anual e desconhecem o futuro dos colegas temporários, revelou hoje a Comissão Representativa. A Comissão Representativa Trabalhadores das Forças dos Estados Unidos Estacionadas nos Açores, liderada por Paula Terra, denuncia a “grave situação laboral, marcada […]

Source: Trabalhadores portugueses ao serviço dos EUA nas Lajes sem salário atualizado – jornalacores9.pt

apresentação do livro “Diário de um homem só”

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consegui montar uma reprodução da apresentação do livro “Diário de um homem só”

com os poemas iniciais, a música e os discursos de Diana Zimbro e Almeida Maia (em texto e em voz gerada por IA)

além das fotos que a livraria recolheu pela lente de Paulo R. Cabral.

ver e ouvir em

/coloquios.lusofonias.net/2025diario

 

/coloquios.lusofonias.net/2025diariohttps://blog.lusofonias.net/wp-content/uploads/2025/10/diarion-de-um-homem-so.pdf

Poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares vence Prémio Camões 2025

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A poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, autora de uma vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos, venceu o Prémio Camões 2025, anunciou a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

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