Pakistan blames Britain for Rochdale rapist’s crimes

Views: 9

Foreign office spokesman says onus for dealing with Shabir Ahmed lies with UK, where he was ‘raised, groomed and spoiled’

Source: Pakistan blames Britain for Rochdale rapist’s crimes

Não mude de via. A matemática dos engarrafamentos nas férias – ZAP Notícias

Views: 8

Milhões de pessoas vão fazer-se à estrada nesta época de férias, apenas para acabarem por passar horas frustrantes presas em engarrafamentos. O congestionamento custa tempo, combustível e paciência, além de aumentar a poluição e exercer uma enorme pressão sobre as redes de transportes. Quem já deu por si a olhar com inveja para a via de rodagem ao lado, convencido de que está a avançar mais depressa, não está sozinho. A maioria de nós acredita instintivamente que mudar de via nos permitirá chegar mais cedo a casa. Mas a matemática indica que esta intuição comum está normalmente errada, explica Randa

Source: Não mude de via. A matemática dos engarrafamentos nas férias – ZAP Notícias

Polícias, ladrões e ministros – João Paulo Batalha – SÁBADO

Views: 9

Polícias, ladrões e ministros Leia a revista Em versão ePaper Ler agora Edição de 14 a 20 de julho Luís Neves, o ministro que foi uma boa surpresa por não ser político, deu-nos agora a má surpresa: foi sempre político. Há uma espécie de contaminação cruzada entre polícias e ladrões, um intercâmbio regular de vícios e virtudes entre pessoas que estão essencialmente no mesmo ramo de atividade, mas em lados diferentes (nem sempre, necessariamente, “opostos”). A boa literatura vive muito disto: o remorso íntimo do criminoso que se apercebe do dano humano provocado pelos seus crimes, o atalho do inspetor ardiloso, que sempre vai aprendendo uns truques com os malandros que persegue. Adotarem as manhas uns dos outros, além de inevitavelmente humano, é uma espécie de cortesia profissional, de parte a parte. Tal como um consultor de políticas de combate à corrupção não consegue deixar de respeitar um bom circuito de lavagem de dinheiro, montado por bons profissionais, quando o reconhece. Como dizia a velha rábula, “é pá e tal, sim senhor”. A amizade de Luís Neves com um empreiteiro de Barcelos, seja na componente de construção civil, seja na de construção de relações, não tem nada desta sofisticação admirável do grande crime organizado – o crime que “é pá e tal, sim senhor”. Tem, pelo contrário, daquela cultura de informalidade e amiguismo que é bastante mais corriqueira e bastante menos inspiradora, mais franca, mais visível, mas igualmente oleosa. Precisamente porque tem pouco de verdadeiramente chocante, a conversa rapidamente resvala para questões formais de legalidade administrativa, seja sobre os concursos da Judiciária que afinal foram ajustes diretos ou consultas em circuito mais fechado, seja sobre a diferença jurídica entre um “tanque” e uma “piscina” – sendo que diferença substantiva é que, enquanto a piscina serve para banhos, o tanque serve para banhadas. A discussão sobre as minudências administrativas do licenciamento de pequenas obras particulares é a que mais interessa ao ministro e ao Governo, porque é a que melhor permite distrair do escrutínio verdadeiramente relevante. O ministro da Administração Interna, enquanto foi diretor nacional da Polícia Judiciária, transportou para a esfera privada uma relação de negócio que iniciou na esfera pública. Um empreiteiro que tinha como cliente público a Polícia Judiciária ganha como cliente privado o seu diretor nacional. É óbvio que isto devia ter sido evitado, porque levanta uma dúvida imediata (mesmo que se venha a revelar infundada) sobre a defesa do interesse público, a partir do momento em que se soma a essa relação um interesse particular. Em inglês há uma palavra para isto, que aponta as más práticas sem se prender na distinção do que é ilegal ou tecnicamente legal mas pouco ético: “wrongdoing” é a palavra que descreve a ideia de “não fazer o que está correto”. Em português, o mais aproximado seria “malfeitoria”, palavra antiquada, usada por umas raras almas hipersensíveis e que, portanto, soa pouco certeira neste contexto. Não estamos aqui perante um grande complot criminal. Estamos “só” perante os vícios reconhecíveis do nacional-porreirismo, com os quais os portugueses até contemporizam – a menos que reconheçam no jeitinho e no amiguismo concreto um catálogo de vantagens que não está ao alcance de todos, mas é privilégio exclusivo de uns poucos, bem relacionados. Neste caso, agravado pela incapacidade do ministro em documentar uma relação de negócio que nasceu e vive na informalidade, é óbvio que, mesmo nos seus aspetos tragicamente corriqueiros, o episódio mancha Luís Neves e mancha o Governo. O então diretor nacional da PJ foi uma boa surpresa quando foi chamado para o Ministério da Administração Interna precisamente porque não era um político: era um servidor público com décadas de carreira na Polícia Judiciária e uma boa imagem de alguém que resolveu problemas, em vez de os criar. Na verdade, muito do sucesso de Luís Neves na PJ veio ironicamente da sua capacidade política para forçar dos vários Governos capacidade orçamental para reforçar meios, renovar instalações, apetrechar a polícia. Esse mérito é dele e é indiscutível. É o mérito de alguém que trouxe peso político para a função. Afinal, percebemos agora, político também ele era noutro tipo de vícios, tão regularmente alvo da atenção da Judiciária. O vício da informalidade, para começar, que entrega a um empreiteiro amigo uma obra particular, sem contrato escrito, sem orçamento acordado, a pagar o que calha quando calha, sem autos de medição de obra, com alusão vaga a umas faturas que ninguém viu e que ele não mostra – nem faturas nem, muito menos, comprovativos de pagamento. Neste vício da informalidade amigável, em que um almoço entre gajos porreiros serve de contrato, Luís Neves adotou o velho hábito de ir além do que a lei permite e ficar aquém do que a ética exige. Que isto tenha acontecido quando o agora ministro era diretor nacional da Polícia Judiciária mancha, infelizmente, a própria PJ. De governantes (constatação deprimente) já todos esperamos alguma história sobre favorzito, dado ou recebido. De um polícia esperamos melhor. Talvez seja altura de adotarmos o bom discurso que Luís Neves sempre teve, nos seus tempos da PJ, quando algum dos seus inspetores era apanhado no lado errado desse velho intercâmbio entre polícias e ladrões: vamos atrás de todos, até dos nossos. Porque, de facto, além da imprudência, da informalidade e do jeitinho-com-falta-de-jeito, adensam-se indícios de potenciais violações da lei. Não só no licenciamento ou comunicação prévia das obras (deixo para mentes superiores a distinção jurídica entre “tanque” e “piscina”), mas em planos mais sérios. Em primeiro lugar, está na cara que o então diretor nacional da PJ violou o seu dever de exclusividade ao manter na sua esfera familiar a Alcampos, empresa de alojamento local dona da obra em Odemira. É verdade que a empresa não é “dele”, mas da esposa (com quem está casado em comunhão de adquiridos). Isso pode colocá-lo numa posição de legalidade formal mas, entretanto, já todos percebemos que quem toma as decisões é Luís Neves – é ele quem escolhe o empreiteiro, é ele quem manda fazer as obras, é ele quem toma as decisões de gestão. O resto é o potencial recebimento indevido de vantagem, que pode existir se o empreiteiro não estiver verdadeiramente a cobrar os serviços, ou estiver a cobrá-los a preço de amigo, ou em condições especiais de pagamento, quanto a prazos ou prestações. Para preencher esta específica tipologia penal, basta provar que o ministro está a receber condições “amigáveis” incompatíveis com as condições normais de mercado, e que está a receber essas benesses em função da posição que ocupava como diretor da PJ, ou da posição que ocupa hoje, como ministro. Basta ouvir o empresário João Santos Carvalho, na conversa gravada pelo Nascer do Sol, a gabar-se publicamente da sua relação de proximidade com o ministro para perceber a motivação desta “amizade” por parte do empreiteiro. Aqui chegados, já não há forma de Luís Neves sair bem deste filme. Descarregar uma listagem de mais de 100 faturas, como Luís Neves fez ontem ao Observador (sem verdadeiramente publicar os documentos propriamente ditos e os comprovativos de pagamento) é uma tentativa mal-amanhada de reclamar uma transparência que continua a não aparecer. Servirá para o primeiro-ministro clamar hoje no debate do Estado da Nação – como certamente fará – que está tudo esclarecido e que o ministro até publicou mais de 100 faturas (quando o que na verdade publicou, mais uma vez, foi uma listagem, não os documentos propriamente ditos, com indicação detalhada de serviços prestados) e comprovativos de pagamento. O que Luís Montenegro devia mesmo fazer era anunciar uma auditoria da Inspeção-Geral de Finanças a todos os contratos entre o universo empresarial da Construbarcelos e a Polícia Judiciária. Isso permitiria assegurar que, sejam quais forem os desenvolvimentos na vertente da obra particular de Luís Neves, o Governo agira para assegurar a defesa do interesse público. A segunda coisa a fazer é ouvir o primeiro-ministro sobre o que ele acha do critério ético do seu ministro da Administração Interna. Mas nesse ponto, enfim, a Spinumviva responde facilmente por Luís Montenegro. Polícias, ladrões e ministros + 1 de 0

Source: Polícias, ladrões e ministros – João Paulo Batalha – SÁBADO

Polícias, ladrões e ministros Leia a revista Em versão ePaper Ler agora Edição de 14 a 20 de julho Luís Neves, o ministro que foi uma boa surpresa por não ser político, deu-nos agora a má surpresa: foi sempre político. Há uma espécie de contaminação cruzada entre polícias e ladrões, um intercâmbio regular de vícios e virtudes entre pessoas que estão essencialmente no mesmo ramo de atividade, mas em lados diferentes (nem sempre, necessariamente, “opostos”). A boa literatura vive muito disto: o remorso íntimo do criminoso que se apercebe do dano humano provocado pelos seus crimes, o atalho do inspetor ardiloso, que sempre vai aprendendo uns truques com os malandros que persegue. Adotarem as manhas uns dos outros, além de inevitavelmente humano, é uma espécie de cortesia profissional, de parte a parte. Tal como um consultor de políticas de combate à corrupção não consegue deixar de respeitar um bom circuito de lavagem de dinheiro, montado por bons profissionais, quando o reconhece. Como dizia a velha rábula, “é pá e tal, sim senhor”. A amizade de Luís Neves com um empreiteiro de Barcelos, seja na componente de construção civil, seja na de construção de relações, não tem nada desta sofisticação admirável do grande crime organizado – o crime que “é pá e tal, sim senhor”. Tem, pelo contrário, daquela cultura de informalidade e amiguismo que é bastante mais corriqueira e bastante menos inspiradora, mais franca, mais visível, mas igualmente oleosa. Precisamente porque tem pouco de verdadeiramente chocante, a conversa rapidamente resvala para questões formais de legalidade administrativa, seja sobre os concursos da Judiciária que afinal foram ajustes diretos ou consultas em circuito mais fechado, seja sobre a diferença jurídica entre um “tanque” e uma “piscina” – sendo que diferença substantiva é que, enquanto a piscina serve para banhos, o tanque serve para banhadas. A discussão sobre as minudências administrativas do licenciamento de pequenas obras particulares é a que mais interessa ao ministro e ao Governo, porque é a que melhor permite distrair do escrutínio verdadeiramente relevante. O ministro da Administração Interna, enquanto foi diretor nacional da Polícia Judiciária, transportou para a esfera privada uma relação de negócio que iniciou na esfera pública. Um empreiteiro que tinha como cliente público a Polícia Judiciária ganha como cliente privado o seu diretor nacional. É óbvio que isto devia ter sido evitado, porque levanta uma dúvida imediata (mesmo que se venha a revelar infundada) sobre a defesa do interesse público, a partir do momento em que se soma a essa relação um interesse particular. Em inglês há uma palavra para isto, que aponta as más práticas sem se prender na distinção do que é ilegal ou tecnicamente legal mas pouco ético: “wrongdoing” é a palavra que descreve a ideia de “não fazer o que está correto”. Em português, o mais aproximado seria “malfeitoria”, palavra antiquada, usada por umas raras almas hipersensíveis e que, portanto, soa pouco certeira neste contexto. Não estamos aqui perante um grande complot criminal. Estamos “só” perante os vícios reconhecíveis do nacional-porreirismo, com os quais os portugueses até contemporizam – a menos que reconheçam no jeitinho e no amiguismo concreto um catálogo de vantagens que não está ao alcance de todos, mas é privilégio exclusivo de uns poucos, bem relacionados. Neste caso, agravado pela incapacidade do ministro em documentar uma relação de negócio que nasceu e vive na informalidade, é óbvio que, mesmo nos seus aspetos tragicamente corriqueiros, o episódio mancha Luís Neves e mancha o Governo. O então diretor nacional da PJ foi uma boa surpresa quando foi chamado para o Ministério da Administração Interna precisamente porque não era um político: era um servidor público com décadas de carreira na Polícia Judiciária e uma boa imagem de alguém que resolveu problemas, em vez de os criar. Na verdade, muito do sucesso de Luís Neves na PJ veio ironicamente da sua capacidade política para forçar dos vários Governos capacidade orçamental para reforçar meios, renovar instalações, apetrechar a polícia. Esse mérito é dele e é indiscutível. É o mérito de alguém que trouxe peso político para a função. Afinal, percebemos agora, político também ele era noutro tipo de vícios, tão regularmente alvo da atenção da Judiciária. O vício da informalidade, para começar, que entrega a um empreiteiro amigo uma obra particular, sem contrato escrito, sem orçamento acordado, a pagar o que calha quando calha, sem autos de medição de obra, com alusão vaga a umas faturas que ninguém viu e que ele não mostra – nem faturas nem, muito menos, comprovativos de pagamento. Neste vício da informalidade amigável, em que um almoço entre gajos porreiros serve de contrato, Luís Neves adotou o velho hábito de ir além do que a lei permite e ficar aquém do que a ética exige. Que isto tenha acontecido quando o agora ministro era diretor nacional da Polícia Judiciária mancha, infelizmente, a própria PJ. De governantes (constatação deprimente) já todos esperamos alguma história sobre favorzito, dado ou recebido. De um polícia esperamos melhor. Talvez seja altura de adotarmos o bom discurso que Luís Neves sempre teve, nos seus tempos da PJ, quando algum dos seus inspetores era apanhado no lado errado desse velho intercâmbio entre polícias e ladrões: vamos atrás de todos, até dos nossos. Porque, de facto, além da imprudência, da informalidade e do jeitinho-com-falta-de-jeito, adensam-se indícios de potenciais violações da lei. Não só no licenciamento ou comunicação prévia das obras (deixo para mentes superiores a distinção jurídica entre “tanque” e “piscina”), mas em planos mais sérios. Em primeiro lugar, está na cara que o então diretor nacional da PJ violou o seu dever de exclusividade ao manter na sua esfera familiar a Alcampos, empresa de alojamento local dona da obra em Odemira. É verdade que a empresa não é “dele”, mas da esposa (com quem está casado em comunhão de adquiridos). Isso pode colocá-lo numa posição de legalidade formal mas, entretanto, já todos percebemos que quem toma as decisões é Luís Neves – é ele quem escolhe o empreiteiro, é ele quem manda fazer as obras, é ele quem toma as decisões de gestão. O resto é o potencial recebimento indevido de vantagem, que pode existir se o empreiteiro não estiver verdadeiramente a cobrar os serviços, ou estiver a cobrá-los a preço de amigo, ou em condições especiais de pagamento, quanto a prazos ou prestações. Para preencher esta específica tipologia penal, basta provar que o ministro está a receber condições “amigáveis” incompatíveis com as condições normais de mercado, e que está a receber essas benesses em função da posição que ocupava como diretor da PJ, ou da posição que ocupa hoje, como ministro. Basta ouvir o empresário João Santos Carvalho, na conversa gravada pelo Nascer do Sol, a gabar-se publicamente da sua relação de proximidade com o ministro para perceber a motivação desta “amizade” por parte do empreiteiro. Aqui chegados, já não há forma de Luís Neves sair bem deste filme. Descarregar uma listagem de mais de 100 faturas, como Luís Neves fez ontem ao Observador (sem verdadeiramente publicar os documentos propriamente ditos e os comprovativos de pagamento) é uma tentativa mal-amanhada de reclamar uma transparência que continua a não aparecer. Servirá para o primeiro-ministro clamar hoje no debate do Estado da Nação – como certamente fará – que está tudo esclarecido e que o ministro até publicou mais de 100 faturas (quando o que na verdade publicou, mais uma vez, foi uma listagem, não os documentos propriamente ditos, com indicação detalhada de serviços prestados) e comprovativos de pagamento. O que Luís Montenegro devia mesmo fazer era anunciar uma auditoria da Inspeção-Geral de Finanças a todos os contratos entre o universo empresarial da Construbarcelos e a Polícia Judiciária. Isso permitiria assegurar que, sejam quais forem os desenvolvimentos na vertente da obra particular de Luís Neves, o Governo agira para assegurar a defesa do interesse público. A segunda coisa a fazer é ouvir o primeiro-ministro sobre o que ele acha do critério ético do seu ministro da Administração Interna. Mas nesse ponto, enfim, a Spinumviva responde facilmente por Luís Montenegro. Polícias, ladrões e ministros + 1 de 0

Source: Polícias, ladrões e ministros – João Paulo Batalha – SÁBADO

A FALÁCIA DA TÁTICA DE OPOR ESPIRITUALIDADE A RELIGIÃO

Views: 8

A FALÁCIA DA TÁTICA DE OPOR ESPIRITUALIDADE A RELIGIÃO

 

Vivemos um tempo em que se tornou quase um sinal de distinção afirmar que se é espiritual, mas não religioso. A frase, repetida até à exaustão, parece oferecer uma síntese elegante da sensibilidade contemporânea. A espiritualidade surge como experiência livre e autêntica e a religião, como sinónimo de instituição, norma e poder. Esta oposição, porém, mais do que descrever a realidade, revela uma construção ideológica que empobrece ambas e revela segundas intenções.

É verdade que a dimensão espiritual não depende necessariamente da pertença a uma religião (e além disso também dentro da religião há diferentes nuances de espiritualidade). Muitos experimentam transcendência na natureza, na arte ou no amor, sem se identificarem com qualquer tradição. Contudo, reconhecer esta evidência não implica transformar espiritualidade e religião em conceitos rivais.

A cultura contemporânea favorece uma espiritualidade à la carte, moldada segundo preferências individuais, como se o indivíduo pudesse construir sozinho todo o sentido da sua existência. O ser humano, porém, nunca existe isoladamente. Somos constituídos pelo Eu, pelo Tu e pelo Nós. A nossa identidade nasce do encontro e amadurece na pertença. Nenhuma comunidade perdura sem instituições vivas que lhe deem continuidade, memória e estabilidade.

Apresentar a espiritualidade como algo exclusivamente inato e independente de qualquer aprendizagem constitui uma simplificação antropológica errónea. A disposição para a transcendência pode ser constitutiva, mas toda a potencialidade necessita de desenvolvimento. Também a linguagem é inata, mas ninguém nasce a falar; aprende-se no diálogo. O mesmo acontece com a espiritualidade: cresce através da educação, da cultura, da reflexão e, para muitos, da vida religiosa. Facto é que o inato e o adquirido completam-se.

As grandes tradições religiosas representam este património acumulado de sabedoria. Os seus símbolos, ritos e narrativas não são convenções exteriores porque constituem linguagens que ajudaram milhões a interpretar a existência, a enfrentar o sofrimento e a abrir-se ao mistério. Sem estas mediações, a experiência espiritual corre o risco de perder profundidade histórica e ficar prisioneira do instante; sem as instituições já teriam desaparecido.

A antiga máxima latina, “haec oportuit facere et illa non omittere”, exprime este equilíbrio. Não se trata de escolher entre espiritualidade e religião, mas de reconhecer que ambas se enriquecem mutuamente. A espiritualidade oferece à religião a vivência mística interior que impede o formalismo e, por seu lado, a religião oferece à espiritualidade uma memória viva, uma ética e uma comunidade que a preservam do subjetivismo absoluto.

É importante resistir à tentação das falsas alternativas ao serviço de segundas intenões para criarem um mundo caótico favorável ao relativismo que tudo justifica, como se observa no wokismo. Espiritualidade e religião não são inimigas naturais, como pretendem os seus predadores. Quando permanecem unidas, uma alimenta a interioridade e a outra preserva a comunhão e a responsabilidade ética. Separadas artificialmente, ambas empobrecem, pois a espiritualidade dissolve-se num individualismo sem raízes, e a religião degenera num formalismo sem alma.

Ultrapassar esta oposição é reconhecer que o ser humano vive sempre entre a mesmidade e a alteridade, entre a liberdade pessoal e a pertença comunitária. É nessa tensão fecunda que amadurece uma espiritualidade verdadeiramente humana que se torna suficientemente livre para procurar a verdade e suficientemente humilde para reconhecer que ninguém percorre sozinho o caminho do mistério.

António da Cunha Duarte Justo

Texto completo em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11168

 

 

BRUXELAS EMPENHADA EM REDUZIR A CULTURA EUROPEIA A INSTRUMENTO DE GUERRA

 

A ameaça pairou sobre os canais de Veneza como uma névoa salobra, indiferente à beleza dos palácios e ao murmúrio das gôndolas remadas. Dois milhões de euros, ninharia para os cofres opulentos de Bruxelas, mas cifra vital para a alma de uma Bienal que sempre se quis universal, ficaram suspensos por um capricho geopolítico. A senhora comissária, Henna Virknen, brande o seu telemóvel como outrora se brandia uma espada, anunciando na efémera praça digital que a cultura deve pagar o preço da desobediência. Eis o primeiro sintoma da bílis de que fala o povo: a razão turva-se quando o poder resolve vestir a farda do moralismo.

Ora, independentemente do xadrez económico e político que se joga na Ucrânia, essa pobre terra transformada em cavalo de Troia dos grandes estrategas globais, uma coisa se nos afigura cristalina. A Europa, velha de séculos mas surpreendentemente imatura na sua gerontocracia, julga rejuvenescer apostando apenas nas suas qualidades guerreiras. É um equívoco trágico e profundamente irónico: um continente que inventou a universidade, a sinfonia e a declaração dos direitos do homem reduz-se agora à retórica do bombardeiro e ao gesto do diplomata que só conhece a provocação como forma de diálogo. O poder, nessa Bruxelas asfixiante, parece ter esquecido todas as línguas, excepto a do dinheiro e a da sanção. Impõem-se “valores subversivos” contra “valores sagrados”, mas ninguém se dá ao trabalho de definir quais são uns e outros, porque, neste conflito surdo contra o povo europeu e contra o povo russo, parece reger o argumento cínico do tudo vale.

Escutemos, com atenção, os hinos do fanatismo contemporâneo. Lá longe, do outro lado do Atlântico, ouvimos o eco gutural de “América acima de tudo”. Aqui, no velho continente, respondemos com o timbre melífluo, mas igualmente vazio de “Valores democráticos da Europa acima de tudo”. É a mesma moeda, cunhada em lados diferentes, servindo o mesmo espírito do globalismo que sopra das torres de marfim financeiras para as planícies do sofrimento real. Cada vez se tem mais a impressão, e o senso comum, esse bem raro, teima em confirmá-lo, de que a grandeza das potências tem como condição necessária a humilhação metódica do cidadão comum. A dissidência, nessa Europa embriagada de si mesma, é simplesmente pensar de forma diferente; a heresia, hoje, é querer a paz sem submeter a alma ao dogma.

É preciso, pois, que o povo desperte. Não o povo abstracto dos discursos oficiais, mas a carne e o osso que pagam impostos e criam os filhos. Bruxelas estende-se como um polvo de braços tecnocráticos, avassalando até os sagrados espaços da cultura, transformando a arte num campo de batalha rasteiro. A Bienal de Veneza, que devia ser um oásis de contemplação, arrisca-se a tornar-se um museu da censura. E esta é a maior tragédia: quando os burocratas se arrogam o direito de definir o que é ou não “democrático” na paleta de um pintor ou na música de um compositor, estamos a trocar a utopia pela polícia.

O humanismo, esse velho amigo esquecido, dita que a cultura não é instrumento de guerra, mas trégua. A cultura não é arma de arremesso, mas ponte. Se a Europa quer verdadeiramente rejuvenescer, que olhe para os seus filhos, não para os seus generais; que se inspire nos seus filósofos e teólogos, não nos seus comissários. Que guarde o cinismo para a política, que é, afinal, a sua matéria-prima e a generosidade para a arte. Caso contrário, a Bienal de Veneza não será a única a afogar-se nas suas águas turvas; afogar-se-á a própria ideia de Europa, vítima da sua própria bílis, sufocada pelo polvo que criou para a defender.

E quando isso acontecer, não digam que o povo não avisou.

António da Cunha Duarte Justo

Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11163

 

O NEGÓCIO DO ROSTO

Leviandade, a dos que gritam «é livre»
quando o punho do clã lhe cerra a nuca.
Leviandade, a dos que bramam «é estrangeira»
quando o que odeiam é a fêmea em si.

Ambos a usam como bandeira de conveniência,
nenhum lhe pergunta se o véu pesa mais
que o peso da alma que lhe calaram.

Ela é o negócio da religião,
a moeda de troca entre o céu e a terra,
a prova de que o homem é senhor
quando a mulher é só silêncio andante.

Não conseguem ver?
A pressão é mais fina que a seda,
entranha-se-lhe nos ossos
como prece íntima:

«Cobre-te,
que a tua face é pecado;
descobre-te,
que a tua face é escândalo;
sê nenhuma (ninguém),
que assim serás de todos.»

Mas quem defenderá o direito
de ela ser
a autora do seu próprio eclipse
ou da sua própria aurora?

Quem lhe devolverá a tinta do rosto
para que ela pinte o dia
conforme o seu próprio gosto?

Ah, deixai-a rasgar a cortina do templo,
não para ofender deuses,
porque esses são mudos,
mas para que a mulher, enfim,
seja perigo apenas pela sua inteligência,
e não pela covardia do homem
que a esconde.

Que a praça a receba
como rio que ela é:
sem margens,
sem dono,
sem burca.

António da Cunha Duarte Justo
Pegadas do Tempo©: https://antonio-justo.eu/?p=11154

 

Palavras de lótus #14 Palavras de Lotus Dora Gago e Anabela Freitas – Rádio Freguesia de Belém

Views: 3

Palavras de Lótus, um programa do Centro Científico e Cultural de Macau apresentado por Ana Cristina Alves

Source: Palavras de lótus #14 Palavras de Lotus Dora Gago e Anabela Freitas – Rádio Freguesia de Belém

“BE acabou”. 60 militantes de saída (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares) – Notícias ao Minuto

Views: 5

Um grupo de 60 bloquistas, entre os quais o histórico da UDP Mário Tomé e o ex-deputado Pedro Soares, anunciaram hoje a saída do BE por considerarem que o seu partido acabou e criticando o rumo dos últimos anos.

Source: “BE acabou”. 60 militantes de saída (incluindo Mário Tomé e Pedro Soares) – Notícias ao Minuto

Volkswagen admite ser necessário despedir até 100 mil trabalhadores – ZAP Notícias

Views: 4

A quebra dos lucros, a forte concorrência na China e a pressão para tornar as fábricas alemãs mais eficientes estão a empurrar a Volkswagen para uma reestruturação mais profunda, que poderá incluir novos cortes de emprego e o encerramento de unidades. A Volkswagen poderá ter de eliminar mais cerca de 50.000 postos de trabalho para alcançar o nível de competitividade dos seus rivais, afirmou o presidente executivo do grupo numa comunicação interna aos trabalhadores, confirmando, pela primeira vez, que a fabricante automóvel pondera reduzir até 100.000 empregos no total. Oliver Blume está a tentar tornar mais eficiente o maior grupo

Source: Volkswagen admite ser necessário despedir até 100 mil trabalhadores – ZAP Notícias

este ministro não é fresco?Jornalista acusa filho do ministro Luís Neves de intimidação – Política – Correio da Manhã

Views: 9

Felícia Cabrita acusa filho de Luís Neves de a ter ‘encostado’ com o carro quando ela circulava numa estrada em Odemira.

Source: Jornalista acusa filho do ministro Luís Neves de intimidação – Política – Correio da Manhã

‘You’ve got no choice’: The $1,475 fee leaving some in Australia feeling ‘captive’ | SBS News

Views: 13

A steep visa hike has turned the right to travel — and return home — into a costly obligation.

Source: ‘You’ve got no choice’: The $1,475 fee leaving some in Australia feeling ‘captive’ | SBS News

curiosidades do Egito

Views: 7

You probably didn’t know about these facts:

1. In Ancient Egypt, both men and women used makeup.

They believed that makeup had healing powers.

2. Children in Ancient Egypt did not wear clothes until they were teenagers.

3. The Egyptians believed that the Earth was flat, circular, and that the Nile River ran right down the middle.

4. During mummification, the brain was extracted through the nostrils.

5. The only organ left in the body after mummification was the heart, as it was believed to contain the spirit.

6. Toilets were found in several ancient tombs.

7. The oldest dress in the world was found in Egypt and is estimated to be about 5,000 years old.

8. Cleopatra, the last pharaoh of Egypt, was actually Greek.

9. The Ancient Egyptians shaved their eyebrows to mourn the deaths of their cats.

10. They slept on pillows made of stone (only for the dead).

3 comments from

Alan Swindells

and more

Obras permitem ‘rasgar’ contratos antigos de idosos e incapazes – Política – Correio da Manhã

Views: 7

Quem tem mais de 65 anos ou incapacidade superior a 60% terá de sair, mas o seu realojamento tem de ser garantido. Nos restantes casos, o pagamento de indemnização é suficiente para o despejo.

Source: Obras permitem ‘rasgar’ contratos antigos de idosos e incapazes – Política – Correio da Manhã

queremos outra bandeira sem a cruz

Views: 10

No photo description available.

Discurso viral suscita debate sobre a bandeira nacional da Inglaterra

Um discurso do estudioso islâmico Sheikh Asrar Rashid, residente em Birmingham, tornou-se viral, reacendendo as discussões sobre identidade nacional, religião e liberdade de expressão no Reino Unido.

No vídeo amplamente partilhado, Rashid criticou a bandeira da Inglaterra, a Cruz de São Jorge, afirmando que preferiria que a bandeira fosse um desenho branco simples, com apenas a palavra «Inglaterra» inscrita. Argumentou que a cruz tem ligações históricas às Cruzadas, o que alguns muçulmanos consideram censurável.

Durante o discurso, afirmou ainda: «Este é o nosso país, estamos aqui para ficar. Não vamos a lado nenhum», referindo-se ao lugar dos muçulmanos britânicos na sociedade britânica moderna.

Os comentários espalharam-se rapidamente pelas redes sociais, suscitando reações fortes de diferentes lados. Os apoiantes descreveram as observações como uma expressão de opinião pessoal sobre simbolismo histórico e identidade religiosa. Os críticos argumentaram que o discurso apelava à alteração de um dos símbolos nacionais e cristãos mais conhecidos da Inglaterra.

O debate surge no contexto de discussões mais amplas no Reino Unido sobre identidade nacional, imigração, integração e o papel dos símbolos religiosos e culturais na vida pública.

Atualmente, não existe qualquer proposta oficial nem plano governamental para alterar a bandeira nacional da Inglaterra. A discussão continua a fazer parte de um debate público mais amplo, em vez de constituir uma iniciativa política formal.

Qual é a sua opinião? Os símbolos nacionais históricos devem permanecer inalterados, ou é razoável questionar o seu significado na sociedade moderna?

O curioso caso dos Portugueses que desaparecem da História.

Views: 12

O curioso caso dos Portugueses que desaparecem da História.

É fascinante como o “branding” histórico funciona:

Quando um inglês inventa a máquina a vapor, é Inglês.

Quando um francês escreve sobre a liberdade, é Francês.

Mas quando um navegador português mapeia o mundo inteiro, é apenas um genérico “Europeu”.

Está na hora de acabar com esta versão “troféu de participação” da História e apontar o dedo ao crédito que nos foi roubado:

  • Austrália: Os livros dizem que o Capitão Cook a “descobriu” em 1770. Mentira. Os Mapas de Dieppe já mostravam a costa australiana com nomes portugueses 200 anos antes. Cook chegou atrasado a uma festa que Portugal já tinha mapeado.
  • O Nilo: A história oficial dá o crédito ao escocês James Bruce em 1770. Errado. O jesuíta Pedro Páez chegou à nascente do Nilo Azul em 1618, 152 anos antes. Bruce sabia disto e tentou apagar Páez dos registos. Páez nasceu em Castela, mas formou-se em Goa, partiu sob a Coroa portuguesa e operou inteiramente dentro da estrutura imperial portuguesa. O berço não apaga o enquadramento institucional.
  • Canadá: Celebram Cartier, mas esquecem os irmãos Corte-Real. Sabem por que se chama Labrador? Porque foi mapeado e notificado por João Fernandes Lavrador, um navegador português. O nome dele ficou gravado na geografia, embora muitos tenham esquecido o homem.
  • Afonso de Albuquerque: Conquistou Ormuz, Goa e Malaca entre 1507 e 1511, controlando os três nós estratégicos do comércio global numa década. Redefiniu o equilíbrio de poder no Índico por um século. Se fosse inglês, haveria estátuas em cada capital do mundo e trilogias de filmes. É ensinado, quando é, como uma nota de rodapé.
  • Garcia de Orta: Em 1563, publicou em Goa o primeiro tratado científico europeu sobre medicina tropical e botânica asiática, décadas antes de qualquer equivalente inglês, francês ou holandês. A farmacologia moderna tem raízes directas no seu trabalho. Quase ninguém fora de Portugal conhece o nome.
  • Tibete: O primeiro europeu a cruzar os Himalaias e a provar que a China e o Cataio eram o mesmo lugar foi Bento de Góis em 1602.
  • Batalhas “à Hollywood”: Se a Batalha de Diu (1509) fosse americana, havia uma trilogia de filmes. Uma frota portuguesa minúscula aniquilou uma coligação de Otomanos, Egípcios e reis locais, garantindo o controlo do Índico por um século.

Isto só para enumerar uns poucos exemplos…

*O mundo em 1565, segundo Lopo Homem. Reparem na toponímia e nas bandeiras: não é um mapa “europeu”, é um mapa português. Do Labrador à Austrália (Java la Grande), a ciência náutica falava a nossa língua enquanto os outros ainda não tinham saído da costa*

Nota: esta é uma ilustração moderna baseada na cartografia portuguesa do século XVI, não um fac‑símile original.