Ao descer o alto da Terra Alta, pelo lado norte, a Montanha despontou, ao longe, vestida de cinzento escuro, acompanhando a tristeza da despedida.
Se lá houvesse cuidados de saúde satisfatórios ficaria mais algum tempo. Mas, com a chegada do inverno, é mais prudente regressar a São Miguel porque os recursos são maiores, caso haja situações adversas imprevistas, que nunca se deseja.
É óbvio que todos temos um fim em data desconhecida, mas é minha convicção de que lutar pela saúde e pelo bem-estar é um desígnio que deve obrigar todos, individual e coletivamente, a tudo fazermos para viver dignamente.
Este é um tema de referência frequente a quem vive na Ilha do Pico.
Na memória de muita gente que vive mais longe da Fronteira com o Faial, ainda está presente a promessa feita pelos governantes da época, aquando da abertura do novo Centro de Saúde de São Roque do Pico, em 1996. Anunciou-se, em vão, que seria uma unidade com as valências de Maternidade, consultas de especialidade e equipamentos básicos de análise e diagnóstico para impedir deslocações ao Hospital da Horta. Foi por isso dotado de equipamentos destinados à Telemedicina, o que beneficiaria muito os serviços prestados à população picoense.
O certo é que a Telemedicina de que tanto se esperava nunca funcionou. Os equipamentos foram-se deteriorando dentro dos caixotes e ninguém questionou nem se responsabilizou pelo fracasso do prometido serviço.
Com a abertura do Novo Centro de Saúde da Madalena decidiu-se alterar a gestão dos equipamentos existentes nos três Centros de Saúde e concentrar-se o internamento e o serviço de análises no novo edifício. Desde então os outros dois Centros perderam valências e passaram a oferecer, após protestos da população, muito precários serviços de urgência. De tal forma que muitos utentes daqueles concelhos, cientes da deficiente resposta em casos mais graves, dirigem-se diretamente ao CS da Madalena, sobrecarregando o serviço.
Por falta de verbas, a USIP impede muitos picoenses de, em tempo útil, acederem a exames de ecografia. Em agosto último, mais de um milhar de picoenses aguardava autorização para efetuar aquele exame no único laboratório privado sediado em São Roque.
A situação é de tal forma inusitada que, segundo fonte da USIP, os doentes internados no CS da Madalena têm de deslocar-se, via marítima, ao Hospital da Horta para efetuar aquele exame. Não admira, pois, que especialistas de Medicina Geral e Familiar pensem maduramente em concorrer às três vagas abertas pela USIP.
A falta de credibilidade dos serviços de saúde na Ilha do Pico é um lamento constante a que se associa, protestos e desconfianças sempre que alguém é obrigado a deslocar-se ao Hospital da Horta (HH) para cuidados diferenciados, por mais simples que sejam. Ouve-se relatos de casos mal sucedidos em determinadas especialidades, que deviam obrigar as autoridades a inquirirem da qualidade desses atos médicos. Individualmente, os doentes muito raramente reclamam por não conseguirem obter uma segunda opinião. Só quando se deslocam fora é que são elucidados por outros clínicos do mal que lhes foi feito.
Muitos utentes, devido à idade e à gravidade da doença, aceitam o infortúnio. Ou porque temem represálias, ou porque não sabem como recorrer a quem de direito.
Até 2023, o Serviço Regional de Estatística dos Açores, publicou, anualmente, o número de profissionais e respetivos atos médicos por especialidades, efetuados nos Hospitais e Centros de Saúde. Desde essa data, há um silenciamento quase total, limitado apenas ao número de consultas presenciais e teleconsultas o que é manifestamente redutor, pois dificulta a análise da situação e das respostas que deviam ser implementadas.
Há, todavia, uma amostra diária comprovada pelo elevado número de utentes que têm de deslocar-se ao HH. Só isso, bastaria para alterar a organização dos serviços de saúde nas Ilhas Pico-Faial, se o governo fosse coerente com a condenação do centralismo insular.
A par de tudo isto, também há quem defenda que o Hospital da Horta não se justifica dado servir uma população demasiado reduzida – menos de 35 mil pessoas. Esta opinião foi-me expressa por um cardiologista do HDES e julgo que terá seguidores na classe médica, dada a dificuldade de encontrar clínicos para pequenos hospitais e unidades de saúde.
Muitos picoenses, cientes da qualidade do serviços prestados em algumas especialidades pelo HH, decidem deslocar-se ao continente ou a São Miguel. As despesas são idênticas – dizem – e as respostas, substancialmente melhores.
Perante este cenário, há uma parte significativa da população do concelho das Lajes que defende ser um erro construir um novo Centro de Saúde. A oferta de serviços será precária e não garantirá, se a situação atual se mantiver, a credibilidade e confiança necessárias à população. Esses cidadãos propõem que se gaste o dinheiro em equipamentos mais reprodutivos, que fixem jovens e migrantes e se melhore os cuidados à população idosa.
Ainda recentemente foi anunciado o processo de construção do futuro Centro de Saúde da Ribeira Grande, concelho com população jovem que, juntamente com o concelho do Nordeste ronda as 40 mil pessoas.
As valências previstas são semelhantes às do CS da Madalena o que não beneficia os utentes do lado norte da Ilha de São Miguel. Exigia-se que houvesse coragem para descentralizar do HDES a prestação de cuidados diferenciados, mas optou-se, por falta de coragem em contrariar o poderoso “status quo”, em deixar tudo como está (mal!) e não reformar o Serviço Regional de Saúde.
A saúde é um bem precioso com implicações pessoais, familiares, sociais e económicas. Limitar as políticas de saúde à construção de novas instalações sem melhorar e reformar os cuidados prestados é manter tudo na mesma.
O tema merece uma séria, profunda e aberta reflexão com os diversos agentes sociais e a população em geral, para que, também neste setor, o bem-estar chegue a todos, em todas as ilhas.