interpretar a bíblia

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A Bíblia dos cristãos: uma ementa de escolhas difíceis
Um aspecto que nunca deixa de surpreender quem conheça minimamente a Bíblia é como o cristianismo desde há séculos se baseia numa sobrevalorização de certas passagens da Bíblia – tidas, pelas igrejas, como a verdade absoluta de Deus – e numa desvalorização total de outras passagens tidas, pelas mesmas igrejas, como inconvenientes e, consequentemente, votadas ao “delete”.
Um desafio inicial que se colocou ao cristianismo foi decidir o que aproveitar das complexas e labirínticas normas e obrigações expressas na Lei judaica. Seria possível deitar aquilo tudo para o lixo e começar do zero?
Convenientemente, o apóstolo Paulo deixou escrito que a Lei judaica valeu até Cristo (Gálatas 3:24) e que Cristo representa o fim da Lei (Romanos 10:4). No entanto, a grande finalidade prática desta insistência por parte de Paulo era provar que, não obstante a sua exigência incontornável por parte de Deus (Génesis 17:10), os homens cristãos não estavam obrigados a submeter-se à circuncisão.
Porém: escritos posteriores a Paulo – desde logo o Evangelho de Mateus – vieram baralhar este quadro. No capítulo 5 do seu Evangelho, Mateus atribui a Jesus a declaração de que não veio para abolir a Lei judaica, mas sim para a cumprir: e que não há pormenor da Lei, por mais ínfimo que seja, susceptível de desvalorização (Mateus 5:18).
Assim, para um estudioso da história do cristianismo é concebível que, se perguntássemos ao Jesus de Mateus se ele exigia a circuncisão, ele teria respondido “sim”. Se fizéssemos, contudo, a mesma pergunta ao Jesus dos outros Evangelhos (não só de Marcos, Lucas e João, mas também do apócrifo Tomé), ele teria dito redondamente “não”. No que ficamos? É complicado.
O emaranhado de preceitos e de regras no livro de Levítico foi sempre um piso escorregadio para cristãos que querem viver e impor valores bíblicos – mas selectivamente. Arrumada a questão da circuncisão, o clero cristão dos primeiros séculos deu-se conta de que, apesar de tudo, alguma coisa se podia aproveitar deste livro do Antigo Testamento.
Antes de mais, a obrigatoriedade do pagamento do dízimo (Levítico 27:30-34), sustento milenar das igrejas. A condenação à morte dos homossexuais (Levítico 20:13) também foi aproveitada e incorporada no primeiro grande código legislativo cristão, instituído no tempo do imperador Justiniano (século VI). A pena de morte como castigo da homossexualidade só saiu das legislações europeias no século XIX graças a um demónio iconoclasta chamado Napoleão. É claro, pois, que a homossexualidade atenta contra os valores judaico-cristãos! Está na Bíblia!
Mas há outras coisas que andamos todos a fazer mal, além do casamento gay. Desaconselho vivamente todo o cristão a comer qualquer prato tradicional da cozinha portuguesa, desde cozido à portuguesa a tripas à moda do Porto. Porquê? Estes pratos contêm algo que a Bíblia nos proíbe de comer: gordura (Levítico 3:17). Já agora, no catolicíssimo Minho com as suas papas de sarrabulho, seria bom que lessem o mesmo versículo citado. Quem gosta de caracóis também fique sabendo que não os pode comer (Levítico 11:28-29). Quanto ao porco, deve ser das proibições bíblicas que toda a gente conhece (Levítico 11:7-8), mas a que nenhum cristão liga qualquer importância. Também ninguém invoca valores judaico-cristãos para evitar entrar numa marisqueira, com base na proibição bíblica de comer mariscos (Levítico 11:10-12). Faisão também é proibido (Levítico 11:19), mas nenhum cristão que eu conheça se recusa a comê-lo.
Dir-me-ão que estou a dar exemplos da Lei judaica – o que interessa a um cristão se um judeu não pode comer chouriço? Problema dele.
Mas o problema não é tão simples: afinal a Lei judaica é ou não vinculativa para cristãos? Sim (Mateus)? Ou não (Paulo)? Porque é que, deste mesmo Levítico que tenho estado a citar, é vinculativa a obrigatoriedade do dízimo e a condenação da homossexualidade – mas não são vinculativas as outras coisas?
Nos primeiros séculos do cristianismo, houve denominações (rotuladas de heréticas pela ortodoxia católica) que consideravam obrigatória a circuncisão: por exemplo, ebionitas e maniqueístas. No caso dos maniqueístas o assunto é especialmente curioso, porque eles rejeitaram TUDO do Antigo Testamento, a não ser a obrigatoriedade da circuncisão: foi a única regra judaica que os maniqueístas não se atreveram a repudiar.
Outras seitas consideravam que as proibições alimentares da Lei judaica significavam no fundo a proibição de comer carne e peixe – e por isso preconizavam o vegetarianismo.
Era difícil – e ainda é – fazer uma leitura coerente desta questão.
Volto ao mesmo: a lei judaica é válida para cristãos? Se eu perguntar a um amigo católico se ele acha que quem apanhar lenha ao sábado deve ser apedrejado até à morte (Números 15:35), ele vai responder-me “estás parvo?” Mas se eu lhe perguntar se ele acha que há incompatibilidade entre valores judaico-cristãos e homossexualidade, ele tem sustento para dizer: “Frederico, tenho tanta pena.”
O livro do Antigo Testamento em que claramente a homossexualidade é apresentada como situação contrária à Lei judaica e consequentemente merecedora da condenação à morte é o livro de Levítico (20:13). Isto porque modernos estudiosos da Bíblia já não interpretam o episódio de Sodoma e Gomorra como condenação da homossexualidade, tal como o profeta Ezequiel (16:49) o não fizera.
O gigantesco Antigo Testamento, com as suas mais de 600 000 palavras no original hebraico, contém apenas dois versículos a condenar a homossexualidade.
Por suprema ironia do destino, quem no NOVO Testamento condena a homossexualidade não é nenhum dos evangelistas, nem Jesus pela pena dos evangelistas, mas sim Paulo – justamente o apóstolo que proclamou a obsolescência da Lei judaica! (Mas só para o que lhe convinha.)
(na imagem: Paulo a ler a Bíblia, por Guercino)
Shusan Liurai, Rosa Horta Carrascalao and 2 others
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  • Shusan Liurai

    E ainda algo que li recentemente mas que não tenho conhecimento para avaliar a veracidade: o Antigo Testamento está em hebraico antigo. Todas as palavras têm múltiplos significados (e está cheia de recursos estilísticos e interpretações cabalísticas com base no número de letras, palavras por linha, passíveis de interpretações múltiplas).Por exemplo, o Isaac a ser morto por Abrão poderia não ser o filho do patriarca mas sim o seu sorriso e a alegria de viver. Também a palavra que se associa à homossexualidade (aqui falo mesmo “de cor”) referia-se mais à pedofilia do que à homossexualidade. Por isso há sinagogas de corrente humanista que aceitam casamentos homossexuais.
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  • Shusan Liurai

    Também li algures que a oração primordial dos cristãos deveria ser a dos judeus, a “Shema Israel” (ouve Israel) e estará algures indicado num dos Evangelhos do Novo Testamento. Não sei por que mudou para o Pai Nosso (assim como não percebo por que o dia de descanso passou de Sábado para Domingo, embora desconfie que tenha sido por decreto e não com base bíblica. Afinal, Jesus era um judeu praticante, a Última Ceia foi na verdade o jantar do início da Páscoa Judaica em que se come pão ázimo e até fez o seu Bar Mitzvá ao apresentar-se na sinagoga no início da adolescência).
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  • Filipe Martins

    Dos comentários ao artigo (que vai redundar sempre na questão da homossexualidade, não sei bem porquê), há a destacar estes dois:
    “O modo como é apresentada a relação entre cristianismo e lei judaica é um pouco rudimentar. Quando Jesus afirma que não veio acabar com a Lei, diz também que veio dar lhe vida. É o sentido da letra mais pequena do alfabeto hebraico. Jesus manifestamente não é um observante do Levitico. Insiste que não há alimentos impuros, cura doentes aos sábados e é acusado de não obrigar os seus discipulos a praticarem as abluçoes tradicionais antes das refeições. O Concilio de Jerusalém estabelece, num compromisso entre Paulo e Tiago/Pedro as prescrições judaicas que devem subsistir.”
    e
    “Caro Prof. Frederico Lourenço, muito obrigado pelo seu trabalho e publicações académicas, pela Bíblia LXX em pt, e textos de divulgação geral nas redes sociais. No entanto, o risco em posts pequenos é o de uma simplificação radical. Considerar que o Jesus de Mateus diria um “Sim” a lei judaica é passar de largo que o termo πληρῶσαι que aparece em Mt 5:18 não significa principalmente “cumprir”, mas “levar à plenitude”. E que todos os versículos que se seguem nesse discurso de Jesus em Mateus polemizam com a aplicação radical da Lei que os escribas (τῶν γραμματέων, gramáticos, no grego, pun intended 😅) e fariseus” (v.20) utilizavam. Além disso, em todo o evangelho de Mateus, Jesus é colocado não só em paralelo, mas em lugar superior a Moisés. A expressão “ouvistes que foi dito aos antigos… eu, porém, digo-vos” (repetida em Mt 5) é interpretada por Jacob Neusner, talvez o maior académico judeu do séc. XX, como o grande ponto de quebra entre judeus e cristãos. *** Outro breve comentário tem a ver com a sua expressão “o clero cristão dos primeiros séculos deu-se conta…”, que reduz a enorme diversidade de teólogos dos primeiros séculos, tao influentes como Tertuliano, Orígenes, ou Justino, para citar apenas alguns. *** E, na verdade, as Igrejas (suponho que quando diz Ortodoxia católica é mais uma simplificação) lutaram mais pela preservação do património do Antigo Testamento do que está a sugerir. Certamente apenas por lapso esqueceu referir a heresia marcionita que desprezava o Antigo Testamento como não sendo o do Deus Pai de Jesus… *** Um último comentário é sobre a questão da homossexualidade, que parece sugerir ser um tema espinhoso apenas na Igreja católica, e não na sociedade civil, e até na comunidade científica que continua um cego debate nature-nurture e que não acaba de providenciar argumentos científicos claros que ajudem a um estudo mais sério e respeitoso das questões. Como diz no seu post: “em que ficamos? É complicado”. *** Já agora, bem-haja pela versão dos evangelhos apócrifos que ainda não pude manusear. Só penso que também seria equilibrado reconhecer que, sendo a grande maioria, textos muito tardios em relação aos evangelhos canónicos, seria justo apresentá-los duma forma em que os seus gostos pessoais pesam menos na consideração da autoridade dos mesmos. Pessoalmente considero o de Tomé uma pequena jóia, se bem que, como género literário, nem é um evangelho, mas uma colecção de logia. Alguns, aliás, muito importantes para a critica textual dos sinópticos e João. E vários certamente autênticos. Partilho o meu preferido: “Jesus disse: sede forasteiros” (EvT 42). Como é que traduziu este versículo? Desculpe este longo comentário, bem-haja pelo seu trabalho e publicações!”
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today’s cocktail

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Cointreau Fizz = Cointreau + Raspberries + Perrier Water
Serve.

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1.11.1755 nos açores

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*** TERRAMOTO DE 1 DE NOVEMBRO DE 1755 ***
Às 10 horas da manhã desse dia de luto para a cidade de Lisboa, todas as ilhas Açorianas sofreram consequências dessa grande catástrofe. Todas foram atingidas por formidáveis enchentes de mar que invadiram a terra, subindo a grandes alturas.
Na ilha de São Miguel o mar subiu pelas ruas de Ponta Delgada, estragando muitos edifícios.
Na do Faial a enchente atingiu os moinhos de água da ribeira da Conceição, cobrindo-os numa altura de oito palmos, vazando tanto a baía que os navios quase tocavam com as quilhas no fundo.
Na ilha Terceira entrou pela terra, lançando muito peixe de várias qualidades, em Angra, o que deu nome à rua da «Garoupinha».
Na freguesia do Porto Judeu subiu a água à altura de dez palmos sobre a rocha mais elevada. Na cidade atingiu a Praça Velha, ficando, na baía, os navios em seco, por se afastarem dali as águas que, no seu recuo, levaram as muralhas da alfandega.
Na Vila da Praia, desde o seu porto, perto do paúl, até o lugar da Ribeira Seca, extramuros da vila, penetraram as águas de forma que demoliram quinze casas, derrubaram paredes, mataram sete pessoas.
Dissemos, numa conferência sobre a Vila da Praia que, as sete pessoas mortas, simbolizavam as sete letras da palavra «pêsames» que a vila enviava em amplo cartão, branco como as espumas do mar, impresso a sangue das vítimas desse dia de luto.
Tão intimamente ligávamos nosso destino ao da mãe pátria em todos os tempos e por todas as formas.
As ilhas partilharam na dor e no luto.
In Gervásio Lima, Breviário Açoreano, p. 329, Angra do Heroísmo, Tip. Editora
Pode ser uma imagem de monumento
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  • Guilherme Melo

    O livro do tombo do Porto Judeu depositado no Arquivo Regional Luís da Silva Ribeiro contém um relato do que aconteceu!

polícia em hong kong contesta fantasia de halloween

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Em Hong Kong a polícia não ficou contente com esta fantasia de foguetão do Jeff Bezos #halloween2022
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era uma vez um hotel em ruínas

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Pierre Sousa Lima

O grupo chinês que anunciou a construção de um novo hotel de 5 estrelas nas ruinas do Monte Palace deixou caducar todos os prazos para o licenciamento das obras.
Atrasado hotel na Vista do Rei (Som) - Economia - RTP Açores - RTP
RTP.PT
Atrasado hotel na Vista do Rei (Som) – Economia – RTP Açores – RTP
grupo chinês que anunciou a construção de

novo livro j p porto

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Novo livro em muito boa companhia numa belíssima colecção (N9na Poesia) inatacavelmente curada pelo poeta e romancista Henrique Levy. Já aqui no convite anuncio a presença de quem o prefaciou, Ângela de Almeida, para quem também guardo uma amizade e uma admiração imensuráveis.
O livro é uma poesia reunida em capa dura, com um índice de doze páginas onde se inscrevem algumas centenas de poemas que fui colhendo pelos anos – onze anos de escritas feitos ao dia onze do mês onze. Convido-vos para essa dupla celebração. Até dia 11.11.
Pode ser uma imagem de texto que diz "JOÃO PEDRO PORTO MONSTROS COMO NOS 11 Apresentação de Ângela de Almeida no Auditório da Biblioteca Pública e nov. Arquivo Regional de Ponta Delgada. às 18H00 N NA POESIA BIBLIOTECA ARQUIVO B REGIONA PONTADELGAD"
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António Bulcão escreve sobre o piloto suicida e Putin

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Senhores passageiros…
Às 10,30 do dia 24 de março de 2015, o copiloto Andreas Lubitz, da companhia de aviação Germanwings, atirou deliberadamente o avião que pilotava contra os Alpes franceses.
Na altura falou-se em depressão do rapaz, que teria antecedentes e pensamentos suicidas. Mas, que diabo, podia ter-se matado sozinho. Por que decidiu levar consigo 150 pessoas? Entre as vítimas estavam 16 alunos do ensino secundário, dois professores que os acompanhavam, o baixo-barítono Oleg Bryjak e a contralto Maria Radner.
Pessoas que não cresceriam, não criariam famílias, não en(cantariam) mais ninguém com a sua voz. Essas pessoas, fossem crianças, jovens ou adultos, iam sentadas nos seus bancos, dormitando, lendo livros, ouvindo música, ou simplesmente planeando o que iriam fazer quando ouvissem as palavras mágicas nessa situação, “senhores passageiros, acabámos de aterrar…”.
Os seres lúcidos e descontraídos não imaginam acidentes de aviação. Prendem-se às estatísticas, à máxima de que o avião é o mais seguro meio de transporte, à pequena probabilidade de ser aquele voo concreto a correr mal. Mesmo os seres assustados, como eu, que vai sempre atento a um barulho pouco comum, preparado em todos os músculos tensos para um eventual poço de ar, mesmo este desgraçado vai até falhas de motor, tempestades cumulonimbiescas, pássaros saídos do Jurassic Park a entrar pelos Rolls Royce. Não lhe passa pela cabeça de que quem vai aos comandos vai fazer despenhar o avião.
Todos morremos sozinhos. Mesmo que acompanhados por familiares ou amigos, num momento esperado, o último suspiro é só nosso. O que terá passado pela cabeça de Andreas para matar 150 pessoas? Ter-se-á sentido, na sua perturbação mental, mais acompanhado? Ou será que nem pensou nisso, na obsessão de se libertar de uma vida que já não teria sentido?
Já tive amigos que se suicidaram. Tomaram comprimidos, atiraram-se de penhascos, enforcaram-se. Mas só fizeram mal a eles próprios. Por que quis Andreas fazer diferente? É uma dúvida perturbadora, mesmo para quem leu “O Suicídio” de Durkheim.
Perguntará quem me lê: qual a razão que leva este tipo a escrever sobre isto hoje? Será por publicar na véspera do dia dos mortos? Quer-nos deixar deprimidos?
Nada disso. Apenas me lembrei de Vladimir Putin. Que deixou de cumprir o acordo de exportação de cereais e fertilizantes com a Ucrânia, bloqueando a rota através do Mar Negro. Apelam a ONU e a Turquia, para que a Rússia não impeça os que mais precisam de ter alimento. E ele surdo…
Até onde irá a loucura de Putin? Sabendo-se mortal, quererá ter a certeza de que morrerá, mas não haverá mais mundo depois dele? Será que a probabilidade de apertar um botão que liberte bombas nucleares é tão pequena como a de um piloto de aviação fazer explodir o avião que conduzia? Será que não consegue imaginar vida depois de a dele ter acabado? E, assim, não querer imaginar ninguém a galopar a cavalo em tronco nu, ou a pescar em alto mar, ou a tomar banho no gelo da Sibéria, ou a ser mais rico do que ele?
Não sei até onde irá a perturbação mental deste homem. Como não conseguiria imaginar que houvesse Napoleões ou Hitleres, se no seu tempo tivesse vivido.
Não faço ideia do que está dentro do crânio de alguém que espalha o terror e a morte, a destruição. Não sei até onde poderá ir. Mas sei que vale a pena pensarmos nisto, enquanto estamos vivos. Sobretudo na véspera do dia dos mortos.
“Senhores passageiros, acabámos de levantar voo do aeroporto, com destino a…”.
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)

DO HALLOWEEN A OUTRAS TRADIÇÕES

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DO HALLOWEEN A OUTRAS TRADIÇÕES, 1-22 NOVEMBRO 2008 CRÓNICA 60
12.8.1. DIA DE BOLINHOS OU DIA DE TI BOLINHOS

 

É milenária a origem do dia 1 de novembro, “Dia de Todos os Santos”. Nalgumas aldeias, ainda se comemora de forma curiosa. Na tradição popular, é conhecido pelo “Dia do Bolinho” ou “Pão de Deus” conforme a região. As crianças em pequenos grupos com sacolas de pano, andam de porta em porta, desde manhã cedo, por ruas e vielas, repetindo o “Ó tia! dá bolinho?”. Em meios rurais, há ainda quem leve a rigor a tradição preparando bolinhos com massa, noz, passas e frutos secos.

Para os católicos, 1 de novembro é dia de ida ao cemitério para depositarem flores nas campas dos que já abandonaram as lides terrenas. Dia 2 de novembro é Dia de Finados. Na Irlanda, Reino Unido e França, os celtas comemoravam o ano novo no dia 1 de novembro. Isto representava o fim do verão e o início do outono, a época das colheitas, antecedendo a escura e fria invernia, sinónimo de temporais e morte. Os Druidas consideravam o dia 31 de outubro como Samhain (Senhor da Morte e Príncipe das Trevas) ou Dia das Almas, celebrando a passagem entre a vida e a morte, onde reinava o espírito duma prática fantasmagórica. Com o advento cristão, no século VII, o Papa Bonifácio IV designou o dia 1 como “Dia de Todos os Santos” e a noite de 31 de outubro passou a ser “Noite de Todos os Santos” e assim se alterou uma celebração de cariz profano.

12.8.2. PERÍODO PRÉ-CRISTÃO

Acreditava-se que os espíritos dos mortos voltavam para visitar os familiares em busca de calor e mantimentos, pois o inverno aproximava-se com o reinado do Príncipe das Trevas. Os Druidas invocavam forças sobrenaturais para acalmar os espíritos, que raptavam crianças, destruíam colheitas e matavam os animais. Nessa noite, acendiam-se fogueiras nas colinas para guiar os espíritos ou para espantarem as bruxas. A inclusão de feiticeiras, fadas e duendes nos rituais, resulta da crença pagã de que, na véspera do Dia de Todos os Santos havia espíritos que se opunham aos ritos da igreja, e vinham ridicularizar a celebração de Todos os Santos. Supunha-se que os fantasmas pregavam partidas e causavam acontecimentos sobrenaturais.

12.8.3. PERÍODO CRISTÃO

Com os anos, o Halloween tornou-se alegre e divertido, sem os aspetos tenebrosos da tradição céltica, divulgada na América pelo influxo escocês após 1840. Alguns costumes foram mantidos e outros mudados. As Jack-O-Lanterns eram feitas com nabos e passaram a ser com abóboras, símbolo de origem irlandesa.

12.8.4. JACK-O-LANTERN

A lenda fala de Jack que não conseguiu entrar no céu por ser muito avarento, expulso do inferno por pregar partidas ao diabo. Foi condenado a vagar eternamente pela terra com uma lanterna para iluminar o caminho.

Outra versão conta: um homem bêbedo e agressivo chamado Jack bebeu demais e o Diabo desceu à Terra para levar a alma. Jack, pediu para o deixar viver e beber mais um copo. O Diabo cede, mas Jack não tem dinheiro para pagar e o Diabo transforma-se em moeda na carteira. Só que o fecho tem o formato de uma cruz, fazendo com que o Diabo suplique para sair. Jack, então, propõe libertar o Diabo e ficar vivo por mais um ano. O Diabo concede o pedido, que muda os seus hábitos, passando a ser menos violento com a família.

No ano seguinte, exatamente no dia 31 de outubro, o Diabo volta e reclama a sua alma. Jack convence-o a pegar uma maçã numa árvore próxima e sem que ele perceba, risca uma cruz no tronco com um canivete. O Diabo foge e promete retornar dez anos depois. Mas Jack não aceita e diz que só irá libertá-lo se ele nunca mais aparecer. O Diabo concorda. Mas passa-se um ano e Jack morre. É impedido de entrar no céu, e vai para o inferno, onde a entrada é recusada pelo Diabo, que fica com pena da alma de Jack e oferece-lhe um pedaço de carvão que usa para iluminar um nabo esculpido em forma de lanterna. Ela vai iluminar os caminhos do espírito de Jack. Daí o nome Jack O’Lantern, uma alma errante vagando pelo mundo dos vivos.

12.8.5. “TRICK OR TREAT” (TRAVESSURAS OU GOSTOSURAS)

Tradição originária da Irlanda, as crianças iam de casa em casa pedindo provisões para as comemorações do Halloween, em nome da deusa Muck Olla. Esta tradição ganhou roupas extravagantes, máscaras e todos se vestem carnavalescamente como fantasmas, bruxas, duendes, gnomos, Dráculas, Frankenstein, ou doutras formas aterrorizadoras. Vão batendo de porta em porta, carregando abóboras iluminadas com velas, pedindo doces e dizendo: ” Trick or Treat”. Quem não lhes dá nada recebe uma pequena vingança. O nome de Halloween, adaptado de “All Hallows Eve”, significando véspera de Todos os Santos. As fogueiras eram acesas nas casas durante as comemorações. Os vivos que não queriam ser possuídos apagavam o fogo para que o local parecesse ser frio e indesejado, além de se vestirem com fantasias assustadoras e desfilarem na vizinhança para afugentar os espíritos que vagavam. Conta a lenda que na festa de Samhain, as fogueiras das casas eram acesas a partir das brasas de uma fogueira sagrada. Para levar a brasa, os moradores usavam um nabo como se fosse um lampião. Daí, os irlandeses, passarem a esculpir nabos e beterrabas e usá-los como lanternas quando emigraram para a América, não encontrando nabos e beterrabas, trocaram-nos por abóboras.

 

DIA DE FINADOS. AINDA ESTOU VIVO. DE VOLTA À MINHA INFÂNCIA, CRÓNICA 31, 1 NOVº 2006

 

O dia dos fiéis defuntos, dia dos mortos ou dia de finados é celebrado pela Igreja Católica a 2 de novembro, a seguir ao Dia de Todos-os-Santos. No séc. 1 os cristãos não rezavam pelos mortos, que nunca foi prática da “Igreja Primitiva”. Pelo contrário, líderes como o apóstolo São Paulo orientavam o povo cristão a não se preocupar com a situação dos mortos, como os pagãos faziam (1Ts 4.13).

Os cristãos rezavam pelos falecidos, visitando os túmulos dos mártires. No séc. V, a igreja dedicava um dia para rezar por todos os mortos, pelos quais ninguém rezava e dos quais ninguém lembrava. Também o abade Cluny, santo Odilon, em 998 pedia aos monges que orassem pelos mortos. Desde o séc. XI os papas Silvestre II (1009), João XVII (1009) e Leão IX (1015) obrigam a comunidade a dedicar um dia aos mortos. No séc. XIII passa a ser comemorado em 2 de novembro, porque 1 de novembro é a Festa de Todos os Santos. Na cultura judaico-cristã que nos rodeia, a recordação dos que já morreram assume uma grande importância, quanto mais não seja para pensarmos que outra vida melhor nos espera.

Quem não se deu conta que aspiramos à eternidade e sentimos que essa aspiração se concretiza na memória dos que conviveram com cada um de nós. Há um dia expressamente dedicado a tal, a essa saudade, razão que motiva muitos dos que vivem longe dos locais onde nasceram, a visitá-los uma vez ao ano, e isso é bem mais visível no interior do país, onde, cada vez vive menos gente. O dia de finados é uma evidente expressão da cultura lusófona a que pertencemos e manifesta-se em todos os povos que se exprimem culturalmente em português. Eu tenho para mim que não é preciso haver um dia no calendário, propositadamente colocado a seguir ao Dia de Todos os Santos.

Ora esta data tem ainda algum relevo para uma minoria, e obviamente um dia de Finados em dia de laboração normal não deixa grande margem de manobra para as pessoas irem aos cemitérios, depois de se levantarem cedo, deixarem os filhos na escola, voltarem do trabalho, irem buscar os filhos ao ATL (tempos livres), prepararem o jantar, etc.