Uma República de Garotos

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Uma República de Garotos
António Barreto, Público, 20 de maio de 2023
Pelo carácter atrabiliário e irascibilidade adolescente. Pela palavra gratuita, pela moral que muda, pela crueldade, pela hipocrisia: muitas destas pessoas não deviam ter acesso a postos de comando.
Podemos ter a certeza: neste caso da TAP, dos respectivos antecedentes e das devidas sequelas, há, entre os seus intervenientes, um ou vários malfeitores. O problema consiste em saber se são todos ou só alguns.
Podemos ter outra certeza: há, neste processo, um ou vários mentirosos. Falta saber se são todos ou só alguns.
É ainda certo que há alguém a preparar um roubo, a cometer uma fraude, a obter algo indevidamente, a tentar assassinar politicamente alguém, a liquidar um adversário e a destruir quem sabe segredos. Só não sabemos se é só um, se são vários ou se são todos os intervenientes.
Sabemos também que estão envolvidos titulares de cargos políticos, altos funcionários do Estado e altíssimos responsáveis da Administração Pública, universo este que pode incluir um primeiro-ministro, vários ministros e ex-ministros, diversos secretários de Estado e ex-secretários de Estado, chefes de gabinete, adjuntos, assessores, auditores jurídicos e administradores de empresas públicas. Uma vez mais, não sabemos se todos ou só alguns têm culpas e responsabilidades.
É seguro que algo está em causa, mais importante do que um computador, dois socos, três bofetadas e uma ameaça de agressão. Num ministério como este, das Infra-Estruturas, é difícil encontrar documentos confidenciais muito sérios. Também num país como o nosso, não é crível haver segredos de Estado vitais, ainda por cima gravados no computador de um adjunto! Muito dinheiro, muitos interesses, enormes favores e imensas negociações: eis o que pode estar em causa.
Temos diante de nós a coreografia ou o cenário perfeito da mentira: do mesmo acontecimento, dos mesmos factos, com os mesmos protagonistas, existem pelo menos duas versões contraditórias, dois elencos factuais diferentes e opostos e evidentemente dois perpetradores.
Um bando em funções de Estado, instituições supostamente respeitáveis, departamentos governamentais com responsabilidades, deputados eleitos e representantes directos dos cidadãos, empresas públicas, escritórios de advogados famosos, salteadores de capitais internacionais, funcionários de Estado obrigados a limpar as estrebarias e empresas internacionais de consultadoria estão atarefados à volta de um ministério. Este, por sua vez, ocupa-se de tudo quanto é importante na economia futura do país: aviões, aeroportos, comboios, caminho-de-ferro, portos fluviais e marítimos, grandes pontes, energia, rede eléctrica nacional, barragens e centrais térmicas e mais, tanto mais, em duas palavras, quase tudo, nas mãos de um ministro… É isso que está em causa! São decisões de muitos milhares de milhões! São os marcos da economia futura do país. É o maior investimento de que há memória e de que haverá crónica no futuro! É isso que está em causa, não é um computador, um telemóvel, uma ameaça contra quatro mulheres, um murro de um homem, uma grosseria de um ministro, um engano de um telefonema…
Já se percebeu que houve mentira, traição, ciúme, engano, ameaça, violência e abuso. Mas porquê? O que estava em causa realmente? Dinheiro? Interesses estrangeiros? A companhia de aviação? O aeroporto? O lítio? Os comboios e o TGV? A rede eléctrica nacional? As “renováveis”? Uma coisa parece certa: para que os intervenientes se tenham deixado enredar em cenas ridículas próprias de telenovela, é necessário estarem de acordo sobre um ponto: o silêncio sobre o essencial. Fica-nos a certeza de que este silêncio e a zanga têm origem num passado de cumplicidade.
Ao longo deste processo, pelo que se sabe, alguns ou todos se portaram mal, abusaram de poder e de funções, mentiram, esconderam, ameaçaram, agrediram, roubaram, destruíram, quebraram, negaram, tentaram liquidar, apagaram documentos, “limparam” telemóveis e computadores, sonegaram provas, esconderam fontes e acusaram falsamente outras pessoas. Todos? Só alguns? Quem?
Raramente, nestas décadas que levamos de democracia, se atingiu um ponto tão baixo de miséria moral, de atentado político, de vilania, de imoralidade e de sem vergonha! Há gente que, por bem menos, reside actualmente na penitenciária, em Custóias ou em Pêro Pinheiro. Raramente como agora a justiça portuguesa esteve tanto em causa. Raramente como agora o Estado de direito esteve tão ameaçado.
Na máfia, nos gangs de Nova Iorque, entre oligarcas de Moscovo, nas redes de tráfico de droga, no mercado do sexo e de trabalhadores clandestinos, nos serviços de imigrantes, no comércio de armamento, nos arranha-céus de magnates do petróleo ou nos resorts dos bilionários dos metais raros, há procedimentos parecidos com aqueles que se adivinham neste processo. Com a diferença de montantes e de pessoas envolvidas, com certeza. Mas com uma similitude moral indiscutível.
Parece a República dos Garotos. Pelo que se julgam superiores e infalíveis. Pela superioridade moral de que crêem usufruir. Pela inteligência sistémica com que tratam as estratégias de longo prazo e nada entendem da vida real. Pelo desprezo com que avaliam os outros, a opinião pública e os eleitores. Pelo modo como substituem as regras e as leis pelos seus gestos, os seus gostos e os seus valores. Pelo seu carácter atrabiliário e pela irascibilidade adolescente. Pela palavra gratuita, pela moral que muda, pela crueldade constante, pelo cinismo indisfarçável e pela hipocrisia como hábito e regra: por estes e outros atributos, estas pessoas, algumas destas pessoas, muitas destas pessoas não deveriam ter acesso a postos de comando, nem ter a capacidade de influenciar a vida de outros. Estamos perante pessoas que só têm regras claras e precisas: eles próprios, os seus amigos, os seus partidos, as suas famílias, as suas empresas e as suas auréolas de glória narcisista que designam por interesse público.
Estes Garotos divertem-se com o mal dos outros, brincam e desprezam os inferiores e os menos dotados, odeiam e perseguem os superiores e mais capazes. E têm enorme consideração por si próprios.
Como é possível que alguns ministros capazes, alguns governantes decentes, alguns altos funcionários competentes, alguns deputados honestos e alguns profissionais honrados se deixem enlamear por estes Garotos? Nunca se perceberá a razão pela qual académicos probos, professores dedicados, engenheiros competentes, autarcas responsáveis, sindicalistas empenhados, intelectuais com sentido moral da vida e políticos ciosos do bem comum se deixam envolver nesta história a todos os títulos tão sórdida.
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Manuel Esmenio

É verdade. Garotos !
António Cunha Duarte Justo

E o povo português esqueceu-se da sua sabedoria tradicional que o avisa: “quem dorme com garotos acorda molhado”!

o roubo do petróleo de timor

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Livro de advogado australiano acusa Camberra de roubar recursos petrolíferos timorenses
António Sampaio, Lusa
03 mar (Lusa)
Um novo livro da autoria do advogado australiano Bernard Collaery acusa Camberra de pactuar com empresas petrolíferas para roubar ao longo de décadas recursos petrolíferos de Timor-Leste.
“Os timorenses foram enganados e continuam a ser enganados pelo Governo australiano”, disse à Lusa , Bernard Collaery o autor do livro que é lançado a 10 de março.
“Foram milhares e milhares de milhões de dólares desviados pelo Governo [do primeiro-ministro] John Howard e [do ministro dos Negócios Estrangeiros] Alexander Downer em que o dinheiro foi para uma empresa norte-americana, a ConnocoPhillips e para a Woodside, cuja maioria das ações são estrangeiras”, afirmou.
Collaery, atualmente a ser julgado na Austrália num caso relacionado com espionagem australiana em Díli – sobre o qual está impedido de falar -, considera que em contraste com a solidariedade de por muitos na sociedade australiana, o Governo manteve durante anos uma “diplomacia corrupta”, com “erros e manipulações que devem chocar os australianos”.
A Austrália, escreve Collaery, “despojou os pobres de Timor de uma parte significativa dos seus ativos soberanos não renováveis” e, mesmo depois da independência, “considerou a ameaça de dificuldades económicas um instrumento legítimo de persuasão diplomática”.
“E quando os timorenses começaram a dar alguma luta, a Austrália recorreu às táticas de um batoteiro sujo”, lê-se no livro, uma cópia avançada do qual foi dada à Lusa.
Neste trecho, Collaery refere-se à espionagem de que Camberra é acusada de realizar a Timor-Leste durante as negociações sobre o Mar de Timor quando, sob cobertura de um programa humanitário de obras no Palácio do Governo em Díli instalou equipamento de escutas.
Quando isso foi descoberto, o Governo “invadiu a casa de um ex-agente do Serviço de Inteligência e Segurança Australiano (ASIS) que sem comprometer nomes ou técnicas usadas queria relatar provas de conduta ilegal” perante um tribunal arbitral internacional.
“Em absoluto desprezo pelo tribunal arbitral o Governo australiano cancelou o passaporte da testemunha e ameaçou-o com um processo judicial”, refere.
“E sem ficar por aqui, o Procurador-Geral Federal emitiu o seu próprio mandado de acordo com as leis de segurança nacional introduzidos para combater terrorismo, para permitir a apreensão de documentos legalmente privilegiados dos escritórios do autor”, nota.
“Oil over troubled waters” (Petróleo em águas turbulentas) foi escrito por Collaery, um advogado australiano que deu assistência jurídica à resistência timorense durante décadas.
Ex-procurador-geral em Camberra, Collaery representou Timor-Leste junto do Tribunal Penal Internacional, no âmbito da disputa com a Austrália sobre fronteiras marítimas.
Ao longo de 465 páginas o autor descreve a forma como a Austrália, ao longo de décadas e de forma “oportunista”, acedeu a recursos que pertenciam a Timor-Leste.
Primeiro, evitando “a cooperação com Portugal como potência colonial em Timor-Leste” e depois com “conivência com a Indonésia no genocídio” da população timorense.
“Apesar de muitos australianos se recusarem a ouvir a palavra ‘genocídio’, a Austrália foi cúmplice durante muitos anos da violação pela Indonésia de normas legais fundamentais não muito diferentes do genocídio arménio 90 anos antes ou da fome de nações ocupadas pela Alemanha de Hitler durante a Segunda Guerra Mundial”, escreve.
Collaery sustenta que desde a segunda metade do século XX e até agora os principais partidos australianos, com poucas exceções, “abandonaram uma ordem baseada em regras para apoiar a exploração dos ativos soberanos do petróleo de um vizinho pobre”.
Um “roubo patrocinado pelo Estado de ativos timorenses” cujos beneficiários estão agora “espalhados no setor empresarial australiano”.
“Devemos resgatar a nossa consciência nacional estabelecendo um inquérito nacional independente em que os cúmplices, mortos ou vivos, são identificados, processados ou de outra forma envergonhados e despojados das suas honras”, escreve.
Collaery quer que se trate “justamente” o povo timorense e quer influenciar “os políticos de coragem e integridade a questionar a conduta dos seus colegas”, pelo que pede um inquérito oficial amplo sobre o assunto.
O advogado recorda que ele próprio foi alvo de escutas na sua casa e escritórios e que os seus arquivos foram confiscados, tendo em dezembro de 2013 sido alvo de uma rusga por agentes secretos munidos de um mandato emitido “sob poderes para combater o terrorismo”.
Tratou-se, escreve, de um “registo abismal de erros geoestratégicos e compromisso de valores” adotados por sucessivos líderes políticos australianos e que penalizaram Timor-Leste, com destaque para o ex-chefe da diplomacia, Alexander Downer que “se destacou por um sofismo vazio com política externa e interesses éticos a distanciarem-se”.
Downer e os seus conselheiros mais próximos, adotaram uma estratégia distorcida pelo aliciante do petróleo de tal forma que as empresas petrolíferas mais poderosas do mundo cativaram a política externa australiana face a Timor”.
O ex-ministro não passou de “pajem da Royal Dutch Shell, ConocoPhillips e Woodside”, escondendo aos timorenses as verdadeiras riquezas do Mar de Timor, permitindo que “ao longo dos anos uma cleptocracia intoxicada pelo petróleo transformasse o parlamento numa farsa que se limitava a carimbar licenças de roubo”.
E detalha o processo em que as Nações Unidas e a Austrália “privaram gerações de timorenses dos seus direitos”, atuando com má-fé com decisões que deveriam ser alvo de um inquérito judicial independente e julgamento.
“Este livro procura iluminar a razão ou as razões pelas quais um país civilizado como a Austrália se distanciou tanto e ao longo de muitos anos do Estado de direito e dos princípios “fair-go” defendidos pelos seus fundadores”, escreve.
“Uma política externa incompetente e manhosa, com políticas opressivas em casa que viram a Austrália perder qualquer papel que possa ter tido como exemplo de liderança democrática numa região onde quer ter lugar”, sublinha.

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Chrys Chrystello

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/univ-dos-acores/

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A MINHA VISÃO DA UAç
Pobre UAç, cada vez se enterra mais. De uma Universidade com pergaminhos, com Professores de reconhecido mérito, transformaram-se em uma Universidade com quadros de jovens Professores nados e criados na própria Universidade, muitos dos quais nunca de cá saíram, não ampliaram os seus horizontes e muito menos os conhecimentos de outros mais graduados, mas deslumbrados transformaram a UAç numa amalgama de faculdades, as quais em comparação com as Nacionais, nem vou mais longe, são inferiores a muitos Departamentos. A UAç vive fechada sobre si própria salvo raras excepções, como na Horta (aí temos um excepcional grupo de Investigadores de renome internacional), não amplia os seus cursos, delimita o número de alunos, a sua investigação sobrevive à custa de parcerias internacionais, pois por si só pouc
    • Jorge Pereira da Silva

      Faz-me confusão 😪
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    • Gonçalo Silva

      E aquele político que não tendo trabalho, tirou um desses cursos de adultos de três anos com algumas aulas e frequências q.b., e “voilà” num ápice é professor universitário na UA.

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      • 1 d
    • Beatriz de Noronha

      Como dizia o Prof Doutor José Sebastião da Silva Dias quando surgiram as universidades Açores Madeira Algarve e Trás os Montes , classificou-as como “ liceus centrais”.
      Passados 45 anos Dictat confirma -se

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      • 1 d
    • Francisco Silveira

      A cotação das universidades depende muito dos docentes que nelas lecionam. Façam a vossa avaliação. Porém, não metam tudo no mesmo saco.
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      • 22 h
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        Henrique Schanderl

        Francisco Silveira exactamente pelo que diz a minha avaliação. Foram 42 anos de serviço na UAç, vi-a nascer e no que se tornou, e mais não digo por pudor.

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        • 20 h
    • Lucia Aguiar Aguiar

      Bom dia feliz domingo e muito bom frequentar a universidade abre nos a mente
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      • 10 h
    • Jose Sousa

      Verdade
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o ou nada vale e de migalhas dos Governos da República e Regional. Tenho pena!

desempregado azarado

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Num tempo de grande desemprego um pobre rapaz não vê outra forma de sobreviver senão ir para a prisão. Rouba a mala a.uma.velhinha esta chama um polícia proximo mas ela ao ver a figura miserável do rapaz deixa-o ir em paz. Este vai a mmercearia próxima e rouba uma caixa de fruta. O dono da.mercearia já o conhecia da-lhe alguma fruta e que vá em paz. Desesperado vai atrás do polícia e apalpa-lhe o rabo. O policia vira-se: Querido, saio às cinco!
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Sim, ouviu bem: hackers, outros países e Zuckerberg têm acesso aos nossos segredos de Estado – ZAP Notícias

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O ex-adjunto de João Galamba deixou claro esta quarta-feira, na comissão parlamentar de inquérito à TAP, que discutiu tranquilamente assuntos de estado com a ex-CEO da companhia aérea nacional através do WhatsApp. E ainda não sabe como lhe apagaram as mensagens. Durante a audição a Frederico Pinh

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