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Transparência
Terra Queimada…
… e Haja ‘paciença’
Num atirar de toalha ao chão, as estratégias partidárias egoístas, contrárias ao bem comum, continuam a ser a receita mortífera para a Democracia.
Sermos diferentes pode ser a nossa maior riqueza, quando essa diferença é posta ao verdadeiro serviço de quem servimos. Elevar causas pessoais, partidárias, ideológicas ou outras, usando disfarçadamente a retórica de um vocabulário enganador à partida, tentando assim atirar areia aos olhos de quem nos ouve, é assumir vaidosamente que a nossa superioridade arrogante, é mais do que suficiente para suprimir a assumida estupidez alheia.
A Democracia em geral, é o sistema que, na sua infinita generosidade, acolhe toda a complacência humana. Isso implica riscos que são entregues ao julgamento e escolha livre dos humanos, que por sua vez os afasta ou, manipuladoramente os acolhe.
Ela consente uma exposição total do pensamento, para que do diálogo e confronto, possam surgir novas aberturas, novas ideias, novos caminhos às sociedades. Esse exercício tem de ser constante e traz atrasos e progressos. Mas os atrasos nunca podem ser maiores do que os progressos. Quando tal acontece, a regressão acontece e as sociedades sentem o seu efeito negativo.
Durante praticamente um quarto de século, tivemos no governo dos Açores o Partido Socialista, o qual havia conquistado o governo aos Sociais Democratas de Mota Amaral, no poder por duas décadas.
Outras forças partidárias começaram a exprimir o cansaço popular na bipolaridade e, o Parlamento Açoreano começou a exprimir esse cansaço elegendo vários partidos refletindo diversas perspetivas e melhor representando o Povo Açoriano.
Entre eles, surge a Iniciativa Liberal, principiante nas Ilhas, como em Portugal. Há três anos apresenta-se às Legislativas nos Açores e ganha um lugar usufruindo das franjas do sistema de votação. Desde então a sua contribuição democrática tem estado no vermelho da classificação popular, que esperava uma postura de facto liberal daquele deputado. A sua postura de confrontação absoluta ao sistema, tem trazido controvérsia esvaziada num desejo de protagonismo e vingança, visível nas intervenções deselegantes do único representante e deputado neoliberal. A sua coreografia parlamentar toca a vaidade e atinge os píncaros da vulgar incompreensão, quando na sua última intervenção sobre o orçamento regional, declara que votará contra o orçamento – e isso aceita-se – mas que também iria votar contra em qualquer outra proposta que viesse a ser apresentada no futuro. Perante tal atitude, é fácil assumir que aquele deputado está ali apenas por si mesmo – não pelos eleitores que o elegeram. A sua falta de abertura ao diálogo, demonstra que o seu lugar é, não nos “liberais”, mas sim nos “radicais” de Donald Trump. A complacência democrática tem suficiente abertura para tal, só que este deputado terá de ser coerente consigo próprio ou ir para o Chega.
Sobre o PAN, partido que igualmente tem um único deputado no Parlamento Açoreano, ao menos tem revelado essa coerência e as suas intervenções ao longo desta legislatura, tem contribuído para uma maior consciencialização social sobre os nossos animais e o ambiente que nos rodeia.
Outro partido que é filho da complacência democrática é o Chega. Igualmente com um único deputado eleito, representa no entanto a ameaça à própria Democracia. E o seu crescimento está na forja do próximo futuro, como se vê por todo o mundo democrático. A última foi a eleição da extrema-direita nos Países Baixos, mesmo no seio da União Europeia. Às portas de baixo da América, outro neonazista foi eleito na Argentina, país rico, mas onde abunda uma corrupção quase cultural, fomentada pela manipulação de elites que se alternam nos vários poderes do país.
Na Península Ibérica, o partido socialista espanhol perdeu as eleições, mas numa aliança com independentistas, seus inimigos de ontem, consegue uma maioria suficiente para agarrar o poder.
No processo de mandar prender os cabecilhas do independentismo catalão, erro crasso cometido por Madrid desde o início, quis a ironia das ironias que o mesmo Pedro Sanches agora os perdoasse para conseguir os votos do poder. Ficam a ganhar as forças que lutam para a libertação dos vários povos colonizados por Castela, que agora poderão ter caminho legalizado no compromisso independentista, nomeadamente País Basco, Catalunha, Galiza e por aí fora…
Fica a lição a tirar para os Açores e Madeira. As Autonomias podem ser boas, quando são respeitadas de parte a parte, mas principalmente da parte que alega soberania.
A coligação que agora viu o chumbo da sua proposta orçamental, sabe que o partido socialista ganhou as eleições, mas sem maioria. Essa coligação que lhe ‘roubou’ o poder, não está melhor agora, correndo o risco de ser desmantelada pelo presidente da República, a menos que a simpatia partidária funcione!
Estas manipulações partidárias, de todas as ideologias, caíram em moda e são praticadas cada vez mais em todo o lado. Além disso, os tsunamis de dinheiro que rolam desde Bruxelas, transforma a ética democrática em depravação de princípios que relaxam os exemplos.
A Democracia é complacente com tudo isto, mas tem de ser defendida. À espreita estão os abutres que se aproveitarão dessa complacência e relaxamento, para tomarem o poder e então controlarem a seu belo prazer, mas… acabando com a complacência, que lhes serviu de escada para o poder.
Hitler foi eleito; Franco ganhou o poder pela guerra que lhe deu a vitória. Salazar foi implorado para tomar conta do poder.
Todos eles eram bons rapazes…!!! All Goodfellas!
Apesar da denúncia, há uns meses, da má qualidade de obras literárias traduzidas por ferramentas de inteligência artificial (IA) em livros à venda no mercado português, alguns tradutores e revisores têm recebido pedidos de «revisão» de clássicos universais (em várias línguas) traduzidos por estas ferramentas.
A tradução literária não replica só um texto noutra língua: é uma arte, acarreta um vasto conjunto de interpretações e escolhas, depende de muitos anos de estudo e experiência.
Os sistemas de tradução automática são incapazes de reconhecer e transpor todos os elementos das obras literárias. Numa obra literária, substituir os tradutores por uma máquina é prescindir da qualidade em prol da quantidade e arrasar subtilezas e sensibilidades em prol de uma solução rápida e aparentemente barata. A utilização da IA pelas editoras neutraliza a literariedade do original e da tradução.
Aceitar tais propostas de «revisão» é sancionar um sistema que visa eliminar o trabalho dos tradutores. Implica fazer o trabalho de dois profissionais (tradutor e revisor) pela remuneração mais baixa dos dois. Para quem conhece as condições laborais dos trabalhadores independentes, não espanta que haja profissionais obrigados a aceitar tais propostas para sobreviver — mas é preciso que saibam que preferem escassos ganhos de curtíssimo prazo e geram enormes perdas de médio prazo.
Participar nestas «revisões» alimenta uma estratégia que prejudica revisores e tradutores, leitores e editoras. Os leitores adquirem traduções de má qualidade; as editoras minam o capital de confiança na qualidade das traduções, levando os leitores a preferirem edições noutras línguas, nomeadamente em inglês, o que reduz as vendas das traduções portuguesas.
A tradução automática promove, pois, a delapidação financeira de editores e livreiros, e degrada uma profissão já muito pressionada pela falta de reconhecimento: a dos tradutores.
Assim, reiteramos: é essencial identificar o nome do tradutor nas capas dos livros. Responsabiliza quem traduz e mostra que a editora merece a confiança dos leitores.
Defendemos ainda que as editoras que usem a tradução automática têm de o indicar na ficha técnica e no frontispício dos livros. Só assim faremos um trabalho transparente e credível.
Por tudo isto, não aceitaremos nenhum pedido deste tipo que nos seja dirigido e reservamo-nos o direito de os publicitar como denúncia, que não é mais do que uma defesa pública do ofício.
Sugerimos, pois, aos colegas tradutores, revisores e editores que se juntem a nós na denúncia e no repúdio de tais práticas.
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Esta denúncia foi escrita e é assinada pelos membros da Caixa Alta —
Guilherme Pires, Madalena Caramona e Nuno Quintas — e pela nossa colega tradutora Alda Rodrigues.