se houvesse cultura nos açores teríamos Casas-Museu

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Crónica 422 se houvesse cultura nos açores teríamos Casas-Museu 26.10.2021

Já em 2003 recém-chegado da Austrália imaginei Portugal com roteiros culturais dedicados aos seus autores, como se podia ler em A língua portuguesa e a UE alargada, 2003-06-02 | Revista ELO |

Quem se lembrou já de incluir roteiros turísticos literários a locais celebrizados pelos monstros sagrados da literatura dos sécs XIX e XX? Alguns constam já dos vulgares roteiros paisagísticos, havia que organizar a leitura de livros desses autores, e a divulgação nesses locais, [como em abril 2003 com a atribuição do prémio Camilo Castelo Branco a Mega Ferreira]. Disponibilizavam-se traduções ou faziam-se reedições (económicas, sem luxos) para os milhares de turistas desses novos países que quererão vir a Portugal. Lucrava o país, editores, operadores turísticos e a língua. Podíamos começar com o José Saramago e um roteiro às terras de origem acompanhado de leitura de obras suas, disponibilizadas em línguas dos países da UE, passando por locais evocados em “A Cidade e as Serras” e outras paisagens dos Açores de Nemésio, à Brasileira de Pessoa ou à Monsanto de Fernando Namora. Convidavam-se professores jubilados que amam a Língua Portuguesa para falarem das mil e uma nuances de cada um, pedia-se aos autores vivos que disponibilizasse um dia do calendário para falar da sua obra ou lê-la num cenário apropriado. Estou certo de que a organização de tais eventos custaria menos do que muitas funções oficiais já agendadas.

Posteriormente, com a morte em 2008 de Dias de Melo e a de Daniel de Sá em 2013 propugno a criação de casas-museu como forma de homenagear aqueles autores e a sua obra, uma na Calheta de Nesquim e outra na Maia micaelense.

Agora que o Cristóvão de Aguiar abandonou as vestes terrenas, e depois de falar com os filhos reitero essa necessidade de uma Casa-Museu na localidade de S. Miguel Arcanjo, São Roque do Pico para onde ele se mudou na década de 1990 e ali fez a sua segunda casa. Os filhos estão dispostos a repor toda a sua biblioteca e manter a casa tal como estava quando ele a habitava a fim de que possa ser convertida num local dedicado ao autor e às suas obras.

Se a região autónoma dos Açores tivesse uma verdadeira Secretaria da Cultura esta deveria inscrever já no orçamento regional montantes destinados a adquirir as casas daqueles autores e convertê-las em Casa-Museu. Uma região que não honra a memória dos seus maiores nas letras e artes não pode arrogar-se o direito de falar na sua história e muitos menos dizer que tem cultura.

É essa visão que sempre faltou a esta autonomia envergonhada em que vivemos. Propositadamente deixei de fora todos os outros autores que merecem idêntico tratamento e concentro-me nestes três pois com eles lidei e deram contributo de relevo aos nossos Colóquios da Lusofonia.

Se o governo não quiser, que seja a autarquia de São Roque do Pico a tomar a dianteira e a iniciativa e a ficar na vanguarda desta merecida homenagem ao prolífico autor Cristóvão de Aguiar. Fico à espera.

Imagem da casa em S. Miguel Arcanjo

Chrys Chrystello, Jornalista, Membro Honorário Vitalício nº 297713

[Australian Journalists’ Association MEEA]

Diário dos Açores (desde 2018)

Diário de Trás-os-Montes (desde 2005)

Tribuna das Ilhas (desde 2019)

Jornal LusoPress Québec, Canadá (desde 2020)

 

 

uma beldade de Macau

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“Tenho vergonha de dizer que nunca estive em Portugal”.
Nunca esteve em Portugal, mas é algo que pretende fazer assim que a pandemia de Covid-19 o permitir.
Vencedora do concurso de Miss Hong Kong deste ano, Sabrina Mendes acedeu a conversar um pouco com o PONTO FINAL, dentro daquilo que é, neste momento, a sua agenda sobrecarregada.
Foi a segunda macaense a arrecadar o ceptro, depois de Michelle Reis, por quem nutre admiração.
Actualmente a viver sozinha em Hong Kong, a modelo confessa que a sua vida “ficou de cabeça para baixo” com a vitória e, neste momento, tem “todas as portas abertas para as oportunidades” que surjam.
Sabrina Mendes venceu o concurso de Miss Hong Kong no início do mês de Setembro.
Desde então, a sua vida tem sido uma lufa-lufa, ao ponto de que a sua agenda tem estado completamente esgotada desde então.
Aos 22 anos, a “miúda comum” de Macau quer continuar a estudar, apesar de assumir que esta vitória lhe veio abrir portas para um mundo que também gosta muito: a moda e o entretenimento.
“Prometo dar o meu melhor em tudo”, disse ao PONTO FINAL.
De ascendência chinesa e portuguesa, nasceu em Macau e começou a aprender dança aos seis anos.
Tem experiência em ballet, dança chinesa, jazz, hip-hop e dança latina, entre outros.
Formou-se em Bioquímica e Biologia Humana pela Universidade de Toronto, no Canadá, e espera seguir a carreira de médica.
– Nasceu em Macau há 22 anos. Como era Macau durante a sua infância? O que recorda?
Considero Macau um local muito pequeno, mas, apesar de ser mais pequeno do que Hong Kong, Macau tem uma densidade populacional muito superior.
E devido ao seu pequeno tamanho, viajar de um lugar para outro não leva tempo.
É um território também cheio de muito amor e boa comida [risos].
A herança portuguesa de Macau também pode ser vista em todo o lado, em edifícios e nas ruas.
A minha família inteira mora em Macau, então actualmente estou a morar sozinha em Hong Kong.
– Já esteve em Portugal?
Tendo um quarto de mistura portuguesa, tenho vergonha de dizer que nunca estive em Portugal.
Espero poder visitar o país porque, na verdade, inspiro-me muito na arquitectura portuguesa, nos famosos azulejos portugueses e, claro, na comida.
Talvez vá um dia, quando a pandemia acabar.
Apesar de a minha família estar em Macau, é possível que ainda tenha um ou dois familiares a residir em Portugal.
– Pode falar um pouco mais sobre as suas raízes?
A minha mãe nasceu e foi criada em Hong Kong até aos 8 anos.
Depois, mudou-se para Macau com a sua família.
O meu pai é de origem portuguesa, mas nasceu e foi criado em Macau.
– Sente que é uma honra para ganhar um concurso de Hong Kong sendo uma mulher macaense?
É definitivamente uma honra vencer o concurso de Miss Hong Kong, porque é algo que eu queria fazer desde que era criança.
Não fui a primeira mulher macaense a vencer esse concurso, lembro-me de que a senhora Michele Reis [actualmente com 51 anos] venceu no ano de 1988, e ela sempre foi alguém que admiro muito.
– O que realmente sente com esta vitória?
Estou muito surpresa e honrada por poder me intitular Miss Hong Kong.
Isto tem sido um sonho e nunca pensei que pudesse tornar-se realidade.
Também me dá a oportunidade de encorajar as jovens que desejam juntar-se ao concurso de Miss Hong Kong ou a qualquer outro concurso de beleza, continuando a perseguir os seus sonhos e nunca desistir, porque algum dia, tenho certeza que isso tornar-se-á realidade.
– Como disse acima, é a segunda macaense a vencer o concurso depois da Michelle Reis em 1988, que tem feito carreira de modelo e de actriz na região vizinha. Já falou com ela sobre isso?
Na verdade, não conheço Michele pessoalmente, mas admiro-a e ela tem sido minha ídolo desde que ganhou.
Ela é mãe agora, mas ainda é tão bonita, parecendo ter 18 anos.
– Depois de ganhar o concurso de Miss Hong Kong, a sua vida tornou-se uma loucura.
Sim!
A minha vida virou de cabeça para baixo.
Eu sou apenas uma miúda comum a formar-se com um diploma de licenciatura em Bioquímica e pretendo continuar os meus estudos, agora, na faculdade de Medicina.
Mas, desde que ganhei, todos os planos mudaram.
No entanto, tenho gostado do que estou a fazer agora e sou muito grata por ter a oportunidade de experimentar coisas diferentes.
– Quais são seus planos para o futuro?
Os meus planos agora são ver se a indústria do entretenimento é, de facto, algo para mim.
Estou a deixar portas abertas para diferentes oportunidades que estão a aparecer e poderão vir no futuro.
Quanto aos meus estudos, voltarei a ir atrás do meu diploma de médica algum dia, isso é certo.
E porque o conhecimento não conhece limites, nunca é tarde para voltar à escola.
– O que é para si ser macaense?
Para mim, um macaense é alguém de ascendência mista chinesa e portuguesa.
Os macaenses são, de facto, fortemente influenciados pela cultura chinesa e portuguesa.
Por exemplo, na minha família, nós celebramos o Ano Novo Chinês e distribuímos ‘lai sis’, mas também saudamos cada membro da família com um beijo sempre que nos vemos.
– Que mensagem gostaria de deixar para os seus fãs?
Quero aproveitar esta oportunidade para agradecer a todos os meus fãs macaenses e portugueses que me têm apoiado desde o primeiro dia.
Recebi muitas mensagens e estou muito honrada em deixar todos orgulhosos.
Prometo dar o meu melhor em tudo e continuar a espalhar amor, esperança e bondade.
Amo-vos!
Gonçalo Lobo Pinheiro.
Jornal Ponto Final, 26 de Outubro de 2021.
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Expresso | Mais lava em movimento após novo desabamento no cone do vulcão de La Palma

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A nova rutura do cone, que ocorreu na tarde de segunda-feira, provocou transbordamentos de lava e deslizamentos de terras que geraram correntes de ar, mas que não afetaram o fluxo que corre para sul e que está atualmente praticamente parado

Source: Expresso | Mais lava em movimento após novo desabamento no cone do vulcão de La Palma

Mysterious Map Emerges at the Dawn of the Egyptian Civilization and Depicts Antarctica Without Ice – Who Made it? | Ancient Origins

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On a chilly winter day in 1929, Halil Edhem, the Director of Turkey’s National Museum, was hunched over his solitary task of classifying documents. He pulled towards him a map drawn on Roe deer skin.

Source: Mysterious Map Emerges at the Dawn of the Egyptian Civilization and Depicts Antarctica Without Ice – Who Made it? | Ancient Origins

80 milhoes na nova imagem do novobanco????

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A CAUSA DAS COISAS
O que vemos é um (JOVEM) António Ramalho, sorridente, porque o banco de que é CEO por indigitação, começou a dar lucros.
Não lhe falta experiência e anos como gestôr nas varias empresas por onde passou.
Mundial Confiança, Santander Totta, CP Comboios, UNICRE, Millennium BCP, Estradas de Portugal e desde 2016 no novobanco.
O que faria um CEO com verticalidade, honestidade e a lealdade para quem lhe alimenta as crendices, agora que passou aos lucros?
Começaria certamente por amortizar a dívida ao fundo de resolução, cujo montante andará à roda dos 7.876 milhões de euros, desde Agosto de 2014, se a memória não me atraiçoa.
Mas não, preferiu contratar a agência de publicidade BBDO, em parceria com a agência de branding Grand Practice, e com a empresa tecnológica Innovation Makers, e numa operação extremamente URGENTE…, fizeram este rebranding genial do Banco “Novo Banco. Umas alterações no Logótipo, com pequenas modificações às letras, mais uma mudança colorida em azul turques, mais a intervenção nas mudanças na rede de balcões, tudo isto vai custar a módica quantia de 80 milhões.
Percebo que a actividade económica necessita de inovação, ser novidade, mostrar arrojo, e assim se manter apetecível à sua clientela. Mas tudo isso à custa de dinheiros alheios, é obra, desfaçatez, mas especialmente falta de vergonha!
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ÁFRICA NEGLIGENCIADA NA HISTÓRIA

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Let the truth be told.
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Thisis a discussionofneglectedAfricanarcheologyandoneoftherichestarcheology sites intheworld. SudangotitsnamefromtheArabicexpression ‘bilādal-sūdān’ (“landoftheblacks”). Byextension, WestAfricawasoncecalled ‘Western Sudan’ andtheentirecontinentwasonceknown as Ethiopia. SudanwasthelocationofAncientNubia, whereyouwillfindthebeginningsoftheHeiroglyphsemergingfromdeepinInnerAfricabeforeEgyptevenexisted, andanAfrican “pharonic” government (Ta Seti) thatwasfullydevelopedbeforethebirthofEgypt’s1stdynasty. TheindigenousAfricanname for Pharaohis “Nisut/Biti” meaningEmperor, or King etc. whiletheword “Pharaoh” wasderivedfromtheGreekswhowereinterpreting a Kemeticwordcalled (“prhaa”) whichisactually a buildingoccupiedbytheEmperorandEmpress. To thisday, theword “Pharaoh” appearsinyourbiblesandisactuallyderivativeof a Kemeticreference to a building. Sothisis a discussionoftheneglected (anddeliberatelyflooded) opportunitiesofAfricanarcheologyandtourisminNubiaandthelandsinSudan, southofwhatiscurrentlycalled “Egypt”. Thewritingsystemweknow as thehieroglyphswerealreadyfullydevelopedin Ta SetibeforeEgyptevenexisted. Oneofthemostimportantwritingsystemsintheworld, itinfluencedbothEurope as well as Africaandisoneof 27 Africanwritingsystems. ThiswritingsystemoriginatedinNubiaandwasrefinedbytheAfricans as theymovednorthwardovertimerefiningtheculture as theywent, blossomingintoKemet (nowcalledEgypt) expandingthatcivilization similar to howtheUnitedStatesexpandedfromit’s original 13 coloniesinto 51 States.” Kemetwas a deliberatelyplanned, federatednationwith 42 citystatesUnitedunderonegovernmentalongtheNile (42 being a sacrednumber). “Heiroglyphs” istheGreekname for thiswritingsystem, theGreektranslationofthe original Africanname “MDRNETER” whichmeansroughlythesamething (sacredwritingsor ‘TongueofGod’) .TheregioncalledSudanhas 255 knownpyramids, more pyramidsthan ‘egypt’s 138’ but does notsee a fractionofthetourism. “TheindigenousAfricannameofthisregionofcourseisKemet, thenameEgypt derives fromHwt-Ka-Ptah, whichis a templeinlowerEgyptwhichbecamethename for theregion for visitingpopulations. TheGreekspronouncedit as “Aegyptus” (Aigyptos) intheirdialectandovertimeAegyptusbecame ‘Egypt’ withtheArabswhowerethelast to invade theregionin 640 a d. TheAfricansfirstalliedwiththeArabsinorder for them to helpgetridoftheRomans, andthiswas a mistake. Today, ArabEgyptthrives off thetourismoftheAncientstructures. Thename “Egypt” islikerenamingtheUnitedStatesafterthe Washington Monument🤗☺️🤗 . TheHapi (Nile) riverflowsfrom 4000 milesdeepinInnerAfrica (south to north), andbecauseofthis, certainancientmapshavesouthpointingupwardswithnorthpointingdownwards. Thefirstcity-stateor ‘Knome’ ofKemetwas ‘Ta Seti’ inthesouthatanareacalledQustal. WhentheAswanDamwascompletedin 1963, itput 500 milesofAncientNubiaunder 250 ofwaterforever. Justbeforethis, therewas a rushofarcheology to rescuewhatevercouldbefoundbeforethewatersfloodedtheregion. In 1962-1963, itwasat Ta Setithat a EuropeanArcheologistnamed ‘Keith Seale'(leadinganAmericanarcheologyteam) foundthebeginningsofthepharonicgovernmentfullydevelopedinNubia, theheiroglyphswritingsystem, everythingweknow as classically “Egyptian” fullydevelopedinNubia, eventhe ‘AnointedChristBeing’ representationfrom a periodprecedingtheriseofwhatwecallEgypt. ChristisactuallyanAfricanTitle for ananointedandhighlygiftedone, appearingintheMDRNTRlanguage as (Krst). Mr. Sealesatsilentlyonthisdiscovery for 16 years (perhapsknowinghewouldbeblackballedbyhisEuropeanpeersifheexposedthisinformation) anditwasonlyafterhediedin a tragiccaraccidentthatoneofhisassistantsbroughtthisinformationforwardin 1979 anditfirst hit intheNew York Times. ManypopulationscurrentlyinWestAfricaliketheDogon, Wolof, Bambara, Mande’ Yoruba, Bameleke’ andAkanhavehistoricalstoriesoftheirancestorsmigrationoutofthenilevalleyandintowest, central andsouthernAfricaduring a periodofchaoswiththeGreek, Roman, andArab (etc.) invasionsover a periodof 1500 years (therewere 6 major migrations). To read more, checkout TdkaMaat Kilimanjaro andthesolidresearchofhisteam. Also, theclassicbookcalled ‘TheDestructionofAfricanCivilizations’ byauthor ‘BasilDavidson’. Andatanytime, youcanalsowatchoneofthegreatestlecturesonthissubjectbyAuthorandAnthropologist Ivan VanSertima. It’sonroughfilmqualitysincethiswas shot inthe1980slongbefore YouTube buttheinformationispricelessand rock solidlyresearched. Hereisthe link: https://youtu.be/mk9IqMz6IDs
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António Bulcão · Não tenho o direito?

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Não tenho o direito?
Durante as minhas infância, adolescência e parte da juventude, não me lembro de ouvir a palavra direito.
Deveres sim, havia muitos. O dever de ir à escola e de fazer os trabalhos para casa. O dever de respeitar os mais velhos e de pedir a bênção a meu avô. O dever de ter o meu quarto arrumado. O dever de poupar, na luz, na água.
Quando tinha catorze anos, meu pai deu-me uma mesada. Não a vi como resultado de um direito, muito menos um que tivesse reivindicado. Outra palavra que não existia, reivindicar… Entendi tal doação como uma generosidade, que meu pai me explicou ter um sentido didáctico: chamava-se mesada porque tinha de dar para um mês.
Escusado será dizer que gastei aquilo tudo em dois ou três dias. Livros de banda desenhada, umas sandálias que já me andavam a cegar há semanas na montra da Novi, rebuçados com cromos de jogadores, a verdade é que o dinheiro marchou todo num ápice. No baile do clube do fim-de-semana seguinte, quando me deu fome e sede, pedi a meu pai para me comprar uma bifana e uma laranjada e ele perguntou-me pelo dinheiro que me tinha dado. Quando lhe confessei a prodigalidade, disse-me que me ia pagar a bifana e a laranjada, mas que fosse a última vez: não podia pedir depois de me ter sido dado.
Aprendi a gerir, assim. O que me foi muito útil daí a 3 ou 4 anos, quando fui estudar para Lisboa. Os 4.500 escudos tinham de dar para o quarto com roupa lavada, passe social para o metro e autocarros, almoço e jantar na cantina, bilhetes de comboio para ir passar os fins-de-semana com meus tios a Oeiras, livros e fotocópias, mais uns extras como filmes e um bife na Portugália de vez em quando.
Mas, ainda no Faial, quando precisava de mais dinheiro, nunca mais pedi a meu pai. Como era bom aluno de línguas, ofereci-me para guia turístico na Bensaúde e ganhei bem a fazer excursões, 600 escudos de honorários mais as gorjetas sempre generosas. Aprendi a tocar guitarra e fiz parte de conjuntos de baile, abrilhantando bailes e ganhando umas centenas de escudos que ia poupando e muito jeito me fizeram mais tarde.
Por ironia, escolhi um curso que era a palavra com a qual pouco convivi no meu crescimento: Direito. Mas depressa aprendi o valor dos contratos sinalagmáticos. A um direito, corresponde um dever. Como trabalhador, tenho o direito a um salário. Mas tenho vários deveres associados a esse direito: respeito, zelo, assiduidade, etc. Como arrendatário, tenho direito a usar a casa. Mas igualmente o dever de pagar pontualmente a renda. E deveria ser neste equilíbrio que tudo deveria funcionar.
Tristemente, não é assim. Cada vez mais, as pessoas exigem direitos, muitas vezes se esquecendo dos seus deveres. Enchem a boca com o Estado de Direito Democrático, desprezando até o seu dever cívico de votar. Reivindicam o seu direito inalienável a se expressarem livremente, mas não ligam muito ao dever de respeitar os outros quando usam aquela liberdade de expressão. Difamam vergonhosamente, lançando suspeições que não podem provar. E, quando chamados à atenção, a defesa é sempre a mesma: não estou no meu direito?
Por este andar, na próxima revisão constitucional, vários serão os direitos fundamentais que se somarão aos que já constam da Lei Fundamental: o direito à inveja, o direito à calúnia, o direito à ignorância, o direito à tolice. E talvez alguns deveres desapareçam, porque incómodos…
Um desafio: na Assembleia Regional, muitos deputados e deputadas, abusam dos “apartes”. Quando chamados à atenção, reclamam ser seu direito regimental. Não será tempo de pensarem no seu dever de respeitarem quem está no uso da palavra?
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
Antoaneta Petrova, Filipe Tavares and 23 others
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Paulina Chiziane ao vivo. Premio Camões 2021.

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A GLOBALIZAÇÃO QUEBROU – VIVA A GLOBIZAÇÃO

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A GLOBALIZAÇÃO QUEBROU – VIVA A GLOBIZAÇÃO
por Pedro Doria – Canal Meio – 16/10/2021
O meme circulou faz uma ou duas semanas no Reino Unido — o premiê Boris Johnson liga para a rainha Elizabeth II e pergunta, como quem não quer nada. “A senhora dirigiu caminhões durante a Guerra, não?” Elizabeth II trabalhou de fato, no esforço de Guerra, como mecânica de caminhões. E Johnson está desesperado atrás de motoristas para a frota — há, na Grã Bretanha, 100 mil vagas abertas com ninguém que deseje preenchê-las. O governo abriu um programa de vistos temporários para atrair motoristas principalmente do Leste Europeu. Após duas semanas apareceram vinte candidatos. O resultado mais visível da crise são as longas filas de carros para abastecer nos postos de combustível. Derivados de petróleo estão em falta. Mas não é só lá. Em agosto havia 40 navios cargueiros na fila para descarregar no maior porto dos Estados Unidos, o de Los Angeles e Long Beach. Em setembro já eram 70. Agora em outubro os números pararam de ser divulgados. É pouco. No mar próximo dos portos de Hong Kong e de Shenzen, na China, a fila passa de cem navios. Nas contas do Conselho dos Exportadores de Café do Brasil, o setor deixou de exportar nos últimos meses US$ 500 milhões em grãos. Por falta de contêineres de navio. No Vietnã, o principal centro produtor de roupas do mundo, as fábricas fecharam em setembro após uma explosão de casos de Covid. A Apple anunciou que vão faltar iPhones 13 no Natal — não há peças para fabricar e atender à demanda.
A globalização quebrou. Mas por quê?
Os motivos são muitos mas podem ser reduzidos a três. Um deles é que a globalização deu certo. Outro é a pandemia. O terceiro é que a infraestrutura do planeta não está preparada para uma economia que se digitaliza rapidamente. As três questões são independentes mas se correlacionam. Há uma tempestade perfeita em curso e as consequências são muitas. Em termos macroeconômicos está gerando inflação porque há pouca oferta e muita demanda. E a demanda não é só por produtos, é também por mão de obra que em muitas funções enfrenta escassez.
O mundo em contêineres
O que passamos a chamar de globalização, na década de 1990, é a relação de inúmeros fenômenos distintos. Mas, na indústria, ela nasce quando a Toyota era uma fábrica de caminhões precisando atender a muitos pedidos do governo japonês para o esforço de guerra, nos anos 1930. Os executivos tinham de lidar com os riscos de ter pouco dinheiro em caixa mas muitas encomendas numa sociedade particularmente eficiente. Assim, tomaram a decisão de não estocar peças, como sempre foi a praxe na indústria automotiva. As peças eram encomendadas de fornecedores de confiança e chegavam apenas conforme eram necessárias. Esta maneira de fabricar se espalhou pelo mundo de forma muito lenta até que, nos anos 80, ganhou fama e se popularizou com o nome Just in Time — algo como ‘no momento exato’. Hoje o método é chamado de lean manufacturing, ou ‘manufatura magra’ no sentido de sem excessos.
A dificuldade do método é que ele só funciona com eficiência de toda a cadeia. Os fornecedores têm de ser tão ágeis quanto quem fabrica e o transporte de um canto para o outro exige precisão.
Pois o que passou a ocorrer de forma diferente, na última década do século 20, foi uma abertura generalizada de mercados. Assim, a possibilidade de fabricar com qualidade em locais do mundo que produziam por um custo muito mais baixo fez do método global. Os oceanos abriram para um tráfego constante de navios levando matéria prima de um canto ao outro, para que em fábricas fossem transformadas em peças que novamente eram colocadas em navios para que em outras fábricas noutros países virassem produtos de novo colocados em navios e exportados para os mercados em que seriam consumidos.
A história do rápido crescimento da China passa por este momento de transformação do mundo. O país se especializou na fabricação de equipamento digital de ponta e, posteriormente, com o dinheiro ganho investiu na formação de engenheiros para desenvolver sua própria tecnologia. Mas também o crescimento bem mais tímido do Brasil, nos primeiros anos do século 21, passa por aí — exportando matéria prima para a China, principalmente ferro, petróleo e a soja que alimenta rebanhos.
A globalização não é apenas fruto de um jeito mais eficiente de fabricar ou da abertura de mercados. O motivo pelo qual ambos foram possíveis passa pela sistematização, no final da década de 1970, do sistema de contêineres de navios. As grandes caixas na qual produtos são armazenados para transporte marítimo já existiam desde o século 18. Mas o que aconteceu a partir dos anos 80 foi que, com tamanhos dos contêineres padronizados, foi possível criar uma frota naval uniforme. Quando se constrói um navio já se sabe quantos contêineres caberão. Eles têm, também, um tamanho que permite serem transportados por caminhões e trens. Os equipamentos de portos, como sistemas de guindaste, são igualmente construídos para os tamanhos pré-determinados. O padrão fez o preço do transporte despencar. Como num jogo de Lego, as peças sempre se encaixam e o fluxo navio-porto-transporte terrestre é contínuo.
Mais recentemente, algumas mudanças ocorreram que ajudaram a formar a crise. A primeira é que a indústria de transporte marítimo se consolidou — hoje, dez companhias controlam 80% do mercado. Outra é que estas empresas estão construindo navios cada vez maiores.
O resultado prático é que, com menos concorrência, as transportadoras passaram a ter poder de ditar as rotas que seguirão e o momento em que saem e chegam. Isto quer dizer que estão esperando mais para encher próximo do máximo cada navio. Os portos, porém, não foram adaptados para descarregar estes navios gigantes.
Contêineres podem ser empilhados nos pátios de portos. Mas o problema não é apenas que navios grandes demoram mais tempo para serem descarregados e que os contêineres neles ocupam mais espaço nos pátios. O problema é também de escoamento. O número de pistas nas estradas que saem dos portos, assim como o de trilhos de trem, também não foi ampliado. Não bastasse, contêineres empilhados são mais difíceis de gerenciar. O caminhão chega para pegar um destes, é preciso localizar onde está no pátio e, caso esteja na base de uma pilha, demora mais para o guindaste separá-lo. Os navios aumentaram — o resto do sistema, não.
E aí bate na mão de obra. Em países como os da Europa, no Reino Unido o problema é mais agudo, os motoristas de caminhão estão envelhecendo e não estão sendo substituídos. Os salários, os benefícios, e o trabalho simplesmente não são atraentes o bastante para as novas gerações. Nos EUA, impacto semelhante ocorre com os trabalhadores de portos. Há falta de mão de obra e dificuldade de contratação.
O boom do digital
Em 2019, a indústria global do e-commerce vendeu US$ 3,3 bilhões de dólares em produtos, de acordo com a Statista. No ano seguinte, o ano da explosão da Covid, vendeu US$ 4,3 bilhões. A estimativa para este ano é de que cresça perto de outro bilhão. Números assim costumam ser celebrados e identificados como reflexo de uma cultura digital que se expande rapidamente — o que é verdade. O e-commerce cresceu. Mas o e-commerce também torna mais complexa toda a logística de transporte que já estava naturalmente pressionada.
Quando uma grande cadeia de varejo vende celulares, seus executivos ordenam a compra de grandes lotes que vêm da China ou doutro canto e distribuem as máquinas por um número restrito de lojas pelo país. Mas quando um rapaz na periferia paulistana percebe que pode comprar um smartphone turbinado por um site chinês, podendo parcelar e pagando menos, aí a situação muda. Não são lotes de celulares que são vendidos — é um aparelho. Que é empacotado, endereçado, e colocado com muitas outras unidades de produtos os mais diversos num contêiner de miscelânea que chega ao Brasil para ser distribuído, um a um, não para uma cadeia com número limitado de lojas. Mas cada unidade para um endereço residencial final.
Está acontecendo no Brasil como está acontecendo em todo o mundo. O volume de produtos transportados aumentou e, cada vez mais, representam não apenas grandes lotes de um grande comprador mas, também, unidades adquiridas por muitos compradores.
Este é um dos resultados da aceleração da cultura digital criada pela pandemia. Outro resultado é que as pessoas estão pensando mais a respeito de suas vidas. Sobre o que querem para si mesmas. Há um debate em curso, nos EUA e na Europa, a respeito de por que algumas indústrias estão encontrando muita dificuldade de contratar. É o caso, nos EUA, da indústria de hotelaria e restaurantes. Na Europa, a indústria de transporte de produtos. Alguns políticos conservadores criticam os benefícios distribuídos durante a pandemia. Argumentam que muitos não querem trabalhar porque estão recebendo dinheiro sem precisar sair de casa.
Mas não parece ser apenas isso. No Vale do Silício, engenheiros, desenvolvedores e designers que recebem altos salários estão em choque com os gestores das companhias num debate sobre o esquema de trabalho. As pessoas se habituaram a trabalhar em casa e não querem voltar para o escritório. E, em muitos casos, estão dispostas a abrir mão do emprego porque estão convencidas de que conseguirão trabalhar com a liberdade de poder definir os próprios horários e o local do serviço noutros cantos. Há quem defenda que este não seja um fenômeno apenas de gente com profissões bem pagas mas algo que atinja de forma mais generalizada muitos nas novas gerações. A vontade de ter mais controle e flexibilidade sobre a própria vida.
É uma transformação cultural que o digital permite, que foi acelerada pela experiência da pandemia, e que impacta diretamente os fluxos de produtos. Mais do que isso — o aumento da demanda e o gargalo na oferta está gerando inflação por toda parte. Na Alemanha, pela primeira vez desde a unificação do país, passou de 4% ao ano. No Brasil, em que o dólar vem sendo mantido artificialmente alto, passou dos 10%. A Argentina já ordenou congelamento do preço de produtos.
Como resolver?
A Era Industrial acabou, a Era Digital está nascendo — mas não está pronta. A solução do problema passa por muitos caminhos. Um, evidentemente, é o fim da pandemia. Não sabemos o quanto das mudanças de comportamento são definitivas ou temporárias. Talvez seja necessário um ajuste salarial em determinadas profissões. Talvez baste a pressão das contas por pagar para que estes empregos voltem a ser preenchidos. Ou talvez a solução passe por reorganizar o trabalho — aumento do número de folgas em troca de menores salários, por exemplo.
Não é só: inúmeros países já compreenderam que a próxima década é uma que exigirá pesados investimentos em infraestrutura. Ampliar os portos que existem, erguer novos, melhorar a teia de estradas de rodagem e de ferro pelos países. Estes gastos, fatalmente, não serão apenas na ampliação mas também em sustentabilidade. As estruturas precisarão emitir menos carbono. E, ao redor da infraestrutura física, inteligência artificial será cada vez mais empregada para tornar os fluxos de idas e vindas mais eficientes. Um just in time aperfeiçoado.
Não basta — outro dos cálculos sendo feitos é de que a globalização precisa ser ampliada e descentralizada. O Vietnã, por exemplo, está parado faz um mês por conta da variante Delta da Covid. O surto lá tem razão de ser: de acordo com dados da Organização Mundial da Saúde, apenas 17% dos vietnamitas haviam sido vacinados com as duas doses até a última quarta-feira. Há um mês este número não chegava a 4%. O Brasil, em comparação, já tinha 47% da população plenamente vacinada na quarta.
É assim no mundo todo: países mais pobres têm tido dificuldades de obter vacinas enquanto os mais ricos têm doses extras em estoque.
Só que o Vietnã é, também, o quarto maior fabricante de roupas e sapatos do mundo. É o segundo maior exportador de roupas para os EUA, que é o maior importador do mundo. Desta forma, se o Vietnã para em setembro e outubro, as lojas de roupas americanas não terão o que vender no Natal. Enquanto isso, navios começam a engarrafar os portos vietnamitas. Quando forem carregados, chegarão todos de uma vez.
Esta dinâmica tem se repetido em toda a cadeia, em inúmeras indústrias, no último ano e meio. É irônico, mas uma das características do processo de globalização é que ele concentrou a manufatura num pedaço da Ásia. As próximas décadas provavelmente levarão ao aumento de concorrência: uma oportunidade para a África e para a América Latina.
Esta é uma política que, no caso latino-americano, Washington gostaria de incentivar. Os EUA precisam e desejam diminuir sua dependência da China. O principal obstáculo é que a cultura econômica latino-americana é uma de mercados fechados e estas barreiras ao comércio exterior dificultam a criação de grandes parques manufatureiros que possam competir com os de países asiáticos.
Mas a oportunidade está na mesa. Afinal, a globalização quebrou. O conserto é mais globalização.
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