Telmo R. Nunes MANUAIS DIGITAIS: SIM OU NÃO?

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Telmo R. Nunes is feeling thoughtful.

17 h
MANUAIS DIGITAIS: SIM OU NÃO?
Chegados ao final do ano letivo, impõe-se um balanço à opção tomada pela Tutela e que determinou o uso dos manuais digitais, nas turmas de quinto e oitavo anos de escolaridade, nas escolas da Região.
Confesso que suspeitei dos benefícios pedagógicos que esta opção prometia logo desde o início deste processo. Mesmo antes de efetuar formação especializada com pessoal qualificado, era possível antecipar muitos dos problemas que, neste momento, se verificam, e que, inevitavelmente, condicionaram as avaliações finais destes alunos.
Concordo que à escola caiba um papel fundamental na preparação do indivíduo para a digitalização que se operacionaliza na sociedade atual, mas creio também que ela (a escola) não se deve reduzir a isso, nem que essa preparação possa colocar em causa o progresso harmonioso de determinadas competências, tidas como fundamentais para o desenvolvimento integral do indivíduo.
Considerando que, por tantas vezes, os países do norte da Europa são tomados como exemplo, veja-se o desconforto do Ministério da Educação sueco ante a digitalização na escola, chegando mesmo a Senhora Ministra da Educação a afirmar que nenhum «tablet» pode substituir as vantagens de um livro. Aliás, foram um pouco mais longe, e solicitaram relatórios técnicos a 60 especialistas (!) na matéria, sendo que todas as organizações envolvidas chegaram à mesma conclusão: “Todos os estudos sobre o cérebro das crianças mostram que elas não beneficiam com o ensino baseado em ecrãs”.
Por cá, e tanto quanto pudemos ler na comunicação social açoriana (Açoriano Oriental de 13 de junho de 2023), está o Tribunal de Contas a verificar a eficácia material e financeira da implementação destes Manuais Escolares Digitais e, quanto a essa vertente, nada me apraz acrescentar, por representar algo que me transcende, todavia, na mesma notícia, cita-se a Senhora Secretária Regional da Educação e dos Assuntos Culturais, que afirma que “Em termos de resultados educativos, ainda é muito prematuro nós podermos fazer essa aferição”.
Estou longe de me assumir contra a digitalização, e mais ainda contra a mudança de paradigmas, não sou extremista ao ponto de pedir que se extingam os «tablet» ou outros dispositivos dentro da sala de aula. Quando bem utilizados, são úteis e isso é irrefutável. Todavia, o que me pareceu extemporâneo e muito perigoso foi a retirada imediata dos manuais escolares das salas de aula. Lamentavelmente, houve alunos que, este ano letivo, raramente tocaram um livro e lê-lo, enfim… Deixou de se sentir as páginas e o cheiro do livro.
O recurso exclusivo a «tablet» ou computadores potencia a falta de atenção e concentração, advindas não apenas das incontáveis funcionalidades que a máquina possui, mas também das constantes notificações, barulhos, falta de bateria ou outros, que a dita emite. Pelo contrário, nos manuais físicos essa interrupção é residual, aumentando inversamente o tempo e a qualidade da atenção e concentração, que redundam, naturalmente, numa maior retenção de informação e consequente produção de conhecimento. Num breve esforço, recordemos os motivos que estiveram na base da opção pelas aulas assíncronas, aquando dos sucessivos confinamentos a que os nossos alunos estiveram sujeitos. Se me recordo, na altura, garantia-se que a exposição excessiva dos miúdos aos ecrãs era muito cansativa e perniciosa e, por isso, muito menos proveitosa e recomendável. Minimizaram-se esses problemas recorrendo à assincronia das aulas.
Embora me tenham chegado inúmeros relatos de colegas de outras áreas, não quero generalizar, mas no que à lecionação das áreas curriculares disciplinares de Português e Inglês concerne, e concretamente em momentos de leitura, os alunos revelaram mais cansaço e mais dificuldades de acompanhamento da leitura em voz alta, comparativamente com o mesmo exercício em manual físico. Dizem-me que noutras áreas também foi assim, concretamente na leitura e compreensão de enunciados escritos. Depois, e reportando-me somente aos mais pequenos, tiveram sempre muitas dificuldades em articular a leitura com o modo de «Zoom», tantas vezes necessário, dadas as dificuldades de visualização do próprio texto.
Passada a euforia inicial de ter um «tablet», pela primeira vez, houve alunos que desmotivaram logo à segunda semana: demoravam a encontrar a página correta ou o exercício a realizar; o seu equipamento não permitia determinada funcionalidade ou não lia determinado tipo de ficheiro que era lido pelo do colega do lado; houve constantemente o problema da falta de bateria, o que, parecendo que não, prejudicou sobremodo o aluno, que, naquela aula, não conseguiu acompanhar o lecionado, nem mesmo olhando para o do colega do lado; houve os problemas recorrentes com a rede, seja em casa ou mesmo na escola, o que impossibilitou totalmente o seu uso; recordo o lamentável processo de redação no próprio manual, com recurso à caneta digital, que foi verdadeiramente anedótico, pelo que, em pouco tempo, os alunos deixaram de usar esta forma de escrita, optando pelo registo das respostas nos seus cadernos diários.
Tenhamos presente que os alunos do 5.º ano são crianças de dez ou onze anos e não têm desenvolvidas competências, dentre as quais a autonomia, para o manuseio desta máquina, e em casa, o problema agudiza-se, por não terem quem os acompanhe condignamente. É certo que à escola cabe ministrar essa aprendizagem, mas não substituindo o livro pelo «tablet» ou computador. Permitam-me a comparação, mas não é durante a batalha que se ensina a manusear a arma.
Que coexistam máquina e livro. A favor da tecnologia, podemos falar de sustentabilidade, da comodidade, da personalização ou da acessibilidade, pelo que o ideal era mesmo que coexistissem, num complemento harmonioso.
A bem das aprendizagens dos alunos, esta não foi uma medida prudente e, considerando a realidade com que trabalho, não sou o único a pensar dessa forma. Note-se que, ao longo do ano letivo, recebi várias solicitações de pais e encarregados de educação para que os seus educandos passassem a utilizar os manuais físicos, em detrimento dos manuais digitais. Invariavelmente, respondi que o «tablet» era obrigatório, sob pena de não cumprirem com aquilo a que se propuseram aquando do início de ano letivo. Todavia, houve casos em que permiti que os discentes trouxessem os dois suportes para as aulas, sendo que os relatos desses pais, garantiam que as aprendizagens dos seus educandos haviam melhorado a partir desse ponto. Eu, enquanto professor desses alunos, atesto a veracidade do que os seus pais afirmaram. Ademais, houve outros pais e encarregados de educação que, na semana passada, durante o momento da entrega das avaliações finais, solicitaram que, no próximo ano letivo, os seus educandos não tivessem os «tablet», ao que lhes respondi que se deveriam dirigir ao Conselho Executivo da Unidade Orgânica e que lá apresentassem as suas exigências, uma vez que essa decisão extravasava as minhas competências. Sei de alguns que o fizeram.
Recolhidas as opiniões dos vários Departamentos Curriculares da minha escola, redigimos um documento onde manifestámos profunda preocupação com todas estas questões, sendo que, até à data, não obtivemos quaisquer respostas. Por outro lado, em diálogo com os colegas de profissão de outras unidades orgânicas, não encontrei ainda um que me garantisse preferir o digital sobre o manual físico, pelo que estou expectante para ver o que acontece no próximo ano letivo.
Sei de antemão que os recursos são finitos e que a utopia da opção por ambos os suportes será incomportável, todavia, oxalá nunca se olvide aquela máxima que garante que os gastos em educação são sempre um investimento e nunca uma despesa; oxalá se devolva o manual às salas de aula, oxalá se devolva o livro aos nossos alunos.
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Paula De Sousa Lima

Muito bem, Telmo.

Galiza e Portucale

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PORQUE RAZÃO, COMPOSTELA NÃO TEM NADA A VER COM A GÉNESE DE PORTUGAL, MAS BEM ANTES O SEU CONTRÁRIO?
Apesar de o Rei Garcia estar proscrito tanto em Portugal como na Galiza, o seu curto reinado foi significativamente mais importante que a batalha de S. Mamede perto de Guimarães, que os historiadores portugueses resolveram associar ao berço da nação portuguesa, nomeadamente o Herculano.
O Garcia foi o primeiro rei decidido a restaurar a Sé de Braga, após mais de 300 anos de desmando lucense e compostelano.
Para além disso, Garcia autodenominou-se, rei de Portugal e Galiza porque herdou a parte do pai ao sul do Douro, que mais não era que o território suevo das 4 dioceses lusitanas e nessa altura já era referido como “Portugal” nas crónicas por causa do Castro Antigo de Gaia, com o nome Cale, Portucale ou Portugale que era o primeiro marco da diocese de Coimbra, a cidade mais importante nessa data da Lusitânia cristã, 1064.
Estranhamente, o Garcia nunca teve o destaque que lhe caberia merecidamente porque reinou apenas 6 anos sob forte instabilidade e isolamento relativamente aos seus dois irmãos e duas irmãs.
O irmão Afonso VI, o conquistador de Toledo, mas também o usurpador de Portugal e Galiza, foi o mata-borrão da história da fundação do condado portucalense, que surge precisamente logo após 10 anos da conquista de Toledo e pouco mais de 5 anos após a morte do Garcia na prisão.
O condado portucalense nunca poderia ter sido antes da morte do Garcia, por uma questão de falta de legitimidade do Afonso VI.
Nunca nos podemos esquecer, que a metrópole de Braga estava restaurada desde 1070, pelo próprio Garcia, 15 anos antes de Toledo, e era por si só um importante contrapoder relativamente a Toledo e de forma muito cuidadosa e diplomática contra o próprio Afonso VI.
O Afonso VI sabia disso muito perfeitamente e por isso deu a benesse bracarense ao conde Henrique de Borgonha e à sua filha bastarda legitimada, que se mostravam mais capazes de seguir um projecto expansivo que o Raimundo não alcançara.
É importante referir, que o Raimundo estava completamente dominado pelo jovem ambicioso e seu chanceler, Diogo Gelmires, o compostelano.
Como remate, o futuro bispo de Iria, Gelmires, tinha uma única estratégia: engrandecer Compostela e ele próprio como Arcebispo à rebelia de Braga.
Pelo contrário, o Arcebispo de Braga patrocinava, não propriamente o engrandecimento de Braga e dele próprio, mas sobretudo um país e território em expansão juntamente com um rei desse território.
Daqui se retiram as devidas ilações sobre as grandes diferenças históricas da Galiza e de Portugal.
Uma sofre de vaidade sobre si mesma sem expandir. Outro sofre de dores de crescimento em permanente expansão.
E o resto é história.
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Augusto Lage

O Gelmires foi o grande responsável pelo divorcio entre o norte e sul da Galécia.

Novas tabelas, novas contas: Como fica o seu salário em julho? Saiba aqui

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De acordo com o Doutor Finanças, a maioria das pessoas vai sentir um “aumento do rendimento líquido mensal” a partir do próximo mês.

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SISMO MOD 3.2. NOS AÇORES

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Earthquake Monitor
@EQAlerts
#Earthquake M3.2 Azores Islands, Portugal 9mins ago 27 Jun 18:14 UTC – report/info:
volcanodiscovery.com
3.2 quake Azores Islands, Portugal, June 27, 2023 18:14 GMT
Light magnitude 3.2 earthquake at 5 km depth – overview: location, magnitude, depth, map, submit or read reports, get more information.
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Tem um empréstimo? Este custo não pode ser cobrado a partir de hoje

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O fim dos custos de processamento dos contratos de crédito entra hoje em vigor, cerca de dois meses após o parlamento ter aprovado o diploma que determina esta medida.

Source: Tem um empréstimo? Este custo não pode ser cobrado a partir de hoje

HORTA IRRECONHECÍVEL

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HORTA IRRECONHECÍVEL
Primeiro, foi o chão da Praça da República; depois os bancos cinzentos no lugar dos vermelhos (que em boa hora regressaram); a seguir a despromoção do Infante D. Henrique e o desaparecimento do “mar largo” no empedrado à sua frente; nesta “onda” descaracterizadora não escapou o muro do adro da igreja das Angústias e a frente do Forte de Santa Cruz, transformada em pista… Entretanto, instalou-se a moda dos pilaretes, em vez dos degraus dos ladrilhos. Como Velho do Restelo começo a ter dificuldade em reconhecer a Horta. | xhttps://www.rtp.pt/acores/local/obras-na-frente-de-mar-da-horta-orcadas-em-25-milhoes-de-euros_74985

Foi localizado o documento original da “Clavis Prophetarum”, do padre António Vieira

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Não, não é de comer…

Pesquisadores encontraram na biblioteca da Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma uma obra raríssima, da qual não se sabia o paradeiro.

Foi localizado o documento original da “Clavis Prophetarum”, do padre António Vieira (1608-1697), o manuscrito ficou desaparecido por 300 anos.

A “Clavis Prophetarum” foi originalmente escrita em latim por António Vieira, ele trabalhou na obra por mais de 40 anos. No final da vida, já com a saúde muito debilitada, o padre chegou a ditar trechos do texto – ele morreu sem terminá-lo.

O tratado fala de justiça e paz e da construção das condições que levariam à evolução positiva da sociedade. Com mais de 300 páginas, divididas em três volumes, o documento era conhecido por meio de uma série de cópias e traduções.

A descoberta foi apresentada no último dia 30 pela equipe de pesquisadores portugueses e italianos na Universidade de Lisboa.

Fonte: Livraria Cultura

TITAN POR ANTº BULCÃO

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Titan
Não sei praticar caça submarina. Na minha adolescência, muitos amigos sabiam, e eram bons naquilo. Eu por cima das pedras, munido de caniços, engodos e iscas, e eles a mergulhar.
Até que um dia decidi experimentar ir com eles. Sem espingarda, só para observar. Barbatanas para os pés, óculo nos olhos e nariz, tubo ajustado e lá fui, no porto de Castelo Branco.
Enquanto a água não foi muita por debaixo de mim, a coisa até correu bem. Estava a ver os peixes que conhecia, pequenos sargos, carapaus, no fundo peixe-rei. Mas quando comecei a afastar-me um pouco da costa, a fundura já era muita. Senti os ouvidos a estralar, as têmporas a apertar e ala pra dentro, as barbatanas a bater de susto.
Gosto de ver na televisão documentários sobre as profundezas dos oceanos, a bicharada estranha que habita os abismos, mas sentado no sofá. Aquele não é, definitivamente, um meio onde me sinta à vontade.
Por isso segui, como muita gente, o drama do Titan.
Primeiro pensando que, por mais rico que fosse, não me metia dentro de uma coisa daquelas para descer 3.800 metros no Atlântico. Muito menos para ver o Titanic. Se não tivesse mais que fazer a 250.000 dólares, dava-os a quem precisasse, aos que levam toda a vida a enfrentar monstros horríveis à superfície, em naufrágios sem remédio.
Depois, pensando que estavam cinco vidas humanas em risco. Pobres ou ricas, já pouco interessava. E comecei a seguir as notícias que davam conta da evolução da tragédia. Especialistas das funduras aventando as várias hipóteses. Podia estar tudo normal, apenas terem perdido as comunicações. Podiam estar no fundo, pousados, mas sem motor para subir. Podiam estar lá em baixo, mas presos a alguma parte do Titanic. Que tinham oxigénio para noventa horas. Que já se mobilizavam meios para o resgate, navios, submarinos, gruas. Mas sempre na esperança de estarem vivos os ocupantes.
E ficámos a ver o tempo a passar. A contar as horas até o oxigénio acabar. A imaginar a morte horrorosa que deve ser. Ainda por cima um pai e um filho, qual deles deixaria de respirar primeiro com o outro a ver o fim… Mas sempre esperando estarem vivos e o socorro chegar a tempo.
Por fim, a notícia fatídica. Teria havido uma implosão. Que acontece quando a pressão exterior é maior que a interior. E todos aqueles que esperavam estarem aqueles seres vivos, de repente passaram a desejar que a morte tivesse sido rápida. Que estranhos somos…
Que sim, afiançaram logo os especialistas. Foram esmagados como uma folha de papel. Numa fracção tão pequena de segundo que nenhum cérebro humano se aperceberia sequer do que tinha acontecido. Recuperar os corpos? Quase impossível, há correntes e muita fome àquela profundidade.
Em nenhum desses dias esqueci o Galamba, ou a guerra na Ucrânia, ou os mortos no Mediterrâneo, sem ajuda. E rapidamente as televisões do mundo esqueceram o Titan, para se concentrarem no grupo Wagner e se chegaria a Moscovo.
A Humanidade está a descer demasiado fundo. Até que nos falte o oxigénio a todos…
António Bulcão
(publicada hoje no Diário Insular)
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Miguel Sousa Azevedo, Eduardo Sarmento and 44 others

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Margarida De Bem Madruga

Ah, homem, como tens razão!…
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