REI DE PORTUGAL ANTES DE AFONSO H

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Antes de D. Afonso Henriques alguém se proclamou rei de Portugal?

Sim. Garcia Fernandes, tio-avô de Afonso Henriques.

Portugal foi fundado como um condado, por Vímara Peres, em 868. Esse condado era parte do reino das Astúrias, e mais tarde, do reino de Leão. A linhagem de Vímara Peres sempre governou o condado Portugal (não Portucale) com grande autonomia.

Mais tarde, o rei Fernando Magno de Leão e Castela, ao morrer em 1065, resolveu dividir o seu reino pelos seus três filhios. Ao mais velho, Sancho, deixou Castela. Ao do meio, Afonso, deixou Leão, Ao mais novo, Garcia, deixou a Galiza. Creio que na altura Portugal era um condado súbdito do rei da Galiza.

O último conde da linha de Vímara Peres, Nuno Mendes, entrou em oposição a Garcia. O rei pretendia estreitar o domínio sobre o condado, e Nuno pelo contrário pretendia aumentar a autonomia. Travaram batalha em Pedroso em 18 de fevereiro de 1071. Na batalha, rei Garcia derrota e mata o conde Nuno Mendes. O condado passa então a ser controlado directamente por D. Garcia, que assume o título de Rei da Galiza e de Portugale. Assim Garcia foi o primeiro rei de Portugal.

Durou pouco o seu reinado. No mesmo ano, os irmãos atacam-no, destronam-no, e repartem o seu reino: Galiza para Sancho de Castela, Portugale para Afonso de Leão. E Afonso aprisiona o irmão Garcia no castelo de Luna, onde viveu prisioneiro até à sua morte em 1090. Ainda que prisioneiro, foi tratado com honrarias, e teve permissão de usar trajes reais até à morte.

Ainda hoje, no norte de Portugal, na zona de Castelo de Paiva, há uns penedos do “Regarcia”; segundo a lenda teria sido o último refúgio do rei Garcia antes de ser capturado pelo irmão.

Já agora, uma continuação: os irmãos Afonso e Sancho defrontam-se também, e 1072 Sancho é assassinado durante o assédio à cidade de Zamora, pertença de sua irmã Urraca. Assim, Afonso fica o único sobrevivente, e torna-se Afonso VI, rei de Leão e Castela. Em 1079 foi pai de Elvira, em 1080 foi pai de Teresa, e em 1081 foi pai de Urraca (mesmo nome da sua irmã preferida). De mães diferentes, a todas tratou como Infantas de Leão e Castela, e arranjou-lhes casamentos condignos. A mais velha, Elvira, tem uma história brilhante, mas não falemos dela agora. As manas Teresa e Urraca, casou-as com cavaleiros que vieram de além Pirinéus juntar-se à causa da reconquista: Teresa casou com Henrique, filho do Duque da Burgonha, e a Urraca casou-a com Raimundo, filho do conde da Borgonha. (O Condado e o Ducado da Burgonha são entidades políticas e geográficas diferentes).

Afonso VI entrega ao genro Raimundo toda zona oeste da península, para defesa contra os Almorávidas, mas depois divide o território: Mantém a Galiza com Raimundo, mas em 1096 reconstitui o condado Portucalense e entrega-o ao outro genro, Henrique. Ao condado Portucalense junta, entregando-o também a Henrique, o condado de Coimbra (o qual tinha sido governado por Martim Moniz, casado, sabem com quem ? Com Loba Nunes, filha do malogrado conde Nuno Mendes, último da linhagemn de Vimara, derrotado por Garcia, lembram-se?).

Os cunhados Raimundo e Henrique envolvem-se na política de Leão e Castela e pretendem ter voz activa e mesmo protagonismo na sucessão de Afonso VI. Nisto são acompanhados pelas esposas, Urraca e Teresa, que mantêm uma intensa rivalidade. Teresa aparece nos documentos da época assinando vários diplomas como Teresa, infanta de Leão, condessa de Portugal. Após a morte de Henrique, Teresa, assume a chefia do condado, e incrementa a oposição a sua irmã Urraca. Acaba por se casar com com Fernão Perez, o mais impotante conde da Galiza, e propõe-se o plano de restaurar o reino do seu tio Garcia, e tornar o conjunto Galiza-Portugal-Coimbra num reino independente. Nessa altura, assume o título de raínha e assina documentos como Teresa, Raínha de Portugal. Os infanções de Portugal não gostam do plano, que os subalternizariam face aos infanções da Galiza, e revoltam-se, alçando Afonso Henriques, filho de Teresa e Henrique, a Conde de Portugal e depois Rei. O resto, é conhecido.

Assim, a primeira raínha de Portugal foi D. Teresa, mãe de Afonso Henriques.

E o primeiro rei, foi Garcia, tio-avô de Afonso Henriques

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Em tempo: o colega Paulo Seara alertou para o facto de haver um rei de Portugal, anterior ainda a Garcia II. Trata-se de Ramiro II, rei de Leão e das Astúrias, e tetra-avê de Garcia. Em disputa com seu irmão Afonso IV de Leão, que derrotou, no período entre 925 e 931 declarou-se Rex Portucalensis, estabelendo um reino com capital em Viseu, Isto passou-se no tempo do 3º e 4º condes portucalenses, e há documentos de doação deste rei a esses condes. Há lendas, no norte de Portugal, que referem este rei Ramiro. Assim, e emendando o texto anterior, o primeiro rei de Portugal foi Ramiro II de Leão. O seu tetra-neto Garcia II da Galiza foi o segundo.

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João Mergulhão

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mum Monsenhor saneado do Vaticano

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Mons. Georg Gänswein, de 67 anos, que foi secretário de Bento XVI e Prefeito da Casa Pontifícia, está agora a viver num apartamento do seminário de Friburgo, na Alemanha, pois que o Papa Francisco o mandou embora do Vaticano.
Ainda não se sabe o que é que irá ser o seu futuro.
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José Gabriel Ávila · Farol da Manhenha

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Farol da Manhenha
Desde muito novo, habituei-me à luz intermitente do Farol da Ponta da Ilha iluminando a escuridão, quando os benefícios da energia elétrica ainda não haviam chegado à costa leste da ilha do Pico.
O edifício foi construído em pedra, em 1946 em forma de U. Tem uma torre quadrangular branca, com 19 m de altura, dispõe de lanterna vermelha. É considerado pela Direção-Geral do Património Cultural um “Farol costeiro, de 3ª ordem, possuindo uma característica de grupos de 3 relâmpagos brancos com um período de 15 segundos, com alcance luminoso de 24 milhas, situando-se o plano focal a 29 m de altitude.“1
No conjunto do edifício existem habitações para três faroleiros da guarnição e instalações e oficinas de apoio.
O imóvel, segundo a mesma fonte, foi implantado numa propriedade de mil metros quadrados de um prédio rústico sito ao Calvino, freguesia da Piedade, adquirida em 1942 a Maria Adelaide Gomes e marido e Paulina Gomes Ávila e marido, pelo preço de 200$00. (Foto anexa)
Em 1946 entrou em funcionamento, com “um aparelho óptico de 5ª ordem (187.5mm de distância focal), sendo a fonte luminosa a incandescência pelo vapor de petróleo e como reserva possuía um candeeiro de nível constante; o seu alcance luminosos era de 26 milhas.”
Em Agosto de 1958, procedeu-se à electrificação, passando a luz a ser fornecida por uma lâmpada de incandescência de 3000 W, que lhe proporcionava um alcance luminoso de 35 milhas. Em 1960, o aparelho óptico foi substituído por outro igual, devido ao mau estado do existente. Em 1987, nova substituição do equipamento por um mais moderno, de ópticas seladas montadas num pedestal rotativo, com reservas de alimentação e fonte luminosa incorporadas.” 2
O Farol da Manhenha foi, durante largos anos, uma referência para a população da Ponta da Ilha. Em anos de seca, quando as cisternas privadas já não respondiam às necessidades básicas dos veraneantes, a população recorria ao tanque de água a céu aberto anexo ao edifício central. Serviço preponderante prestava também o telefone do Farol, estabelecendo comunicações com o exterior.
Essa função ia ao ponto de o chefe do farol, Sr. Medeiros, mandar deslocar um faroleiro para avisar alguém de uma chamada urgente, fosse oficial ou não. Quantas vezes isso aconteceu a meu pai que tinha de deslocar-se 3 ou 4 Kms a pé e aguardar pelo telefonema?!…
Outros tempos, sem paralelo com a facilidade de comunicações de hoje.
O Farol da Manhenha, também teve uma importância relevante na escassa oferta de emprego.
Muitos jovens picoenses da Ponta e da Ilha em geral seguiram a profissão de faroleiros, “seduzidos”,certamente, pelas competências formativas recebidas para o desempenho da função, e pelo valor do salário e das condições de habitabilidade. Este contributo deve ser reconhecido como homenagem ao Farol da Ponta do Calvino e aos faroleiros que nele trabalharam.
Nunca é demais reconhecer a relevante integração da instituição no meio e o seu contributo e apoio às atividades sócio-económicas. Tão importante como o papel desempenhado pelo Posto Agrícola Matos Souto na formação agrícola e na fixação e emprego da população juvenil.
Estas são razões que merecem ser conhecidas pelos mais novos e divulgadas às centenas de visitantes do Farol da Manhenha que desempenha um papel essencial na rota dos navios que circulam pela costa leste da ilha do Pico.
Faróis dos Açores
Em Portugal, o primeiro farol foi construído em 1520 no Cabo de São Vicente.
Nos Açores, só passados três séculos, em 1870, é que os responsáveis do reino entenderam que as ilhas tinham de possuir essas estruturas de apoio à navegação marítima.
O primeiro farol a ser construído foi em 1876, na Ponta do Arnel, no Nordeste.
Presentemente, segundo dado da Autoridade Marítima Nacional, existem 16 faróis no arquipélago. Em Santa Maria: Gonçalo Velho (na Ponta do Castelo); São Miguel: Arnel, Ponta Garça, Santa Clara, Ferraria (na foto) e Ponta do Cintrão; na Terceira: Contendas e Serreta; em São Jorge: Ponta do Topo e Rosais; Graciosa: Carapacho e Ponta da Barca, com 23 metros de altura; Pico: Ponta da Ilha; Faial: Ribeirinha; Flores: Ponta das Lajes e Ponta do Abarnaz.
Todos eles se destacam na paisagem insular, como sucedeu no Mediterrâneo com o primeiro Farol construído na ilha de Faros, Alexandria, no ano de 280 antes de Cristo e destruído por um sismo em 1326. Segundo estimativas, julga-se a torre que tivesse uma altura entre 120 e 137 metros. Era uma das sete maravilhas do mundo antigo, sendo que por muitos séculos foi uma das estruturas mais altas, tal o movimento marítimo registado naquela área.3
As comunicações inter-ilhas tiveram nas últimas décadas um desenvolvimento apreciável. Mas há sete e oito dezenas de anos, entre o norte do Pico e o sul de São Jorge, era frequente as famílias comunicarem-se através de fogueiras para anunciar fatos importantes.
O mesmo faziam os vigias da baleia que, na falta do meio rádio, usavam panos brancos para indicar a movimentação e direção dos cetáceos. A exemplo dos povos primitivos.
Felizmente, as comunicações tiveram um avanço incomparável e, ao falarmos desses equipamentos, consideramo-los sobretudo como património histórico que importa preservar.
É o caso do Farol da Ribeirinha, Faial, construído em 1919, fortemente afetado pelo sismo de 1998.
Foi prometida a sua recuperação, mas, como diz o ditado: “verba volant…”- palavras leva-as o vento…
Engrade, Pico, 30 de agosto de 2023
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Jose Manuel R Barroso

Mt interessante! Obgd Zé Gabriel!
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o pobre gigante de Manjacaze

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Quando eu era novo.
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O GIGANTE DE MOÇAMBIQUE

Gabriel Estevão Monjane, o gigante de Manjacaze, media 2,45 metros de altura e era considerado o homem mais alto do mundo, fazendo parte do Livro de Recordes do Guinness.

O gigante de Moçambique, como era conhecido, veio pela primeira vez a Portugal em 1969, causando grande alvoroço e curiosidade: em circos, feiras ou eventos privados, Gabriel era exibido pelo país como coisa rara e insólita, tendo viajado por todo o mundo.

Regressou a Moçambique após a independência. Por lá, as coisas não lhe correram de feição e rareavam os espectáculos. Casou-se e teve três filhos, vivendo do que lhe dava o restaurante que criara com o dinheiro (pouco) ganho com as exibições.

Voltou uma segunda vez a Portugal, em 1979, mas o infortúnio perseguia-o: no Coliseu de Lisboa deu uma queda ao tentar subir as escadas, o que lhe provocou danos graves numa perna e a necessidade de um implante que foi fazer na África do Sul.

Regressou pela última vez a Lisboa em Setembro de 1989, alvo da mesma curiosidade de sempre e vítima dos mesmos interesses que o faziam deslocar-se penosamente pelo mundo.

Uma nova queda, em Janeiro de 1990, no quintal da sua casa em Mandlakazi, a sua terra natal, foi-lhe fatal: fez um grave traumatismo craniano, do qual não recuperou, e morreu no Hospital de Maputo com apenas 45 anos.

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  • Zinha Lopes

    Eu tive o prazer de o conhecer na feira dos Santos em Chaves

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    Roberto Cordeiro Braga replied
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  • Helena Areias

    Tive o prazer de o conhecer pessoalmente na feira popular em Lisboa.

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  • Natalia Filipe

    Também tive o prazer de cumprimentar este senhor na feira popular em Lisboa 😊
  • Maria Celeste Mestre Jacinto

    Eu também o conheci na feira de Santiago em Setúbal
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    Roberto Cordeiro Braga replied
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  • Fernanda Teixeira

    Lembro – me muito bem dele ! Nesse tempo esteve na Feira de Março em Aveiro , e este um sapato dele em exposição numa montra , uma loja conceituada desta cidade .🙏.
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SÓ COM MUITA FÉ

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Ethiopa’s ‘Abuna Yemata Guh’ is arguably the most inaccessible place of worship on earth and has to be climbed on foot to reach!
May be an image of 1 person, temple, Bryce Canyon National Park and text

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Vivek K Bhise

Amazing 👌
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Origens: A primeira colónia de Flamengos fixou – se no séc. XV na freguesia da Caveira ilha das Flores Açores

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Source: Origens: A primeira colónia de Flamengos fixou – se no séc. XV na freguesia da Caveira ilha das Flores Açores

Carolina Michaëlis de Vasconcelos

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. ( )
Falo-vos de uma mulher excecional. Na rua da Cedofeita, na cidade do Porto, a casa dos Vasconcelos era um centro onde se reuniam os mais influentes intelectuais do seu tempo, empenhados na vida cívica e no lançamento das bases de um progresso baseado na cultura e na liberdade. A primeira mulher catedrática na Universidade portuguesa nasceu alemã. Veio para Portugal por casamento com um dos grandes intelectuais do século XIX, Joaquim de Vasconcelos, estudioso sobre musicologia, biografia, pintura portuguesa nos séculos XV e XVI, sobre os contactos portugueses com os grandes artistas europeus como Albrecht Dürer, Rafael e Van Eyck, sobre história da ourivesaria, joalharia e cerâmica portuguesas, além da bibliografia crítica da história da literatura portuguesa, sobre Francisco de Holanda, Damião de Góis, Nicolau Clenardo e Duarte Ribeiro de Macedo. No final da década de setenta, Joaquim de Vasconcelos empenhou-se na feitura da Reforma geral do Ensino das Belas-Artes em Portugal (1877-1880). Foi um dos organizadores do Museu Industrial e Comercial do Porto. Enquanto Carolina estudava a evolução da língua, Joaquim de Vasconcelos debruçava-se sobre as raízes flamengas da pintura portuguesa no século de ouro. Tudo estava em saber sobre o melhor modo de interpretar e de chegar à identidade do ser português. Joaquim de Vasconcelos foi dos primeiros a pronunciar-se sobre os painéis ditos de S. Vicente, atribuídos a Nuno Gonçalves, em artigos publicados no “Comércio do Porto” (junho de 1895). A representação do Infante D. Henrique na “Crónica dos Feitos da Guiné” de Zurara pertencente à Biblioteca Nacional de Paris permitiu-lhe fazer as primeiras identificações relativamente aos painéis, a começar pela presumível data da sua feitura.
O conhecimento da realidade portuguesa por Carolina Michaëlis enche de espanto os seus leitores. Sendo mulher afirma, com grande sensibilidade, sobriedade, o espírito científico e a exigência a importância da educação e do conhecimento. Torna-se em 1877 sócia do Instituto de Línguas Vivas de Berlim. E é impressionante a lista dos trabalhos que publica – primeiro em matéria linguística, depois no âmbito da história e da crítica literárias. Lembremos os estudos sobre o “Cancioneiro da Ajuda” e o glossário imprescindível que preparou, com enorme cuidado. A literatura portuguesa é um inesgotável campo para a sua investigação no tocante às origens da poesia peninsular. A Universidade de Friburgo reconhece o labor científico de primeira qualidade de Carolina Michaëlis de Vasconcelos e concede-lhe o grau de Doutor honoris causa. O que a jovem não conseguira em Berlim conseguia-o agora, por via honorífica, mas com indiscutível sentido de justiça. O reconhecimento nacional e internacional de Joaquim de Vasconcelos também é notável: é sócio efetivo da Gesellschaft für Musikforschung de Berlim, da Real Associação dos Arquitetos Civis e Arqueólogos Portugueses (Lisboa), sócio correspondente do Instituto Imperial Germânico de Arqueologia, sócio honorário da Academia Real de Música de Florença, sócio honorário da Sociedade Martins Sarmento (Guimarães) e sócio benemérito da Associação Industrial Portuguesa.
Em 1901, D. Carlos concede a Carolina Michaëlis o grau de oficial da Ordem de Santiago da Espada, como preito de homenagem ao labor científico, que todos continuavam a considerar como de qualidade e interesse excecionais. Em 1911, logo após a implantação da República, Carolina é nomeada professora da nova Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, em reconhecimento dos enormes serviços prestados à cultura portuguesa, lugar que não aceitará por motivos da vida familiar. No entanto, aceita o encargo pedagógico e científico, exercendo-o na Universidade de Coimbra. Aí, recebe, em 1916, o grau de doutora honoris causa, em ato solene de homenagem à sua obra, tão rica e relevante. Em 1923 é-lhe outorgada idêntica honra na Universidade de Hamburgo.
Mulher e investigadora, cultora da sensibilidade e do rigor – a sua vida demonstra a importância da íntima ligação entre a opção pessoal e a vocação científica. Considera que a Saudade é um “traço distintivo da melancólica psique portuguesa e das suas manifestações musicais e líricas, muito mais do que a Sehnsucht é característica da alma germânica. Refletida, filosófica, acatadora do imperativo categórico da Razão pura, ou hoje, do imperativo energético da atividade ponderada”, a palavra alemã “tem muito maior força de resistência contra sentimentalismos deletérios”. “A saudade e o morrer de amor (outra face do mesmo prisma de terna afetividade e da mesma resignação apaixonada)” são realmente, para a estudiosa, “as sensações que vibram nas melhores obras da literatura portuguesa, naquelas que lhe dão nome e renome. Elas perfumam o meigo livro de Bernardim Ribeiro e os livros que estilisticamente derivam dele, como a ‘Consolação de Israel’ de Samuel Usque, e as’ Saudades da Terra’ de Gaspar Frutuoso. Perfumam as Rimas de Camões e os Episódios e as Prosopopeias dos Lusíadas. —Perfumam as Cartas da Religiosa Portuguesa; e as criações mais humanas de Almeida Garrett, a Joaninha dos olhos verdes e as figuras todas de Frei Luís de Sousa. Não faltam no Cancioneiro do povo; nem já faltavam, na sua fase arcaica, nos reflexos cultos da musa popular que possuímos, isto é, nos cantares de amor e de amigo dos trovadores galego-portugueses, no período que se prolongou até os dias de Pedro e Inês. Logo no alvorecer da poesia, ainda antes de 1200, surgem naturalmente lindos lamentos de amor e de ausência. Encontro-os naquela singela composição, em que o rei D. Sancho o Velho desdobra o sentimento da saudade nas suas duas componentes principais: cuidado e desejo.
Se lermos a obra de Carolina Michaëlis e de Joaquim de Vasconcelos, muito rica, diversificada e inovadora, facilmente encontramos uma procura incansável da identidade portuguesa, pelo espírito singular da nossa cultura – demonstrando que essa cultura sempre se enriqueceu quando se abriu ao exterior e a outras culturas e sempre se empobreceu quando se fechou ou se deixou ficar pela inércia conservadora. Cultivaram, assim, ambos um espírito desperto e liberal, aberto e sensível, em busca do que ia para além do superficial e do imediato. Vendo a mestra com olhos de hoje, não passa despercebida uma intenção claramente emancipadora, de quem nunca deixou de assumir a sua qualidade de mulher e de quem considerou sempre, como naturalíssimo, que liberdade e igualdade fossem faces do mesmo espelho, como a igualdade e a diferença, e nunca realidades antagónicas. Mas para que tal acontecesse é preciso enaltecer a atitude de Joaquim de Vasconcelos, grande admirador de sua mulher, que com ela formou um par de características excecionais, pela sua complementaridade e pelo exemplo. Carolina Michaelis fez até morrer aquilo de que gostava e que era a sua vocação – o estudo incansável sobre a cultura portuguesa, as suas raízes e especificidades, sem esquecer que era um exemplo singular, que sempre desejou que deixasse de ser excecional. Como disse Gerhard Moldenhauer na oração fúnebre: “Quem, para mais conscientemente se orgulhar de ser português, alguma vez se interessou pela nossa herança espiritual, encontrou sempre no excecional espírito de Carolina Michaëlis o mais amável dos mestres e o mais seguro dos guias”.
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Chrys Chrystello

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