Acabo de ler a melhor explicação sobre o nosso nevoeiro: Catarina Valadão –

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Acabo de ler a melhor explicação sobre o nosso nevoeiro: Catarina Valadão – A região autónoma do nevoeiro

Há fenómenos meteorológicos e depois há o nevoeiro açoriano. O nevoeiro açoriano não é uma condição atmosférica. É um regime político. Instala-se, toma posse do território e governa sem oposição durante dias. Celebra a sua autonomia. A certa altura deixa de haver céu. Deixa de haver horizonte. Deixa de haver ilha. Há apenas uma espécie de fumaça branca onde se suspeita que depois dela existam vacas, montanhas e aeroportos. Os aeroportos, aliás, transformam-se numa experiência filosófica. Já não são infraestruturas de transporte. São centros de reflexão sobre a fragilidade da condição humana.

Ao segundo dia de espera, o passageiro começa a perder as referências temporais. Pergunta que dia é hoje. Ninguém sabe. Pergunta quando parte o voo. Ninguém sabe. Pergunta se existe voo. Ninguém sabe. O painel informativo converte-se numa obra de arte conceptual. Durante horas apresenta a mesma mensagem: “atrasado”, “divergido” ou “aguarde novas informações”. Os passageiros espalham-se pelo terminal como sobreviventes de uma expedição polar. Há quem ocupe estrategicamente três cadeiras. Há quem construa uma pequena fortaleza com malas de cabine. Há quem já tenha desenvolvido relações familiares profundas com o vendedor da loja Duty Free. Ao terceiro dia, começam a surgir comunidades organizadas. Há o grupo dos pessimistas, o grupo dos que juram ter visto uma aberta no nevoeiro e o grupo dos que acreditam que o aeroporto é agora a sua residência fiscal. O mais extraordinário é que as condições do aeroporto evoluem exatamente à mesma velocidade que as condições meteorológicas: nenhuma.

Fora não se vê um palmo à frente do nariz. Dentro também não se vislumbra uma solução. Os bancos continuam concebidos para impedir qualquer forma de conforto humano. As informações continuam vagas. Os carregadores continuam ocupados por aparelhos ligados desde a administração do primeiro presidente do governo regional. E todos aguardam. Os Açores conseguiram inventar uma experiência turística única: o campismo aeroportuário involuntário. É possível conhecer melhor o terminal do que a ilha. Observa-se mais o ecrã das partidas do que a paisagem. Colecionam-se mais vales de refeição do que fotografias. E depois do vale utilizado vem o anúncio final: “o seu voo foi cancelado”. De seguida chegam as mensagens das companhias aéreas, verdadeiras obras-primas da literatura minimalista: “Entre em contacto com a sua companhia” ou “Aguarde por novas informações”. Como se o passageiro ainda não estivesse precisamente a tentar contactar a companhia há horas, enquanto aguarda por informações desde a última era geológica. Nessa fase, resta apenas rezar para que a solução proposta não seja um voo dali a três dias ou, melhor ainda, uma recolocação noutro voo marcado para um dia em que a previsão anuncia, com entusiasmo, mais nevoeiro. Ao fim de vários dias, quando finalmente o nevoeiro se levanta, ninguém festeja a viagem. A viagem tornou-se secundária. Celebra-se apenas a descoberta de que o mundo continua a existir para lá das portas automáticas do aeroporto. E, por um breve instante, todos os sobreviventes olham para o céu azul com a mesma emoção de um náufrago que avista terra firme. Até ao próximo banco de aeroporto. Nota: Ao quinto dia ainda não vejo o céu azul… Mas, pelas minhas contas, já teria dado para ressuscitar um morto. Talvez D. Sebastião…

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