lembrar crioulos em 25 de abril

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trabalho apresentado no 10º colóquio da lusofonia (7º colóquio anual Bragança 2008)

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Crioulos de base portuguesa – Dulce Pereira

Os crioulos são línguas naturais, de formação rápida, criadas pela necessidade de expressão e comunicação plena entre indivíduos inseridos em comunidades multilingues relativamente estáveis. Procurando superar a pouca funcionalidade das suas línguas maternas, estes recorrem ao modelo imposto (mas pouco acessível) da língua socialmente dominante e ao seu saber linguístico para constituir uma forma de linguagem veicular simples, de uso restrito mas eficaz, o pidgin, que posteriormente é gramaticalmente complexificada e lexicalmente expandida, em particular pelas novas gerações de crianças que a adquirem como língua materna, dando origem ao crioulo.

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Chamam-se de base portuguesa os crioulos cujo léxico é, na sua maioria, de origem portuguesa. No entanto, do ponto de vista gramatical, os crioulos são línguas diferenciadas e autónomas. Sendo a língua-base aquela que dá o léxico, podemos encontrar crioulos de diferentes bases: de base inglesa (como o Krio da Serra Leoa), de base francesa (como o crioulo das Seychelles), de base árabe (como o Kinubi do Uganda e do Quénia) ou outra.

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Os crioulos de base portuguesa são habitualmente classificados de acordo com um critério de ordem predominantemente geográfica embora, em muitos casos, exista também uma correlação entre a localização geográfica e o tipo de línguas de substrato em presença no momento da formação.

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Em África formaram-se os Crioulos da Alta Guiné (em Cabo Verde, Guiné-Bissau e Casamansa) e os do Golfo da Guiné (em S. Tomé, Príncipe e Ano Bom).

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Classificam-se como Indo-portugueses os crioulos da Índia (de Diu, Damão, Bombaim, Chaul, Korlai, Mangalor, Cananor, Tellicherry, Mahé, Cochim, Vaipim e Quilom e da Costa de Coromandel e de Bengala) e os crioulos do Sri-Lanka, antigo Ceilão (Trincomalee e Batticaloa, Mannar e zona de Puttallam). Quanto a Goa (na Índia), é discutível se aí se terá formado um crioulo de base portuguesa. Theban (1985) e Tomás (1995) consideram, contrariamente a Holm (1989) e Clemens (1996, 2000), que a pressão muito forte do português, língua oficial e de instrução, teria impedido a formação de um crioulo em Goa.

Na Ásia surgiram ainda crioulos de base portuguesa na Malásia (Malaca, Kuala Lumpur e Singapura) e em algumas ilhas da Indonésia (Java, Flores, Ternate, Ambon, Macassar e Timor) conhecidos sob a designação de Malaio-portugueses.


Os crioulos Sino-portugueses são os de Macau e Hong-Kong.

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Na América encontramos ainda um crioulo que se poderá considerar de base ibérica, já que o português partilha com o castelhano a origem de uma grande parte do léxico (o Papiamento de Curaçau, Aruba e Bonaire, nas Antilhas) e um outro crioulo no Suriname, o Saramacano, que, sendo de base inglesa, manifesta no seu léxico uma forte influência portuguesa. (v. Crioulos com forte influência lexical portuguesa).
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Alguns autores referem-se a variedades de um semicrioulo de base portuguesa no Brasil e a variedades dialetais afro-brasileiras que corresponderiam a uma fase avançada de descrioulização de antigos crioulos, como a de Helvécia.

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A época das navegações e da expansão e colonização portuguesas foi propícia ao contacto linguístico e à formação de crioulos. As situações sociolinguísticas decorrentes dos diferentes tipos de contacto entre a língua portuguesa e as outras línguas africanas, asiáticas e americanas, estiveram na origem de manifestações linguísticas também diferentes.

.Os primeiros contactos favoreceram, naturalmente, a formação de pidgins, para efeitos de comunicação imediata, sobretudo quando as línguas veiculares tradicionalmente usadas para o mesmo fim, como o árabe, deixavam de ser funcionais. Estes pidgins perduraram como línguas de comércio na África e na Ásia até ao século XVIII.

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A partir desses primeiros contactos, onde a língua portuguesa se conseguiu impor, apoiada por um número elevado de falantes (como no Brasil) ou por uma política de ensino e difusão sistemática (como em Goa, sede do poder militar e administrativo português desde 1512), foi plenamente adquirida pelos grupos que a ela tiveram acesso e manteve-se assim, com vitalidade, muitas vezes a par das outras línguas maternas e do próprio pidgin de base portuguesa.

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Pelo contrário, a formação das línguas crioulas ocorreu, tipicamente, em comunidades multilingues em que houve fraco acesso ao modelo da língua portuguesa (sendo o número de portugueses proporcionalmente muito inferior ao dos outros grupos), perda parcial ou mesmo total de funcionalidade das outras línguas maternas e forte miscigenação. Estas condições ocorriam em zonas de concentração e isolamento das populações miscigenadas (como em Korlai, na Índia), longe das suas terras e culturas de origem, em particular em plantações e em ilhas como as de Cabo Verde e S. Tomé, mas também nas fortificações costeiras edificadas pelos portugueses nos séculos XV e XVI (como Cananor e Cochim).

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Os crioulos de base portuguesa conhecidos surgiram nas zonas e locais assinalados nos mapas de três modos distintos: ou por formação in loco ou por difusão (tendo, neste caso, migrado com os seus falantes para diferentes partes do mundo às vezes tão longínquas como as Antilhas), ou ainda pela convergência das duas formas. Os crioulos de base portuguesa que se presume terem existido em algumas zonas do Brasil, nomeadamente no Nordeste, poderão ter sido o resultado dessa convergência: ao contexto multilingue favorecido pelas plantações de açúcar veio associar-se a importação de escravos de regiões africanas onde comprovadamente já se falava crioulo, como no arquipélago de S. Tomé.

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Sendo, ao contrário dos pidgins, línguas maternas de uma comunidade, os crioulos, uma vez formados, passaram a constituir símbolos de identidade de grupo o que explica, em grande parte, a sua resistência às subsequentes investidas assimiladoras das línguas de poder e de maior prestígio social e cultural que com eles se mantiveram em contacto, entre as quais o próprio português.

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Essa resistência foi tanto maior e mais eficaz quanto maior o isolamento (como em Tugu) e quanto menor o poder e a pressão das línguas em contacto (nomeadamente através da instrução). Foi ainda favorecida quando à língua crioula se veio associar a identificação com a religião cristã, por oposição às religiões circundantes (como em Casamansa e em Malaca). Em circunstâncias em que as populações falantes de crioulos ascenderam à independência (Cabo Verde, Guiné-Bissau…) houve mesmo uma revitalização do crioulo, fortalecida nos casos de oficialização (Papiamento)..

Ainda assim, esses focos de resistência acabaram frequentemente por ceder e permitir uma descrioulização umas vezes paulatina, outras acelerada, conduzindo, em alguns casos, à morte, em particular quando os crioulos perderam a funcionalidade em favor de outras línguas social e politicamente dominantes (como aconteceu com a maioria dos crioulos da Ásia).

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Base Portuguesa

A origem lexical dos crioulos de base portuguesa é nalguns casos facilmente reconhecível como se pode verificar na seguinte expressão em Crioulo de Cabo Verde:

 

E meste pa nho ben li

Ele (haver) mister (de) para senhor vem ali

Ele precisa (de) que o senhor/você venha cá

 

Já em Forro, um dos crioulos de S. Tomé, o reconhecimento se torna mais difícil, como evidencia o seguinte dito popular (a que corresponde o dito português cada um serve-se das armas que tem)

Mina pikina ka pidji ku bóka

Menina pequena ficar pedir com boca

A criança pede com a boca

Ngê tamé ka pidji ku uê

Alguém tamanho ficar pedir com olho

O adulto pede com os olhos

 

Neste crioulo as profundas mudanças fonológicas tornam mais evidente a divergência em relação ao português. A inexistência dos fonemas representados por –r- e –rr-, na grafia portuguesa, torna muito difícil, por exemplo, a identificação de palavras como tela e lenha, que se traduzem, respetivamente, por terra e rainha. O mesmo sucede no crioulo do Príncipe, ou Lunguyé (Língua da ilha), em que estes fonemas desaparecem: Tetúga kodá na súnu, e wé buká kágu (A tartaruga acordou do (seu) sono, foi buscar a carga).
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A origem portuguesa da maioria das unidades que compõem o léxico das novas línguas crioulas não implica que tenha havido manutenção do sistema lexical português. Pelo contrário, as unidades lexicais foram reanalisadas e integradas num sistema fonológico, morfológico, sintático e semântico novo e, apesar das semelhanças notórias, quase sempre divergente.

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A coexistência sincrónica de semelhanças e divergências associada ao efeito do contacto com outras línguas e ao efeito das diferentes mudanças diacrónicas sofridas autonomamente, ao longo de cinco séculos, pela língua portuguesa e pelas línguas crioulas que dela derivam, dá origem, por um lado, a dificuldades de reconhecimento do étimo português (como nos exemplos do santomense e do principense acima), e, por outro, a um fenómeno de aparente compreensão e consequentes mal–entendidos entre falantes das duas línguas, crioula e portuguesa.

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Dificuldades de reconhecimento

 

Tomando como exemplo um dos crioulos de base portuguesa de mais fácil descodificação lexical para um falante de português, o Crioulo de Cabo Verde, na sua variedade de Santiago, vemos como ainda assim são inúmeros os casos de dificuldade de reconhecimento do significado da palavra, devido, entre outros, aos seguintes fatores:

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  1. Forte erosão fonética, própria das línguas de tradição oral: a palavra ka pode advir, por exemplo, de kasa (port. casa e casar ), kaba (port. acabar), ka ba (port. não ir).
  2. Mudança radical da forma fonológica: dibra corresponde ao português dívida.
  3. Reestruturação silábica: pulugrama (port. programa)
  4. Divergência da forma portuguesa de base e convergência casual com outra forma portuguesa atualmente em uso: pasu (port. pássaro e não passo).
  5. Derivação de palavras arcaicas ou em desuso: kuma (port. antigo: coma), limaria (animal), do port. alimária.
  6. Alteração da forma original por analogia com outras formas crioulas: disferenti (diferente)¸ diskesi (esquecer).
  7. Manutenção da forma e mudança do significado: pe (port. e perna até ao joelho ou até à anca; tronco, caule; árvore) de que um caso particular é o uso de morfemas de origem portuguesa (como o prefixo dis- (do port. des-)) com significado diferente: diskume (do port des + comer, com o significado de ruminar).
  8. Manutenção das formas mas rearranjo morfológico para a formação de uma palavra nova (com novo significado): distanpa, port. perder a tampa (do port. dis + tampa); disgrasadésa, port. disparate, tolice (do port. desgraçado + –eza).
  9. Reanálise das fronteiras de morfemas: azágua, port. a época das chuvas (do port. as águas).
  10. Composição de formas de diferentes origens: disdangu, port. desdenhar (port. dis + mandinga danku, « responder »).
  11. Acentuada multifuncionalidade lexical, podendo a mesma forma assumir diferentes categorias sintáticas como kaska (port. casca, côdea e descascar) e madera (madeira, forrar com madeira), simultaneamente Nomes e Verbos.

 

Pidgin


Em situações de contacto entre falantes de línguas maternas diferentes que, por razões de ordem social, têm necessidade urgente de comunicar entre si surge, frequentemente, uma forma de linguagem veicular, utilizada em situações restritas de comunicação, a que se dá o nome de pidgin. O pidgin corresponde aos primeiros estádios de aquisição espontânea da língua do grupo socialmente dominante pelos falantes das outras línguas. O grupo dominante que, inicialmente, procura adaptar e simplificar a sua língua para se fazer entender, acaba por ter de aprender o pidgin, uma vez este formado.

.O pidgin é uma linguagem subsidiária, de recurso, com um léxico e morfologia reduzidos, não podendo, pois, funcionar como língua materna. A língua dominante, também chamada língua-base, contribui essencialmente com o léxico para a sua formação. Diz-se, assim, de um pidgin cujo léxico deriva da língua portuguesa, que é um pidgin de base portuguesa.

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Foi a urgência de entendimento mútuo entre europeus e africanos (e, posteriormente, asiáticos), que criou as primeiras condições de emergência de pidgins de base portuguesa, nos séculos XV e XVI. Estes, em alguns casos, por um processo de complexificação estrutural e expansão lexical, deram origem a crioulos.
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Crioulos da Alta Guiné

 

Os crioulos de base portuguesa da Alta Guiné englobam os crioulos de Cabo Verde (variedades de Barlavento e de Sotavento), da Guiné-Bissau e de Casamansa, no Senegal.

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São os crioulos de base portuguesa mais antigos e mantêm grande vitalidade, apesar de línguas não oficiais, embora nacionais.

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O kriolu de Cabo Verde ou kauberdianu é língua materna de todos os cabo-verdianos que nascem no arquipélago (descoberto pelos portugueses em 1460) e também da maioria dos que vivem na diáspora. Criou-se inicialmente em Santiago e no Fogo, nas primeiras ilhas povoadas e colonizadas com europeus e escravos vindos da costa ocidental de África. Tem duas variantes principais: a de Barlavento e a de Sotavento.
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O Kriol surgiu na região dos rios da Guiné, do rio Senegal à Serra Leoa, no início do século XVI, em particular nas «praças» que funcionavam como entrepostos comerciais, tais como Cacheu, Ziguinchor, Geba e Farim.

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Em Ziguinchor (Casamansa) que, na sequência do estabelecimento de fronteiras com o governo francês em 1886, deixou de estar sob o domínio português, fala-se uma variedade do crioulo de Cacheu, com influência do crioulo de Bissau, mas com caraterísticas gramaticais e lexicais próprias.

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Enquanto o crioulo cabo-verdiano se manteve apenas em contacto com a língua portuguesa, falada também como língua segunda e às vezes materna por uma parte considerável da população, os crioulos da Guiné-Bissau e de Casamansa coexistem não só com o português e o francês, respetivamente, mas com as múltiplas línguas africanas do território, de que recebem constantes influências. Mais especificamente na Guiné-Bissau, o crioulo, língua materna ou língua segunda de grande parte da população, convive com mais de vinte línguas dos grupos Oeste-Atlântico e Mande.

 

Crioulos do Golfo da Guiné

 

As ilhas de S.Tomé, Príncipe e Ano Bom, foram descobertas pelos portugueses entre 1470 e 1471 mas ocupadas apenas em 1485, 1500 e 1503, respetivamente.

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No início do século XVI S. Tomé era já um entreposto de escravos onde se formou o primeiro crioulo de base portuguesa desta área, o forro ou santomense. Nesse período foram enviados escravos para o Príncipe e para Ano Bom, para trabalhar nas plantações, pelo que os crioulos do Golfo da Guiné tiveram todos provavelmente a sua origem no forro de S. Tomé, tendo-se desenvolvido, no Príncipe, o Principense ou Lunguyê (Língua da Ilha) e em Ano Bom o Anobonês ou Fá d’Ambô (Falar de Ano Bom).

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O Santomense deve-se ter estabilizado no fim do século XVII, quando diminuiu o fluxo de escravos, tendo atingido uma forma muito próxima do atual basileto.

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Nos primeiros cem anos os escravos eram trazidos principalmente do Benim onde se falavam as línguas Kwa. Mais tarde recebeu influências do Kikongo falado pelos escravos vindos do Rio Congo. Embora com menos expressão, subsiste, ainda, em S.Tomé, um outro crioulo, o Angolar.

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A comunidade angolar foi formada por escravos fujões no século XVI. O crioulo falado pelas primeiras gerações de angolares sofreu provavelmente uma relexificação à medida que a comunidade acolhia novos escravos fujões falantes de línguas de origem banto, como o Quimbundo, o Edo e o Kikongo.

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O Angolar e o Santomense divergem fundamentalmente no léxico e na fonologia e estão bastante próximos na morfologia e na sintaxe o que sugere uma história comum durante as primeiras fases do seu desenvolvimento. O Santomense tem um léxico maioritariamente de origem portuguesa embora com influência das línguas Kwa e Banto. O léxico do Angolar integra um maior número de fontes africanas, sobretudo do Quimbundo.
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O principense apresenta grandes afinidades com o forro, não só pela origem santomense dos primeiros escravos cuja língua serviu de modelo aos escravos posteriormente importados, mas também pela coincidência do substrato linguístico Banto e Kwa.

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Depois da sua introdução na ilha, juntamente com os primeiros escravos vindos de S. Tomé, o Fá d’Ambô desenvolveu-se isoladamente, com poucas influências do exterior, já que os poucos brancos que permaneciam na ilha o faziam por curtos espaços de tempo. A ilha foi cedida aos espanhóis nos finais do século XVIII e faz parte desde 1968 da República da Guiné Equatorial.

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Nos últimos cem anos o crioulo importou algumas palavras do espanhol. Hoje os Anobonenses são bilingues em Fá d’Ambô e Espanhol.

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Crioulos Indo-Portugueses

 

Dos muitos crioulos de base portuguesa que se falaram na Índia e no Ceilão poucos são os que ainda sobrevivem, umas vezes na memória dos falantes mais idosos, outras apenas sob a forma de vestígios nas manifestações da tradição oral e religiosa, raramente como línguas maternas.

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Schuchardt e Dalgado dão notícia de vários crioulos já extintos no século XIX, como os da Costa de Coromandel (Meliapor, Madrasta, Pondicheri, Tranquebar, Manapar, etc…) e de Bengala (Balassor, Chandernagor, Chittagong, entre outros). Os inúmeros crioulos norteiros em torno de Bombaim (como os de Baçaim, Salcete, Mazagão e Chaúl), línguas maternas das comunidades cristianizadas pelos portugueses, desapareceram entretanto. A mesma sorte tiveram os crioulos da costa de Malabar, à exceção do de Vaipim, ilha próxima de Cochim, que permaneceu até aos nossos dias, mas falado apenas por umas poucas famílias da comunidade cristã. Em Cananor e Tellicherry, nos anos oitenta, ainda era possível obter, junto dos mais velhos, algumas reminiscências do crioulo. Também o crioulo de Diu cedeu à pressão da língua dominante e de escolarização obrigatória, o guzarate, e resiste apenas entre os mais idosos e sem instrução.
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Damão e Korlai são os grandes focos da resistência dos crioulos de base portuguesa na Índia. O crioulo de Damão é língua da casa de uma população de cerca de 2000 pessoas. Em Korlai, aldeia isolada após a conquista marata em 1764, o crioulo ou língua Kristi é ainda hoje a única língua materna de quase mil cristãos.
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No Sri Lanka, o crioulo, mesmo após o fim da ocupação portuguesa (1505-1658), persistiu como língua materna da população cristã de ascendência portuguesa e holandesa, os «Burghers», em Trincomalee e Batticaloa, onde subsiste ainda em algumas zonas rurais, embora muito influenciado pelo Tamil e pelo Cingalês. O mesmo crioulo funcionou como língua franca em toda a ilha, até ao século XIX, altura em que o inglês o suplantou, restringindo-se então, progressivamente, ao uso familiar entre os Burghers e foi falado até meados do século XX em Mannar e na área de Puttallam. Aqui, entre os descendentes das famílias de cafres trazidos no século XIX da África Oriental, como soldados, pelos ingleses, ainda se encontram alguns velhos que sabem crioulo além do cingalês e toda a comunidade sabe cantar canções em crioulo.
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Crioulos Malaio-Portugueses

 

Na Malásia, mais propriamente em Malaca (possessão portuguesa entre 1511 e 1641), formou-se um crioulo de base portuguesa que ainda hoje é falado por uma comunidade de mais de mil cristãos, o papiá kristang, língua que, com os seus falantes, migrou para outras localidades como Kuala-Lumpur e Singapura.
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Em vários pontos da Indonésia em que os portugueses estabeleceram entrepostos comerciais, como em Sumatra, Macassar (Celebes), Ambon e Ternate (Molucas), nas Flores e em Timor, surgiram variedades de um crioulo de base portuguesa muito próximo do Papiá Kristang de Malaca.

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O crioulo funcionou como língua franca em Batávia (atual Jacarta), desde o século XVII ao início do século XIX, falado por holandeses, descendentes de soldados e de escravos por eles trazidos da Índia e pela comunidade de origem portuguesa. Em Tugu, aldeia isolada a norte de Jacarta, os descendentes dos portugueses mantiveram vivo o crioulo, como língua materna, até aos anos quarenta, embora ainda fosse falado nos finais dos anos setenta do século passado.

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Uma comunidade fugida aos ataques holandeses, primeiro de Malaca (1641) e posteriormente de Macassar (1660) estabeleceu-se em Larantuka, nas Flores, onde ainda hoje se mantêm vestígios do crioulo nas tradições religiosas.

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Em Timor existiu numa zona suburbana de Díli uma variedade de crioulo de base portuguesa, semelhante às de Malaca e de Macau, falada pelos «moradores» de Bidau, soldados e oficiais voluntários provindos da antiga capital, Lifau, e dos estabelecimentos portugueses das Flores (como o de Larantuka) e de Solor que aí se instalaram, com as suas famílias. Atualmente, apenas alguns timorenses reconhecem a existência deste crioulo que identificam como uma variedade mal falada de português, o português de Bidau.
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Crioulos Sino-Portugueses

 

O macaísta ou patuá, hoje praticamente extinto, surge em Macau a partir de 1557, trazido por portugueses vindos de Malaca. Nas primeiras décadas do século XX ainda era falado por muitos como língua materna bem diferenciada do português, mas o desenvolvimento do ensino da língua oficial, depois de 1850, acelerou o seu processo de descrioulização. Por volta dessa data migra mais uma vez com os «filo Macau» (filhos de Macau) para a recém formada colónia inglesa de Hong-Kong. Com o desaparecimento das gerações mais antigas vindas de Macau (que, além da língua materna crioula, dominavam o português escrito, o cantonês e o inglês), e com o êxodo dos macaenses desencadeado pelos ataques dos japoneses durante a segunda guerra mundial, o macaísta foi-se tornando cada vez menos funcional em Hong-Kong, tendo desaparecido como língua de grupo e sobrevivendo apenas na memória de alguns.
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Crioulos com forte influência lexical portuguesa

 

A forte presença num crioulo de léxico de uma determinada origem linguística pode resultar de diferentes fatores :

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  1. Advir da língua-mãe, que esteve na origem da sua formação.
  2. Advir das línguas de substrato, também presentes na fase da formação.
  3. Ser resultado de um processo de relexificação ou substituição em massa do léxico inicial pelo léxico de uma língua posteriormente em contacto.
  4. Ser resultado de um processo de descrioulização, ou seja, assimilação a uma língua de contacto com maior prestígio ou poder, com substituição progressiva das unidades e estruturas próprias do crioulo pelas da outra língua.
  5. Provir de empréstimos para colmatar falhas em algumas áreas lexicais do crioulo (tal como a da metalinguagem ou a da terminologia técnica).

 

Na zona das Antilhas e do Suriname surgem dois crioulos que, não podendo ser considerados sem restrições, como de base lexical portuguesa, contêm em si um considerável acervo lexical de origem portuguesa. São eles o Papiamento (do port. papear) e o Saramacano.

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Papiamento

Crioulo falado nas lhas de Curaçau, Aruba e Bonaire, nas Antilhas Holandesas, ao norte da Venezuela desde a segunda metade do século XVII. Tem atualmente um estatuto de língua oficial juntamente com o neerlandês. A grande maioria do seu léxico é de origem hispânica, sendo notoriamente inferior a contribuição do neerlandês. Dada a proximidade entre o português e o espanhol é frequentemente muito difícil, se não impossível, determinar qual das duas línguas está na origem de cada uma das unidades lexicais do Papiamento. A palavra do papiamento sukú tem tantas probabilidades de advir do português escuro como do castelhano oscuro. É no entanto curiosa a evolução para sukuru, em cabo-verdiano, crioulo inequivocamente de origem unicamente portuguesa.

Existe, na verdade, um elevado grau de similitude entre as estruturas e o léxico do papiamento e os de outros crioulos africanos de base portuguesa, em particular a variedade santiaguense do cabo-verdiano e os crioulos do Golfo da Guiné, nomeadamente o Santomense.

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A forte presença do léxico português, sobretudo antes da relexificação progressiva, no século XVII, em direção ao espanhol, língua da religião católica e da oposição simbólica aos holandeses (protestantes) e com grande peso na área geográfica envolvente, deveu-se à confluência dos seguintes fatores: importação de escravos vindos da costa ocidental de África, onde eventualmente já dominariam um pidgin ou mesmo um crioulo de base portuguesa e permanência de uma comunidade de judeus falantes de português que haviam fugido às perseguições católicas.

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Saramacano

 

Crioulo falado no interior do Suriname, em que a língua oficial é o Holandês. Tem cerca de 25.000 falantes da tribo dos Saramacanos e 2.000 da tribo Matawai.

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Atualmente pode ser considerado um crioulo de base inglesa com forte influência lexical portuguesa, embora essa influência tenha decrescido consideravelmente durante o século XIX.

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As origens do Saramacano são controversas. Nos fins do século XVII, na área central do rio Suriname, onde havia muitas plantações judias, existiu uma forma mista de linguagem (português e inglês), o Dju-Tongo, que poderia ter sido um pidgin precursor do Saramacano. Segundo Smith (1987) o Dju-Tongo seria o resultado do contacto entre um pidgin inglês e um crioulo português do Suriname falado entre os escravos fugidos das plantações. A primeira fuga em massa dos escravos (Matjáu) da plantação Emanuel Machado (um português) foi em 1690. Nessa perspetiva, o Saramacano poderá ser considerado um antigo crioulo de base portuguesa que sofreu um processo de relexificação pelo inglês.

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Perl (1999) aponta duas origens para o léxico de base portuguesa do Saramacano: o português adquirido pelos saramacanos no contacto com os seus senhores, falantes do português, e/ou o pidgin de base portuguesa que já seria falado pelos escravos na África Ocidental.

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Crioulos do Brasil

 

Alguns autores referem-se a uma variedade não standard do português brasileiro, o Português Vernáculo do Brasil (PVB) (Holm & al 1999), como sendo um semicrioulo, uma variedade que, embora partilhando com os crioulos alguns traços estruturais, não resultou de um processo de crioulização radical. Nesta perspetiva, em situação de contacto entre múltiplas línguas, o português, constituindo um modelo pouco acessível, nomeadamente nas comunidades escravas, teria sido adquirido como segunda língua por falantes adultos de outras línguas maternas (em particular africanos) de uma forma imperfeita sofrendo uma reestruturação parcial e nessa forma tendo sido transmitido de geração em geração. A presença de traços tipicamente crioulos (tais como a variação no uso de flexões verbais e na concordância nominal e verbal) ter-se-ia devido, igualmente, à influência de antigos crioulos falados no Brasil (nomeadamente pelos escravos trazidos da costa ocidental de África para trabalhar nas plantações) e atualmente extintos.
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Para outros autores (como Parkvall 1999), o grau de reestruturação patente no PVB é tão moderado que dificilmente se lhe poderá aplicar a designação de semicrioulo, podendo a reestruturação existente explicar-se, não só pelo efeito do contacto com outras línguas, mas também, pela evolução interna inerente a qualquer língua.

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No entanto, existe uma variedade dialetal afro-brasileira que parece corresponder a uma fase avançada de descrioulização de um anterior crioulo, a variedade de Helvécia, ao sul da Baía. A povoação de Helvécia descende de escravos negros que pertenciam a uma colónia suíça-alemã fundada em 1818. Segundo Baxter (1995), nas primeiras épocas da Colónia Leopoldina, o português que serviu de modelo para a formação desta variedade era ele próprio muito variável, sendo falado por uns como língua materna e por outros como língua segunda, o que favoreceu um processo mais radical de reestruturação.
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Fontes
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Perl, M. 2000. “The Portuguese Origin of the Saramaccan Vocabulary Reconsidered”. Ernesto d’Andrade, Dulce Pereira e Maria Antónia Mota, eds. Crioulos de Base Portuguesa. Lisboa: Associação Portuguesa de Linguística.
Post, M. «Fa d’Ambu». Arends, J. & al. (eds.). 1995. Pidgins and Creoles: An Introduction. Amsterdão: John Benjamins. 191-204.

Quint-Abrial, N. 1998. Le Créole de l’Île de Santiago (République du Cap Vert). Tomo 3. Dissertação de doutoramento..
Scantamburlo, L. 1999. Dicionário do Guineense: Introdução e Notas Gramaticais. Lisboa: Eds. Colibri.

.Smith, N.1987. The Genesis of the Creole Languages of Surinam. Dissertação de doutoramento.

.Theban, L. 1985. “Situação e Perspetivas do Português e dos Crioulos de Origem Portuguesa na Índia e no Sri Lanka”. Atas do Congresso sobre a Situação Atual da Língua Portuguesa no Mundo. Vol.1. Lisboa: ICALP. 269-285..Thomaz, L. F. 1985. “A Língua Portuguesa em Timor”. Atas do Congresso sobre a Situação Atual da Língua Portuguesa no Mundo. Vol.1. Lisboa. ICALP : 313-339.

Tomás, M. Isabel. 1992. Os Crioulos Portugueses do Oriente – Uma Bibliografia. Macau: Instituto Cultural de Macau.
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.http://cvc.instituto-camoes.pt/hlp/geografia/crioulosdebaseport.html

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Ishi-no-Hoden: Japan’s Colossal Floating “Anti-epidemic” Megalith | Ancient Origins

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Ishi-no-Hoden is one of Japan’s most mysterious and bewildering monuments, a gigantic stone structure in the shape of an old tube TV almost 6 meters (20 ft) high and 500 tons (560 US tons) in weight

Source: Ishi-no-Hoden: Japan’s Colossal Floating “Anti-epidemic” Megalith | Ancient Origins

a mudança é uma chatice,

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a mudança é uma chatice, tudo é contra…somos um país de velhos do restelo acomodados…

 

Sobre o projecto da Praça Gonçalo Velho Cabral Sou suspeita, mas como mulher de cultura, ligada à Arte e ao Património desde sempre, não posso, neste momento, esquivar_me a dar uma opinião objectiva, isenta e o mais profissional possível, até por respeito aos cidadãos de Ponta Delgada, da ilha de S. Miguel e dos Açores em geral. O centro histórico de Ponta, Delgada tem sofrido inúmeras alterações, tendo em vista o melhoramento do seu espaço urbano e das acessibilidades. Naturalmente desde “antigo ermo” até aos nossos dias, várias têm sido as intervenções, sempre discutíveis, mas, de forma geral, visando um maior conforto para cidadãos e visitantes. Muito ainda há a fazer, é certo. Tal como em nossas casas há espaços mais públicos, outros mais íntimos, outros mais funcionais e ainda outros de lazer e bem estar. Tal é a nossa cidade, como casa colectiva, que respeita as belezas do passado, conhece a sua história, integra os vários estilos nas respectivas épocas, compreende as diferentes mentalidades conforme os períodos históricos e projecta o futuro, de acordo com uma visão actualizada e com justificação sustentada e plausível, no presente. Neste caso, o centro histórico de Ponta Delgada tem sido alvo de várias intervenções, executadas por artistas diferentes, como exposição de espaços calcetados, que se vão complementando. Neste caso, este centro procura, neste momento, criar um espaço de conforto para os cidadãos do século XXI, dentro do espírito de espaço público colectivo actual, de acordo com a matéria prima, da calçada portuguesa, que agora prepara a sua candidatura a património mundial. A solução adoptada neste projecto revela bem o conhecimento estético da actualidade, longe das florinhas e dos bordadinhos de uma época que já passou. Há que actualizar, com uma visão estética actual e esclarecida, como é esta solução. Gosto muito, independentemente de respeitar outras opiniões. Agradeço muito que não se confunda esta opinião com ligações afectivas. Obrigada pela oportunidade.

Margarida Teves Oliveira.

perigo de CO2 nas Caldeiras da Ribeira Grande

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Luis Torres

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COMUNICADO || Risco devido à presença de CO2 nas Caldeiras da Ribeira Grande – Termas da Câmara Municipal da Ribeira Grande
O Centro de Informação e Vigilância Sismovulcânica dos Açores informa que, no âmbito da monitorização dos fenómenos de desgaseificação que se desenvolvem na zona das Caldeiras da Ribeira Grande, ilha de São Miguel, foram registados valores de dióxido de carbono acima dos limites de exposição admissíveis em termos de saúde pública no ar interior do edifício.
Tais valores foram detetados na zona dos quartos de banho, recomendando-se a adoção das seguintes medidas preventivas, de acordo com o nível de alerta:
⚠️ O tempo de permanência nos espaços em causa não deve ultrapassar os 30 minutos, recomendando-se que seja garantido o seu imediato arejamento.
A aplicação das medidas preventivas e as recomendações expressas mantêm-se válidas durante todo o dia.
O CIVISA continua a acompanhar o evoluir da situação, emitindo novos comunicados caso necessário.

Crioulo de Damão e Diu

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Crioulo de Damão e Diu

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.
Crioulo de Damão e Diu
Falado em: Índia
Total de falantes: 4.250
Família: Línguas crioulas
Crioulos portugueses
Crioulos indo-portugueses
Crioulo de Damão e Diu
Códigos de língua
ISO 639-1: --
ISO 639-2: ---
MapaDamãoDiu.png

A língua crioula de Damão e Diu, também conhecida como Crioulo Indo-Português de Damão e Diu e, pelos seus falantes, como Língua da Casa (em Damão) ou Língua dos Velhos (em Diu), refere-se a algumas variantes do crioulo indo-português falado nos territórios indianos de Dadrá e Nagar Aveli e Damão e Diu, dois territórios da União da Índia. Essas variantes se originaram do crioulo original falado pelos chamados ‘norteiros’, habitantes dos antigos enclaves portugueses da costa oeste da Índia. Dada a etnia dos norteiros, é provável que o substrato da língua crioula de Damão e Diu seja o gujarati, enquanto o estrato é o português[1]. Ela faz parte de um conjunto de línguas crioulas indo-portuguesas, como crioulo da região de Bombaim, que é fruto da interação entre o português e a língua marati.[1][2]

Entrada do Forte de São Jerônimo, Damão

As variantes de Damão e Diu, faladas predominantemente em regiões que pertencem ao estado indiano de Gujarate, participavam das mesmas dinâmicas políticas e sociais, e sofreram as mesmas influências do português, inglês e gujarati, as três línguas faladas oficialmente nesses territórios. Por isso, podem ser descritas como uma única língua, compreendida mutuamente por diversas comunidades e tendo sistemas de escrita muito semelhantes.[3]

Antes da anexação do território pela Índia, o idioma passava por um processo de descrioulização, devido à padronização da Língua Portuguesa de Portugal no território de Goa.[2] Apesar do idioma estar se extinguindo gradualmente, ainda existem cerca de 4.000 falantes do crioulo de Damão e 250 falantes do crioulo de Diu.[3] Esse processo pode ser explicado pelo fato de que essas línguas eram amplamente faladas em pequenas comunidades durante o período colonial na Índia, porém recentemente, com a retirada da administração portuguesa na região, o uso institucional da língua foi substituído por outras línguas oficiais do Estado da índia.[1][2]

Apesar de ter inúmeras semelhanças com o português, um traço bem marcante desse crioulo é a contração de diversos fonemas que ainda são usados no português, obedecendo aos princípios de brevidade e menor esforço. Essas transformações fonéticas podem acontecer no início, no meio ou no fim de palavras.[1]

Classificação

Igreja de São Tomás, Diu

A língua se classifica como crioula por ter sido formada durante o contato forçado de colonização de exploração de uma nação europeia sobre povos originários dos demais continentes. Nesse caso, eram os grupos dos indianos gujaratis que habitavam a região e os colonos portugueses. Esses grupos mantiveram um contato forçado por anos durante o período colonial português na Índia.[2]

Seu estrato, o português, é uma das línguas da família românica, ou seja, das línguas derivadas do latim. A língua surgiu como variante meridional do antigo galego-português, consolidando-se durante o processo de Reconquista da Península Ibérica. O português falado nas regiões de Portugal e Galiza foi levado para as Índias durante a Era dos Descobrimentos. O português é falado por aproximadamente 270 milhões de falantes nativos e secundários, sendo considerada a sexta língua mais falada no mundo.[4]

O substrato da língua, o gujarati, tem origem nas línguas arianas, subgrupo das indo-europeias. É a sexta língua mais falada na Índia, oficial apenas no estado de Gujarate e nos territórios de Dadra e Nagar Aveli e Damão e Diu. Por conta dos altos índices de migração indiana para a América do Norte e Europa, o gujarati é um idioma bem presentes nesses continentes. O gujarati é a sexta língua mais falada na Índia e a vigésima sexta mais falada no mundo, com 55,5 milhões de falantes nativos.[5]

História

Durante as Grandes Navegações, Portugal criou e estabeleceu diversas feitorias em cidades já existentes e ocupadas por diversos povos na Índia, como em Bombaim e Calicute. Todas essas regiões controladas por Portugal formavam a Índia Portuguesa, ou o Estado Português da Índia. No litoral noroeste, estavam as cidades de Damão e Diu, que foram enclaves litorâneos controlados pela Coroa Portuguesa desde a década de 1530.[1][2]

Fortaleza portuguesa em Diu

Estima-se que o crioulo de Damão e Diu tenha começado a se formar na primeira metade do século XVI, porém só foi registrado em 1883, quando foi organizada uma expedição do filologista alemão Hugo Schuchardt, creditado como o fundador dos estudos de línguas crioulas. Schuchardt publicou um artigo de 16 páginas intitulado “Indo-Português de Diu” que, embora tivesse uma base de dados limitada, por muito tempo foi a única fonte fiável que descrevia a língua.[6]

Durante quatro séculos e meio, no período da Índia Colônia, os territórios de Damão e Diu eram enclaves do Estado Português da índia, juntamente com Goa, Dadrá e Nagar-Aveli. Esses enclaves foram ocupados pela União Indiana em 19 de dezembro de 1961, porém Portugal só reconheceu a ocupação em 1974. Os territórios de Damão, Diu e Goa foram administrados pela União até 1987, quando Goa se tornou um estado dentro da índia e Damão e Diu foram reconhecidos como um território separado administrativamente.[1][2][3]

No início do século XX, a língua crioula já era muito restringida, normalmente falada em pequenas comunidades e grupos familiares ou durante confissões em igrejas católicas, porém em situações sociais mais monitoradas, as pessoas davam preferência ao português e ao gujarati, sendo essa segunda geralmente aprendida durante a infância. Por conta dessa restrição, os norteiros normalmente se comunicavam nessas línguas apenas em pequenas comunidades ou grupos familiares. Até hoje o gujarati é o idioma predominante nessas regiões e estudos indicam que, em breve, prevalecerá sobre o crioulo, visto que outras línguas de origens parecidas já foram extintas, como o crioulo de Cochim. Por serem formados em regiões e grupos próximos étnica e socialmente, os crioulos indo-portugueses têm características comuns. Atualmente, essa língua crioula é falada por apenas alguns milhares de habitantes dessas regiões, principalmente entre as populações mais velhas.[1][7]

Fonologia

Por ser uma língua amplamente baseada no português, suas consoantes são essencialmente as mesmas, com exceção de [ɲ], representado por “nh” em português, que foi substituído pelo [ŋ] no crioulo de Damão e Diu, representado pela letra ŋ. Por fim, há o [ʒ], que no português pode servir de som para a letra g, mas não existe nesse crioulo. Em relação às vogais, a única mudança é a adição do schwa [ə], que não está presente na língua portuguesa.[2]

Consoantes

Fonemas consonantais de Damão e Diu
Bilabial Labiodental Dental/
Alveolar
Palatal Velar
Nasal m n ŋ
Plosiva p b t d k g
Fricativa f v s z ʃ
Africada ʧ ʤ
Vibrante r
Aproximante j ɰ
Aproximante lateral l

Vogais

As vogais fechadas, semifechadas e abertas podem ser nasalizadas. Na grafia do crioulo de Damão e Diu, isso é representado com um til sobre a vogal (ã, ẽ, ĩ, õ, ũ), semelhante ao que ocorre no português.[2]

Fonemas vocálicos de Damão e Diu
Anterior Central Posterior
Fechada i u
Semifechada e o
Média ə
Semiaberta ε ɔ
Aberta a

Fenômenos fonológicos

Os praticantes desse crioulo são conhecidos por contraírem diversos fonemas das palavras, tornando-as mais curtas quando comparadas às equivalentes em português. Por isso, as transformações fonológicas do português para o crioulo de Damão e Diu são muitas.[1]

Dentre essas transformações, destacam-se os metaplasmos por supressão, especialmente as supressões de vogais. Isso pode ocorrer no início das palavras (aférese, como em acordar > korda), no meio (síncope, como em testemunho > testmuŋ) ou no fim (apócope, como em casa > kaz). Esse fenômeno ocorre também a letra r no final dos verbos infinitivos.

Destacam-se também os os metaplasmos por transposição, que podem ocorrer palatalizando uma consoante, como em muito cedo > muxed, ou despalatalizando-a, como em sobrinho > subriŋ. Há também os metaplasmos por aumento, como em à noite > anot.[2]

Escrita

Por ser uma língua crioula falada por uma população pouco numerosa, a escrita da língua crioula de Damão e Diu não tem uma forma padronizada. Algumas formas escritas, normalmente utilizadas por comunidades pequenas de falantes mas com muitas variações, são baseadas somente na escrita portuguesa. Hugo Cardoso, no livro “O Indo-Português de Diu” (2009), propõe uma escrita padrão baseada no português e suplementada por letras do Alfabeto Fonético Internacional (IPA), de forma que cada letra corresponda estritamente a um fonema.[2] Essa escrita é a mais utilizada no contexto acadêmico.[1][2]

A escrita de algumas palavras pode mudar de acordo com a inicial da palavra que a sucede ou a última letra da palavra que a precede. Um exemplo é o pronome pessoal εl, que pode se tornar əl quando precedido por uma palavra que termina em -i.

Algumas palavras emprestadas do inglês, como courthouse e surprise, não seguem a mesma escrita do restante do idioma, sendo mantida a grafia original do inglês.[2]

Ortografia

Pela língua ser baseada no português, seu alfabeto é muito semelhante, apenas com as exceções que são feitas, a partir do IPA, para restringir a homografia. Algumas letras que podem representar dois fonemas no português representam apenas um neste alfabeto. As letras t, d, k, g, s, x, ch e j são adotadas exclusivamente para os fonemas /t/, /d/, /k/, /g/, /s/, /ʃ/, /ʧ/ e /ʤ/ respectivamente.

Além disso, utiliza-se as letras adicionais ε, ɔ, ə e ŋ, retiradas do IPA. Abaixo estão listadas as letras cujo uso é diferente daquele do português:[2]

Letra Damão e Diu Português
ε ε em pεd é em médio ou e em raquete
ɔ ɔ em nɔs ó em nó ou o em hora
ə ə em dəpəy (não existe no português)
k k em kabrit c em casa
ŋ ŋ em apiŋa (não existe no português)
z z em zasey z em zebra ou s em casa
x x em dex x em peixe ou ch em mecha
ch ch em chumas t em algumas variantes, como em tia
j j em janεl d em algumas variantes, como em dia

Gramática

As flexões do português são bastante reduzidas ou inexistentes neste crioulo. Os substantivos e verbos não têm flexões de gênero e número, elas são indicadas apenas pelos pronomes.[2]

Pronomes

Pronomes pessoais

Os pronomes pessoais do crioulo são os indicadores de número, logo os outros elementos da frase não são modificados. Essa regra pode ser exemplificada nas frases: “nɔs vay nə kazəmẽt də mĩ irmã” (nós vamos no casamento da minha irmã) e “yo vay nə kazəmẽt də mĩ irmã” (eu vou no casamento da minha irmã), onde os pronomes são as únicas palavras que sofrem flexão de número.

Os pronomes, de forma geral, não sofrem flexão de gênero, com exceção da terceira pessoa do singular, apresentando a forma masculina el e a feminina εl. Apesar disso, o pronome el pode ser utilizado, de forma mais ou menos comum de acordo com o falante, como substituto de εl e elz, funcionando em ambos os gêneros e números.[2]

O único pronome pessoal que pode ser modificado no caso oblíquo é o de primeira pessoa do singular, yo (caso reto) e mi (caso oblíquo).[2]

Singular Plural
1a pessoa yo / mi (obl.) nɔs
2a pessoa use usez
3a pessoa el (m.) / εl (f.) e(l)z

Pronomes possessivos

Quanto aos pronomes possessivos, apenas os de primeira pessoa mantiveram a forma românica tradicional do português. Os demais, “teu/tua” e “seu/sua” foram substituídos respectivamente pelas contrações “de você(s)” e “dele/a(s)”.[2]

Singular Plural
1a pessoa nɔs
2a pessoa duse dusez
3a pessoa del (m.) / dεl (f.) de(l)z

Substantivos

Flexões

Em relação às flexões, os substantivos podem variar muito no crioulo de Damão e Diu, já que não ocorre a separação de substantivos contáveis e incontáveis, palavras de valor semântico parecido podem ter ou não flexão de número. As palavras flexionáveis apresentam a adição do sufixo -s no final da palavra, semelhante ao que ocorre no português. No entanto, há modificadores comuns que podem ser utilizados em todos os casos, como bastãt (muitos) e aŋũ (alguns). Números também podem ser utilizados como indicadores de quantidade, como em “kwɔt adiw” (quatro raposas) ou “sey chumas” (seis travesseiros).[1][2]

Do mesmo modo que ocorre no português, o sufixo -iŋ (-inho) pode ser utilizado para indicar diminutivo, como em ratiŋ (ratinho).[2]

Via de regra, o gênero não é marcado nos substantivos, e o uso de artigos é arbitrário e pouco usual. Quando é necessário deixar claro o gênero da palavra, pode-se usar max para o masculino e fem para o feminino, como em “doy bufəl fem” (duas búfalas).[1][2]

Reduplicação do substantivo

A reduplicação de um nome ocorre quando há necessidade de enfatizar o substantivo na frase. Diferente de outros crioulos próximos ao de Damão e Diu, essa reduplicação não serve para marcar o plural. A palavra duplicada não sofre alteração fonológica, como parent-parent, a duplicação da palavra parent.[1]

Uma outra função para a reduplicação de um substantivo pode ser para indicar plural apenas em frases que indicam posse, como em “es tud rəkri tud ε də moyr-moyr”, que pode ser traduzido como “toda essa comida pertence aos vários muçulmanos”. Nesse caso, a reduplicação indica plural.[2]

Verbos

Os verbos são flexionados de acordo com o tempo verbal, mas nunca de acordo com pessoa, número e gênero. Esses três últimos são indicados na frase com o auxílio de outros elementos, mas nunca pela conjugação verbal. Existem apenas dois tempos verbais, passado e não-passado (já que o presente e o futuro são sempre conjugados da mesma maneira). Além disso, há duas formas não-finitas: infinitivo e particípio. Os modos e aspectos verbais são indicados a partir de auxiliares, logo não flexionam os verbos.

A maior parte dos verbos podem ser separados em diferentes grupos, de acordo com sua vogal temática, conforme mostrado na tabela abaixo. Os verbos que não se encaixam nesse agrupamento são chamados de irregulares – como exemplo, a tabela mostra o verbo vay (ir).[2]

Vogal temática (VT) Infinitivo(raiz + VT) Não-passado Passado Particípio
a par-a (parar) raiz (par) raiz + o (paro) raiz + VT + d (parad)
e sab-e (saber) raiz (sab) raiz + VT + w (sabew) raiz + i + d (sabid)
i uv-i (ouvir) raiz com transf. vogal (ov) raiz + VT + w (uviw) raiz + i + d (uvid)
verbo vay vay (ir) vay foy id

Tempo, aspecto e modo verbal

Algumas formas verbais são expressas por locuções verbais com modalizadores, como kere (querer). Outros, como o a (indicador de futuro), não são caracterizados como verbos.

De forma geral, as frases no passado indicam pretérito perfeito. Para a indicação de pretérito imperfeito, são utilizados os marcadores e tiŋ, seguido do verbo no infinitivo. Por exemplo: peacock vuo (“a barata voou”) vs. peacock tiŋ vua (“a barata voava”).[2]

Reduplicação do verbo

Mesmo que não seja muito comum, a reduplicação do verbo pode ser usada para intensificar a ação. Logo, a frase “si yo a bebe-bebe tə durmi” pode ser lida como “se eu beber muito, eu acabarei dormindo”.[2]

Verbos compostos

Auxiliar te

Como já dito anteriormente, os marcadores e tiŋ podem ser utilizados para indicar pretérito imperfeito. Eles são conjugações do verbo irregular te (ter), sendo que indica não-passado e tiŋ indica passado. Além do uso já citado, eles aparecem como auxiliares de verbos infinitivos e particípios.

Em quaisquer casos, eles indicarão imperfeição ou continuidade, podendo substituir o gerúndio do português. Por exemplo, a frase “yo gio saykəl” é traduzida como “eu andei de bicicleta”, mas “yo tiŋ gia saykəl” pode ser traduzida tanto como “eu andava de bicicleta” como “eu estava andando de bicicleta”.

O auxiliar exerce a mesma função para sentenças que não estão no passado, marcando o aspecto imperfeito ou contínuo. Por exemplo, a frase “el tə fala mĩtir” pode ser traduzida como “ele está mentindo”.

Outra forma do verbo forma a expressão “ti ki” (literalmente, ‘tem que’), que funciona como modalizador de obrigação. Por exemplo, a frase “nɔ ti ki vay iskɔl i dəpəy pəd brika”, traduzido como “nós temos que ir à escola e depois podemos brincar”.[2]

Auxiliares a e vidi

Os auxiliares a(d) (normalmente escritos como a ou ad, mas também como adə ou ədə) se originaram a partir da conjugação do verbo ‘haver’ para o futuro, como ocorre na frase “ele há de querer que fiquemos juntos”. Ao contrário dos auxiliares te, não apresentam derivação verbal dentro da própria língua, já que a palavra a sozinha não exprime nenhuma ação.

Os auxiliares a, ad e seus derivados indicam futuro simples, futuro hipotético e sentenças condicionais. Exemplos:

  1. yo a sai primer ki də duse (eu vou sair antes de você)
  2. el nə ad pude gia, el a kai vay (ele não conseguiria pilotar, ele cairia)
  3. officer si fika saben nã ad gosta (se o policial ficar sabendo, ele não vai gostar)

O auxiliar vidi indica futuro do pretérito. Por exemplo, a frase “elz vidi faze kaz si delz jũt tiŋ diŋer”, que pode ser traduzida como “eles teriam feito uma casa se eles tivessem dinheiro”.[2]

Auxiliares pude e kere

De maneira similar aos auxiliares te, o auxiliar pude (poder) assume as formas pɔd (não-passado) e pudiŋ (passado). Eles podem indicar possibilidade, habilidade física e permissão. Esses auxiliares sempre precedem o verbo modificado.

Da mesma forma, o auxiliar kere assume as formas kεr (não passado) e keriw (passado). Eles normalmente indicam desejo, porém também podem ser usados, mais raramente, para a substituição da construção ti ki, funcionando como modalizador de obrigação e sendo utilizado em sua forma infinitiva kere.

Exemplos:

  1. es nã pɔd da kume pə tud jẽt də fɔr, ε kar (ninguém pode dar comida para todas as pessoas de fora, isso é caro)
  2. dəpəy el keriw ag (depois ele queria água)
  3. use kere ãda (você deve andar)[2]

Vocabulário

Numeração cardinal

Número Escrita em Português OcultarEscrita em Damão e Diu
1 um ũ
2 dois doy
3 três trey
4 quatro kwɔt
5 cinco sĩk
6 seis sey
7 sete sεt
8 oito oyt
9 nove nɔv
10 dez dez
11 onze õz
12 doze doz
13 treze trez
14 catorze katɔrz
15 quinze kĩz
16 dezesseis zasey
17 dezessete zasεt
18 dezoito zoyt
19 dezenove zanɔv
20 vinte vĩt
30 trinta trĩt
40 quarenta kwɔrẽt
50 cinquenta sikwẽt
60 sessenta sεsẽt
70 setenta sεtẽt
80 oitenta oytẽt
90 noventa novẽt
100 cem sẽ
200 duzentos duzẽt
300 trezentos trey sẽt
400 quatrocentos kwɔt sẽt
500 quinhentos kiŋẽt
600 seiscentos sey sẽt
700 setessentos sεt sẽt
800 oitocentos oyt sẽt
900 novecentos nɔv sẽt
1000 mil mil

Numeração ordinal

Enquanto a numeração cardinal é essencial para a língua, a ordinal se mostra em grande desuso. Apenas os três primeiros números são amplamente usados, enquanto os números ordinais de 4 a 6 são raramente vistos, provavelmente adquiridos por conta dos dias da semana em português. Além desses, os outros não são tão registrados na fala de Damão e Diu, porém é comum que adicionem o sufixo -m para indicar número cardinal, como em oytm (oitavo).[2]

Número ordinal Escrita em Português OcultarEscrita em Damão e Diu
1 primeiro pimer
2 segundo sigũd
3 terceiro terser
4 quarto kwɔrt
5 quinto kĩt
6 sexto sest

Algumas outras palavras

Português OcultarDamão e Diu
domingo dumĩg
segunda-feira sigũd
terça-feira ters
quarta-feira kwɔrt
quinta-feira kĩt
sexta-feira sest
sábado sab(d)
avô avo
avó avziŋ
menino baba, rapaz
menina bai, rap(ə)rig
irmão irmãw
irmã irmã
homem ɔm
marido marid, ɔm
mulher, esposa muyεr
neto nεt
neta nitiŋ
pai pay
mãe mãy
amarelo amrεl
azul azul
branco brãk
laranja larãj
preto pret
rosa (kod) roz
verde verd
vermelho vεrmey
marrom, café kafε
roxo, jamelão jamlãw
animal animal
inseto bix
pássaro pas(r)
peixe pex
raposa adiv
sapo mãduk
mosquito muskit
porco pork
caranguejo karẽgej
crocodilo crocodile
leão lion

Referências e bibliografia

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  2. Ir para:a b c d e f g h i j k l m n o p q r s t u v w x y z aa ab CARDOSO, Hugo C. (2009). The Indo-Portuguese Language of Diu. Coimbra: [s.n.]
  3. Ir para:a b c CLEMENTS, J. Clancy (2009). Journal of Portuguese Linguistics. Universidade de Indiana: [s.n.] pp. 23–47
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