USO E ABUSO DA LINGUAGEM E A REESCRITA DO PASSADO

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USO E ABUSO DA LINGUAGEM E A REESCRITA DO PASSADO

 

Já não bastava reescrever as palavras, mas até já se começa a querer reescrever a memória

 

Já não bastava maquilhar a linguagem, a criada tornou-se auxiliar, o operário colaborador, sem que a realidade se alterasse. Hoje, a questão transcende os nomes porque começamos a querer reescrever a própria memória. Julgamos o passado com o nosso manual moral contemporâneo, esquecendo que os gregos não eram modernos e que Shakespeare não escrevia segundo os nossos códigos. O passado era, de facto, passado.

Estudar História não é perguntar apenas se algo seria hoje aceitável, mas sim como pensavam essas pessoas, que valores e alternativas conheciam. Podemos criticar sem falsificar. Perante clássicos como A Odisseia, em vez de forçar Homero a falar como nós, devemos descobrir o que ele nos diz por ser diferente. Ulisses não é um cidadão de 2026, mas reconhecemo-nos nele porque subsiste nele o fundo mítico da experiência humana que se expressa no regresso, na perda, na vingança e na fidelidade.

Uma cultura verdadeiramente moderna usaria o mito para interrogar o presente, não para o corrigir. O problema surge quando reinterpretar significa “corrigir” e a leitura única é imposta como moralmente autorizada. A censura atual não proíbe, mas dita: “Podes ler, mas deves compreender da maneira correta.” Uma cultura livre preserva a liberdade de interpretar, sem difamar os clássicos para se ajustar ao politicamente correto.

Vivemos na era da informação, mas confundimo-la com conhecimento. Fragmentos sucedem-se em avalanche; a opinião substitui a reflexão e a indignação substitui o argumento. O passado torna-se tribunal onde, em vez de perguntarmos “Como foi possível?”, perguntamos “Como puderam, se hoje sabemos que estava errado?”; desta maneira queremos apenas ter a pretensão de confirmar a nossa “superioridade”. Todas as épocas tiveram as suas cegueiras. Daqui a séculos, olharão para as nossas certezas com o mesmo espanto. Esquecemos que o passado não recebeu o nosso manual de instruções.

Não precisamos de absolver o passado, mas também não de o reescrever. A ambição, a vaidade, o medo e o amor continuam a ser os mesmos; o tirano muda de nome e a praça de rede social, mas a essência perdura. Os clássicos incomodam-nos porque não estão ultrapassados, mas sim por reconhecerem o nosso rosto. A verdadeira atitude moderna é ter imaginação para olhar para nós através dos olhos dele. É preciso humildade porque o passado não é um aluno atrasado à espera da correção; somos nós que seremos passado. Que modernidade é esta que tem medo de escutar Homero ou Shakespeare sem os domesticar? Falta-nos a segurança de dizer: Não penso como tu, mas quero compreender por que pensavas assim e descobrir o que em ti continua a existir em mim.

António da Cunha Duarte Justo
Texto completo argumentativo em Pegadas do Tempo ©: https://antonio-justo.eu/?p=11217
ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

 

VOLTANDO AO ACORDO OROGRÁFICO

Ao ler-se o artigo “O Acordo Ortográfico ainda não pode ser julgado” de Paulo Freitas do Amaral, verifica-se que o artigo é um primor de retórica histórica, mas peca por determinismo tecnológico. Ele olha para as redes de informação como um mero eco do Acordo, quando, na verdade, elas são o seu principal campo de batalha. Longe de tornarem o Acordo irreversível, as novas tecnologias expõem as suas incongruências diariamente, mantendo viva a grafia anterior nos motores de busca e permitindo, pela primeira vez na História, uma flexibilidade ortográfica em tempo real. Se o autor estivesse certo, a inteligência artificial já teria resolvido a questão; mas a realidade é que a IA gera constantemente erros e confusões entre as variantes, provando que o Acordo não é uma realidade cultural consolidada, mas uma norma administrativa em permanente tensão com a prática viva da língua, uma tensão que a tecnologia, afinal, tornou mais visível, e não mais pacífica.

  1. O “argumento da escala temporal” é uma falácia de autoridade ao apelar para a História. Quando afirma que 20 anos são “extremamente curtos” perante “nove séculos”, ele está a cometer um sofisma. Este raciocínio é uma armadilha lógica que torna qualquer crítica eternamente prematura. Se 20 anos são curtos, 50 também o serão, e 100 também, porque a língua tem 900.

O que ele esconde com esta retórica é que a avaliação de um sistema não precisa de séculos. A coerência interna de uma língua avalia-se pela lógica, não pela cronologia. Se eu desenhar um mapa com coordenadas erradas, não preciso de esperar 50 anos para saber que os viajantes se vão perder; posso analisar a geometria do mapa no dia seguinte. O Acordo Ortográfico tem vícios lógicos que são atemporais e que a retórica do autor tenta abafar com a névoa do “tempo histórico”.

  1. A “coerência interna” e o pecado da exceção (O “deus dará”)

O historiador deixa a coerência “ao deus dará”. Coerência interna é a relação previsível entre a fonologia (o som) e a grafia (a escrita), e a relação morfológica entre palavras da mesma família (ex: eletricidade / elétrico). Se a língua não obedece a decretos, porque assume que obedece a este?

O Acordo Ortográfico, na sua aplicação prática, quebrou essa coerência em vez de a aperfeiçoar. Ele eliminou as consoantes mudas (ex: acção, ação), mas apenas quando não são pronunciadas. Contudo, na derivação, essas mesmas consoantes reaparecem porque são pronunciadas: escrevemos ação (sem ‘c’), mas escrevemos acionista ou acionar (com ‘c’? Não, espera, a regra é acionar sem ‘c’ também? Vamos a um exemplo mais claro: contacto, passou a contato em Portugal? Não, a regra diz que se a consoante for pronunciada, mantém-se. Então pacto mantém o ‘c’ porque se pronuncia? Com isto abre-se caminho à confusão.

O exemplo clássico é a dupla grafia de verbos que passaram a ter oscilações caóticas. Como já referi no artigo https://antonio-justo.eu/?p=11083 o que o Acordo fez foi substituir uma ortografia etimológica (com regras claras, ainda que complexas) por uma ortografia fonética superficial, mas cheia de exceções e casuísmos e empobrecimento das pessoas gramaticais. É exatamente o oposto de uma coerência interna, passando a ser uma colcha de retalhos. Ignorar esta análise técnica em nome de “já passou uma geração” é, de facto, deixar o rigor ao acaso.

  1. A confusão entre “sucesso de implementação” e “qualidade sistémica”

O autor do texto troca os campos semânticos propositadamente. Ele diz que não se pode chamar “fracasso” porque as pessoas estão a escrever de acordo com a nova norma. Mas isso é confundir adesão forçada com qualidade linguística.

A escolaridade obrigatória e os dicionários institucionais impõem qualquer norma, mesmo que ela seja má. A questão nunca foi se as pessoas conseguem adaptar-se (elas conseguem porque os humanos são plásticos), mas sim o que se perdeu nessa adaptação. Perdeu-se a transparência etimológica (a ligação ao latim e grego, que ajudava na compreensão de palavras eruditas), perdeu-se a distinção gráfica entre palavras homófonas (ex: cesta e sexta já eram confusas, mas outras surgiram) e, sobretudo, perdeu-se a unicidade da raiz morfológica. Avaliar o sucesso ou fracasso sem passar pelo crivo da funcionalidade cognitiva e pedagógica é um debate vazio. O autor foge desse crivo porque, se o enfrentasse, teria de admitir que a reforma é, na melhor das hipóteses, um mal que atenta contra a lógica da língua.

  1. O “tempo” não cura contradições lógicas

Por fim, a maior fragilidade da posição do historiador é assumir que o tempo é uma espécie de alquimia que transforma o errado em certo. Se uma regra é internamente contraditória hoje, continuará a sê-lo daqui a 100 anos. As pessoas podem habituar-se à contradição porque o cérebro humano normaliza o absurdo, mas isso não faz dela uma boa regra. A História que ele invoca não é um juiz que absolve os erros; é um arquivo que os regista.

Quando ele diz que “a língua não obedece a decretos”, e simultaneamente defende que os decretos devem permanecer só porque foram aplicados, ele está a contradizer a sua própria premissa. Se a língua é orgânica, ela rejeitaria espontaneamente as más soluções. Ora, o que vemos é que a língua não rejeitou porque a tecnologia e a escola a amoleceram. Estamos perante uma língua em estado de “vida assistida”, não de evolução natural.

Em suma, o texto de Paulo Freitas do Amaral é uma magnífica peça de oratória para silenciar críticos, apelando à paciência histórica. Mas a verdade é que um linguista ou um filólogo sério não precisa de esperar 900 anos para saber se uma reforma faz sentido; precisa apenas de olhar para o paradigma verbal, para a derivação sufixal e para a economia cognitiva da escrita. E, nesse olhar, o Acordo revela-se frágil, incoerente e profundamente dependente de “deus dará” – ou, pior, do “deus algorítmico” dos corretores ortográficos. Na qualidade de historiador Paulo Freitas do Amaral pronuncia-se sobre um assunto que não faz parte da sua especialidade e deveria reconhecer que a filosofia da História não deve seguir o cunho político/partidário porque obedece a uma outra lógica.

António da Cunha Duarte Justo

ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6251-1578

Continua em Pegadas do Tempo: https://antonio-justo.eu/?p=11207

 

AMOR

“Se nada nos pode salvar da morte, ao menos que o amor nos salve da vida.”(Pablo Neruda)

A frase de Neruda é sábia e provoca reflexão! Sugere que, embora o amor não possa vencer a inevitabilidade da morte, ele pode dar sentido, esperança e força para enfrentar a vida.

No entanto, a frase parece incompleta porque não é apenas o amor que nos “salva” da vida. Também a amizade, a fé, os sonhos, a arte, o conhecimento e os propósitos podem tornar a existência mais cheia.

Talvez o verdadeiro sentido da frase esteja em reconhecer que a vida, por si só, pode ser difícil, e que o amor é uma das experiências mais poderosas para a tornar suportável e significativa, sem ser a única.

António da Cunha Duarte Justo

 

Publicado por

CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL

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