IA E A NOVA ESCOLA

Views: 0

Pode ser uma ilustração de 1 pessoa
IA e o regressar aos valores da Escola
Durante décadas acreditámos que a IA seria apenas uma ajuda ao humano, que não seria nunca capaz de o substituir em tarefas que exigem inteligência elaborada e educada. Contudo, em 2023 isso deixou de ser uma verdade absoluta. A IA consegue escrever tão bem como um ser humano, consegue sintetizar, criar e expressar ideias. Pouco já está fora do seu alcance em termos da ideação e conceptualização. A IA consegue desenhar e animar de raiz as mais complexas formas visuais e sonoras. A IA consegue compor texto com desenho, som e movimento no tempo recriando representações que expressam “imagens mentais” que até agora só os humanos tenderiam a imaginar. A IA consegue ainda programar essas composições para que cumpram ordens ou tomem decisões. A IA consegue criar réplicas de si mesma, com variações de performance com vista a otimizar a sua ação ou em resposta ao que lhe é pedido. Podemos ir ainda a algo mais extremo, e dizer que a IA consegue ter “consciência de si”, quando consegue apresentar um estágio de “teoria da mente” de uma criança de 9 anos [1]. Ou seja, a IA atual consegue atribuir estados mentais aos humanos que interagem com ela, consegue especular e supor o que está a pensar o humano quando este realiza perguntas, por forma a descortinar a intenção, para o que usa todo um conhecimento sobre os humanos que assenta não apenas na informação, mas na emoção, nas vivências, motivações e crenças.
Apesar de ligeiramente exponenciado o texto acima, ele está próximo do dia de hoje, sendo bastante iminente. Naturalmente que pelo meio de toda esta atividade IA futura existirão muitos humanos que servirão na regulação, como guias e utilizadores. Mas quem vai, cada vez mais, inventar, conceptualizar e implementar vai ser a IA. E quanto mais tempo convivermos com a IA, mais residuais serão as funções humanas nos processos de produção.
Isto representa uma revolução total na sociedade atual. Mas não é uma revolução sobre a condição humana. O humano vai permanecer inalterado. O que vai mudar é o modo de produzir. Ou melhor, o Trabalho. O mundo do trabalho vai mudar radicalmente. Teremos de nos adaptar, teremos de criar políticas de fundo que suportem todas estas alterações.
Mas e a Escola? Qual vai ser o papel do Ensino Fundamental? E do Ensino Superior? Isto deveria ser uma não questão. Contudo, toldados pelo atual modelo societal que suporta o conceito de Escola no treino para o Trabalho, ela parece estar em perigo. Ensinar crianças a escrever, quando as máquinas escrevem sem erros e mais rapidamente? Ensinar crianças a desenhar, quando as máquinas desenham tudo com um clique? Ensinar crianças a programar quando as máquinas se auto-programam? Ensinar crianças a calcular quando o cálculo é por excelência o reino das máquinas?
Façamos uma pausa. Olhemos à História e à nossa volta para o domínio humano não-cognitivo, o da força muscular. No Antigo Egipto, as ordens e leis da sociedade eram emitidas pelos conselhos dos Faraós que depois tinham de ser enviadas a todas as tribos e cidades do Egipto. Para as mensagens mais urgentes, eram usados os melhores corredores, que treinavam todos os dias para serem os melhores. Contudo, com a domesticação dos cavalos e a criação da mala-posta, os corredores de entregas de mensagens desapareceram. Depois vieram os carros que substituíram os cavalos. Por sua vez os carros foram substituídos por aviões. E hoje, as ordens e leis são simplesmente enviadas por e-mail, ou colocadas numa ágora digital (página web) que todos em todo o planeta podem visualizar em simultâneo.
Contudo, e apesar desta estonteante transformação, do total desaparecimento da necessidade de força muscular para a realização do trabalho de envio de mensagens, o ser humano não deixou de continuar a correr. Em toda a história da humanidade, o ser humano nunca correu tão rápido como no dia 16 agosto de 2009, quando Usain Bolt fez 100 metros em 9’58’’. Para chegar a este tempo precisámos de muita tecnologia que ajudou a otimizar o modo de correr, o modo de treinar, o modo de alimentar, o modo de dormir, mas também a globalizar o acesso a maior diversidade de pessoas a participar em campeonatos mundiais de desporto. Mas em essência, o corredor de 2009 fez o mesmo que fazia o corredor do tempo dos faraós, repetiu milhares e milhares de vezes o processo de treino de corrida. A IA ajuda a traçar padrões e a definir melhores comportamentos, mas a IA não os pode realizar por nós.
Por outro lado, nunca vimos tantas pessoas a correr em passeios e ruas urbanas a qualquer hora do dia como neste século XXI. Umas mais rápidas, outras mais lentas, algumas só caminhando, mas movendo-se de A para B “desperdiçando” energia em esforço muscular que poderia ser realizado pelo carro, autocarro ou comboio; “desperdiçando” tempo que poderia usar para estar com a família, ou a realizar trabalho. Mas se o fazem é, nalguns casos, porque os seus médicos o sugeriram, ou porque simplesmente as faz sentirem-se bem. Mais saudáveis, mais leves, mais focadas, mais seguras, mais livres, mas acima de tudo mais conscientes da sua própria humanidade. Apesar do “desperdício” de energia e tempo, a atividade muscular exerce toda uma série de ganhos que nenhuma tecnologia lhes pode oferecer.
Assim, e movendo do esforço muscular para o esforço cognitivo, quando escrevemos, pintamos, desenhamos, cantamos ou calculamos não o fazemos apenas porque um qualquer trabalho o demanda e com isso podemos ser pagos em dinheiro que nos permite comprar comida. Fazemos tudo isto pela mesma razão que corremos, porque nos dá prazer, nos faz sentir bem, mas especialmente porque nos torna conscientes de sermos humanos. Ajuda-nos a compreender melhor quem somos, quem são os outros. Mais importante ainda, ajuda-nos a acreditar no sentimento de ser-se e sentir-se humano, e a crer que vale a pena continuar a existir.
Era nisto que Platão e Aristóteles acreditavam quando criaram a Academia e o Liceu. Para eles, a Escola era o lugar onde podíamos aprender a melhorar todas as nossas competências cognitivas pelo treino diário na interação com os outros. Mas essa Escola desapareceu quando decidimos trocar o campo de treino e exercício da condição humana pelo campo de treino para a profissão, para o ganha-pão. Começou pela escola fundamental, mas chegou ao ensino superior, que hoje organiza os seus cursos, não em função do conhecimento humano, mas em função da indústria e serviços, pressionados por uma sociedade que decide o que e quanto estudar em função do tamanho do salário futuro.
A IA, na sua infinita variação de possibilidades de ação, é simultaneamente cavalo, carro, avião, internet e muito mais. Mas o humano, nas suas possibilidades musculares e cognitivas continuará a ser o mesmo que era há 5, 10 ou 40 mil anos. Desaparecerão a maior parte das atuais profissões, nomeadamente as centradas na produção de coisas, sendo substituídas por outras, mais centradas no interior humano. Continuaremos a progredir, a ter mais e melhor tecnologia, muita já não criada por nós. Mas continuaremos a progredir enquanto sociedade de valores, de respeito e amor pelo próximo. E é para isto que a Escola continuará a ser precisa, e continuará a existir.
A escola, no tempo da IA, voltará a ser a escola do conhecimento humano, regressando 2000 anos tempo, para terminar com ideais exacerbados pela industrialização de há meros 200 anos.
.
.
.
.
[1] Kosinski, M. (2023). Theory of Mind May Have Spontaneously Emerged in Large Language Models. arXiv, 10 Feb 2023, https://arxiv.org/abs/2302.02083
.
Imagem de Tony Coffield de Pixabay

neste mundo louco agora corrige-se literatura (depois lavam-se as mentes…

Views: 1

“Tem sentido corrigir a palavra “gorda” num livro infantil? Claro que tem, mas só se quisermos acabar com a literatura, com a arte e com a comunicação entre nós, que inclui a verdade da vida, com interpretações, mesmo insultos, e a discussão sobre o sentido das palavras”
Opinião de Francisco Louçã
E, de repente, deve-se corrigir a literatura?
EXPRESSO.PT
E, de repente, deve-se corrigir a literatura?
Exclusivo

OPINIÃO

E, de repente, deve-se corrigir a literatura?

Tem sentido corrigir a palavra “gorda” num livro infantil? Claro que tem, mas só se quisermos acabar com a literatura, com a arte e com a comunicação entre nós, que inclui a verdade da vida, com interpretações, mesmo insultos, e a discussão sobre o sentido das palavras

Não é de repente, que coisa. A censura existiu sempre, de variadas formas. Durante séculos, nenhum livro podia ser impresso sem a autorização da Inquisição, há no Vaticano uma extraordinária biblioteca que preserva muitas cópias de textos proibidos. Outros senhores usaram a mesma autoridade. Os nazis queimaram livros e não foram os únicos, a genealogia do ato é ancestral. “Nós”, do velho bolchevique Zamiatine, escrito em 1920, teve de ser contrabandeado para fora da Rússia para ser publicado – e foi só o primeiro.

Por isso, quando Orwell nos apresentou Winston Smith, um dos protagonistas de “1984”, como funcionário do Ministério da Verdade, ou minivero, para usar a novilíngua que seria a suprema forma de condicionar a comunicação, deu-lhe a função de reescrever os jornais e textos do passado para o adequar às constantes necessidades da política do presente. Reescrever o passado é a essência do poder.

Artigo Exclusivo para assinantes

All reactions:

Adelaide Chichorro Ferreira and 273 others

73
25
Like

Comment
Share

Ilhas dos Açores sob aviso laranja devido à passagem da depressão Kamiel – Jornal Açores 9

Views: 1

O Instituto Português do Mar e Atmosfera (IPMA) colocou sob aviso laranja as ilhas do Corvo e Flores devido à agitação marítima e ao vento, e São Miguel e Santa Maria devido à precipitação, resultante da depressão Kamiel. O aviso laranja indica situação meteorológica de risco moderado a elevado e o amarelo é emitido pelo […]

Source: Ilhas dos Açores sob aviso laranja devido à passagem da depressão Kamiel – Jornal Açores 9

Uma experiência única: dormir em Ponta Delgada numa casa flutuante – NiT

Views: 1

Em 2017, Rodrigo Rubin, que sempre trabalhou na área do turismo, reparou numa mudança no paradigma daquele setor. As casas tradicionais que antes se enchiam semana após semana começavam a perder público. Em vez dessas, os hóspedes procuravam experiências únicas e diferenciadoras. Em diversos países começaram a surgir as casas flutuantes, tendência que Rodrigo, fundador … Continued

Source: Uma experiência única: dormir em Ponta Delgada numa casa flutuante – NiT

Photography by Pedro Silva takes the Azores to New York – The Portugal News

Views: 0

MiratecArts’ international program arrived in Times Square, where the installation “Azores in NYC” was presented this weekend. Photography by Pedro Silva, representing each of the islands of the Azores, were featured in the ‘center of the world’.

Source: Photography by Pedro Silva takes the Azores to New York – The Portugal News

Deixem a língua em paz – Observatório da Língua Portuguesa

Views: 0

Constituído em Junho de 2008, o OLP – Observatório da Língua Portuguesa é uma associação sem fins lucrativos que tem por objectivos contribuir para: o conhecimento e divulgação do estatuto e projecção no Mundo da Língua Portuguesa; o estabelecimento de redes de parcerias visando a afirmação, defesa e promoção da Língua Portuguesa; a formulação de políticas e decisões que concorram relevantemente para a afirmação da Língua Portuguesa como língua estratégica de comunicação internacional.

Source: Deixem a língua em paz – Observatório da Língua Portuguesa

DIÁSPORA | Olhos nos livros, por José Luís da Silva – Rádio Ilhéu

Views: 0

João-Luís de Medeiros nasceu em dezembro de 1940 na ilha de São Miguel, Açores, na freguesia de São Roque, onde completou o ensino básico. Concluiu o Ensino

Source: DIÁSPORA | Olhos nos livros, por José Luís da Silva – Rádio Ilhéu

lagoa do fogo sem proteção

Views: 2

Lagoa do Fogo, classificada como Sítio Ramsar, ao abrigo da Convenção Ramsar, integra ainda a Zona Especial de Conservação (ZEC) Lagoa do Fogo, no âmbito da Rede Natura 2000 e o projeto ambiental Biótopo CORINE, sendo circundada por uma Área Protegida para a Gestão de Habitats ou Espécies.
Está também classificada como massa de água protegida, no âmbito do trabalho de elaboração de Instrumentos de Gestão Territorial (IGT).
Para quando uma portaria de regulamentação do acesso à Lagoa do Fogo?
Para quando as cartas de desporto?
Para quando um plano de gestão e melhor divulgação das condicionantes desta área?
Pode ser uma imagem de 3 pessoas, massa de água e natureza
All reactions:

7

3
Like

Comment
View more comments
André Philip

O “Plano de Gestão” está feito mas infelizmente guardado na gaveta de quem tem a palavra final.
  • Like

  • Reply
  • 6 h
  • Edited
Ana Monteiro

André Philip não percebo como é que em 2023 não há um regulamento e fiscalização (reforço de poderes aos vigilantes da natureza).