conselhos de pais aos avós

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Não sei quem escreveu mas está brilhante 😊
Recado de uma mãe para a avó dos filhos:
• Deixei um saco com comida para os miúdos. Arroz sem glúten, massa sem glúten, bolachas sem açúcar, alfarroba desidratada e biscoitos de aveia e quinoa dos Andes.
• Não lhes dê bolos de pastelaria. Nem sumos de pacote. Nem leite de vaca. Nem chocolates. Nem leite com chocolate.
• Eles não comem nada que tenha açúcar refinado. Eu sei que a mãe faz um bolo de cenoura ótimo, mas se fizer use apenas açúcar amarelo. Mas só metade da dose. E cenoura biológica.
• Deixei também açúcar amarelo. É especial, extraído de cana-de-açúcar explorada de forma sustentável.
• Se eles insistirem muito para comer doces, dê-lhes uma peça de fruta biológica. Ou um abraço.
• O Pedro pode brincar com o iPad dele antes de ir para a cama. Mas não nos últimos 34 minutos antes de apagar a luz. É o que dizem os estudos mais recentes.
• Se ele ensaiar uma fita por causa disso, não o contrarie de mais. Não lhe tire o iPad das mãos à força. Dialogue com ele. Convença-o. Queremos que os miúdos tenham capacidade de argumentação e não queremos contrariá-los de mais, para não serem castrados na construção da sua personalidade. No fim, dê-lhe um abraço.
• O iPad é a única coisa eletrónica que o Pedro tem. O psicólogo dele dizia que não devia haver tecnologia nenhuma até aos 12 anos. Mudámos de psicólogo e o outro diz que pode haver, desde que tenha jogos que estimulem a parte do cérebro onde se constroem as emoções. Como ficámos baralhados, arranjámos um terceiro psicólogo, que disse para fazermos o que quisermos.
• Eles têm uma série de brinquedos de madeira e metal, feitos por artesãos velhinhos. Às vezes queixam-se que as rodas de lata não andam. Se for o caso, ajude-os a brincar com outra coisa qualquer, desde que não tenha plástico. Não queremos brinquedos de plástico.
• Se forem à feira e eles quiserem comprar bugigangas nos vendedores, compre-lhes uma rifa. Ou uma maçã. Ou dê-lhes um abraço.
• Todos os brinquedos devem ser partilhados. Não há brinquedo de menina e brinquedo de menino. Se o João quiser brincar com as bonecas de linho biológico da irmã, não há problema.
• Se ele quiser vestir as saias dela, também não há problema. Não queremos limitar a identidade de género dos nossos filhos.
• Há um saco com sabonete natural e champô à base de plantas medicinais sem aditivos químicos. Cheira um pouco mal, mas é ótimo para o cabelo.
• Mandei também umas toalhas de algodão biológico. Use só essas quando forem para a praia. São as melhores para o pH da pele deles.
• Todas as noites eles devem ouvir um pouco de música. Não pode ser o Despacito. O ideal é ser aquele CD de monges tibetanos. Aqueles sons são bons para o cérebro e para a digestão.
• Se eles quiserem subir às árvores, podem subir. Mas devem dar um abraço ao tronco antes disso. De preferência, devem agradecer à árvore antes de subirem para cima dela.
• Eles precisam de três abraços por dia. Pelo menos. Por favor não esqueça isso. E se puder, dê-lhes abraços de pele a tocar na pele. A energia positiva assim passa de forma mais eficaz.
PS 1: Mãe, não se enerve depois de ler isto tudo.
PS2: Cole este papel na porta do frigorífico, para não se esquecer de nada. Mas não use fita-cola, que isso tem plástico.
RESPOSTA DA AVÓ:
• Olha, filha, não sei se percebi bem os recados que me deixaste. Dizias que a Matilde não come arroz, mas houve um dia em que ela quis provar do arroz de frango que fiz para mim e para o teu pai e gostou. E pediu para repetir. Duas vezes. Já não me lembro se vocês são vegetarianos ou não, se os miúdos comem carne às vezes ou só às terças e quintas, mas ela pareceu tão consolada que no dia seguinte fiz mais. E também gostou do sarrabulho.
• Não lhes dei bolos, como pediste. Mas o teu pai não leu os recados. E ele deu. Todos os dias ao fim da tarde iam dar um passeio com o avô e o cão e passavam por casa da tia Idalina, que lhes dava uns biscoitos. Só soube isto no fim das férias. Mas acho que os biscoitos são muito bons. Depois peço-lhe a receita para te dar. Mas ela não usa cá açúcar amarelo. Não há disso na aldeia.
• Comeram iogurtes e tivemos de comprar mais queijo porque eles acabaram num instante o que tínhamos cá em casa. Já não me lembro se podiam comer queijo ou não ou se era o leite de vaca que não podiam beber. Mas como é difícil arranjar leite de cabra, comprámos do outro na mercearia e não nos chateámos com isso. Não te chateies tu também.
• Não brincaram com o iPad. Enquanto estiveram cá na aldeia nem lhe mexeram. Mas adormeciam a ver televisão. Dizias uma coisa qualquer sobre ecrãs à noite, mas eu não percebi bem.
• Houve algumas birras. E numa delas o João fartou-se de chorar. Ele disse que ia ligar-te, mas o teu pai disse-lhe para ir mas é jogar à bola e estar calado e a coisa resultou.
• Não lhes comprei brinquedos de plástico na feira, como tu disseste. E eles ficaram amuados comigo e não quiseram voltar à feira mais nenhum dia, o que foi uma chatice. Que raio de ideia, filha. Isso não correu muito bem.
• O champô que mandaste para eles, aquele das plantas medicinais, cheirava mesmo mal. Tem paciência, mas lavei a cabeça dos teus filhos com o meu champô. É bem mais barato do que o teu. Andas a gastar uma fortuna numa coisa malcheirosa, filha.
• As toalhas de algodão armado ao pingarelho que tu mandaste são tão fofinhas e estavam tão bem arrumadas que as deixei estar no sítio. Tive medo de as estragar. Os teus filhos tomaram banho todos os dias e limparam-se às toalhas que havia cá em casa. E não lhes caiu nenhum pedaço de pele. Acho que fiz tudo bem.
• Querias que lhes desse três abraços por dia. Nuns dias dei mais, noutros não dei nenhum. E houve um em que me apeteceu dar um tabefe à Matilde, porque estava a fazer uma fita, mas depois acalmou.
• Não houve cá abraços a árvores. Esqueci-me. E houve um dia em que o Pedro caiu da árvore do quintal e fez uns arranhões. Acho que não tinha vontade nenhuma de dar abraços ao tronco.
• Aquela coisa de o João vestir as saias da Matilde é que me pareceu esquisito. Ele nunca pediu para vestir a roupa da irmã. Eu achei isso bem e fiquei contente.
• Todas as noites ouviram música, como pediste, mas não foi o CD dos monges tibetanos, que isso irritava o teu pai. Ouviam a música dos altifalantes da festa. Não querias o Despacito, mas ouviram isso umas dez vezes por dia. E o Toy também. E o Tony Carreira e o Emanuel.
• Só deves ver este papel quando acabares de tirar as coisas dos sacos dos miúdos. Deixei isto no fundo da mochila do Pedro de propósito. Assim, antes de saberes das coisas que não fiz como tu querias, viste os teus filhos e viste como estavam bem alimentados e cuidados.
PS: não precisas de colar isto na porta do frigorífico. Não quero que gastes fita-cola. Se tiveres alguma dúvida, telefona-me. É isso que as mães fazem: atendem o telefone às filhas para responder a dúvidas sobre os netos.”
E é isto que está certo …
Lindo !!!!! 🤣🤣
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«POEMA DA BUGANVÍLIA Obra Completa de António Gedeão e outras obras de Rómulo de Carvalho

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«POEMA DA BUGANVÍLIA
Algum dia o poema será a buganvília
pendente deste muro da Calçada da Graça.
Produz uma semente que faz esquecer os jornais, o emprego e a família,
e além disso tudo atapeta o passeio alegrando quem passa.
Mas antes desse dia há‑de secar a buganvília
e o varredor há‑de levar as flores secas para o monturo.
Depois cairá o muro.
E como o tempo passa
mesmo contra vontade,
também há-de acabar a Calçada da Graça
e o resto da cidade.
Então, quando nada restar, nem o pó de um sorriso
que é o mais leve de tudo que se pode supor,
será esse o momento de o poema ser flor,
mas já não é preciso.» [pp. 208-209]
Obra Completa de António Gedeão e outras obras de Rómulo de Carvalho estão disponíveis em
May be an image of 1 person and text that says "OBRA COMPLETA ANTÓNIO GEDEÃO RELÓGIO D'ÁGUA"
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Moisés Roque

… mas, será “preciso”, Sempre !!!
Viva , o Poema !!
Viva , a Poesia, Sempre !
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A LUA JÁ NÃO É O QUE ERA?

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A LUA JÁ NÃO É O QUE ERA?
Dados enviados pela sonda indiana levantam muitas questões quando comparados com os dados da alunagem americana do século passado.
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Escreve Jose Valente:
Ao que parece, a Lua em que os americanos alunaram nos anos 60 do século passado, não é a mesma Lua onde alunou o veículo indiano. Vamos ouvir falar muito sobre este estranho caso.
“Dados estranhos do Chandrayaan-3. As perguntas aos EUA sobre a aterragem lunar tornaram-se mais numerosas
Uma fotografia da superfície lunar tirada pela nave indiana Chandrayaan-3, que pousou com sucesso no final de agosto, durou alguns minutos na conta da ISRO antes de ser rapidamente apagada.
Mas há muito mais questões sobre os EUA e a sua missão Apollo à Lua em 1969-1972, e nem sequer por essa razão.
Sim, toda a gente esperava ver que a bandeira americana não estava lá. Até agora, não ficámos convencidos. Mas há dois outros factos indiscutíveis que vieram do veículo lunar indiano.
Verificou-se que a temperatura na Lua é muitas vezes superior à prevista. Em vez da temperatura prevista de +20…+30 graus Celsius, o aquecimento do solo foi de 70 graus – duas a três vezes superior! Mas no Pólo Sul, onde o bebé indiano “Pragyan” (rover de seis rodas que pesa 26 kg, cujo nome se traduz por “Investigação”) está agora a gatinhar, o Sol está no horizonte e o aquecimento deveria ter sido mínimo!
Podemos então imaginar a temperatura do outro lado da Lua! E o que era em 20 de julho de 1969 na zona da fenda Maria Serenitatis, onde aterraram os astronautas americanos Neil Armstrong e Edwin Aldrin!
E agora quero perguntar à NASA: quando enviaram as tripulações da Apollo para aterragens lunares (quando as pessoas estavam na superfície durante 1 a 3 dias), notaram temperaturas inesperadamente elevadas na Lua? Não? Não houve nada disso?
Muito estranho… Afinal, os astronautas americanos nesta falha Maria Serenitatis podiam muito bem, em vez do máximo esperado de 90-100 ° C, “deparar-se” com o escaldante 170-180 graus. A tais temperaturas, como sabemos, a possibilidade de suporte de vida é simplesmente inexistente.
Em todo o caso, porque é que só agora ficamos a saber de uma temperatura tão elevada e não depois – através deles? Trata-se de um facto extremamente importante para toda a humanidade. Não é uma boa notícia para nós.
Continuando. Segundo facto.
Descobriu-se também que na superfície da Lua existem processos eléctricos complexos, em particular causados por tempestades de poeira e pela atividade do Sol – ondas de milhares de volts.
Acontece que os volts ali acumulados não só são mortais para as pessoas que aterram e para o seu equipamento espacial, como também acrescentam problemas com a seguinte capacidade: a eletricidade na superfície da Lua transforma-se em calor.
Aparentemente, esta é a razão para o aumento do aquecimento do solo, que é o que Bee Darukesh, o funcionário indiano da ISRO que relatou todas estas notícias, estava tão genuinamente surpreendido.
Para além disso, a poeira, que pode literalmente rodopiar a partir da superfície do regolito, deverá causar grandes interferências com o equipamento de observação, de filmagem e fotográfico… e, em geral, com toda a atividade humana à superfície. e toda a atividade humana na superfície da Lua.
Neil Armstrong, Edwin Aldrin, e outros, nunca estiveram sequer perto de mencionar tudo isto nas suas entrevistas, apesar de parecer ser a coisa básica e óbvia de que deviam ter falado.
Agora, os Estados Unidos, compreensivelmente, vão bloquear este tópico de todas as formas possíveis. Porque quando a comunidade mundial souber da maior mentira da humanidade, o resto da “verdade” americana cairá como um castelo de cartas. Juntamente com a Ucrânia.
Acho que estão a pensar em algo agora. Bem, por exemplo… Sim, há altas temperaturas, milhares de volts e tempestades de areia – não o negamos. Mas em 55 anos, tudo mudou na Lua! (Aqui será inventada uma circunstância pela qual, de acordo com os cientistas americanos – os cientistas mais inteligentes do mundo, tudo mudou). E antes – não, não existia tal coisa antes.
E agora a questão. Será que os ocidentais vão engolir isto? E será que vão acreditar…? “
Nenhuma descrição de foto disponível.

Ao que parece, a Lua em que os americanos alunaram nos anos 60 do século passado, não é a mesma Lua onde alunou o veículo indiano. Vamos ouvir falar muito sobre…

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Carlos Fino

O meu avô, como muitos milhares de pessoas em todo o mundo na época, foi sempre céptico em relação ao voo americano. A sua realização foi entretanto comprovada e não parece que possa, hoje, ser posta em causa. Mas se os dados da sonda indiana não batem…

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passadiços que esquecem as pessoas

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Fiz, este fim-de-semana, os passadiços do Tejo, que começam no Parque Tejo e vão até Vila Franca de Xira. Fiz 8 km entre Lisboa e Póvoa de Santa Iria. A vista é soberba e a ideia genial, mas:
1 – Não há sombras, não há árvores, não há nada…Em dias quentes, é simplesmente horrível e impossível para pessoas com bebés ou pessoas idosas;
2 – Não há uma casa de banho ou solução para o efeito;
3 – Não há um caixote do lixo;
4 – Não há um posto de água ou solução para o efeito;
5 – Não se pensou na compatibilização harmoniosa do trânsito de bicicletas, trotinetes ou patins com as pessoas. É perigiso, sobretudo porque há sempre quem faça dos passadiços uma pista de competição.
A mim espanta-me como é que se pensa num passadiço com muitos quilómetros, em zona urbana, ou seja, com procura de milahres de pessoas, e não se pensa no elementar: ir à casa de banho ou beber água.
P.s. Infelizmente, tudo isto parece em conformidade com estes tempos… Há 30 anos, o espaço público tinha água gratuita, árvores e casas de banho. Agora, já nem bancos de jardim há, como revela o exemplo da Paiva Couceiro. É triste quando se perde o povo como prioridade primeira das escolhas…
Pode ser uma imagem de horizonte e oceano
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“Trouxeram todos menos o meu filho”: Erro de ATL deixa criança de seis anos esquecida e sozinha na escola – Sociedade – Correio da Manhã

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Família vai apresentar uma queixa no tribunal contra o centro.

Source: “Trouxeram todos menos o meu filho”: Erro de ATL deixa criança de seis anos esquecida e sozinha na escola – Sociedade – Correio da Manhã

Trabalham mas vivem em tendas perto da praia de Carcavelos porque não conseguem pagar renda – Sociedade – Correio da Manhã

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“A situação tem sido muito complicada. As rendas das casas estão demasiado altas. O que recebemos não dá para tudo”, conta Nelson, que mora na Quinta dos Ingleses há cerca de dois anos.

Source: Trabalham mas vivem em tendas perto da praia de Carcavelos porque não conseguem pagar renda – Sociedade – Correio da Manhã

Coligação PSD/CDS ganha eleições na Madeira mas falha maioria absoluta – Política – Correio da Manhã

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Vencedor fica a um deputado da maioria absoluta.

Source: Coligação PSD/CDS ganha eleições na Madeira mas falha maioria absoluta – Política – Correio da Manhã

EÇA E O PANTEÃO

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A propósito da recente polémica sobre o destino final dos restos mortais do escritor Eça de Queiroz, o Zetho Gonçalves publicou no seu mural a única e inaudita descrição do seu funeral feita por Archer de Lima. Leiam que vale bem a pena.
O ÚLTIMO ADEUS
Segunda-feira, 17 de Setembro de 1900. O povo espera o cortejo levando ao Cemitério do Alto de S. João o Esteta que se extinguira docemente, longe da pátria, e vivendo sempre dela na sua concentração e no seu afastamento do palacionismo. De negro, muita gente girava vendo as montras. Muitos tiveram ocasião de vir fazer compras e assistir ao funeral. Há, por aí disperso, e em grupos de palestra, povoléu e artistas. E, aqui e além, em janelas e do arco triunfal da Rua Augusta, pendem panos negros que se erguem como grandes braços, deixando traços sobre as ruas, como dando luto a Lisboa. Estabelecimentos vários, cheios de gente e animados, expõem muitos o retrato de Eça de Queiroz envolto em crepes, e outros têm a bandeira portuguesa com laços negros. Está bem; quem está de luto é Portugal. As livrarias põem taipais, aproveitando a ocasião para encher as montras das obras do mestre – luto e mercantilismo. Semelha um destes dias em que a multidão sai à rua em procura de sensações fortes: há muito luxo que aproveita o momento para se mostrar – e o negro vai bem a tanta mulher! As janelas têm a animação dos dias festivos, fizeram-se convites, houve pedidos para consultórios e mesmo se armou tablados em lojas. Contudo, só em raros a ansiedade da má nova preocupa do resto. Desse exibicionismo, encontra-se, em geral, a curiosidade de ver passar esse carro que leva à sua última morada um artista de Portugal.
Espera-se que se anuncie a saída do corpo, como se costuma anunciar qualquer festival. O sol está quente. Abafa-se. O Terreiro do Paço tem o aspecto da chegada dum rei – e não se enganaram –, tal a multidão que se acerca do mar, num vaivém, procurando o África com os olhos. Cada um aventa sua história, e as mulheres do povo, sentadas nos degraus dos passeios, tiram os lenços, abrem os corpetes para respirarem melhor, abanando-se.
Passam vendedores de jornais, deixando uma nota pitoresca, gritam: O Século!, A Vanguarda!, o Diário de Notícias!, e, ao mesmo tempo, vendedores acrescentam: “Cá está o retrato de Eça de Queiroz a vintém”. Vendem muito. Quem nunca o viu, fixa os olhos nessas folhas de papel, tarjadas de negro e com vários dizeres. E, a meio destes pregões, o eterno grito: “Capilé ou copo com água!”, “Cá estão pastéis!”. Erguendo a vista, depara-se com os telhados dos ministérios cheios de gente, em grupos, fazendo pelo vestuário ramos coloridos, com as cabeças que interrogam o mar. Tudo isto sussurra, vibra, fala, gesticula, enquanto em baixo a mesma vaga humana, tanto se aproxima do rio, como procura defesa do sol nas arcadas dos ministérios. E todo este povo esperava quem? Disse-o Ramalho: “Um simples escritor que, inteiramente recluso na religião da Arte, se não entremeteu nunca nos conflitos seculares da sociedade a que pertenceu, nunca manipulou negócios nem dirigiu empresas, nem exerceu espécie alguma de autoridade ou de poder sobre os homens do seu tempo. Não foi general, nem ministro de estado nem deputado às cortes, e nunca os poderes públicos, nem sociedades sábias ou recreativas, lhe votaram a coroa cívica de herói, de mártir, ou de simples e incategorizado visconde: meramente um artista na mais extrema e estrita acepção da palavra.”
Influência extraordinária esta, que a imprensa tivera sobre Lisboa, e a fizera acordar desse marasmo da labutação fastidiosa e inútil, e a fizera mover, a impelia até ali, sem talvez na maioria nunca o ter lido, para ir ver o enterro. E, de vez em quando, há vozes que notam as figuras célebres que passam, os ministros e outras. Pendem para dentro das carruagens, havendo sussurro ao aproximarem-se os representantes do rei e da rainha: “Olha, lá vai o Hintze”. Voz mais alta que desperta a curiosidade, porque tudo procura ver a pessoa citada, analisando-a no seu vestuário, se vai triste ou alegre, tudo serve a este povo para se entreter em comentários, enquanto o cortejo não chega.
No Arsenal, agora, a animação é enorme, e, às portas, estaca muita gente que não tem bilhete para passar. Oficiais da Marinha davam as últimas ordens para aproximar a galeota que, rebocada pelo vapor Capitania, ia levar a bordo do África o Ministro da Marinha e esse grupo ansioso de artistas e jornalistas. O África, ao largo, quase em frente de Cacilhas, esperava as visitas e, em torno, passavam barcos vários. Só às 2 horas se fez o embarque, tomando lugar muita gente.
Lembra-me de Brito Aranha, Magalhães Lima, Moreira d’Almeida, e outros muitos, que iam fazer a crónica para o jornal. Eu era um deles.
De repente, ouve-se o primeiro tiro de peça. E, de bordo, observa-se que o povo, no Terreiro do Paço, se aperta mais, contido a custo pela polícia. Os navios continuam salvando. Todos compreenderam que chegou o momento esperado.
«É agora! É agora!»
Quando a galeota atraca ao África, a marinhagem faz guarda de honra ao portaló, apresentando armas. O primeiro a passar foi Teixeira de Sousa; depois, oficiais da marinha às ordens; depois, a comissão – e todos nós. Uma impressão tremenda passa no nosso espírito, uma comoção indefinível, pois que ninguém troca uma palavra. Ao avançarem, já no África, todos se descobrem. Um recolhimento imenso, intraduzível, fere a sensibilidade. E ao descermos uma estreita escada para um camarote esguio de mais, e pequeno para o vulto que guardava, encontramo-nos ante uma montanha de coroas cobrindo uma urna. Um momento de silêncio. Os oficiais esperam ordens, sem perturbar esse minuto, como uma oração que sai de todos os lábios, uma saudação envolta de tristeza e de saudade. Depois, alguém consulta o ministro e a comissão, e, à ordem de começar, a marinhagem vai pondo de parte as coroas da família, dos escritores residentes em Paris – tanto ramo! –, até que a urna é posta a descoberto. É enorme a urna, com argolas de prata, e numa chapa lê-se: «Mr. Eça de Queiroz consul de Portugal à Paris.» Para quê, Cônsul de Portugal?! Devia trazer só um nome – esse cargo que ele representou com tanto brilho, nada dizia ali, nada significava. Nós íamos buscar a glória, íamos espalhar flores sobre o mestre – o resto não era senão uma função pública.
«Pode-se partir?», pergunta o oficial. E, à indicação que se leve a urna, avançam para ela galhardos marinheiros portugueses, que a erguem nos seus braços. Parece que o caixão vai entrar no Céu. Momento cheio de grandeza: aos ombros da marinhagem, Eça de Queiroz recebe a homenagem dos navegadores de Portugal, desta Pátria que devassou os oceanos nas suas lindas caravelas; e a urna passa lentamente ante esses homens curvados, e há lágrimas em muitos olhos. O resto dos marinheiros está nas vergas e o África apresenta o corpo à multidão que continua inquirindo de terra o que se dá; ergue-o ante um povo, ante uma raça, a esse sol de Portugal que lhe tece a mais exuberante das auréolas.
E o corpo desce sobre o rebocador Trafaria. Faina difícil e dura: o caixão pesa muito, enterra-se nas carnes. Não admira. O vulto é de tal estrutura que esse punhado de homens livres, lobos-do-mar, acostumados aos vendavais, não tem suficiente força para o suster – só a Pátria em peso, e nos seus braços, poderá imortalizá-lo em bronze. Mas lá o descem, amparando-o cuidadosamente, colocando-o à proa do Trafaria. Alguém traz uma bandeira portuguesa – como se tinham esquecido, ao trazê-lo de Paris, de o cobrir com as nossas cores nacionais!?…
Imprevidência que chegava a ser um crime, pois que a raça orgulhar-se-ia de que o farrapo ilustre mostrasse ao mundo que ia ali, sob o emblema de Portugal, uma figura que enobrecia a História. Agora há pressa: colocam coroas a esmo, tudo vai para terra nesta hora em que a justiça ainda está longe de lhe dar o devido culto. Os navios salvam de novo. O Trafaria em marcha vê-se rodeado de barcos vários: botes à vela, carregados de gente, escaleres a remos, guigas do Clube Naval; e, de bordo dos navios de guerra, vêem-se binóculos assestados sobre o vapor que singra o Tejo em direcção ao Cais das Colunas. Visto do mar, o Terreiro do Paço, as muralhas do Cais, a Alfândega, a estação, tudo produz um efeito curioso, onde esse povo, ávido de comoções enérgicas, vinha ali prestar preito a esse homem que fugira sempre das multidões e que tinha horror da popularidade. Ah, se ele pudesse ver esse quadro, se não fosse ali fechado para sempre; se ele, que tinha horror à publicação dos seus retratos nos jornais, afirmando mesmo que ao ver-se retratado, até adoecia – assistisse a essa chegada e visse o seu rosto, de mão em mão! E contudo, a curiosidade era legítima no orgulho que por vezes temos de ser portugueses – e os jornais tinham semeado obra de louvor, fazendo com que Eça de Queiroz fosse até operários, mostrando-lhes uma das suas glórias.
E o vapor vem suavemente, vagarosamente. E ondas de espuma, batendo a bombordo e a estibordo, saltitando como pérolas, indo até à urna, como tecendo-lhe um diadema divino, que, sob o sol ardente, faiscava como centelhas de astros.
E logo de abordarmos ao Cais: esse silvo de vapor, esse sinal que feria como um apelo, fez-nos sair da nossa meditação, para o desembarque se fazer. Estávamos em terra.
Nova faina. Então avança gente do funeral e vai ser uma profanação. Não me lembra quem se entrepõe, creio que foi Magalhães Lima. «Os estudantes que lhe peguem aos ombros». Estendem-se muitos braços, todos os braços que o rodeiam. Brito Aranha, muito impressionado, murmura: «Eu não posso». Há ali muita mocidade, toda a nossa mocidade, para trazer o estranho cinzelador. E todos o querem levar até à tarimba armada que recebe o caixão. Primeira paragem. Ordens desencontradas, toda uma mistura de gente em redor, centenas de assinaturas em folhas de papel que estão sobre uma mesa coberta de negro junto à delegação da Alfândega, nomes humildes e de celebridades, tudo ali se junta, se confunde na mesma homenagem.
O padre avança para o corpo e lê umas orações. Todos os assistentes ouvem com respeito esse velho que reza e vai seguir no enterro. Agora vão levar o corpo para o carro! Ah, nunca essa maravilhosa mão de Raphael Bordallo teve mais arte: transformou esse coche mortuário num monte de perfumadas cores e, se não fosse esse jogo de flores que o grande desenhador distribuiu com gosto, que tristeza seria esse enterro! Hortênsias e rosas e lúcia-lima, em cachos, pendem numa atitude de desolação, e as flores têm, por vezes, poses coreográficas. É um jardim guardando o génio, e os festões envolvem o carro, encimado por uma coroa de louros, tendo ao centro um bouquet enorme, entrecruzando-se as flores umas com as outras, como pares num minuete dum parque encantado. Em redor, o carro desaparece sob um chuveiro de cores que, nesse sol fulgurante, mais brilham, mais sinceramente espalham e parecem chorar, nessa água de que estão molhadas. As dálias, as rosas, os fetos, que se abrem em frente, dão um leque grandioso, e até as rodas estão envolvidas nos mesmos ramos floridos de onde, aqui e além, pendem farrapos negros. De vez em quando, uma flor desfalece, esfolha-se como para atapetar o caminho do mestre. Quem poderia dizer que é a morte que se cobre neste carro, cheio de tanto perfume, de tanto sol, como uma jarra enorme! E, se não fosse o cocheiro – esse mesmo surgindo entre arbustos –, tudo diria uma montanha do Olimpo, o monte Salvat, onde se guardasse um Deus. Íamos partir. Os criados levam os cavalos à arreata. E essas quatro parelhas põem-se em movimento, avançado para o arco da Rua Augusta. Cada um procura o seu trem, numa confusão grande, com sérias dificuldades de passar. Abre-se caminho, com dificuldade, e a polícia vê-se em embaraços para dar lugar aos convidados, tal é a multidão que se encontra no percurso – porque o próprio Hintze Ribeiro e Arroyo, que estavam ali, viram-se maltratados à partida do carro.
Raphael Bordallo é que não estava contente ainda. Andava em volta da sua obra, dispondo ali, apertando mais longe, estudando o efeito, como se estivesse ante a sua jarra Beethoven. Logo tudo vai seguindo: o prior de S. Julião na sua carruagem, representantes da família real, e convidados e admiradores. E toda esta gente grada da minha terra tomou os seus carros e lá entraram pelo Arco da Rua Augusta, cujas sanefas negras acenavam violentamente. Toda a Rua Augusta, vista da praça, tinha um aspecto cheio de animação. As janelas repletas de senhoras com ramos de flores nas mãos esperam o carro para deixar também o seu tributo, e os seus candeeiros, a meia-luz, dão uma nota fúnebre, envolvidos também em crepes. Às embocaduras, há carros e gente em cima que se descobre; e em várias lojas vêem-se numerosos retratos de escritores: Camilo, Herculano, a par. Noto uns trabalhos em esmalte, numa das montras, que são dignos de registo. São retratos coloridos. De um lado, o solitário de S. Miguel de Seide, Eça de Queiroz e, também, não sei porquê, Mousinho da Silveira. Passa a montanha florida e as pétalas vão caindo sempre, deixando manchas vermelhas, como sangue derramado. A lentidão é grande e as quatro parelhas marcham devagar para as poderem acompanhar os criados. Ao chegarmos ao Rossio, o vaivém aumenta. Muita gente subiu pela Rua do Ouro para apreciar de novo a ornamentação do carro, que dá a volta, para passar ante o Teatro D. Maria II, que tem colgaduras negras e, pendendo do alto, faixas, que dão um tom grandioso ao monumento. Então, numa doçura de violinos gementes, ouve-se a Marcha Fúnebre, de Chopin. O coche pára e, nesse silêncio trágico, parece que o som dos violinos deixa notas de uma agonia pungente. E, contudo, que fraca expressão de sentimento nacional! Como nessa praça – nesse tempo, o Rossio era uma bela praça – se sentiria bem uma grande orquestra portuguesa, com várias bandas, com centenas de violinos e violoncelos, tendo a Banda da Guarda o primeiro lugar, e executando a Marcha Fúnebre do Crepúsculo dos Deuses! Era pobre, tão pobre. Aventei esta ideia ao director do jornal de que era colaborador, que me respondeu ser impossível, demorando muito tempo os ensaios. Santo Deus, tinham tido um mês, todo um mês!
Aqueles violinos gementes deram uma nota sumida do que devia ter sido essa apoteose. E seguimos. Ante o Teatro do Príncipe Real, também decorado, gente à janela, mas nada mais. Creio que nem flores houve nas mãos dessas artistas. E o carro segue mais depressa, os ramos pendem mais, como braços que se abrissem, com os solavancos que o carro vai dando. Em vários pontos o Kodak trabalha: são os ilustradores no seu ofício. E o coche segue mais depressa.
Esperam-nos, ao chegar ao Cemitério do Alto de S. João, muitas pessoas que vêm apanhar o enterro e se meteram no eléctrico. Toda essa gente sabe que haverá discursos e quer-se aproximar da igreja. Trabalho baldado. A polícia contém à força: a avalanche rompe. O coche estacou ante o portal. Aperto maior, que o calor torna insuportável. De nada serve alegarmos que temos bilhete de convite. Na confusão, a polícia está louca, não dando ouvidos a nada. É preciso que se meta gente a explicar. Dos últimos trens, os convidados ficam quase à porta. Por mais que se queiram aproximar, é impossível.
A primeira impressão, ao entrar no Cemitério, é a Capela que está armada em espaldar, de veludo e ouro, tendo num laço duas grandes letras brancas: E.Q.. A essa está armada com um pano, onde o ouro usado e a prata já velha dão uma nota de tristeza. Logo que o corpo entra no Cemitério, para se dirigir à igreja, começa a faina dos turnos.
O dr. Magalhães Lima procura em volta, chama, dá o lugar: agora é o Conde d’Arnoso, cujo rosto traduz uma grande emoção; mais além, o Conde de Sabugosa, muito pensativo; Luiz de Soveral, sempre na sua elegância; Camelo Lampreya; a admirável figura de João Rosa; esse amorável D. João da Câmara; Raphael Bordallo – estes, entre tantos, que é impossível fixar. Da capela segue para o jazigo, onde vai falar um ministro, o Brito Aranha. Ah, onde estão os oradores do meu país, que não vieram falar à beira desta campa?! Onde está António Cândido, e tantos outros, e, por que faltaram neste momento? Estes pensamentos são cruéis. Era assim. A cerimónia acaba neste entardecer fulgurante. Abre-se a porta do jazigo: uma capela pequena e elegante, e, quando lhe vão a pegar, uma voz diz:
– Não pode ser! É escusado!
– Não pode ser o quê?! – pergunta Brito Aranha.
– O caixão não entra.
– Como não entra!?…
– É grande de mais!
Um estremecimento passa em todos, comoção indescritível. «O caixão não pode entrar.». Há um momento em que ninguém sabe o que há-de fazer. Que grande admiração para esta gente. Pensaram estes homens, estes artistas, estes jornalistas, estes escritores, que Eça de Queiroz poderia ficar nesta pequena capela?! Não, aquele vulto pedia um pórtico de catedral para entrar – e esse, era o caso dos Jerónimos.
Como tudo isso se convenceu que o meteria, como qualquer cidadão, num cantinho de jazigo, num vão qualquer? Puro engano.
– «E que fazer agora?
– Arrancar as argolas, cortar o caixão?!»
O pensamento arrepiou. Decidiu-se levá-lo para a igreja do Cemitério. Ao menos, ali, cabia mal, mas cabia – era a maior capela nesse campo de mortos, e, ainda assim, pequena para Eça de Queiroz.
Pôr de sol. Ele lá ficou, entre outros corpos, esse que foi o maior escritor do seu tempo, enquanto tudo debanda rapidamente.
O povo desapareceu, perdendo-se agora pelas tabernas próximas. Voltámos à cidade que já tirou os crepes, que já esqueceu na sua eterna ingratidão, como se pudesse esquecer este homem cujo nome enche de fulgor a História Literária.
(Archer de Lima, Eça de Queiroz Diplomata, pp. 225-237, Lisboa, s/d.)
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Zetho Gonçalves

Obrigado, caríssimo Rui, pelo sublinhado, mas ninguém irá ler tão longo texto (desconhecido em absoluto do geral das côrtes, académicas ou adjacentes fundamentalistas do vasto opinar vigente), muito embora já ali se mostre como, por incabimento físico,…

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