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As Russas da Rua da Palha
Quando Macau ainda era uma cidade de sombras longas e segredos curtos, havia uma rua — a Rua da Palha — onde o futuro se escondia atrás de portas estreitas e escadas que rangiam como velhas confidências. Quem subia para as ruínas de S. Paulo passava por ali, talvez distraído, talvez curioso, mas sempre com a sensação de que aquela artéria antiga guardava mais do que mercearias, casas velhas e o cheiro doce do incenso.
Foi ali que, durante alguns anos, viveram mulheres que a cidade chamava “russas”. Tinham bolas de cristal, liam destinos, falavam baixo, moviam-se como quem atravessa um palco invisível. Para os macaenses, eram figuras saídas de um romance: ex princesas imperiais, herdeiras de fortunas esmagadas pela cavalaria vermelha, sobreviventes de palácios incendiados nas estepes.
Mas a verdade — como sempre em Macau — era mais complexa, mais humana e mais trágica.
Não eram russas. Eram ciganas da Hungria e da Roménia, mulheres de olhos escuros e passos leves, que tinham atravessado a Europa como quem atravessa um sonho mau. A Revolução de 1917 empurrou-as para leste, para as lonjuras da Sibéria Oriental, onde o frio não perdoa e a História não explica.
Harbin foi o primeiro porto de abrigo. Cidade de exilados, de aristocratas arruinados, de músicos que tocavam para esquecer, de comerciantes improvisados, de refugiados que viviam entre o passado e o que sobrava do futuro. Ali ficaram algum tempo, mas Harbin era apenas uma pausa — nunca destino.
Com a vitória da China Popular, a diáspora deslocou-se de novo, como poeira soprada por ventos ideológicos. E assim chegaram a Macau, esse último refúgio onde tudo o que é improvável encontra lugar.
Instalaram-se nas casas velhas da Rua da Palha, misturaram-se com a população macaense, os filhos estudaram nas escolas portuguesas, adquiriram a nacionalidade portuguesa. Com o tempo, tornaram-se parte da cidade — tão invisíveis como qualquer outra história que Macau engole sem ruído.
As escadas eram o verdadeiro teatro. Subiam-se devagar, porque cada degrau parecia protestar contra o peso do destino. Lá em cima, num quarto escuro, as videntes recebiam quem procurava respostas: marinheiros, mulheres aflitas, comerciantes indecisos, curiosos que queriam apenas ver como era o futuro antes de o viver.
A bola de cristal brilhava como um pequeno sol doméstico. As mãos das videntes moviam-se com a lentidão ritual de quem sabe que o tempo é uma invenção frágil. E as histórias que contavam — sobre amores perdidos, viagens adiadas, presságios de fortuna — eram sempre ditas com uma voz que parecia vir de muito longe, talvez das planícies da Manchúria, talvez das margens do Danúbio, talvez de lugar nenhum.
Macau acreditava nelas porque Macau sempre acreditou no improvável.
Entre os poucos que perceberam que aquelas mulheres eram mais do que curiosidades folclóricas, destacou-se Rodrigo Leal de Carvalho, delegado do procurador da República. Ao ler processos judiciais relacionados com membros dessa comunidade, encontrou fragmentos de vidas que vinham das estepes russas, dos rios da Sibéria, das planícies da Manchúria.
E percebeu que estava perante um mundo em extinção.
Dessa descoberta nasceu Réquiem por Irina Ostrakoff — uma obra que não é bem romance, nem bem documento, mas uma elegia por uma Europa que se perdeu nas margens da China. Irina, a protagonista, é o espelho dessas mulheres da Rua da Palha: aristocrata arruinada, sobrevivente de guerras, figura que vive entre o mito e a pobreza, entre a memória da grandeza e a realidade da sobrevivência.
O livro é um lamento. E, como todo o lamento, ilumina o que já não existe.
Um dia, as videntes desapareceram. Não houve anúncio, nem despedida, nem notícia no jornal. Simplesmente deixaram de estar.
As escadas deixaram de ranger. As bolas de cristal apagaram-se. As histórias de heranças perdidas ficaram suspensas no ar, como pó que não encontra chão.
Algumas partiram para as Américas, seguindo a diáspora do pós guerra. Outras ficaram em Macau, diluídas na cidade, invisíveis como tudo o que Macau absorve sem esforço.
A Rua da Palha continuou a ser Rua da Palha. Mas o seu silêncio ficou mais fundo.
Hoje, quem passa por ali ao fim da tarde talvez sinta ainda um eco — um murmúrio vindo de um tempo em que o futuro se lia em bolas de cristal e o passado se escondia atrás de portas estreitas.
Talvez seja apenas imaginação. Ou talvez seja o réquiem de Irina Ostrakoff, que continua a tocar, baixinho, nas paredes antigas da cidade.
Macau, afinal, nunca esquece. Apenas guarda.
Ficha Técnica — Requiem por Irina Ostrakoff
Autor: Rodrigo Leal de Carvalho Título: Requiem por Irina Ostrakoff l Ilustração: José Geral Viana Impressão e acabamento: Tipografia de Coimbra Depósito legal: n.º 39797/15 ISBN: 989-95675-0-4 Data de edição: Outubro de 1994 ISSN: 972-9488-39-2 Editor / Contacto: Rodrigo Leal de Carvalho Rua do Campo, Coimbra (Caixa Postal 152 — Macau, China) Email: booksmacau@gmail.com
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