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Vi um grafito e dizia: “O futuro não importa, o que importa é daqui para a frente”
Todos iguais e cinzentos conforme a norma”.
retiro do ChrónicAçores vol 5
10 DE JUNHO NA COLÓNIA AÇORIANA, CRÓNICA 195, 9.6.18
Dantes, ao descobrirem terras a colonizar, os navegantes levavam padrões de descobrimentos assinalando a posse e futura conquista e missionação das terras, ora nas celebrações do dia 10 de junho de 2018, trouxeram de Portugal uma bandeira enorme para hastear no único mastro existente no local. Isso não dará a oportunidade a hastear a bandeira do arquipélago, símbolo dos Açores e do povo açoriano, que se diz Região Autónoma. Um jornal local comentava o alheamento da população face ao 10 de junho, um feriado, como o 5 de outubro ou o 1º de dezembro, sem ligação a este povo, para quem os feriados importantes são a segunda feira do Senhor Santo Cristo, Pentecostes, os padroeiros das freguesias, as comunhões dos filhos, e as festas da freguesia. Aí está a alma do açoriano em qualquer ilha.
- D. Pedro IV também cá esteve, veio arrecadar dinheiro e pessoas para a causa, já que ninguém em Portugal estava na disposição de lhe dar um tostão. Quando D. Carlos veio aos Açores, o povo foi ver um homem que só existia no imaginário. Quando Óscar Carmona visitou o arquipélago, agosto de 1941, e Craveiro Lopes, 1957, a sensação que deixou foi a da vinda de um forasteiro que veio lembrar aos locais que isto são terras de Portugal, mas “isto é Açores antes de ser Portugal”. Marcelo Caetano também por aqui andou, mas por razões diferentes, que não vale a pena recordar. Hoje veio o Presidente que tira selfies com o povo, os senhores da terra, vão ao beija-mão que fica bem nas fotos oficiais do evento e nas imagens televisivas, sempre sabujamente agradecidos pelas esmolas que Lisboa oferece aos insulares. Teremos teatro nos próximos dias. E há entre nós personagens dispostos a renegar a essência para poderem tirar proveitos. Como escrevia Rui M Medeiros: “A História está cheia de Brutus e Judas. Estes tiveram proveitos imediatos, mas o tempo encarregou-se de os colocar no seu devido lugar.”
Como escreveu Roberto Y. Carreiro
“Segundo um vizinho meu, antigo operacional dum movimento independentista e testemunha dos tempos conturbados do PREC, o aparato militar, securitário e de espionagem, que está montado na cidade de Ponta Delgada, faz-lhe lembrar os tempos áureos das campanhas de «dinamização cultural» a cargo da 5ª divisão. Tal como no passado, os forasteiros, trazem orquestras, bandas, palhaços, muita propaganda e orador convidado. Como nesse outro tempo as «autoridades locais» abrem a cancela para essas aves de arribação…” Por outro lado, o belicismo de mais de mil militares e armamento dos três ramos das FA (Forças Armadas) deve ser para esquecer que depois do 25 de abril, essas FA servem para defenderem interesses estrangeiros em países distantes a mando da NATO.
Cito o colega jornalista Tomás Quental:
“Mas eu pergunto: para essa celebração era mesmo necessário “encher” a cidade com viaturas dos três ramos das Forças Armadas, desde meios aéreos a meios terrestres de combate? Se é para afirmar a soberania portuguesa nos Açores, era desnecessário, porque os açorianos, na maioria, gostam de ser portugueses. Diria até que existem muitos açorianos que se sentem mais portugueses do que muitos continentais, a quem ouço dizer com frequência “entreguem isto a Espanha”… Se é para “embelezar” a cidade, também era desnecessário, porque a urbe tem beleza quanto baste, bem patente, nomeadamente, em monumentos, praças, avenidas e ruas repletas de edifícios de arquitetura bela e única, com uma frente de mar que lhe confere uma panorâmica invejável. Se é para mostrar aos açorianos o que são meios militares, também me parece objetivo obviamente desnecessário. Quando o Estado português assume não ter verbas para construir a nova cadeia na maior ilha açoriana, em que o estabelecimento prisional existente com 150 anos é uma vergonha em qualquer parte do mundo, proporcionando condições infra-humanas, é claramente uma falta de bom senso a ostentação de meios militares, só possível com muito dinheiro. Não aprecio e critico.”
Um país de desigualdades, injustiça e corrupção descontrolada que rouba dez anos de serviço aos professores e diz não ter dinheiro para lhes pagar, desperdiça milhões em fogos-fátuos de antigo Império à deriva como escreveu Patrick Wilken. Claro que para a maioria dos portugueses e dos açorianos quaisquer noções de uma total autonomia (leia-se independência) é anátema, mais fruto da ignorância das situações do que por meras razões políticas. Sempre se cumpriu a profecia – sabiamente preparada – de que quanto mais dependentes de subsídios mais bem acarneirados estariam os açorianos. De todos, são eles os mais subsidiados, totalmente dependentes de subsídios que servem para perpetuar o voto nos que os governam, qualquer que seja o partido ou a cor política. Para os portugueses nem sequer se põe a hipótese de abdicar das “ilhas adjacentes”, muito menos agora que estão prestes a acrescentar milhares de km2 à plataforma portuguesa marítima com todas as riquezas que a profundidade destes mares encerra.
A Fundação Francisco Manuel dos Santos, “Pordata” fez um estudo “Retrato dos Açores”, no qual revela dados preocupantes sobre a realidade insular. Na Educação, a taxa de abandono escolar entre os 18 e os 24 anos é mais do dobro da média nacional. Em relação aos jovens com mais de 15 anos, que 7 em cada 10 não completa o secundário, valores piores do que qualquer outra região. O ensino que temos atualmente é o fruto de muitas “experiências” anuais infelizes, desde os alunos transitarem sem saberem ler a outras, e os resultados estão à vista. Acrescente-se o facto de muitos pais não terem instrução (a velha 3ª classe era a norma e agora será o 6º ano) nem interesse em acompanhar os filhos, o resultado será sempre o de insucesso escolar e fracasso das políticas educativas, por melhores professores que haja (também os há, mesmo que minoria). Infelizmente, trabalhamos para a estatística. Os bons alunos sempre o serão, mas os restantes são a maioria.
Quando hoje um colega e amigo, professor continental, que até cá esteve uns anos a lecionar em mais do que numa ilha, me diz que somos todos portugueses de regiões diferentes, tive uma visão passadista que me fez lembrar um país uno e indivisível do Minho a Timor! E deu-me um arrepio pois esse é o argumento mais comum dos continentais quando confrontados com a minha sede de uma verdadeira autonomia açoriana (não falei de independência, mas de verdadeira autonomia, em federação ou outra espécie de união entre iguais e não pactos leoninos). A minha guerra não é esta, mas a da defesa e expansão da língua portuguesa e apenas me manifesto como cidadão residente do arquipélago.
E é por tudo isto que este 10 de junho me diz menos do que noutros anos em que se chamava “dia da raça”. Não irei ao beija-mão, nem verei as belezas que os açorianos vão mostrar ao corpo diplomático estrangeiro acreditado na capital do Império, continuarei a amar os Açores e a sonhar com o dia em que sejam autónomos e pares interpares com a “metrópole”, donos do seu destino e quiçá orgulhosos da herança ou origem portuguesa. Claro que sei, e nisso concordam alguns nativos, que há provincianismo e falta massa crítica e intelectual, muitos temem a verdadeira autonomia e mais ainda a independência. Este é o país em que vivemos, e raramente se discutem os problemas: educação, saúde e justiça. Sempre longe da corte os açorianos vão ter as imagens televisivas em que serão retratados e irão usar e abusar do voyeurismo, já totalmente acostumados a novos paradigmas de vida em que deixaram de ser escravos pela via física para o serem pela via da mente.
Um Governo Regional autêntico, sem ser filial de Lisboa, reclamando a verdadeira autonomia sem se arvorar em defensor dos interesses dos que sempre exploraram os ilhéus, sombrios e persistentes personagens que perenizam monopólios. Arrivistas com iniciativas pequenas e isoladas. Limitadas como as ilhas e o país.