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para uma história da ilha de S Jorge

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retirado de ChrónicAçores uma circum-navegação vol 2 2011

 

 

São Jorge é assim chamada em honra do santo do mesmo nome. O descobrimento e povoamento da ilha estão envoltos em mistério. A primeira referência data de 1439. Sabe-se que, por volta de 1470, quando já existiam núcleos de colonos nas costas oeste e sul e a povoação de Velas fora fundada, veio para a ilha o nobre flamengo Wilhelm Van der Haegen, que, no Topo, criou uma povoação, onde veio a morrer com fama de grandes virtudes, já com o seu nome convertido para Guilherme da Silveira.

Rápido deve ter sido o povoamento da ilha, com gentes vindas do norte do continente, bem como a sua prosperidade, pois a sua capitania era doada, em 1483, a João Vaz Corte Real, donatário de Angra, na Terceira, e Velas recebia foral de vila antes do final do séc. XV.

Ora desde que temos aquellas cartas, que precisam tão claramente a data em que el-rei mandou povoar as ilhas dos Açores, e isentou os seus moradores que estão e vivem n’ellas da dizima, é evidente que a ilha de S. Jorge, no anno de 1439, estava descoberta e em 1443 havia n’ella habitantes.

Semelhantes factos destroem as differentes opiniões sobre a descoberta e povoação, depois de 1450, que o auctor sr. J. Duarte menciona nos seus apontamentos, referindo-se a outros escriptores.

Estas ilhas foram mencionadas na Livraria Laurentina, de Florença, em grupos distinctos, dando-se ahi ao grupo de S. Jorge, Pico e Fayal, a designação de Insule de Ventura Sive de Columbis (Diccionario de Geographia Universal, 1.0 vol. pag. 16, art.o Açores). E no mappa catalão de 1375 teve a ilha de S. Jorge a indicação de San Zorze, significativa do dia do seu descobrimento. (Archivo dos Açores, vol. X pag. 279).

Parece, pois, que os portuguezes do seculo XV não foram os que lhe deram o nome e que d’estas ilhas já tinham conhecimento pelo infante D. Henrique, que os mandou navegar para estas paragens.

É por tanto de presumir que o nome dado à ilha de S. Jorge, proveio do mappa catalão de 1375, onde foi designada por San Zorze, allusivo ao dia do seu descobrimento, ou então é uma coincidencia muito notavel a descoberta feita pelos portuguezes em egual dia, 23 d’abril.

O primeiro documento sobre o povoamento de São Jorge é do testamento do Infante Dom Henrique, falecido em 1460, que diz: “…ordenei e estabeleci a igreja de S. Jorge na ilha de S. Jorge“.

Os primeiros povoadores, provavelmente, entraram na ilha na década de 1460 a 1470. João Vaz da Costa Côrte-Real, seu donatário a partir de 1483, esforçou-se pela sua colonização. Era também donatário de Angra.

Oficialmente foram criadas três vilas em São Jorge: Velas (1500), Topo (1510) e Calheta (1534).

21.2. AS CALAMIDADES EM SÃO JORGE

Sempre assolado por inúmera atividade vulcânica, pirataria e maus anos agrícolas (a fome causou mais vítimas que os terramotos), a ilha de São Jorge sofreu as maiores crises:

1580 — Erupção do vulcão da Queimada. Na noite de 28 de abril a terra tremeu 30 vezes e 50 no dia seguinte. No dia 1 de maio os tremores recrudesceram e nesse mesmo dia ocorreu uma explosão vulcânica no cimo da encosta sobranceira à Queimada. Outra explosão ocorreu posteriormente no alto da Ribeira do Nabo, 2 km a leste da inicial. Outra emissão de lavas teve a sua origem junto à Ribeira do Almeida. A erupção durou 4 meses com emissão de grandes correntes de lava que atingiram o mar e de muitas cinzas que recobriram a ilha, atingindo mesmo a Terceira. Uma nuvem ardente matou pelo menos 10 pessoas. Mais de 4000 cabeças de gado pereceram de fome e devido aos gases e cinzas que destruíram as pastagens.

1593 — Mau ano agrícola – Provoca fome na Terceira e S. Jorge – 1593 foi um mau ano agrícola, o que associado às consequências da guerra de 1580-1583, do saque e dos pesados tributos para manutenção da força de ocupação castelhana, causou miséria e fome generalizada entre a população rural da ilha. Há notícia de terem morrido muitas pessoas de fome. Em São Jorge também se morreu de fome neste ano.

1606 — Inundações nas Velas. Em fevereiro grandes chuvadas provocaram grandes danos na vila. Muitas ruas ficaram “de modo que se não podia andar a pé”.

1641 — Grande enchente de mar (maremoto?) nas Velas. A 21 de dezembro “empolgou-se o mar de tal sorte que dominando o Monte dos Fachos, com três mares” provocou grande destruição na vila, ferindo 50 pessoas e arrastando ao mar muitos bens. Terá sido um maremoto?

1668 — Tempestade – Causa grandes prejuízos na Calheta. A 23 de novembro uma violenta tempestade provocou “tal alteração de mar que este entrou pela dita vila derrubando casas” e obstruindo o porto com penedia.

1678 — Falta de cereais – Causa desaguisado entre as Câmaras da ilha de São Jorge e da ilha do Pico – Mais uma vez um mau ano agrícola torna escassos os cereais pelo que as câmaras de São Jorge e Pico se vêm na necessidade de proibir a sua exportação.

1713 — Inundações na vila de Velas. A 10 de dezembro, chuvas muito intensas entre a Urzelina e os Rosais provocaram grandes inundações, destruindo 27 casas na vila de Velas. A Ribeira do Almeida veio tão carregada de caudal sólido que criou uma praia que permitia a passagem a pé entre a vila e a Queimada.

1713-1714 — Mau ano agrícola, fome e peste – Um mau ano agrícola, a que não foi alheio ciclone tropical de 25 de setembro de 1713, levou a que em São Jorge fosse tal “a falta de mantimentos que chegou a morrer muita gente de fome”.

1732 — Cheias provocam 5 mortos. A 6 de dezembro grandes cheias provocaram destruição matando 5 pessoas. Os lugares mais afetados foram Urzelina, Figueiras, Serroa e Velas.

1744-1746 — Mau ano agrícola – Provoca fome e emigração em massa – Em resultado das cheias de 1744 e do mau ano agrícola que se seguiu, em 1746 faltaram os cereais, havendo fome generalizada nos Açores… [No Pico] o povo “recorreu a socas e raízes para manter a vida e faltando-lhe mesmo esse mísero alimento emigrou para as mais ilhas”. Em resultado da desnutrição grassavam as doenças, fazendo grande mortandade. Face a esta situação, por alvará régio foi autorizada a emigração para o Brasil, tendo partido pelo menos 1600 pessoas.

1755 — Maremoto atinge os Açores – O Terramoto de Lisboa de 1 de novembro de 1755 provocou o grande maremoto de 1755 (um tsunami) que atravessou a área oceânica onde os Açores se situam, afetando essencialmente as costas viradas a sul e sueste, direção de onde as ondas se aproximaram das ilhas. O maremoto fez com que “estando o mar em ordinária tranquilidade, se elevou tanto em três contínuas marés ficando quase seca a sua profundidade por largo espaço”. Assim, em Angra o mar entrou até à Praça Velha, causando grande destruição; no Porto Judeu o mar subiu “10 palmos acima da rocha mais alta”; na Praia, inundou o Paul e derribou 15 casas na costa até à Ribeira Seca, incluindo a ermida do Porto Martins. Morreram várias pessoas arrastadas pelo mar. Quase todos os portos dos Açores sofreram graves danos, ficando destruídas muitas embarcações. Em Ponta Delgada o mar subiu pelas ruas estragando muitos edifícios. Na Horta, o mar entrou pela Ribeira da Conceição, chegando aos moinhos de água “na altura de 8 palmos”.

1757 — Grande terramoto de São Jorge: O Mandado de Deus. Em 9 de julho de 1757 um dos mais violentos, senão o mais violento, dos terramotos de que há memória nos Açores atingiu a ilha causando destruição generalizada e formando muitas das atuais fajãs, entre elas a da Caldeira de Santo Cristo. O terramoto ficou conhecido na tradição popular pelo Mandado de Deus. Dos grandes deslizamentos resultou um maremoto que atingiu todo o Grupo Central. Pelo menos 1053 pessoas morreram em São Jorge e 11 no Pico. O terramoto foi tal que a norte desta ilha, distância de 100 braças, pouco mais, se levantaram dezoito ilhotas, umas maiores que outras. Apareceram todas na manhã do dia 10 [de julho]. É navegável o mar entre as ditas, e a ilha. Nas Fajãs dos Vimes, São João e Cubres, se moveu a terra, voltando-se do centro para cima, de sorte que nelas não há sinal [de] onde houvesse edifício. No Faial o sismo foi sentido sem causar grandes danos.

1761 — Ciclone tropical atinge o Grupo Central – A 29 de setembro de 1761 foi a Terceira atingida por um temporal “por efeito do qual ficaram derribadas muitas casas e arrancada muita quantidade de árvores”. Copiosas chuvas fizeram transbordar as ribeiras.

1779 — Ciclone tropical atinge o Grupo Central – Na noite de 30 para 31 de outubro levantou-se um rijo temporal que trouxe à costa 7 navios e arruinou as muralhas da Horta.

1792 — Enchente de mar vila de Velas. A 23 de janeiro deste ano, foi “tão impetuosa a bravura do mar” que derrubou a muralha de proteção, destruiu uma casa e danificou outras, ameaçando atingir a praça defronte da Matriz de Velas.

1808 — Erupção do Vulcão da Urzelina. Depois de várias semanas em que ocorreram muitos sismos, no dia 1 de maio a terra tremeu tão frequentemente que se contavam oito tremores por hora, alguns tão fortes que espalharam o pânico entre a população. Por volta do meio-dia foi ouvido um grande estrondo acompanhado pelo aparecimento de uma grande nuvem de fumo por sobre os montes sobranceiros à Urzelina. A breve trecho, a nuvem engrossou e subindo ao mais alto ceo fez arco sobre parte da freguesia de Manadas e da Urzelina…já mostrando nas redobradas e negras nuvens uns incumbrados montes, umas medonhas furnas. A erupção destruiu muitas casas, vinhedos e campos cultivados. A 17 de maio, quando o vigário acompanhado por populares tentava salvar algumas coisas da igreja da Urzelina, uma nuvem ardente abateu-se sobre o local queimando mortalmente trinta e tantas pessoas: uns com os couros das mãos e pés pendurados, outros tão inchados e pretos que se não conheciam, outros com as pernas quebradas, e alguns expirando, todos pedindo Sacramentos, e apenas os receberam alguns logo expiraram. Existe no Arquivo Histórico Ultramarino uma aguarela mostrando a erupção vista do Faial. A erupção ficou conhecida na história dos Açores pelo Vulcão da Urzelina.

1812 — Mau ano agrícola – Provoca grave crise alimentar em São Jorge e Terceira. Um mau ano agrícola em 1811, agravado por uma forte tempestade em dezembro, levou a que no início de 1812 grassasse a fome em São Jorge. Em março na Câmara Municipal de Velas recebeu-se uma proposta de importação de milho para “sublevar a misérrima necessidade e falta de mantimentos que atualmente padece o povo”.

1842 — Cheia – Provoca grandes danos nas Velas. No domingo da Trindade grandes chuvadas provocaram inundação de parte da vila de Velas. Na praça junto à Câmara a enxurrada foi tal que em algumas casas saiu a “água pelas janelas de sacada”.

1846-1847 — Fome. Um mau ano agrícola, associado à grande densidade populacional de então, leva à “penúria de cereais e falta de batata” sendo necessário recorrer à “Comissão de Socorros de Boca” de São Miguel para evitar a catástrofe alimentar.

1856 — Mar invade a vila de Velas – Provoca naufrágio. A 6 de janeiro, Dia de Reis, “levantou-se o mar com tal fúria que produziu uma terrível enchente”. A escuna Leonor que estava surta no porto naufragou provocando a morte a todos os tripulantes que estavam a bordo. O mar levou casas e barcos e galgou a zona da Conceição, chegando às paredes da cerca do convento de São Francisco (hoje Centro de Saúde), que parcialmente derribou.

1857-1859 — Fome. Um ciclone tropical atingiu o Grupo Central no dia 24 de agosto de 1857 provocando a destruição total dos milharais, então a principal produção alimentar da ilha de São Jorge. Daí resultou penúria generalizada, pelo que no início de 1858 “estava no concelho de Velas, toda a ilha, e suas vizinhas, manifestada a fome com as suas negras cores”. Os anos seguintes foram também maus anos agrícolas pelo que a crise alimentar se manteve até 1859. Foi preciso recorrer a subscrições públicas, incluindo uma nos EUA, organizada pela família Dabney, para evitar que se morresse à fome.

1877 — Fome. Um mau ano agrícola em 1876, associado à grande densidade populacional de então, leva, mais uma vez, à “falta de cereais e fome” em São Jorge, sendo necessário recorrer à importação de milho e trigo para evitar a catástrofe alimentar.

1893 — Furacão – Provoca grande destruição no Grupo Central – A 28 de agosto a maior tempestade de que há memória nos Açores atingiu o Grupo Central, provocando grande enchente de mar e arruinando casas, igrejas e palheiros. Também os portos foram severamente atingidos com perda de muitas embarcações. A destruição dos milhos nos campos causou fome generalizada no ano seguinte. A ilha de São Jorge foi severamente atingida, particularmente o Topo. Os danos do Furacão de 1893 ainda são visíveis nalguns pontos da costa, nomeadamente na antiga, e hoje abandonada, Igreja Velha de São Mateus da Calheta, na Terceira, e nas ruínas da Baía do Refugo, no Porto Judeu.

1899 — Grande enchente de mar. Na madrugada de 3 de fevereiro, uma grande tempestade marítima atingiu as costas viradas a sul. Em São Jorge, o mar galgou a terra matando uma pessoa nas Velas e provocando enorme destruição na Conceição e zonas adjacentes.

1899 — Furacão atinge o Grupo Central – A 17 de outubro um furacão atravessou o Grupo Central provocando destruição generalizada das habitações e perda de colheitas e de gados. Em São Jorge verificaram-se os maiores danos.

1964 — Crise sísmica dos Rosais, em São Jorge – Uma crise sísmica abalou a parte oeste da ilha de São Jorge, provocando grande destruição nos Rosais e nas Velas. Ficaram danificadas mais de 900 casas e 400 destruídas. Espalhou-se o pânico na ilha, levando à evacuação de grande número de jorgenses para a Terceira e outras ilhas. Esta crise esteve associada a uma erupção submarina ao largo da Ponta dos Rosais.

1973 – Crise sísmica no Pico e Faial – A partir de 11 de outubro começaram a ser sentidos numerosos sismos nas ilhas do Pico, Faial e S. Jorge, com particular destaque para a freguesia de S. Mateus e o lugar da Terra do Pão, na ilha do Pico. A 23 de novembro, pelas 12 h 36 registou-se um violento sismo (grau 7/8 da escala Wood-Neumann) com epicentro próximo a Santo António, no Pico. O sismo provocou graves danos, com muitas casas parcialmente destruídas, muros caídos e estradas obstruídas, nas freguesias de Bandeiras, Santa Luzia, St.º António, e S. Roque, na costa norte do Pico, na freguesia de S. Mateus, na costa sul do Pico, e ainda nas freguesias de Conceição, Matriz e Flamengos, na ilha do Faial.

1980 — Terramoto de 1980 nas ilhas Terceira, São Jorge e Graciosa – Pelas 16h42 (hora local) do dia 1 de janeiro de 1980, ocorreu um sismo com intensidade 7.2 na escala de Richter, uma profundidade hipocentral de 10-15 km e com epicentro situado no mar cerca de 35 km a SSW de Angra do Heroísmo. Provocou destruição generalizada dos edifícios na cidade de Angra do Heroísmo, na vila de São Sebastião e nas freguesias do W e NW da Terceira, nas freguesias do Topo e Santo Antão, em São Jorge, e ainda no Carapacho e Luz, Graciosa. Morreram 71 pessoas (51 na Terceira e 20 em São Jorge) e ficaram mais de 400 com ferimentos. Ficaram danificadas mais de 15 500 casas, causando cerca de 15 000 desalojados.

1998 — Sismo de 9 de julho, Faial, Pico e São Jorge – Pelas 5:19 da madrugada um sismo de magnitude 5,6 na escala de Richter com epicentro a NNE da ilha do Faial provocou a destruição generalizada das freguesias de Ribeirinha, Pedro Miguel, Salão e Cedros na ilha do Faial e fortes danos em Castelo Branco (Lombega), Flamengos e Praia do Almoxarife, também do Faial. Também atingidas foram várias localidades da ilha do Pico. No extremo oeste da ilha de São Jorge (Rosais) o sismo provocou grandes desabamentos de falésias costeiras. Morreram 8 pessoas, todas no Faial. Ficaram desalojadas 1700 pessoas.

21..2. A CRISE DE 1808

Na obra “Ilha de S. Jorge (Açores): Apontamentos para a sua História, de José Cândido da Silveira Avelar[1] está compilado um conjunto de descrições da erupção e dos acontecimentos que a rodearam. A mais extensa e circunstanciada deve-se ao padre João Ignácio da Silveira (1767 – 1852), então cura de Santo Amaro, que escreveu uma relação que o Dr. João Teixeira Soares publicou com algumas notas no Jorgense, n.º 6, de 1 de maio de 1871, e foi transcrita no Archivo dos Açores, vol. V, páginas 437 a 441. Foi aquele escrito, com algumas variantes, que João Duarte de Sousa seguiu na narrativa do fenómeno, de página 188 a 193 dos seus Apontamentos. Eis o seu conteúdo:

Na noite amanhecendo para o domingo do Bom Pastor, primeiro dia do mez de maio do presente anno de 1808, tremeu a terra tão frequentemente que se contavam oito tremores por hora, e d’estes foi um sobre a madrugada tão grande, que fez levantar o povo das camas. No mesmo dia, estando já parte do povo na igreja deprecando a Deus nosso pai, houve outro abalo tão forte que fez fugir todo o povo da egreja, das 11 para as 12 do mesmo dia houve outro tremor, e juntamente um estrondo tão grande que a todos amortiso, e de repente se vio levantar uma grande nuvem de fumo sobre o mais alto monte da freguezia da Urzelina, no pico d’ António José de Sequeira, e bem defronte da egreja de S. Matheus cuja planta e centro da freguesia era o mais agradável da ilha, e por isso mesmo muito frequentado de muitos sujeitos bons e maus de todas as ilhas, e em breve tempo engrossou e subindo ao mais alto ceo fez arco sobre parte da freguezia das Manadas e da Urzelina, indicando um terrível castigo já mostrando nas redobradas e negras nuvens uns incumbrados montes, umas medonhas furnas.

Da bocca daquele vulcão saíam estrondos tão fortes e medonhos sem intervalo que convidavam aos habitantes d’esta ilha para Juízo. Correu todo o povo a deprecar a Deos, porém logo o povo da freguezia da Urzelina se assustou deixando o seu vigário o rev. José António de Barcellos só no adro da sua igreja, e logo no mesmo dia choveu tanta areia de tarde que ficaram as casas chamadas do mato cobertas de areia e os campos d’ahi para cima em parte ficaram com altura de 7 palmos, e as vinhas dos Castelletes até à ermida de Santa Rita, da freguezia das Manadas, ficaram cravadas e as casas quasi abatidas com o pezo, sahindo immediatamente línguas de fogo do centro que chegavam aos ceos, deitando pedras ignitas de 8 palmos, em distância dum quarto de legoa, outras de 16 palmos em quadro e outras menores, subindo à mesma altura cahiam como densos chuveiros.

Chegou a triste noite, então é que desfaleceram os habitantes desta ilha vendo todo o fogo e pedras ignitas, que sahiam como coriscos e quase que pareciam cair sobre os povos, e as vidraças das egrejas pareciam quebrarem-se aos eccos d’aquelle pregoeiro que nos ameaçava de morte.

Até à terça feira, 3 do mesmo mez, rebentou o fogo em 7 logares, ficando a bocca ou vulcão perto da Ribeira do Arieiro, em cuja tarde abrandou o fogo: e na madrugada da quarta-feira, 4 do mesmo mez, arrebentou o fogo entre as Ribeiras, acima da fonte da Fajã, e da mesma sorte fazendo nuvem de pó de enxofre e terra que parecia arder todo aquelle logar.

Logo fez procissão o vigario da Urzelina para a parte da Fajã com o Senhor Santo Christo e Senhora das Dôres e a poucos passos encontrou-se com o padre José de Sousa Machado, que trazia em procissão a Senhora da Encarnação acompanhado de varias pessoas, mas quasi suffocadas do muito pó enxofrado que estava cahindo. reunidos àquela procissão algum tanto animados, chegaram à ermida da Senhora do Desterro, ainda, que com muito trabalho porque do cruzeiro para cima cahia muita terra sulfúrea e tão pegajosa que muitas arvores cahiram com o peso d’ella e o fétido entontava aos viajantes.

Passados mais 7 dias rebentou o fogo nas areias da freguezia de Santo Amaro, onde abrindo duas bocas vomitava fogo à maneira de duas grandes ribeiras de matéria fluida, e com tanta força que no segundo dia se achava a mais de um moio de campo de mistério que encaminhando-se às casas fez pôr parte do povo em fugida, o vigário, o rev. Amaro Pereira de Lemos, esteve falto dos sentidos e a irmã, D. Anna Maria de Lemos, esteve douda.

O vigário das Velas e ouvidor, o rev. António Machado Teixeira, temendo fosse o fogo à villa mandou deitar pregão para que se retirassem, e que mandava o Sacramento para a Beira e d’aqui resultou um levante que se não pode explicar.

As freiras foram para a igreja de Rosais; o ouvidor e outros clérigos para o Faial, o doutor juiz de fóra e outros para o Pico e o mais povo de quasi toda a villa foi para a Beira e Rosaes. Este levante foi sem maior necessidade, por que no dia em que o fizeram foram ver o fogo que já pouco corria e só por dentro da ribeira.

O alto da serra por onde o dito fogo passou ficou abatido e em grotas formidáveis, os caminhos quebrados de forma que não passavam carros nem gente por parte, as fontes secas.

Poucos dias depois retrocedeu ao primeiro logar em que tinha rebentado, defronte da igreja da Urzelina, com a mesma força que dantes, e perseverou doze dias, em que foram continuas as súplicas a Deus e por não sermos ouvidos do Senhor, por serem as culpas em maior número que as suas misericórdias, continuou o mesmo flagello. sahindo do vulcão (que dizem ter bocca em circunferência de um moio de campo) muitas areias, que arruinavam parte dos campos da referida freguezia de São Matheus e das mais circunvizinhanças, e chegou a cahir na ponta do Pico, em Angra e São Miguel, e para a parte da villa não cahio porque os ventos sempre cursaram pelo nor-noroeste.

N’este tempo todo o povo da Urzelina se ausentou desamparando todos as suas moradas, uns para as Manadas, outros para a Calheta. outros para Rosais e uns para Angra, isto o povo da Urzelina, ficando só o reverendo vigário no adro.

Observou-se que em quanto a maré enchia aquelle vulcão embravecia mais e deitava com mais força pedras mármores grandes, umas das gerais eram muito pretas e pesadas e feriam lume, e outras à maneira de vergas, de lagens e outras redondas, umas muito brancas e partidas reluziam pelo muito salitre que tinham.

Em uma noite estando o vigário da Urzelina em guarda de sua igreja, sendo já 11 horas e meia, pegou a observar umas ribeiras de fogo, que vinham correndo pelo monte abaixo, e tocando a fogo apenas acudiram 6 ou 8 pessoas, que acompanharam o Santíssimo para a ermida do Senhor Jesus, para onde na mesma noite fez trasladar todas as imagens, vasos sagrados e vestes sacerdotais.

Entraram logo a observar que os campos circunvizinhos ao dito monte se iam incendiando e levantando-se pedras como montes, que corriam ardentes até à planície das vinhas que faziam pasmar a quem tal castigo via.

Em 17 do dito mez de maio, vendo o vigário das Manadas, o reverendo Jorge de Mattos Pereira, que o da Urzelina se achava estrompado e com a sua gente dispersa veio com parte dos seus fregueses à igreja da dita freguezia de S. Matheus para salvar o que podesse da dita egreja, o que assim fez, e estando trabalhando na mesma de repente se levantou um tufão de fogo ou vulcão e introduzindo-se nas terras lavradas levantou todos aquelles campos até abaixo ás vinhas com todas as árvores e bardos, fazendo-se uma medonha e ardente nuvem e correndo até abaixo da igreja queimou trinta e tantas pessoas na egreja e nos campos, e vindo para a parte da ermida do Senhor Santo Christo tomou a luz ao sol de sorte que parecia uma tremenda noite e pensando o dito vigário da Urzelina que era a última hora de vida já trémulo tratava de consumir o Sacramento, mas em quanto se aprontou entrou a divisar uma pequena luz e esperando um pouco, vendo que ia esclariando, não quiz consumir o Sacramento e saindo a ermida logo se encontrou com o vigário das Manadas e um clérigo queimados e todas as mais pessoas que com elles entraram, uns por menos molestos foram para a sua casa e outros ficaram na referida ermida e casas vizinhas, por não poderem ir para as suas, vindo uns com os couros das mãos e pés pendurados, outros tão inchados e pretos que se não conheciam, outros com as pernas quebradas, e alguns espirando, todos pedindo Sacramentos, e apenas os receberam alguns logo expiraram (4.).

E vendo o rev. vigário que o fogo era cada vez mais e que se ia aproximando à dita ermida levou o divino Sacramento para as Manadas para a ermida de Santa Rita, em cuja tarde administrou os sacramentos a alguns dos seus fregueses, que ali se achavam queimados e a outros d’aquella freguezia das Manadas com licença do rev. vigário.

No dia seguinte consumiu o Sacramento o rev. vigário da Urzelina e a toda a pressa passou à parte do Norte por onde veio para o logar da Ribeira do Nabo para accudir a alguns dos seus freguezes, que para o dito logar se tinham passado queimados, isto por já não poder passar pelo sul pelos tufões de fogo que saíam da bocca d’onde corriam caudalosas ribeiras de fogo em matérias fluidas, que já chegavam quasi ao mar.

Agora se acha o dito vigário com os sacramentos na ermida de Nossa Senhora da Encarnação para onde voltaram os que andavam dispersos.

Até ao dia 16 do dito mez eis aqui o que se observou, apparecendo na falda do monte que se formou de pedra e areia, o mais alto da ilha, uma abertura d’onde sahia uma caudalosa ribeira de fogo que chegou a dividir-se em cinco, e transbordando todas arrasaram os principaes campos e sessenta e sete casas de morada, toda a canada dos Abreus até à canada onde o padre Bartholomeu Luiz morava, com vinhas e terras, ficou em mysterio, e vindo estas ribeiras ao mar levaram a igreja de S. Matheus, que hoje se acha em mysterio tão alto que hombrea com a torre da dita egreja, menos a dita torre e frontispício com um bocado do adro.

Até 5 de junho do dito anno, domingo do Senhor Espírito Santo, sahiu d’aquelle vulcão umas vezes pedra outras areias, em cujo dia sahiu com tanta força que chegou à villa, (7.) e desde este dia até à sexta-feira seguinte deitou tantas cinzas, que abrasaram as cearas de muitas freguezias, e cobriram os pastos de forma que alguns sujeitos varreram os pastos para ver se os gados comiam, mas nem assim podiam pastar e por esta razão morreram muitos gados.

Todas as boccas por onde rebentou fogo fumam, mas sem prejuízo (8.), ainda que estamos esperando a cada instante renovação do fogo, porque nossos corações nenhum arde de amor Divino.

Em todo o espaço do mez de maio, em que correu o fogo, nunca anoiteceu n’esta ilha, porque faltando a luz do sol ficava a do fogo.

O Dr. João Teixeira Soares escreveu uma narrativa da mesma erupção, que publicou no jornal Jorgense, números 21 e 22 de 15 de agosto e 1 de setembro de 1872, que foi transcrita no Archivo dos Açores, vol. V, páginas 442 e 443, firma-se naquela outra do padre João Ignacio e nas notas que ele havia feito. Desta narrativa destacam-se as seguintes considerações:

Desde aquelle dia (5 de junho) até ao dia 10 do mesmo mez teve logar a emissão de cinzas, que cahiram sobre uma grande área da ilha, chegando mesmo a algumas vizinhas.

Então cessou a atividade vulcânica, mas gradualmente; as crateras fumaram ainda por muito tempo, e por muitos anos se percebeu próximo às fendas, que na direção do oriente ao ocidente se abriram, uma maior elevação de temperatura, assaz denunciada pela vegetação herbácea que cobria o solo. As lavas conservaram também por annos gazes sulfurosos.

Dos phenomenos que relatamos, aquelle que nos parece dever chamar mais a atenção do geólogo, é o das nuvens ardentes. Sahiam das crateras depois de uma como syncope da atividade d’estas. Eram carregadas d’uma poeira húmida ou polme, que fazendo-as pesadas as obrigava a correr por sobre a terra, vertente abaixo, para o mar. Traziam uma terrível força de translação.

A introdução da mais leve parte nos órgãos da respiração causava a morte. Idêntico phenomeno apareceu como vimos em 1580.

A lava de 1808 é a mais tratável que talvez se conheça na história geológica. Muitas partes d’ella estão já convertidas em frondosas matas. A representação gráfica das crateras e lavas dum e outro vulcão esclareceriam notavelmente a sua historia e relações.

Na Revue Scientifique de la France a de l’Etranger, 2.ª série, 2.º ano, n.º 51, 21 de junho de 1873, página 1200, com o título Saint George (Açores) et ses eruptions, Ferdinand André Fouqué escreveu o que a respeito das erupções de 1580 e 1808 verificou nas duas crateras que visitou, e que o volume V do Archivo dos Açores, páginas 444 e 445, transcreveu.

Aquele naturalista, desembarcando na vila da Calheta no dia 8 de julho de 1872, dirigiu-se no dia imediato, acompanhado do Dr. João Pereira da Cunha Pacheco, ao lugar das ditas crateras, resultando do seu estudo o seguinte:

Estas nuvens eram carregadas de uma poeira húmida, desciam ao longo da vertente, rojando-se pela superfície do terreno. A este contacto venenoso as plantas murcham e morrem imediatamente. …

O poder asphixiante d’estas nuvens, a sua progressão perto da superfície do solo e o seu constante movimento pelos declives do terreno indicam como elemento principal d’eIas a existência de um gaz deletério e denso que, muito provavelmente, não seria senão o ácido carbónico.

A sua opacidade deve atribuir-se ao vapor d’agoa, meio condensado e a sua cor avermelhada ao pó vulcânico muito subtil arrastado e em suspensão naquela mistura de gazes e vapores.

Enfim a ação deletéria exercida rapidamente sobre as plantas provém sem dúvida do acido clorídrico e do acido sulfuroso expelidos juntamente com os vapores aquosos e arrastados por elles. As testemunhas da erupção de 1808 não fazem menção de chamas; as descrições que deixaram levam a pensar que a temperatura das nuvens ardentes era pouco elevada. A sua atenção foi principalmente excitada pela ação venenosa d’estes agentes.

Segundo uma narrativa, provavelmente um pouco exagerada, os homens e os animais morriam mal respiravam aqueles vapores pestilenciais. É evidente, portanto que as nuvens ardentes de 1808 eram muito mais húmidas e com uma temperatura muito mais baixa que as de 1580.

Sem dar plena fé do que se conta das nuvens daquela primeira erupção conterem em si globos de chamas, pode-se pelo menos afirmar que elas transportavam ao longe matérias incandescentes e que os efeitos destruidores eram devidos tanto ao seu poder calorifico como à sua natureza química propriedades bem diferentes das nuvens de 1808.

Todavia a identidade dos nomes dados pelos habitantes, com dois séculos de intervalo, àquelas singulares manifestações é na realidade justificada por muitas considerações. Nos dois casos com effeito, trata-se de massas vaporosas, opalinas, carregadas de matérias pulverulentas, de contornos arredondados como os de uma nuvem, que descem pelas encostas das montanhas à superfície do solo, e que mataram as plantas e os animais.

A existência de globos de fogo nas nuvens ardentes de 1580 é mais duvidosa, porque com muita dificuldade se compreende como gazes, cuja combustão produz chamas, possam transportar-se ao longe, ao ar livre, sem que imediatamente sejam inflamados. Admitindo além d’isso, que houve uma differença considerável entre as temperaturas das nuvens ardentes das duas erupções, não se pode achar n’este único facto rasgo bastante para os qualificar como dois fenómenos absolutamente distintos. Os effeitos caloríficos descritos foram presenciados por observadores inexperientes: a situação dos logares em que se produziram, a distância mais ou menos afastada das boccas de emissão, a rapidez variável de translação da nuvem vulcânica, as condições climatéricas particulares da atmosfera no momento de cada uma das erupções, e muitas outras causas, podiam ainda modificar considerável e diversamente a intensidade das ações devidas à intervenção do calórico.

É, pois, com razão que as testemunhas da erupção de 1808 conservaram a denominação usada em 1580, posto que não tivesse todo o vigor e precisão desejáveis. Phenomenos semelhantes aparecem perto d’outros vulcões (9.) mas talvez em parte alguma as nuvens ardentes se viram melhor do que nas duas erupções de S. Jorge. Insisto tanto mais no seu exame, quanto ellas me parecem fornecer a chave de alguns problemas fornecidos pelas exumações de Pompeia.

A situação estranha dos esqueletos descobertos no meio das ruas da necrópole vulcânica romana é muito difícil de explicar, na maior parte dos casos, invocando somente a analogia com os phenomenos que se observam nas modernas erupções do Vesúvio. Uma chuva de cinzas por mais abundante e carregada de humidade que seja, não pode, por exemplo ter, lançado por terra e soffucado um homem robusto, que encontrou a morte fugindo por uma rua pública, em companhia de suas duas filhas. Foi necessária a intervenção de um gaz deletério para matar todos três com espantosas agonias. De todas as lavas que tem corrido nos Açores, depois que os portuguezes as abordaram, a de 1808 é de todas a mais alterável. Os musgos e os liquens invadiram-na primeiro, depois a vegetação herbácea implantou-se n’ella e por fim os arbustos e as árvores. Atualmente certas porções estão transformadas em espessas matas, enquanto ali próximo muitas camadas de lavas de 1580 apenas começam a desagregar-se.

Na Corographia Açorica, página 94, João Soares de Albergaria de Sousa, que foi testemunha ocular da erupção de 1808, diz:

O vulcão de 1808, que vimos rebentar nas Lagoinhas, sobre a serra que fica ao norte e iminente à aldeia da Urzelina, também respirou no lugar d’Entre Ribeiras, uma légua ao noroeste e depois no das Areias; a primeira boca expeliu por largos dias grande quantidade de materiais; 7 dias apareceu o sol obscuro pela densidade da atmosfera, impregnada dos vapores vulcânicos; choveram cinzas; a ilha sofreu muitas e violentas concussões; o solo na vizinhança do vulcão abriu fendas profundas; os lábios dos hiatos abateram em lugares de 4 a 6 palmos. Este vulcão correu ao mar sem interrupção, deixando o chão coberto de lava em altura de 30 pés, pouco mais ou menos.

Como se vê, nem o Padre João Ignacio da Silveira, nem João Soares de Albergaria de Sousa, testemunhas da erupção, aludem ao pedaço de terreno rodeado de lavas que ficou incólume e que a tradição do povo atribui ao facto de nele pastar uma rês destinada ao bodo do Espírito Santo.

Também Francisco Ferreira Drummond, nos Anais da Ilha Terceira, tom. III, pág. 184, referindo-se àquele fenómeno diz que foi visto e sentido na ilha Terceira, caindo até cinzas por muitos dias, que se achava a cada passo, empacada sobre as plantas dos jardins, das hortaliças e campos mais remotos.

Foram igualmente pressentidos os terremotos na ilha do Faial, de onde vendo-se rebentar o fogo na ilha de S. Jorge, mandou a Câmara Municipal da Horta uma lancha com algum socorro e uma carta à câmara das Velas, oferecendo hospitalidade às pessoas que se quisessem nela refugiar (António Lourenço da Silveira Macedo, História das Quatro Ilhas que Formam o Distrito da Horta, tomo 1, páginas 300 e 542).

21.3. A REAÇÃO DAS AUTORIDADES PERANTE A CATÁSTROFE

Abandonada a presidência da câmara das Velas pelo juiz de fora, Dr. António Augusto Pereira, que se retirou para a fronteira ilha do Pico apenas rebentou o fogo, os demais vereadores nomeados por carta régia de 9 de dezembro de 1806, capitão Amaro Teixeira de Sousa, sargento-mor José Soares de Sousa, capitão João Ignacio da Silveira, e procurador do concelho Jorge José Covilhão, encerraram-se na administração municipal, tomando providências cujos acórdãos relacionaram em um caderno, que o juiz de fora no seu regresso fez desaparecer para ofuscar os serviços daqueles patriotas.

Tendo o capitão-general D. Miguel António de Melo conhecimento do sucesso, mandou em carta de 18 de maio à câmara para distribuir gratuitamente pelos pobres 5 moios de milho: recomendou-lhe se implorasse a misericórdia divina, e que ela o avisasse da necessidade de maiores socorros, concluindo em prestar-se em ir à ilha se a sua presença fosse necessária. A câmara, por sua carta de 23 de julho agradeceu ao capitão-general a oferta do cereal e os bons desejos que nutria a favor do povo oprimido pelo fogo. E aproveitando os oferecimentos do capitão-general terminou pedindo que a maior esmola que v. ex. lhe fazia em atenção à suma pobreza em que ficava esta ilha, era representar a sua alteza real se dignasse abolir o regimento de milícias, cujo corpo é formado por uma grande parte dos empobrecidos com a queima: com os pobres que não vivem de outra cousa senão do seu jornal e outros muitos miseráveis que talvez apareçam com a farda para fazerem as guardas sem vestirem camisa pela não terem: a ocasião é oportuna, v. ex. está disposto a proteger esta ilha queira dignar-se fazer-lhe a maior de todas as esmolas.

O governador e capitão-general, como resposta, em sua carta de 21 de outubro ao juiz de fora, insultando a câmara, mandou que aquele magistrado em vereação severamente repreendesse os sujeitos que tal carta assignaram (!) que não tendo o escrivão da câmara registado aquela carta o suspendesse, como efetivamente foi suspenso o que o era, José Félix Rodrigues Mendes. E por desconfiar, ele capitão-general, tenha para tais absurdos concorrido com suas astúcias ordinárias António Sebastião Espínola, v. mercê o mandará prender à minha ordem pelo tempo que deixo ao seu arbítrio.!!!

Ao pároco da freguezia José António de Barcellos – diz em manuscrito o dr. João Teixeira Soares, publicado no jornal Velense, n.º 135, de 23 de julho de 1885 – verdadeiro pastor do seu rebanho, foram durante muitos anos pela junta da real fazenda dadas respostas de evasiva ás petições em que implorava o auxílio para a construção d’uma nova paróquia: e só no governo do capitão-general Francisco de Borja Garção Stockler pôde alcançar os auxílios que pediu, levantando à custa de fadigas e sacrifícios penosos a nova paróquia, sem outro galardão mais que o reconhecimento da posteridade.

Notas: Na semana antecedente a terra havia tremido por vários dias. Este fenómeno foi pressentido pelos irracionais que se achavam nas proximidades do logar em que ocorreu. Poucos minutos antes do acontecimento os gados que se achavam próximos, começaram a mostrar-se inquietos e aterrados correndo sem que houvesse tapumes que os pudesse aguentar para o lado norte da ilha. As pessoas que se achavam por aqueles sítios vendo a fuga dos gados, seguiram instintivamente o mesmo proceder, de uma delas houvemos esta informação. Foi este para os homens o mais terrível dos acontecimentos d’este vulcão. Manifestou-se pela primeira vez depois de começar o curso das lavas e foi então que produziu o maior estrago por ser ainda desconhecido. Por um pouco parecia que a atividade das crateras se suspendia. Seguiu-se a esta sincope a explosão d’uma nuvem escura que rojando-se pelo solo baixava pela vertente da ilha até ao mar com uma força prodigiosa arrasando e queimando quanto encontrava: o que d’ela respirava morria necessariamente. Os effeitos d’este fenómeno fazem lembrar os do simaun do deserto, assim não lhe ficaria mal o nome de simaun vulcânico. Segundo os assentos da paróquia foi n’este dia 17 levado ao mar pelos ares pelo referido tufão Francisco José de Sousa, casado, de 59 annos de idade e morador na freguezia. Morreram mais no mesmo dia queimados pelo mesmo tufão Anna da Gloria, solteira, de 49 annos de idade, Francisco Machado, casado, de 30 annos de idade, Luzia de Jesus, casada, Thereza lgnacia, viuva. de 30 annos de idade, João, solteiro, de 14 annos, José Silveira Borges, casado, de 42 annos, João Espinola, casado, de 55 annos. Os proprietários que mais perderam foram, acima do caminho, começando do poente, o convento das freiras desta villa, os filhos de José Monteiro de Castro, o capitão Joaquim José Pereira e seu irmão o capitão Manuel José da Silveira, abaixo do caminho o padre António Homem de Bettencourt. As lavas d’este vulcão, que apenas tem uma existência externa de 63 annos, são talvez as mais benignas que se encontram em toda a terra. Em logares, sobretudo nos declives, já se encontram frondosas matas. Se a incúria dos proprietários não fosse tão grande, já podia aquele solo estar na quasi totalidade arborizado. Esta igreja havia sido construída no primeiro quartel do século passado. Estava voltada ao oriente. A sua torre ainda hoje existe completa. A causa da chegada d’aquelles produtos vulcânicos a esta villa não foi devida tanto à força com que foram expellidos como a haver n’aquelle dia soprado o vento de leste o que até ali não sucedera. As emissões gasosas duraram ainda por muitos annos não só nas crateras e fendas do solo, mas nas próprias lavas. Ainda em 8 de julho de 1810, por occasião de se pretender limpar o poço de baixa-mar da freguesia, no qual haviam caído escorias da lava, morreram asfixiados dentro do mesmo por emanações sulfurosas: Manuel Ignacio Lopes, de 29 annos, casado: Manuel José de Sequeira, 23 annos, casado: António, filho de José António Fagundes, 15 annos, solteiro. Eram todos trez da freguesia de Santo Amaro e tinham ido àquela de faxina.

O vulcão de Santorini em 1866[2] produziu fumaradas ácidas com movimentos rotatórios singulares causando nas plantas efeitos devastadores análogos, aos das nuvens ardentes dos Açores.

21.4. DESASTRE DE 1964

15 de fevereiro de 1964 não foi apenas um dia em que a terra estremeceu com violência na Ilha de São Jorge. Abriu caminho para uma verdadeira revolução dos pacatos habitantes da ilha, dado que muitos acabaram por emigrar para as mais diversas partes do mundo, abrindo um caminho inesperado para África, em particular para Angola.

Como sempre, tudo muda quando a Natureza nos sacode, porém este foi um dos mais trágicos acontecimentos que resultaria num outro, não menos grave para esta gente, que foi a independência da ex-colónia portuguesa, que os fez regressar às suas terras na condição de quase apátridas, apelidados de “retornados” e sem meios para recomeçar o que haviam. O sofrimento ainda não terá acabado para muitos dos jorgenses que estremeceram por cá e, depois, a milhares de quilómetros da terra que os viu nascer. Muitos, não cumpridas as promessas, regressaram à terra dois anos depois e outros foram-se ficando ou seguiram para os EUA e Canadá. Todos sofreram pelo caminho.

A crise sísmica iniciou-se em agosto de 1962 com pequenos sismos, sendo alguns deles um bocadinho fortes, conta Victor Hugo Forjaz, que se encontrava a estudar no Continente.

Recorda que, a partir de dezembro desse ano, a crise pareceu decair, porém, no dia 15 de fevereiro de 1964, às sete horas da manhã, recomeçou a crise e, em 24 horas, registaram-se 179 abalos, alguns macrossismos, alguns deles de grau VI ou VII, com tudo a acontecer envolto no meio de uma violente tempestade ciclónica com chuva e vento, o que ainda acabou por agravar, em muito, sobretudo as operações de salvamento das pessoas e entre elas os medos foram ainda maiores, atingindo pontos de sofrimento só entendível para quem os viveu.

“Esta crise de São Jorge, ocorrida em 1964, ocorreu essencialmente ao longo do mês de fevereiro” recorda o geólogo Victor Hugo Forjaz, que tinha, na altura, 23 anos de idade, e que foi testemunha ocular dos acontecimentos que se seguiram ao terramoto que mudou por completo a vida a milhares de jorgenses.

Entre os primeiros técnicos a chegar a São Jorge, encontrava-se o tenente-coronel José Agostinho, já então, uma autoridade na matéria e o jovem estudante Victor Hugo Forjaz, mas isso aconteceu apenas três dias depois dos eventos, devido ao mau estado do tempo e à falta de um aeroporto na ilha. No entanto, já antes, o nosso interlocutor conta que haviam sobrevoado a ilha, numa altura em que a rede sísmica existia apenas nas ilhas do Faial (Horta), Terceira (Angra do Heroísmo), e São Miguel (Ponta Delgada).

Durante as primeiras duas semanas os habitantes da ilha de São Jorge viveram no meio da maior confusão, com cerca de 500 sismos sentidos e como consequências imediatas, ficaram destruídas 900 casas de habitação, para além de outras de arrumos. Das 900 casas destruídas, cerca de 400 ruíram desde os alicerces, não ficando pedra sobre pedra, tendo sido evacuadas para fora da ilha, cinco mil pessoas.

Victor Hugo Forjaz releva o facto desta crise sísmica ter começado, epicentralmente falando, pelas zonas da Urzelina, depois, Manadas e Pico da Esperança, tendo depois mudado para a zona da Vila das Velas e, nos dias 18, 19 e 20 de fevereiro de 1964, “eu já me encontrava em São Jorge, no meio de ventos fortes e do lacrimejar atmosférico, ocorreu uma erupção no mar, a cerca de milha e meia de terra, em frente aos Rosais” – conta à DI Revista, o vulcanólogo.

“Com a erupção para Sudoeste, para o lado do Faial, deram em aparecer milhares e milhares de peixes mortos que deram à costa e aquele cheiro persistente típico de uma erupção vulcânica. Já uns dias antes, no início do mês, havia surgido o alerta do corte de um dos cabos submarinos que ligavam as ilhas”.

Na primeira missão, a 16 de fevereiro, Frederico Machado (que chefiava a missão), José Agostinho e Victor Hugo Forjaz, já se encontravam na ilha, tendo-se reunido a Tomás Pacheco da Rosa, faroleiro dos Rosais, que fora observador vulcanológico nos Capelinhos, durante a crise ocorrida no Faial, na década de 1959. Victor Hugo Forjaz disse ao DI que uma das caraterísticas negativas do que aconteceu com o terramoto na ilha de São Jorge também se prendeu com o formato da ilha, estreita e muito escarpada, o que criava um sentimento de aflição, com muitas pessoas a lançar-se autenticamente para os navios.

A evacuação retirou da ilha cerca de cinco mil pessoas, das quais cerca de um milhar ficaram temporariamente na ilha Terceira, o que criou, ao tempo, uma enorme perturbação social gerada pela falta de meios para albergar, de repente, tanta gente, sendo que aqueles que tinham parentes na ilha de Jesus resolveram o seu problema, mas muitos ficaram albergados em casas de pessoas que nunca tinham visto antes, com todos os incómodos que isso traz. Entretanto, entraram em ação o então Governador Civil do ex-distrito de Angra do Heroísmo, Teotónio Machado Pires, e o presidente da Câmara Municipal das Velas, Duarte de Sá, que utilizaram as embarcações “Espírito Santo”, “Santo Amaro” e “Terra Alta”, dando início a uma verdadeira epopeia marítima, acartando víveres para a ilha onde a vida ficou praticamente parada.

“Nesse tempo, eram apenas pequenas mercearias, não havendo supermercados nem sequer stocks de bens alimentares ou meios para os confecionar, como a farinha, que teve que partir da ilha Terceira no meio de grande tempestade num dos mais famosos barcos de carga interilhas do Grupo Central, o “Girão”.

Após sobrevoarem a ilha de São Jorge num Dakota da SATA, a equipa de técnicos teve ainda que viajar numa fragata da Marinha Portuguesa “enfrentando ventos ciclónicos e após diversas tentativas não foi possível desembarcar nas Velas, o mesmo tendo acontecido no porto da Urzelina, acabando por continuar a navegar até um cantinho da Vila da Calheta, e foi ali que ficou instalado uma espécie de quartel-general.

A entrada na Vila das Velas foi “chocante”, conta Victor Hugo Forjaz.

“Parecia que estávamos a entrar numa daquelas pequenas cidades fantasma do faroeste. Não se vislumbrava vivalma. Apenas casas abatidas e janelas partidas e escancaradas; gatos, cães, vacas e outros animais domésticos por todos os cantos da Vila, presumivelmente assustados e em busca de comida. Enfim, uma verdadeira tragédia”.

Quando a crise acalmou, vieram as tendas da tropa, mas eram precisas muitas para recolher tantas famílias, o que levou a que fosse disponibilizado o navio “Niassa” para se deslocar às Velas transportando os equipamentos necessários para resolver os problemas mais imediatos que eram os de alojamento. Foi precisamente nesse navio, o “Niassa”, que as pessoas que desejaram abandonar a ilha foram levadas até Angola, com a promessa de receberem terras e gado, mas isso nunca foi cumprido, afirma Victor Hugo Forjaz.

Por isso, dois anos após a crise sísmica, muitas dessas famílias estavam de volta à ilha de São Jorge, e apenas as que emigraram para os Estados Unidos da América do Norte e Canadá, acabaram por assentar na diáspora, se bem que alguns, poucos, saíram com destino ao Brasil.

Para o geólogo, hoje não teria sido tão complicado como aconteceu em 1964 porque “há maiores cuidados na construção das habitações”, mas adianta que “ainda existem pessoas que estão a construir com pouca qualidade e, sobretudo, escolhendo localizações em zonas de elevado risco, perto do mar, em encostas que em caso de um sinistro com estas proporções poderão estar condenadas a ficarem destruídas constituindo grande perigo para os seus moradores, porque os terramotos nunca acabarão nas ilhas dos Açores, sendo sempre uma questão de tempo e muitas vezes sem aviso prévio”, pelo que todos os cuidados serão sempre poucos.

21.5. VELAS, 17 de fevereiro

Sob a presidência de Duarte Sá, foi possível efetuar a 17 de fevereiro uma reunião extraordinária da Câmara Municipal das Velas, tendo sido decidida a constituição de diversas comissões. A primeira, denominada “Comissão Central”, era constituída pelo presidente e vice-presidente da edilidade, aos quais se juntaram os vereadores António Cristiano da Silveira e Manuel da Silva Bettencourt; “Comissão de Transportes”, constituída pelos comandantes da Polícia e da Guarda Fiscal, e que tinha como função obter e colocar em funcionamento todos os meios de transporte necessários para organizar as mais diversas tarefas; “Comissão de Instalação, constituída pelo chefe de equipa da Junta Autónoma dos Portos e presidente da Junta de Freguesia das Velas, “destinada ao estabelecimento de sítios de recolha das populações”, “Comissão de Assistência Médico-Social”, de que faziam parte o delegado de Saúde, Provedor da Santa Casa da Misericórdia, que ficaram responsáveis por todo o serviço de assistência às pessoas que necessitassem de apoio médico e social; a “Comissão de Assistência” era dirigida pelo presidente da Comissão Concelhia da União Nacional e Assistente Social, com o fim de proceder à “recolha, preparação e distribuição de géneros alimentícios às populações; a “Comissão de Comunicações” era formada pelo Delegado Marítimo e chefe da Estação Telégrafo Postal, mantendo os serviços de comunicações e de escuta permanente; as “Comissões de Freguesia” foram lideradas pelos párocos com o fim de atenderem diretamente às populações e estabelecerem contacto com a Comissão Central para o envio de assistência e, se necessário, de observadores.

Com Fernando Silveira, em São Jorge 01/03/2004 – 09:29

21.6.1. REGRESSANDO AO TURISMO NO CHARUTO-ILHA

Quanto ao Povoamento das ilhas sabia já que o Faial e Pico tinham sido doados, antes de 1466, ao flamengo Josse Van Huertere (Joz de Utra, nome posteriormente transformado em Dutra), casado com Beatriz de Macedo e sogro do famoso Martinho da Boémia. Na sua companhia teriam vindo muitos flamengos, dentre os quais se destacou Wilheim Van der Haagen (Guilherme da Silveira), que, passou às Flores e desta para a Terceira e S. Jorge, promovendo, desse modo, o povoamento. A rua dedicada a este homem carece de importância e está na vila das Velas a demonstrar que a História continua a merecer lugar secundário nas mentes dos homens.

Pois bem, a ilha de 246 km² com 65 km de comprido e 8 de largura máxima sempre lhe parecera um enorme charuto abandonado no oceano, ao lado da perna de galinha (Pico) e já longe do cachalote (S. Miguel). Distando 21 milhas da Terceira, 19 da Graciosa e 10 do Pico, dispunha apenas de dois concelhos: Velas e Calheta. Nas Velas ainda se podem observar várias casas solarengas de rica traça que atestam a sua riqueza patrimonial apesar dos muitos sismos que ficaram na história. As Igrejas da Matriz e N. Sr.ª da Conceição nada têm de extraordinário, o mesmo se podendo dizer da Igreja de Santa Catarina na Calheta, mais interessante é a de Santa Bárbara nas Manadas, a da Queimada sendo também digna de visita a Torre Sineira na Urzelina, ou o que resta da igreja derrocada pelo violento sismo de 1 de maio de 1808.

A cordilheira central atravessa a ilha a todo o comprimento e deixa apenas nas suas franjas as interessantes fajãs, exercício de vontade dum povo que lutava pela sua independência económica arrebanhando a terra que a natureza criava. Beleza agressiva e de acesso capaz de cortar a respiração a qualquer um, a ida às Fajãs que dispõem de estrada alcatroada é em si mesma um exercício de desafio das leis da natureza e não aconselhável a quem tenha vertigens ou seja impressionável. Conhecida pelas suas fajãs (terras baixas, à beira-mar, resultantes de materiais desprendidos por quebradas ou acumulados na foz de uma ribeira e assentes quase sempre num banco de lava muito resistente, são extremamente férteis e habitadas e cultivadas com fantásticas piscinas naturais que são autênticos aquários, onde se nada rodeado de peixes que não se incomodam minimamente com a presença humana) a ilha tem uma grande variedade de circuitos pedestres. A que mais impressionou pela positiva e sua beleza foi a do Ouvidor, mas pela perigosidade da estrada a de São João ganhava a todas mesmo à dos Cubres (e daqui era ainda necessário ir a pé uma hora para a maravilha da ilha, a do Santo Cristo).

O ilhéu do Topo é único e impressiona pela beleza que a natureza proporciona sem estar conspurcado pelo Homem. No outro extremo da ilha há uma maravilha paradisíaca: a reserva ou parque natural das Sete Fontes em Rosais, cujo farol abandonado deveria ser recuperado pois tem uma localização inigualável e umas vistas excelentes. Ali se faria uma excelente pousada com vista para um pôr-do-sol inolvidável. As formações geológicas em volta do farol são espantosas pelos caprichos da mãe natureza. O mais estranho no Parque Natural das Sete Fontes, foi encontrar os tão diferentes e originais porcos do Vietname e os omnipresentes e engraçados gamos.

A ida ao Pico da Esperança foi coartada pelas nuvens pois nunca passara do seu sopé intermédio e não pudera ir aos 1053 metros onde há oito anos se despenhou, sem sobreviventes, um avião da SATA onde ia um primo seu. A ilha tem inúmeros miradouros estrategicamente colocados e mais úteis quanto a paisagens deslumbrantes do que muitos dos miradouros que existem em São Miguel, por exemplo. A reserva da Silveira só permitia o acesso a pé e como a estadia era de cinco dias ficou adiada a sua exploração.

É nas Velas, de frente para o imponente Pico, que a ilha se centra, mas os seus segredos e encantos estão por todo o lado. S. Jorge é um exemplo de que o Homem pode viver em conformidade com a Natureza, se cada um souber ocupar o espaço que lhe é designado. O verde e o azul predominam, as estradas estão orladas por hortênsias. Lá em cima, à noite, os cagarros mantêm animadas conversas e alguns parecem crianças a chorar. Demorara duas noites a descobrir o que era aquele som original. É indescritível, mas ao mesmo tempo belo e melancólico. Durante a noite apenas se viam as suas sombras acompanhadas daquele lânguido som, a pairar por sobre a piscina do hotel, contigua às arribas e ao mar. A nota mais forte das primeiras impressões era o calor abrasador, o calor maior já sentido em mais de três anos no arquipélago, mas os termómetros não aparentavam mais do que os valores normais entre os 20 e os 27 °C. Essa sensação iria permanecer mesmo durante a noite em que o ar condicionado ficava ligado e durou todos os dias da estadia. Interrogado um local no Topo este disse que de facto a ilha era mais quente que as outras, mas no inverno também era bem mais fria.

Uma ilha sofrida, mas bela, agreste, mas acolhedora pelas suas gentes simpáticas e despretensiosas. ….

[1] https://pt.wikipedia.org/wiki/Vulc%C3%A3o_da_Urzelina#cite_note-0

[2] Veja-se a nota de M. de Corona inserta nas Comptes Rendues de l’Academie des Sciences, Tomo LXIV, 1867.

sobre a história da ilha de Santa Maria

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in chrónicaçores uma circum-navegação vol 2 2011

 

A mais antiga referência às ilhas é feita no Portulano Laurenziano-Gaddiano ou Atlas de Médici, de 1351. Admite-se que a descoberta tenha sido feita por uma expedição luso genovesa numa viagem de retorno às Canárias. As ilhas foram designadas: “Insule de Lobo” [Ilha dos Lobos Marinhos], “Insule de Caprera” [das Cabras], “Insule de Brazi” do Brasil], “Insule de Ventura sive Li Columbis” [da Ventura e dos Pombos], “Li Conigi” dos Coelhos?] e “Insule de Corvi marini” [dos Corvos Marinhos]. Estas informações foram repetidas nas cartas posteriores, como no Mapa de Pizzigani de 1367. No Atlas Catalão de 1375, de Abraão Cresques, aparecem pela primeira vez individualizadas a Ilha de “San Zorzo” [São Jorge], a Ilha do Faial chamada de “Insula de la Ventura” e a do Pico chamada de “Li Columbi” [dos Pombos].

Foi a primeira ilha dos Açores a ser povoada, vê desembarcar das caravelas em 1439, o punhado de pioneiros que se fixaram na Praia dos Lobos, ao longo da ribeira do Capitão. João Soares de Albergaria, sobrinho do primeiro Capitão Donatário e seu herdeiro, deu um novo impulso ao povoamento de Santa Maria trazendo famílias do Continente, sobretudo algarvias.

Diogo Silves terá aportado no regresso da Madeira, em 1427. Hoje tem 6 500 habitantes. As terras são muito férteis nesta ilha de 97,42 km² (17 km comprido e 9,5 largura), pouco menor que o Ataúro em Timor (105 km2). É a ilha mais a sul e a leste e a única com terra de origem sedimentar e fósseis marinhos.

Até finais do séc. XV, a ilha registou grande desenvolvimento. O primeiro foral de vila nos Açores foi concedido à localidade do Porto, desde então denominada Vila do Porto. A prosperidade assentou, até final do séc. XVIII, no pastel, o melhor e mais abundante, e na urzela, exportados para as tinturarias da Flandres. Havia também o trigo, muito procurado para abastecer as praças-fortes portuguesas do norte de África.

Em 1493, recebeu Cristóvão Colombo, no regresso da sua primeira viagem à América. Foi considerado um vulgar pirata. Preso se quedou às ordens do governador, até esclarecimento da sua vinda. A internet da época não permitia a informação na hora sobre quem era e qual a missão ao lado outro do Atlântico. A sua estadia está narrada em livros recentes sobre a identidade de Colombo, aliás Cristóvam Cólon. Os verdadeiros piratas vieram, nos sécs. XVI e XVII, com corsários ingleses, franceses, turcos e argelinos. Efetuavam razias, incendiavam, violavam, pilhavam, levando mulheres e homens como escravos e reféns. Moedas de troca vulgares nesses dias.

A agricultura (vinhedos, trigo, milho, batata, inhame, pomares), a pecuária e os laticínios, permitiram a Santa Maria atravessar, sem sobressaltos, os sécs. XVIII e XIX. A capital é a mais antiga vila açoriana e ainda existem vestígios de velhas casas, como a do Capitão Donatário com janelas do século XV. A construção pode evocar as congéneres alentejanas ou algarvias, com grandes chaminés, mas ao contrário do que erroneamente se lê em panfletos a sua origem não tem a ver com Portugal.

As casas estão espalhadas por toda a ilha fazendo as suas chaminés lembrar o Algarve, com as suas chaminés. As terras são muito férteis e a paisagem rural é de grande beleza.

Ilha de formas irregulares, com uma área de 97,42 km², tendo o comprimento de 17 km e de largura 9,5 km, é a ilha que se encontra mais a sul e a oriente do Arquipélago, com uma população de 6 500 habitantes.

As singulares e elegantes chaminés brancas distinguem-se por entre jardins e flores, que substituem as hortas tradicionais de S. Miguel. Não são chaminés algarvias como exprime Daniel de Sá no livro “Santa Maria Ilha-Mãe”

“Até as chaminés mais antigas não se erguem muito acima dos telhados. As redondas vão um pouco mais alto, na sua elegância de navio a vapor. Pensa-se que foram brasileiros de torna-viagem que se inspiraram nas chaminés dos transatlânticos que os traziam à ilha. Por isso lhes chamam chaminés de vapor. Em Santana, no meu tempo, haveria apenas três ou quatro. O que quer dizer que todas as outras casas seriam provavelmente do século XIX ou princípios do XX, mantendo as chaminés de mãos-postas, como que pedindo aos Céus a bênção para o lar, o forno e o fumeiro. Essas chaminés “de vapor” provocaram uma interpretação errada que persiste, mesmo entre pessoas cultas. Bastaria saber a época a que pertencem para se pôr de parte a apressada tese. Por causa da sua parecença com as do Algarve e Alentejo, houve quem as visse como herança das gentes do sul do Reino. Coincidência somente.”

Digna de menção foi a presença na ilha de um contingente de tropas, após o desembarque na Achadinha e a batalha da Ladeira da Velha (em São Miguel). Preparavam-se para o desembarque do Mindelo, que ocorreu na praia da Arnosa de Pampelido, atual Praia da Memória, freguesia da Lavra, concelho de Matosinhos. O desembarque das tropas liberais, a norte do Porto, ocorreu a 8 de julho de 1832, durante as Guerras Liberais, ou Guerra Civil Portuguesa (1828-1834). Desembarcaram 7.500 homens, entre os quais Almeida Garrett, Alexandre Herculano e Joaquim António Aguiar, transportados por 60 navios. Permitiu aos liberais tomar de surpresa ao exército miguelista, a cidade do Porto dia 9 de julho, e suportar depois prolongado Cerco. D. Miguel, capitularia em Evoramonte (1834) para a implantação do Liberalismo em Portugal.

O séc. XX trouxe a Santa Maria o progresso com a construção do aeroporto por tropas norte-americanas, em 1944 e inaugurado em julho de 1945. Teve grande valor estratégico durante a Guerra. Foi ponto de escala obrigatório nas travessias atlânticas, até finais de 1960. Tem três pistas, uma delas a mais extensa do arquipélago, com 3.048 metros. Finda a guerra foi entregue ao Estado Português (junho 1946). Era o destino do voo inaugural da Sociedade Açoriana de Transportes Aéreos (SATA) e da aeronave “Açor” que cairia ao mar a 5 de agosto 1947, após descolar de S. Miguel, matando dois tripulantes e quatro passageiros. A TAP (Transportes Aéreos Portugueses) passou a escalar em 1962, iniciando voos para Nova Iorque (1969) e Montreal (1971), bem como o supersónico Concorde, entre a Europa e a América.

FOI AQUI EM 1966 QUE COMECEI A MINHA CARREIRA DE JORNALISTACircuito Internacional de Vila Real

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FOI AQUI EM 1966 QUE COMECEI A MINHA CARREIRA DE JORNALISTA…LER DE CHRÓNICAÇORES UMA CIRCUM-NAVEGAÇÃO .cronica 95 JORNALISMO
Rui Guimarães shared a post.

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FOI AQUI EM 1966 QUE COMECEI A MINHA CARREIRA DE JORNALISTA…LER DE CHRÓNICAÇORES UMA CIRCUM-NAVEGAÇÃO .cronica 95 JORNALISMO
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SOU ANTISSOCIAL OU ALÉRGICO a inelutável tradição do ruído das festas e as roqueiras (o foguetório

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escrito em 2017

CRÓNICA 177. SOU ANTISSOCIAL OU ALÉRGICO AO RUÍDO A QUE CHAMA MÚSICA? 30/7/17

A jornalista Carmen Ventura queixava-se hoje na blogosfera:

Porque não fazem os festivais no meio de um pasto e deixam dormir quem está cansado de trabalhar???

À distância que estou das ‘poças ‘ e o barulho é medonho.

Falta de respeito.

Raios partam a quem autoriza uma merda destas…

Escrevi há anos em ChrónicAçores: uma circum-navegação vol. 2 (ed. Calendário de Letras):

A festa em honra da padroeira é celebrada no último domingo de agosto, com procissão e arraial tendo já a duração de uma semana em festejos.

Nos últimos anos, a afluência de emigrantes e visitantes tem aumentado substancialmente.

Em dias de festa, vive-se um outro espírito na freguesia, as pessoas empenham-se em embelezar suas casas bem como as ruas.

Nesse domingo de festa, as ruas por onde passa a procissão são decoradas com magníficos tapetes de flores…

Aliás, desde as Festas do Divino que as festas não pararam.

Todas as noites há foguetes e barulho, aqui na aldeia, até altas horas.

Num destes dias já eram duas da manhã e os foguetes ainda estrelejavam, contrariamente às normas europeias e portuguesas relativamente à poluição sonora…

Havia gente nova há um ano à espera deste evento.

Isto permitia abrir todas as válvulas reprimidas.

Libertava a libido e os sonhos reprimidos de doze meses ilhéus, nesta prisão sem grades, que todas ilhas costumam ser.

Era a maior festa da aldeia do ano.

As diversões para os novos são poucas, sendo o opérculo de escape anual dos locais.

Velhos e novos, crianças e adolescentes, todos dançavam, pulavam e bebiam.

Bebiam e bebiam e tornavam a beber como se não houvera amanhã.

Se calhar não haveria mesmo.

O som da música enchia uma noite amena.

… há anos que me queixo do mesmo e uma vez ao ano tento fugir das festas, primeiro punham altifalantes na rua , depois eram as “discotecas” improvisadas 3 na minha rua e rua paralela, com o som bass de uma delas a ir até às 3 ou 4 da manhã…estando calor era um horror mesmo com vidros duplos o som entrava e a casa tremia…nem polícia, nem comissão fabriqueira, nada..depois decidi emigrar todos os anos na semana das festas, mas nem sempre o posso fazer (este ano vai ser um deles, e já sei que durante uma semana vão tentar a tortura sonora que faria inveja aos métodos da PIDE.

Tanto a minha rua como a paralela onde vivia o saudoso Manuel Sá Couto são residenciais e não devíamos ter de ouvir a trampa de música e de barulho que debitam…é a época do ano em que tenho mais saudade da minha civilizada Austrália….

Acreditem que até já adormeci com auscultadores… e dizem-me que sou um desmancha-prazeres e nada há a fazer… uma vez ao ano sou mesmo antissocial.

Num dos anos a música da festa anual entrava janelas adentro tonitruante, com altifalantes de dez em dez metros a debitarem pimba desde as oito da manhã.

Estava muito calor nesse ano e a minha mulher ia tomar uma atitude drástica, mas, felizmente, apareceu p vizinho saudoso Manuel Sá Couto que ao saber deste predicamento, subiu a um escadote e desligou os altifalantes que nos invadiam a privacidade e a sanidade.

A partir de então e já vão mais de dez anos, decidimos tirar férias na semana das festas.

Foi assim que acabamos por conhecer as ilhas todas, por mais de uma vez.

Chegada a última semana de agosto, para espanto e incompreensão dos locais zarpamos daqui para fora por uns dias.

Infelizmente, a minha mulher todos os anos tem de se apresentar na escola dia 1 de setembro, e nalguns casos como a festa coincide com o último domingo de agosto ainda temos de ser sonoramente violentados mais uns dias…

Respeito o direito dos locais preservarem esta tradição ancestral para a qual poupam todo o ano, seguindo a tradição de que era nestas festas da paróquia que se apalavravam os casórios das filhas espigadotas.

Ainda hoje, as jovens, de tenra adolescência, andam todas vestidinhas, penteadinhas, pintadinhas a passear rua abaixo, rua acima, ou no largo do coreto da igreja, a mostrarem-se como se estivessem numa feira de gado, desculpem a comparação.

Claro que os casamentos já não são apalavrados como dantes, mas esses tiques permanecem imutáveis, gravados na herança genética.

De notar que aqui na Lomba da Maia a consanguinidade é elevadíssima, muito mais do que na vizinha Maia…

E mais uma vez, a tradição manteve-se com os seus ademanes, mas a razão de ser dela perdeu-se no progresso que também das modinhas de música tradicional para a música pimba e música brasileira durante o dia enquanto à noite é o bum bum bum de um som “bass” bem forte, que faz tremer as paredes, acelera o ritmo cardíaco e faz perder a paciência a um santo que não sou.

Além disso, como se tal não bastasse, não nesta festa, mas em todas as ocasiões (e elas parecem ser semanais) há as roqueiras (os tradicionais foguetes ruidosos) que impedem qualquer descanso, assustando animais e humanos a qualquer hora do dia e da noite.

Costumo sempre dizer que se eu mandasse metia-lhes as roqueiras num sítio que não digo para nunca mais acenderem nenhum foguete…, mas isso são desabafos causados pela impotência de lidar com esta calamidade das festas, do ruído e da tradição profundamente adulterada que nem sequer serve para arranjar um bom casamento…

e como foi escrito:

O casamento é o triunfo da imaginação sobre a inteligência.” Óscar Wilde [1854-1890]

Ou, como afirmava Nietzsche, “festejar é poder dizer: sejam bem-vindas todas as coisas”.

Pela festa o ser humano rompe o ritmo monótono do quotidiano.

Façam uma festa, mas mais silenciosamente.

 

 

e a lei diz especificamente: o ruido e as festas Pages from 2019-06-04-2

1999 memórias do Canadá

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Orador XII Congress CATS (Association Canadienne de Traductologie, “The importance of translators and subtitlers in a Multicultural society” Univ. Sherbrooke, Québec, Canadá. https://www.lusofonias.net/chryscv/the%20importance%20of%20subtitlers.pdf
Orador 12th Congress Canadian Association for Translation Studies (CATS)/ Congress of the Social Sciences & Humanities et Congrès des Sciences Sociales et Humaines, “Translating in a multicultural society,” Univ Sherbrooke, Québec, Canadá. https://www.lusofonias.net/chryscv/the%20importance%20of%20subtitlers.pdf

AS SETE GRANDES MENTIRAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL

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CRÓNICA 153 AS GRANDES MENTIRAS DA HISTÓRIA. 21/11/15

153.1. AS SETE GRANDES MENTIRAS DA HISTÓRIA DE PORTUGAL (com imagens em pdf aqui)

1640

Chegou o momento de dar voz a outros nestas crónicas e esta de António Garrochinho é bem esclarecedora e desconhecida pela maior parte dos professores e dos alunos deste país….

Publicada por António Garrochinho quinta-feira, 19 de novembro de 2015.

A respeito da nossa História temos muitas ideias feitas que não correspondem à verdade, mas as sobre as quais assenta a imagem que temos do País. Descubra-as na íntegra. (Confira, em baixo, a explicação detalhada sobre cada mentira)

153.1.1. MENTIRA N.º 1 -PORTUGAL É UM PAÍS DE BRANDOS COSTUMES

Não é verdade. Só nos séculos XIX e XX, contam-se por milhares os mortos em guerras civis e revoluções. Foi o Estado Novo que inventou o chavão, numa operação de ação psicológica. Naquela manhã de céu azul, a capital acordou ao som do canhão.

Erguiam-se barricadas, o vizinho lutava contra o vizinho, com soldados pelo meio e bandeiras nacionais de ambos os lados. Ao final do dia, muito sangue tinha corrido nas valetas e contavam-se uns 200 mortos e mais de um milhar de feridos. Este quadro não diz respeito a um país distante nem a uma época remota do passado. Aconteceu há menos de cem anos, no dia 14 de maio de 1915. Em Lisboa, capital de Portugal. Num país de “brandos costumes”.

Se mais exemplos não houvesse, este bastaria para derrubar a tese da “brandura” dos nossos hábitos e procedimentos, posta a circular pelo Estado Novo salazarista. Mas as demonstrações de aspereza de costumes podem multiplicar-se até à exaustão.

Comecemos pelo caso acima referido. O levantamento de maio de 1915, liderado pelo grupo dos chamados “Jovens Turcos”, dirigia-se contra a “ditadura” de Pimenta de Castro, um general mandatado três meses e meio antes pelo presidente Manuel de Arriaga para governar com o Parlamento encerrado. Jovem Turquia era o nome de uma loja maçónica de que faziam parte políticos, civis e militares. O seu objetivo de repor a plena vigência da Constituição de 1911 seria alcançado, levando à imediata transmissão dos poderes para uma Junta Constitucional composta por cinco “jovens turcos”, todos afetos à entrada de Portugal na Primeira Guerra Mundial, uma medida preconizada por Afonso Costa, o líder do Partido Democrático.

153.1.2. LINCHAMENTO DE UM SENADOR

No dia 17, esta junta preparava-se para transmitir por sua vez o poder a um novo Governo, que seria chefiado pelo dirigente do PD, João Chagas. Porém, nesse mesmo dia, Chagas era atingido a tiro num olho pelo advogado e senador João José de Freitas, quando se encontrava na estação ferroviária do Entroncamento, dentro do comboio que o transportava do Porto para Lisboa. Chagas ficou parcialmente cego e Freitas foi ali mesmo linchado por um grupo de populares de que fazia parte um soldado da GNR. Brandos costumes?

Poucos anos antes, nos dias 4 e 5 de outubro de 1910, a revolução que derrubara a Monarquia e implantara a República fizera, também em Lisboa, entre 60 e 70 mortos e cerca de 500 feridos. Tinham sido erguidas barricadas na Rotunda (Marquês de Pombal) e um cruzador bombardeara o Palácio das Necessidades, onde o jovem rei D. Manuel II jogava o bridge com alguns cortesãos. Um dos obuses da Rotunda, disparados no enfiamento da Avenida de Liberdade, pegou fogo a um prédio. As (poucas) forças leais à Monarquia, comandadas por Paiva Couceiro, investiram primeiro pelo lado de Campolide, e depois a partir do alto do Torel. O Rossio era um acampamento de soldados, com as armas ensarilhadas.

O rei, a mãe e a avó passariam a noite em Mafra, de onde seguiriam para a Ericeira para embarcar rumo ao exílio.

Automóveis com revolucionários dentro perseguiram-nos ainda pela estrada do Sobreiro.

153.1.3. REI E PRESIDENTE ASSASSINADOS
  1. Manuel II, de 20 anos, sucedera 32 meses antes ao pai, D. Carlos, assassinado em pleno Terreiro do Paço a 1 de fevereiro de 1908. A meio da tarde desse dia, sob um pálido sol de inverno, o penúltimo rei de Portugal e o príncipe Luís Filipe, herdeiro do trono, tinham sido assassinados a tiro quando seguiam num landau, pouco depois de terem desembarcado do vapor do Barreiro, no regresso do palácio de Vila Viçosa. O eco dos disparos de Manuel Buíça e Alfredo Costa, dois membros da sociedade secreta Carbonária, abalou a vida política nacional e anunciou para breve o advento da República, mas o regicídio foi considerado na altura pelos lisboetas quase como algo de natural. Sabe-se agora que se tratou de um plano articulado, que envolvia além dos carbonários muitas outras pessoas, algumas altamente colocadas. Numa reportagem publicada pelo New York Times em julho desse ano lia-se:

“Diz-se que a rainha Amélia reconheceu num dos assassinos um proeminente líder político, mas guarda firmemente o seu segredo.”

Implantada a República, em 1911 e 1912 grupos de monárquicos exilados em Espanha entraram em pé-de-guerra pelo norte de Portugal, cercando vilas, investindo aldeias, aliciando camponeses e pastores para a causa derrotada.

Depois, entre 1915 e 1925 foram numerosos os movimentos militares em defesa da República democrática ou contra ela. Um dos golpes triunfantes, o de Sidónio Pais, inauguraria no final de 1917 um ano de ditadura que terminaria com a morte a tiro, na Estação do Rossio, daquele a quem Fernando Pessoa chamara Presidente-Rei. Era o segundo assassínio de um Chefe de Estado português em menos de 11 anos, depois do regicídio que vitimara D. Carlos.

153.1.4. UMA GUERRA ESQUECIDA

Ainda os tiros que tinham vitimado Sidónio ecoavam no Rossio, e já na outra ponta da linha férrea que dali partia no Porto era restaurado o regime monárquico. Em Lisboa, os republicanos formaram um executivo obedecendo à Constituição de 1911, mas as Juntas Militares conservadoras não se conformaram e exigiram “um governo de força”. Contavam para isso com o apoio dos civis que giravam em torno do Integralismo Lusitano, de extrema-direita. O deposto rei D. Manuel II não só acompanhava tudo com a máxima atenção a partir do seu exílio inglês como dera mesmo luz verde à movimentação monárquica. A ideia dos insurretos era estender as suas movimentações a todo o País, mas as Juntas Militares de Lisboa mostraram-se divididas. Porém, a 22 de janeiro de 1919 uns 70 monárquicos hasteavam a bandeira azul e branca na antena telegráfica do alto de Monsanto. Ali acabariam por ser cercados e desfeiteados por militares e civis leais à República. Mas não terminou aqui a guerra civil de 1919. Só a 13 de fevereiro, depois de combates no litoral centro do País, é que as forças republicanas entraram na Invicta e puseram termo à efémera Monarquia do Norte.

153.1.5. OS CRIMES DA NOITE SANGRENTA

A barbaridade maior estava, no entanto, para vir. Na noite de 19 de outubro de 1921, uma pequena camioneta de caixa aberta tripulada por marinheiros e soldados da GNR foi recolhendo em suas casas o chefe do governo e outras figuras destacadas da vida política. Um a um, estes foram depois abatidos a tiro na rua, no meio de insultos e sevícias. A data ficou conhecida por Noite Sangrenta e o veículo por Camioneta Fantasma. Os sublevados, chefiados pelo cabo marinheiro Abel Olímpio (alcunhado de Dente de Ouro), assassinaram o primeiro-ministro António Granjo, o antigo herói da Rotunda, Machado Santos, o ex-ministro da Marinha e ex-presidente da Câmara de Lisboa Carlos da Maia e outras figuras destacadas. O que está por detrás da Noite Sangrenta pode ter sido a demissão de Liberato Pinto da chefia do Governo e do comando da GNR, mas falou-se também de conspiração monárquica. A hipótese de se ter tratado de uma movimentação orquestrada na sombra por setores do Partido Democrático também é plausível: este partido, dominante ao longo dos 16 anos da Primeira República, ter-se-ia assim vingado de inimigos políticos. Recentemente, uma peça de teatro e uma série de TV vieram acrescentar dados a esta tragédia, mas as explicações são sempre orientadas pelo posicionamento ideológico dos autores.

153.1.6. ‘LOUCOS’ ANOS 20

Depois de mais uma série de tentativas frustradas de revolução, normalmente com mortos e feridos, em 1926 seria instaurada uma ditadura que duraria 48 anos. Mas mesmo o triunfo da extrema-direita não foi pacífico, já que as fações militares se digladiaram a tiro ao longo dos meses de maio e junho. Nos primeiros anos da ditadura, os “velhos republicanos” tentaram ainda inverter a situação, e houve mais vítimas nos combates de fevereiro de 1927, que se estenderam do Porto a Lisboa. No final dos confrontos, que as tropas da ditadura venceriam, contavam-se 70 mortos no Porto e 50 em Lisboa, além de milhares de feridos nas duas cidades. Passados quatro anos, e já com a ditadura solidamente instalada, houve um estertor do chamado “Reviralho”, agora na Madeira e nos Açores. E em 1936, com Salazar sentado no poder, revoltaram-se no Tejo os marinheiros de dois navios de guerra, acabando o canhoneio do forte de Almada por fazer dez vítimas mortais. O grosso dos marujos revoltosos iria “inaugurar” involuntariamente o campo de concentração do Tarrafal, em Cabo Verde, um inferno tropical criado por um regime que usava um tom paternalista para impor a sua “verdade” indiscutível, e cuja polícia política (sucessivamente chamada PVDE, PIDE e DGS) prendia, torturava e fazia desaparecer oposicionistas com toda a facilidade em nome dos “brandos costumes”.

153.1.7. UM AGITADO SÉCULO XIX

Muito antes de tudo isto, ao longo do século XIX, sucederam-se as lutas civis -com batalhas e numerosas vítimas e as revoluções. Primeiro, logo após o curto fogacho liberal de 1820, a grande guerra que opôs os absolutistas de D. Miguel aos constitucionalistas de D. Pedro, e em que participaram navios e mercenários estrangeiros (1832-1834). Depois, a revolução de setembro de 1836 e, na década seguinte, uma nova guerra civil com intervenção exterior a Patuleia. Perto do final do século, a tentativa frustrada de revolução republicana, no Porto, deixou estendidos na Rua de Santo António uma dúzia de mortos e quatro dezenas de feridos. Não vale a pena recuar mais no tempo para demonstrar que os costumes portugueses nunca foram brandos. Se o fizéssemos, seria apenas para recordar os clarões sinistros das fogueiras da Inquisição ou para lembrar os múltiplos linchamentos na rua de pessoas suspeitas de “jacobinismo”, durante as Invasões Francesas de há 200 anos. Ou ainda, na mesma época, o esquartejamento do general Bernardim Freire de Andrade quando, em Braga, ordenou o recuo estratégico das milícias para o Porto. Foi para contrabalançar esta tradição portuguesa da violência política que o Estado Novo criou o estereótipo do “país de brandos costumes”. A cabeça das pessoas “faz-se”, e o regime ditatorial dispôs de quase meio século para moldar ao seu gosto pelo menos duas gerações.

153.2. MENTIRA N.º 2 – O NOSSO PAÍS FOI O PRIMEIRO A ABOLIR A PENA DE MORTE

Foi dos pioneiros, mas não foi o primeiro. À nossa frente vêm, por exemplo, a Venezuela, San Marino e o Estado norte-americano do Michigan. Está enraizada no nosso espírito a ideia de que fomos os pioneiros da clemência. É verdade que nos encontramos no pelotão da frente, entre os primeiros a abolir a pena capital, mas houve quem chegasse antes de nós à conclusão de que ninguém tem o direito de ceifar a vida a outrem, seja a que pretexto for. A Venezuela aboliu a pena de morte em 1863, quatro anos antes de Portugal, e antes de nós cortarmos a meta tinham-no feito ainda o ducado italiano da Toscana, em 1786, e o minúsculo São Marino, em 1865. Pode dizer-se, isso sim, que Portugal foi o primeiro Estado a inscrever essa proibição na Constituição. Mas pode também recordar-se que um soldado português foi fuzilado em 1917, na frente de combate da Primeira Guerra Mundial. Foi na sessão parlamentar portuguesa de 10 de março de 1852 que um deputado do partido governamental propôs a abolição da pena de morte para todos os tipos de crimes e, consequentemente, a abolição do “hediondo ofício de carrasco”. Governava então Saldanha, do Partido Regenerador. A proposta foi bem aceite ali na hora e acabou por levar a assinatura de vários proponentes, mas a verdade é que acabou por não reunir o consenso necessário para a sua aprovação, nem naquela sessão legislativa nem na do ano seguinte. A abolição da pena de morte para todos os crimes à exceção dos militares acabaria, no entanto, por ser aprovada em 1867, concretamente no dia 1 de julho (o que nos mostra que naquele tempo em que ninguém ia a banhos, também não havia férias legislativas…). O carrasco ficou, pois, desempregado, já que, a haver “queixas” poderosas contra algum militar, este seria fuzilado por um pelotão de execução. E a coisa manteve-se assim até março de 1911, já no tempo da República, quando o Governo de João Pinheiro Chagas decidiu que a abolição fosse extensiva aos militares. Só que, entretanto, rebentava a I Guerra Mundial, e Portugal entrava no conflito, razão considerada suficiente para a pena ser reintroduzida, embora apenas “em caso de guerra com país estrangeiro” e desde que cumprida no teatro de operações. A coisa foi levada à letra, e efetivamente um soldado português seria mesmo fuzilado junto das trincheiras da frente de batalha, em setembro de 1917. Acusado de espionagem, João Augusto Ferreira de Almeida, do Corpo Expedicionário Português, não regressou para contar o processo sumário de que fora objeto. O episódio nunca viria a ser totalmente esclarecido, nem se sabe se Ferreira de Almeida passava mesmo informações aos alemães (coisa difícil de concretizar, mesmo admitindo que tivesse acesso a matéria confidencial, o que é duvidoso), mas não restam dúvidas de que o fuzilamento se efetuou, talvez para fazer passar junto dos aliados franceses e ingleses a ideia de um exército bem organizado. De qualquer das formas, a abolição total da prática execrável apenas entraria novamente em vigor, espera-se que definitivamente em 1976, depois do 25 de abril. A título de curiosidade, registe-se que a última execução de um civil tivera lugar em Lagos, em abril de 1846, e a de uma mulher remontava já a 1772. Resumindo: alguns países anteciparam-se a Portugal na abolição da pena capital, inclusive o Michigan, um dos Estados que formam os EUA, nação onde, como se sabe, a injeção letal e outros métodos equivalentes de ceifar a vida alheia continuam a ser aplicados em muitos recantos.

153.3.1. MENTIRA N.º 3 – A INGLATERRA É A NOSSA VELHA ALIADA

Aprendemo-lo na escola e gostamos de o recordar de vez em quando, mas essa aliança há muito que só funciona num sentido: o dos interesses britânicos. Estamos afetivamente ligados a diversos outros países. O Brasil vem, sem grandes hesitações, à cabeça: é o “país irmão”, expressão escolhida para não se utilizar a de “país filho”, talvez ridícula se atendermos a que o “filho” seria…quase cem vezes maior do que o “pai”. Mas logo a seguir surge, historicamente, a Inglaterra. Sim, porque a “paixão” agora quase generalizada pelos Estados Unidos da América é recente, não mais velha do que duas ou três décadas.

E a Espanha? Bom, esse é um fascínio recente; basta lembrar que durante séculos não vinha de lá “nem bom vento nem bom casamento” e que argumento definitivo! se Portugal existe como Estado é, precisamente, por oposição dinâmica ao vizinho mais vasto e mais poderoso. Mais poderoso sempre foi, embora nem sempre tenha levado a melhor nos confrontos diretos ibéricos. O mais gostosamente recordado de todos os choques luso-espanhóis foi e continua a ser a batalha de Aljubarrota, que opôs portugueses e castelhanos ao entardecer do dia 14 de agosto de 1385, fez agora há dias 626 anos. E aí, Portugal venceu em toda a linha, garantindo a sua independência, então seriamente ameaçada, motivo pelo qual a façanha é tão lembrada. Em contrapartida, o espanhol comum nem sabe que tal batalha existiu e não admira, pois, os livros escolares não se referem a ela. Tratava-se de impedir que Juan I de Castela se sentasse no trono português, coisa a que ele se sentia com direito por ser casado com a filha única do falecido rei D. Fernando, o Formoso. Enquanto a maior parte da nobreza apoiava o pretendente castelhano, um grupo de inconformados, liderado por D. João, Mestre da Ordem de Avis e filho bastardo de D. Pedro I (ou seja, meio irmão de D. Fernando) decidiu opor-se-lhe, com a cobertura da burguesia nascente e do povo das cidades, sobretudo de Lisboa.A verdade é que estes “marginais” (como hoje se diria) venceram um inimigo cinco vezes superior em número.

Mas não o fizeram sozinhos: ao lado dos 6 700 portugueses comandados pelo condestável Nuno Álvares Pereira combateram uns 300 arqueiros ingleses, que para cá se deslocaram ao abrigo de uma aliança assinada pouco antes, em 1373, quando reinava em Portugal D. Fernando e em Inglaterra Ricardo III. Algumas centenas de arqueiros parece pouco, mas não é assim, se levarmos em conta que os long bows por eles utilizados eram uma arma temível. Depois da batalha, o duque de Lancaster, John of Gaut, reconfirmou a aliança e cedeu a mão de sua filha Philippa ao Mestre de Avis, já proclamado Rei de Portugal nas Cortes de Coimbra. A inglesinha era a nossa bem conhecida D. Filipa de Lencastre (Lancaster), que seria mãe do Infante D. Henrique e dos seus irmãos, registados na História por Ínclita Geração. A ajuda da Inglaterra no quadro da Guerra dos Cem Anos, que então lavrava na Europa e opunha os insulares à aliança franco-castelhana foi importante, mas os soldados enviados por Londres não se foram embora sem antes terem praticado saques em diversas povoações portuguesas, como nos conta Fernão Lopes. Hoje, chamar-lhes-íamos hooligans.

153.3.2. MENTIRA N.º 3 – A INGLATERRA É A NOSSA VELHA ALIADA

Cerca de duzentos anos mais tarde, em 1578, quando outro rei espanhol, Filipe II, se achou também com direito ao trono português, os ingleses voltaram para nos ajudar, mas dessa vez a coisa não correu bem.

Tratou-se de uma força militar enviada pela rainha Isabel I em socorro de D. António, prior do Crato, quando este pretendente ao trono de Portugal se batia contra os exércitos de Filipe II.

A Inglaterra e a Espanha travavam então nos oceanos uma guerra sem quartel. Essas tropas isabelinas, transportadas numa esquadra comandada pelo famoso corsário Sir Francis Drake, desembarcaram em Peniche, apoderaram-se do forte e, com o duque de Essex à frente, iniciaram a marcha para Lisboa. Enquanto isso, os ágeis galeões de Drake posicionavam-se diante de Cascais, para bloquearem a barra do Tejo. À capital portuguesa, já ocupada pelas forças espanholas do duque de Alba, iam chegando, entretanto, notícias acerca do avanço dos aliados ingleses, ou seja, dos “amigos de Peniche”. E não eram nada animadoras, já que os soldados de Essex, verdadeiros hooligans como os seus antepassados de 1385, se dedicavam ao saque das povoações que encontravam pelo caminho: Lourinhã, Torres Vedras, Loures… Chegados aos arredores de Lisboa, os ingleses, que não traziam artilharia, esbarraram contra uma muralha de fogo espanhola. Ao que parece, vinham a contar com o levantamento da população alfacinha, o que não aconteceria por receio da feroz repressão dos ocupantes. E não tardou que os ineficazes aliados do prior do Crato tivessem de retirar, deixando atrás de si uma recordação triste, mas duradoura: a do fraco comportamento dos “amigos de Peniche”.

Anos mais tarde, Sir Francis Drake voltaria a Portugal, mas…para bombardear Faro e saquear o Algarve. Explicação: a união política de Portugal com a Espanha fazia de nós inimigos dos ingleses. E foi nessa condição, aliás, que navios portugueses participaram, à força, na desastrosa aventura da “Invencível Armada” espanhola, enviada por Filipe II para submeter a Inglaterra, mas desfeiteada nas águas da Mancha por uma tempestade e pela contraofensiva de Drake.

153.3.3. MENTIRA N.º 3 – A INGLATERRA É A NOSSA VELHA ALIADA – NAPOLEÃO E AS GUERRAS MUNDIAIS

Durante as Invasões Francesas, é verdade que Portugal conseguiu manter a independência face aos ambiciosos projetos de Napoleão, graças à atuação do exército britânico de Arthur Wellesley, futuro duque de Wellington.

Porém, a “ajuda” inglesa não ficou a dever-se à atração dos nossos lindos olhos, mas antes aos cálculos estratégicos da Grã-Bretanha, empenhada numa guerra contra a França e vendo abrir-se-lhe no nosso país um campo de batalha privilegiado.

Depois da derrota de Napoleão, os ingleses permaneceriam aliás alguns anos por cá, como “protetores” e verdadeiros governantes. Mas a desilusão, para muitos, surgiria em 1890, aquando do célebre Ultimato britânico: Portugal era intimado por Londres, mediante a ameaça velada de retaliação naval, a evacuar o território africano entre Angola e Moçambique (atuais Zâmbia e Zimbabué). O governo de D. Carlos acedeu, mas a onda de patriotismo com que a generalidade da população portuguesa respondeu à ofensa contribuiu decisivamente para a implantação da República, 20 anos mais tarde. Não muito depois, Portugal entrou na Primeira Guerra Mundial, por decisão do Partido Democrático de Afonso Costa, a fim de garantir um lugar nas conversações de paz que se seguiriam à esperada vitória aliada. Os ingleses, porém, franziram o nariz, e só contrafeitos acabaram por aceitar a fraca ajuda do aliado meridional. Aqui, de certo modo, os papéis inverteram-se, mas já no tempo da Segunda Guerra Mundial a cedência de bases nos Açores seria acordada por interesse da Grã-Bretanha. Curiosamente, ao discursar a este respeito na Câmara dos Comuns, Winston Churchill invocou…a aliança anglo-portuguesa de 1373. Por ocasião da Guerra das Malvinas, em 1982, Londres voltou a utilizar os Açores, com o acordo de Portugal. Hoje, em tempo de União Europeia e de quase cega fidelidade internacional aos EUA, já quase ninguém se lembra da Aliança Luso-Britânica, objetivamente a mais antiga do mundo entre dois estados soberanos, mas que ela continua a existir, isso é verdade. Simplesmente, desde os seus primórdios, que remontam ao tempo de Aljubarrota, praticamente só tem servido o aliado do Norte.

153.4.1. MENTIRA N.º 4 – SALAZAR GARANTIU A NEUTRALIDADE NA II GUERRA

Diz-se e repete-se que a neutralidade portuguesa na Segunda Guerra Mundial se ficou a dever ao talento político do ditador. Mas terá sido assim? E Portugal foi mesmo neutral? Salazar tinha sido um decisivo aliado de Franco na Guerra Civil Espanhola de 1936-1939, mas, ao rebentar a II Guerra Mundial, neste último ano, interessava-lhe impedir a todo o custo que o ditador espanhol (com quem assinara pouco antes o Pacto Ibérico) entrasse no novo conflito. Se ele o fizesse, obviamente ao lado da Alemanha de Hitler, arrastaria inevitavelmente Portugal, deixando o nosso país vulnerável tanto à possível ocupação por tropas nazis (ou da Espanha franquista em seu nome) como ao hipotético desembarque dos ingleses, à semelhança do que sucedera 130 anos antes, aquando das Guerras Napoleónicas. De qualquer forma, o território nacional transformar-se-ia num teatro de guerra. Quanto ao Estado Novo, ficaria entalado entre dois imperativos de consciência: a fidelidade à aliança britânica, fosse ela o que fosse, e os compromissos com as jovens ditaduras, às quais estava ligado por afinidades ideológicas e interesses de sobrevivência. A verdade é que, em 1940, Portugal se viu mesmo confrontado com o dilema das fidelidades.

A França já fora invadida pela Wehrmacht e a Inglaterra combatia sozinha contra a Alemanha. Hitler, que em vão tentara convencer Franco a aderir ao Eixo Roma-Berlim, pensou atravessar com os seus Panzers o território espanhol para atacar Gibraltar por terra, numa intervenção militar que exigiria a ocupação de Portugal. A Inglaterra mostrou na altura não estar em condições de defender o território luso de uma violação das suas fronteiras terrestres (até porque não era ainda tempo de abrir uma frente de combate na Europa), limitando-se a aconselhar o Governo de Salazar a retirar para os Açores em caso de invasão hitleriana ou franquista, após simular a defesa do território. Não era, aliás, do interesse de Londres que Lisboa entrasse no conflito ao seu lado, como fizera na I Guerra Mundial, também contrariando os seus desejos. O Portugal de 1940, de qualquer modo, não era impelido para a guerra junto da “velha aliada” por uma necessidade premente como a da defesa das colónias africanas, que um quarto de século atrás tinham sido objeto de cobiça tanto de britânicos como de alemães. E Salazar não ignorava que a sobrevivência do seu regime passava por estar nas boas graças de ambos os lados de um confronto de desfecho ainda incerto. Por sorte, as aventuras guerreiras de Mussolini nos Balcãs, descambando em desaire militar perante a Grécia, voltaram Hitler para um cenário bélico de emergência com que não contava, aliviando providencialmente a pressão na Península Ibérica. Seguiram-se os compromissos militares da Alemanha contra os ingleses no norte de África e, por fim, a desmesurada invasão da URSS, que se transformaria depois no túmulo do III Reich. Assim, a invasão de Portugal nunca se concretizaria, embora algumas precauções tenham sido tomadas, como a instalação de peças de artilharia antiaérea em partes centrais de Lisboa.

153.4.2. MENTIRA N.º 4 – SALAZAR GARANTIU A NEUTRALIDADE NA II GUERRA: O TRUNFO DOS AÇORES

Posto de lado o risco de invasão do continente, os Açores revelar-se-iam a parte do território nacional mais disputada, já que a posse de bases aeronaves no arquipélago seria de importância fulcral para ambos os lados em confronto, mas a Alemanha, potência sobretudo continental, não dispunha de meios para o ocupar. Quanto à Inglaterra, solicitou a Salazar a concessão de bases nas ilhas, o que este começou por rejeitar receando represálias dos alemães, com os quais mantinha um frutuoso diálogo económico que incluía a venda de volfrâmio pago em barras de ouro. Ciumenta, a Inglaterra, à qual Portugal também fornecia volfrâmio, chegou a esboçar um boicote económico ao nosso país, para desgosto do embaixador Armindo Monteiro, um anglófilo que preconizava a entrada na guerra ao lado dos britânicos, ousadia que lhe valeria a substituição no cargo. O governo de Churchill, que via em Monteiro um bom substituto de Salazar, chegou a mover cordelinhos para o depor através de um golpe, mas a mudança de atitude do ditador português quanto aos Açores fá-lo-ia recuar. Resumindo: durante a primeira parte do conflito, até à reviravolta na sorte das armas do outono-inverno de 1942-43, Salazar pôde sem custo gerir uma neutralidade que apregoava rigorosa e que tanto ingleses como alemães gostariam de ver mais colaborante. Mas ao aperceber-se de que os Aliados tinham todas as probabilidades de vencer respondeu favoravelmente aos pedidos de Londres, e uma base britânica acabou por ser instalada nos Açores.

Ao pedido inglês seguiu-se o americano, e uma vez mais Salazar optou numa primeira instância pela negativa: tolerava a Inglaterra, mas detestava os EUA e desconfiava do papel que uma América convertida em superpotência pudesse vir a desempenhar num mundo talvez futuramente pautado por valores de um liberalismo extremo. Mas também aqui acabaria por ceder, rendido ao peso das tropas americanas deslocadas para a Europa na contenção do expansionismo soviético para Ocidente.

Amainada a tempestade, Salazar sobreviveu, contra as previsões. A lógica maniqueísta da Guerra Fria fazia-o alinhar do lado dos “bons” capitalistas contra os “maus” comunistas. Igual sorte teve Franco, mesmo sem ter cedido bases aos Aliados nem ter encenado, como Salazar, um simulacro de eleições legislativas. Houve mérito de Salazar na manutenção do estatuto de neutralidade? O seu único verdadeiro mérito terá sido o de se esforçar por conter a adesão de Franco ao Eixo. Mas se Portugal não entrou na conflagração foi, primeiro, porque Hitler acabou por não invadir a Península; e, depois, porque a Inglaterra assim o quis.

153.5.1. MENTIRA N.º 5 – OS CASTELOS SÃO DO TEMPO DOS MOUROS

Tinham sido, mas o tempo destruíra-os. Então, o Estado Novo decidiu reerguê-los como achou que ficavam melhor com muitas ameias bem recortadas. E fez o mesmo a igrejas medievais. Antes da década de 40 do século XX, quem percorresse o País quase não encontraria castelos. Reduzidas as antigas fortalezas medievais a montes de pedras, só a custo se conseguiria divisar aqui ou ali um pedaço de muralha, um vestígio de escadaria ou uma torre arruinada. Querem ouvir uma história? Se, num belo dia de 1836, um dos vereadores Vimaranenses tivesse votado de forma diferente numa reunião camarária, o Castelo de Guimarães teria sido demolido e a sua pedra utilizada para calcetar as ruas. Foi por um só voto que saiu derrotada a proposta apresentada nesse sentido pela Sociedade Patriótica Vimaranense. Vá lá, compreende-se: estava ainda bem viva na memória de todos a guerra civil entre os liberais de D. Pedro e os absolutistas de D. Miguel, e o castelo tinha servido de prisão política miguelista…

Mesmo assim, ainda seria demolida a Torre de S. Bento, antes de, em 1881, a fortaleza ter sido classificada como “monumento histórico de primeira classe” e, em 1908, ter ascendido à dignidade de “monumento nacional”. Veio depois o Estado Novo, com toda a encenação que é apanágio dos regimes ditatoriais, ancorados em glórias passadas e palpitações nacionalistas e os castelos foram postos de pé como construções de cartolina. Em Guimarães, foi a partir de 1937 que se procedeu a obras de intervenção, surgindo aos olhos de todos um harmonioso edifício de torres direitas e ameias certinhas rodeado de árvores frondosas e de extensos relvados. É esse o castelo que hoje vemos e que podemos visitar, associando-o a D. Afonso Henriques e apodando-o de “berço da nacionalidade”.

Mas o castelo de Guimarães não é caso único longe disso. Também muitos dos lisboetas das últimas três ou quatro gerações, que se habituaram a passear, a meditar e a namorar no Castelo de São Jorge, nem sequer sonham que há pouco mais de meio século aquele suposto testemunho do passado da cidade pura e simplesmente não existia.

Mas a verdade é que as muralhas e torres hoje visíveis foram construídas a partir de 1938, no âmbito do tal programa salazarista de devolução de muitos dos monumentos nacionais a uma desejada pureza original, mas que frequentemente não passou de uma recriação livre dos edifícios ao sabor dos gostos de arquitetos e decoradores.

153.5.2. TIRA CHAPELINHOS, PÕE AMEIAS

E a Sé de Lisboa? Olhamos para ela, com as suas torres ameadas que mais parecem de castelo do que de igreja, e pensamos: aqui está um edifício com quase dez séculos de idade…

Mas não. Se a catedral lisboeta, como outras por esse País fora, é realmente de fundação muito antiga, a Sé que os nossos pais ou avós viam não é exatamente a mesma que agora ali se encontra. O templo foi mandado construir por D. Afonso Henriques logo a seguir à conquista da futura capital de Portugal aos muçulmanos, em 1147, no mesmo local onde se erguia a grande mesquita da cidade. Naturalmente, ao longo dos tempos a Sé foi recebendo acrescentos e alterações, sempre de acordo com o estilo usado na época da intervenção. Daí resultou uma mistura de traças, desde o Românico puro dos primeiros tempos até ao Barroco de D. João V, passando pelo Gótico de D. João I. Até aqui, tudo bem. O estranho foi quando, há pouco mais de cem anos, se resolveu restituir a Sé à traça primitiva, seja lá isso o que for. A Idade Média, com as suas tonalidades românticas, inflamava as imaginações. Aliás, o mesmo tinha sido feito noutros países europeus, a começar pela França, cujas imponentes catedrais haviam sido quase reerguidas na primeira metade do século XIX. Começou então a dança da Sé alfacinha. Em séculos passados o templo já tinha possuído uns pináculos cónicos a coroarem-lhe as torres. Estes “chapéus” caíram com o terramoto de 1755 e as torres passaram então a ser rematadas por uma espécie de parapeitos metálicos. Era assim a Sé dos finais do século XIX. Resolveu-se às tantas proceder a uma intervenção, e uns remates cónicos voltaram a ser construídos.

Foi essa a Sé que conheceram os jovens da geração de 1910-1920. O Estado Novo decidiu depois conferir à igreja um ar mais sólido e, para tal, derrubou os pináculos e encheu as torres de ameias, talvez para fazer conjunto com as do Castelo de São Jorge. O resultado, que é o que ali vemos agora, tem, portanto, menos de um século. Por isso nos enganamos quando, olhando para os monumentos da Idade Média, pensamos com os nossos botões: ora aqui está uma construção sólida, que resistiu como uma rocha à passagem dos séculos…

153.6.1. MENTIRA N.º 6 – ESTIVEMOS 500 ANOS EM ÁFRICA

Não estivemos. A nossa presença efetiva nas colónias africanas tal como as entendemos não excedeu algumas décadas. Antes do 25 de abril de 1974 era frequente ouvir-se falar da “presença portuguesa de 500 anos em África”. Segundo a teoria oficial do regime e a ideia feita que já vinha da I República, Portugal teria estado meio milénio no continente africano, e seria para pôr fim a essa longa permanência que os “terroristas”, armados por potências estrangeiras, nos moviam guerra “a partir do exterior”. Uma vez que o ensino era orientado, a informação censurada e o debate inexistente, a opinião pública imaginava que Angola e Moçambique “sempre” tinham sido o que eram. Ora, a efetiva presença portuguesa em África, longe de ter durado 500 anos, não excedera algumas décadas, com especial incidência na primeira metade e nos meados do século XX. O equivalente à duração temporal dos impérios africanos de outros países europeus: Inglaterra, França, Bélgica, Itália e Alemanha. É certo que os primeiros contactos do nosso país com as costas africanas remontam ao século XV, e nisso fomos mesmo pioneiros. Mas o estabelecimento de feitorias costeiras vocacionadas para o tráfico de ouro, marfim e escravos não basta para que se fale de colonização de países ou de povos.

Foi só na segunda metade do século XIX, depois da Conferência de Berlim, que a Europa definiu as regras a serem obedecidas na corrida às riquezas de África. E a primeira das regras a cumprir para que um país europeu pudesse reivindicar direitos a um território africano consistia na sua ocupação efetiva. E foi assim que, nas últimas décadas do século XIX e nas primeiras do século XX, Portugal se envolveu em grandes guerras em África. Chamava-se-lhes “de pacificação”. A mais popular delas foi a que culminou na destruição do Império Vátua do sul moçambicano e na prisão do seu soberano, Gungunhana, num raide comandado pelo capitão Mouzinho de Albuquerque. Passou-se isso em 1895, e seguiram-se muitas outras campanhas, quer em Moçambique quer em Angola, até 1940. Portanto, só nas décadas de 40 e 50 do século XX é que a África “portuguesa” adquiriu os contornos que muitos ainda conhecemos: habitada por centenas de milhares de compatriotas nossos. Já agora: a grande importância histórica de Portugal está relacionada, não com a colonização africana, mas com a abertura da rota marítima para a Índia e para os países asiáticos mais além. Inaugurámos os contactos e as trocas entre o Ocidente e o Oriente. Quanto à maior obra portuguesa no mundo, terá sido a criação do Brasil tal como ele hoje existe, e que, preconceitos à parte e encarado com objetividade, é mesmo “um imenso Portugal.”

153.7.1. MENTIRA N.º 7 – SOMOS UM PAÍS MUITO PEQUENO

Grandes não seremos, mas a imagem forçada da pequenez nacional tem sido usada pelos governantes como desculpa para a má gestão crónica. Se compararmos a superfície de Portugal com as dos outros Estados da Europa (incluindo aqueles que se estendem para a Ásia), verificaremos que Portugal ocupa a 23.ª posição numa lista de 53 países. Trata-se, portanto, de um território de dimensão média, equivalente por exemplo à Hungria.

A que se deve então o equívoco tão entranhado de que o nosso país é minúsculo? Provavelmente, ao facto de os vizinhos mais próximos serem francamente maiores, a começar pela Espanha, que tem cinco vezes e meia a nossa área.

A França é ainda um pouco maior do que esta, e o Reino Unido, a Alemanha ou a Itália também não são nada pequenos. No entanto, ultrapassada esta barreira, verificamos que tanto a próspera Suíça como a bem organizada Holanda são menores do que Portugal, o mesmo sucedendo com a Bélgica, a Áustria, a Dinamarca, a República Checa, a Irlanda, a Sérvia, a Croácia, a Bósnia, a Macedónia, a Estónia, a Letónia ou a Lituânia. Para já não falar dos Estados reconhecidamente pequenos, como o Luxemburgo, o Chipre, Andorra ou as ilhas Faroé, nem dos minúsculos Mónaco, Malta, Liechtenstein, São Marino e Vaticano.

Quanto à população, Portugal ocupa o 14º lugar entre os países exclusivamente europeus, e a sua média de habitantes por quilómetro quadrado é a 26.ª da lista. Portanto, seja qual for o critério a que se obedeça, a conclusão a que se chega é sempre a mesma: o nosso é um país europeu médio. Para a construção da imagem mental podem também ter contribuído a vastidão do Brasil e a largueza de Angola e de Moçambique, territórios a que estamos histórica e afetivamente ligados. Simultaneamente, esquece-se que o Brasil, à semelhança daquelas colónias africanas, já nos pertenceu (embora em época diferente) e que um dos elementos da propaganda salazarista chegou a ser exatamente uma suposta vastidão geográfica de Portugal. Muitos de nós lembramo-nos ainda bem do mapa da Europa com as colónias portuguesas sobrepostas e a legenda “Portugal não é um país pequeno” (e que se reproduz abaixo).

Mas porquê a habitual insistência numa suposta pequenez? Só pode haver uma explicação: país pequeno deixa subentender escassez de recursos, logo serve de desculpa à falta de iniciativa dos cidadãos e a inépcia governativa.

Iniciativa nunca houve verdadeiramente, num país tradicionalmente governado em “cadeia de comando”, à maneira de um quartel, com o comum dos cidadãos a designar por “eles” os que seguram o leme do barco. Ao admitirmos este fatalismo, que funciona como uma espécie de pecado original a que seríamos alheios, fazemos por esquecer que existem países mais pequenos do que Portugal e francamente mais bem-sucedidos como são, para não ir mais longe, os casos da Suíça ou da Holanda. É oportuno recordar que a própria Inglaterra (sem a Escócia, Gales e a Irlanda do Norte) tem apenas mais um terço, se tanto, da área portuguesa. Sim, é certo que a sua população corresponde ao quíntuplo da nossa e que o seu território é rico em ferro, carvão e petróleo, mas a estas vantagens inegáveis pode ser contraposta a agrura do clima e a relativa pobreza agrícola do solo. De qualquer modo, nenhuma ideia feita resiste à comparação com a Holanda, um país fisicamente “inexistente”, quase inteiramente fabricado pelo Homem sobre pântanos, sob um céu escuro como breu. Pequenos, nós? Sim, de facto, mas por opção…

Publicada por Antonio Garrochinho à(s) 17:44 19 nov 2015 http://desenvolturasedesacatos.blogspot.pt/2015/11/as-grandes-mentiras-da-historia-de.html?spref=fb

Ao divulgar este artigo não queremos menosprezar nem diminuir a relevância do país, mas apenas colocá-lo no seu verdadeiro contexto, empobrecido pelos “melhoramentos” que a história oficial sempre acrescenta a todas as narrativas e desmitificar alguns dos lugares-comuns que se propagam.

os meus tremores de terra EM 2005 BATISMO AÇORIANO

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CRÓNICA 5, 22/9/2005,

5.1. SISMOS 10 MANHÃ AÇORES, 11 LISBOA, 20 HORAS SYDNEY

Como na véspera alguém dissera, o certo é que é mais perigoso andar de carro nas estradas do continente. O João está mais calmo, ao pé do pai, nesta sua primeira experiência telúrica. A estreia paterna fora já em 28 fevereiro de 1969 no Porto pelas 06.27 da manhã. Depois, perdi-lhe a conta.

estava a estudar na sala de jantar alta madrugada, ao lado de uma cristaleira das antigas cheia de …cristal…..que começou a tocar uma estranha harmonia dissonante em relação ao candeeiro que ondulava, levantei-me e fui avisar os meus ais que dormiam e bem, e eles responderam que era um elétrico (ainda os havia naquele temo na Rua do Campo Lindo no Porto) ou um autocarro ou um camião, vim à janela e os paralelipipedos dançavam… alertei-os para a dança do candeeiro de teto mas não os convenci…

Em Timor havia tremores todos os dias (entre o 5 e o 7 da escala de Richter), embora só um tenha sido suficiente grande para todos se porem a correr em março de 1974 ou 75. Depois, escapei dos vulcões ativos em Kintamani, Bali (Indonésia) cujas maiores erupções foram em 1927, 1929 e 1947. Estava em Sidney, a 250 km, quando senti o tremor de Newcastle (Austrália) com o grau 5,6 na escala de Richter, 13 mortos e 140 feridos (10:27 28 dezembro 1989), uma cidade centenária que ficou semidestruída. Já anunciaram: “Amanhã não há aulas” havendo a possibilidade de um grande terramoto como acontecera na Terceira em 1980

A Estátua Equestre da Ilha do Corvo

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A Estátua Equestre da Ilha do Corvo.
Já passava de meados do século quinze, quando os marinheiros portugueses, que iam rumo a ocidente à procura de mais terras, depararam, por fim, com um pequeno ilhéu negro, no meio do mar. Era a mais pequena ilha dos Açores que encontravam e, aproximando-se pelo lado do noroeste, viram, inesperadamente, no cume de um penhasco, que parecia servir de marco aos navegantes, o vulto de um homem grande de pedra, montado num cavalo sem sela.
Era uma estátua profética, construída não se sabe por quem, e representava um homem, coberto com uma espécie de manto, com a cabeça descoberta. As faces do rosto e outras partes estavam sumidas, cavadas e quase gastas do muito tempo que ali tinha estado. Sobre as crinas do cavalo, que tinha uma perna dobrada a outra levantada, estava colocada a mão esquerda do homem, enquanto que o braço direito estava estendido e com os dedos da mão encolhidos. Só o indicador continuava aberto e apontava para o poente ou noroeste, para as regiões onde o sol se oculta, a grande terra dos bacalhaus, as Indias de Castela ou o Brasil, terras que ainda não tinham sido descobertas.
A estátua assentava sobre uma laje também de pedra, na qual estavam escritas algumas palavras, que, embora muito gastas da antiguidade e do rocio do mar, ainda deixavam ler: “Jesus, avante!”. Era uma incitação aos descobridores portugueses para que avançassem e expandissem a fé cristã para o ocidente. Os nossos marinheiros seguiram o conselho, viajaram para ocidente e descobriram muitas terras onde semearam a fé em Jesus.
Hoje a estátua já não se encontra lá porque, no tempo de D. Manuel, veio do reino um homem, mandado pelo rei, para a apear e levar. Descuidando-se, a estátua quebrou-se em pedaços, dos quais alguns foram levados ao rei. Mas ainda, na parte noroeste da ilha, encontramos o promontório onde se levantou a estátua equestre e, mais abaixo, o marco que deu o primeiro nome à ilha — ilha do Marco.
A esta estátua se devem as descobertas para o ocidente, porque, com aquele dedo apontado, anunciou a existência de outros mundos e bastou que os navegadores compreendessem e interpretassem essa escultura em pedra para avançarem em direcção às Américas.

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leia mais sobre este tema no livro ChrónicAçores uma circum-navegalção de Chrys Chrystello ou aqui https://blog.lusofonias.net/?p=87433

HISTÓRIA 1950’S o meu fato de banho unipeça masculino Póvoa de Varzim 1957

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A Eucísia foi também berço de muitas criadas ou de servir à mesa (ou empregadas domésticas como hoje se tem de dizer para se ser politicamente correto) em casa dos meus avós ou na nossa, com nomes exóticos tais como Delmira e Delmina. Que lá na terrinha já havia uma América e uma Argentina que ainda eram nossas parentes. Vinham tomar conta da minha irmã ou servir à mesa em casa dos meus avós.

Eram jovens, muitas vezes acabadas de fazer a 3ª classe de instrução primária, tímidas, encavacadas pelo bulício citadino, que se sentiam sempre como um peixe fora de água e que mal podiam, asinha regressavam à terra natal. Nem uma só quis ficar no Porto, essa cidade das pontes com mil luzes e atrações. Por volta dos quinze ou dezasseis anos regressavam para ajudarem a família e buscarem noivo.

A DELMIRA 1957

recuperei estas fotos do meu arquivo e que ilustram um artigo sobre tempos idos… ler aqui a crónica 58.3 de set 2008Crónica058.3 eucisia in ChronicAçores uma circum-navegação vol. 1