Catarina Valadão Desconexão gourmet

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Desconexão gourmet
Lembram-se de quando o telemóvel servia para pouco mais do que telefonar? Era uma coisa prática: ligar à mãe, marcar um jantar, chamar um táxi e jogar Snake. Agora é um pequeno ditador de bolso, sempre a vibrar e a pedir atenção. Nós, obedientes, largamos a conversa, o garfo, a vida, só para ver se alguém no planeta se lembrou de nós. E quando não vibra? Crash! “Será que o mundo acabou e ninguém fez update?” Calma: o bug não é do planeta, é teu.
Entrar hoje num restaurante é como assistir a uma convenção de zombies tecnológicos. As cabeças mergulham nos ecrãs com tanta devoção que só falta o cântico gregoriano como beat de fundo. O prato chega, tira-se a fotografia, põe-se o filtro “vida perfeita” e deixa-se a comida arrefecer – a comida arrefece, mas pelo menos a selfie sai em 4k. Entretanto, o diálogo é reduzido a “Passa-me o sal” escrito no WhatsApp, porque falar em voz alta parece intrusão. E quando finalmente se mastiga, a refeição já é um ficheiro saído de uma disquete.
As redes sociais são o all-you-can-eat da bisbilhotice. Fazemos scroll como quem folheia um menu de humanos. “A prima fica top de bikini” ou “O vizinho do terceiro partilhou um reel do cachorro”. Lá vamos nós, curiosos, a dar like, quando na verdade nem falamos pessoalmente com a prima ou com o vizinho.
É uma tragédia cómica: conhecemos a dieta do influencer de Silicon Valley, mas ignoramos se o nosso melhor amigo jantou ontem. É mais fácil emocionar-nos com o TikTok de um cão vestido de unicórnio do que com a avó ao nosso lado a contar histórias de quando as pessoas falavam cara-a-cara. O afeto, esse coitado, anda a viver de restos. Abraço? Só com marcação. Beijo? Só com filtro vintage e # kiss. É como se estivéssemos mais próximos de quem está a dez mil quilómetros do que do amigo sentado a meio metro.
Os jantares são hoje encontros de estranhos unidos pelo carregador múltiplo. O ambiente é tão íntimo como a fila das finanças. Cada um trata do seu feed com o ar compenetrado de quem está a encriptar segredos de Estado, quando na verdade só está a ver memes de preguiças em loop. E quando alguém se lembra de iniciar conversa, aparece o ecrã azul: “Mas… porquê?”
A vida real, aquela com cheiro, vento e gente, anda em stand-by e parece menos interessante porque não tem botão de like. O céu muda de cor, o mar faz surround, os pássaros cantam sem login e nós nem reparamos, porque estamos ocupados a ver se alguém reagiu ao nosso “bom dia” de ontem – aquele que nunca vivemos offline.
E não é culpa do telemóvel, coitado – hardware inofensivo. O bug somos nós. Seres humanos que preferem olhar para um ecrã retina do que para a cara, às vezes igualmente luminosa, de quem está mesmo à nossa frente.
A solução? Simples e barata: fazer logout. Sem drama. Ninguém vai morrer se não mexericarmos o Instagram por uma hora. Pelo contrário, talvez ganhemos vida. Pousar o telemóvel, erguer a cabeça, melhorar a postura e descobrir que as pessoas têm olhos, expressões e piadas medonhas. Que o jantar sabe melhor quando não está frio e pixelizado.
Arrisco-me a chamar esta mania de “desconexão gourmet”: a arte de ignorar a realidade com (uma tentativa de) requinte. Mas nada é mais chique do que estar (e ser) presente, sem lag.
Hoje, o premium é retro: conversar ao vivo, rir sem emoji, ouvir sem fones, abraçar sem hashtag.
Desconetar é o verdadeiro refresh: reaver o presente, a vida e a humanidade. E, convenhamos, é um espetáculo muito mais divertido do que qualquer vídeo viral de gatos – e eu adoro gatos!
A vida, a verdadeira, não acontece através de um ecrã.
Catarina Valadão
Publicado no jornal Açoriano Oriental a 11.10.2025

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João Mendes Coelho

Maravilhoso texto!

os nossos livros mais recentes 2022-2025 (AICL Colóquios da lusofonia)

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CHRÓNICAÇORES

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Açores testam semana de quatro dias na administração pública em janeiro – jornalacores9.pt

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O governo açoriano vai aplicar em janeiro de 2026 o projeto-piloto da semana de quatro dias de trabalho na administração pública regional e a amostra dos serviços e trabalhadores envolvidos será constituída em novembro, foi hoje revelado. “Em novembro […] será constituída a amostra de serviços e [de] trabalhadores que irão participar neste projeto-piloto. Assim, […]

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Um asteroide acabou de passar a rasar a Terra (e só percebemos depois)

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Uma tangente mais próxima da Terra do que a distância Porto-Algarve: 430 km que nos “salvaram” de um asteróide. A 430 km da Terra, um asteroide acaba de passar um “voo rasante” ao nosso planeta e tornar-se segunda passagem mais próxima registada até hoje (apenas superado pelo 2020 VT4, que passou a apenas 368 quilómetros da Terra há 5 anos). Agora, o 2025 TF, passou sobre a Antártida às 00:47:26 UTC de quarta-feira, 1 de outubro, a uma altitude de cerca de 428 quilómetros, explica a Science Alert. E foi mesmo uma tangente: a ilustração da capa mostra que o

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imigrantes indesejados, anos 60

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O que era dito na França a propósito dos emigrantes portugueses:
“São esquisitos, baixos e com bigodes e barbas. Chegam, na esmagadora maioria, homens. Elas, quando vêm, cobrem os cabelos com panos e não usam saia acima do joelho. Muitas são proibidas pelos maridos de cortarem o cabelo. Por vezes, eles ameaçam-nas com uma chapada ou um murro; elas, subservientes, baixam a cabeça e colam as mãos ao ventre. Trazem com eles uma paixão fervorosa pela religião. Usam colares com o símbolo das suas crenças e são capazes de dar mais do que têm para que o seu local de culto, na sua terra natal, tenha um relógio ou um telhado novo. Rezam, pelo menos, de manhã e à noite. Se puder ser, ao final da tarde, cumprem mais um ritual.
Chegam sem falar uma palavra da nossa língua. Parece que fogem de uma guerra qualquer lá no país deles, da fome e da miséria. (…) Atravessam países inteiros a pé ou à boleia para chegarem aqui. Pagam milhares para saírem do seu país e vêm ficar na miséria. Alguns têm muitos filhos, muito mais do que aquilo a que estamos habituados. Deixam-nos sozinhos ou com os irmãos mais velhos, que não vão à escola. Mas são muito trabalhadores.
(…)
São diferentes de nós e isso causa-nos má impressão. Não são muito limpos, cospem para o chão e as suas maneiras em público deixam muito a desejar. Vivem em bairros de lata que mais parecem campos de refugiados. Não sei como conseguem.”
___
“́ “. Ricardo M. Santos.2015
Foto de Immigrées portugaises dans un bidonville. Saint-Denis (Seine-Saint-Denis), 1966-1967.
Do mural de Paulo Maia Fernandes.May be a black-and-white image of 3 people and crowd

Prémio Nobel da Paz atribuído à opositora venezuelana Corina Machado

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O Comité Norueguês anunciou esta sexta-feira a atribuição do Prémio Nobel da Paz a Corina Machado, rosto da oposição venezuelana a Nicolás Maduro. Corina Machado foi laureada “pelo seu trabalho incansável na promoção dos direitos democráticos para o povo da Venezuela”.

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Trabalhadores portugueses ao serviço dos EUA nas Lajes sem salário atualizado – jornalacores9.pt

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Os trabalhadores portugueses ao serviço do contingente militar norte-americano na Base das Lajes, nos Açores, estão sem o aumento salarial anual e desconhecem o futuro dos colegas temporários, revelou hoje a Comissão Representativa. A Comissão Representativa Trabalhadores das Forças dos Estados Unidos Estacionadas nos Açores, liderada por Paula Terra, denuncia a “grave situação laboral, marcada […]

Source: Trabalhadores portugueses ao serviço dos EUA nas Lajes sem salário atualizado – jornalacores9.pt

apresentação do livro “Diário de um homem só”

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consegui montar uma reprodução da apresentação do livro “Diário de um homem só”

com os poemas iniciais, a música e os discursos de Diana Zimbro e Almeida Maia (em texto e em voz gerada por IA)

além das fotos que a livraria recolheu pela lente de Paulo R. Cabral.

ver e ouvir em

/coloquios.lusofonias.net/2025diario

 

/coloquios.lusofonias.net/2025diariohttps://blog.lusofonias.net/wp-content/uploads/2025/10/diarion-de-um-homem-so.pdf

Poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares vence Prémio Camões 2025

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A poeta e historiadora angolana Ana Paula Tavares, autora de uma vasta obra literária em prosa e poesia e de textos científicos, venceu o Prémio Camões 2025, anunciou a Direção-Geral do Livro, dos Arquivos e das Bibliotecas (DGLAB).

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