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- a selfie
Acabam de me ligar de uma empresa de pesquisa de mercado para que eu responda a perguntas sobre o país. Como raramente me contactaram em vida, poupei-lhes o meu vitríolo.
Curiosamente, sempre fui assim; não é de agora. Ainda fico contente, ou quiçá orgulhoso, ao constatar que tenho certa coerência entre pensamento e ação, mesmo com o avançar galopante da idade. Não estou tão senil como alguns gostariam; envelhecido, mas não tolo. Claro que tenho saudades dos tempos de “galã”, da minha aura de “irresistibilidade”, em que eu era “tão convencido” que até doía.
A história poderia ser fantasiada assim: na primavera, sentei-me numa esplanada na marginal marítima de Ponta Delgada, com vista para as Portas do Mar e para a marina. Quando a jovem empregada se aproximou, estava a meio duma rara chamada telefónica. Ela sorriu e disse: «Oh, falamos a mesma língua.» Retribuí o sorriso. Nada de sério — apenas aquele tipo de namorico leve que dá um pequeno impulso à autoestima de um homem. Enquanto fazia o pedido, continuámos a conversar. Para minha surpresa, descobrimos que somos da mesma cidade.
Então perguntou em que universidade estudara. Estava prestes a responder quando ela interrompeu e acrescentou, pensativa: «Na verdade, não… Provavelmente não te conhecia. Tem idade suficiente para ser meu pai.» Passei o resto do tempo em silêncio. Porque, na minha cabeça, eu era a mesma pessoa. O mesmo rapaz atraente, a quem as raparigas sorriam na escola e, mais tarde, na universidade. Ainda me sentia aquela versão de mim, como se décadas e décadas não tivessem passado. Saí da universidade há mais de 50 anos.
Nessa noite, em frente ao espelho, olhei as rugas e o cabelo grisalho que começava a rarear. As rugas nem eram muitas, mas a cara demonstrava vários calendários; as mãos enrugadas desmascaravam qualquer tentativa de rejuvenescimento. Sim, é doloroso aceitar o envelhecimento. E dói não só porque a atratividade física se desvanece, mas também porque, com ela, uma versão de mim mesmo desaparece. Suponho que a única opção real é admitir honestamente, é isto que sou agora. Um novo eu, um novo charme, a experiência que a idade acarreta.
Porque, se for completamente honesto, para a mulher de sessenta anos que vendia fruta na esquina da Solmar, eu continuo a ser: «Ei, bonitão.»
A pior sensação, como já expliquei numa crónica em 2025, é a de a pessoa olhar-se ao espelho e ver lá um velho que não se reconhece de lado nenhum. A situação só piora com as ‘selfie’ tiradas com o telemóvel, nas quais aparecemos mais envelhecidos do que se a foto for tirada com a minha Nikon topo de gama. Não adianta culpar a visão, que, como sabem, é um dos sentidos humanos mais falíveis. A verdade é que os outros nos veem como somos, ou seja, envelhecidos, mas nós — o nosso cérebro, os nossos olhos — recusam-se a aceitar isso.
Só começamos a acreditar que somos tão velhos quanto parecemos nas selfies quando começam a faltar pessoas a quem perguntar, pois muitos já morreram, quando já não há a quem contar coisas antigas e mais ninguém dos novos está disposto a ouvi-las. O descompasso entre as memórias de um e a realidade do outro é avassaladora. Mas penso, ao olhar-me no espelho, com os cabelos grisalhos, rugas e olhos encovados, que o real problema é que já não fazem espelhos como antigamente; esse é o problema. Adiante, divagações inúteis.
Nunca somos demasiado velhos para aprender: vejam o que aprendi com os peritos, em turco, a ave a que chamamos «peru» é «hindi» (Índia). Na Índia, chamam-lhe «peru». Em árabe, é «galinha grega»; em grego, «galinha francesa»; em francês, «galinha indiana». A ave não é nativa de nenhum destes lugares.
Ainda não sinto muito bem o que a imagem acima documenta, mas também começa a aplicar-se a mim, por mais que não queira. Penso até que ou estou muito surdo, ou que falamos dialetos diferentes. Ao longo de 30 anos, tentei atualizar os programas do PC e manter-me na crista da onda dos consumidores, mas sempre muito aquém do meu filho programador, que nasceu com programas implantados no cérebro e nos dedos.
Dizem que sete em cada dez idosos usam smartphones… Há semanas, ao trocar o meu iPhone, fiquei muito admirado quando, na loja, me disseram que não precisava de ajuda: bastava colocar o novo e o velho lado a lado e eles se emparelhavam. E assim foi.
Ainda me lembro dos adaptadores de SIM e de outros acessórios para transferir endereços, toques ou imagens. Tanto progresso e evolução em pouco tempo só pode ser obra do Demo!
A sociedade que obriga um septuagenário ou mais idoso a usar um smartphone para aceder aos seus direitos não é moderna: ignora os idosos. Hoje tudo se faz com uma aplicação. Mas quem não domina as novas tecnologias encontra-se analfabetohttps://blog.lusofonias.net/wp-content/uploads/2026/07/670-a-selfie.pdf em casa. Para marcar uma consulta ou pagar a conta, é preciso recorrer a um filho ou neto, se houver. O sistema falhou. Isto não é inovação. É exclusão.
A tecnologia deve servir para ajudar, não para selecionar nem excluir. Ficamos todos (em especial o Estado) mais cómodos e mais egoístas. Defender a transição digital justa implica reconhecer a responsabilidade coletiva: construir tecnologia centrada nas pessoas, investir em literacia digital para todas as idades e manter opções não digitais sempre que necessário.
Só assim salvaguardaremos a dignidade de quem contribuiu para o presente que hoje usufruímos. A tecnologia deve ser concebida e implementada para aumentar a inclusão, melhorar a acessibilidade e proteger a dignidade de todos os cidadãos, independentemente da idade ou da literacia digital.
Políticas públicas, desenho de serviços e formação direcionada são necessários para assegurar que a transição digital não subtraia direitos, mas os amplie para todos.