Não me preocupa onde Ronaldo vai dormir esta noite. Preocupa-me onde tu vais conseguir viver amanhã.

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Ronaldo é bilionário. Tem casas e propriedades em vários países e uma mansão em Portugal avaliada em dezenas de milhões.
Não me preocupa onde Ronaldo vai dormir esta noite.
Preocupa-me onde tu vais conseguir viver amanhã.
Porque, enquanto ele escolhe em qual das casas vai dormir, o Governo (com a ajuda do CHEGA) está a mexer nas regras da casa onde tu vives.
Mas antes, olha para os números.
O aumento anual do preço das casas passou de 8,2% em 2023 para 17,6% em 2025.
No segundo trimestre de 2026, as casas subiram 16,5% em Portugal.
Três vezes e meia o ritmo europeu.
Em 2025, o rendimento disponível das famílias subiu 5,7%.
O preço das casas subiu 17,6%.
Três vezes mais depressa do que aquilo que ganhas.
Nas rendas, a mediana dos novos contratos chegou aos 10,17 euros por metro quadrado.
Mais 10,2% num só ano.
No futebol, a isto chama-se goleada.
E foi precisamente com este marcador que, a 30 de Setembro de 2026, o Governo levou ao Parlamento uma nova reforma do arrendamento.
O Chega ameaçou chumbar.
Na hora de votar, absteve-se.
Foi essa abstenção que deixou a proposta seguir para a especialidade.
O que o Governo quer ???
— acabar com o travão de 2% às rendas entre determinados contratos sucessivos;
— flexibilizar a oposição à primeira renovação;
— reduzir de três para dois meses a mora necessária para avançar para a resolução do contrato;
— permitir mais rendas antecipadas e acabar com o limite às cauções (este último, um dos pontos que o Chega exigiu alterar na especialidade).
Traduzido para a tua vida:
Acaba o contrato?
A renda nova pode dar o salto que o mercado permitir.
O senhorio não quer renovar?
Ganha mais margem para te mostrar a porta.
Perdes o emprego, adoeces, falha um rendimento?
Tens menos um mês antes de o senhorio poder avançar para pôr fim ao contrato.
Queres mudar de casa?
O Governo chegou a propor que tivesses de pôr ainda mais dinheiro à cabeça só para entrar.
Mais exposição ao mercado.
Mais poder de negociação de um lado.
Menos segurança do outro.
Isto não é um pormenor técnico.
É a relação de forças entre uma família que precisa daquela casa para viver e quem é dono dela.
Mas esta reforma não caiu do céu.
É apenas o capítulo mais recente de uma história que já estava a ser escrita desde 2024.
PRIMEIRO, ALIMENTOU-SE A PROCURA COM DÍVIDA.
Garantia pública, isenções fiscais e crédito até 100%.
Vendeu-se como ajuda aos jovens.

 

Mas a porta abriu-se também para quem não precisava dela.
Imagina dois jovens.
Um não tem um cêntimo para a entrada nem família que o possa ajudar.
O outro tem pais com património, dinheiro e capacidade para serem fiadores.
Os dois entram pela mesma porta do apoio público…Sim, apoio pago com os nossos impostos.
E, num mercado com poucas casas, o resultado é fácil de perceber… mais dinheiro a disputar os mesmos imóveis.
Facilitar o crédito não faz aparecer casas.
Permite pagar mais pelas que já existem.
E ainda te deixa com uma dívida maior para as pagar.
SEGUNDO, ABRIRAM-SE NOVAMENTE AS PORTAS AO ALOJAMENTO LOCAL.
O Governo revogou a suspensão de novos registos.
Acabou com a regra geral dos registos limitados a cinco anos.
E devolveu a transmissibilidade dos registos.
Num país onde faltam casas para viver, voltou a ser mais fácil transformar habitação em negócio turístico.
E isso tem um preço. Literalmente.
Em Lisboa, um estudo estimou que as restrições ao alojamento de curta duração fizeram baixar cerca de 8% o preço dos imóveis nas zonas abrangidas.
Este governo resolveu fazer o oposto.
E não é só nas casas que já existem.
O estudo HOUSEnomics mostra como a procura externa e a turistificação passaram a influenciar estruturalmente o mercado português.
Mostra também como os compradores estrangeiros, sobretudo os de maior poder económico, conseguem pagar valores muito acima dos residentes, com particular expressão em Lisboa, Porto, Algarve e Madeira.
E é aqui que a contradição se torna absurda.
Dizemos que não há casas porque não se constrói o suficiente.
A própria construção civil diz que lhe faltam trabalhadores e defende mais migração laboral regulada.
Mas depois aponta-se o dedo ao imigrante.
Ataca-se quem veio trabalhar, muitas vezes precisamente nos sectores que constroem, limpam, servem e mantêm estas cidades, como se fosse essa a grande explicação para os preços da habitação.
Enquanto isso, quase ninguém parece achar estranho que Portugal tenha recebido 29,9 milhões de turistas vindos de fora só em 2025.
Quase TRINTA MILHÕES num único ano…a precisar de hotéis, apartamentos, alojamentos locais.
Ao mesmo tempo, atraímos durante anos residentes e capitais de elevado poder económico através de programas como os vistos gold.
E continuamos a ter um mercado imobiliário fortemente exposto a compradores internacionais muito mais solventes do que um trabalhador português.
Mas depois olha-se para o imigrante que divide uma casa ou um quarto e explica-se a crise da habitação com ele.
É muito mais conveniente e não estraga os lucros dos grandes.
O problema não é haver gruas.
Há gruas por todo o lado.
O problema é o que se constrói, para quem e a que preço.
Casas de luxo.
Empreendimentos turísticos.
Imobiliário pensado para uma procura internacional com um poder de compra que um salário português simplesmente não consegue acompanhar.
Construção há.
Casas que quem trabalha cá consiga pagar é que já é outra conversa.
TERCEIRO, BAIXARAM-SE OS IMPOSTOS A QUEM TEM CASAS PARA ARRENDAR SEM NENHUMA CONTRAPARTIDA.
E convém perceber quem está, cada vez mais, do outro lado do contrato.
22,6% dos novos contratos de arrendamento tinham do lado do senhorio empresas e outros sectores institucionais.
Em Lisboa, 30,9%.
Quem são?
Quantas casas acumulam?
Que poder têm sobre o mercado?
Que poder têm sobre alguns partidos?
Antes de respondermos a essas perguntas, chegou a borla fiscal.
O regime fiscal de 2026 baixa para 10% a tributação de determinados rendimentos prediais abrangidos.
Para sociedades e outros sujeitos com contabilidade organizada, só 50% desses rendimentos contam para imposto.
E os contratos de investimento para arrendamento podem ter benefícios fiscais durante muitos anos: IMT, imposto do selo, IMI e IVA, dentro das condições previstas no regime.
O que acontece de imediato?
O investimento torna-se fiscalmente mais rentável.
Isso sabemos.
Que tu passes a pagar menos renda?
Nem sonhes com isso…
E é aqui que está a escolha política.
Tornar a habitação mais rentável para quem investe nela não é o mesmo que torná-la mais barata para quem precisa dela para viver.
Pelo contrário…quanto mais interessante for uma casa enquanto activo financeiro, mais gente com capital vai querer comprá-la como investimento.
E quem procura quatro paredes para dormir passa a competir com quem procura uma percentagem de retorno.
O investidor calcula a rentabilidade.
Tu calculas se sobra dinheiro depois da renda.
ENTRETANTO, O MERCADO DESCOBRIU OUTRA MINA: A VELHICE.

Já há empresas a vender a nua-propriedade como investimento.
Compra-se a casa ao idoso.
O idoso fica com o usufruto e continua lá a viver.
O investidor fica à espera que, um dia, a casa fique livre.
De um lado, alguém com uma reforma curta e uma casa construída ou paga ao longo de uma vida.
Do outro, alguém à procura de retorno.
No mesmo contrato.
Não é difícil perceber quem costuma chegar a essa negociação com mais poder.
E assim, o património de uma vida inteira pode acabar nas mãos de investidores e fundos, em vez de ficar na família.
Mas também aqui podia haver outro caminho.
O Estado podia criar um mecanismo público…adiantar rendimento ao idoso com garantia sobre a casa, recuperar mais tarde o que adiantou e os respectivos custos, e preservar para o proprietário ou para os herdeiros o valor restante.
Em vez de transformar a fragilidade financeira da velhice em mais um mercado, podia existir uma alternativa pública.
E AGORA VOLTEMOS À REFORMA DO ARRENDAMENTO.
É aqui que todas as peças encaixam.
Primeiro, mais dinheiro e mais crédito a disputar as casas.
Depois, mais espaço para o turismo e o alojamento local.
Depois, benefícios fiscais para tornar o arrendamento mais rentável para proprietários e investidores.
Ao mesmo tempo, uma construção cada vez mais atraída pela gama alta, pelo turismo e pela procura internacional.
E agora, uma reforma que aumenta a liberdade contratual dos senhorios e reduz a protecção dos inquilinos.
E O CHEGA?
Absteve-se.
Pode dizer que discorda disto ou daquilo.
Pode prometer corrigir isto ou aquilo na especialidade.
Mas, quando chegou o momento de decidir se esta reforma continuava ou parava, deixou-a continuar.
E, enquanto isto se decide no Parlamento, as cidades transformam-se.

Quem trabalhava e vivia no centro é empurrado cada vez mais para longe.
As periferias recebem quem já não consegue competir pelos preços do centro.
Aumentam as deslocações.
Aumenta a pressão sobre transportes, escolas e serviços.
E o centro torna-se, pouco a pouco, um produto para quem o consegue pagar, para quem investe e para quem passa por lá alguns dias.
AGORA, SIGA-SE O DINHEIRO.
Quem ganha quando o crédito permite pagar mais por uma casa?
Quem ganha quando uma casa rende mais como alojamento turístico do que como habitação?
Quem ganha quando descem os impostos sobre determinados rendimentos do arrendamento?
Quem ganha quando a habitação se torna um activo cada vez mais apetecível para grandes investidores?
Quem ganha quando o risco do senhorio diminui e o do inquilino aumenta?
E quem paga, quando as casas sobem 17,6% num ano e o rendimento disponível das famílias sobe 5,7%?
Chega uma altura em que chamar a isto incompetência já não explica o padrão.
Incompetência seria querer baixar o preço das casas e tropeçar sempre no caminho.
Aqui, medida após medida, há uma direcção muito CLARA… Isto não é incompetência, isto é a transferência de dinheiro das famílias para os de cima.
– Mais espaço para o capital entrar na habitação;
– Mais rentabilidade para quem tem património;
– Mais turismo;
– Mais procura de elevado poder económico;
– Mais flexibilidade para o proprietário;
… e mais mercado para quem precisa simplesmente de um sítio onde viver.
Isto tem um nome…opção política.
Uma política que trata cada vez mais a casa como investimento e cada vez menos como o lugar onde uma pessoa constrói a vida.
E, enquanto isso, procuramos culpados fáceis.

O imigrante.
O vizinho.
Quem recebe um apoio.
Quem está numa casa pública.
Discutimos uns com os outros cá em baixo enquanto o dinheiro continua a subir.
E talvez seja essa a parte mais conveniente de todas.
Porque, enquanto estás zangado com quem vive no quarto ao lado, não estás a olhar para quem está a comprar o prédio inteiro.
E enquanto o país discute Cristiano Ronaldo, um homem que não precisa de se preocupar se consegue pagar a próxima renda, tudo isto vai acontecendo.
Enquanto estás distraído a comprar cromos do Ronaldo…quem está a perder o jogo és tu
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