sata aliás SA(N)TA PACIÊNCIA!

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A SATA não se atrasa, só tem um conceito muito próprio de tempo. Um voo marcado para as oito não significa necessariamente que o avião saia às oito. Significa que, algures no processo administrativo, alguém manifestou a esperança de que isso pudesse acontecer. Às nove ainda é um voo. Às dez já é apenas uma possibilidade. Ao meio-dia é uma corrente filosófica para nos fazer refletir.
O mesmo princípio pode ser aplicado ao atendimento telefónico. Existe um número de apoio ao cliente, o que revela desde logo um apurado sentido de humor. Ligamos e uma voz muito educada informa-nos de que a nossa chamada é muito importante. É comovente. Sobretudo porque poucas vezes alguém nos fez sentir tão importantes durante tanto tempo sem querer falar connosco.
Ao fim de vinte minutos, ainda queremos resolver o problema. Aos quarenta, já só queremos que atendam. Ao fim de uma hora desenvolvemos uma relação emocional com a música de espera na tentativa de nos acalmar. Aos noventa minutos começamos a preocupar-nos genuinamente com a pessoa que deveria estar do outro lado. Estará bem? Terá ido almoçar? Como tudo na SATA, também estará atrasada?
Já nos aeroportos açorianos, entretanto, os painéis informativos desenvolveram uma relação estável com a palavra “atrasado”. Já não é propriamente informação. É decoração. Quase património imaterial da humanidade. Um passageiro experiente nem pergunta a que horas parte. Pergunta apenas qual é a informação mais recente, com a mesma humildade de quem consulta a previsão meteorológica.
Depois existe o buraco. O famoso buraco da SATA. Um fenómeno de tal dimensão que talvez já devesse constar dos mapas do arquipélago. Temos nove ilhas, vários ilhéus e uma cratera financeira onde, ao longo dos anos, desapareceram milhões, administrações, planos de reestruturação, promessas, justificações e uma quantidade impressionante de paciência.
Periodicamente aparece alguém com uma pá e anuncia que agora é que vai ser. Escava-se mais um bocadinho, fazem-se reuniões, apresentam-se números, muda-se qualquer coisa de sítio e conclui-se que afinal o buraco continua lá. Às vezes até parece maior! É uma escavação arqueológica extraordinária: cava-se há anos e ninguém descobre qualquer coisa que preste. Até a solução continua atrasada!
Talvez estejamos simplesmente a olhar para a SATA da forma errada… Não é uma companhia aérea. É uma experiência existencial. Ensina paciência, desapego, gestão da frustração e, sobretudo, a não criar expectativas excessivas em relação ao futuro.
Compramos uma passagem para chegar a um destino, mas a probabilidade de nunca sairmos do mesmo lugar é grande e, até essa, chega atrasada.
Catarina Valadão

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