POESIA AFONSO LOPES VIEIRA

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Por Afonso Lopes Vieira

1878-1946

Se um inglês ao passar me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
se tens agora o mar e a tua esquadra ingente,
fui eu que te ensinei a nadar, simplesmente.
Se nas Índias flutua essa bandeira inglesa,
fui eu que t’as cedi num dote de princesa.
e para te ensinar a ser correto já,
coloquei-te na mão a xícara de chá…

E se for um francês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Recorda-te que eu tenho esta vaidade imensa
de ter sido cigarra antes da Provença.
Rabelais, o teu génio, aluno eu o ensinei
Antes de Montgolfier, um século! Voei
E do teu Imperador as águias vitoriosas
fui eu que as depenei primeiro, e ás gloriosas
o Encoberto as levou, enxotando-as no ar,
por essa Espanha acima, até casa a coxear

E se um Ianque for que me olhar com desdém,
Num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Quando um dia arribei á orla da floresta,
Wilson estava nu e de penas na testa.
Olhava para mim o vermelho doutor,
— eu era então o João Fernandes Labrador…
E o rumo que seguiste a caminho da guerra
Fui eu que to marquei, descobrindo a tua terra.

Se for um Alemão que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Eras ainda a horda e eu orgulho divino,
Tinha em veias azuis gentil sangue latino.
Siguefredo esse herói, afinal é um tenor…
Siguefredos hei mil, mas de real valor.
Os meus deuses do mar, que Valhala de Glória!
Os Nibelungos meus estão vivos na História.

Se for um Japonês que me olhar com desdém,
num sorriso de dó eu pensarei: — Pois bem!
Vê no museu Guimet um painel que lá brilha!

Sou eu que num baixel levo a Europa à tua ilha!

Fui eu que te ensinei a dar tiros, ó raça
belicosa do mundo e do futuro ameaça.
Fernão Mendes Zeimoto e outros da minha guarda
foram-te pôr ao ombro a primeira espingarda.

Enfim, sob o desdém dos olhares, olho os céus;
Vejo no firmamento as estrelas de Deus,
e penso que não são oceanos, continentes,
as pérolas em monte e os diamantes ardentes,
que em meu orgulho calmo e enorme estão fulgindo:
— São estrelas no céu que o meu olhar, subindo,
extasiado fixou pela primeira vez…
Estrelas coroai meu sonho Português!

P.S.

A um Espanhol, claro está, nunca direi: — Pois bem!
Não concebo sequer que me olhe com desdém.

 

parábolas para professores Brecht, Maiakovsky, etc

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É PRECISO AGIR

Bertold Brecht (1898-1956)

 

Um passeio com Maiakovski

Na primeira noite

eles se aproximam

e colhem uma flor

de nosso jardim.

E não dizemos nada.

Na segunda noite,

já não se escondem :

pisam as flores,

matam nosso cão,

e não dizemos nada.

Até que um dia,

o mais frágil deles,

entra sozinho em nossa casa,

rouba-nos a lua, e,

conhecendo nosso medo,

arranca-nos a voz

da garganta.

E porque não dissemos nada,

já não podemos dizer nada.

 

 

Martin Niemöller, 1933 , símbolo da resistência aos nazistas.

 

Um dia vieram e levaram meu vizinho que era judeu.

Como não sou judeu, não me incomodei.

No dia seguinte, vieram e levaram meu outro vizinho que era comunista.

Como não sou comunista, não me incomodei .

No terceiro dia vieram e levaram meu vizinho católico.

Como não sou católico, não me incomodei.

No quarto dia, vieram e me levaram;

já não havia mais ninguém para reclamar…”

 

Parodiando o pastor protestante Martin Niemöller, símbolo da resistência nazista:

illuminado.wordpress.com/2010/02/02/primeiroelesvieram

 

Primeiro vieram atrás dos que fumam…
eu não protestei porque eu não fumo.
Depois vieram atrás dos que bebiam
tudo bem eu não bebo
vieram atrás dos que fumam
nada fiz para impedir.
Então eles caçaram os obesos
não me importei.
Eles vieram atrás daqueles que Leem
e estão à minha porta

Mas já ninguém me pode ouvir

 

 

 

Adaptado de Cláudio Humberto, 09 Fev. 2007

 

“Primeiro roubaram nos semáforos,

mas não fui a vítima,

Depois incendiaram os autocarros,

mas não estava neles;

Depois fecharam as ruas,

onde não moro;

Fecharam então o portão do bairro,

que não habito;

De seguida mataram uma criança,

que não era meu filho…”

 

Primeiro levaram os negros

Mas não me importei com isso

Eu não era negro

Em seguida levaram alguns operários

Mas não me importei com isso

Eu também não era operário

Depois prenderam os miseráveis

Mas não me importei com isso

Porque eu não sou miserável

Depois agarraram uns desempregados

Mas como tenho emprego

Também não me importei

Agora estão levando-me

Mas já é tarde.

Como não me importei com ninguém

Ninguém se importa comigo.

 

 

MANUEL ALEGRE O CANTO E AS ARMAS E alegre se fez triste

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MANUEL ALEGRE O CANTO E AS ARMAS

 

 

E alegre se fez triste

 

 

Aquela clara madrugada que Viu lágrimas correrem no teu rosto E alegre se fez triste como se chovesse de repente em pleno Agosto Ela só viu meus dedos nos teus dedos Meu nome no teu nome e demorados Viu nossos olhos juntos nos segredos Que em silêncio dissemos separados A clara madrugada em que parti Só ela viu teu rosto olhando a estrada Por onde o automóvel se afastava E viu que a pátria estava toda em ti E ouviu dizer adeus essa palavra Que fez tão triste a clara madrugada

Que fez tão triste a clara madrugada

LAWRENCE FERLINGHETTI (pictures of the gone world) o mundo é um lugar maravilhoso

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LAWRENCE FERLINGHETTI 1919-? (pictures of the gone world)

 

o mundo é um lugar maravilhoso

 

o mundo é um lugar maravilhoso

para se nascer

se as pessoas não se preocuparem demasiadamente

com o facto de a felicidade nem sempre ser muito divertida

se as pessoas não se ralarem muito com um bocado do inferno, uma vez por outra

porque mesmo no céu não se canta

constantemente

 

o mundo é um lugar maravilhoso

para se nascer

se as pessoas não se ralarem com a morte

de outras pessoas constantemente

ou talvez apenas a morrerem à fome

de vez em quando

o que não será mau de todo

se não for a nós que isso acontece

sim o mundo é o melhor lugar de todos

para fazermos uma porão de coisas como

consagrar-nos à alegria

consagrar-nos ao amor

 

 

Sim

Mas depois no meio disso tudo

Aparece o sorridente

Cangalheiro

 

 

notícias estúpidas do dia do CM

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O maior réptil marinho alguma vez encontrado “engole” dois autocarros

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Um peixe-lagarto gigante, com 25 metros, descoberto numa praia do Reino Unido pode ser o maior réptil marinho alguma vez encontrado. Um ictiossauro recém-descoberto, que viveu há 200 milhões de anos no mar Triássico, é provavelmente o maior de sempre, dizem os autores de um novo estudo, publicado esta quarta-feira na PLOS One. Os restos fossilizados agora encontrados, com 200 milhões de anos, sugerem que o gigantesco monstro marinho teria cerca de 25 metros — algo como duas vezes o tamanho de um autocarro. A criatura recém-descoberta faz parte da ordem Ichthyosauria, cujos membros estavam entre os predadores marinhos dominantes

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O incrível “monstro do esparguete” vive no fundo dos Oceanos, mas é carnívoro e “voa” – ZAP Notícias

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Novas imagens impressionantes mostram um “monstro esparguete-voador” a agitar os seus muitos braços a cerca de 665 metros abaixo da superfície, perto de uma montanha submarina ao largo da costa do Chile. O Schmidt Ocean Institute revelou novas imagens impressionantes do “monstro do esparguete” – um primo da letal Caravela-Portuguesa. Esta criatura rara foi vista a cerca de 1.450 quilómetros da costa do Chile, próximo de um monte submarino com 3.109 metros de altura. O organismo, conhecido como Bathyphysa conifera, foi filmado pelos cientistas através de um veículo operado remotamente, a bordo do navio de investigação Falkor, que explora a

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Mega El Niños provocaram a Grande Morte, a extinção mais catastrófica da história

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Flutuações climáticas repentinas e severas — semelhantes aos atuais eventos provocados pelo El Niño — podem ter agravado as erupções vulcânicas em grande escala levando centenas de espécies à extinção. Uma nova investigação sugere que fenómenos climáticos semelhantes ao El Niño provocaram a “Grande Morte”, a extinção mais devastadora do planeta Terra, há cerca de 252 milhões de anos, quando a vida na Terra enfrentou um colapso quase total. Há muito que os cientistas estudam as causas desta extinção em massa, que dizimou cerca de 90% das espécies marinhas e 70% da vida terrestre. Embora as erupções vulcânicas e as

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