Fernando Echevarría (1929-2021): morreu o mais filosófico dos poetas portugueses | Livros | PÚBLICO

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Autor de uma obra vastíssima e de uma coerência exemplar, o poeta de Introdução à Filosofia, Sobre os Mortos ou Uso de Penumbra tinha 92 anos.

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CRISTÓVÃO DE AGUIAR POR SANTOS NARCISO

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Em jeito de humilde homenagem ao escritor Cristovão de Aguiar, no dia da sua morte.
O que escrevi em “Leituras do Atlântico” no dia 18 de Maio de 2015
Cristóvão de Aguiar
O “ouro” dos anos no brilho da escrita
Cinquenta é número de ouro quando se fala de anos. E foi este “ouro” que cobriu de gala, em dia de nascimento de Antero, a Casa-Museu Guerra Junqueiro, no Porto, numa iniciativa da Casa dos Açores do Norte e do Departamento de Estudos Românticos da Universidade do Minho, em colaboração com a Direcção do Curso de Línguas e Literaturas Europeias do Instituto de Letras e Ciências Humanas. Foi a homenagem nacional a Cristóvão de Aguiar, Açoriano, pico-pedrense, já agraciado pela República com a Ordem do Infante D. Henrique e, em 2012, pelos Açores, com a Insígnia Autonómica de Reconhecimento.
Isabel Fernandes, Editora do Jornal de Letras que dedica, na sua edição de 15 de Abril de 2015, cinco pesadas páginas ao escritor homenageado, escreve, com todas as letras que “Cristóvão de Aguiar é, sem sombra de dúvida, o maior escritor da literatura açoriana, e um nome de referência no panorama literário português”. Se o adjectivo “maior” pode ser subjectivo, a mim, deu-me muito mais prazer que a autora do texto o tenha enquadrado dentro da “Literatura açoriana”. Sim, porque esta tem sido uma polémica de muitos anos e com muitos intervenientes e Cristóvão de Aguiar, ele mesmo, posicionou-se contra essa ideia de “Literatura Açoriana”. E será curioso notar aqui que, o assunto foi abordado pelo Secretário regional da Educação do Governo dos Açores, na intervenção proferida no Porto, a encerrar a sessão de homenagem ao escritor que diz que “não escrevo, faço croché com as palavras”. Disse Avelino Meneses: “Com clarividência e com razoabilidade, Cristóvão de Aguiar duvida da existência de uma literatura açoriana, preferindo falar de uma escrita de expressão insular com raízes continentais e com extensão atlântica, constituindo tudo isto o universo dúbio da lusofonia”. O Secretário Regional que representava o Presidente do Governo açoriano na cerimónia, acrescentou ainda que a identidade açoriana é, pois, “muito complexa”, chegando, por vezes, a ser a “negação de uma identidade”, daí que “a mundividência” constitua “uma importante faceta da Açorianidade, que comunga e acentua o caráter universalista da cultura portuguesa”.
Cristóvão de Aguiar é assim mesmo, irreverente q. b. nos seus 75 anos, mas com uma característica que é traço comum de toda a sua obra, aqui lapidarmente definida por Avelino Meneses: “a defesa dos oprimidos” e, também, a “omnipresença de temas açorianos”, o que, por vezes, foi expresso “numa linguagem de sabor dialectal e regionalista”.
No decorrer da sessão de homenagem foram lançados os dois primeiros volumes dos treze que vão constituir a edição das obras completas do Autor, com chancela das Edições Afrontamento e patrocínio do Governo Regional dos Açores. O I Volume é inteiramente dedicado a “Raiz Comovida”, na trilogia constituída por “A Semente e a Seiva”, “Vindima de Fogo” e “O Fruto e o Sonho”, enquanto que o II tomo “Amor Ilhéu” inclui prosa poética, sonetos e outros poemas.
Reler, como agora estou a fazer, os três livros do volume “Raiz Comovida” que recebi, com mais o outro volume, em pacote registado, com inesquecível dedicatória do Autor, é regressar a muitos anos passados, sentindo o renascer de termos e gestos dum quotidiano viver ilhéu que dorme dentro de mim e que acorda na magia do “quartinho do relógio cujo coração do pêndulo vai moendo o tempo na mó desenfreada do seu tiquetaque”.
Naturalmente que a apresentação desta obra não poderia ficar só pela cidade invicta. Foi pelo próprio Cristóvão de Aguiar que soube que está agendado o seu lançamento na Biblioteca Pública de Ponta Delgada, no dia 15 de Junho pelas 18 horas, com apresentação pelo Prof. Carlos Riley, da Universidade dos Açores. Talvez pelas limitações físicas que me amarram a casa, talvez por não ler o suficiente da informação regional, ou talvez por não serem mesmo divulgadas, pouca referência tenho visto por cá a este acontecimento. Mas estou certo que a proximidade temporal, (ainda falta quase um mês), fará com que seja devidamente publicitado, não por Cristóvão de Aguiar, mas pela cultura e literatura que eu só entendo quando liberta de teias e interesses.
Para Cristóvão de Aguiar – e sirvo-me de algumas das palavras da inesquecível intervenção que fez no Porto e que tive a honra de ler e guardar – “meio século de vida literária perfaz a soma calada de mais de um carro repleto de anos, para utilizar a genuína linguagem beirã de Aquilino Ribeiro, um dos magos do meu círculo de afeições electivas do reino da Literatura. Dada esta veteranice aonde acabo de poisar sem sequer ter dado fé do tempo da viagem, assiste-me já o direito de quebrar o protocolo que seria mister cumprir nestas ocasiões solenes ou solenizadas”.
E com muito carinho, mas ao mesmo tempo com a mordaz ironia de quem conhece que “é admirado por aqueles que sabem ler nas entrelinhas”, recorda a saga do seu primeiro livro de poemas, em tempos de comissão de serviço militar na Guiné “ainda sem Bissau”…
“A quem partia para a guerra colonial, ambígua, confusa e medonha, exigia-se cuidada preparação em terra. E eu, numa arrojada presunção de poeta principiante, pensei em estrumar o futuro com um livrinho de versos… Estrumei-o no sentido literal do verbo… Tal arrojo só se poderá consentir e perdoar tomando em conta a insensatez, em coligação com o vigor de uma serôdia adolescência, para já não referir a conjuntura bélica que já se havia transfigurado em tragédia engolida, mesmo para os que estavam longe da idade militar…
Houve quem me aconselhasse, pura e simplesmente, a que procedesse a uma interrupção voluntária da gravidez lírica. Não haveria perigo de septicemia, nem de sentar-me no banco dos réus – o embrião pouco mais seria do que uma sombra sem qualquer estatuto que pudesse vir a oferecer ténues sinais de vida intra-uterina…
Já com alguma consciência muito frágil dos limites, baptizei-o e botei-lhe o nome cristão de Mãos Vazias, livro de versos desafinados num concerto em dó maior e em sol menor de mágoa, clave de pé-coxinho, esvaziado da poesia mais elementar. Porém, não renego esse filho, como Pedro a Cristo antes do terceiro cantar do galo, mas confesso que me sinto com remorsos sempre que recordo esse rebento prematuro e poeticamente malformado… Não o renego, não. Se o parto se não tivesse consumado, não estaríamos, aqui e agora, a festejar os cinquenta anos de vida literária de um escritor que persiste no seu doloroso afã de alisar e limar, metamorfosear e mondar palavras nas frases que rabisca, transmudando-as depois em textos e estes em livros e estes em múmias de papel impresso, para serem, na primeira oportunidade, remodelados e refundidos, num frenesi diabólico…”
E sobre o porquê da escrita: “A presidir a este labor de Sísifo, um único desígnio e uma só ambição – que nasça uma gota de beleza que, com outras, provenientes de outras nascentes, amamentem um ribeirinho que se transvaze nas águas necessárias que regue tanta aridez mundializada… Respira-se muito mal, é certo, mas ainda resta espaço para traficar a poluição por quotas… Basta para isso licitar e ir subindo a parada… Tudo compra o dinheiro. Não há nada que se não compre, nada há que se não venda. E, como diz o Poeta Manuel Alegre, a vida também se compra, a vida também se vende, é simples mercadoria, nessa praça onde tu passas, tão sem preço como o preço, que o vento teria amor, se o vento tivesse preço…”
Justificando o título deste meu humilde trabalho, considero que o “ouro” destes 50 anos no brilho da escrita que não morrerá pode encerrar-se neste abraço de “conterrâneo” que lê, sente e interioriza a beleza que cabe na alma das palavras de Cristóvão de Aguiar, com quem nunca estive, pessoalmente, mas é como se sempre estivesse!
Santos Narciso
Chrys Chrystello
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PANDORA PAPERS – CAPÍTULO RUSSO

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PANDORA PAPERS – CAPÍTULO RUSSO
Dinheiro secreto, imóveis chiques e o mistério de Monte Carlo
Nada na origem humilde de Svetlana Krivonogikh, com quem Putin manteve um relacionamento oculto por anos, indica que ela teria os meios para adquirir uma propriedade com vista para o playground da elite mundial
Paul Sonne e Greg Miller, The Washington Post, O Estado de S.Paulo
05 de outubro de 2021 | 05h00
MÔNACO – O apartamento paira sobre as águas azuis do Mediterrâneo, diante do lendário cassino Monte Carlo de James Bond. No porto lá em baixo, membros da realeza, magnatas e oligarcas flutuam em iates do tamanho de icebergs.
Nada na origem humilde de Svetlana Krivonogikh indica que ela teria os meios para adquirir uma propriedade com vista para este playground da elite mundial. A russa supostamente cresceu em um conjunto habitacional lotado de São Petersburgo e, entre seus muitos empregos, já foi faxineira de uma loja de bairro.
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Mas registros financeiros e documentos fiscais do principado mostram que Krivonogikh, de 46 anos, se tornou a dona do apartamento em Mônaco por meio de uma empresa offshore criada poucas semanas depois de ela dar à luz uma menina. A criança nasceu na época em que, de acordo com a mídia russa, ela vivia um relacionamento secreto de anos com o presidente russo, Vladimir Putin.
A unidade de luxo de Krivonogikh no Monte Carlo Star foi revelada por documentos obtidos pelo Consórcio Internacional de Jornalistas Investigativos (ICIJ, na sigla em inglês) e compartilhados com o Washington Post. Os documentos, conhecidos como Pandora Papers, expõem que ela tem uma empresa de fachada nas Ilhas Virgens Britânicas e conta com a assessoria de uma empresa de serviços financeiros de Mônaco que trabalhava simultaneamente para um dos amigos bilionários de Putin.
Os arquivos não indicam onde ela conseguiu dinheiro para pagar por um apartamento que custou US$ 4,1 milhões em 2003 e provavelmente vale muito mais do que isto nos dias de hoje. Mas a transação coincidiu com o período em que Krivonogikh supostamente tinha um relacionamento com Putin e estava acumulando uma carteira surpreendente de ativos na Rússia, de acordo com a Proekt, agência investigativa russa online que expôs sua suposta ligação com o líder do Kremlin e, desde então, foi proibida no país.
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Presidente russo, Vladimir Putin, manteve relacionamento secreto com Svetlana Krivonogikh Foto: Vladimir Smirnov/Sputnik/Pool via REUTERS
Um porta-voz do Kremlin desmentiu uma reportagem sobre o caso publicada no ano passado. Mas os detalhes sobre o apartamento reforçam a alegação básica da matéria: depois que Krivonogikh começou o relacionamento com Putin, ela acumulou ativos muitas vezes ligados aos contatos próximos do presidente.
Os laços de Krivonogikh com o círculo íntimo de Putin já tinham vindo à tona antes da reportagem da Proekt, mas não chamaram a atenção do público. Em 2010, o Banco Rossiya divulgou que ela era um de seus maiores acionistas por meio de sua empresa, a OOO Relax. O banco com sede em São Petersburgo mais tarde estaria sujeito a sanções do Tesouro dos Estados Unidos, que o rotulou como “banco pessoal para altas autoridades da Federação Russa”.
Krivonogikh não falou sobre seu suposto relacionamento com Putin nem seu notável acúmulo de riqueza.
Mas sua filha, que fez 18 anos este ano e atende pelo nome de Luiza Rozova, alimentou especulações sobre sua paternidade em entrevistas e aproveitou a atenção para construir um número crescente de seguidores online. Nas fotos, Rozova tem uma semelhança impressionante com o presidente russo e reconhece essa semelhança mesmo se recusando a confirmar ou negar que Putin seja seu pai.
Não há registro de nome de pai nos documentos oficiais russos de Rozova obtidos pela Proekt e analisados pelo Post. Mas esses documentos registram um nome do meio, “Vladimirovna”, que é um patronímico que significa “filha de Vladimir”. Em sua conta no Instagram, que tem mais de 83 mil seguidores, ela aparece sob o nome “rozova luiza v”.
Krivonogikh não respondeu aos pedidos de comentários enviados a ela por meio de seus negócios com sede em São Petersburgo, do Banco Rossiya, de sua filha e da empresa de serviços financeiros de Mônaco. Os esforços para entrar em contato com Krivonogikh em três endereços residenciais ligados a ela não tiveram sucesso.
As pistas que conectam Krivonogikh à propriedade de Mônaco estão contidas no enorme repositório de dados financeiros recém-divulgado. Os arquivos mostram, por exemplo, que o executivo de mídia Konstantin Ernst obteve participação em um lucrativo negócio imobiliário depois de receber elogios do líder russo por ajudar a realizar os Jogos Olímpicos de Inverno de 2014, em Sochi. O projeto envolvia a conversão de complexos de cinemas da era soviética, ainda de propriedade do Estado, em empreendimentos comerciais e de apartamentos privados. A parceria de Ernst não foi divulgada publicamente, mas é detalhada nos documentos do Pandora Papers relacionados ao projeto.
Em uma declaração por escrito, Ernst confirmou seu envolvimento no empreendimento imobiliário, mas negou que se tratasse de “uma compensação pelas Olimpíadas de 2014”. Ele não respondeu a outras questões enviadas pelo Post, pelo ICIJ e por outros parceiros da imprensa, mas disse: “Não cometi nenhuma ilegalidade”.
Outros documentos mostram que Herman Gref, diretor do Sberbank, um banco estatal russo, detinha mais de US$ 50 milhões em dinheiro e recebíveis de empréstimos para sua família no exterior, usando contas em Samoa, Panamá e Cingapura, apesar de trabalhar como a face pública mais proeminente do Estado russo no sistema bancário.
As autoridades de Cingapura sinalizaram transações envolvendo Gref e dois de seus colegas russos, de acordo com um relatório de auditoria da Autoridade Monetária de Cingapura incluído nos arquivos do Pandora Papers, e posteriormente multaram a firma financeira que administrava os ativos de Gref em US$ 1,1 milhão por não cumprir as normas estabelecidas para prevenir a lavagem de dinheiro. Uma porta-voz da Autoridade Monetária de Cingapura disse que a empresa pagou a multa e tomou medidas corretivas para resolver as falhas.
No geral, os documentos reforçam a representação da Rússia como um país onde uma elite próxima ao poder ganha milhões de dólares e guarda essa riqueza pessoal usando estruturas financeiras obscuras no exterior.
Cinco anos após as revelações do Panama Papers, os novos arquivos mostram que, em vez de abandonar o uso de contas offshore, os russos ricos e seus administradores de dinheiro procuraram se tornar melhores na arte de esconder seus ativos. Em uma passagem, um advogado que representava dois amigos de longa data de Putin alertou uma empresa panamenha para não repetir os erros que levaram ao vazamento com o nome do país. “Vocês são obrigados a manter o sigilo dos nossos clientes”, escreveu o advogado em uma mensagem de 2016, “e a não possibilitar uma segunda história do Panama Papers”.
Os Pandora Papers não mostram exatamente quando Krivonogikh se tornou a “proprietária beneficiária” da empresa de fachada Brockville Development Ltd., que havia comprado o apartamento de Mônaco. O termo “proprietária beneficiária” se refere à pessoa que controla uma empresa offshore ou se beneficia dela financeiramente, mesmo que outros nomes apareçam nos documentos de registro. Os dados indicam que ela era a beneficiária já em 2006.
Um portfólio de propriedades
O apartamento em Mônaco faz parte de um surpreendente portfólio de propriedades acumulado por Krivonogikh depois que ela supostamente começou seu relacionamento com Putin.
Ela possui participação em um banco russo administrado por pessoas próximas a Putin, de acordo com registros públicos e com a investigação da Proekt. Krivonogikh também tem participação majoritária em um resort de esqui onde se realizou o casamento de uma das duas filhas que Putin teve com sua ex-esposa. Além disso, também tem um iate, uma conta em um banco suíço também exposta nos arquivos do Pandora Papers e apartamentos nos endereços mais cobiçados de São Petersburgo, de acordo com reportagens da Proekt e dos registros públicos russos.
Antes de ser publicamente ligada a Putin anos atrás, Krivonogikh ostentava as benesses da riqueza em fotos de perfil agora publicadas pela Proekt. Uma foto hoje em grande circulação a mostra usando casaco de pele e óculos de sol espelhados. Outra a mostra reclinada em roupas elegantes contra um helicóptero. Não há indicação de que sua fortuna pessoal venha de alguma riqueza familiar.
Duas fontes anônimas que afirmaram conhecer Krivonogikh disseram à publicação russa que ela era “amiga íntima” de Putin havia anos, forjando um relacionamento que começou na década de 1990 em São Petersburgo, onde Putin trabalhava como autoridade local, e continuou no início dos anos 2000 em Moscou, depois que ele ascendera à presidência. A Proekt disse que analisou registros de passageiros, mostrando que Krivonogikh se tornou uma viajante frequente para a capital russa quando Putin assumiu suas funções no Kremlin.
As perspectivas profissionais de Krivonogikh melhoraram de repente, segundo detalhes apresentados na investigação da Proekt. Ela começou a trabalhar no Rossiya em 2001 e pouco depois adquiriu uma participação de cerca de 3% no banco, de acordo com documentos bancários.
Ela se tornou proprietária de um apartamento na prestigiada ilha Kamenny de São Petersburgo e adquiriu participação em um centro de artes cênicas em São Petersburgo, de acordo com a investigação da Proekt, que cita registros públicos russos verificados pelo Post.
Outro negócio deu a ela uma participação de 75% em um resort de esqui ao norte de São Petersburgo, que ela possui com um amigo de Putin que durante muitos anos foi presidente e maior acionista do Banco Rossiya, de acordo com registros públicos russos.
Os sete teleféricos e as encostas diminutas do resort Igora não chegam a atrair os esquiadores de elite da Europa. Mas a propriedade se beneficiou de milhões de dólares em investimentos e expansões desde que foi inaugurada durante o segundo mandato de Putin como presidente e, em 2013, serviu de pano de fundo para o casamento da mais jovem das duas filhas de Putin com a esposa de quem ele se divorciou em 2014.
Uma semelhança com Putin
Putin protegeu detalhes sobre sua vida privada e riqueza pessoal com a dedicação que se poderia esperar de um ex-agente da KGB. Até mesmo suas duas filhas reconhecidas protegeram suas identidades do público e chegaram a viver sob pseudônimos.
Mas o muro de sigilo viu rachaduras se abrindo nos últimos anos, em meio a uma onda de divulgações online realizadas por ativistas da oposição, jornalistas e detetives da internet. No início deste ano, por exemplo, o principal adversário político de Putin, Alexei Navalni, postou uma denúncia alegando que um palácio de US$ 1 bilhão na costa do Mar Negro seria uma residência secreta do líder russo, pago com dinheiro de corrupção. Putin negou possuir a propriedade.
As autoridades russas reagiram nos últimos meses com uma forte repressão contra jornalistas e políticos de oposição. Depois que a investigação do Mar Negro apareceu online, Navalni foi condenado a três anos e meio de prisão e sua organização foi banida por um tribunal russo.
Desde então, a Rússia também baniu a Proekt por motivos de segurança nacional. Seu editor fugiu do país temendo um processo criminal. No ano passado, a Proekt estimou que os ativos de Krivonogikh somente na Rússia valiam 7,7 bilhões de rublos, ou cerca de US$ 100 milhões. Os Pandora Papers fornecem a primeira evidência de que suas posses se estenderam para além das fronteiras.
Krivonogikh se recusou a comentar as alegações de seu relacionamento com Putin e evitou aparições na mídia pública e social. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU
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Pó do Panteão dos Cabrais junto à Estátua de Gonçalo Velho Cabral uma ideia germinada nos colóquios da lusofonia

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Os Presidentes das Câmaras de Ponta Delgada e de Belmonte, Maria José Lemos Duarte e António Dias Rocha, respetivamente, procederam ontem à deposição do Pó do Panteão dos Cabrais junto à Estátua de Gonçalo Velho Cabral. Câmara Municipal de Ponta Delgada
Pó do Panteão dos Cabrais depositado junto à Estátua de Gonçalo Velho Cabral
NOREVISTA.PT
Pó do Panteão dos Cabrais depositado junto à Estátua de Gonçalo Velho Cabral

in memoriam LUÍS CRISTÓVÃO DE AGUIAR 5-10-2021

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Crónica 420 MORREU LUÍS CRISTÓVÃO DE AGUIAR 5-10-2021

5.10.2021 Acaba de falecer Luís Cristóvão de Aguiar, um dos grandes nomes da literatura. Era natural do Pico da Pedra, onde nasceu em 1940, tendo a partir de 1999 adotado S Miguel Arcanjo no Pico como segunda casa.. Da sua vasta obra, destaca-se a Trilogia Raiz Comovida, tendo por ela recebido o importante Prémio Ricardo Malheiros, dos muitos que recebeu ao longo dos anos.

Em 2001 foi agraciado pelo Presidente da República com o grau de comendador da Ordem Infante Dom Henrique.

A literatura ficou mais pobre! O Pico da Pedra perdeu um dos seus ilustres filhos.

Deixa 3 filhos, José Manuel Aguiar, Artur Aguiar e Luís Aguiar.

Que descanse em paz.

 

Gostava de aqui recordar momentos inolvidáveis que com ele passei nos colóquios da lusofonia em 2009 na Lagoa e em Bragança e na sua casa do Pico. Recordo o que então escrevi:

12.8.2011 Parado no aeroporto da Horta, não sou o Passageiro em trânsito do Cristóvão de Aguiar, nem transporto o Fogo Oculto do Vasco Pereira da Costa, antes deixo que os ponteiros do relógio caiam lentamente, minuto após minuto, por entre o linguajar dos que, comigo, esperam um avião. Como sempre acontece, quando excursiono nestas ilhas atlânticas, nunca tenho vontade de partir: impérvio, permaneço sentado, quase imóvel, no pátio de observação do aeroporto da Horta. Estou de frente para o Pico que me pisca o olho, sorrateiro, por entre as nuvens, escondendo-se, amiúde, dos meus olhos perscrutadores. Ao contrário do Cristóvão não carrego comigo a ilha e a que transporto não é outra. Não trago a reboque este arquipélago, mas deixar a ilha é sempre uma partida sem regresso marcado, como quem faz um luto indesejado ao correr dos dias. Não levo comigo a dor nem a lágrima furtiva, apenas acalento o desejo do regresso numa noite de luar como o de ontem.

 

05.09.2009

Há dias escrevia-me ele (Cristóvão de Aguiar) a dizer:

Obrigado pelas tuas palavras de amizade. E também pelas fotografias que mandaste em devido tempo e nem sequer respondi, do que me penitencio. Quanto à Rosário [Girão dos Santos], tenho a dizer-te que é uma crítica de primeira-água. Sabe o que faz, e é muito segura no que escreve. Por vezes não chego à sua altura e não entendo certo vocabulário da hermenêutica, mas a culpa é toda minha, que sempre fui relapso à teoria literária e linguística.”

Muito inferiorizado me julgo, como sofria já com o meu mentor político, também ele ligado aos Açores (Melo Antunes) e outro mentor intelectual (também já falecido) o Zé Augusto Seabra. Se agora encontro neste amigo novo um escritor que se crê maldito porque outros o fizeram assim, um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo, por outro lado, não me revejo nele ao entrar nesta fase adiantada da minha vida com um otimismo que me não é inato. Até hoje nem lhe respondi, pois, não sei como, nem hermenêutica nem exegese me tocam, que são ramos do conhecimento para além da minha compreensão, que estudos de Humanidades não tive, nem meus pais me deixaram e, se sou como sou, a meu pai o devo, tal como Cristóvão o é devido ao seu pai. Plantamos árvores, publicamos poesia e tivemos filhos em buscas incessantes pelo Santo Graal e desconfio que ambos sabemos que não existe, a não ser na busca incessante com que criamos, uma mera raison d’être nas nossas mentes conturbadas.

 

Cristóvão de Aguiar fez uma comparação lisonjeira, quando lhe disse que não mentia ao escrever pois o que saía da minha pena era genuinamente sentido. Afirmou que outro transmontano e escritor, de seu nome Miguel Torga, lhe dissera alhures que nunca mentia ao escrever poesia. Seria pela origem transmontana comum, mais do que qualquer outra coisa, que Torga não sou nem nunca fui a não ser na expressão de sentimentos reprimidos.

Sei que ele anda ocupado e acompanhado, mas encontrei um exemplar do modelo base que pretendo (em tamanho maior) para os nossos Cadernos de Estudos Açorianos…aliás foi a “Maré Cheia” que deu a ideia de fazer os Cadernos com a minha visão de forasteiro. Estão eles bem entregues para que deles construa, pedra a pedra, Cristóvão de Aguiar um pequeno novo Vértice, a revista vanguardista da qual foi saneado injustamente em meados da década de 1980. Ao fim de dois meses de silêncio pus a minha pena de croniqueiro a funcionar e enviei-lhe a cópia desse escrito (Crónica 67) na qual exprimo com a verve de jornalista que nunca deixei de ser, o que a escrita dele (que lentamente descubro) me proporciona. Para ele, a escrita nunca será catarse pois é fruto de amores incompreendidos entre si e a ilha…enquanto para mim a escrita e os colóquios da lusofonia são a catarse constante da minha guerra colonial sem mortos nem feridos, e tampouco tiros.

Dei comigo a sorrir, facto inusitado e deveras inopinado. Encontro tanto sofrimento na escrita do Cristóvão que me apetece cruzar este Mar Oceano e ir ter com ele ao Pico consolar as suas velhas penas. Durante quarenta e cinco anos sofri calado, ou nem tanto, escrevi para a gaveta dores e amores, raivas e ódios, cruzadas

 

Caro Amigo Chrys,

Após a longa conversa telefónica havida entre nós esta manhã, vim agora deparar com o teu texto de abertura aos Colóquios de Bragança. Como escrevi em epígrafe, é de mais! De mais, não porque considere lisonja o que escreveste sobre mim (seria uma ofensa que te fazia), mas porque tenho sido tão fustigado, aqui, na minha terra, que estava longe de pensar que ainda fosse possível a alguém dos arrabaldes de uma amizade recente, mas de uma forte empatia (um Australiano nos Açores), fazer uma análise tão séria e sábia sobre obra minha. Embora, e sem desprimor para quem a elaborou, a considere muito para além das minhas capacidades de escritor. Como o padre no Ofertório, digo-te: Senhor, non sum dignus!

De há uns tempos para cá, porém, tudo se tem passado como se uma varinha-de-condão estivesse a tocar-me no destino. E esses tempos para cá, é bom concretizá-lo, têm um ponto de partida: os Colóquios realizados na Lagoa em março – abril do corrente. Lá encontrei, contra todas as minhas expetativas, uma plêiade de personalidades que fizeram olhar-me ao espelho da minha humildade, ao mesmo tempo que me infundiram confiança e à-vontade, boa disposição e alegria, despreconceito e saúde intelectual…

Soltei-me dentro da minha caverna; ao princípio, dei alguns saltos a medo, mas procurei conter-me e ir subindo devagar em direção à luz que me ofuscava. Ainda ando encandeado pela sua intensidade e pela rapidez com que tudo aconteceu, mas, pouco a pouco, espero desenvencilhar-me dos muitos cadilhos que ainda me amarram a um cais de onde nunca embarquei e nem sequer me lembro se em cima dele fui ficando permanecido. Há dias, foi a Maria do Rosário com a sua acutilante e profunda análise ao meu tão mal-amado Passageiro em Trânsito, que me calou bem fundo, e me deu um sentimento de desforço de que há muito andava carecido. Agora és tu. Será este o ano da minha morte? Já não sei o que dizer mais. As palavras fogem-se como coelhos bravos a atravessar em correria a estrada do mato.

Um forte abraço do Cristóvão

 

09.09.2009

Isto das ilhas tem muito que se lhe diga, algumas estão de costas voltadas para o mar, como em S. Miguel, enquanto outras há que não vivem sem ele, como no Pico. Sei que é uma questão de tempo até começarem a zurzir nos forasteiros que ousam opinar sobre este arquipélago. Quando se perora sobre as nove filhas de Zeus urge não melindrar os interesses estabelecidos. As visões críticas ou não conformadas aos cânones podem acarretar sérios riscos para a saúde mental dos seus autores. Vozes críticas ou arredadas dos estereótipos não abundam nem são benquistas.

As elites dominantes e os poderes caciqueiros logo se insurgem. A ingratidão, vergonha e falta de patriotismo são epítetos comummente usados para denegrir os que ousam. Citam-se páginas relevantes da heroica gesta açoriana, com destaque para as guerras liberais e inúmeras desventuras de emigrantes que triunfaram. Surgem editorais e recensões violentas nos jornais locais. Os caixeiros-viajantes da cultura logo se arrogam o direito de defender a açorianidade ofendida. Tais declarações de repúdio raras vezes saem dos quatro cantos do arquipélago que falar dos Açores ainda não se tornara moda na grande capital do Império. Foi isto que, por mais de uma vez, aconteceu ao amigo, o mal-amado escritor Cristóvão de Aguiar. Apodaram-no de tudo e mais alguma coisa, pois convém sempre ser mais papista que o papa. Em meios pequenos é consabida a tendência para apoucar aqueles que das leis do esquecimento se desembaraçaram, como diria o vate, enquanto o imperador e séquito distribuem viagens e mordomias. Terras pequenas, invejas grandes, a reprodução do mote popular “a minha festa é maior que a tua”.

 

Fomos almoçar ao Clube Naval de S. Roque com um bom serviço de “buffet” ao preço de 7.00€ e café incluído. O Cristóvão de Aguiar proclamou-se guia e levou-nos às Lajes à “Semana dos Baleeiros” sempre após a “Semana do Mar” na Horta. Tive de mudar a anterior opinião sobre as Lajes logo que visitamos o que resta das muralhas do forte (ora reconstruídas e aproveitadas como espaço turístico) e o Centro de Artes e Ciências do Mar (na antiga fábrica da baleia SIBIL, equipamento industrial que se dedicou à transformação dos grandes cetáceos em óleos e farinhas). Havia lá uma moderna livraria, a única digna desse nome nas ilhas do triângulo. Nela encontramos inúmeros livros para acrescentar à coleção de autores açorianos.

Em amena cavaqueira dizia o Cristóvão que tinha conseguido algo que eu almejava, ver alguém a ler um livro seu num jardim de Coimbra. A surpresa foi ver o meu último livro “CHRÓNICAÇORES”, incluído na “literatura açoriana” e foi, então, que a jovem funcionária, Cláudia de sua graça, declarou que tinha adquirido o livro e estava a lê-lo em casa. Autografei outra cópia, com o ego exultante por estar ao lado dum célebre autor e ser eu a autografar a pretensiosa trilogia. Claro que após este incidente, as Lajes do Pico pareceram mais bonitas, soalheiras e convidativas do que em visitas anteriores.

Sentamo-nos numa esplanada na marginal a dessedentarmo-nos enquanto se punha a conversa em dia, antes de subirmos ao Alto da Rocha do Canto da Baía para visitar a “Cabana do Pai Tomás”.

Satisfiz a curiosidade de visitar a casa de Dias de Melo. Nas viagens anteriores ainda não conhecia o autor. Ali, espartanamente vivera, numa casa pequena e humilde, ora telhada de novo mas com o desconforto da minúscula casa de banho exterior no piso térreo. Em cima, o autor dormia, comia e escrevia. Do pátio exterior avistava-se a imensa mancha de Mar Oceano ponteada pelo pequeno farol da Calheta de Nesquim que serviria de inspiração a tantos dos seus livros.

Em linguagem cinematográfica chama-se a isto um “fast-forward” em que se rebobina a imagem e se passa adiante. Após 4 dias e cinco noites de convívio intenso e aprendizagem ilimitada na ilha do Pico, estava já em posição de aceitar que Cristóvão tinha razão ao afirmar sobre a literatura açoriana…

Depois de ler quase todas as obras de Dias de Melo, salvavam-se as baleias, outro livro mais intimista como “À Boquinha da Noite (2001) e pouco mais. Li e detestei “O Menino deixou de ser menino” (1995) e “Pena dela, saudades de mim” (1994) dum neorrealismo primário e básico que nada tem a ver com os livros mais antigos sobre os baleeiros.

Daniel de Sá tem como uma das melhores obras, a novela “O Pastor das Casas Mortas” e “Ilha grande fechada” (1992). Excluía a obra religiosa por razões óbvias, não a podia apreciar. Ressalvava bons textos que surgiram em guias de turismo como “Santa Maria Ilha-Mãe”, “S. Miguel, a ilha esculpida” e outro sobre a Terceira.

Entretanto, já lera outros poetas e escritores açorianos espantosos de quem poucos falavam. Martins Garcia era um deles…O problema é que sem querer metera-me (e aos Colóquios) numa toca de lobos de interesse esconsos e panelinhas em que pontificam menos valias. Ora bem, a minha autocrítica ao fim de 4 dias perante o Cristóvão, escritor maldito e malquisto nas hostes açorianas, era a seguinte: embandeirara eu em arco, louvando exageradamente, adjetivando em excesso e elevando aos píncaros alguns sem separar o trigo do joio. Gostava do Cristóvão, do Daniel e do Onésimo. De todos era amigo, mas existiam outros para desvendar.

De dezenas já lidas e folheadas a maioria não tinha a tal qualidade de que Cristóvão tanto falava. Sendo um forasteiro deixara-me iludir pela açorianidade, pela beleza narrativa das ilhas e costumes ancestrais. Embalara-me no canto das sereias. “O Pastor das Casas Mortas” fora já traduzido por mim para inglês. Dias de Melo até para japonês fora traduzido. Cristóvão ainda não. Nem outros escritores e poetas que o mereciam. Um crime de lesa literatura. Iria concentrar os esforços dos colóquios para os editar e traduzi-los. Teria de ler os restantes para apreciar a sua universalidade, além da matriz açoriana que a todos permeia. Sei que incorrera numa possível falácia de tomar a nuvem por Juno e louvaminhado em excesso os autores que os colóquios divulgaram. Teríamos de ser mais parcos nos encómios. Dias de Melo e Daniel de Sá já têm uma editora a traduzi-los e divulgá-los, falta fazer o mesmo para Cristóvão de Aguiar, um escritor universal com uma vastíssima obra. Em Bragança no 8º Colóquio iria iniciar a campanha para o traduzir (Bulgária, Roménia, Polónia, Eslovénia). Iria tentar a editora Almedina, no Brasil, para apresentar “Tabuada do Tempo” e de “Torga Lavrador das Letras” do Cristóvão de Aguiar. Se pudesse concentrar esforços talvez conseguisse algo até abril 2010.

No segundo dia da estadia, abusando da paciência do Cristóvão que as conhecia e não queria visitar de novo (ficou no ar condicionado na sala da receção), descemos às catacumbas do vulcão do Pico. Conhecida pela altura e beleza do Pico que lhe deu nome e das paisagens que se desfrutam do alto das suas vertentes, a Ilha tem na Gruta das Torres o verdadeiro contraponto das alturas e um atrativo não menos pitoresco.

O restante tempo, dias, tardes e noites picoenses foram ocupados com leituras, discussões e uma enorme aprendizagem. Surgiam em catadupa nomes e obras dos últimos quarenta anos sobre os Açores. Os autores eram açorianos, descendentes, emigrados e outros. Muito descobri naqueles dias com essa enciclopédia devoradora de conhecimentos e de livros que é Cristóvão de Aguiar, convidado especial do Colóquio da Lusofonia.

Ao chegar a casa e parando no café Refúgio, em pleno centro de São Miguel Arcanjo, ofereceram-me graciosamente o café por ser o último que ali tomava. Andados uns passos rumo à casa do escritor deparei com uma camioneta de passageiros estacionada aguardando o começo da semana para voltar a trabalhar. Acorreu-me a ideia peregrina de como seria uma aventura “pedir emprestada” a carripana, começar a percorrer as aldeias (ditas freguesias nas ilhas) e gravar as histórias que os passageiros fossem contando. A viagem não teria destino. Duraria tanto quanto as histórias dos passageiros. Não seriam cobrados bilhetes. Pararia em todos os locais, podendo deter-se para que fossem contadas as histórias e lendas do local onde paravam. Que livro maravilhoso não daria esse compêndio de histórias apanhadas ao acaso daqueles que tomassem o autocarro dos sonhos.

Para o comum dos mortais a vida prosseguiria o seu rumo, mas os Açores são uma réplica miniatural da corte lisboeta. As elites não perdoam aos que não comungam da verdade única com força de dogma. Cristóvão escreve com uma pluma incómoda. Reservou-se um papel de narrador que pensa, fala e escreve sem recorrer aos lugares comuns que tanto gáudio causam na população. Não reivindica verdades absolutas ou duradouras, limita-se a descrever o que sente e vê. Criaram-lhe a fama de irascível (quantas vezes com justas e fundadas razões?).

Eu recebi “avisos amigos” para os perigos quando o convidara a estar na Lagoa em março de 2009 para o 4º encontro açoriano da lusofonia. Congratulo-me que, relutantemente, Cristóvão tenha acedido. Ao longo de cinco meses trocamos correios eletrónicos e telefonemas criando uma amizade saudavelmente aberta e crítica. Estava eu carecido de aprender mais com este enigmático personagem que tantos cuidados incutia aos defensores da paz podre açoriana. Como acumulei milhas no cartão de viandante frequente aceitei a sua hospitalidade para uns curtos quatro ou cinco dias no Pico que Cristóvão assumiu como segunda pátria. Nove dias após partir de São Miguel Arcanjo na ilha mágica de regresso à ilha de São Miguel Arcanjo ainda reverberavam os encantos daquela. Assim me despeço da ilha prometendo voltar um dia, gostava de alugar casa por um mês inteiro e visitar as ilhas ainda desconhecidas pelo navegador sem barco (Graciosa, Flores, Corvo). Há qualquer coisa de mágico, íman secreto, que atrai e me faz querer viver ali. Talvez a vontade de ouvir as histórias dos passageiros da camioneta sem rumo. Terei de consultar um especialista para me tratar da eterna infidelidade, cada nova ilha é um novo amor, paixão ardente, desejo irreprimido.

Parafraseando Cristóvão de Aguiar (In Cristóvão de Aguiar (in Nova Relação de Bordo, diário ou nem tanto ou talvez muito mais, Publicações D. Quixote, 2004) direi da Língua de todos nós:

Amo-a sem o empecilho da palavra.

O Amor aprende-se, cultiva-se, rega-se.

Necessá­ria uma predisposição íntima onde se alastre essa Ferida Amá­vel, como tão eloquentemente escreveu, em título de livro, o Poeta Egito Gon­çalves. Os poetas têm sempre razão!”

 

DIÁLOGOS INACABADOS COM O CRISTÓVÃO

 

Escrever é fácil: comece com uma maiúscula e termine com um ponto final. No meio, coloque ideias.

(Pablo Neruda)

 

Isto de literaturas açorianas tem muito que se lhe diga e não pretendo entrar em discursividades nem dissecar os ódios e amores transientes que unem e separam os autores, pois isso daria material para vários volumes, mas recordo trocas de impressões nestes últimos meses, com o mercurial Cristóvão de Aguiar:

From: Cristóvão Aguiar Sent: Tuesday, August 10, 2010 10:46 AM

To: Chrys Chrystello Subject: Re: atualizado o caderno nº 4

Continuamos com a mesma pecha, a chamada açorianite aguda,… Afinal, continua tudo na mesma, tal qual a música da Relva: o mesmo e mais forte. Elogia-me a mim, para que te elogie a ti. Oh compadre, aqui na freguesia há só duas pessoas inteligentes. Um sou eu, agora diga a compadre quem será a outra… Já o Álamo e o João Afonso escreveram em 1981 no jornal União, de Angra, que O meu Mundo não é deste Reino, de João de Melo, era superior ao Mau tempo no Canal e o Velho Testamento. Francamente… Assim, não passamos de paroquianos convencidos de que somos os melhores do mundo. Chamei um dia a este complexo de superioridade “A Insular Bazófia”. Haja juizinho… Onde se lê: melhor que o Velho Testamento, deve ler-se: melhor que o Apocalipse de São João. Vide: Relação de Bordo I, pp. 297 (10 de junho de 1983) a 301


No dia 10 de agosto de 2010 01:47, <daniel.de.sa> escreveu:

Chrys
Bem poderias ter escolhido ao acaso, que o Vasco deixa pouco ou nada para restolhar. É tudo trigo limpo e bem ceifado. Gostei, no entanto, de um modo especial que não tenhas esquecido “O Gibicas” (um dos meus contos preferidos em toda a literatura portuguesa) nem “O Matateu”, o poema com que “converti” alguém que dizia não gostar de poesia. Mas falta ali a “Queen Nancy”, um dos poemas mais emocionantes que se podem ler em Português, e a Helena pôs (não sei se se valeu do meu trabalhinho ou se ela mesma o fez também) na sua Antologia.

Abraços. Daniel


From: Cristóvão Aguiar Sent: Wednesday, September 08, 2010 11:03 AM

To: Chrys Chrystello Subject: OBRIGADO!

Caro Chrys:

Mas eu já não faço anos… Ainda para cúmulo setenta ou zero sete, que é mais agradável e me dá a possibilidade de entrar para a escola em outubro para fazer uma revisão geral da vida que me foi dado. Muito grato, gratíssimo, pela tua lembrança. O septuagenário chama-se Luís, o Cristóvão não cuida desses pormenores do tempo que passa, só daquele que amolece os miolos quando a humidade aperta o garrote. Um grande abraça extensivo a todos vós do Cristóvão


From: Cristóvão Sent: Friday, September 24, 2010 2:34 PM

To: Chrys Subject: AÇORIANICES

Meu Caro:

De facto, é tal a pobreza, que vou pôr pólvora no lume, se estiveres de acordo, com dois artigos publicados no Expresso das Nove, o último dos quais hoje, que me foram pedidos pelo Diretor Jorge Brum. Ambos, como poderás verificar são de temática “açoriana”. Abraço Cristóvão


Desafios dos Açores para o século XXI, Cristóvão de Aguiar

“A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar”. Vitorino Nemésio, in Corsário das Ilhas. “Como nada sei sobre o assunto proposto, vou fazer uma composição sobre a prima­vera”. Aluno liceal numa prova escrita de Língua Portuguesa. Muito gosto eu de desafios! Quem me tira um tira-me o mar e tudo! Não sei se o Arqui­pélago gosta deles. É natural que sim. Pelo menos, as canti­gas ao desa­fio têm sido timbre de quali­dade da cul­tura popular das Ilhas todas. A Ter­ceira e São Miguel levam-lhes as lam­pas. O velho Virgínio da Bretanha; o Pereira, da antiga Lomba de Santa Bárbara, da Ribeira Grande; a Turlu e o José da Lata, da Terceira, foram dos melhores culto­res do despi­que entoado no terreiro das cantigas ou nas cantigas de terreiro. Devo ter dei­xado dezenas e dezenas na sombra… A omissão é filha legí­tima da minha ignorân­cia. Para ela, peço uma indulgência plená­ria…

Sai o primeiro cantador, o Virgínio, e entoa:

“Entre merda foste nas­cido /

E na merda foste gerado /

Muita merda tens comido /

E dela toda tens gos­tado…”

E o Pereira, da Lomba de Santa Bárbara:

“Ainda me chamas galo, /

Desses que andam pela rua /

Já me viste a cavalo /

Nalguma galinha tua?”

Da Turlu, que, in illo tem­pore, ouvi despicar, boquiaberto, tamanho o aguçamento de lín­gua e o seu poder cria­tivo, estas duas cantigas:

“A felicidade vagueia, /

Fumo que passa veloz, /

Está sempre na nossa ideia /

E tão distante de nós…” e

“A minha língua é comprida, /

O que diz não te convém…/

E a tua está torcida /

Por isso não fala bem…”

A seguir, entra José da Lata e canta:

“Deitei uma velha em choco, /

Dentro de um cesto de palha, /

Lá na Canada das Vinhas. //

Descascou-me vinte ratas, /

Cinquenta e duas patas /

E trinta e cinco doninhas. //

Tinha pombas e coe­lhos, /

Melros pretos e tentilhões, /

Uma porca com cabritos /

E uma cabra com lei­tões.”

Quando há tempos recebi este desafio, por via eletrónica, para ser resolvido por escrito, em três mil carateres, sem espaços – logo me ocorreu Frei João Sem Cuida­dos… O seu Rei era invejoso e não podia ver nenhum dos seus Súbditos sem arrelias e apoquentações. Cha­mou um dia Frei João ao Palácio e fez-lhe três perguntas embaraçosas para serem respon­di­das num dado prazo. O frade saiu do Palácio real acabrunhado e cabisbaixo. Se respon­desse errado, o Rei mandava-o matar… Por acaso, o moleiro do reino encon­trou Frei João muito triste. Vivo e fino como azougue, logo se prontifi­cou, depois de saber as perguntas, a apresen­tar-se ao Rei vestido com o hábito de Frei João. Respon­deu às três perguntas como era dado, de tal sorte que Sua Majestade ficou toda contente e mandou o moleiro na paz do Senhor! Com que se entretinham os Reis de algum tempo!

Ora, este humilde escriba acocorado não tem moleiro para quem apelar! Nem molei­ros existem já – os últimos que conheci iam da freguesia para a Ribeira Grande moer a moenda nos moinhos de água da ribeira, já não sei se a do Paraíso se a do Inferno… Três vezes por semana, com cães velhos e doentes amarrados ao eixo da carroça para serem lançados à Tarpeia ribeiragrandense…

Caso os hou­vesse ainda, qual deles seria capaz de responder direito a um século pejadi­nho de desa­fios? É muito desafio numa só molhada de brócolos! Mas há um enorme desafio já proposto às Ilhas do Grupo Central, lan­çado não há grande tempo pelo eterno candidato à liderança do PSD, Casta­nheira Barros. Andou em digressão turístico-eleitoral por aquelas Ilhas sem culpa da criativi­dade do social-democrata relapso. Prometeu mandar construir túneis entre o Pico e São Jorge e entre a Madalena e a Horta. O ovo do Colombo, que resolve­ria a insula­ridade de uma assentada. Em estando a obra feita e inaugurada, sem­pre que um ilhéu radical che­gar à porta de casa para interrogar o mar, ficará menente e sem pé dentro de si: em vez de indagar o monstro de água, para ir à pesca ou contem­plar a Ilha em frente para lhe sondar os ventos e as nuvens, meter-se-á logo a caminho da emigração, a cavalo no automóvel ou na camioneta da car­reira… Um Metro de Superfí­cie, como o que está sendo construído em Coim­bra, fica­ria muito mais em conta, podendo estender-se às Flores-Corvo, à Gra­ciosa-São Jorge-Terceira, que também são filhos e filhas do mesmo magma… Quanto a São Miguel-Santa Maria…. Aqui, sim, um túnel tipo Canal da Mancha, mas em formato maior, que os micaelenses são assopradi­nhos e aman­tes fidelíssimos da monumentali­dade…Já excedi o número de carateres. Que o Eduardo Brum se não afromente, me per­doe a incontinência, e aceite os parabéns deste ilhéu desilhado, que muita lenha apanhou nas páginas do ora aniversariante

Expresso das Nove…. Pois alevá! Coimbra, 30 de janeiro de 2010 (EXPRESSO DAS NOVE, fevereiro de 2010)


A desunião faz a força, CRISTÓVÃO DE AGUIAR, Escritor

A descontinuidade geográfica das nove Ilhas dos Açores, que só formam um Arquipélago nos compêndios liceais (agora secundários ou secundarizados) de Geografia Física (a Humana não conta nem poderia contar, visto serem muito sortidas as gentes que as povoaram, deixando fortes marcas de origem, ainda bem visíveis, sobretudo no vocabulário) – talvez seja uma das razões de uma congregação mais fictícia do que real.

Cada Ilha, quer queiramos quer não, constitui um mundo à parte, daí a quase impotência de se erigir um reino, com estandarte, bandeira, hino condicente e outras quinquilharias realengas, e sobretudo encontrar um monarca que incarnasse os valores e aspirações do povo das nove ilhas atlânticas. Um rei não seria muito difícil de conseguir (elegê-lo, não: há tanto sangue real escorrendo nas veias de micaelenses e terceirenses – um desperdício para tantos hospitais carentes – que, espontaneamente, surgiriam meia dúzia, ou mais, de candidatos à sucessão do último Rei de Bragança…).

Depressa, porém, erguer-se-ia um grande alevante no peito robusto e aleitado da nobreza local, e não duvido de que as Ilhas acabariam por alombar com uma monarquia dual, com obediências diferentes, como na maçonaria, que as tem, e várias, o que acarretaria grande dispêndio para o erário público… Não gosto da palavra unidade, conotada com uniformidade e com quartel, o que, para o caso, não conviria muito, embora não raro um ilhéu viva confinado a um desses cativeiros, que uma Ilha, como todos nós sabemos, é ao mesmo tempo uma prisão e uma livre extensão de horizontes que estimula a viagem e a aventura. Ou a emigração por causas outras, que agora não vêm a talho de podão.

Preferia uma república a uma monarquia. Além de se estar celebrando o centenário da República Portuguesa, as das Ilhas seriam uma grande achega para os festejos populares… E, como o Presidente da República, no dia da sua eleição costuma proclamar, do alto da sacada de um Hotel: “Serei o Presidente de todos os Portugueses, quer vós tivésseis ou não metido na racha da urna o boletim de voto a meu favor ou desfavor…”, ter-se-ia, então, nas Ilhas, um homem só e sólido ao leme das nove barcaças…

Mas, a República, nas Ilhas, daria azo a graves problemas. Teria de haver várias repúblicas independentes, tirante a do Corvo, que ficaria agregada à das Flores, a de Santa Maria à de São Miguel, a da Graciosa e o Ilhéu das Cabras à Ilha Terceira: caso contrário, os distúrbios sociais seriam inevitáveis… Mesmo assim, muita cautela com os Corvinos, Marienses e Cabréus…

Por outro lado, e há sempre um pozinho positivo em todas as controvérsias, deixava-se o sangue azul a coalhar, para alguma necessidade imprevista, num boião, onde in illo tempore se conservavam os chouriços e os torresmos em banha de porco legítima… Creio firme e finalmente que só a SATA continuará sendo a grande esperança da pátria açoriana, como escreveu o poeta Pedro da Silveira, que Deus tenha, uma vez que, no seu monopólio quase milenar, consegue construir uma resistente ponte de união entre ilhas… A única e ténue ideia de Arquipélago pode ser averiguada in loco, e em parte, no Grupo Central, daí ter o ex-candidato a líder do PSD prometido, se fosse eleito, a construção de pontes para a outra margem… O Ovo de Colombo, que ninguém se dispôs a estrelar… EXPRESSO DAS NOVE, 24 de setembro de 2010


From: Cristóvão Aguiar Sent: Wednesday, November 10, 2010 3:59 PM

To: Chrys Subject: Re: Fernando Aires Diarista

Caro Chrys:

Pode utilizar os meus textos. Só no fim deves por: in Nova Relação de Bordo, Publicações D. Quixote, Lisboa. Desejo as melhoras da Lena. Abraço do Cristóvão


From: Cristóvão

Sent: Wednesday, February 02, 2011 7:51 PM

Subject: CARTA A FERNANDO AIRES

Eis uma carta que enviei ao Fernando Aires, aquando da publicação do livro de correspondência entre Eduíno de Jesus e Armando Côrtes-Rodrigues, e que mereceu da parte do Vamberto o galardão de livro do ano, da Livraria Solmar:

São Miguel Arcanjo, Ilha do Pico, 23 de março de 2003

Meu Caro Fernando Aires:

Como se pode verificar pelo cabeçalho, encontro-me no meu paraíso privado. Ainda não morri, mas… Aqui cheguei há mais de dez dias, parto a 31 do corrente, e pouco ou nada tenho saído. Não por causa do tempo (até tem feito dias primaveris), mas especialmente por ser tão aconchegada a minha casa, tão aquecida de livros e de paisagem, que pecado seria deixá-la assim tão sozinha e ao abandono de si mesma.

Tenho andado a ler e a escrever, sobretudo a ler, pela segunda vez (li o prefácio para aí três), a Correspondência entre Armando Côrtes-Rodrigues e Eduíno de Jesus, organizada e prefaciada por ti e que fizeste o favor de me enviar para Coimbra ainda não há grande tempo. Agradeço-te do coração a oferta bem como o autógrafo em que envolveste também a Margarida, o que bastante a sensibilizou, e que me pediu para te agradecer a lembrança. Já havia tido oportunidade de ler o livro antes de mo enviares. O José Manuel Mota de Sousa emprestara-mo e um pouco mais tarde recebia eu um exemplar que pedira à Conceição Garcia para que me mandasse da Ilha. Logo na primeira leitura verifiquei que todo o livro estava inçado de gralhas e de uma chusma de erros ortográficos (quase não há página em que não surjam), que não só o desfeiam como abona muito pouco acerca dos dois correspondentes, ambos professores exigentes de Língua Portuguesa e bons cultores da escrita, e de ti também, que és formado em Letras e igualmente escritor. Logo transmiti a minha impressão ao nosso amigo comum que me confirmou o desastre depois de ler o livro.

Como o exemplar me não pertencia, coibi-me de apontar, nas margens, a lápis ou a esferográfica, as incorreções. Mas, e logo que recebi o teu exemplar, pensei em trazê-lo comigo para a Ilha do Pico. Mal cá cheguei, tratei de pôr mãos a uma segunda leitura, desta feita de lápis na mão, que não seria delicado nem curial da minha parte escrever-te a dizer apenas que recebera o livro, o ia ler com muito interesse, te agradecia a lembrança e a dedicatória; enfim, essas coisas que muitos usam escreverem para não parecerem mal-educados, nem literária nem socialmente incorretos. Sabes bem que não tenho, e espero nunca vir a ter, feitio para tais duplicidades e dissimulações. Ora, em literatura, a hipocrisia e o porreirismo têm sempre um preço muito elevado, embora, momentaneamente, possam servir de escudo a quem se não queira incomodar ou ficar mal visto ou ainda recear ser impiedosamente segregado do grémio dos eleitos não sei bem de quê, nem porquê. Concluí a leitura ontem à tarde. Melhor, quedei-me na página 313, que um leitor engatilhado de atenção não é feito de ferro. E o resultado está à vista: nove páginas A4 de gralhas e erros ortográficos (não só os registei no exemplar como os passei para um papel à parte, indicando a página), que tas poderei fornecer, se assim o achares conveniente, caso venha a fazer-se uma segunda edição, mais limpa e asseada, da Correspondência entre estes dois sobressaídos poetas açorianos.

Não posso acreditar, por exemplo, que Armando Côrtes-Rodri­gues tenha escrito sugeitou, sivilizado, ageitada, remechendo, etc.,. (págs. 84, 85, 97, 198, respetivamente); nem que Eduíno de Jesus tenha grafado presado, con­certeza, adusir, etc. (págs. 262, 287, 295, respetivamente). Se assim tivesse acontecido, tanto em um como no outro, decerto aporias [SIC] à frente de cada incorreção, o que, na verdade, aconteceu apenas oito vezes e numa delas, na pág. 282, nem sequer com razão, porque existe a palavra espécimen ou espécime. Caso contrário, os [SIC] seriam na ordem das centenas, incluindo a acentuação, sobretudo nos verbos, e a pontuação caótica. Só não poderia vir o [SIC] no texto que tu próprio escreveste. Mas aqui vão alguns exemplos: albúns, Ensaista, chamou de (a que se chamou de (!) Círculo…), Síntaxe, cordealidade, por (verbo pôr), raíz, encadiar, etc. (págs. 15,16,18, 24, 26, 51, 56, respetivamente). E é pena! Será que nenhum dos teus amigos deu por tal? Nem o Onésimo a quem mostraste a primeira versão do prefácio, onde também se encontram muitos deslizes ortográficos? Ou tudo isso foi devido, como escreveste nos Agradecimentos, “à competência (sublinhado meu) profissional do Emanuel Cordeiro, funcionário da EGA, que passou a computador a volumosa Cor­respondência que agora, pela primeira vez, se torna pública?” Como as palavras se podem prostituir, se escritas sem alma! Sobre o prefácio teria muito a dizer. Ao contrário do que escreveu Tomás Borba Vieira, o prólogo está, em minha modesta opinião, muito aquém da garra do escritor dos primeiros quatro diários. Além da sua longuidão escusada, penso que te perdeste em antecipar o que as cartas dizem, beliscando assim muito do seu interesse e alguma da sua surpresa. Mas, não me vou alongar sobre este assunto… Não quero quebrar o encanto em que te encantaram os do costume. O melhor que fazes será seguir-lhes os conselhos, que tais amigos só estão bem bajulando, o que faz tão bem ao ego e tão mal ao trabalho artístico em geral e à escrita em particular. Vou concluir, pedindo-te que não interpretes mal as minhas palavras, nem as consideres esquinadas ou pouco amigas. Gostava que as interpretasses como sinal de amizade e de estima. Lembra-te de que ser-me-ia muito mais fácil dizer que escreveste uma obra-prima, ou, para citar o artigo de fundo do Suplemento Açoriano de Artes e Letras: “… Armando Côrtes-Rodrigues e Eduíno de Jesus / Correspondência é seguramente o livro mais importante destes últimos anos para a cultura açoriana.”

Seria necessária tanta incontinência? Um abraço do Cristóvão


From: Cristóvão Sent: Friday, April 01, 2011 1:58 AM

To: Chrys Subject: Boa Madrugada

Caro Chrys:

Não sei nem me interessa saber o que irão dizer os pensadores e escritores da douta literatura açoriana ao lerem o teu segundo volume da ChrónicAçores A falares tão insistentemente de mim e da minha escrita, hão de cogitar (desconfio que não usam fazê-lo) que és um vendido e andas a tirar das profundas um dos malditos tasmanos que estava já com a sua limpeza étnica concluída. Põe-te em guarda, companheiro, que te podem encomendar uma excomunhão ao Senhor Santo Cristo, que, segundo a tradição micaelense (o Sá deve sabê-lo) é terrivelmente vingativo… Não te agradeço as apreciações que fazes da minha obra; do meu caráter, temperamento e feitio, sim, com as quais concordo, porque gostaria de ser ainda mais que assim. Quanto às apreciações que teces sobre a minha obra (presunção e água benta…), embora me sinta lisonjeado, que não sou feito de pau, nem ando de pau feito, não sou nem serei talvez capaz de ficar de mente (des)obnubilada ao lê-las em letra de forma. Não quero contrair tentações, prefiro o lugar que há anos me reservaram, e ao qual me habituei tão bem, a ficar sendo citado por bocas que não sei que águas beberam ou que instrumentos tocaram… E não te agradeço, não por má educação, que conscientemente não pratico. Mas pela razão óbvia de que o agradecimento se não enquadra em nenhum género literário, só no subgénero da etiqueta, que já se não usa, a não ser na literatura obituária. De qualquer forma, envio-te um abraço. Cristóvão de Aguiar


From: CHRYS C Sent: Friday, April 08, 2011 10:21 AM

To: Cristóvão Subject: catarse

Como prometi acabei agora de ler o livro com tristeza múltipla, por ele ter chegado a este fim que não o é, por entender melhor aquilo que antevira na minha interpretação de ti como pessoa, por sentir o livro mais que uma catarse como um exorcismo…tive a felicidade de ter a tal conversa com o meu pai uns anos antes de ele morrer e já fiz há muito o mesmo com a minha mãe ora com 88… Tento desesperadamente não repetir muitos dos erros do meu pai com o meu mais novo que tu conheces…mas somos a herança genética dos nossos e de nosso só sobra aquilo que nos distingue deles e que construímos com muito sangue, suor e lágrimas como diria o Churchill. Como deixei lavrado no meu ChrónicAçores 2 sobre ti…Ora bem tudo isto foi escrito anos antes deste teu livro e sinto ter-te retratado bem…a nossa amizade é bem recente, mas mais profunda do que se poderia adivinhar…quiçá eu te entenda melhor do que cada um de nós sabe. Por favor dá isto a conhecer ao teu irmão por quem acabei nutrindo uma enorme admiração…Aquele abraço do tamanho deste Grande Mar Oceano. Chrys quase a partir para Macau


From: Cristóvão Sent: Friday, April 08, 2011 10:33 AM

To: Chrys Subject: Catarse, Exorcismo

Gostei muito da tua crítica e concordo contigo no que respeita ao exorcismo. O livro está sendo um êxito, pelo menos é o que me tem transmitido o editor, o Adelino de Castro, ex-sócio do inefável Madruga. Vou neste momento a caminho de Lisboa: amanhã parto para o Pico. Vou primeiro aos implantes, depois aos lançamentos, 30 no Faial, 6 de maio em Angra, 13 e 14 no Pico, 20 na Ribeira Grande, onde espero ver-te. Um abraço do Cristóvão


From: CHRYS Sent: Saturday, May 21, 2011 6:47 PM

To: Cristóvão Subject: Cristóvão de Aguiar é dragão

Gostei muito de estar contigo ontem. Foi uma alegria ver-te ali no covil do lobo em pleno concelho da Ribeira Grande com tanta gente a assistir. As tuas palavras foram emocionantes por falares de um tema que raramente se ouve naquilo que considero o maior desaforo a toda a minha geração e tua…de quem nos exigiu 3 anos de vida em troca de nada a não ser a destruição física, mental e a morte. Obrigado por te lembrares sempre de alertar as mentes esquecidas. Do livro nada digo, já to disse em ocasião anterior à ida para Macau quando o acabei de ler. Um excelente modelo de realidades, que INFELIZMENTE ainda vão sendo realidade em zonas rurais da Lomba da Maia. Uma revisita aos tempos que te moldaram, com um pai cheio de amor e não só… Também o meu, cheio de amor e sem saber como, me obrigava a ser mais do que eu podia e sem violência física, mas verbal me condicionou a vida até aos 45 embora tenha morrido quando eu tinha 42. Cada um de nós a seu modo lidou com a situação, superando-a ou não, mas obviamente marcados pelos anos de formação. Ainda hoje com o João tento desesperadamente (mas nem sempre com sucesso) evitar repetir muitos desses erros, mas sei que alguns repito. Deixo-lhe como herança alguns escritos e uma nacionalidade australiana para ele desbaratar como quiser. Tu deixas muito mais e eu, que me sinto fraternalmente ligado a ti, jamais esquecerei as excelsas noites de aprendizagem na tua casa em São Miguel Arcanjo de São Roque do Pico. Deste-me mais do que muitas pessoas em toda a minha vida e espero ter a oportunidade de um dia aprender ainda mais e absorver por osmose um pouco da tua enciclopédica sabedoria. Sinto-me irrequieto e lamento não ter menos dez anos para fazer as malas e mudar outra vez…. sei bem que há momentos na vida de cada um que guardaremos e sei que o de ontem podes bem conservá-lo pelos múltiplos significados, ali tão perto do Pico da Pedra que não quebraste nem te quebrou antes te deu força para subires a outros Picos.

Aquele abraço, Chrys

DA INGRATIDÃO E DA LITERATURA, CRISTÓVÃO DE AGUIAR UMA CRÓNICA AMARGA. UMA VERGONHA – CRÓNICA 149 – PONTA DELGADA 16/6/2015

 

Em 15/6/2015 na apresentação, pela diretora da Biblioteca Municipal de Ponta Delgada e pelo Dr Carlos Riley da Universidade dos Açores, dos dois primeiros volumes das obras completas de Cristóvão de Aguiar (50 anos de vida literária) éramos 10 na assistência e 2 eram do governo…há um mês houve uma sessão de homenagem (18 de abril na Casa Museu Guerra Junqueiro, Porto), em colaboração com a Casa dos Açores e com o Dept.º de Letras da Universidade do Minho onde lançaste a Obra Completa, composta por 13 volumes, a cargo das Edições Afrontamento, do Porto, que ganharam o concurso lançado pelo Governo Regional dos Açores.

Sei que tu, Cristóvão, um dos dois insignes autores do Pico da Pedra, tens fama de ser um autor difícil. Claro que és, pois poucos dominam a língua portuguesa como tu, poucos burilam a palavra até à exaustão e perfeição como insistes em fazer. Sei que a maioria das pessoas – embora possa cantarolar a popular Naufrágio imortalizada por Duarte e Ciríaco – desconhece que a clássica letra dessa canção universal é bem tua. Cristóvão “é um autor difícil e o seu mau feitio é conhecido. Claro que sim, frontal e crítico, não entrou, nem quis, em cliques, claques ou pseudo-tertúlias de intelectuais açorianos.” Radicado em Coimbra desde os anos de 1960, antes de ser incorporado no exército colonial português para ir para a Guiné e de terminar os estudos em Filologia Germânica, Cristóvão mudou-se para o Pico onde passa metade do ano. Em vez de voltar ao torrão natal de Pico da Pedra, S Miguel foi em 1996 para S. Miguel Arcanjo [Pico], onde é carinhosamente tratado pelos seus novos conterrâneos.

Mas depois de 15/6/2015, estarei para sempre chocado e desiludido com Ponta Delgada. Como se compreende que a oportunidade de terçar palavras com um dos mais importantes escritores do século XX ficasse desaproveitada sem assistência nem interesse das pessoas da ilha? Como se entende que um dos mais ricos e prolíficos autores da verdadeira identidade dos Açores ficasse a celebrar os seus 50 anos de vida literária para uma plateia com uma mão cheia de presenças?

Claro está que depois, na tua morte, serás aclamado e a TV e rádio estarão lá para falar de ti, o autor que – como ficou demonstrado – não é benquisto na sua terra. Pequenez de mentes. Insensibilidade, incultura. País pequeno de mentes pequenas, arquipélago ingrato a quem tanto fez para dar a conhecer a identidade açoriana e não o postal ilustrado que se vende aos turistas sobre hortênsias e lagoas…Não fiquei surpreendido, mas fiquei esclarecido sobre o valor que este país dá a um dos mais representativos ícones literários…fosse um cantor pimba ou qualquer personalidade famosa pelos pés de barro de fama fácil e o anfiteatro seria pequeno. Não sendo escritor, sou como tu, Cristóvão, em muita coisa, mas ontem ao despedir-me rapidamente de ti, estava emocionado pela amizade que nos une e envergonhado dos concidadãos desta ilha que aceitei como nova pátria. Queria pedir-te desculpa em nome dos 68 748 habitantes de Ponta Delgada e dos restantes 137 699 cidadãos da ilha (Censo 2011). Queria dizer-te que não é verdade, que há quem te leia e ama os teus escritos, mas não estavam lá para to demonstrar. Queria dizer-te que escreves melhor que muitos adulados, lisonjeados, sabujados, louvaminhados, engraxados, incensados, engomados, apajeados[1], bajoujados, escribas de Portugal e do arquipélago, mas só gerações futuras saberão reconhecer o teu valor. Queria dizer-te que mereces muitos dos prémios que são anualmente distribuídos embora deles não precises. Queria dizer-te que nos Colóquios da Lusofonia somos poucos, mas muitos te apreciam e entendem, mas não estavam lá ontem para to demonstrarem. Queria dizer-te que o teu invejável percurso nestas cinco décadas de escrita não tem paralelo, mas lá estaria eu a adjetivar-te e tu não gostas disso. Não faz mal, sem menosprezo dos restantes, há quem possa afirmar que és um dos mais notáveis escritores em português da segunda metade do século XX e que soubeste transmitir (mesmo negando a açorianidade) a verdadeira alma micaelense e quiçá açoriana.

Bem hajas meu amigo pelos livros que nos deste e de que agora compilaram em Obras Completas estes dois volumes. A tua alma mater (Universidade de Coimbra) explica que

“[Cristóvão de Aguiar] …tem-se revelado um escritor de mérito, a avaliar pelos prémios recebidos: Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pela “Raiz Comovida”; Grande Prémio da Literatura Biográfica APE, pela “Relação de Bordo” e o Prémio Nacional Miguel Torga, pelo livro “Trasfega”.”

Para que não restem dúvidas foste ilustre membro da “República de Estudantes de Coimbra” em cuja página se lê:

A Real República Corsários das Ilhas fundada em 1960 por iniciativa de estudantes provenientes do arquipélago dos Açores. Nos seus 41 anos de viagens a «nau corsária» já albergou marinhagem que se mostrou distinta. A título de exemplo, cite-se o nome de Carlos Candal; eurodeputado socialista era, em 1962, durante a grave crise que assolou a universidade, presidente da Associação Académica de Coimbra. Ainda, durante a crise académica de 1972, destaca-se Carlos Fraião; este antigo corsário foi membro do Comité Central do Partido Comunista Português. Também Germano de Sousa, Bastonário da Ordem dos Médicos e Cristóvão de Aguiar, escritor, viveram nesta República. Por falar neste escritor, o zé manuel deixou um comentário na anterior versão desta página que reescreve um passo do Relação de Bordo (1964-1988), livro do referido Cristóvão de Aguiar, em que lança um olhar sobre as suas experiências nesta casa quando por cá passou nos anos 60:

Coimbra, 1 de janeiro de 1964 – Na Real República Corsários das Ilhas, a cuja tri­pu­la­ção venho pertencendo desde 1961 (em outubro ascendi a 2º telegrafista), a pas­sagem de ano foi, para mim, pavorosamente triste! De resto, nunca fui de grandes ex­pansões nessas horas que a tradição instituiu como marcos de viragem não se sabe bem de quê. Alheio ao natu­ral estarda­lhaço dos meus camaradas co-repúblicos, bem comidos e muito mais bem bebidos, encafuei-me no meu cantinho a ru­minar. É que 1964 vai ser o ano em que vou dizer adeus à vida de estudante (para sempre? e ela agora que me estava cor­rendo tão bem: no terceiro ano sem ne­nhuma cadeira atrasada, mas é sempre as­sim). Isto por­que já no pró­ximo dia vinte e sete do corrente, numa se­gunda-feira logo de manhã, vou iniciar em Mafra o Curso de Oficiais Mili­cianos, com destino mar­cado para a guerra colo­nial. Consta da guia de marcha que recebi há dias, não esse des­tino, mas outro que vai de certeza de­sem­bocar naquele. Por isso, logo ao bater da primeira ba­dalada da meia-noite no reló­gio da torre da Universi­dade, senti que me es­tava afun­dando em terreno pouco firme e lodoso. Cheguei da Ilha em finais de setembro com uma mala na mão e sem dinheiro com que mandar cantar um cego, quanto mais para con­tinuar os estu­dos. Havia justamente perdido a bolsa da Junta Geral do Distrito Autó­nomo de Ponta Delgada, novecentos es­cudos mensais, mas que me davam, resvés, para me ir sustentando em Coimbra. E perdi-a, não porque chum­basse, mas por não ter atin­gido a nota final de catorze valores, classificação exi­gida a partir do segundo ano até o final do curso para a manu­tenção da referida bolsa.

Po­dia ter pe­dido di­nheiro emprestado, a juro de dez por cento, como é cos­tume lá na minha fre­guesia, mas meu Pai zan­gou-se comigo de­vido a um namoro reatado que ele não que­ria, derriço que, uma semana após a minha chegada a Coimbra, se des­manchou na se­cura de meia dú­zia de linhas de uma carta, que me acompanha, na car­teira, do­brada em quatro, as dobras delidas e enferrujadas… Por tal motivo, ne­gou-se a ser mi­nha fiança. Perdi a ca­beça e pedi que me antecipassem a incorporação! Veja-se o para­doxo: em tempo de guerra ser meio volun­tário, eu que, se ti­vesse co­ragem e juízo, devia, mas era desertar daqui para fora. Na Ilha não queria ficar. Mi­nha tia Lurdes e o Ti José da Costa de­ram-me coragem e o dinheiro para a pas­sa­gem de barco e ainda mais algum para me ir tenteando. Cheguei à Re­pública e logo pus os meus companhei­ros ao par da mi­nha situa­ção. Houve reunião de casa à noite e ficou de­cidido, por unanimidade, que eu fi­caria lá na mesma com todas as prer­rogativas de um Corsário e só pagaria as minhas des­pe­sas, que seriam aponta­das pelo Comissá­rio de Bordo da Nau Corsária, quando recebesse os pri­meiros ordenados de aspi­rante. Eram apenas quatro meses que ficaria a de­ver, de outubro a janeiro, que or­çariam em cerca de três contos de réis. De­pois, quando viesse de Mafra passar os fins de semana, andaria à le­bre, como se diz em lin­guagem acadé­mica. Suspirei de alívio e co­movi-me com ta­ma­nho com­panhei­rismo de que poucos como os ilhéus, fora das Ilhas, são capazes. Por não conseguir perceber bem os motivos que levam um gajo a querer meter-se na guerra… terei que reconhecer que às vezes só se dá pelo erro depois de se ter dado o passo inexorável da tomada de decisão e consequente prisão às amarras que daí decorrem… nos tempos atuais, em boa consciência, eu, o corsário que escreve estas linhas, teria que manifestar, a um colega que se me aparecesse com o mesmo dilema existencial que fosse pedir telha e comida ao Exército para o qual fosse servir… Mas, excetuando este detalhe que se prende com a valoração do mundo e com a justeza, ou não das coisas, o texto retrata aquilo que os Corsários têm melhor sabido fazer, não deixar um irmão na mó de baixo. Termino citando os versos de Camões apostos numa das paredes da sala de refeições da Casa:

“Mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não puder experimentá-lo”

Dito isto à laia de introdução tenho uma declaração de interesse pessoal a fazer:

Sou amigo incondicional do Cristóvão de Aguiar, meu mentor na casa do Pico onde me recebeu, a mim e à minha mulher, como se de amigos de longa data se tratasse, nós que éramos de amizade recente surgida em colóquios da lusofonia. Durante os primeiros tempos cavaqueei longamente com o Cristóvão. Ambos, éramos e permanecemos, exaltados e revoltados contra a injustiça, quimera ensinada em verdes anos. Com ele aprendi e compreendi a canga que os cachaços insulares carreavam, muitas vezes, sem o saberem.

Numa fase seguinte, entre muitos escritores locais que fui lendo, voltei-me para a obra deste autor. Uma prosa que se cola como uma sanguessuga e sorve o sangue impedindo a irrigação cerebral. Fica-se refém da escrita, que não sendo fácil, enleia e se insinua na tentativa de forçar o leitor a buscar a compreensão do que lhe está subjacente. Embrenhei-me nos escritores que fui desbravando. Ao longo dos anos falei e escutei a maior parte deles (entretanto, já nos deixaram Fernando Aires, Daniel de Sá, Dias de Melo). O dilema da pequenez das ilhas para um autor se afirmar sem ser reconhecido fora delas, a atração pelo mercado continental mais vasto como forma de afirmação e alforria literária criando um misto de desligamento e aportuguesamento dos autores que se mudaram de armas e bagagens para fora das ilhas, a inveja e ciúme dos que não conseguiram atingir esse patamar de reconhecimento continental, a emancipação de outros que venceram nos EUA e Canadá e a tarefa ingente dos que permanecendo conseguiram alcandorar-se a um reconhecimento externo.

O que muitos deles não acreditavam era que por serem autores açorianos podiam aspirar a serem universais, não apenas insulares, não apenas portugueses, se entrassem em mercados mais vastos da Europa e do mundo. Poderiam chegar bem mais longe e libertar-se da prisão invisível que é a pequenez das 9 ilhas. Para isso, teríamos de mondar mercados novos e virgens, como a selva amazónica antes dos novos bandeirantes. Se não chegassem às novas gerações, poderiam alcançar descendentes, e expatriados que aprendem hoje o orgulho da nação açoriana, na cultura, tradição e outros valores primordiais que tão arredados das escolas andam. Mas os colóquios queriam levá-los a mercados e leitores insuspeitos, incluindo a antiga Cortina de Ferro onde há gosto e apetência por escritores lusófonos. Para isso, idealizamos a série de Antologias, uma bilingue para captação do mercado norte-americano e canadiano, outra maior, em dois volumes, uma coletânea de textos dramáticos para o ensino secundário e uma antologia no feminino dado que as autoras são sistematicamente esquecidas na comunidade conservadora e machista como é a sociedade açoriana.

Todas estas obras são didáticas para serem estudadas nas escolas e se propagar este vírus altamente contagioso da escrita açoriana para leitores neófitos. Depois, deparámos com um fenómeno típico das sociedades insulares e bairristas, a existência de “capelinhas”, cliques e claques, em torno das quais gravitavam alguns. Nem todos de qualidade despicienda, mas dependendo dessas cliques para artigos de jornal ou recensão crítica. Na década de 1990, lentamente, os escritores açorianos foram encontrando o seu espaço, não havendo míngua de quantidade. Na maioria, sem projeção para além das ilhas, com exceções contemporâneas. Falta destrinçar, entre as centenas de autores, os que realmente merecem ser incluídos em coletâneas e os que se serviram do rótulo da açorianidade para terem visibilidade que, de outro modo, não teriam.

A solução que adotámos foi a de ignorar quem era quem, e sermos nós e os autores dos nossos projetos, a avaliar a qualidade dos autores, com a ajuda dos que já conhecíamos e em quem já confiávamos. Daí as escolhas primeiras das antologias que posteriormente serão alargadas à medida que os formos descobrindo, sob o enorme guarda-chuva da Açorianidade que a todos alberga. Nem sempre é fácil, pois ao lado de autores como Fernando Aires, Cristóvão de Aguiar e Eduíno de Jesus surgem autores que podemos designar como a Maria das Capelas, o António da Lomba e o José de Rabo de Peixe. Importantes até poderão ser de um ponto de vista de cultura popular, regional ou local, mas não deveriam nunca estar sob um rótulo de literatura. No 9º colóquio da lusofonia (ou 4º Encontro Açoriano da Lusofonia, abril 2009), Cristóvão de Aguiar rejeitou (mais uma vez) o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona.

«O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor.

Noutro qualquer dia escrevia eu que mal se vislumbra a costa da Bretanha em frente à janela do meu castelo aqui nesta falsa na Lomba da Maia onde habito. O grande Mar Oceano confunde-se com o azuláceo ou acinzentado céu, depende da cor das lentes com que se acorda. Está um tempo caramonico, como dizem em Terras de Miranda, sem necessidade de escarrabunhar os pés por estarem carraspudos. Sinto a falta do sol que me anima e vitaliza nesta humidade entorpecente que amolece corações e fenece almas. Assim desabafava mutuamente na guerrilha verbal contra a falta da função clorofilina que cerceia as musas e embota mentes.

E era então que me contrapunha Cristóvão de Aguiar “O tempo está mesmo abafado. Abafa o corpo e sobretudo a mente. Nunca mais há tempo decente”. Otimista acredito que melhores dias virão. Concentro-me numa conceção positiva rumo à realização dos objetivos que pensa terminar durante o curto passeio terreno que lhe deram a oportunidade de usufruir. Os problemas, por maiores que sejam, são meras contrariedades. Umas maiores que outras. Assim repito para crer no que digo. O tempo as curará retirando-lhes o relevo e importância ou resolvendo-as. Os momentos incomuns de felicidade e alegria devem ser fruídos em plenitude. Comemorados, celebrados, prolongados e recordados. Para isso sirvo-me da escrita. Para reviver momentos bons. Como são normalmente raros convém que perdurem, cinzelados nas pedras da lembrança. Criam trejeitos, esgares de sorrisos nas comissuras dos lábios.

Estas são as imagens que guardo deste autor que tanto aprecio e que ontem foi totalmente ignorado pelos habitantes da ilha e em especial de Ponta Delgada. Está provado que Cristóvão de Aguiar não dá votos a ganhar. Ainda bem. E termino com esta palavras que lhe dediquei em 2013

  1. Ao Cristóvão, Pico, 9 ago 2011/13 out 2013

descobriram no pico

maroiços milenares

piramidais construções

galerias ocultas

sem múmias nem tesouros

sem origem nem fim conhecido

falaram de fenícios, cartagineses

gente da pré-história

 

mas a verdadeira pirâmide

reside mais a norte

em s miguel arcanjo

numa atulhada falsa

com vista para s. roque

é a universal biblioteca

da nova alexandria

 

é lá que todas as noites

os livros se põem a dançar

debatem e trocam impressões

dão conselhos e admoestações

referem prodigiosas citações

partilham bailhos e saber

da universidade da açorianidade

 

[1] a·pa·je·ar – verbo transitivo, 1. Acompanhar (como pajem).2. Lisonjear, adular.”Apajeados”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,

FALECEU O MEU AMIGO, MENTOR E ESCRITOR (LUÍS) CRISTÓVÃO DE AGUIAR

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Acaba de falecer Luís Cristovão de Aguiar, um dos grandes nomes da literatura Açoriana e do País. Luís Cristovão, era natural do Pico da Pedra, onde nasceu em 1940. Da sua vasta obra, destaca-se a Trilogia Raiz Comovida, tendo por ela recebido o importante Prémio Ricardo Malheiros, dos muitos que recebeu ao longo dos anos.
Em 2001 foi agraciado pelo Presidente da República com o grau de
comendador da Ordem Infante Dom Henrique.
A literatura ficou mais pobre! O Pico da Pedra perdeu um dos seus ilustres filhos.
Deixa 3 filhos, José Manuel Aguiar, Artur Aguiar e Luís Aguiar.
As nossas condolências aos filhos, família e amigos, com a certeza que estamos com eles nestas horas de dor.
.Que descanse em paz
O velório ocorrerá amanhã, quarta-feira, a partir das 17 horas em Coimbra, no Centro Funerário Nª Senhora de Lurdes (em Montes Claros). A cerimónia de homenagem será no mesmo local, quinta-feira feira, a partir das 10.45.
A 5 de Outubro de 2021, morreu o escritor Cristóvão de Aguiar, de seu nome completo Luís Cristóvão Dias de Aguiar, nascido a 08/09/1940, no Pico da Pedra.
Cristóvão de Aguiar é Comendador da Ordem do Infante D. Henrique, foi reconhecido com a insígnia Autonómica de Reconhecimento da Região Autónoma dos Açores e recebeu a medalha de mérito municipal do concelho da Ribeira Grande, ilha de São Miguel, de onde é natural.
Os seus 40 anos de vida literária receberam uma homenagem da Reitoria da Universidade de Coimbra, através da edição de uma publicação onde é reconhecido como um escritor de mérito. Cristóvão de Aguiar foi, ainda, homenageado pela Universidade do Minho e pela Secretaria Regional da Cultura dos Açores, por ocasião dos 50 anos de vida literária, com a edição das suas obras completas entre 2015 e 2020, que teve a chancela das Edições Afrontamento.
Venceu, entre outros, o Prémio Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, o Grande Prémio de Literatura Biográfica da Associação Portuguesa de Escritores/Câmara Municipal do Porto e o Prémio Literário Miguel Torga/Cidade de Coimbra.
Na sua vasta obra literária, destacam-se a trilogia romanesca Raiz Comovida, o Braço Tatuado — narrativa militar aplicada, onde relata a sua experiência como combatente na Guiné durante a Guerra Colonial — e Relação de Bordo, conjunto de diários que abrange os anos de 1965 a 2015.
Traduziu A Riqueza das Nações, de Adam Smith, edição da Fundação Calouste Gulbenkian.
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NOTA DO EDITOR DESTE BLOGUE, ALGUMAS FOTOS DOS EXTRAORDINÁRIOS MOMENTOS PASSADOS JUNTOS NESTES ANOS, UM HOMEM QUE MUITO ME ENSINOU E DE QUEM VOU SENTIR MUITA FALTA. HÁ VÁRIOS TEXTOS EM CHRONICAÇORES QUE LHE SÃO DEDICADOS e que trasncrevo depois das fotos

Crónica 420 MORREU LUÍS CRISTÓVÃO DE AGUIAR 5-10-2021

5.10.2021 Acaba de falecer Luís Cristóvão de Aguiar, um dos grandes nomes da literatura. Era natural do Pico da Pedra, onde nasceu em 1940, tendo a partir de 1999 adotado S Miguel Arcanjo no Pico como segunda casa.. Da sua vasta obra, destaca-se a Trilogia Raiz Comovida, tendo por ela recebido o importante Prémio Ricardo Malheiros, dos muitos que recebeu ao longo dos anos.

Em 2001 foi agraciado pelo Presidente da República com o grau de comendador da Ordem Infante Dom Henrique.

A literatura ficou mais pobre! O Pico da Pedra perdeu um dos seus ilustres filhos.

Deixa 3 filhos, José Manuel Aguiar, Artur Aguiar e Luís Aguiar.

Que descanse em paz.

 

Gostava de aqui recordar momentos inolvidáveis que com ele passei nos colóquios da lusofonia em 2009 na Lagoa e em Bragança e na sua casa do Pico. Recordo o que então escrevi:

12.8.2011 Parado no aeroporto da Horta, não sou o Passageiro em trânsito do Cristóvão de Aguiar, nem transporto o Fogo Oculto do Vasco Pereira da Costa, antes deixo que os ponteiros do relógio caiam lentamente, minuto após minuto, por entre o linguajar dos que, comigo, esperam um avião. Como sempre acontece, quando excursiono nestas ilhas atlânticas, nunca tenho vontade de partir: impérvio, permaneço sentado, quase imóvel, no pátio de observação do aeroporto da Horta. Estou de frente para o Pico que me pisca o olho, sorrateiro, por entre as nuvens, escondendo-se, amiúde, dos meus olhos perscrutadores. Ao contrário do Cristóvão não carrego comigo a ilha e a que transporto não é outra. Não trago a reboque este arquipélago, mas deixar a ilha é sempre uma partida sem regresso marcado, como quem faz um luto indesejado ao correr dos dias. Não levo comigo a dor nem a lágrima furtiva, apenas acalento o desejo do regresso numa noite de luar como o de ontem.

 

05.09.2009

Há dias escrevia-me ele (Cristóvão de Aguiar) a dizer:

Obrigado pelas tuas palavras de amizade. E também pelas fotografias que mandaste em devido tempo e nem sequer respondi, do que me penitencio. Quanto à Rosário [Girão dos Santos], tenho a dizer-te que é uma crítica de primeira-água. Sabe o que faz, e é muito segura no que escreve. Por vezes não chego à sua altura e não entendo certo vocabulário da hermenêutica, mas a culpa é toda minha, que sempre fui relapso à teoria literária e linguística.”

Muito inferiorizado me julgo, como sofria já com o meu mentor político, também ele ligado aos Açores (Melo Antunes) e outro mentor intelectual (também já falecido) o Zé Augusto Seabra. Se agora encontro neste amigo novo um escritor que se crê maldito porque outros o fizeram assim, um ser acossado por tudo e por todos, mas sobretudo por si mesmo, por outro lado, não me revejo nele ao entrar nesta fase adiantada da minha vida com um otimismo que me não é inato. Até hoje nem lhe respondi, pois, não sei como, nem hermenêutica nem exegese me tocam, que são ramos do conhecimento para além da minha compreensão, que estudos de Humanidades não tive, nem meus pais me deixaram e, se sou como sou, a meu pai o devo, tal como Cristóvão o é devido ao seu pai. Plantamos árvores, publicamos poesia e tivemos filhos em buscas incessantes pelo Santo Graal e desconfio que ambos sabemos que não existe, a não ser na busca incessante com que criamos, uma mera raison d’être nas nossas mentes conturbadas.

 

Cristóvão de Aguiar fez uma comparação lisonjeira, quando lhe disse que não mentia ao escrever pois o que saía da minha pena era genuinamente sentido. Afirmou que outro transmontano e escritor, de seu nome Miguel Torga, lhe dissera alhures que nunca mentia ao escrever poesia. Seria pela origem transmontana comum, mais do que qualquer outra coisa, que Torga não sou nem nunca fui a não ser na expressão de sentimentos reprimidos.

Sei que ele anda ocupado e acompanhado, mas encontrei um exemplar do modelo base que pretendo (em tamanho maior) para os nossos Cadernos de Estudos Açorianos…aliás foi a “Maré Cheia” que deu a ideia de fazer os Cadernos com a minha visão de forasteiro. Estão eles bem entregues para que deles construa, pedra a pedra, Cristóvão de Aguiar um pequeno novo Vértice, a revista vanguardista da qual foi saneado injustamente em meados da década de 1980. Ao fim de dois meses de silêncio pus a minha pena de croniqueiro a funcionar e enviei-lhe a cópia desse escrito (Crónica 67) na qual exprimo com a verve de jornalista que nunca deixei de ser, o que a escrita dele (que lentamente descubro) me proporciona. Para ele, a escrita nunca será catarse pois é fruto de amores incompreendidos entre si e a ilha…enquanto para mim a escrita e os colóquios da lusofonia são a catarse constante da minha guerra colonial sem mortos nem feridos, e tampouco tiros.

Dei comigo a sorrir, facto inusitado e deveras inopinado. Encontro tanto sofrimento na escrita do Cristóvão que me apetece cruzar este Mar Oceano e ir ter com ele ao Pico consolar as suas velhas penas. Durante quarenta e cinco anos sofri calado, ou nem tanto, escrevi para a gaveta dores e amores, raivas e ódios, cruzadas

 

Caro Amigo Chrys,

Após a longa conversa telefónica havida entre nós esta manhã, vim agora deparar com o teu texto de abertura aos Colóquios de Bragança. Como escrevi em epígrafe, é de mais! De mais, não porque considere lisonja o que escreveste sobre mim (seria uma ofensa que te fazia), mas porque tenho sido tão fustigado, aqui, na minha terra, que estava longe de pensar que ainda fosse possível a alguém dos arrabaldes de uma amizade recente, mas de uma forte empatia (um Australiano nos Açores), fazer uma análise tão séria e sábia sobre obra minha. Embora, e sem desprimor para quem a elaborou, a considere muito para além das minhas capacidades de escritor. Como o padre no Ofertório, digo-te: Senhor, non sum dignus!

De há uns tempos para cá, porém, tudo se tem passado como se uma varinha-de-condão estivesse a tocar-me no destino. E esses tempos para cá, é bom concretizá-lo, têm um ponto de partida: os Colóquios realizados na Lagoa em março – abril do corrente. Lá encontrei, contra todas as minhas expetativas, uma plêiade de personalidades que fizeram olhar-me ao espelho da minha humildade, ao mesmo tempo que me infundiram confiança e à-vontade, boa disposição e alegria, despreconceito e saúde intelectual…

Soltei-me dentro da minha caverna; ao princípio, dei alguns saltos a medo, mas procurei conter-me e ir subindo devagar em direção à luz que me ofuscava. Ainda ando encandeado pela sua intensidade e pela rapidez com que tudo aconteceu, mas, pouco a pouco, espero desenvencilhar-me dos muitos cadilhos que ainda me amarram a um cais de onde nunca embarquei e nem sequer me lembro se em cima dele fui ficando permanecido. Há dias, foi a Maria do Rosário com a sua acutilante e profunda análise ao meu tão mal-amado Passageiro em Trânsito, que me calou bem fundo, e me deu um sentimento de desforço de que há muito andava carecido. Agora és tu. Será este o ano da minha morte? Já não sei o que dizer mais. As palavras fogem-se como coelhos bravos a atravessar em correria a estrada do mato.

Um forte abraço do Cristóvão

 

09.09.2009

Isto das ilhas tem muito que se lhe diga, algumas estão de costas voltadas para o mar, como em S. Miguel, enquanto outras há que não vivem sem ele, como no Pico. Sei que é uma questão de tempo até começarem a zurzir nos forasteiros que ousam opinar sobre este arquipélago. Quando se perora sobre as nove filhas de Zeus urge não melindrar os interesses estabelecidos. As visões críticas ou não conformadas aos cânones podem acarretar sérios riscos para a saúde mental dos seus autores. Vozes críticas ou arredadas dos estereótipos não abundam nem são benquistas.

As elites dominantes e os poderes caciqueiros logo se insurgem. A ingratidão, vergonha e falta de patriotismo são epítetos comummente usados para denegrir os que ousam. Citam-se páginas relevantes da heroica gesta açoriana, com destaque para as guerras liberais e inúmeras desventuras de emigrantes que triunfaram. Surgem editorais e recensões violentas nos jornais locais. Os caixeiros-viajantes da cultura logo se arrogam o direito de defender a açorianidade ofendida. Tais declarações de repúdio raras vezes saem dos quatro cantos do arquipélago que falar dos Açores ainda não se tornara moda na grande capital do Império. Foi isto que, por mais de uma vez, aconteceu ao amigo, o mal-amado escritor Cristóvão de Aguiar. Apodaram-no de tudo e mais alguma coisa, pois convém sempre ser mais papista que o papa. Em meios pequenos é consabida a tendência para apoucar aqueles que das leis do esquecimento se desembaraçaram, como diria o vate, enquanto o imperador e séquito distribuem viagens e mordomias. Terras pequenas, invejas grandes, a reprodução do mote popular “a minha festa é maior que a tua”.

 

Fomos almoçar ao Clube Naval de S. Roque com um bom serviço de “buffet” ao preço de 7.00€ e café incluído. O Cristóvão de Aguiar proclamou-se guia e levou-nos às Lajes à “Semana dos Baleeiros” sempre após a “Semana do Mar” na Horta. Tive de mudar a anterior opinião sobre as Lajes logo que visitamos o que resta das muralhas do forte (ora reconstruídas e aproveitadas como espaço turístico) e o Centro de Artes e Ciências do Mar (na antiga fábrica da baleia SIBIL, equipamento industrial que se dedicou à transformação dos grandes cetáceos em óleos e farinhas). Havia lá uma moderna livraria, a única digna desse nome nas ilhas do triângulo. Nela encontramos inúmeros livros para acrescentar à coleção de autores açorianos.

Em amena cavaqueira dizia o Cristóvão que tinha conseguido algo que eu almejava, ver alguém a ler um livro seu num jardim de Coimbra. A surpresa foi ver o meu último livro “CHRÓNICAÇORES”, incluído na “literatura açoriana” e foi, então, que a jovem funcionária, Cláudia de sua graça, declarou que tinha adquirido o livro e estava a lê-lo em casa. Autografei outra cópia, com o ego exultante por estar ao lado dum célebre autor e ser eu a autografar a pretensiosa trilogia. Claro que após este incidente, as Lajes do Pico pareceram mais bonitas, soalheiras e convidativas do que em visitas anteriores.

Sentamo-nos numa esplanada na marginal a dessedentarmo-nos enquanto se punha a conversa em dia, antes de subirmos ao Alto da Rocha do Canto da Baía para visitar a “Cabana do Pai Tomás”.

Satisfiz a curiosidade de visitar a casa de Dias de Melo. Nas viagens anteriores ainda não conhecia o autor. Ali, espartanamente vivera, numa casa pequena e humilde, ora telhada de novo mas com o desconforto da minúscula casa de banho exterior no piso térreo. Em cima, o autor dormia, comia e escrevia. Do pátio exterior avistava-se a imensa mancha de Mar Oceano ponteada pelo pequeno farol da Calheta de Nesquim que serviria de inspiração a tantos dos seus livros.

Em linguagem cinematográfica chama-se a isto um “fast-forward” em que se rebobina a imagem e se passa adiante. Após 4 dias e cinco noites de convívio intenso e aprendizagem ilimitada na ilha do Pico, estava já em posição de aceitar que Cristóvão tinha razão ao afirmar sobre a literatura açoriana…

Depois de ler quase todas as obras de Dias de Melo, salvavam-se as baleias, outro livro mais intimista como “À Boquinha da Noite (2001) e pouco mais. Li e detestei “O Menino deixou de ser menino” (1995) e “Pena dela, saudades de mim” (1994) dum neorrealismo primário e básico que nada tem a ver com os livros mais antigos sobre os baleeiros.

Daniel de Sá tem como uma das melhores obras, a novela “O Pastor das Casas Mortas” e “Ilha grande fechada” (1992). Excluía a obra religiosa por razões óbvias, não a podia apreciar. Ressalvava bons textos que surgiram em guias de turismo como “Santa Maria Ilha-Mãe”, “S. Miguel, a ilha esculpida” e outro sobre a Terceira.

Entretanto, já lera outros poetas e escritores açorianos espantosos de quem poucos falavam. Martins Garcia era um deles…O problema é que sem querer metera-me (e aos Colóquios) numa toca de lobos de interesse esconsos e panelinhas em que pontificam menos valias. Ora bem, a minha autocrítica ao fim de 4 dias perante o Cristóvão, escritor maldito e malquisto nas hostes açorianas, era a seguinte: embandeirara eu em arco, louvando exageradamente, adjetivando em excesso e elevando aos píncaros alguns sem separar o trigo do joio. Gostava do Cristóvão, do Daniel e do Onésimo. De todos era amigo, mas existiam outros para desvendar.

De dezenas já lidas e folheadas a maioria não tinha a tal qualidade de que Cristóvão tanto falava. Sendo um forasteiro deixara-me iludir pela açorianidade, pela beleza narrativa das ilhas e costumes ancestrais. Embalara-me no canto das sereias. “O Pastor das Casas Mortas” fora já traduzido por mim para inglês. Dias de Melo até para japonês fora traduzido. Cristóvão ainda não. Nem outros escritores e poetas que o mereciam. Um crime de lesa literatura. Iria concentrar os esforços dos colóquios para os editar e traduzi-los. Teria de ler os restantes para apreciar a sua universalidade, além da matriz açoriana que a todos permeia. Sei que incorrera numa possível falácia de tomar a nuvem por Juno e louvaminhado em excesso os autores que os colóquios divulgaram. Teríamos de ser mais parcos nos encómios. Dias de Melo e Daniel de Sá já têm uma editora a traduzi-los e divulgá-los, falta fazer o mesmo para Cristóvão de Aguiar, um escritor universal com uma vastíssima obra. Em Bragança no 8º Colóquio iria iniciar a campanha para o traduzir (Bulgária, Roménia, Polónia, Eslovénia). Iria tentar a editora Almedina, no Brasil, para apresentar “Tabuada do Tempo” e de “Torga Lavrador das Letras” do Cristóvão de Aguiar. Se pudesse concentrar esforços talvez conseguisse algo até abril 2010.

No segundo dia da estadia, abusando da paciência do Cristóvão que as conhecia e não queria visitar de novo (ficou no ar condicionado na sala da receção), descemos às catacumbas do vulcão do Pico. Conhecida pela altura e beleza do Pico que lhe deu nome e das paisagens que se desfrutam do alto das suas vertentes, a Ilha tem na Gruta das Torres o verdadeiro contraponto das alturas e um atrativo não menos pitoresco.

O restante tempo, dias, tardes e noites picoenses foram ocupados com leituras, discussões e uma enorme aprendizagem. Surgiam em catadupa nomes e obras dos últimos quarenta anos sobre os Açores. Os autores eram açorianos, descendentes, emigrados e outros. Muito descobri naqueles dias com essa enciclopédia devoradora de conhecimentos e de livros que é Cristóvão de Aguiar, convidado especial do Colóquio da Lusofonia.

Ao chegar a casa e parando no café Refúgio, em pleno centro de São Miguel Arcanjo, ofereceram-me graciosamente o café por ser o último que ali tomava. Andados uns passos rumo à casa do escritor deparei com uma camioneta de passageiros estacionada aguardando o começo da semana para voltar a trabalhar. Acorreu-me a ideia peregrina de como seria uma aventura “pedir emprestada” a carripana, começar a percorrer as aldeias (ditas freguesias nas ilhas) e gravar as histórias que os passageiros fossem contando. A viagem não teria destino. Duraria tanto quanto as histórias dos passageiros. Não seriam cobrados bilhetes. Pararia em todos os locais, podendo deter-se para que fossem contadas as histórias e lendas do local onde paravam. Que livro maravilhoso não daria esse compêndio de histórias apanhadas ao acaso daqueles que tomassem o autocarro dos sonhos.

Para o comum dos mortais a vida prosseguiria o seu rumo, mas os Açores são uma réplica miniatural da corte lisboeta. As elites não perdoam aos que não comungam da verdade única com força de dogma. Cristóvão escreve com uma pluma incómoda. Reservou-se um papel de narrador que pensa, fala e escreve sem recorrer aos lugares comuns que tanto gáudio causam na população. Não reivindica verdades absolutas ou duradouras, limita-se a descrever o que sente e vê. Criaram-lhe a fama de irascível (quantas vezes com justas e fundadas razões?).

Eu recebi “avisos amigos” para os perigos quando o convidara a estar na Lagoa em março de 2009 para o 4º encontro açoriano da lusofonia. Congratulo-me que, relutantemente, Cristóvão tenha acedido. Ao longo de cinco meses trocamos correios eletrónicos e telefonemas criando uma amizade saudavelmente aberta e crítica. Estava eu carecido de aprender mais com este enigmático personagem que tantos cuidados incutia aos defensores da paz podre açoriana. Como acumulei milhas no cartão de viandante frequente aceitei a sua hospitalidade para uns curtos quatro ou cinco dias no Pico que Cristóvão assumiu como segunda pátria. Nove dias após partir de São Miguel Arcanjo na ilha mágica de regresso à ilha de São Miguel Arcanjo ainda reverberavam os encantos daquela. Assim me despeço da ilha prometendo voltar um dia, gostava de alugar casa por um mês inteiro e visitar as ilhas ainda desconhecidas pelo navegador sem barco (Graciosa, Flores, Corvo). Há qualquer coisa de mágico, íman secreto, que atrai e me faz querer viver ali. Talvez a vontade de ouvir as histórias dos passageiros da camioneta sem rumo. Terei de consultar um especialista para me tratar da eterna infidelidade, cada nova ilha é um novo amor, paixão ardente, desejo irreprimido.

Parafraseando Cristóvão de Aguiar (In Cristóvão de Aguiar (in Nova Relação de Bordo, diário ou nem tanto ou talvez muito mais, Publicações D. Quixote, 2004) direi da Língua de todos nós:

Amo-a sem o empecilho da palavra.

O Amor aprende-se, cultiva-se, rega-se.

Necessá­ria uma predisposição íntima onde se alastre essa Ferida Amá­vel, como tão eloquentemente escreveu, em título de livro, o Poeta Egito Gon­çalves. Os poetas têm sempre razão!”

 

DIÁLOGOS INACABADOS COM O CRISTÓVÃO

 

Escrever é fácil: comece com uma maiúscula e termine com um ponto final. No meio, coloque ideias.

(Pablo Neruda)

 

Isto de literaturas açorianas tem muito que se lhe diga e não pretendo entrar em discursividades nem dissecar os ódios e amores transientes que unem e separam os autores, pois isso daria material para vários volumes, mas recordo trocas de impressões nestes últimos meses, com o mercurial Cristóvão de Aguiar:

From: Cristóvão Aguiar Sent: Tuesday, August 10, 2010 10:46 AM

To: Chrys Chrystello Subject: Re: atualizado o caderno nº 4

Continuamos com a mesma pecha, a chamada açorianite aguda,… Afinal, continua tudo na mesma, tal qual a música da Relva: o mesmo e mais forte. Elogia-me a mim, para que te elogie a ti. Oh compadre, aqui na freguesia há só duas pessoas inteligentes. Um sou eu, agora diga a compadre quem será a outra… Já o Álamo e o João Afonso escreveram em 1981 no jornal União, de Angra, que O meu Mundo não é deste Reino, de João de Melo, era superior ao Mau tempo no Canal e o Velho Testamento. Francamente… Assim, não passamos de paroquianos convencidos de que somos os melhores do mundo. Chamei um dia a este complexo de superioridade “A Insular Bazófia”. Haja juizinho… Onde se lê: melhor que o Velho Testamento, deve ler-se: melhor que o Apocalipse de São João. Vide: Relação de Bordo I, pp. 297 (10 de junho de 1983) a 301

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No dia 10 de agosto de 2010 01:47, <daniel.de.sa> escreveu:

Chrys
Bem poderias ter escolhido ao acaso, que o Vasco deixa pouco ou nada para restolhar. É tudo trigo limpo e bem ceifado. Gostei, no entanto, de um modo especial que não tenhas esquecido “O Gibicas” (um dos meus contos preferidos em toda a literatura portuguesa) nem “O Matateu”, o poema com que “converti” alguém que dizia não gostar de poesia. Mas falta ali a “Queen Nancy”, um dos poemas mais emocionantes que se podem ler em Português, e a Helena pôs (não sei se se valeu do meu trabalhinho ou se ela mesma o fez também) na sua Antologia.

Abraços. Daniel

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From: Cristóvão Aguiar Sent: Wednesday, September 08, 2010 11:03 AM

To: Chrys Chrystello Subject: OBRIGADO!

Caro Chrys:

Mas eu já não faço anos… Ainda para cúmulo setenta ou zero sete, que é mais agradável e me dá a possibilidade de entrar para a escola em outubro para fazer uma revisão geral da vida que me foi dado. Muito grato, gratíssimo, pela tua lembrança. O septuagenário chama-se Luís, o Cristóvão não cuida desses pormenores do tempo que passa, só daquele que amolece os miolos quando a humidade aperta o garrote. Um grande abraça extensivo a todos vós do Cristóvão

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From: Cristóvão Sent: Friday, September 24, 2010 2:34 PM

To: Chrys Subject: AÇORIANICES

Meu Caro:

De facto, é tal a pobreza, que vou pôr pólvora no lume, se estiveres de acordo, com dois artigos publicados no Expresso das Nove, o último dos quais hoje, que me foram pedidos pelo Diretor Jorge Brum. Ambos, como poderás verificar são de temática “açoriana”. Abraço Cristóvão

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Desafios dos Açores para o século XXI, Cristóvão de Aguiar

“A atitude radical do ilhéu é chegar à porta de casa e interrogar o mar”. Vitorino Nemésio, in Corsário das Ilhas. “Como nada sei sobre o assunto proposto, vou fazer uma composição sobre a prima­vera”. Aluno liceal numa prova escrita de Língua Portuguesa. Muito gosto eu de desafios! Quem me tira um tira-me o mar e tudo! Não sei se o Arqui­pélago gosta deles. É natural que sim. Pelo menos, as canti­gas ao desa­fio têm sido timbre de quali­dade da cul­tura popular das Ilhas todas. A Ter­ceira e São Miguel levam-lhes as lam­pas. O velho Virgínio da Bretanha; o Pereira, da antiga Lomba de Santa Bárbara, da Ribeira Grande; a Turlu e o José da Lata, da Terceira, foram dos melhores culto­res do despi­que entoado no terreiro das cantigas ou nas cantigas de terreiro. Devo ter dei­xado dezenas e dezenas na sombra… A omissão é filha legí­tima da minha ignorân­cia. Para ela, peço uma indulgência plená­ria…

Sai o primeiro cantador, o Virgínio, e entoa:

“Entre merda foste nas­cido /

E na merda foste gerado /

Muita merda tens comido /

E dela toda tens gos­tado…”

E o Pereira, da Lomba de Santa Bárbara:

“Ainda me chamas galo, /

Desses que andam pela rua /

Já me viste a cavalo /

Nalguma galinha tua?”

Da Turlu, que, in illo tem­pore, ouvi despicar, boquiaberto, tamanho o aguçamento de lín­gua e o seu poder cria­tivo, estas duas cantigas:

“A felicidade vagueia, /

Fumo que passa veloz, /

Está sempre na nossa ideia /

E tão distante de nós…” e

“A minha língua é comprida, /

O que diz não te convém…/

E a tua está torcida /

Por isso não fala bem…”

A seguir, entra José da Lata e canta:

“Deitei uma velha em choco, /

Dentro de um cesto de palha, /

Lá na Canada das Vinhas. //

Descascou-me vinte ratas, /

Cinquenta e duas patas /

E trinta e cinco doninhas. //

Tinha pombas e coe­lhos, /

Melros pretos e tentilhões, /

Uma porca com cabritos /

E uma cabra com lei­tões.”

Quando há tempos recebi este desafio, por via eletrónica, para ser resolvido por escrito, em três mil carateres, sem espaços – logo me ocorreu Frei João Sem Cuida­dos… O seu Rei era invejoso e não podia ver nenhum dos seus Súbditos sem arrelias e apoquentações. Cha­mou um dia Frei João ao Palácio e fez-lhe três perguntas embaraçosas para serem respon­di­das num dado prazo. O frade saiu do Palácio real acabrunhado e cabisbaixo. Se respon­desse errado, o Rei mandava-o matar… Por acaso, o moleiro do reino encon­trou Frei João muito triste. Vivo e fino como azougue, logo se prontifi­cou, depois de saber as perguntas, a apresen­tar-se ao Rei vestido com o hábito de Frei João. Respon­deu às três perguntas como era dado, de tal sorte que Sua Majestade ficou toda contente e mandou o moleiro na paz do Senhor! Com que se entretinham os Reis de algum tempo!

Ora, este humilde escriba acocorado não tem moleiro para quem apelar! Nem molei­ros existem já – os últimos que conheci iam da freguesia para a Ribeira Grande moer a moenda nos moinhos de água da ribeira, já não sei se a do Paraíso se a do Inferno… Três vezes por semana, com cães velhos e doentes amarrados ao eixo da carroça para serem lançados à Tarpeia ribeiragrandense…

Caso os hou­vesse ainda, qual deles seria capaz de responder direito a um século pejadi­nho de desa­fios? É muito desafio numa só molhada de brócolos! Mas há um enorme desafio já proposto às Ilhas do Grupo Central, lan­çado não há grande tempo pelo eterno candidato à liderança do PSD, Casta­nheira Barros. Andou em digressão turístico-eleitoral por aquelas Ilhas sem culpa da criativi­dade do social-democrata relapso. Prometeu mandar construir túneis entre o Pico e São Jorge e entre a Madalena e a Horta. O ovo do Colombo, que resolve­ria a insula­ridade de uma assentada. Em estando a obra feita e inaugurada, sem­pre que um ilhéu radical che­gar à porta de casa para interrogar o mar, ficará menente e sem pé dentro de si: em vez de indagar o monstro de água, para ir à pesca ou contem­plar a Ilha em frente para lhe sondar os ventos e as nuvens, meter-se-á logo a caminho da emigração, a cavalo no automóvel ou na camioneta da car­reira… Um Metro de Superfí­cie, como o que está sendo construído em Coim­bra, fica­ria muito mais em conta, podendo estender-se às Flores-Corvo, à Gra­ciosa-São Jorge-Terceira, que também são filhos e filhas do mesmo magma… Quanto a São Miguel-Santa Maria…. Aqui, sim, um túnel tipo Canal da Mancha, mas em formato maior, que os micaelenses são assopradi­nhos e aman­tes fidelíssimos da monumentali­dade…Já excedi o número de carateres. Que o Eduardo Brum se não afromente, me per­doe a incontinência, e aceite os parabéns deste ilhéu desilhado, que muita lenha apanhou nas páginas do ora aniversariante

Expresso das Nove…. Pois alevá! Coimbra, 30 de janeiro de 2010 (EXPRESSO DAS NOVE, fevereiro de 2010)

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A desunião faz a força, CRISTÓVÃO DE AGUIAR, Escritor

A descontinuidade geográfica das nove Ilhas dos Açores, que só formam um Arquipélago nos compêndios liceais (agora secundários ou secundarizados) de Geografia Física (a Humana não conta nem poderia contar, visto serem muito sortidas as gentes que as povoaram, deixando fortes marcas de origem, ainda bem visíveis, sobretudo no vocabulário) – talvez seja uma das razões de uma congregação mais fictícia do que real.

Cada Ilha, quer queiramos quer não, constitui um mundo à parte, daí a quase impotência de se erigir um reino, com estandarte, bandeira, hino condicente e outras quinquilharias realengas, e sobretudo encontrar um monarca que incarnasse os valores e aspirações do povo das nove ilhas atlânticas. Um rei não seria muito difícil de conseguir (elegê-lo, não: há tanto sangue real escorrendo nas veias de micaelenses e terceirenses – um desperdício para tantos hospitais carentes – que, espontaneamente, surgiriam meia dúzia, ou mais, de candidatos à sucessão do último Rei de Bragança…).

Depressa, porém, erguer-se-ia um grande alevante no peito robusto e aleitado da nobreza local, e não duvido de que as Ilhas acabariam por alombar com uma monarquia dual, com obediências diferentes, como na maçonaria, que as tem, e várias, o que acarretaria grande dispêndio para o erário público… Não gosto da palavra unidade, conotada com uniformidade e com quartel, o que, para o caso, não conviria muito, embora não raro um ilhéu viva confinado a um desses cativeiros, que uma Ilha, como todos nós sabemos, é ao mesmo tempo uma prisão e uma livre extensão de horizontes que estimula a viagem e a aventura. Ou a emigração por causas outras, que agora não vêm a talho de podão.

Preferia uma república a uma monarquia. Além de se estar celebrando o centenário da República Portuguesa, as das Ilhas seriam uma grande achega para os festejos populares… E, como o Presidente da República, no dia da sua eleição costuma proclamar, do alto da sacada de um Hotel: “Serei o Presidente de todos os Portugueses, quer vós tivésseis ou não metido na racha da urna o boletim de voto a meu favor ou desfavor…”, ter-se-ia, então, nas Ilhas, um homem só e sólido ao leme das nove barcaças…

Mas, a República, nas Ilhas, daria azo a graves problemas. Teria de haver várias repúblicas independentes, tirante a do Corvo, que ficaria agregada à das Flores, a de Santa Maria à de São Miguel, a da Graciosa e o Ilhéu das Cabras à Ilha Terceira: caso contrário, os distúrbios sociais seriam inevitáveis… Mesmo assim, muita cautela com os Corvinos, Marienses e Cabréus…

Por outro lado, e há sempre um pozinho positivo em todas as controvérsias, deixava-se o sangue azul a coalhar, para alguma necessidade imprevista, num boião, onde in illo tempore se conservavam os chouriços e os torresmos em banha de porco legítima… Creio firme e finalmente que só a SATA continuará sendo a grande esperança da pátria açoriana, como escreveu o poeta Pedro da Silveira, que Deus tenha, uma vez que, no seu monopólio quase milenar, consegue construir uma resistente ponte de união entre ilhas… A única e ténue ideia de Arquipélago pode ser averiguada in loco, e em parte, no Grupo Central, daí ter o ex-candidato a líder do PSD prometido, se fosse eleito, a construção de pontes para a outra margem… O Ovo de Colombo, que ninguém se dispôs a estrelar… EXPRESSO DAS NOVE, 24 de setembro de 2010

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From: Cristóvão Aguiar Sent: Wednesday, November 10, 2010 3:59 PM

To: Chrys Subject: Re: Fernando Aires Diarista

Caro Chrys:

Pode utilizar os meus textos. Só no fim deves por: in Nova Relação de Bordo, Publicações D. Quixote, Lisboa. Desejo as melhoras da Lena. Abraço do Cristóvão

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From: Cristóvão

Sent: Wednesday, February 02, 2011 7:51 PM

Subject: CARTA A FERNANDO AIRES

Eis uma carta que enviei ao Fernando Aires, aquando da publicação do livro de correspondência entre Eduíno de Jesus e Armando Côrtes-Rodrigues, e que mereceu da parte do Vamberto o galardão de livro do ano, da Livraria Solmar:

São Miguel Arcanjo, Ilha do Pico, 23 de março de 2003

Meu Caro Fernando Aires:

Como se pode verificar pelo cabeçalho, encontro-me no meu paraíso privado. Ainda não morri, mas… Aqui cheguei há mais de dez dias, parto a 31 do corrente, e pouco ou nada tenho saído. Não por causa do tempo (até tem feito dias primaveris), mas especialmente por ser tão aconchegada a minha casa, tão aquecida de livros e de paisagem, que pecado seria deixá-la assim tão sozinha e ao abandono de si mesma.

Tenho andado a ler e a escrever, sobretudo a ler, pela segunda vez (li o prefácio para aí três), a Correspondência entre Armando Côrtes-Rodrigues e Eduíno de Jesus, organizada e prefaciada por ti e que fizeste o favor de me enviar para Coimbra ainda não há grande tempo. Agradeço-te do coração a oferta bem como o autógrafo em que envolveste também a Margarida, o que bastante a sensibilizou, e que me pediu para te agradecer a lembrança. Já havia tido oportunidade de ler o livro antes de mo enviares. O José Manuel Mota de Sousa emprestara-mo e um pouco mais tarde recebia eu um exemplar que pedira à Conceição Garcia para que me mandasse da Ilha. Logo na primeira leitura verifiquei que todo o livro estava inçado de gralhas e de uma chusma de erros ortográficos (quase não há página em que não surjam), que não só o desfeiam como abona muito pouco acerca dos dois correspondentes, ambos professores exigentes de Língua Portuguesa e bons cultores da escrita, e de ti também, que és formado em Letras e igualmente escritor. Logo transmiti a minha impressão ao nosso amigo comum que me confirmou o desastre depois de ler o livro.

Como o exemplar me não pertencia, coibi-me de apontar, nas margens, a lápis ou a esferográfica, as incorreções. Mas, e logo que recebi o teu exemplar, pensei em trazê-lo comigo para a Ilha do Pico. Mal cá cheguei, tratei de pôr mãos a uma segunda leitura, desta feita de lápis na mão, que não seria delicado nem curial da minha parte escrever-te a dizer apenas que recebera o livro, o ia ler com muito interesse, te agradecia a lembrança e a dedicatória; enfim, essas coisas que muitos usam escreverem para não parecerem mal-educados, nem literária nem socialmente incorretos. Sabes bem que não tenho, e espero nunca vir a ter, feitio para tais duplicidades e dissimulações. Ora, em literatura, a hipocrisia e o porreirismo têm sempre um preço muito elevado, embora, momentaneamente, possam servir de escudo a quem se não queira incomodar ou ficar mal visto ou ainda recear ser impiedosamente segregado do grémio dos eleitos não sei bem de quê, nem porquê. Concluí a leitura ontem à tarde. Melhor, quedei-me na página 313, que um leitor engatilhado de atenção não é feito de ferro. E o resultado está à vista: nove páginas A4 de gralhas e erros ortográficos (não só os registei no exemplar como os passei para um papel à parte, indicando a página), que tas poderei fornecer, se assim o achares conveniente, caso venha a fazer-se uma segunda edição, mais limpa e asseada, da Correspondência entre estes dois sobressaídos poetas açorianos.

Não posso acreditar, por exemplo, que Armando Côrtes-Rodri­gues tenha escrito sugeitou, sivilizado, ageitada, remechendo, etc.,. (págs. 84, 85, 97, 198, respetivamente); nem que Eduíno de Jesus tenha grafado presado, con­certeza, adusir, etc. (págs. 262, 287, 295, respetivamente). Se assim tivesse acontecido, tanto em um como no outro, decerto aporias [SIC] à frente de cada incorreção, o que, na verdade, aconteceu apenas oito vezes e numa delas, na pág. 282, nem sequer com razão, porque existe a palavra espécimen ou espécime. Caso contrário, os [SIC] seriam na ordem das centenas, incluindo a acentuação, sobretudo nos verbos, e a pontuação caótica. Só não poderia vir o [SIC] no texto que tu próprio escreveste. Mas aqui vão alguns exemplos: albúns, Ensaista, chamou de (a que se chamou de (!) Círculo…), Síntaxe, cordealidade, por (verbo pôr), raíz, encadiar, etc. (págs. 15,16,18, 24, 26, 51, 56, respetivamente). E é pena! Será que nenhum dos teus amigos deu por tal? Nem o Onésimo a quem mostraste a primeira versão do prefácio, onde também se encontram muitos deslizes ortográficos? Ou tudo isso foi devido, como escreveste nos Agradecimentos, “à competência (sublinhado meu) profissional do Emanuel Cordeiro, funcionário da EGA, que passou a computador a volumosa Cor­respondência que agora, pela primeira vez, se torna pública?” Como as palavras se podem prostituir, se escritas sem alma! Sobre o prefácio teria muito a dizer. Ao contrário do que escreveu Tomás Borba Vieira, o prólogo está, em minha modesta opinião, muito aquém da garra do escritor dos primeiros quatro diários. Além da sua longuidão escusada, penso que te perdeste em antecipar o que as cartas dizem, beliscando assim muito do seu interesse e alguma da sua surpresa. Mas, não me vou alongar sobre este assunto… Não quero quebrar o encanto em que te encantaram os do costume. O melhor que fazes será seguir-lhes os conselhos, que tais amigos só estão bem bajulando, o que faz tão bem ao ego e tão mal ao trabalho artístico em geral e à escrita em particular. Vou concluir, pedindo-te que não interpretes mal as minhas palavras, nem as consideres esquinadas ou pouco amigas. Gostava que as interpretasses como sinal de amizade e de estima. Lembra-te de que ser-me-ia muito mais fácil dizer que escreveste uma obra-prima, ou, para citar o artigo de fundo do Suplemento Açoriano de Artes e Letras: “… Armando Côrtes-Rodrigues e Eduíno de Jesus / Correspondência é seguramente o livro mais importante destes últimos anos para a cultura açoriana.”

Seria necessária tanta incontinência? Um abraço do Cristóvão

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From: Cristóvão Sent: Friday, April 01, 2011 1:58 AM

To: Chrys Subject: Boa Madrugada

Caro Chrys:

Não sei nem me interessa saber o que irão dizer os pensadores e escritores da douta literatura açoriana ao lerem o teu segundo volume da ChrónicAçores A falares tão insistentemente de mim e da minha escrita, hão de cogitar (desconfio que não usam fazê-lo) que és um vendido e andas a tirar das profundas um dos malditos tasmanos que estava já com a sua limpeza étnica concluída. Põe-te em guarda, companheiro, que te podem encomendar uma excomunhão ao Senhor Santo Cristo, que, segundo a tradição micaelense (o Sá deve sabê-lo) é terrivelmente vingativo… Não te agradeço as apreciações que fazes da minha obra; do meu caráter, temperamento e feitio, sim, com as quais concordo, porque gostaria de ser ainda mais que assim. Quanto às apreciações que teces sobre a minha obra (presunção e água benta…), embora me sinta lisonjeado, que não sou feito de pau, nem ando de pau feito, não sou nem serei talvez capaz de ficar de mente (des)obnubilada ao lê-las em letra de forma. Não quero contrair tentações, prefiro o lugar que há anos me reservaram, e ao qual me habituei tão bem, a ficar sendo citado por bocas que não sei que águas beberam ou que instrumentos tocaram… E não te agradeço, não por má educação, que conscientemente não pratico. Mas pela razão óbvia de que o agradecimento se não enquadra em nenhum género literário, só no subgénero da etiqueta, que já se não usa, a não ser na literatura obituária. De qualquer forma, envio-te um abraço. Cristóvão de Aguiar

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From: CHRYS C Sent: Friday, April 08, 2011 10:21 AM

To: Cristóvão Subject: catarse

Como prometi acabei agora de ler o livro com tristeza múltipla, por ele ter chegado a este fim que não o é, por entender melhor aquilo que antevira na minha interpretação de ti como pessoa, por sentir o livro mais que uma catarse como um exorcismo…tive a felicidade de ter a tal conversa com o meu pai uns anos antes de ele morrer e já fiz há muito o mesmo com a minha mãe ora com 88… Tento desesperadamente não repetir muitos dos erros do meu pai com o meu mais novo que tu conheces…mas somos a herança genética dos nossos e de nosso só sobra aquilo que nos distingue deles e que construímos com muito sangue, suor e lágrimas como diria o Churchill. Como deixei lavrado no meu ChrónicAçores 2 sobre ti…Ora bem tudo isto foi escrito anos antes deste teu livro e sinto ter-te retratado bem…a nossa amizade é bem recente, mas mais profunda do que se poderia adivinhar…quiçá eu te entenda melhor do que cada um de nós sabe. Por favor dá isto a conhecer ao teu irmão por quem acabei nutrindo uma enorme admiração…Aquele abraço do tamanho deste Grande Mar Oceano. Chrys quase a partir para Macau

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From: Cristóvão Sent: Friday, April 08, 2011 10:33 AM

To: Chrys Subject: Catarse, Exorcismo

Gostei muito da tua crítica e concordo contigo no que respeita ao exorcismo. O livro está sendo um êxito, pelo menos é o que me tem transmitido o editor, o Adelino de Castro, ex-sócio do inefável Madruga. Vou neste momento a caminho de Lisboa: amanhã parto para o Pico. Vou primeiro aos implantes, depois aos lançamentos, 30 no Faial, 6 de maio em Angra, 13 e 14 no Pico, 20 na Ribeira Grande, onde espero ver-te. Um abraço do Cristóvão

***

From: CHRYS Sent: Saturday, May 21, 2011 6:47 PM

To: Cristóvão Subject: Cristóvão de Aguiar é dragão

Gostei muito de estar contigo ontem. Foi uma alegria ver-te ali no covil do lobo em pleno concelho da Ribeira Grande com tanta gente a assistir. As tuas palavras foram emocionantes por falares de um tema que raramente se ouve naquilo que considero o maior desaforo a toda a minha geração e tua…de quem nos exigiu 3 anos de vida em troca de nada a não ser a destruição física, mental e a morte. Obrigado por te lembrares sempre de alertar as mentes esquecidas. Do livro nada digo, já to disse em ocasião anterior à ida para Macau quando o acabei de ler. Um excelente modelo de realidades, que INFELIZMENTE ainda vão sendo realidade em zonas rurais da Lomba da Maia. Uma revisita aos tempos que te moldaram, com um pai cheio de amor e não só… Também o meu, cheio de amor e sem saber como, me obrigava a ser mais do que eu podia e sem violência física, mas verbal me condicionou a vida até aos 45 embora tenha morrido quando eu tinha 42. Cada um de nós a seu modo lidou com a situação, superando-a ou não, mas obviamente marcados pelos anos de formação. Ainda hoje com o João tento desesperadamente (mas nem sempre com sucesso) evitar repetir muitos desses erros, mas sei que alguns repito. Deixo-lhe como herança alguns escritos e uma nacionalidade australiana para ele desbaratar como quiser. Tu deixas muito mais e eu, que me sinto fraternalmente ligado a ti, jamais esquecerei as excelsas noites de aprendizagem na tua casa em São Miguel Arcanjo de São Roque do Pico. Deste-me mais do que muitas pessoas em toda a minha vida e espero ter a oportunidade de um dia aprender ainda mais e absorver por osmose um pouco da tua enciclopédica sabedoria. Sinto-me irrequieto e lamento não ter menos dez anos para fazer as malas e mudar outra vez…. sei bem que há momentos na vida de cada um que guardaremos e sei que o de ontem podes bem conservá-lo pelos múltiplos significados, ali tão perto do Pico da Pedra que não quebraste nem te quebrou antes te deu força para subires a outros Picos.

Aquele abraço, Chrys

DA INGRATIDÃO E DA LITERATURA, CRISTÓVÃO DE AGUIAR UMA CRÓNICA AMARGA. UMA VERGONHA – CRÓNICA 149 – PONTA DELGADA 16/6/2015

 

Em 15/6/2015 na apresentação, pela diretora da Biblioteca Municipal de Ponta Delgada e pelo Dr Carlos Riley da Universidade dos Açores, dos dois primeiros volumes das obras completas de Cristóvão de Aguiar (50 anos de vida literária) éramos 10 na assistência e 2 eram do governo…há um mês houve uma sessão de homenagem (18 de abril na Casa Museu Guerra Junqueiro, Porto), em colaboração com a Casa dos Açores e com o Dept.º de Letras da Universidade do Minho onde lançaste a Obra Completa, composta por 13 volumes, a cargo das Edições Afrontamento, do Porto, que ganharam o concurso lançado pelo Governo Regional dos Açores.

Sei que tu, Cristóvão, um dos dois insignes autores do Pico da Pedra, tens fama de ser um autor difícil. Claro que és, pois poucos dominam a língua portuguesa como tu, poucos burilam a palavra até à exaustão e perfeição como insistes em fazer. Sei que a maioria das pessoas – embora possa cantarolar a popular Naufrágio imortalizada por Duarte e Ciríaco – desconhece que a clássica letra dessa canção universal é bem tua. Cristóvão “é um autor difícil e o seu mau feitio é conhecido. Claro que sim, frontal e crítico, não entrou, nem quis, em cliques, claques ou pseudo-tertúlias de intelectuais açorianos.” Radicado em Coimbra desde os anos de 1960, antes de ser incorporado no exército colonial português para ir para a Guiné e de terminar os estudos em Filologia Germânica, Cristóvão mudou-se para o Pico onde passa metade do ano. Em vez de voltar ao torrão natal de Pico da Pedra, S Miguel foi em 1996 para S. Miguel Arcanjo [Pico], onde é carinhosamente tratado pelos seus novos conterrâneos.

Mas depois de 15/6/2015, estarei para sempre chocado e desiludido com Ponta Delgada. Como se compreende que a oportunidade de terçar palavras com um dos mais importantes escritores do século XX ficasse desaproveitada sem assistência nem interesse das pessoas da ilha? Como se entende que um dos mais ricos e prolíficos autores da verdadeira identidade dos Açores ficasse a celebrar os seus 50 anos de vida literária para uma plateia com uma mão cheia de presenças?

Claro está que depois, na tua morte, serás aclamado e a TV e rádio estarão lá para falar de ti, o autor que – como ficou demonstrado – não é benquisto na sua terra. Pequenez de mentes. Insensibilidade, incultura. País pequeno de mentes pequenas, arquipélago ingrato a quem tanto fez para dar a conhecer a identidade açoriana e não o postal ilustrado que se vende aos turistas sobre hortênsias e lagoas…Não fiquei surpreendido, mas fiquei esclarecido sobre o valor que este país dá a um dos mais representativos ícones literários…fosse um cantor pimba ou qualquer personalidade famosa pelos pés de barro de fama fácil e o anfiteatro seria pequeno. Não sendo escritor, sou como tu, Cristóvão, em muita coisa, mas ontem ao despedir-me rapidamente de ti, estava emocionado pela amizade que nos une e envergonhado dos concidadãos desta ilha que aceitei como nova pátria. Queria pedir-te desculpa em nome dos 68 748 habitantes de Ponta Delgada e dos restantes 137 699 cidadãos da ilha (Censo 2011). Queria dizer-te que não é verdade, que há quem te leia e ama os teus escritos, mas não estavam lá para to demonstrar. Queria dizer-te que escreves melhor que muitos adulados, lisonjeados, sabujados, louvaminhados, engraxados, incensados, engomados, apajeados[1], bajoujados, escribas de Portugal e do arquipélago, mas só gerações futuras saberão reconhecer o teu valor. Queria dizer-te que mereces muitos dos prémios que são anualmente distribuídos embora deles não precises. Queria dizer-te que nos Colóquios da Lusofonia somos poucos, mas muitos te apreciam e entendem, mas não estavam lá ontem para to demonstrarem. Queria dizer-te que o teu invejável percurso nestas cinco décadas de escrita não tem paralelo, mas lá estaria eu a adjetivar-te e tu não gostas disso. Não faz mal, sem menosprezo dos restantes, há quem possa afirmar que és um dos mais notáveis escritores em português da segunda metade do século XX e que soubeste transmitir (mesmo negando a açorianidade) a verdadeira alma micaelense e quiçá açoriana.

Bem hajas meu amigo pelos livros que nos deste e de que agora compilaram em Obras Completas estes dois volumes. A tua alma mater (Universidade de Coimbra) explica que

“[Cristóvão de Aguiar] …tem-se revelado um escritor de mérito, a avaliar pelos prémios recebidos: Ricardo Malheiros da Academia das Ciências de Lisboa, pela “Raiz Comovida”; Grande Prémio da Literatura Biográfica APE, pela “Relação de Bordo” e o Prémio Nacional Miguel Torga, pelo livro “Trasfega”.”

Para que não restem dúvidas foste ilustre membro da “República de Estudantes de Coimbra” em cuja página se lê:

A Real República Corsários das Ilhas fundada em 1960 por iniciativa de estudantes provenientes do arquipélago dos Açores. Nos seus 41 anos de viagens a «nau corsária» já albergou marinhagem que se mostrou distinta. A título de exemplo, cite-se o nome de Carlos Candal; eurodeputado socialista era, em 1962, durante a grave crise que assolou a universidade, presidente da Associação Académica de Coimbra. Ainda, durante a crise académica de 1972, destaca-se Carlos Fraião; este antigo corsário foi membro do Comité Central do Partido Comunista Português. Também Germano de Sousa, Bastonário da Ordem dos Médicos e Cristóvão de Aguiar, escritor, viveram nesta República. Por falar neste escritor, o zé manuel deixou um comentário na anterior versão desta página que reescreve um passo do Relação de Bordo (1964-1988), livro do referido Cristóvão de Aguiar, em que lança um olhar sobre as suas experiências nesta casa quando por cá passou nos anos 60:

Coimbra, 1 de janeiro de 1964 – Na Real República Corsários das Ilhas, a cuja tri­pu­la­ção venho pertencendo desde 1961 (em outubro ascendi a 2º telegrafista), a pas­sagem de ano foi, para mim, pavorosamente triste! De resto, nunca fui de grandes ex­pansões nessas horas que a tradição instituiu como marcos de viragem não se sabe bem de quê. Alheio ao natu­ral estarda­lhaço dos meus camaradas co-repúblicos, bem comidos e muito mais bem bebidos, encafuei-me no meu cantinho a ru­minar. É que 1964 vai ser o ano em que vou dizer adeus à vida de estudante (para sempre? e ela agora que me estava cor­rendo tão bem: no terceiro ano sem ne­nhuma cadeira atrasada, mas é sempre as­sim). Isto por­que já no pró­ximo dia vinte e sete do corrente, numa se­gunda-feira logo de manhã, vou iniciar em Mafra o Curso de Oficiais Mili­cianos, com destino mar­cado para a guerra colo­nial. Consta da guia de marcha que recebi há dias, não esse des­tino, mas outro que vai de certeza de­sem­bocar naquele. Por isso, logo ao bater da primeira ba­dalada da meia-noite no reló­gio da torre da Universi­dade, senti que me es­tava afun­dando em terreno pouco firme e lodoso. Cheguei da Ilha em finais de setembro com uma mala na mão e sem dinheiro com que mandar cantar um cego, quanto mais para con­tinuar os estu­dos. Havia justamente perdido a bolsa da Junta Geral do Distrito Autó­nomo de Ponta Delgada, novecentos es­cudos mensais, mas que me davam, resvés, para me ir sustentando em Coimbra. E perdi-a, não porque chum­basse, mas por não ter atin­gido a nota final de catorze valores, classificação exi­gida a partir do segundo ano até o final do curso para a manu­tenção da referida bolsa.

Po­dia ter pe­dido di­nheiro emprestado, a juro de dez por cento, como é cos­tume lá na minha fre­guesia, mas meu Pai zan­gou-se comigo de­vido a um namoro reatado que ele não que­ria, derriço que, uma semana após a minha chegada a Coimbra, se des­manchou na se­cura de meia dú­zia de linhas de uma carta, que me acompanha, na car­teira, do­brada em quatro, as dobras delidas e enferrujadas… Por tal motivo, ne­gou-se a ser mi­nha fiança. Perdi a ca­beça e pedi que me antecipassem a incorporação! Veja-se o para­doxo: em tempo de guerra ser meio volun­tário, eu que, se ti­vesse co­ragem e juízo, devia, mas era desertar daqui para fora. Na Ilha não queria ficar. Mi­nha tia Lurdes e o Ti José da Costa de­ram-me coragem e o dinheiro para a pas­sa­gem de barco e ainda mais algum para me ir tenteando. Cheguei à Re­pública e logo pus os meus companhei­ros ao par da mi­nha situa­ção. Houve reunião de casa à noite e ficou de­cidido, por unanimidade, que eu fi­caria lá na mesma com todas as prer­rogativas de um Corsário e só pagaria as minhas des­pe­sas, que seriam aponta­das pelo Comissá­rio de Bordo da Nau Corsária, quando recebesse os pri­meiros ordenados de aspi­rante. Eram apenas quatro meses que ficaria a de­ver, de outubro a janeiro, que or­çariam em cerca de três contos de réis. De­pois, quando viesse de Mafra passar os fins de semana, andaria à le­bre, como se diz em lin­guagem acadé­mica. Suspirei de alívio e co­movi-me com ta­ma­nho com­panhei­rismo de que poucos como os ilhéus, fora das Ilhas, são capazes. Por não conseguir perceber bem os motivos que levam um gajo a querer meter-se na guerra… terei que reconhecer que às vezes só se dá pelo erro depois de se ter dado o passo inexorável da tomada de decisão e consequente prisão às amarras que daí decorrem… nos tempos atuais, em boa consciência, eu, o corsário que escreve estas linhas, teria que manifestar, a um colega que se me aparecesse com o mesmo dilema existencial que fosse pedir telha e comida ao Exército para o qual fosse servir… Mas, excetuando este detalhe que se prende com a valoração do mundo e com a justeza, ou não das coisas, o texto retrata aquilo que os Corsários têm melhor sabido fazer, não deixar um irmão na mó de baixo. Termino citando os versos de Camões apostos numa das paredes da sala de refeições da Casa:

“Mais vale experimentá-lo que julgá-lo, mas julgue-o quem não puder experimentá-lo”

Dito isto à laia de introdução tenho uma declaração de interesse pessoal a fazer:

Sou amigo incondicional do Cristóvão de Aguiar, meu mentor na casa do Pico onde me recebeu, a mim e à minha mulher, como se de amigos de longa data se tratasse, nós que éramos de amizade recente surgida em colóquios da lusofonia. Durante os primeiros tempos cavaqueei longamente com o Cristóvão. Ambos, éramos e permanecemos, exaltados e revoltados contra a injustiça, quimera ensinada em verdes anos. Com ele aprendi e compreendi a canga que os cachaços insulares carreavam, muitas vezes, sem o saberem.

Numa fase seguinte, entre muitos escritores locais que fui lendo, voltei-me para a obra deste autor. Uma prosa que se cola como uma sanguessuga e sorve o sangue impedindo a irrigação cerebral. Fica-se refém da escrita, que não sendo fácil, enleia e se insinua na tentativa de forçar o leitor a buscar a compreensão do que lhe está subjacente. Embrenhei-me nos escritores que fui desbravando. Ao longo dos anos falei e escutei a maior parte deles (entretanto, já nos deixaram Fernando Aires, Daniel de Sá, Dias de Melo). O dilema da pequenez das ilhas para um autor se afirmar sem ser reconhecido fora delas, a atração pelo mercado continental mais vasto como forma de afirmação e alforria literária criando um misto de desligamento e aportuguesamento dos autores que se mudaram de armas e bagagens para fora das ilhas, a inveja e ciúme dos que não conseguiram atingir esse patamar de reconhecimento continental, a emancipação de outros que venceram nos EUA e Canadá e a tarefa ingente dos que permanecendo conseguiram alcandorar-se a um reconhecimento externo.

O que muitos deles não acreditavam era que por serem autores açorianos podiam aspirar a serem universais, não apenas insulares, não apenas portugueses, se entrassem em mercados mais vastos da Europa e do mundo. Poderiam chegar bem mais longe e libertar-se da prisão invisível que é a pequenez das 9 ilhas. Para isso, teríamos de mondar mercados novos e virgens, como a selva amazónica antes dos novos bandeirantes. Se não chegassem às novas gerações, poderiam alcançar descendentes, e expatriados que aprendem hoje o orgulho da nação açoriana, na cultura, tradição e outros valores primordiais que tão arredados das escolas andam. Mas os colóquios queriam levá-los a mercados e leitores insuspeitos, incluindo a antiga Cortina de Ferro onde há gosto e apetência por escritores lusófonos. Para isso, idealizamos a série de Antologias, uma bilingue para captação do mercado norte-americano e canadiano, outra maior, em dois volumes, uma coletânea de textos dramáticos para o ensino secundário e uma antologia no feminino dado que as autoras são sistematicamente esquecidas na comunidade conservadora e machista como é a sociedade açoriana.

Todas estas obras são didáticas para serem estudadas nas escolas e se propagar este vírus altamente contagioso da escrita açoriana para leitores neófitos. Depois, deparámos com um fenómeno típico das sociedades insulares e bairristas, a existência de “capelinhas”, cliques e claques, em torno das quais gravitavam alguns. Nem todos de qualidade despicienda, mas dependendo dessas cliques para artigos de jornal ou recensão crítica. Na década de 1990, lentamente, os escritores açorianos foram encontrando o seu espaço, não havendo míngua de quantidade. Na maioria, sem projeção para além das ilhas, com exceções contemporâneas. Falta destrinçar, entre as centenas de autores, os que realmente merecem ser incluídos em coletâneas e os que se serviram do rótulo da açorianidade para terem visibilidade que, de outro modo, não teriam.

A solução que adotámos foi a de ignorar quem era quem, e sermos nós e os autores dos nossos projetos, a avaliar a qualidade dos autores, com a ajuda dos que já conhecíamos e em quem já confiávamos. Daí as escolhas primeiras das antologias que posteriormente serão alargadas à medida que os formos descobrindo, sob o enorme guarda-chuva da Açorianidade que a todos alberga. Nem sempre é fácil, pois ao lado de autores como Fernando Aires, Cristóvão de Aguiar e Eduíno de Jesus surgem autores que podemos designar como a Maria das Capelas, o António da Lomba e o José de Rabo de Peixe. Importantes até poderão ser de um ponto de vista de cultura popular, regional ou local, mas não deveriam nunca estar sob um rótulo de literatura. No 9º colóquio da lusofonia (ou 4º Encontro Açoriano da Lusofonia, abril 2009), Cristóvão de Aguiar rejeitou (mais uma vez) o rótulo de literatura açoriana, por considerar que faz parte da produção literária lusófona.

«O título (literatura açoriana) é equívoco, porque pode parecer que é uma literatura separada da literatura portuguesa», afirmou à agência Lusa o escritor.

Noutro qualquer dia escrevia eu que mal se vislumbra a costa da Bretanha em frente à janela do meu castelo aqui nesta falsa na Lomba da Maia onde habito. O grande Mar Oceano confunde-se com o azuláceo ou acinzentado céu, depende da cor das lentes com que se acorda. Está um tempo caramonico, como dizem em Terras de Miranda, sem necessidade de escarrabunhar os pés por estarem carraspudos. Sinto a falta do sol que me anima e vitaliza nesta humidade entorpecente que amolece corações e fenece almas. Assim desabafava mutuamente na guerrilha verbal contra a falta da função clorofilina que cerceia as musas e embota mentes.

E era então que me contrapunha Cristóvão de Aguiar “O tempo está mesmo abafado. Abafa o corpo e sobretudo a mente. Nunca mais há tempo decente”. Otimista acredito que melhores dias virão. Concentro-me numa conceção positiva rumo à realização dos objetivos que pensa terminar durante o curto passeio terreno que lhe deram a oportunidade de usufruir. Os problemas, por maiores que sejam, são meras contrariedades. Umas maiores que outras. Assim repito para crer no que digo. O tempo as curará retirando-lhes o relevo e importância ou resolvendo-as. Os momentos incomuns de felicidade e alegria devem ser fruídos em plenitude. Comemorados, celebrados, prolongados e recordados. Para isso sirvo-me da escrita. Para reviver momentos bons. Como são normalmente raros convém que perdurem, cinzelados nas pedras da lembrança. Criam trejeitos, esgares de sorrisos nas comissuras dos lábios.

Estas são as imagens que guardo deste autor que tanto aprecio e que ontem foi totalmente ignorado pelos habitantes da ilha e em especial de Ponta Delgada. Está provado que Cristóvão de Aguiar não dá votos a ganhar. Ainda bem. E termino com esta palavras que lhe dediquei em 2013

  1. Ao Cristóvão, Pico, 9 ago 2011/13 out 2013

descobriram no pico

maroiços milenares

piramidais construções

galerias ocultas

sem múmias nem tesouros

sem origem nem fim conhecido

falaram de fenícios, cartagineses

gente da pré-história

 

mas a verdadeira pirâmide

reside mais a norte

em s miguel arcanjo

numa atulhada falsa

com vista para s. roque

é a universal biblioteca

da nova alexandria

 

é lá que todas as noites

os livros se põem a dançar

debatem e trocam impressões

dão conselhos e admoestações

referem prodigiosas citações

partilham bailhos e saber

da universidade da açorianidade

 

[1] a·pa·je·ar – verbo transitivo, 1. Acompanhar (como pajem).2. Lisonjear, adular.”Apajeados”, in Dicionário Priberam da Língua Portuguesa [em linha], 2008-2013,

 

 

 

 

 

 

 

um desabafo de JOFFRE JUSTINO sobre esta república

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Hoje 5 de Outubro de 2011 a República faz uns 111 anos lindo estético e esotérico numero em Portugal estragado por um PR que se curva perante papas e reis de outros países! Mas o que impressiona é ver a Cidadania adormecida e até ignorante no que concerne a esta data Nela o país conquistou a oportunidade de iniciar os processos de decisão mais e mais dependentes da Cidadania ainda que em modo demasiado lento! Assim com as tecnologias existentes nós já deveríamos viver no tempo das 25 horas semana de trabalho ganhando tempo quer para o lazer quer para nos preocuparmos ativamente com a gestão da coisa pública isto é com a política numa estrutura social onde predominariam como defende e bem o meu Amigo Grazia Tanta os grupos de cidadãos enquanto organizações para a intervenção nessa gestão algo a que hoje chamamos de política e portanto num Estado com cada vez mais cidadãos e cada vez menos burocratas Mas estamos com estas 40 na verdade até 48h semana e sem qualquer resultado nos acréscimos de produtividade com esta concentração da riqueza nas mãos dos Salgados e equivalentes com este mercado esvaziado de Qualidade mas grávido de poluição de abuso energético de consumismo doentio e de generalizada insatisfação! E claro de afastamento das desiludidas pessoas dessa gestão da coisa pública entregue nas mãos dos de sempre ( apesar de algum ganho aí com o limite aos prazos de candidatura) para servirem os poucos de sempre ! O 5 de Outubro de 1910 terá nascido nas mãos de uns poucos como Machado dos Santos ou Cândido dos Reis e na sequência de uma dita revolução que terminou num elevador e ao prender os líderes gerou a espontânea revolta de Buiça e Costa ( e mais uns tantos como Aquilino Ribeiro) que originou a morte do sr Carlos e seu filho ditos rei e principe e o abaixar os braços de um regime o monárquico em dois anos e pouco depois de amnistiar os revoltosos ( exceto Buiça e Costa mortos em combate) e de desistir de um governo misto monárquico-Republicano! O 5 de Outubro não foi como o 25 de Abril um golpe militar contra o regime foi uma revolução popular feita em Loures no 4 de outubro em Lisboa a 5 e por aí fora que as comunicações à época não viviam à velocidade do Facebook como agora e tinham mais bloqueios que o Face de hoje! O 5 de Outubro de 1910 nasceu de organizações de Cidadãos empenhados como as e os das Cabonárias e das Maçonarias e viveu o bambúrrio de sorte de haver um automóvel da embaixada alemã de bandeira branca ser tomado por Republicanos e monárquicos ( estes militares) como um ato de rendição dos adesivos do sr Manuel filho do tal sr Carlos! Que vivam nas nossas memórias Afonso Costa Adelaide Cabete e tantos e tantas outros e outras que nem um monarquista e selfista hodierno mal vestido de presidente da república apesar de monarquista consegue fazer esquecer!
Seen by Joffre Antonio Justino at Sunday 19:54
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Dez anos de combate à corrupção: 4806 investigações, 609 condenados. Triplicaram condenações a prisão efetiva

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O DN fez as contas e analisou todos os dados disponíveis sobre os resultados dos processos judiciais que envolvem corrupção. Numa década, a média de processos que entraram na Polícia Judiciária para investigação aumentou 63%, houve mais arguidos e mais condenados a penas mais duras. Mas a elevada taxa de arquivamentos (62% em 2020) e a demora no tempo de investigação (18 meses em média) revela uma notória falta de meios para investigar mais.

Source: Dez anos de combate à corrupção: 4806 investigações, 609 condenados. Triplicaram condenações a prisão efetiva

ética republicana

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ÉTICA REPUBLICANA.
A propósito da efeméride da implantação da República Portuguesa, tenho visto por aqui alguns comentários que põem em causa o conceito de «ética republicana» – alegando que nos tempos que correm haverá mais corrupção do que nos velhos tempos da monarquia. Talvez, não sei – até porque não há elementos objectivos que permitam tais comparações. Refiro-me a números, naturalmente.
Porém, há bastos exemplos de uma ética republicana que tem a ver com valores muito mais altos do que a caça aos cidadãos corruptos que se servem do Estado, e das facilidades que ele lhes concede, em proveito próprio. Ressaltarei dois:
Primeiro: numa República, qualquer cidadão se pode candidatar ou aspirar a qualquer cargo da hierarquia política do Estado; pelo contrário, numa Monarquia, o cargo mais alto e representativo é exclusivo de uma determinada família que ninguém escolheu.
Segundo: na I República, e de um modo especial no tempo dos dois primeiros Presidentes – Teófilo Braga e Manuel de Arriaga (por acaso, dois açorianos…) – os Presidentes deslocavam-se em transportes públicos e pagavam do seu bolso a renda do Palácio Presidencial quando nele habitavam. Para assim marcarem a diferença. Parece que Ramalho Eanes terá feito o mesmo enquanto morador do Palácio de Belém.
Isto para mim é Ética Republicana.
O que veio entretanto e depois nada tem a ver com República: são casos de polícia e de tribunal.
Tomás Quental, Luis Sao Bento and 25 others
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  • Pedro Cordeiro Ponte

    Subscrevo em parte – e concordo. No entanto, enquanto a maioria dos cargos públicos precisarem de passar pelo crivo e listas partidárias, duvido que o acesso universal aos mesmos seja concretizado. Bom feriado!
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    • 35 m
  • Nuno Meireles

    O que será também admirável, é que na figura de Teófilo Braga, mesmo que questionavelmente, tivemos um presidente e um historiador da literatura (é dele uma das poucas histórias do teatro portuguê que existem, e em 150 anos não se fizeram mais que cinco ou seis).
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    • 16 m
  • Joaquim Fraga

    Muito bem. Policia sem força, a justiça e outros valores conquistados, é o que vemos. Onde está a “Ética Republicana”? Talvez devêssemos começar perguntar, pelo o cargo hierárquico mais alto, desta republica.
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    • 38 m
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  • Edgardo Costa Madeira

    E o conceito de golpe de Estado ?… Implantação é um nome tão bucólico… Lembra a Jardinagem… A ética procedeu, atempadamente, ao devido referendo do golpe de jardinagem.??… Ou, até, retirou o direito de voto a algumas massas incultas ?… Bom é o feriado…
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    • 17 m
  • Isabel Jorge

    Inteiramente de acordo
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    • 10 m
  • João Mendes Fagundes

    Luís Luiz Fagundes Duarte , compreendo a sua aflição, mas eu não estabeleci qualquer comparação entre uma eventual “ética republicana” e outra eventual “não ética monárquica”. Ou há ética ou não a há. E não a havia na monarquia como continua a não haver. O compadrio e a desvergonha estão aí diariamente para quem lê jornais ou ouve as notícias. Conclusão. Imagino a quem dirigiu a invectiva, mas não encaixo, sempre a considerá-lo. Nota: não pretendi, longe de mim, fazer qualquer apologia do sistema de governo monárquico. Aliás, nem sequer entendo bem como é que alguns dos países mais evoluídos da Europa a aturam, mas devem ter as suas razões.

portugal, reis, condado e o 5 de outubro

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Histórias da História de Portugal
Mário Faria
05 de OUTUBRO de 1143
(Via Celestino Gomes)
A fundação ou a independência do Reino de Portugal não foi um acto circunstancial isolado. Foi um processo constituído por vários actores e acontecimentos, e não deveria ser atribuído a nenhum em específico.
O uso do título e a designação de Rei (Reino) de Portugal é muito anterior a D.Afonso Henriques.
O primeiro monarca a utilizá-lo foi Garcia II, Rei de Portugal e da Galiza, ainda que por um curtíssimo período, no ano de 1071:
H. R. DOMINUS GARCIA REX PORTUGALLIAE ET GALLECIAE
O segundo monarca a reclamar o título foi a mãe de Afonso Henriques, Dona Teresa, cujo título de Rainha de Portugal foi reconhecido pelo Papa através da Bula Fratrum Nostrum emitida em 18 de junho de 1116, e pela sua irmã, a rainha Urraca de Galiza, Leão e Castela .
D.Teresa manteve o título de Rainha de Portugal, por 16 anos (1112-1128), um período de tempo não negligenciável.
Afonso Henriques, o único dos três que representou uma dinastia não autóctone (Casa de Borgonha) mesmo sendo filho da deposta D.Teresa (Casa Gimenez), foi o terceiro e não o primeiro monarca a usar o título real.
Porém durante o seu longo condado e reinado (1111/1143/1185), muitos acontecimentos se perfilaram num extenso período e todos eles contribuiram decisivamente com o seu momentum para o processo de independência: os Torneios de Arcos de Valdevez, a Batalha de Ourique, o Tratado de Zamora, a Bula Papal.
Outros três fatores determinantes para a existência de Portugal são frequentemente negligenciados:
.A própria fundação do Condado Portucalense (861) e de Guimarães pelos senhores da Galiza liderados por Vimara Peres. Sem Condado, não haveria sequer independência. Simples assim.
.O advento dos Templários ao território nacional, ainda no tempo de Dona Teresa (1126); a espinha dorsal de Portugal é templária, assim como eram templários os principais cavaleiros de Afonso Henriques.
Autores existem que vão ao ponto de dizer que Afonso Henriques era “apenas” o braço externo da Ordem, o que ajudaria a explicar a quase ausência de informação sobre a sua formação infanto juvenil e também algumas atitudes aparentemente contraditórias.
Por exemplo, Afonso Henriques deu a palavra (através de Egas Moniz) ao seu primo e soberano Afonso VII em como não o atacaria e falhou. Por outro lado, firmou uma aliança com Ibn Qasi, o líder sufi (ordem muçulmana equivalente aos templários) que foi sempre respeitada enquanto este foi vivo.
.Por fim, e talvez o fato mais ostracizado ou até mesmo escondido, foi a existência em simultâneo ao Condado Portucalense (868/1143), do Condado de Coimbra (878/1093).
O Condado de Coimbra, serviu de zona tampão entre o Condado Portucalense e os Reinos Muçulmanos, o que deu tempo e paz suficiente ao primeiro para se estruturar, devido a inexistência de lutas nas fronteiras a sul.
Último estertor da cultura Moçárabe cristã, o seu líder, o Conde Sesnando Davides (?/1091), foi educado em Córdoba onde privou com El Cid, e chegou a trabalhar na corte de Sevilha como Vizir.
Detinha pois, excelentes relações quer com uns, cristãos como ele (mas do Rito Latino e Bracarense), quer com os outros, os muçulmanos.
E o fato é que quando o Conimbricense foi absorvido pelo Condado Portucalense, abriu-se uma nova frente de combate a sul, mas já com os Templários a chegarem ao território nacional e a capital deslocada pouco depois para…Coimbra.
Quais teriam sido as consequências para os Portucalenses, a inexistência do Condado de Coimbra ou de Sesnando Davides? Não sabemos.
Fica também por esclarecer se 5 de outubro 1143 foi fundação ou independência, porque se foi independência então já existia como entidade.
Em conclusão, obviamente se torna necessário definir uma data coerente para se comemorar Portugal, e para isso terá de se chegar a um acordo, (e o 5 de Outubro de 1143 serve perfeitamente esse fim), mas querer a força quase trauliteira destacar um deles, parece mais discutível.
Mais valia ver aquilo que realmente foi: um processo dinâmico, longo no tempo, com diversas frentes, níveis e intervenientes, ratificado posteriormente em 1383/85, 1640 e durante as Invasões Francesas.
VIVA PORTUGAL
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