o uruguai português – O PRIMEIRO GOVERNADOR australiano LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA

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6.2.5. O PRIMEIRO GOVERNADOR australiano LUTOU PELA MARINHA PORTUGUESA

Finalmente, a História repõe factos reais, desimbuídos de conotações patrioteiras. É assim que devemos considerar, um livro de 1984 do australiano Kenneth Gordon McIntyre, “The Rebello Transcripts, Governor Phillip’s Portuguese Prelude.” Para os desconhecedores da história da colonização da Austrália, o Capitão Arthur Phillip foi o Comandante da Primeira Armada que chegou à Austrália em janeiro 1788, oito anos depois da alegada descoberta do Capitão Cook, após 257 dias de tormentosa viagem, com 11 barcos, 730 degredados (160 mulheres), 250 marinheiros e homens livres, para criarem a primeira colónia britânica no continente.

Arthur Phillip nasceu em Fulham em 1738, filho de Jacob Phillip, professor de línguas, de origem alemã, e de Elizabeth Breach, viúva dum Capitão da Marinha Real Inglesa. Estudou no Hospital de Greenwich tornou-se aprendiz de marinheiro, aos treze anos na Marinha mercante na Gronelândia.

Aos quinze, alistou-se na Marinha Real e esteve na Guerra dos Sete Anos de 1756-1763. Tomou parte na Batalha de Minorca (1762), promovido a Tenente, com meio soldo logo que a Guerra terminou, casou, estabeleceu-se numa quinta (Lyndhurst, Hampshire) recorrendo à agricultura para sobreviver durante os dez anos seguintes.

Esteve depois nas colónias sul-americanas na guerra opondo a Espanha (e França), contra Portugal e Inglaterra, e da qual estas sairiam vencedoras, com a exceção de Rio Grande, que ficaria espanhol. O Tratado de Paris (1763) gerou trocas de territórios coloniais entre as potências europeias: a Espanha troca a Flórida por Havana, recupera Manila e as Filipinas, e devolve a Portugal a Colónia do Sacramento.

Em 1773, os Portugueses recrutavam oficiais de Marinha, e Phillip, Tenente Naval, obtém o posto de Capitão. Três anos mais tarde, comandava uma fragata portuguesa encarregue da proteção de Colónia. Era uma praça penal permanentemente ameaçada pela Espanha. Os habitantes foram obrigados a comer ratos, cães e gatos para sobreviverem ao cerco. O profissionalismo de Phillip granjeou-lhe a admiração dos portugueses. Em 1777, a Armada espanhola tentava provocar um confronto com os portugueses ao largo da costa, o comodoro irlandês, MacDoual, depois de consultar Phillip, disse ser de evitar um confronto direto.

Ao contrário do escrito nas biografias, a nomeação para Governador da colónia australiana, não corresponde à brilhante carreira na Real Marinha Britânica, mas aos relevantes serviços na Marinha Portuguesa.

O livro de McIntyre “The Rebello Transcripts” baseia-se num estudo de finais do séc. XIX, do General Jacintho Ignácio de Brito Rebello, arquivista da Torre do Tombo, que, a pedido de historiadores australianos, estudou a carreira do Capitão Phillip ao serviço dos portugueses. Embora os dados tenham estado à disposição dos historiadores, o desconhecimento da história não permitiu o seu aproveitamento.

Consagrados, como George MacKaness ao publicar, em 1937, a biografia do Almirante referem erradamente a defesa da “colónia” (Brasil), em vez de Colónia del Sacramento, hoje território uruguaio.

Mais tarde, 1778, por fidelidade, Phillip coloca-se à disposição da Inglaterra para a Guerra da Independência (EUA), após a dispensa pelos portugueses dos seus notáveis serviços.

Colocado na Reserva por 16 meses, aos 43 anos (1781) o Almirantado deu-lhe o comando dum navio de 64 canhões “Europa”. Phillip foi recomendado para o lugar, pela meritória ação ao serviço da Armada Portuguesa.

Tal como Colónia do Sacramento, de difícil linha de abastecimentos, também Botany Bay representava enorme desafio. Em 1786 conduzia a Primeira Armada a Botany Bay, daí a importância de Phillip para a história da Austrália.

A Primeira Armada arribara após meses de tormentosa viagem. Phillip escolheu Sydney Cove, vasto porto natural, a norte de Botany Bay. Das 1030 pessoas 3/4 eram condenados, e os restantes marinheiros e oficiais. Durante cinco anos com inabalável otimismo, tentou criar uma colónia viável com material humano inadequado. A maioria dos condenados pertencia às mais baixas classes. Concedeu terras para amanharem ao terminarem as sentenças. Isto não os transformou em classe diligente de agricultores. Apenas 13 colonos livres embarcaram na sua governação para criarem uma colónia viável. A fome era uma ameaça constante.

A Primeira Armada levara mantimentos para dois anos. A 2ª Armada chegaria a junho 1790 e a 3ª em julho 1791. Até ao reabastecimento, todos os bens eram racionados. Fundou-se Parramatta como centro agrícola com os condenados na lavoura. Faltavam animais de carga e equipamento, o que aliado às condições locais e à dificuldade de criar uma colónia nova tornavam bem difícil tal desiderato.

Quando, doente, regressou a Inglaterra em dezº 1792, o núcleo urbano de três mil pessoas não produzia os géneros necessários para sobreviver. Os marinheiros foram substituídos pelo New South Wales Corps, em 1791, promovendo trocas comerciais mercantis entre a Índia e os EUA. A colónia sobreviveria com mais navios, mas com o futuro incerto devido ao elevado custo duma colónia longínqua e cara.

A visão de Phillip para a viabilidade com colonos livres demorou tempo, após anos de privações. Antes de sair deixou as linhas mestras de sobrevivência económica. Foi promovido a Contra-Almirante (1798), reformou-se (1805) em Bath onde faleceu (1814) Almirante.

 

QUADRO I – A LUTA PELA COLÓNIA DE SACRAMENTO

1494 TRATADO DE TORDESILHAS Espanhol n
1679 Fundação de Colónia pelo Príncipe Pedro Português
1680 Destruição de Colónia pelos Espanhóis Espanhol
1683 Devolução de Colónia após negociações Português
1705 Captura. Guerra da Sucessão em Espanha Espanhol
1713 Devolução. Tratado de Utreque (Utrecht) Português
1750 Renegação do Acordo. Tratado de Madrid Espanholn
1761 Revogação do Acordo. Tratado do Pardo Portuguêsn
1762 Captura. Guerra dos Sete Anos Espanhol
1763 Devolução. Tratado de Paris Português
1777 Destruição pelos espanhóis Espanhol
1821 Anexação por Portugal Português
1822 Independência do Brasil Brasileiro
1828 Fundação do Uruguai Uruguaio

n Denota apenas mudança teórica do domínio legal, já que na prática (fisicamente) nada se alterou.

QUADRO II – CARREIRA DO CAPITÃO PHILLIP NA MARINHA PORTUGUESA
  1774 25 agosto Solicita autorização para admissão na Marinha Portuguesa  
    22 dezº Parte de Londres para Lisboa  
  1775 14 janº Nomeado Capitão da Marinha Portuguesa  
    09 fevº Parte de Lisboa ao comando da “Belém”  
    ? maio Chega ao Rio de Janeiro  
    28 setº Ao comando da “Pilar” com destino a Colónia  
    22 outº A “Pilar” parte do Desterro  
    ? novº Regressa ao Rio, partindo logo a seguir.  
  1776 27 janº Ao comando da “Pilar” ruma a Colónia  
    18 ago A “Pilar” intervém na defesa de Colónia  
    29 dezº Parte de Colónia  
  1777 20 fevº Fica baseado na Ilha de Santa Catarina  
    março Integrado num Esquadrão Naval no Rio de Janeiro  
    01 abr Parte ao comando da “Pilar” numa missão de defesa a sul  
    26 abr Regressa triunfante com um barco inimigo aprisionado  
    29 maio Nova partida em patrulha às águas do sul  
    23 outº Nomeado Capitão do “Santo Agostinho”  
  1778 10 maio Parte do Brasil com destino a Lisboa  
    04 ago Chegada a Lisboa  
    24 ago Pagamento e exoneração da Marinha Portuguesa  

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Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
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