O Império Invisível dos bandéis de “portugueses”

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Fonte: (31) Nova Portugalidade

Nova Portugalidade
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O Império Invisível dos bandéis de “portugueses”
Houve alguém que um dia se referiu a um “Império Sombra” português localizado a Oriente do Cabo da Boa Esperança. Outro investigador chamou-lhe “Império Informal”. Não havia sido nem comprado, conquistado ou financiado por Goa ou Lisboa, mas fora-se povoando de forma pacífica por soldados retirados do serviço activo, bem como por fugitivos. Casaram, assentaram e ficaram. Chamemos-lhe “Império Invisível”, pois estava por todo o lado e em local algum, nem era entendido como tal nem pelos seus membros nem pelos povos a que se acolhiam, mas que, no entanto, funcionava como uma poderosa rede clientelar, de afectos e defesa de uma certa ideia de fraternidade universal muito parecida com a cultura de resistência, teimosa mas inaudível, da diáspora judaica.
Porém, ao contrário de judeus e arménios, que se encontravam um pouco por todo o Oriente tocado pelas rotas comerciais árabes e persas, as lusotopias mestiças identificavam-se com um Estado presente no continente (Portugal), ligando-se-lhe por laços, vagos mas poderosos de lealdade cultural, linguística, mas sobretudo religiosa. Todos estes convictamente auto-proclamados portugueses, fossem ou não descendentes de portugueses da Europa, identificavam a sua diferença e origem como grupo invocando ancestralidade – real ou mítica – num “homem barbudo ” e católico que um dia chegara e era o fundador da linhagem.
Viviam em bandéis ou kampong, conceito que recobre aldeamentos e povoações de dimensão e densidade populacional variável existentes, sobretudo na fachada marítima do Sul da Ásia e do Sudeste-Asiático. Estes bandéis eram ocupados por populações religiosamente homogéneas centradas em torno de um templo, lugar de culto ou edifício onde se reproduzia a inculturação; sociedades vincadamente autocéfalas e com uma estrutura social centrada na família nuclear.
Estas povoações exibiam clara especialização económica e produtiva que as transformavam em unidades sociais distintas das circunvizinhas. Os bandéis e kampong podiam ser aldeias isoladas, mas também bairros incrustados em zonas periurbanas, distinguindo-se do restante tecido envolvente pela forte identidade cultivada pelos seus membros. No Sudeste-Asiático pré-moderno e moderno, foram os agentes por excelência de intermediação comercial, linguística e religiosa com os mundos exteriores e detiveram, até ao advento do Estado-nação ou da colonização directa, foros e liberdades muito similares a comunas. Habitualmente, os bandéis transformaram-se em unidades administrativas de nível superior – Concelhos, em thai อำเภอ / Amphoen – ou de nível inferior – aldeias, em thai หมู่บ้าน / Mubân – consoante a dimensão.
As populações dos bandéis estavam sujeitas a um ou mais chefes – kapitan – os quais mantinham a ordem graças a um corpo de polícia, exerciam a justiça, aplacavam litígios sobre posse de bens e propriedades e dirimiam e sanavam disputas pessoais.
Estes líderes comunitários representavam o seu povo perante os ministros da tutela e, por vezes, junto da corte. Por outro lado, a hierarquia religiosa – dominada por um pároco – exercia a liderança espiritual em estreita associação com o kapitan da comunidade. O kapitan não era outra coisa que a aplicação na Ásia do sistema que no Portugal da Idade Média vigorava para os enclaves minoritários muçulmanos e judaicos. Detendo especificidades de natureza étnica, religiosa e linguística, às populações dos bandéis foram permitidas liberdades, isenções e privilégios que lhes permitiram longa e bem-sucedida sobrevivência até décadas muito próximas, quando o intervencionismo estatal, a uniformização e o nacionalismo se impuseram como fenómenos globais.
Miguel Castelo-Branco
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Sobre CHRYS CHRYSTELLO

Chrys Chrystello jornalista, tradutor e presidente da direção da AICL
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