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“O discurso de Marcelo e a citação da personagem de Gonçalo Mendes Ramires.
Um espelho incómodo da Política Portuguesa!
Quando Marcelo Rebelo de Sousa evocou Gonçalo Mendes Ramires, personagem central de A Ilustre Casa de Ramires, de Eça de Queirós, não o faz por erudição gratuita nem por nostalgia literária. Fá-lo porque essa figura continua a ser, mais de um século depois, um espelho perturbador da vida pública portuguesa.
Gonçalo Ramires é herdeiro de um nome ilustre, de uma linhagem gloriosa, mas vive à sombra desse passado. Falta-lhe firmeza de Caráter, Coragem Moral e Coerência entre o que diz e o que faz. Oscila entre ideais elevados e práticas mesquinhas, entre o discurso nobre e a conveniência pessoal. É, no fundo, o retrato de uma elite que vive do capital simbólico da História, mas não está à altura dela.
Ao convocar esta personagem no primeiro dia do ano, Marcelo parece lançar um aviso subtil, mas incisivo: Portugal não pode continuar a ser governado por “herdeiros” que confundem serviço público com carreira, poder com privilégio, e política com tática de sobrevivência. Tal como em Eça, a decadência não é apenas económica ou institucional é sobretudo moral e ética.
A crítica que atravessa o romance e que ecoa no discurso presidencial, aponta para uma classe dirigente que fala de valores, mas os relativiza; que invoca a pátria, mas a subordina ao interesse; que proclama reformas, mas vive confortável na inércia. Uma política mais preocupada em parecer do que em ser, mais atenta à gestão da imagem do que ao peso das decisões.
Marcelo, ao escolher Eça, escolhe também uma tradição crítica profundamente portuguesa, a da ironia. Não acusa diretamente, mas convida a todos Nós a uma reflexão profunda e coerente. Não aponta nomes, mas aponta comportamentos bem conhecidos de Todos. E ao fazê-lo no início do ano, deixa implícita uma exigência, ou a política se eleva ao nível da responsabilidade histórica que herdou, ou continuará a afundar-se na mediocridade dos Gonçalos Ramires do presente.
No fundo, a pergunta que fica é simples e desconfortável.
Queremos governantes que honrem a História que citam, ou apenas que a usem como retórica vazia?
Eça respondeu há mais cem anos. Marcelo Rebelo de Sousa limitou-se a recordar que a resposta continua em aberto e depende de Todos Nós.”

